segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Globalização – Uma visão matreira


por Naresh Jotwani [*]
Naresh Jotwani.Considere-se o caso hipotético de uma economia com um PIB anual de 5 milhões de milhões de dólares (10 12 ), cuja dinâmica económica ampla é objecto deste exame.

O país hipotético cuja economia analisamos aqui é chamado AB, porque a sua economia interna é composta por dois componentes distintos: A e B. A população total de AB é de 100 milhões, mas só cerca de 2% dela é constituída por B; o restante é constituído por A. Para facilitar a manipulação com números redondos, diremos que a população A é de 100 milhões e a população B de 2 milhões.

Em grande parte, as populações A e B são geograficamente separadas dentro de AB, mas a separação não é total. Verificam-se misturas. As principais estradas e rodovias, por exemplo, são usadas por carros pertencentes tanto a membros de A como de B. As companhias aéreas comerciais também transportam tanto membros de A como de B, ao passo que aviões privados e fretados transportam sobretudo os membros de B. Escolas, residências, lojas, recreação, etc são em grande medida segregados, uma vez que os membros de B consideram-se como sendo uma classe à parte.

Do ponto de vista da governação, os membros de B têm um controle quase total sobre o modo como o país AB é legislado e administrado. Quaisquer tentativas dos membros de A de fazerem ouvir suas vozes são recebidas com denúncias histéricas e estridentes pelos membros de B – utilizando termos como "nacionalismo", "populismo", "socialismo", "deplorável" e assim por diante.

Na óptica da prosperidade económica, os membros de B estão a sair-se muito, muito melhor do que os de A. De facto, o PIB total de AB é igualmente dividido entre A e B, o que significa que um membro médio de B ganha cerca de cinquenta vezes mais por ano do que o membro médio de A.
 População APopulação B
Fatia do PIBUS$2,5 x 10 12US$2,5 x 10 12
Rendimento per capitaUS$25.000US$1.250.000
Fluxo de fundos de outros paísesInsignificanteUS$0,5 x 10 12
Balança comercial interna entre A e BDéfice de US$1 x 10 12Excedente de US$1 x 10 12
Efeito da expansão monetáriaInsignificanteUS$0,5 x 10 12
EducaçãoLicenciatura ou menosLicenciatura ou mais
Comércio interno e governação:

A economia de A consiste em bens e serviços de baixo valor e baixa margem de lucro – tais como produtos agrícolas, produtos industriais básicos, trabalho manual, segurança (incluindo policias e militares), serviços administrativos, retalho, serviços de supervisão e entrega, transporte, enfermagem, limpeza, cuidados de beleza/cabeleireiros e assim por diante.

Portanto, A fornece bens e serviços de baixo valor e baixa margem. Como uma população de 100 milhões fornece estes bens e serviços a uma população muito menor de 2 milhões, os preços destes bens e serviços permanecem deprimidos. Para piorar a situação de A, os membros de B mantiveram ferozmente abertas suas opções de substituir os fornecedores de A por fornecedores de menor custo de qualquer outro país do mundo. Assim, os tipos de B retiveram a margem de negociação máxima nas suas compras de A.

A população B fornece à população A produtos e serviços de alto valor e alta margem de lucro, relacionados a finanças, seguros e imóveis, media, relações públicas, produtos farmacêuticos e direito. Uma vez que estes produtos tendem a ser complexos, os termos legais relevantes de comércio entre B e A são fortemente tendenciosos em favor dos primeiros. Na verdade, esta situação reflecte o facto de que os membros de A quase não têm influência na governação do país AB.
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Em consequência desta disposição comercial injusta entre A e B, todos os anos B desfruta de um "superávite comercial interno" com A no valor de cerca de 1 milhão de milhões de dólares, o que explica uma grande parte da diferença entre os rendimentos per capita anuais de A e de B.

Os tipos B são viciados em buscar retornos cada vez mais altos dos seus activos já enormes; de facto, esse parece ser seu único objectivo na vida. Eles ajustaram com perfeição seus esquemas de exploração por financiamento de dívida e alavancagem ao máximo em todos os seus empreendimentos financeiros. Para atender à sua procura crescente por cada vez mais dívida, eles conseguiram crédito barato e abundante disponível 24 horas por dia, 7 dias por semana. Para fins de relações públicas, esse esquema de “crédito à disposição” é chamado de “política monetária” e é apregoado como bom para AB.

Com esta política de “crédito à disposição”, a economia dos B ganha uma injecção de cerca de 500 mil milhões de dólares recém-criados por ano. Contudo, nenhum benefício disso é atribuído aos A, pos as economias de A e de B não se sobrepõem muito. No entanto, quando as coisas dão errado, espera-se que os membros de A paguem as dívidas incobráveis dos B – supostamente para manter a "estabilidade financeira" dentro de todo o país.

Cidadãos ricos de outros países ao redor do mundo também participam da festa de dinheiro livre que acontece dentro de B. O dinheiro estrangeiro flui para B ao ritmo de 500 mil milhões de dólares por ano. O espírito da época parece ser este: enquanto o dinheiro puder ser criado do nada, deixe o champanhe fluir.

A economia de B é administrada como um clube muito exclusivo e caro. Seus encargos de entrada e manutenção anual são extremamente altos. Como política deliberada de relações públicas, cria-se o mito de que o mais elevado objectivo para um ser humano é tornar-se membro proeminente da economia dos B. Como resultado, o objectivo de vida de muitos Morenos, Escuros e Alis fora do país AB é tornarem-se também membros reconhecidos de B.

