sábado, 21 de outubro de 2017

Quando duas estrelas de NÊUTRONS colidem

A imagem acima é uma ilustração e mostra a nuvem de expansão quente e densa de detritos arrancados de duas estrelas de nêutrons pouco antes de colidirem. Dentro desses detritos ricos em nêutrons, uma grande quantidade de alguns dos elementos mais pesados do universo foi forjada, incluindo o equivalente a centenas de vezes a massa da Terra de outro e platina. