segunda-feira, 16 de julho de 2018

Parte 4: Ciência e tecnologia na Coreia do Norte

Parte 4: Ciência e tecnologia na Coreia do Norte
Avanços na agricultura sustentável e nas energias renováveis

Continuação das partes anteriores:   Introdução , 1 , 2 e 3

por Kim Soobok
Complexo de ciência e tecnologia em Pyongyang.Na minha visita ao Complexo Químico da Juventude Namhung, em 2012, informaram-me que se tratava de uma fábrica de fertilizantes químicos e produtos plásticos. O número de pessoas no complexo era então de 12 mil, mas disseram que só uma parte deles – 3000 a 4000 – eram trabalhadores da fábrica e o resto fazia "outro trabalho". Naquele momento não entendi e não sabia o suficiente para perguntar o que significava isso. Só depois de aprender acerca dos métodos que a Coreia do Norte estava a introduzir para encorajar a auto-suficiência alimentar a nível local é que entendi que as restantes 8000 pessoas não envolvidas directamente na produção do complexo químico faziam parte do que eles chamam "operação de retaguarda". Elas são responsáveis pelo trabalho reprodutivo de criar porcos, galinhas e patos bem como plantar arroz e verduras para alimentar os trabalhadores da fábrica e suas famílias.

No sítio da construção da Central Hidroeléctrica de vários níveis do Rio Chongchon, também, trabalhadores da "operação na retaguarda" criavam porcos e galinha e investigavam o melhor meio de plantar tomates e pepinos em estufas enquanto o ruído surdo da construção podia ser ouvido do outro lado da instalação. A equipe de "operação na retaguarda" é responsável pelo trabalho regenerativo de alimentar e sustentar os trabalhadores da central hidroeléctrica em construção.

Analogamente, todas as unidades da sociedade norte-coreana – cooperativas agrícolas, fábricas, negócios, unidades militares, universidades, sítios de grandes construções, complexos de apartamentos, etc – têm equipes de "operação na retaguarda" que criam animais e plantam verduras para cuidar autonomamente das suas próprias necessidades alimentares. E a maior parte adoptou um método de agricultura orgânica chamado "sistema de produção em circuito fechado" ("closed-loop production system"), um meio energeticamente eficiente de produzir alimentos pela reciclagem de resíduos a fim de minimizar inputs de recursos.

Dra. Ryang Hae-ok.O melhor exemplo do sistema de produção em circuito fechado que testemunhei foi o Complexo Residencial para Cientistas de Satélites em Pyongyang – um complexo de 1,3 km2 de instalações residenciais para cientistas envolvidos no programa de lançamento dos satélites da Coreia do Norte. Foi construído em 2014 junto à Academia de Ciências do Estado e é dedicado aos cientistas do país como apreciação do seu serviço e para encorajar a investigação de alta tecnologia e a inovação.

Um milhar de famílias de cientistas residem em 24 edifícios de apartamentos e cada um deles tem um jardim comunal onde os residentes plantas verduras e colhem o que precisam para suas famílias. O complexo também tem quatro estufas onde plantam tomates, pepinos, cebolinhas e outras verduras frescas ao longo de todo o ano.

Na minha visita ali em Maio de 2015 fiquei contente por descobrir que a pessoa responsável pelas estufas do Complexo Residencial de Cientistas de Satélites era Ryang Hae-ok, esposa do bisneto do eminente químico norte-coreano Ri Sung-gi (ver a introdução desta série para uma breve descrição da vida e obra de Ri Sung-gi). Quando contei a Ryang que foi o trabalho de Ri no desenvolvimento do têxtil juche vinalonque inspirou minha jornada de estudo da ciência e tecnologia da Coreia do Norte ela ficou eufórica e deu-me uma saudação calorosa e acompanhou-me numa visita pessoal às estufas.

Economia circular.No interior da estufa há uma pocilga, por trás da qual está um pequeno tanque com plantas ricas em nutrientes a que chamam "erva proteica". Entre as raízes da erva proteica flutuante vivem peixes de águas lamacentas. Os resíduos dos peixes proporcionam nutrientes para as plantas, as quais por sua vez actuam como um sistema de filtro que pode ser colhido, limpando a água de modo a que possa ser reciclada continuamente. A erva é um sistema rico em proteínas que é misturada com o alimento para os porcos. As pessoas capturam e comem o peixe e alimentam o resto dos porcos. Os resíduos dos porcos e os restos dos vegetais são fermentados para produzir gás metano utilizado para cozinhar. O resíduo de um torna-se alimento para o outro e, deste modo, há uma reciclagem circular, um sistema sustentável.

O Instituto de Ciência Vegetal de Pyongyang 

O Instituto de Ciência Vegetal de Pyongyang faz parte da Academia Nacional de Ciência Agrícola. É uma estufa hidropónica maciça localizada nos arrabaldes de Pyongyang.

Em 2008-2009 a Coreia do Norte, confiante na sua capacidade de aumentar a produção de cereais, depois de finalmente ultrapassar o período da Marcha Árdua e normalizar a produção de fertilizantes químicos baseados no carvão, estabeleceu um novo objectivo nacional: aumentar os vegetais e frutos na dieta do país. Para aumentar a produção frutícola, construiu o Pomar do Rio Daedong com 991 hectares e o Pomar de Gosan com 2974 hectares.

Para o aumento da produção o Instituto de Ciência Vegetal de Pyongyang foi estabelecido como modelo para investigar e desenvolver tecnologia de vanguarda no cultivo e partilhar suas realizações com cooperativas de todo o país.

Levou apenas um ano para as forças combinadas de instrutores e estudantes da Universidade Kim Il-sung e a unidade de construção do exército norte-coreano construírem o instituto como uma instalação de investigação no estado da arte. O instituto, que abriu as portas em Março de 2011, produz vegetais frescos, como tomates, pepinos, pimentos, rábanos e alfaces o ano todo. A área edificada com 600 mil metros quadrados abriga uma estufa com 300 mil metros quadrados e uma estufa hidropónica com 100 mil metros quadrados, bem como um laboratório de biologia no estado da arte. Inicialmente foi utilizada uma caldeira alimentada a carvão para aquecer a estufa, mas agora o instituto utiliza geotermia, vento e energia solar a fim de manter temperaturas óptimas em todas as estufas sem precisar de combustível fóssil.

O instituto efectua investigação para a melhoria da quantidade e qualidade das culturas do país. Seu objectivo declarado é aumentar os rendimentos das plantações para 2965 toneladas por hectare.

Algumas das investigações exemplares que o instituto faz actualmente incluem: 
  • Cultivo de tomates e vegetais anuais na forma de uma árvore que pode produzir durante dez anos;
  • Cultivo e aclimatação de novas variedades de vegetais ricos em nutrientes, tais como beterrabas amarelas, salsa, alho-cebola (combinação de alho e cebola), ginseng azul e "proteína vegetal" (vegetais folhados moldados como alface, ricos em proteínas);
  • Ciência das estufas, tais como temperaturas e exposição à luz solar óptimas, tecnologia de irrigação e análise precoce do conteúdo de vegetais.
A estufa hidropónica do instituto utiliza cascas de cereais como meio de crescimento para agricultura aquática de uma variedade de vegetais. Mais de dez tipos de nutrientes de plantas são distribuídos por toda a estufa através de um sistemas de canalizações e o instituto investiga os nutrientes óptimos para diferentes variedades. Ao eliminar a necessidade de lotes de terra vastos e minimizar o espaço necessário para a agricultura, a hidropónica torna a automação e gestão agrícola mais simples.

A tecnologia do cultivo em estufa e hidropónica estudada e desenvolvida pelo Instituto de Ciência Vegetal de Pyongyang já está a ser replicada em unidades agrícolas especializadas em vegetais por toda a Pyongyang, tais como a Cooperativa Agrícola Chonnam no Distrito Hyongjesan, a Cooperativa Agrícola Daesong no Distrito de Daesong, a Cooperativa Agrícola Bongsu no Distrito Mangyongdae e a Cooperativa Agrícola Jangchon no Distrito de Sadong. Ela também se propaga a outras províncias, tais como a Unidade Agrícola Especializada em Vegetais na Província de Hamgyong Sul, bem como às cidades de Chungjin, Nampo, Hoeryong e aos municípios de Shinyang e Onsung.

Energia renovável 

A Coreia do Norte fundou o Centro de Investigação Energética no âmbito da Academia de Ciências com o objectivo de reduzir a dependência do país em combustíveis fósseis e aumentar o desenvolvimento e utilização de energias renováveis. Como declarado em 2018 por Kim Jong-un, no Discurso de Ano Novo, o país pretende resolver sua questão energética principalmente através da energia hidroeléctrica e também através da utilização acrescida da energia eólica, geotérmica, solar e da biomassa.

Após anos de investigação e desenvolvimento, agora o país começou a adoptar a utilização da energia renovável a uma escala nacional. Exemplo: está a produzir gás metano a partir de resíduos de porcos e unidades agrícolas para gerar energia e está a fornecer bombas de carneiro hidráulico a áreas agrícolas a fim de irrigarem terras sem precisar de electricidade. Também está a investigar meios de utilizar energia das marés e um número crescente de jovens cientistas opta pela energia renovável como campo de estudo.

Energia solar 

A Coreia do Norte utiliza a energia solar de dois modos principais: para aquecer água através de sistemas de painéis solares térmicos e para converter a luz solar em energia eléctrica através de painéis solares fotovoltaicos.

Sistemas solares térmicos para aquecimento de água foram introduzidos no país na Feira Internacional de Outono de Pyongyang, em 2012, e desde então tornaram-se muito populares por toda a parte. Eles são instalados nos telhados para aquecer a água, a qual é então distribuída através do edifício para utilização familiar e para aquecimento de ambiente.

Os painéis solares têm grande procura. Eles são instalados com rastreadores do sol o que permite aos painéis moverem-se de acordo com a direcção do sol e aumentarem assim a sua eficiência.

As unidades de produção que costumavam confiar na rede eléctrica estatal agora produzem a sua própria electricidade convertendo a energia solar através dos painéis fotovoltaicos. Eles também fazem condicionamento do ar e aquecimento ambiente através de instalações geotérmicas e agora estão a enviar seus excedentes de energia para a rede eléctrica nacional. Um sistema de geração paralelo pelo qual as fábricas geram sua própria electricidade juntamente com a rede eléctrica nacional permite à energia fluir em ambas as direcções.

Centro de Gestão de Comunicações Móveis de Pyongyang 

No Centro de Gestão de Comunicações Móveis de Pyongyang uma multidão de painéis solares cobre as paredes externas dos dois edifícios. Eles geram uma média de 240 quilowatts-hora por dia, ou 84.400 kWh por ano, e alimentam todas as operações do Centro, incluindo iluminação, equipamento, mais de uma centena de computadores na sala do centro de disseminação de ciência e tecnologia, bem como no ginásio interno e na cafetaria.

Na cobertura do Centro de Gestão de Comunicações Móveis há uma estufa que produz em abundância pepinos, margaridas e outros vegetais. A água aquecida do sistema solar de aquecimento é arrefecida a uma temperatura óptima e utilizada então para abastecer de água a estufa e uma área de pesca. Nos dias ensolarados a instalação é capaz de efectuar todas as suas operações através da energia solar sem depender da rede eléctrica estatal.

Centro de Gestão de Comunicações Móveis de Pyongyang,
vídeo publicado em 04/Abril/2018, DPRK Today.
Fábrica de tecelagem da seda Kim Jongsuk Pyongyang 

A tecelagem da seda Kim Jongsuk Pyongyang está equipada com painéis solares com rastreadores e turbinas eólicas que produzem 30 kWh de electricidade por hora ou mais de 10 mil kWh por ano. Toda a iluminação da fábrica, bem como sua sala de história, ciência e centro de disseminação de tecnologia, centro de computadores, centro cultural, dormitórios e centro de cuidados de dia são inteiramente alimentados pela energia gerada pela própria fábrica.

Tecelagem da Seda Kim Jongsuk Pyongyang,
vídeo publicado em 13/Março/2018, DPRK Today
Fábrica de Luminárias Samcholli 

A Fábrica de Luminárias Samcholli produz lâmpadas LED para casas de repouso e centros de cuidados infantis, bem como a Rua Cientistas Mirae. A fábrica é alimentada com a energia gerada por painéis fotovoltaicos rastreadores do sol. Eles produzem centenas de quilowatts-hora por dia, isto é, dezenas de milhares por ano, e injecta o excedente de energia na rede eléctrica nacional.

legenda vídeo 

Fábrica de Luminárias Samcholli,
vídeo publicado em 02/Maio/2018, DPRK Today.
Segundo um artigo sobre energia renovável publicado em 11 de Junho do jornal estatal Rodong Sinmun, a Cooperativa Agrícola Sinhwe, no município Samsu, um vale remoto cercado por montanhas escarpadas na Província Ryanggang, instalou painéis solares nos tectos de todos os edifícios residenciais e público e gera electricidade suficiente para efectuar toda a iluminação e os aparelhos de TV, bem como uma sala multimedia na sua escola. O exemplo estabelecido por essa cooperativa agrícola está agora a ser replicado em todas as outras aldeias do município.

A mesma edição do Rodong Sinmun também anunciou que a Fábrica de Equipamento Automatizado de Pyongyang, a qual produz turbinas eólicas, está agora a desenvolver sistemas de geração de energia híbridos que combinam a utilização do solar e do vento para gerar electricidade. A Quinta de Cogumelo, segundo o mesmo jornal, já combinou mais de uma centena de painéis solares com pequenas e grandes turbinas eólicas para criar um sistema de geração de energia que sintetiza os dois tipos de geradores.

Energia eólica 

A energia eólica é uma fonte popular de energia renovável na Coreia do Norte e amplamente utilizada para bombagem de água.

A Fábrica de Equipamento Automatizado de Pyongyang, costumava produzir apenas pequenas turbinas com 1,5 kW de potência, mas agora produz turbinas com 100 a 250 kW. O governo norte-coreano está a investir no desenvolvimento do sector da energia eólica e muitas unidades de produção também estão a construir de modo autónomo suas turbinas eólicas.

O Estaleiro Naval Ryuongnam, em Nampo, é um pioneiro na utilização de energia renovável e desde há mais de uma década tem sido alimentado por energia eólica.

Segundo documentos exibidos no Centro de Investigação de Energia Natural da Coreia do Norte, o objectivo a longo prazo do país é gerar 15 por cento da electricidade do país através da energia eólica e aumentar a geração de electricidade através de energias renováveis para cinco milhões de quilowatts-hora em 2044.

De acordo com uma brochura norte-coreana de 2015 dirigida a investidores potenciais na Zona Turística Internacional Wonsan-Monte Kumgang, o investimento total necessário para construir um conjunto de energia eólica para abastecer de electricidade as áreas de Tongchon e Monte Kumgang é de US$39 milhões. A Coreia do Norte propõe executar o projecto em dois anos e financiá-lo através de um planoBuild-Operate-Transfer (BOT) pelo qual o investidor estrangeiro operaria o complexo durante dez anos a fim de recuperar o seu investimento e então transferiria a propriedade para a Zona Turística Especial de Wonsan.

Calor geotérmico 

O sector da energia renovável em que a Coreia do Norte fez os maiores avanços foi o do calor geotérmico.

A Fábrica de Maquinaria Geral Huichon Ryonha, na Província Chagang, foi uma das primeiras do país a instalar um sistema de aquecimento geotérmico. Em 2010, quando todo o país lutava para avançar e sair do período austero da Marcha Árdua, nos anos 1990 e 2000, a fábrica estava a desenvolver um sistema de produção em massa de máquinas-ferramenta com controle numérico no estado da arte para capacitar todos os sectores económicos básicos, tais como aço, fertilizantes, têxtil, produtos químicos e processamento alimentar, a modernizarem a sua produção. Por instrução do então líder norte-coreano Kim Jong-il no sentido de garantir que não só modernizassem a maquinaria como também tornassem seu lugar de trabalho um instalação no estado da arte, os engenheiros da fábrica equiparam-na com um sistema de aquecimento geotérmico. Toda a fábrica, sete vezes a dimensão de um campo de futebol e localizada nas altas montanhas da parte norte do país, é agora aquecida através de energia renovável e é confortavelmente cálida mesmo no pico do Inverno.

A Coreia do Norte também avança na investigação de meios mais eficientes e económicos de colectar água geotérmica. No passado, a fonte de água tinha de estar a 20 metros de profundidade e 15 graus Celsius para ser acessada, mas agora, com tecnologia melhorada, pode-se ter acesso à mesma mesmo nas regiões mais frias como o Município Samjiyon ao pé do Monte Baekdu, onde a fonte de água atinge apenas quatro graus Celsius, até lugares quentes como o Palácio da Escola Infantil Samjiyon.

Centro recreativo com sistema geotérmico.Todos os edifícios novos na Coreia do Norte estão equipados com sistemas de aquecimento geotérmico e de ar condicionado. Exemplos: O Centro de Recreação Ryugyong, um moderno megaplex [1] de cinco andares em Pyongyang; a estufa de 929 metros quadrados no Instituto de Ciência Vegetal de Pyongyang; o maciço Centro de Ciência e Tecnologia e todos os recém construídos centros de cuidados infantis, casas de repouso e escolas são aquecidos e têm ar condicionado através da tecnologia geotérmica. E a energia geotérmica está agora a ser combinada com a solar e eólica para novo aumento de eficiência e potência.

Segundo uma notícia de 2016 no Meari, sítio de notícias online norte-coreano, fábricas do país estão agora a produzir em massa sistemas de aquecimento e de ar condicionado geotérmicos que podem aproveitar água subterrânea a apenas três metros de profundidade.

Um artigo de 11/Junho/2018 no Rodong Sinmun descreve o plano da Autoridade de Comunicação da Província de Hwanghae Norte para a construção de um novo edifício de escritórios e sua discussão sobre se deveria instalar uma caldeira alimentada a carvão como fizera no passado ou tentar algo que nunca fora feito antes com a adopção da tecnologia geotérmica. O artigo chamou minha atenção pois refere-se não a uma agência na capital do país e sim a uma área remota sem peritos em energias renováveis. Depois de investigadores na Manufactura de Produtos de Alta Tecnologia da Província de Hwanghae Norte terem consultado centros de investigação científica de todo o país em busca da solução mais eficiente, dizia o artigo, o município optou por um sistema híbrido de geotermia e biomassa.

Metano e energia hidroeléctrica 

A Coreia do Norte também encoraja cooperativas agrícolas a reciclarem resíduos para a produção de gás metano (CH4), um gás com efeito estufa produzido pela decomposição biológica de matéria orgânica. A Cooperativa Agrícola de Jangchon, em Pyongyang, por exemplo, recicla alimentos decompostos e resíduos animais a fim de produzir metano para fins de aquecimento e cozinha. Quando visitei a estufa solar no Complexo Residencial de Cientistas Unha também vi produção de metano a partir de restos de alimentos e estrume de porco, utilizado na cozinha.

Segundo um artigo de 11/Junho/2018 no Rodong Sinmun, a Cooperativa Agrícola Unjong-ri, na Província Chagang, uma área montanhosa onde a maior parte das suas terras agrícolas estão em encostas, imaginou um meio de irrigar suas terras sem precisar de electricidade. No passado, bombear água para a encosta era difícil pois exigia muita electricidade e, portanto, o rendimento das colheitas na região historicamente havia sido fraco. Para resolver este problema, a cooperativa agrícola enviou seus trabalhadores ao Centro de Investigação em Energia Natural, da Academia Estatal de Ciências, a fim de estudar o princípio da operação e a tecnologia das bombas de carneiro hidráulico, alimentadas pelo poder da água sem precisar de electricidade. Através da utilização desta tecnologia, agora a quinta é capaz de irrigar suas encostas e viveiros unicamente através da força da água.

Disseminação da inovação científica 

Numa sociedade capitalista, a inovação científica é uma mercadoria utilizada para maximizar o lucro e ganhar poder sobre os competidores. Os capitalistas processam-se mutuamente para evitar que os concorrentes copiem suas inovações e forcem os consumidores a comprar sua tecnologia. Na Coreia do Norte, é exactamente o oposto: o governo central encoraja activamente as pessoas a copiarem as inovações umas das outras.

Biblioteca central de Pyongyang."Aprenda ao seguir, ultrapasse ao seguir" é o slogan do chamado "movimento educativo com base experiência", amplamente promovido como uma matéria de política nacional. Todas as instalações de produção na Coreia do Norte e nas 3900 cooperativas agrícolas e de especialidade têm um "departamento de disseminação de tecnologia científica", onde trabalhadores podem estudar avanços científicos e tecnológicos relacionados com o seu campo de trabalho e discutir como adaptá-los às suas condições particulares. A biblioteca central do país e a biblioteca de Ciência e Tecnologia em Pyongyang disseminam os mais recentes avanços junto a departamentos de disseminação em instalações de produção por todo o país. Através da rede de educação a distância baseada na intranet, publicam resultados de investigações da Academia Estatal de Ciências, da Universidade de Tecnologia Kimchaek e da Universidade Kim Il-sung, bem como inovações e estudos de caso exemplares colhidos junto a instalações de produção do país.

Outro meio de o país encorajar operários e agricultores a adoptarem inovação e tecnologia recente é através da exibição de fábricas e quintas modelo como estudos de caso a fim de aprenderem com os mesmos e seguirem-nos. A Universidade de Tecnologia Kimchaek e a Academia Estatal de Ciências integra os avanços mais recentes e os sítios com as melhores práticas do país para construir instalações de vanguarda em vários campos. Dentre elas estão o Instituto de Investigação Vegetal de Pyongyang, a Fábrica de Cogumelos de Pyongyang, a Quinta de Especialidade Vegetal de Jangchon, a Quinta de Lampreias de Pyongyang, a Quinta de Tartarugas de Pyongyang e o Pomar do Rio Daedong.

Museus nacionais, tais como a Sala de Exposição das Três Revoluções e a Sala dos Cientistas Mirae, exibem modelos de fábricas e quintas para que trabalhadores e agricultores de todo o país vejam e estudem. Deste modo, fábricas e quintas modelo são replicadas em todas as regiões num intervalo de tempo de apenas um ano ou dois. Isto é um método de executar a política nacional de "tornar toda a população perita em ciência e tecnologia".

Exposições nacionais e locais que exibem os mais recentes desenvolvimentos científicos são também efectuados ao longo do ano. Um exemplo é o 33º Festival Nacional de Ciência e Tecnologia efectuado recentemente na Sala de Exposição das Três Revoluções em Pyongyang. O festival de duas semanas, de 23 de Abril a 3 de Maio de 2018, reuniu 1200 pessoas de 500 fábricas, cooperativas e escolas do país, cada uma ansiosa por exibir seus feitos tecnológicos. Os participantes foram seleccionados através de processo altamente competitivo a partir de um conjunto de 13.500 grupos totalizando 107 mil cientistas, técnicos, candidatos a doutoramento, jovens, estudantes e trabalhadores que exibiram suas inovações em feiras de ciência locais por todo o país. Só a escala do festival e processo de selecção dos participantes deu-nos a sensação de quanto a ciência e tecnologia são hoje abraçadas e celebradas na Coreia do Norte.

Ciência e tecnologia ao serviço do povo 

As seguintes declarações são frequentemente encontráveis nos media de hoje norte coreanos e são indicativas da ênfase sobre ciência e tecnologia na era de Kim Jong Un:
A ciência e tecnologia levará ao desenvolvimento económico da nação e o plano do cientista nos levará a um futuro brilhante.

A ciência e a tecnologia são o motor por trás da construção de uma forte nação socialista.

No espírito do slogan "Finque seus pés no terreno e ponha os olhos no mundo", nosso objectivo é transformar toda a população em cientistas e pensadores científicos.

As universidades e centros de investigação não deveriam viver apenas com o orçamento nacional mas tornarem-se produtores que criam produtos de vanguarda baseados nas suas inovações e reinvestem suas receitas para novo desenvolvimento tecnológico.
A política da Coreia do Norte sobre ciência e tecnologia na era Kim Jong Un está claramente reflectida no discurso de Kim perante responsáveis chave do Comité Central do Partido dos Trabalhadores em Maio de 2013: "Vamos alcançar uma mudança radical no avanço científico e tecnológico para acelerar a construção de uma nação forte e próspera".

Tendo declarado o término de um dissuasor nuclear eficaz para defender-se de ameaças militares dos EUA, a Coreia do Norte agora mostra-se pronta para mudar o seu talento e recursos científicos para outro aspecto chave do seu combate contra a agressão estado-unidense: construir uma nação economicamente robusta e auto-suficiente a fim de desafiar o labirinto das sanções promovidas pelos EUA. O país encoraja seu povo a rejeitar a ideia de que só pessoas altamente educadas e peritos qualificados podem ser cientistas e treina pessoas comuns – agricultores, trabalhadores e jovens – na prática de aplicar a razão e buscar inovações baseadas em evidências a fim de melhorar as condições da sua vida diária.

Desafiando todas as previsões ocidentais de colapso iminente, o povo norte coreano não só sobreviveu à crise do período da Marcha Árdua como efectuou uma espantosa recuperação através da sua coragem e engenho científico. Quando alguém vai à Coreia do Norte – se tiver oportunidade – pode sentir de imediato que toda a sociedade zumbe com actividades destinadas a melhorar os meios de vida do povo, tais como alimentação e habitação. E o país está a fazer um progresso notável no sector da energia. Através da fidelidade à sua filosofia da auto-suficiência e dos avanços científicos ao serviço do povo, eles estão determinados, assim parece, a mostrar ao mundo que é possível desafiar o estrangulamento do mundo capitalista a fim de criar uma alternativa sustentável. 
10/Julho/2018

[1] Megaplex: cinema com mais de 16 salas de projecção. 

Partes anteriores desta série:
Intro – Ciência e tecnologia como o caminho para o progresso económico
1 – Ciência e tecnologia como o caminho para o progresso económico
2 – Irrigar os campos – uma luta de duas décadas
3 – Enriquecer o solo – produzir para além da subsistência

O original encontra-se em www.zoominkorea.org/part-4-advances-in-sustainable-farming-and-renewable-energy/ 


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Buracos de minhoca podem já ter sido detectados, propõem físicos

Buracos de minhoca podem já ter sido detectados, propõem físicos

Buracos de minhoca podem já ter sido detectados, propõem físicos
Instantâneo de uma simulação na qual dois buracos negros se fundem. A colisão de dois buracos de minhoca rotativos desencadearia uma deformação similar do espaço-tempo, mas deixaria "ecos" no sinal que podem ser detectados. [Imagem: LIGO LabCaltech/MIT]
Túneis no espaço-tempo
Ainda é uma ideia especulativa - uma hipótese -, mas uma daquelas que pode revolucionar a astrofísica e trazer um novo nível de interesse para a ciência e para as viagens espaciais.
Pablo Bueno e seus colegas da Universidade de Leuven, na Bélgica, afirmam que a humanidade já pode ter detectado buracos de minhoca.
Os buracos de minhoca - ou Pontes de Einstein-Rosen - são, teoricamente, túneis no espaço-tempo. Atravessando-os seria possível "saltar" de um ponto no espaço para outro, muito distante, sem precisar percorrer as longas distâncias que os separam.
Esses túneis espaço-temporais ganharam popularidade por meio dos filmes de ficção científica, mas têm sido foco de atenção dos físicos há décadas. Albert Einstein e Nathan Rosen publicaram seu trabalho sobre eles em 1935 e levaram a fama, mas o físico austríaco Ludwig Flamm havia publicado um trabalho sobre túneis no espaço-tempo em 1916.
Agora, uma dupla de físicos espanhóis e seus colegas belgas estão propondo que os observatórios de ondas gravitacionais LIGO e Virgo detectaram eventos causados não por colisões entre buracos negros, como foi proposto, mas por colisões entre dois buracos de minhoca rotativos.
Objeto compacto exótico
A equipe aponta que a hipótese de que as ondas gravitacionais detectadas se originaram da fusão de buracos negros tem problemas.
O maior deles surge de uma característica bem conhecida dos buracos negros: Eles têm uma fronteira, chamada horizonte de eventos, da qual matéria, radiação ou qualquer coisa que entre não consegue mais escapar. Essa noção está em conflito com a mecânica quântica, cujos postulados garantem que a informação será sempre preservada, nunca perdida.
Uma das maneiras teóricas de lidar com esse conflito é explorar a possibilidade de que os supostos buracos negros de que tanto falamos não sejam exatamente o que pensávamos, mas sim algum tipo de "objeto compacto exótico" (OCEs), o que inclui os buracos de minhoca. Isso traria uma particularidade muito útil: buracos de minhoca não têm um horizonte de eventos, e isso pode deixar sua marca nas ondas gravitacionais registradas pelo LIGO e pelo Virgo. E essa marca poderia então descartar os buracos negros como originários dos eventos detectados.
Observe que buracos negros nunca foram detectados observacionalmente: Sua existência é deduzida de efeitos, modelos teóricos e observações indiretas - das quais a recente detecção das ondas gravitacionais é uma das mais fortes. Por isso, a proposta dos físicos espanhóis não é um disparate - é meramente a troca de uma explicação teórica plausível por outra explicação teórica possível.
Buracos de minhoca podem já ter sido detectados, propõem físicos
É possível usar os buracos negros para testar a existência de universos paralelos, mas os buracos de minhoca parecem muito mais talhados para isso. [Imagem: Garriga et al./arXiv:1512.01819v2]
Ecos dos buracos de minhoca
"A parte final do sinal gravitacional detectado por esses dois detectores [LIGO e Virgo] corresponde ao último estágio da colisão de dois buracos negros, e tem a propriedade de se extinguir completamente após um curto período de tempo devido à presença do horizonte de eventos.
"No entanto, se não houvesse horizonte, essas oscilações não desapareceriam completamente; em vez disso, depois de certo tempo, elas produziriam uma série de 'ecos', de forma similar ao que acontece com o som em um poço. Curiosamente se, em vez de buracos negros, tivéssemos um OCE, a parte final da detecção poderia ser semelhante, então precisamos determinar a presença ou a ausência dos ecos para distinguir os dois tipos de objetos," detalham Pablo Bueno e seu colega Pablo Cano.
Esta possibilidade foi explorada teoricamente por vários grupos e tentativas de análises experimentais usando os dados do LIGO já foram realizadas, mas o veredito até agora foi largamente inconclusivo.
Por isso, os físicos propõem um modelo que prevê como as ondas gravitacionais geradas pela colisão de dois OCEs específicos seriam detectadas: quando elas forem geradas pela colisão de dois buracos de minhoca rotativos.
Detecção dos buracos de minhoca
Até agora, os sinais das ondas gravitacionais observadas somem completamente após alguns instantes, o que tem sido interpretado como uma consequência da presença do horizonte de eventos. Ocorre que essas oscilações podem não estar desaparecendo completamente - seus ecos podem ter simplesmente passado despercebidos até agora devido à falta de modelos ou referências teóricas com as quais comparar os dados, defende a equipe.
"Os buracos de minhoca não têm um horizonte de eventos, mas funcionam como um atalho espaço-temporal que pode ser percorrido, uma espécie de garganta muito longa que nos leva a outro universo," explica Pablo Bueno. "E o fato de eles também terem rotação (uma propriedade que eles têm em comum com os chamados 'buracos negros de Kerr', que se supõe correspondam aos objetos envolvidos na produção das ondas gravitacionais detectadas pelo LIGO, caso eles sejam realmente buracos negros) alteram as ondas gravitacionais que eles produzem."
É claro que, se esses ecos forem encontrados nos dados, a consequência não é apenas a comprovação indireta da existência dos buracos de minhoca - haveria um efeito catastrófico para a ciência dos buracos negros.
"A confirmação dos ecos nos sinais do LIGO e do Virgo seria uma prova praticamente irrefutável de que os buracos negros astrofísicos não existem," enfatiza Pablo Bueno. "O tempo dirá se esses ecos existem ou não. Se o resultado for positivo, esta será uma das grandes descobertas da história da física."
Bibliografia:

Echoes of Kerr-like wormholes
Pablo Bueno, Pablo A. Cano, Frederik Goelen, Thomas Hertog, Bert Vercnocke
Physical Review D
Vol.: 97: 024040
DOI: 10.1103/PhysRevD.97.024040

Echoes from the Abyss: Tentative evidence for Planck-scale structure at black hole horizons
V. Cardoso, E. Franzin, P. Pani
Physical Review Letters
Vol.: 8, 082004
DOI: 10.1103/PhysRevD.96.082004
     

terça-feira, 10 de julho de 2018

Como nasceu e como morreu o "marxismo ocidental"


por Domenico Losurdo [*]

1. O "marxismo ocidental" e a remoção da questão colonial
2. Althusser e a crítica do "humanismo"
3. Da história à "ciência" ou do materialismo ao idealismo, da história mundial ao eurocentrismo
4. O "marxismo ocidental" lê o "marxismo oriental": um equívoco coletivo
5. De Foucault a Negri: a progressiva transfiguração do Império
6. "Marxismo ocidental", "marxismo oriental"
    Referências
    Notas
    Losurdo na TV Boitempo
    Trabalhos de e sobre Losurdo em resistir.info

Domenico Losurdo, 1941-2018.Por muito tempo o "marxismo ocidental" celebrou a sua superioridade em relação ao marxismo dos países que se remetiam ao socialismo e que estavam todos situados no Oriente. Em decorrência dessa atitude arrogante, o marxismo ocidental nunca se empenhou seriamente em repensar a teoria de Marx à luz de um balanço histórico concreto: qual era o papel do Estado e da nação nesses países e no "campo socialista"? Como promover a democracia e os direitos humanos e como estimular o desenvolvimento das forças produtivas e o bem-estar das massas numa situação caracterizada pelo bloqueio capitalista? Ao invés de pôr-se essas questões difíceis, o marxismo ocidental preferiu abandonar-se à cômoda atitude autoconsolatória de quem cultiva em particular as suas utopias e rejeita, como uma contaminação, o contato com a realidade e a reflexão sobre a realidade. Disso derivou uma progressiva capitulação à ideologia dominante. Por fim, a autocelebração do marxismo ocidental desembocou na sua autodissolução.

1. O "marxismo ocidental" e a remoção da questão colonial 

Por que o marxismo ocidental, após desfrutar de um sucesso extraordinário até se tornar a koiné das décadas de 1960 e 1970, mergulhou numa crise tão profunda? Sem dúvida, os fatos históricos que todos conhecemos e que culminaram com a queda da União Soviética e do "bloco socialista" desempenharam neste caso um papel fundamental. No entanto, embora inevitável, esse tipo de explicação não é exaustivo: é necessário aprofundar a análise, concentrando a atenção nas fraquezas intrínsecas que o marxismo ocidental revela no Ocidente, mesmo na época em que sua hegemonia parece incontestável. Nada é mais verdadeiro em relação à Itália. É preciso partir de um debate suscitado por Norberto Bobbio em 1954. Ele, embora insistindo justamente na irrenunciabilidade da liberdade formal e das suas garantias jurídico-institucionais, atribui como mérito dos Estados Socialistas o fato de eles "terem começado uma nova fase de progresso civil em países politicamente atrasados, introduzindo instituições tradicionalmente democráticas, de democracia formal, como o sufrágio universal e a elegibilidade dos cargos, e de democracia substancial, como a coletivização dos instrumentos de produção". Entretanto, é a conclusão crítica, o novo "Estado Socialista" não soube transplantar em seu bojo o governo da lei e os mecanismos de garantias liberais, não soube ainda proceder à "limitação do poder" e derramar "uma gota de óleo (liberal) nas engrenagens da revolução já realizada" [2] . Como se vê, estamos bem longe das posições assumidas pelo filósofo de Turim na última fase da sua evolução, no momento em ele se torna, em última análise, um ideólogo da guerra do Ocidente: em 1954 (faltam dois anos para o XX Congresso do PCUS e a revolta húngara) a influência do marxismo e o prestígio dos países que fazem referência a ele são grandes; nesse momento, ao lado da "democracia formal", Bobbio teoriza também uma "democracia substancial"; além disso, expressa um juízo a respeito dos países socialistas que não é univocamente negativo, nem mesmo a respeito da "democracia formal".

Quais são as reações dos intelectuais comunistas italianos? Para rechaçar ou atenuar as críticas dirigidas, em primeiro lugar, à União Soviética, eles poderiam ter alegado o estado de exceção permanente imposto ao país surgido da Revolução de Outubro como justificativa parcial do atraso, bem como a ameaça do aniquilamento nuclear que pairava de forma contínua sobre ele. Galvano Della Volpe, ao contrário, segue uma estratégia totalmente diferente, concentrando-se na celebração da libertas maior (o desenvolvimento concreto da individualidade garantido pelas condições materiais de vida). Desse modo, por um lado, as garantias jurídicas do Estado de Direito são desvalorizadas, implicitamente rebaixadas à condição delibertas minor; por outro lado, acaba-se valorizando a transfiguração realizada por Bobbio da tradição liberal, enquanto campeã da causa da fruição universal (pelo menos dos direitos civis), da liberdade formal, da libertas minor, da "limitação do poder". Para sustentar essa visão, Bobbio remete ao hino que John Stuart Mill, em seu ensaio dedica à liberdade, talvez o mais célebre: On Liberty. Entretanto, é justamente nesse ensaio que vemos o liberal inglês justificar o "despotismo" do Ocidente sobre as "raças" ainda "menores de idade", obrigadas a aceitar uma "obediência absoluta", de tal forma que possam ser guiadas no caminho em direção ao progresso [3] . Em 1954, o "despotismo" e a "obediência absoluta" impostos pelo Ocidente eram muito bem percebidos no mundo colonial; nos Estados Unidos, os negros continuavam excluídos maciçamente dos direitos políticos e, às vezes, até dos direitos civis (no Sul ainda não desaparecera o regime de segregação racial e da white supremacy ). Della Volpe, completamente absorvido pela celebração da libertas maior, não se preocupa ou não é capaz de chamar a atenção para o equívoco clamoroso de Bobbio.

O fato é que, embora apresentando-se cada vez de maneira diferente, a remoção da questão colonial caracteriza amplamente o marxismo ocidental daqueles anos. Em 1961, Ernest Bloch publica Direito Natural e Dignidade Humana. Como o próprio título revela, estamos bem longe da subestimação dalibertas minor, tão cara a Della Volpe; ao contrário, a reivindicação da herança da tradição liberal é explícita, submetida, contudo, a uma crítica que infelizmente parece uma transfiguração. Bloch critica o liberalismo por defender uma "igualdade formal e apenas formal". E acrescenta: "Para impor-se, o capitalismo está interessado só na realização de uma universalidade da regulamentação jurídica, que abraça tudo de maneira igual" [4] .

Essa afirmação pode ser lida num livro publicado no mesmo ano em que a polícia, em Paris, desencadeia uma caça impiedosa contra os argelinos, afogados no rio Sena ou mortos a pauladas; e tudo isso à luz do dia, aliás, na presença de cidadãos franceses que, sob a proteção do governo da lei, assistem divertidos ao espetáculo: belo exemplo de "igualdade formal"! Na capital de um país capitalista e liberal assistimos a ação de uma dupla legislação, que entrega ao arbítrio e ao terror policial um grupo étnico bem definido. Se, depois, considerarmos as colônias e as semi-colônias e olharmos, por exemplo, a Argélia ou então o Quênia ou a Guatemala (um país formalmente livre, mas, de fato, sob o protetorado norte-americano), veremos o Estado dominante, capitalista e liberal, lançando mão, de forma ampla e sistemática, da tortura, dos campos de concentração e das práticas genocidas contra os povos indígenas. Disso tudo não há vestígio nem em Bobbio, nem em Della Volpe e tampouco em Bloch.

Os povos coloniais ou de origem colonial continuam ausentes quando o autor de Direito Natural e Dignidade Humana trata de Grotius e de Locke (o apreço por sua orientação jusnaturalista não menciona o empenho de ambos em justificar a escravidão negra), ou no momento em que faz referência à Guerra de Independência americana (a homenagem feita aos "jovens Estados livres" nem sequer menciona o peso da escravidão na realidade político-social e na própria Constituição dos EUA) [5] .

Esse silêncio é ainda mais singular porque, justamente nesses anos, começa a desenvolver-se, na república do outro lado do Atlântico, a luta dos afro-americanos. É um acontecimento que chama a atenção de Mao Tsé-tung, em Pequim, e pode ser interessante confrontar os posicionamentos de duas personalidades tão diferentes entre si. Se o filósofo alemão denuncia o caráter meramente "formal" da igualdade liberal e capitalista, o dirigente comunista chinês procede, por sua vez, de maneira bem diferente. Decerto, ele ressalta o fato de os negros apresentarem uma taxa de desemprego bem maior que a dos brancos, além de serem confinados aos segmentos inferiores do mercado de trabalho e serem obrigados a contentar-se com salários reduzidos. Isso, porém, não é tudo: Mao chama a atenção para a violência racista desencadeada pelas autoridades do Sul e pelos bandos tolerados ou encorajados por elas e celebra a "luta do povo negro americano contra a discriminação racial e pela liberdade e a igualdade dos direitos" [6] . Bloch critica a revolução burguesa pelo fato de ela "ter limitado a igualdade à liberdade política"; em relação aos afro-americanos, Mao observa que "a maioria deles está desprovida do direito de voto" [7] . Reduzidos à mercadoria e desumanizados pelos seus opressores, os povos coloniais travaram batalhas memoráveis pelo reconhecimento durante séculos, mas em Bloch se lê: "O princípio pelo qual os homens nascem livres e iguais já está presente no direito romano; agora deve estar presente também na realidade". E vejamos agora a conclusão do artigo de Mao de 1963, acima citado: "O perverso sistema colonial-imperialista desenvolveu-se graças à escravidão e ao tráfico negreiro, e ele certamente chegará ao fim com a total libertação dos negros" [8] .

Sinais semelhantes manifestam-se no Vietnã, onde está ocorrendo uma grande luta de libertação nacional guiada por Ho Chi Minh, que, já em 1920, acusara a Terceira República francesa nestes termos: "A chamada justiça indochinesa, naquela região, tem dois pesos e duas medidas. Os anamitas não têm as mesmas garantias dos europeus e dos europeizados". Não são apenas "vergonhosamente oprimidos e explorados" mas também "horrivelmente martirizados" e sofrem "todas as atrocidades cometidas pelos bandidos do capital" [9] . Como se vê, nos textos aqui citados de Mao e de Ho Chin Minh, a libertas minortão cara a Della Volpe não é subestimada e tampouco a ilusão (comum, com modalidades diferentes, em Bobbio, Della Volpe e Bloch), segundo a qual o capitalismo e o liberalismo garantiriam de qualquer modo a "igualdade formal" ou até mesmo a "igualdade política". Tanto o líder chinês como o líder vietnamita têm, de alguma forma presente, a indicação de Lênin: "Os homens políticos mais liberais e radicais da livre Grã-Bretanha […] se transformam, quando se tornam governadores da Índia, em verdadeiros Genghis Khan" [10] . Na própria metrópole capitalista e liberal manifestam-se "contínuas violações da igualdade (inclusive) jurídica das nações": a esse respeito, Lênin cita em 1920 o exemplo da "Irlanda" e dos "negros da América"; tanto na Inglaterra, como nos Estados Unidos, as "garantias dos direitos das minorias nacionais" [11] são vilipendiadas. E tanto Mao como Ho Chi Minh poderiam ter mencionado as páginas em que Marx denuncia o tratamento da Inglaterra liberal em relação à Irlanda (uma colônia situada na Europa): trata-se de uma política ainda mais cruel e terrorista do que a praticada pela Rússia czarista e autocrática contra a Polônia (MEW, XVI, 552). Como se vê, o marxismo "oriental" empenha-se, compreensivelmente, muito mais do que o marxismo "ocidental" na denúncia das cláusulas macroscópicas de exclusão da liberdade liberal.

2. Althusser e a crítica do "humanismo" 

Voltemos ao debate suscitado por Bobbio em 1954. Há uma intervenção sensivelmente diferente daquela de Della Volpe. A polêmica com o filósofo de Turim desenvolve-se agora assim: "Quando e em que medida foram aplicados aos povos coloniais aqueles princípios liberais sobre os quais se diz fundado o Estado inglês do século XIX, modelo, creio, de regime liberal perfeito para aqueles que raciocinam como Bobbio?". A verdade é que a "doutrina liberal […] está fundada numa discriminação bárbara entre as criaturas humanas", que se alastra não só nas colônias, mas na própria metrópole, como demonstra o caso dos negros estadunidenses, "na maioria privados dos direitos elementares, discriminados e perseguidos" [12] . Nessa tomada de posição não há nenhuma degradação da "liberdade formal" à libertas minor, mas, ao mesmo tempo, não se perde de vista o fato de sua fruição ter sido historicamente negada às massas incalculáveis de homens pelo próprio Ocidente liberal. Essa intervenção deve-se a um autor hoje quase completamente esquecido, mas que responde pelo nome de Palmiro Togliatti, na época secretário-geral do PCI. Estamos diante de um expoente do "marxismo ocidental"? No entanto, deve-se notar que não se trata de um filósofo profissional, e sim de um político profissional, além disso ligado organicamente – pelo menos assim julgam seus críticos – ao orientalizante "socialismo real".

Concentremo-nos, contudo, na expressão utilizada por Togliatti: "discriminação bárbara entre as criaturas humanas". Trata-se de uma condenação inspirada por aquele "humanismo integral" em que, segundo Gramsci, consiste o comunismo; por outro lado, vimos Bloch levantar, em 1961, a bandeira em defesa da "dignidade humana". Naqueles mesmos anos, o humanismo exerce um papel fundamental em Sartre, que faz uma denúncia apaixonada do colonialismo evidenciando justamente teorias e práticas de desumanização por ele desenvolvidas. Estamos diante de expressões diferentes daquele "humanismo" que mais tarde se torna o bicho-de-sete-cabeças de Louis Althusser. Como é sabido, o jovem Marx denuncia a sociedade existente como negação do "humanismo positivo" ( positiver Humanismus ) e do "humanismo realizado" ( vollendeter Humanismus ) (MEW, Erg. Bd., I 583 e 536), do "humanismo real" (realer Humanismus ) (MEW, II, 7), e formula seu programa revolucionário, enunciando o "imperativo categórico de derrubar todas as relações em que o homem é um ser degradado, escravizado, abandonado, desprezado" (MEW, I, 385). Para Althusser, essas formulações são ingenuidades ideológicas, felizmente superadas pelo Marx maduro, a partir aproximadamente de 1845, quando teria ocorrido a "ruptura epistemológica" e a retórica humanística, que esqueceu a luta de classes, que teria sido suplantada pelo materialismo histórico, ou melhor, pela ciência da história.

Na realidade, essa suposta retórica continua ecoando mais forte do que nunca no Manifesto do Partido Comunista, que convida a derrubar um sistema, o capitalista, que desconhece a dignidade humana da imensa maioria da população: no banco dos réus são colocadas as relações econômicas e sociais que implicam a "transformação em máquina" dos proletários (MEW, IV, 477), rebaixados desde a infância a "meros artigos de comércio e instrumentos de trabalho" (MEW, IV, 478), a "simples acessório da máquina" (MEW, IV, 468), à apêndice "dependente e impessoal" do capital "independente e pessoal" (MEW, IV, 476).

Para Althusser, o Manifesto do Partido Comunista faz parte das "obras de maturação teórica" e não das "obras da maturidade" plenamente alcançada [13] . Vejamos, então, em que termos O Capital coloca no banco dos réus o sistema capitalista: a busca pelo lucro implica um "desperdício" de vida humana , digno de Timur-Tamerlão" (MEW, XXIII, 279, nota 208). É um sistema que não hesita em sacrificar vidas humanas em formação e incapazes de se defender: eis o "grande rapto herodiano das crianças realizado pelo capital no início do sistema fabril nas casas dos pobres e dos orfanatos, através do qual ele incorporou um material humano totalmente desprovido de vontade" (MEW, XXIII, 425, nota 144). São terríveis os custos humanos do capitalismo. Basta pensar na formação da indústria têxtil na Inglaterra: procura-se a matéria-prima necessária cercando e destinando às pastagens as terras comuns que antes asseguravam a subsistência de grande parte da população que, expropriada, é condenada à fome e ao desespero: sim – sintetiza O Capital citando Thomas More – "as ovelhas devoram os homens " (MEW, XXIII, 747, nota 193). A sociedade burguesa ama celebrar a si mesma como "um verdadeiro Éden dos direitos inatos do homem ", na realidade no seu âmbito o "trabalho humano", aliás, "o homem enquanto tal […] desenvolve ao contrário um papel miserável" (MEW, XXIII, 189 e 59). Se passarmos apenas da esfera da circulação à da produção, notamos que, bem longe de ser reconhecido em sua dignidade de homem, o trabalhador assalariado "leva ao mercado a sua própria pele e não tem outra coisa a esperar a não ser o… curtume" (MEW, XXIII, 191).

A crítica dos processos de desumanização ínsitos no capitalismo ressoa com força ainda maior quando Marx fala do destino reservado aos povos coloniais: com "a aurora da era da produção capitalista", a África se transforma em uma "reserva de caça para os mercadores de pele negra" (MEW, XXIII, 779). Passemos agora para a Ásia e para o império colonial holandês: aí funciona "o sistema de roubo dehomens nas Célebes para obter escravos para Java", com "ladrões de homens" Menschenstehler ) propositalmente "adestrados para tal finalidade" (MEW, XXIII, 780). Ainda na metade do século XIX vemos nos EUA o escravo negro assumindo completamente a forma de simples "propriedade" tanto quanto as outras, enquanto a lei sobre a restituição dos escravos fugitivos determina a transformação dos próprios cidadãos do Norte em "caçadores de escravos" (MEW, XV, 333). Nesse meio-tempo, alguns Estados no Sul especializam-se na "criação de negros" ( Negerzucht ) (MEW, XXIII, 467), ou seja, no "breeding of slaves" (MEW, XXX, 290: carta a Engels de 29 de outubro de 1862). Renunciando aos tradicionais "artigos de exportação", esses Estados "criam escravos" como mercadorias de "exportação" (MEW, XV, 336). Por outro lado, quando estoura a guerra, eis que proprietários de escravos abandonam áreas consideradas pouco seguras para transferir-se para o Sul, arrastando consigo seu excelente " black chattel" (MEW,XXX, 290: carta a Engels de 29 de outubro de 1862). Como se vê, também nos escritos da maturidade, recorre em Marx a motivação crítica que censura a sociedade burguesa por ela reduzir a grande maioria da humanidade à "máquinas", a "instrumentos de trabalho", à "mercadoria" que pode ser tranquilamente "esbanjada", a "produtos de comércio" e a "artigos de exportação", a bens móveis dos quais o dono pode dispor como uma "bagagem", a animais de criação, ou seja, à pele objeto de caça ou a ser destinada ao curtume.

A denúncia do anti-humanismo do sistema capitalista não desapareceu de modo algum e nem pode desaparecer, porque está no centro do pensamento de Marx: a comparação, tão importante para ele, entre escravidão moderna e escravidão antiga, escravidão assalariada e escravidão colonial, significa a permanência, no âmbito do capitalismo, daquele processo de reificação que se manifesta em toda a sua crueza em relação ao escravo propriamente dito, completamente reduzido à mercadoria ou à condição de animal. O rigor científico e a indignação moral resultam tão entrelaçados entre si, e é somente este entrelaçamento que pode explicar o apelo à revolução. Por mais fiel e impiedosa que possa ser, a descrição da sociedade existente não pode por si só estimular a ação para a sua derrubada, se não houver a mediação da condenação moral; e essa condenação moral brota em Marx da constatação dos processos de desumanização ínsitos ao sistema capitalista; a partir daí, a realização de uma nova ordem é percebida como um "imperativo categórico", e isso tanto nos escritos de juventude quanto nos escritos de maturidade. Se as Teses contra Feuerbach se concluem com a condenação dos filósofos que se revelam incapazes de "transformar" um mundo no qual o homem é esmagado e humilhado, O Capital é uma "Crítica da Economia Política" – como reza seu subtítulo – também no plano moral: o "economista político" é criticado não apenas por seus erros teóricos, mas também por sua "imperturbabilidade estóica", isto é, por sua incapacidade de indignação moral diante das tragédias provocadas pela sociedade burguesa (MEW, XXIII, 756). A continuidade na evolução de Marx é evidente, e aquilo que Althusser descreve como ruptura epistemológica nada mais é que a passagem para um discurso no âmbito do qual a condenação moral do anti-humanismo da sociedade burguesa é expressa de maneira mais sintética e mais elíptica.