Os mais ricos entre os membros de B tomam grandes cuidados para garantir que as massas da população (os hoi polloi) de A não tenham voz na maneira como são administrados os assuntos de AB. Ao mesmo tempo, contudo, eles se esforçam ao máximo para convencer as mesmas massas de que os seus melhores interesses permanecem como importantes nas mentes dos membros mais ricos e poderosos de B. O termo RP para essa grande manipulação dos A pelos B é "a arte da governação".

Periodicamente, os membros mais ricos e poderosos de B seleccionam uma pessoa adequada para "dar a cara" na grande manipulação, com o entendimento de que esta também se será sacrificada se por acaso o jogo de manipulação estiver em risco de ser revelado.

Os tipos B entendem muito bem como lhes é útil manter o mito de AB ser "um país". Afinal de contas, a multidão de membros de A são seus clientes tolos, mão-de-obra barata, contribuintes, bodes expiatórios, soldados... e muito mais. Uma "dádiva de Deus", pode-se dizer. Como os B poderiam administrar sem eles?

Mas nunca se deve permitir aos membros de A aprenderem que estão a ser manipulados – no seu próprio interesse, é claro. O povo pobre de A estaria perdido sem a governação de alto custo proporcionada pelas pessoas inteligentes de B – tudo com espírito do serviço público, é claro.

Redes B globais

Agora, estendamos este modelo a 200 países do mundo. É certo que alguns países são mais “parecidos com A”, ao passo que outros são mais “parecidos com B”. De modo geral, no entanto, a maioria das economias dos países ao redor do mundo está dividida de alguma forma tal como o descrito.

O diagrama abaixo ilustra como as redes económicas podem operar entre quatro países: AB1, AB2, AB3 e AB4. No mundo real, redes semelhantes abrangem todos os 200 países.
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Vemos que, do ponto de vista dos fluxos monetários, cada um destes países legalmente estabelecidos está efectivamente dividido em duas partes A e B. As partes B de quase todos os países do mundo – isto é, B1, B2, B3, B4 e assim por diante – entram em conluio economicamente quando os seus interesses coincidem.

Tipicamente, o que são estes interesses coincidentes? Todos os tipos B por todo o mundo desejam retornos anuais máximos dos seus activos já maciços. Portanto, eles – B1, B2, B3, B4, etc – competem, conluiem ou colaboram entre si, conforme a necessidade. Para eles, o resto da espécie humana ?– A1, A2, A3, A4, etc – são pessoas de uma espécie diferente: deploráveis, subdesenvolvidos, atrasados... seja o que for.

Considere um exemplo de dois países, digamos AB1 e AB2. A economia de cada um é dividida em duas partes, como explicado acima. Dentro de AB1, as duas partes são A1 e B1; dentro de AB2, as duas partes são A2 e B2. Pelas razões descritas, B1 e B2 estão economicamente muito mais próximos um do outro do que de A1 e A2. Isso torna possível que B1 e B2 entrem em colusão e explorem A1 e/ou A2, conforme a necessidade.

Para manter o comboio da alegria a rolar, o código básico de comportamento dos tipos B é: faça o que for que seja preciso. Não há outra moral ou ética subjacente ao seu comportamento.

Diz-me que 500 mil crianças podem morrer? E daí?
Diz-me que uma região deve ser bombardeada até voltar à idade da pedra? E daí?
Diz-me que taxas de juros negativas roubam os poupadores? E daí?

Atrito e resistência – aqui e ali

Um ponto simples esquecido pelos tipos B é o seguinte: Seres humanos normais e saudáveis – os quais os tipos B não entendem – não gostam de serem denegridos, insultados, explorados ou manipulados.

Para abrir o seu caminho no mundo dos B é preciso erradicar de si próprio quaisquer traços de tendências humanas normais e saudáveis. Caso contrário, enfrentaria conflitos diários entre o que é certo e o que se deve fazer para sobreviver como B. Uma vez que abandonar o mundo dos B não é uma opção para a maior parte dos tipos B, o único modo de sobreviver é extinguir qualquer senso de certo e errado. Não é de surpreender, portanto, que os tipos B não compreendam os sentimentos dos seus demais compatriotas. Os dois são praticamente estranhos um ao outro.

À medida que o entendimento desta situação se propaga pelo mundo, evidências de atritos e lutas são vistas aqui, ali e por toda a parte. A reacção dos tipos B beira a histeria. Isto não é de surpreender porque, afinal de contas, o seu muito trombeteado (trumpted) – sem trocadilho! – modo de vida está a ser posto em causa.

A falta de compreensão dos tipos B tem enormes implicações, as quais recordam os famosos versos de Robert Burns :
Mas ratinho, não estás sozinho,
Provar a previsão, pode ser inútil:
Os melhores projectos de ratos e homens
Muitas vezes dão para o torto,
E não nos deixam nada senão tristeza e dor,
Pela alegria prometida!
But Mousie, thou art no thy lane,
In proving foresight may be vain:
The best-laid schemes o' mice an' men
Gang aft agley,
An' lea'e us nought but grief an' pain,
For promis'd joy!
É aí que as coisas parecem inclinar-se de modo um tanto precário, Caro Leitor, nesta conjuntura crucial da história em constante desdobramento da busca da humanidade pela felicidade no Planeta Terra.

  • Escrito anterior relacionado: Mapping the Global Divide

    [*] Engenheiro electrotécnico, indiano, nareshjotwani.blog

    O original encontra-se em thesaker.is/globalization-a-sneaky-overview/


    Este artigo encontra-se em https://resistir.info/ .
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