3. Da história à "ciência" ou do materialismo ao idealismo, da história mundial ao eurocentrismo 

Podemos perfeitamente compreender as razões da posição adotada pelo filósofo francês: são os anos em que a bandeira do "humanismo" é agitada para abafar a luta contra o imperialismo; iniciou-se o processo que mais tarde levará à capitulação de Gorbachev. Analisando melhor, a crítica filosófica do humanismo, enquanto inclinada a ocultar o conflito social e sua aspereza, é, ao mesmo tempo, a polêmica contra as "concepções tingidas de reformismo e de oportunismo ou, mais simplesmente, revisionistas", que vinham se difundindo naquela época [14] . Infelizmente, essa polêmica é conduzida a partir de posições erradas. Em primeiro lugar, deve-se considerar que não só o apelo à humanidade comum (e à moral), mas também o apelo à ciência pode levar ao esquecimento da luta de classes. E, todavia, o filósofo francês toma posição justamente contra o slogan "ciência burguesa, ciência proletária" e atribui como mérito de Stalin o fato de este ter-se oposto à "loucura" que exigia "a todo custo fazer da língua uma superestrutura" ideológica. Graças a essas "simples páginas" – conclui Althusser – "vislumbramos que o uso do critério de classe não era ilimitado e que nos faziam tratar como uma ideologia qualquer ciência, cujo título incluía as próprias obras de Marx" [15] . Pode ser considerado ilimitado o uso do critério de classe pela moral? Podem ser realmente postas no mesmo plano posições que reivindicam a unidade do gênero humano e posições que, na prática, e às vezes de maneira explicita até na teoria, promovem a desumanização das grandes massas de homens, rebaixados a Untermenschen e destinados somente a serem escravizados ou aniquilados?

Polemizando contra a leitura humanista do marxismo, Althusser não se cansa de repetir que Marx não parte do "homem" ou do "indivíduo" mas da estrutura histórica das relações sociais. Contudo, é estranho que o conceito de "homem" ou de "individuo" seja considerado óbvio. Convém, então, remeter a Nietzsche que, após ter condenado a Comuna de Paris desencadeada por uma "classe bárbara de escravos" em nome da "dignidade do homem" e da "dignidade do trabalho" humano [16] , condena a "agitação individualista" [17] , de um movimento, o socialismo, cuja erro é querer transformar em indivíduos e em pessoas aqueles que por natureza "não são nenhuma pessoa", mas simples "portadores, instrumentos de transmissão" [18] . Ou seja, longe de ser um dado óbvio, o conceito de indivíduo e de homem enquanto tal é o resultado de lutas gigantescas pelo reconhecimento, conduzidas agitando justamente a bandeira do humanismo tão desprezado por Althusser. Isso já vale para os trabalhadores assalariados da metrópole (muitas vezes desumanizados pela tradição liberal e assimilados a instrumentos de trabalho, a máquinas bípedes, a bestas de carga), mas vale de maneira toda especial para os povos coloniais. Não faz sentido contrapor a estrutura histórica das relações sociais ao conceito de homem ou de indivíduo como tal, pelo fato de que esse mesmo conceito pressupõe radicais transformações políticas e sociais. Quando afirma que o humanismo em última análise é burguês, Althusser argumenta de maneira análoga a Bloch: tanto num caso como noutro a sociedade burguesa é recriminada por se ater apenas à "igualdade formal" e, desse modo, são removidas também as desigualdades formais e os profundos processos conexos que caracterizam o capitalismo.

É verdade, o filósofo francês reconhece que pode existir também um "humanismo revolucionário" originado pela Revolução de Outubro [19] , mas nesse ponto é muito hesitante; e assim impede a si mesmo a compreensão das lutas gigantescas por reconhecimento conduzidas pelos "escravos das colônias" (para usar uma linguagem tão cara a Lênin). Esse resultado é ainda mais inevitável pelo fato de a teoria de Marx ser, em Althusser, só um capítulo da história do pensamento científico: "Antes de Marx só dois grandes continentes haviam sido abertos ao conhecimento científico, após rupturas epistemológicas sucessivas: o continente matemático graças aos gregos […] e o continente físico, graças a Galileo e seus sucessores" [20] . É um enfoque que determina duas consequências muito relevantes: 1) Marx insistiu várias vezes sobre o fato de que a sua teoria é a expressão teórica de um movimento real; agora, porém, é o movimento real que é considerado o produto, para dizer com Althusser, de uma "ruptura epistemológica", ou, para dizer com Della Volpe, de um método científico que aprende a lição de Galileo e, antes ainda, de Aristóteles, crítico de Platão. Assistimos assim a uma distorção idealista do materialismo histórico, visto como o resultado da genialidade de um único indivíduo que se aventurou na descoberta de um novo continente! Após ter censurado repetidamente o humanismo por ocultar a luta de classes, agora é o próprio Althusser que faz desaparecer a luta de classes atrás da elaboração do materialismo histórico. 2) A distorção idealista do marxismo é, ao mesmo tempo, sua reinterpretação em termos eurocêntricos. Para Engels, Lênin e Gramsci, o marxismo tem atrás de si a Revolução Francesa, e esta acabava remetendo, pelo menos potencialmente, às lutas gigantescas suscitadas por ela em Santo Domingo e que culminaram com a abolição da escravidão nas colônias. Agora, ao contrário, a elaboração do materialismo histórico é o capítulo de uma história que se desenvolve exclusivamente no Ocidente.

4. O "marxismo ocidental" lê o "marxismo oriental": um equívoco coletivo 

'O marxismo ocidental', editado pela Boitempo.Althusser segue com profunda participação as lutas realizadas pelos povos coloniais, e olha com simpatia para a China que aspira pôr-se à frente do movimento anti-imperialista; contudo, do ponto de vista teórico, ele não parece capaz de apreender plenamente o significado dessas lutas. Estamos diante de um fenômeno de caráter geral. No decorrer dos anos de 1960 e 1970, um equívoco coletivo caracteriza a esquerda de orientação marxista na Europa e nos Estados Unidos: as grandes manifestações em favor do Vietnã se entrelaçam tranquilamente com a homenagem tributada a autores propensos a considerar definitivamente superados os movimentos de libertação nacional. Em 1966, Adorno, em A Dialética Negativa, liquida a tese hegeliana do "espírito do povo" (Volksgeist ), ou seja, o caráter essencial da dimensão e da questão nacional, como "reacionária" e regressiva "em relação ao universal kantiano de seu período, a humanidade agora visível", como eivada de "nacionalismo" e "provinciana na época de conflitos mundiais e do potencial de uma organização mundial do mundo". Pior ainda, tratar-se-ia do culto tributado a um "fetiche", a um "sujeito coletivo" (a nação), no âmbito do qual "os sujeitos individuais desaparecem sem deixar vestígios" [21] . É uma tomada de posição que a posteriori deslegitimava a guerra conduzida pela Frente de Libertação Nacional da Argélia, um povo e um país sem dúvida mais provinciano, mais atrasado e menos cosmopolita do que a França, contra a qual se insurgiram. Em todo caso, Adorno colocava-se na impossibilidade de entender as grandes lutas que estavam acontecendo inclusive debaixo de seus olhos, a começar por aquela guiada pela Frente de Libertação Nacional do Vietnã.

De resto, vejamos de que maneira o "marxismo oriental" argumenta sobre esse ponto. Três anos depois da publicação de Dialética Negativa, Ho Chi Minh morre. Em seu testamento, depois de ter convocado seus concidadãos à "luta patriótica" e ao compromisso "pela salvação da pátria", no plano pessoal ele traça este balanço: "Por toda vida eu servi minha pátria de corpo e alma, servi a revolução, servi o povo"[22] . Por outro lado, já em 1960, por ocasião do seu septuagésimo aniversário, o dirigente vietnamita recordara seu percurso intelectual e político afirmando que: "no começo fora o patriotismo e não o comunismo que me levou a acreditar em Lênin e na Terceira Internacional". Em primeiro lugar, os apelos e os documentos que apoiavam e promoviam a luta de libertação dos povos coloniais, ressaltando seu direito de constituir-se como Estados nacionais independentes, provocaram grande emoção: "As teses de Lênin sobre a questão nacional e colonial despertavam em mim grande comoção, um grande entusiasmo, uma grande fé, e me ajudavam a ver claramente os problemas. Tão grande era a minha alegria que até chorei" [23] . No que diz respeito a Mao, basta pensar na declaração que ele dera na véspera da fundação da Republica Popular Chinesa, em 1949: "A nossa não será mais uma nação sujeita ao insulto e à humilhação. Já nos levantamos […] A época na qual o povo chinês era considerado selvagem agora acabou" [24] .

Compreende-se perfeitamente a atitude dos dois grandes revolucionários. Atrás deles estava agindo a lição de Lênin, que assim caracterizara o imperialismo: trata-se de um sistema em cujo âmbito algumas pretensas "nações-modelo" atribuem a si mesmas "o privilégio exclusivo da formação do Estado", negando-o aos povos das colônias [25] ; sim, "poucas nações eleitas" pretendem construir o próprio "bem-estar" e estabelecer a própria primazia na pilhagem e no domínio do resto da humanidade [26] . Ou seja, além da pilhagem econômica e da opressão política, o imperialismo é também caracterizado pela hierarquização das nações. Os povos explorados e oprimidos são, ao mesmo tempo, rotulados como incapazes de se autogovernar e de se constituir como Estado nacional; a luta para livrar-se desse estigma é uma grande luta pelo reconhecimento.

Mas naquela época a homenagem a Ho Chi Minh, a Mao ou a Castro, não favorecia, de forma alguma, posições de distanciamento do niilismo nacional absorvido na escola do marxismo ocidental. E nem mesmo Sartre era capaz de opor resistência ao niilismo nacional, apesar de seu grande compromisso na luta contra o colonialismo. Como esclarece um capítulo fundamental de Crítica da Razão Dialética (Livro I, cap. C), o filósofo francês faz derivar os vários conflitos humanos, em última análise, da "penúria" ( rareté). O resultado dessa abordagem é avassalador. Na medida em que parece determinar uma luta pela vida e pela morte, a condição de penúria acaba, de alguma forma, justificando os responsáveis pela opressão. Eles aparecem como os protagonistas de uma luta trágica pela sobrevivência que, no presente se impõe de maneira fatal e, no futuro, pode ser eliminada apenas por um extraordinário desenvolvimento das forças produtivas. No lado oposto, os oprimidos aparecem movidos apenas pelo desejo de escapar das intoleráveis condições de vida; mas, então, posto que a língua, a cultura, a identidade e a dignidade nacional não desempenham nenhuma função, não se compreende a participação na luta contra a opressão nacional por parte de camadas sociais que gozam de um padrão de vida confortável ou de uma comodidade mais ou menos relevante. Como se vê, a simpatia pelos "deserdados da terra" e a indignação pelos crimes do colonialismo e do imperialismo na Argélia ou no Vietnã, embora meritórias, não garantem por si só uma compreensão adequada da questão nacional.

A razão profunda dessa atitude contraditória será esclarecida, de maneira exemplar, algumas décadas mais tarde por Hardt e Negri: "Da Índia à Argélia, de Cuba ao Vietnã, o Estado é a dádiva envenenada da libertação nacional". É verdade, os palestinos podem contar com a nossa simpatia; mas, a partir do momento em que "forem institucionalizados", não se pode mais estar do "lado deles". O fato é que "no momento em que a nação começa a se formar e se torna um Estado soberano, suas funções progressistas desaparecem" [27] . Ou seja, pode-se ter simpatia pelos vietnamitas, pelos palestinos ou por outros povos somente enquanto eles forem oprimidos e humilhados; pode-se apoiar uma luta de libertação nacional apenas na medida em que ela continua sendo derrotada! A derrota ou a incapacidade de um movimento revolucionário são a premissa para que o rebelde possa autocelebrar-se e deleitar-se como rebelde que recusa em qualquer circunstância contaminar-se com o poder constituído!

É óbvio que os líderes dos povos em luta pela própria emancipação argumentam de maneira totalmente diferente. Em setembro de 1949, às vésperas da conquista do poder pelos comunistas, Mao chama a atenção para o desejo de Washington de que a China "se reduza a viver com a farinha americana", acabando assim por "tornar-se uma colônia americana" [28] ; a luta pelo desenvolvimento da produção se configurava então como uma continuação da luta pela independência nacional.

Na verdade, já o Manifesto do Partido Comunista afirmara que o "proletário usará seu poder político" e o controle dos meios de produção, em primeiro lugar, "para aumentar, o mais rapidamente possível, o total das forças produtivas" e, em particular, para desenvolver as "novas indústrias", que não têm mais uma base nacional e cuja "introdução" é "uma questão de vida e de morte para todas as nações civis" (MEW, IV, 481 e 466). E, contudo, o problema de caráter geral sobre o qual Marx e Engels chamam a atenção adquire no Oriente uma urgência toda particular. Depois de ter se livrado do jugo colonial, os países e os povos recém-independentes estão comprometidos em consolidar a independência no plano econômico: não querem mais depender da esmola ou do arbítrio de seus ex-patrões; consideram essencial quebrar o monopólio que os países mais poderosos detêm sobre a tecnologia mais avançada.

De fato, podemos ver no Vietnã uma orientação semelhante àquela já analisada em relação a Mao. Em plena guerra pela independência e pela unidade nacional, o então primeiro secretário do Partido dos Trabalhadores do Vietnã do Norte declara que, depois da conquista do poder, a tarefa mais importante reside na "revolução técnica". Agora "são as forças produtivas que desempenham o papel decisivo"; trata-se portanto de empenhar-se com afinco para "alcançar uma produtividade mais elevada, estimulando a construção da economia e o desenvolvimento da produção" [29] .

Mas no Ocidente, justamente no momento em que se desenvolve com mais intensidade o movimento de apoio à resistência vietnamita e a influência da China se faz sentir com mais força, ressoam vozes muito diferentes no âmbito da esquerda marxista. Na Itália, Mario Tronti publica um livro que tem logo um grande sucesso. Eis uma de suas teses principais: a revolução socialista "suprime o trabalho. E justamente assim elimina o domínio de classe. Supressão operária do trabalho e destruição violenta do capital são, portanto, uma coisa só" [30] . Estamos em 1966, ano em que na China eclode a Revolução Cultural. E é nesse momento que a comédia de equívocos chega ao ápice.

A Revolução Cultural é lançada com uma palavra de ordem bem precisa: "Fazer a revolução e estimular a produção". Entre os marxistas ocidentais não são raras as tomadas de posição concordantes ou entusiastas; a segunda parte desta palavra de ordem, porém, acaba sendo esquecida. Entretanto, ainda em 1969, por ocasião do IX Congresso do Partido Comunista Chinês, Lin Piao, herdeiro designado por Mao naquele momento, afirma:
"Justamente como foi ressaltado em Os 16 pontos que três anos antes haviam inaugurado a Revolução Cultural: 'A Grande Revolução Cultural Proletária constitui uma poderosa força motriz para o desenvolvimento das forças produtivas sociais no nosso país' , a produção agrícola no nosso país obteve boas colheitas por vários anos consecutivos; apresenta-se também uma situação vigorosa na produção industrial, na ciência e na tecnologia; o entusiasmo das grandes massas trabalhadoras pela revolução e a produção alcançou um nível sem precedentes; numerosas fábricas, minas e outras empresas bateram continuamente recordes de produção, chegando assim a um nível jamais visto na história e a revolução técnica está em contínuo desenvolvimento […] 'Fazer a revolução e estimular a produção' – este princípio é absolutamente justo" [31] .
Lin Piao reafirmava com insistência este ponto: "Devemos […] fazer com firmeza a revolução e estimular com vigor a produção, cumprindo e superando o plano de desenvolvimento da economia nacional. É claro que a grande vitória da Grande Revolução Cultural Proletária continuará alavancando novos saltos para frente na economia e na nossa causa, para a edificação socialista em seu conjunto". Aliás, uma das principais acusações contra o presidente deposto da República Popular Chinesa, Liu Shao-chi, era "a teoria dos passos de lesma", ou seja, a incompreensão de que a Revolução Cultural teria prodigiosamente acelerado o desenvolvimento das forças produtivas e levado o país, em curto espaço de tempo, ao nível dos países capitalistas mais avançados [32] . Não por acaso, a Revolução Cultural retomava e relançava o Grande Salto para a Frente de 1958 mediante o qual a China esperava queimar as etapas para alcançar os países capitalistas mais avançados.

Não se deve esquecer que já, em 1937, em seu ensaio Sobre a Prática, retomando um tema do Manifesto do Partido Comunista, Mao sublinhara a centralidade da "atividade produtiva material" e do desenvolvimento das forças produtivas para o aumento não apenas da riqueza social, mas também do "conhecimento humano": sim, "a produção em escala reduzida limitava o horizonte dos homens"; e é em virtude dessa sua função pedagógica que a atividade produtiva material não está destinada a desaparecer nem mesmo "na sociedade sem classes", no comunismo [33] . Mas no Ocidente, a celebração de Mao podia conjugar-se bem com a espera do fim do trabalho; muitas vezes citava-se o ensaio Sobre a Prática,para remeter, porém, só à luta de classes, removendo seja a luta pela produção, seja a luta pela experimentação científica.

No marxismo ocidental, a divisão populista em duas partes da principal palavra de ordem lançada pela Revolução Cultural, corresponde à divisão do pensamento de Mao. Ele se sentia fortemente empenhado na eliminação de dois tipos de desigualdade: a que vigorava dentro do povo chinês mas também, e talvez mais ainda, a que separava a China dos países mais avançados. Acelerando poderosamente o desenvolvimento das forças produtivas, a superação da primeira contradição tornaria possível a superação também da segunda; dessa forma, a nação chinesa se levantaria de modo estável e definitivo, a longa luta pelo reconhecimento da China tornada necessária pela opressão e pela humilhação impostas pelo imperialismo seria coroada de um sucesso total.

No Ocidente, contudo, a Revolução Cultural, o pensamento e a obra de Mao, a Revolução Chinesa em sem conjunto acabava sendo reduzida a um único slogan: "Rebelar-se é justo". O grande revolucionário, já dividido no sentido que conhecemos, era submetido ainda a uma leitura anarcóide. Derrotado a duras penas na época da Segunda Internacional, o anarquismo obtém uma clamorosa revanche no movimento de 1968.

5. De Foucault a Negri: a progressiva transfiguração do Império 

Nesse clima espiritual e político, a cultura de orientação marxista começa a ser seduzida e subvertida por autores e correntes de pensamento que deveriam, no entanto, ter sido vistos com um certo distanciamento crítico. Apoiado desde o início por Althusser [34] , Foucault irrompe fortemente com sua análise da difusão ou da onipresença do poder não só nas instituições e nas relações sociais, mas também no dispositivo conceitual. É um discurso que fascina por seu radicalismo e, além disso, permite um acerto de contas com o poder e a ideocracia que estão na base do "socialismo real", cuja crise se manifesta cada vez mais nitidamente. Na realidade, o radicalismo não é só aparente mas se transforma em seu contrário. A atitude que condena toda relação de poder, aliás, toda forma de poder, tanto no âmbito da sociedade, como no âmbito do discurso sobre a sociedade, torna muito problemática, ou impossível, a "negação determinada" ( bestimmte Negation ), aquela negação de um "conteúdo determinado" que, hegelianamente, é o pressuposto de uma transformação real da sociedade, o pressuposto da revolução [35] . Além disso, esse esforço de individuação e desmistificação do domínio em todas as suas formas manifesta lacunas surpreendentes, justamente onde o domínio se manifesta em toda a sua brutalidade: a atenção reservada ao domínio colonial é muito escassa ou inexistente.

Pierre Boulez, amigo de Foucault, participa do protesto promovido por Sartre contra o massacre dos argelinos em Paris. Foucault parece não aderir. De maneira geral, ele não parece desempenhar nenhum papel na luta contra a tortura e a cruel repressão com que o poder procura debelar a luta pela libertação nacional. Foi justamente observado, a respeito de Foucault, que "sua crítica do poder continua olhando para a Europa" [36] . Mas é possível ir além: o colonialismo e a ideologia colonial estão amplamente ausentes na história do mundo moderno e contemporâneo reconstruída pelo filósofo francês. A julgar por essa história, o "surgimento do racismo de Estado deve ser colocado no início do século XX" [37] , enquanto é o advento do Terceiro Reich que marca o "aparecimento de um Estado absolutamente racista"[38] . Essa periodização foi posta em dúvida com muita antecedência pelos abolicionistas que, no século XIX, queimavam em praça pública a Constituição americana, tachada de ser um pacto com o diabo por consagrar a escravidão racial; ou aqueles abolicionistas que recriminavam a lei sobre os escravos fugitivos de 1850 por ela obrigar todo cidadão estadunidense "a se tornar um caçador de homens": era passível de punição não só quem tentasse esconder ou ajudar o negro perseguido pelos seus legítimos proprietários, mas também quem não colaborasse para a sua captura [39] . Como justificativa parcial de Foucault, poder-se-ia dizer que ele ignora esse capítulo da história; mas, pelo menos, ele poderia ter lido o comentário de Marx sobre a Fugitive Slave Law: "Exercer a função de caçador de escravos por conta dos proprietários sulistas de escravos parecia ser a tarefa constitucional do Norte" (MEW, XV, 333). Em todo caso, não estamos diante de um racismo que se manifesta apenas no âmbito da sociedade civil: o que decide a colocação social e o destino de um indivíduo, na base de normas jurídicas e constitucionais explícitas, é sua pertença racial. A realidade do Estado racial surge com mais clareza nos Estados Unidos antes da Guerra de Secessão do que no Terceiro Reich: segundo as leis de Nuremberg, o que definia o judeu era também a pertença à religião judaica deste ou daquele seu antepassado, enquanto nos EUA a religião não exercia nenhuma função na definição do negro. O sangue decidia tudo: one drop rule. Hitler não possuía escravos (nem negros, nem judeus), enquanto nas primeiras décadas de história da república norteamericana quase todos os presidentes são proprietários de escravos (negros).

Se não na história dos Estados Unidos, Foucault poderia ter se concentrado na história da Confederação Secessionista ou da África do Sul, ou poderia ter manifestado uma consideração de caráter global: se analisarmos os países capitalistas juntamente com as colônias que eles possuíam, podemos perceber facilmente que o fenômeno denunciado por Ho Chi Minh em relação à Indochina tem um caráter geral: estamos diante de uma dupla legislação, uma para a raça dos conquistadores, outra para a raça dos conquistados. Nesse sentido, o Estado racial segue como uma sombra a história do colonialismo em seu conjunto; só que esse fenômeno se apresenta com mais evidência nos Estados Unidos por causa da contiguidade espacial em que vivem diferentes raças. Mas Foucault não dedica nenhuma atenção à história dos povos coloniais ou de origem colonial.

A história da ideologia racial traçada pelo filósofo francês também faz pensar. Assim, "na metade do século XIX", em contraposição à tradição da Escola dos Anais empenhada em consagrar a soberania, afirma-se um discurso completamente novo, antiautoritário e revolucionário, que decompõe a sociedade em raças (ou classes) em luta e introduz "um princípio de heterogeneidade: a história de uns não é a história de outros" [40] . Entretanto, algum tempo depois, verifica-se uma reviravolta: "a ideia de raça, com tudo aquilo que ela implica ao mesmo tempo em termos monista, estatal e biológico, substituirá a ideia de luta de raças". Trata-se de uma verdadeira inversão: "O racismo representa, literalmente, o discurso revolucionário, mas o representa pelo avesso". Permanece o fato que "a raiz da qual se parte é a mesma"[41] . Desse quadro desapareceram "literalmente" os processos seculares de racização e desumanização que acometem os povos coloniais, assim como as grandes lutas pelo reconhecimento a começar daquela que, com a radicalização da Revolução Francesa, leva à abolição da escravidão nas colônias.

Linchamento de negro em Omaha, Nebraska, 1919.Enfim, Foucault acredita poder afirmar que "a grande ritualização pública da morte desapareceu […] a partir do final do século XIX" [42] . Na realidade, ainda nas primeiras décadas do século XX, nos EUA da white supremacy, o linchamento dos negros é organizado como espetáculo de massa, anunciado pela imprensa local, a que são chamados a assistir e participar também mulheres e crianças e que termina com a distribuição de lembrancinhas do rito sacrificial.

As remoções macroscópicas aqui evidenciadas produzem resultados muito significativos também no plano político. No momento que em Foucault ministra o seu curso no Collège de France aqui analisado – estamos em 1976 – ainda vigora o regime de apartheid da África do Sul racista. Por outro lado, cerca de dez anos antes, Hanna Arendt chamara a atenção sobre a proibição que, em Israel, ainda atingia os casamentos interraciais e sobre outras normas de inspiração análoga, em paradoxal analogia com as "infames leis de Nuremberg de 1935" [43] . Mas, quando o autor francês começa a procurar outra realidade para comparar ao Terceiro Reich em termos de "racismo de Estado", ele consegue identificá-la apenas na União Soviética, país que desde sua fundação tivera um papel decisivo na promoção da emancipação dos povos coloniais e que, ainda em 1976, estava em primeiro plano na denúncia da política antinegra e antiárabe conduzida, respectivamente, pela África do Sul e por Israel!

Foi observado que Foucault exerce uma influencia considerável sobre Antonio Negri. Com efeito… Hoje em dia, importantes autores norte-americanos de orientação liberal descrevem a história de seu país como a história de uma Herrenvolk democrac y, ou seja, de uma democracia que vale apenas para oHerrenvolk (é significativo o recurso de linguagem caro a Hitler), para os "povos dos senhores" e que, por outro lado, não hesita em escravizar negros e exterminar os peles-vermelhas da face da terra. Empire , no entanto, fala em tom compungido de uma "democracia americana" que rompe com a visão "transcendente" do poder, típica da tradição europeia [44] . A apologia, porém, não para aqui. Tomemos uma figura central da história do imperialismo americano, ou seja, Wilson. No momento em que ele começa sua carreira política, o Sul, de onde provém, assiste a irrupção dos esquadrões do Ku Klux Klan contra os negros. Mas o futuro presidente toma a palavra, com um artigo do Atlantic Monthly de janeiro de 1901, para pronunciar um libelo contra as vítimas: os "negros" são "excitados por uma liberdade que não compreendem", são "insolentes e agressivos, preguiçosos e ávidos de prazeres"! Em todo caso, a "emancipação repentina e absoluta dos negros" foi uma catástrofe: causou uma situação "muito perigosa", que a "as assembleias legislativas do Sul" (isto é, os brancos) são obrigadas a enfrentar com "medidas extraordinárias" (os linchamentos e o terror) [45] .

Wilson permanecerá sempre fiel a essa plataforma ideológica e política, em conformidade com a white supremacy no plano interno e internacional. Nesse mesmo contexto pode ser colocado o grande bastão agitado e usado contra a América Latina. Não se deve esquecer que as próprias relações com os aliados europeus, muitas vezes, são caracterizadas por uma rude Realpolitik . Não é por acaso que desde jovem Wilson sente a atração de Bismarck [46] . Tudo isso não impede o presidente norte-americano de intervir na Primeira Guerra Mundial em nome da missão democrática universal dos Estados Unidos: é uma "guerra santa, a mais santa de todas as guerras", um "empreendimento transcendente", do qual são protagonistas os "cruzados" protagonistas americanos. Esse entrelaçamento singular da Realpolitik e da ideia religiosa de missão selada por uma relação privilegiada e direta com o Senhor, provoca a pungente ironia de Freud [47] . Mas esse entrelaçamento torna mais fácil o recurso ao punho de ferro contra a oposição pacifista. É uma repressão bem mais dura do que aquela desencadeada no mesmo período na Alemanha guilhermina e que, não por acaso, provoca a admiração de Mussolini, que está percorrendo a passos largos o caminho que o conduzirá ao movimento esquadrista e ao fascismo [48] . Agora, porém, leiamos Negri (e Hardt): o que caracteriza Wilson é "uma ideologia pacifista internacionalista", bem distante da "ideologia imperialista tipicamente europeia" [49] ! Desde sempre, os ideólogos do Manifest Destiny insistem no primado moral e político dos Estados Unidos, na exceção, ou melhor, no "excepcionalismo" representado por um país, que é a única ilha de liberdade num imenso oceano de despotismo: Empire não argumenta de maneira diferente.

A essa altura proponho uma espécie de exercício intelectual ou, se quisermos, de jogo. Confrontemos dois trechos de dois autores sensivelmente diferentes entre si, mas ambos empenhados em contrapor positivamente os Estados Unidos à Europa. O primeiro celebra a "experiência americana", ressaltando "a diferença entre uma nação concebida na liberdade e devota ao princípio segundo o qual todos os homens foram criados iguais e as nações do velho continente, que certamente não foram concebidas na liberdade"[50] .

Vejamos agora o que diz o segundo:
"O que era a democracia americana senão uma democracia fundada no êxodo, em valores afirmativos e não dialéticos, no pluralismo e a liberdade? Esses mesmos valores – juntamente com a ideia da nova fronteira – não alimentavam continuamente o movimento expansivo do seu fundamento democrático para além das abstrações da nação, da etnia e da religião? […] Quando Hannah Arendt escrevia que a Revolução Americana era superior à Revolução Francesa, pois a Revolução Americana devia ser entendida como uma busca sem fim da liberdade política, enquanto que a Revolução Francesa havia sido uma luta limitada em torno da escassez e da desigualdade, ela exaltava um ideal de liberdade que os europeus tinham perdido, mas que reterritorializavam nos Estados Unidos" [51] .
Qual dos dois trechos aqui citados é mais apologético? É difícil dizer, embora o segundo pareça mais inspirado e lírico: ele foi escrito por Negri (e Hardt), enquanto o primeiro é de Leo Strauss, o autor de referência dos neoconservadores americanos! Vem à mente a observação de Marx a respeito de Bakunin que, com todo seu radicalismo anti-estatalista, acaba poupando a Inglaterra, "o Estado propriamente capitalista", aquele que constitui "a ponta de lança da sociedade burguesa na Europa." (MEW, XVIII, 610 e 608). O anarquismo dos nossos dias vai além, poupando o país que, aos olhos de uma grande e crescente opinião pública mundial, é sinônimo não só de capitalismo, mas também de militarismo e imperialismo. É um país que, aos olhos de eminentes historiadores norte-americanos de orientação liberal, encarna um "excepcionalismo" bem diferente daquele imaginado por Strauss, Negri e Hardt: "Só nos Estados Unidos houve uma ligação estável e direta entre propriedade em escravos e poder político. Só nos EUA os proprietários de escravos tiveram um papel decisivo para fundar uma nação e criar instituições representativas" [52] .

Sartre denunciava, na sua época, "aquele monstro supereuropeu, a América do Norte" [53] . Agora, porém, Empire não só contrapõe positivamente os Estados Unidos à Europa, mas subscreve, ainda, a tese de Arendt sobre a nítida superioridade da Revolução Americana em relação à Revolução Francesa: é evidente que nesse confronto em preto e branco a deportação e a dizimação dos peles-vermelhas e a escravidão dos negros, desenvolvida vigorosamente pela primeira e abolida pela segunda, não exercem nenhum papel. Negri e Hardt não se deixam impressionar pelo fato que, junto com o jacobinismo, Arendt arrasta também Marx para o banco dos réus, o autor da "doutrina politicamente mais prejudicial da Idade Moderna", o responsável por "uma verdadeira capitulação da liberdade diante da necessidade": nisso ele deixou-se influenciar por "seu mestre de revolução, Robespierre" e influenciou, de forma ruinosa, por sua vez, "seu maior discípulo, Lênin" [54] . Portanto, juntamente com a condenação sem atenuantes das duas Revoluções que puseram em discussão o sistema mundial da escravidão e da opressão colonial, Negri e Hardt subscrevem a liquidação do filósofo que, ao condenar a escravidão assalariada praticada na metrópole, remete, às vezes de modo explícito, outras de modo implícito, à escravidão propriamente dita que subsiste nas colônias. É a autodissolução do "marxismo ocidental".

6. "Marxismo ocidental", "marxismo oriental" 

A essa altura, é oportuno examinar de novo a distinção-contraposição formulada por Perry Anderson, à época, entre "marxismo ocidental" e "marxismo oriental" [55] . Primeiramente, convém analisar as condições históricas diferentes em que um e outro viveram e operaram. Partiremos de 1917. Se no Ocidente prevalece, em primeiro lugar, a denúncia das consequências nefastas (a carnificina e o afundamento da democracia) provocadas pela competição e pela guerra inter-imperialista, no Oriente, ao contrário, a Revolução de Outubro tem uma repercussão extraordinária graças ao apelo aos "escravos das colônias" para quebrar as correntes da opressão e da humilhação nacional. Se no Ocidente o Estado-nação era o Moloc sanguinário que sacrificava milhões de homens à sede de domínio e aos interesses do grande capital, no Oriente era o objetivo a ser alcançado para livrar-se do jugo colonial e acabar com as práticas escravagistas e genocidas realizadas pelas grandes potências capitalistas contra os bárbaros. Nas duas áreas em que o mundo estava dividido, o imperialismo era percebido de modo diferente; não há contradição, e sim plena convergência entre esses dois aspectos. Entretanto, o marxismo ocidental e o marxismo oriental nunca se encontraram? Será que o primeiro nunca compreendeu realmente o segundo?

É preciso fazer uma ulterior consideração. A partir do momento em que se esboçam as primeiras dificuldades e tragédias do regime nascido da Revolução de Outubro mas sobretudo a partir do momento em que se evidencia a crise do "socialismo real", a divergência entre marxistas orientais e marxistas ocidentais assistiu à contraposição entre marxistas que, de um lado, exercem o poder e marxistas que, de outro, estão na oposição e se concentram cada vez mais na "teoria crítica", na "desconstrução", aliás, na denúncia do poder e das relações de poder como tais. Está aqui precisamente o ato de nascimento do "marxismo ocidental", o qual, distanciando-se progressivamente do poder, julga identificar a condição privilegiada para redescobrir o marxismo "autêntico", não mais reduzido à ideologia de Estado.

Contudo, esta autoconsciência orgulhosa e, talvez, arrogante, possui um fundamento real? Há o outro lado da moeda, muitas vezes esquecido. Poder-se-ia dizer que o marxismo oriental encontrou-se numa situação mais favorável para compreender e assimilar uma tese essencial de Marx:

"A profunda hipocrisia, a intrínseca barbárie da civilização burguesa estão diante de nós sem véus, não apenas nas grandes metrópoles, onde elas assumem formas respeitáveis, mas voltemos os olhos às colônias, onde perambulam nuas". (MEW, IX, 225).

O marxismo ocidental, no entanto, concentrou-se quase exclusivamente nas "formas respeitáveis" do domínio burguês e capitalista. Após perder de vista a sorte que, em primeiro lugar, estava reservada aos povos coloniais e de origem colonial, a crítica do "socialismo real", embora absolutamente necessária, desembocou numa banal apologética liberal e numa liquidação indiferenciada da história do comunismo do século XX. Esclarecedora é a parábola de Colletti, discípulo de Della Volpe. Mas não menos significativa é a atitude de dois autores que continuam sendo uma referência para a esquerda. Falando da União Soviética de Stalin (e implicitamente de todos os países, que tiveram de curvar-se à lógica do "socialismo num só país"), Hardt e Negri escrevem: "É uma trágica ironia do destino que, na Europa, o socialismo nacionalista acabasse por assemelhar-se ao nacional-socialismo […]. A máquina abstrata da soberania constituía o centro de ambos os sistemas" [56] . Nesse balanço histórico temerário, os povos em condições coloniais ou semicoloniais continuam sem desempenhar nenhum papel. Dois países são tranquilamente comparados e assimilados, dos quais o primeiro deu um forte impulso ao processo de descolonização, e o segundo se propôs herdar e radicalizar a tradição colonial, chegando ao ponto de considerá-la atual na própria Europa oriental.

Se, por outro lado, considerarmos o mundo colonial, o balanço histórico do século XX é bem diferente daquele tão caro à ideologia dominante (e, hoje, até mesmo para os sobreviventes do "marxismo ocidental"). Mesmo concentrando a atenção exclusivamente na "democracia formal", ou seja, no governo da lei e nas liberdades clássicas da tradição liberal, podemos dizer que as sociedades nascidas do Outubro Revolucionário se fecharam sobre si mesmas e acabaram anulando toda forma de democracia; portanto, ao mesmo tempo, elas estimularam a demanda por democracia e emancipação, por reconhecimento, as demandas provenientes dos países coloniais ou dos países colocados na periferia da metrópole capitalista. Neste segundo caso, foi justamente a metrópole democrático-burguesa que sufocou no sangue as reivindicações democráticas.

A influência positiva da União Soviética e do "campo socialista" pode ser constatada também no que diz respeito a uma população de origem colonial colocada no próprio coração da metrópole capitalista. Refiro-me aos afro-americanos. Eles são oprimidos por um regime da white supremacy terrorista no momento em que eclode a Revolução de Outubro. Mas é a partir dela que se percebe uma nova inquietação entre os negros que, sem se deixar intimidar pela caça às bruxas, declaram: "Se lutar pelos próprios direitos significa ser bolchevista, pois bem, nós somos bolchevistas e os outros devem se resignar" [57] . Façamos um salto de quinze anos. É o período mais trágico na história da União Soviética. Imposta fundamentalmente do alto e de fora, a coletivização da agricultura difundiu o gulag em larga escala, enquanto no horizonte vislumbra-se o Grande Terror. É interessante ver, contudo, de que maneira continua sendo recebido pelos afro-americanos o país nascido da Revolução de Outubro. Eles, graças à ação do Partido Comunista dos Estados Unidos, começam a receber aquilo que o regime de supremacia branca obstinadamente lhes negava: uma cultura que ia além da instrução elementar, tradicionalmente dada àqueles que estavam destinados a fornecer trabalho semisservil a serviço da raça dos senhores. Agora, porém, nas escolas organizadas pelo Partido Comunista no Norte dos EUA ou nas escolas de Moscou, os negros se empenham no estudo da economia, da política e da história mundial; questionam essas disciplinas para compreender as razões do destino cruel a eles reservado num país que se vangloria, no entanto, de ser o campeão da liberdade. Ocorre uma mudança profunda naqueles que frequentam essas escolas: a "impudência" que lhes é recriminada pelo regime da white supremacy é, na realidade, a autoestima até aquele momento cerceada e esmagada. Uma mulher negra, delegada no Congresso Internacional das Mulheres contra a Guerra e o Fascismo, realizado em Paris em 1934, ficou profundamente impressionada pelas relações de igualdade e fraternidade, apesar das diferenças de língua e de raça, que se instauram entre as participantes desta iniciativa promovida pelos comunistas. "Era o paraíso na terra". Aqueles que chegam em Moscou – observa um historiador estadunidense contemporâneo – "experimentam um sentido de liberdade inaudito no Sul" dos EUA. Um negro se apaixona por uma mulher branca soviética e casa-se com ela, ainda que mais tarde, ao voltar para a pátria, não possa trazê-la consigo, conhecendo bem o destino que no Sul aguarda os que se mancham com a culpa da miscegenation e com o abastardamento racial [58] . Contudo, mesmo onde grassa o regime da white supremacy, percebe-se um clima novo: olha-se com esperança para a União Soviética e para Stalin como o "novo Lincoln", o Lincoln que acabaria desta vez, de maneira definitiva, com a escravidão dos negros, a opressão, a degradação, a humilhação, a violência e os linchamentos que continuavam sofrendo [59] .

Essas esperanças não foram totalmente frustradas. Pensemos no período e nas modalidades que caracterizam o fim do regime de supremacia branca. Em dezembro de 1952, o ministro da Justiça norte-americano envia uma carta eloquente à Suprema Corte, empenhada em discutir a questão da integração nas escolas públicas: "A discriminação racial alimenta a propaganda comunista e suscita dúvidas também entre as nações amigas sobre a intensidade da nossa devoção à fé democrática". Washington – observa o historiador norte-americano que em nossos dias reconstrói esse acontecimento – corria o risco de se tornar inimigo das "raças de cor" não só no Oriente e no Terceiro Mundo mas no próprio coração dos Estados Unidos: aqui também a propaganda comunista conseguia um sucesso considerável na sua tentativa de ganhar os negros para a "causa revolucionária" abalando-lhes a "fé nas instituições americanas" [60] . Não há dúvida: nesse caso teve papel decisivo a preocupação com o desafio representado objetivamente pela URSS de Stalin e pela influência exercida por ela sobre povos coloniais e de origem colonial.

Vimos que, ao contrário de grande parte do marxismo ocidental, o "marxismo oriental" soube focalizar bem a barbárie colonial do capitalismo. Mas não se trata só disso. Lembremos que Lênin subscreve e considera "magnífica" a "fórmula" da Lógica hegeliana segundo a qual o universal deve ser de forma tal que contenha em si "a riqueza do particular" [61] . É em homenagem a esse enfoque que personalidades como Lênin, Ho Chi Min, Mao, Castro etc. nunca puseram em contradição patriotismo e internacionalismo, aliás, sempre enxergaram na luta de libertação das nações oprimidas um momento essencial da marcha do internacionalismo e do universalismo, daquilo que Gramsci define como "humanismo integral". Não é assim porém no marxismo ocidental. Por um lado – pensemos sobretudo em Althusser – as categorias de humanidade, povo e nação foram vistas com suspeita, como traição da luta de classes. Trata-se de uma atitude de purismo supersticioso, que esquece como as categorias de socialismo, revolução e classe operária podem ser submetidas em sentido conservador e até mesmo reacionário (como no caso daNational-sozialistische deutsche Arbeiterpartei de funesta e hitleriana memória). Em todo caso, as preocupações de Althusser podem ser respondidas com uma penetrante observação de Mao: "Em última análise, a luta nacional é uma questão de luta de classes" [62] .

Por outro lado – pense-se sobretudo em Adorno e atualmente em Negri – difundiu-se o desprezo para com as lutas de libertação nacional, postas em contradição com o internacionalismo e o universalismo. Não por acaso, hoje em dia, é grande o desprezo que os sobreviventes do marxismo ocidental ostentam pelos esforços que países como a China e o Vietnã fazem para consolidar a independência, também no plano econômico, de modo a poder dar – declara Deng Xiaoping em 1987 – "uma contribuição real à humanidade" [63] . De um lado ou de outro, devido à visão reducionista da luta de classes ou da visão abstrata do universal, o marxismo ocidental, em geral, não conseguiu entender a unidade entre universal e particular.

Esse apego a uma visão abstrata e pura do universal, se de um lado impediu uma adequada compreensão dos movimentos de libertação nacional (que continuam a se desenvolver também depois da conquista o poder), de outro tornou impossível a compreensão de um motivo de fundo da crise do "campo socialista". A ruptura entre URSS e Iugoslávia em 1948, e depois a invasão soviética da Hungria e da Tchecoslováquia, os conflitos intensos, as quase-guerras ou as guerras propriamente ditas que surgem entre URSS e China, China e Vietnã e Vietnã e Camboja, tudo isso revela como é difícil a necessária obra de conciliação do internacionalismo (o universal) com o respeito dos interesses, das identidades, das sensibilidades nacionais (o particular). O Partido Comunista Chinês [64] mencionou esse problema algumas vezes em seus melhores momentos; quanto ao marxismo ocidental, este quase sempre leu esses conflitos de modo estereotipado como choques entre despotismo estalinista e espírito libertário, entre burocracia e massas, ou entre coerência revolucionária de um lado e oportunismo ou revisionismo de outro, ou ainda, de modo mais apressado, como demonstração do estranhamento substancial de ambas as partes em luta pelo "autêntico" socialismo e marxismo.

Por fim, o marxismo ocidental desfrutou de sua distância do poder como uma condição privilegiada ou exclusiva para o desenvolvimento das potencialidades críticas da teoria de Marx. Mas se por um lado a distância do poder e o desdém diante do poder podem ofuscar a lucidez do olhar, por outro podem turvar a visão, tornando mais difícil a compreensão dos conflitos mundiais, favorecendo uma atitude idealista e, em última análise, a fuga da história. Só assim pode-se explicar a tese de Bloch segundo a qual a revolução burguesa "limitou a igualdade à igualdade política". Mesmo querendo ocupar-se exclusivamente da metrópole ocidental, trata-se de uma afirmação historicamente insustentável: basta pensar na longa duração da discriminação censitária e sexual.

No conjunto, com o passar dos anos, o marxismo ocidental acabou involuntariamente representando duas figuras fundamentais da filosofia hegeliana: na medida em que se satisfaz com a crítica e, aliás, encontra sua razão de ser na crítica, sem pôr-se o problema de formular alternativas possíveis e de construir um bloco histórico alternativo àquele dominante, ele é a ilustração da sabichonice do dever ser; quando, pois, desfruta da distância do poder como uma condição da própria pureza, ele encarna a bela alma. Talvez não seja por acaso que hoje tenha tanto sucesso no ambiente de esquerda um livro, que desde o título convida a mudar o mundo sem tomar o poder. 65 A autodissolução do marxismo ocidental se configura aqui como o abandono do terreno da política e o desembarque na religião. 
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Notas 
1 Artigo publicado originalmente na revista de Estudos sociológicos de Araraquara (v.16, n.30, p.213-242, 2011). A tradução e a revisão técnica são de Carlo Alberto Dastoli.
NE: o artigo está publicado de acordo com a versão apresentada originalmente, inclusive a normalização, na obra: Wie der «westliche Marxismus» geboren wurde und gestorben ist. In: Erich Hahn, Silvia Holz-Markun (eds.), Die Lust am Widerspruch. Theorie der Dialektik-Dialektik der Theorie. Symposium aus Anlass des 80. Geburtstag von Hans Heinz Holz, Trafo, Berlim, 2008, pp. 35-60.
2 Bobbio, 1977, pp. 164, 167 e 280.
3 Mill, 1972, p. 73.
4 Bloch, 1961, p. 157.
5 Bloch, 1961, p. 80.
6 Mao Tsé-tung, 1998, p. 377.
7 Bloch, 1961, p. 7; Mao Tsé-tung, 1998, p. 377.
8 Bloch, 1961, p. 79; Mao Tsé-tung, 1998, p. 379.
9 In: Lacouture, 1967, p. 37.
10 Sostanze infiammabili nella politica mondiale (1908), In: Lênin 1955-70, vol. XV, pp. 178-9.
11 Primeiro esboço de teses sobre a questão nacional e colonial (junho 1920), In: Lênin 1955-70, vol. XXXI, p. 162.
12 Togliatti, 1974-84, p. 866.
13 Althusser, 1967, pp. 17-8.
14 In: Althusser, Balibar, 1968, p. 149.
15 Althusser, 1967, p. 06.
16 Nietzsche, 1988, vol. I, p. 117 ( O Nascimento da Tragédia , 18)
17 Nietzsche, 1988, vol. XII, p. 503.
18 Nietzsche, 1988, vol. XII, p. 491-2.
19 In: Althusser, Balibar, 1968, p. 150.
20 Althusser, 1969, p. 24.
21 Adorno, 1970, pp. 304-5 e 307.
22 Ho Chi Minh, 1969, pp. 75 e 78.
23 In: Lacouture, 1967, pp 39-40.
24 Mao Tsé-tung, 1998, pp. 87-8.
25 Sobre o Direito das Nações à Autodeterminação (maio de 1914), ver Lênin 1955-70, vol. XX, p. 416-7.
26 Declaração dos Direitos do Povo Trabalhador e Explorado (1918), In: Lênin 1955-70, vol. XXVI, p. 403.
27 Hardt, Negri, 2002, pp. 133 e 112.
28 Mao Tsé-tung, 1969-75, vol. IV, p. 467 ( A falência da concepção idealista da história, 16 de setembro de 1949).
29 Le Duan, 1969, pp. 61-3.
30 Tronti, 1966, p. 263.
31 Lin Piao, 1969, pp. 61-2.
34 In: Althusser, Balibar, 1968, p. 27.
35 Hegel, 1969-79, vol. V, p. 49.
36 Taureck, 2004, pp.40 e 116.
37 Foucault, 1990, p. 52.
38 Foucault, 1990, p. 169.
39 Cf. Losurdo, 2005a, cap. IV, 2.
40 Foucault, 1990, pp. 62 e 56.
41 Foucault, 1990, p. 63.
42 Foucault, 1990, p. 160.
43 Arendt, 1993, pp. 15-6.
44 Hardt, Negri, 2002. p. 158.
45 In: Logan, 1997 p. 378.
46 Heckscher, 1991, pp. 44 e 298.
47 Losurdo, 2007, cap. VI, 11 e cap. II, 1.
48 Losurdo, 1993, cap. 5, 2 e 7.
49 Hardt, Negri, 2002, pp. 166-7.
50 Strauss, 1998, pp. 43-4.
51 Hardt, Negri, 2002, pp. 352-3.
52 Davis, 1982, p. 33.
53 Sartre, 1967, p. XXII.
54 Arendt, 1983, pp. 65-6.
55 Anderson, 1997.
56 Hardt, Negri, 2002, p. 115.
57 Franklin, 1983, p. 398.
58 Kelley, 1990, pp. 94-6.
59 Kelley, 1990, p. 100.
60 Cf. Losurdo, 2005a, cap. X, 6.
61 Lênin, 1969, p. 89.
62 Mao Tsé-tung, 1998, pp. 379.
63 Deng Xiaoping, 1994, p. 222.
64 Losurdo 2005b, cap. V, 2.
65 Halloway, 2004. 


Losurdo na TV Boitempo 
TV Boitempo está atualmente preparando a publicação de uma série inédita de vídeos com Domenico Losurdo sobre comunismo e revolução no século XXI, gravados aqui na sede da editora durante sua última visita ao Brasil. Enquanto o material não fica pronto, fizemos uma seleção de vídeos do canal com o filósofo, a começar pelo espirituoso depoimento em apoio aos atos contra o governo ilegítimo de Michel Temer e suas reformas, que acabaram redundando no cancelamento de uma de suas conferências aqui em São Paulo.
  • https://www.youtube.com/watch?v=FBt-iakV4NE 
  • https://www.youtube.com/watch?v=494Y05UtreA 
  • https://www.youtube.com/watch?v=f1mZ6xfs9Eo 
  • https://www.youtube.com/watch?v=aQXjZAjT-Vc


    Trabalhos de e sobre Losurdo em resistir.info: 
  • A não-violência: o mito e as realidades
  • A suposta "não violência" do Dalai Lama é desmentida pela CIA
  • O ruir do "campo socialista"
  • Boicotar os Jogos Olímpicos de Pequim?
  • Dalai Lama & Obama: O encontro entre dois Prémio Nobel da mentira
  • As trombetas das classes dominantes e os sinos das classes subalternas
  • Das guerras do ópio às guerras do petróleo
  • Porque é urgente lutar contra a OTAN e redescobrir o sentido da ação política
  • Nova operação colonial contra a Líbia
  • O que se passa na Síria?
  • Sete pontos acerca da Líbia
  • Reconstruir o partido comunista, unir a esquerda, bater a direita
  • Acerca do liberalismo
  • Os "Protocolos dos Sábios do Islão
  • Quem recorre a escudos humanos: o Hamas ou Israel?
  • O que significa hoje internacionalismo?
  • As raízes norte-americanas do nazismo
  • Stalin, História e crítica de uma lenda negra , Miguel Urbano Rodrigues
  • Domenico Losurdo, revolucionário e marxista criador , Miguel Urbano Rodrigues
  • Losurdo e a atualidade da luta de classes , Miguel Urbano Rodrigues
  • A hipocondria da antipolítica , João Carlos Graça

    [*] Domenico Losurdo (1941-2018) foi um filósofo italiano marxista. Professor de História da Filosofia na Universidade de Urbino, doutorou-se com uma tese sobre Karl Rosenkranz. Pela editora Boitempo, lançou A linguagem do império: léxico da ideologia estadunidense (2010), A luta de classes: uma história política e filosófica , Guerra e revolução: o mundo um século após Outubro de 1917 (2017) e o mais recente O marxismo ocidental: como nasceu, como morreu, como pode renascer (2018). Falecido na manhã de 28 de junho de 2018, sua obra deixa uma profunda marca no marxismo do século XXI.

    O original encontra-se em blogdaboitempo.com.br/... 


    Este excerto encontra-se em http://resistir.info/ .
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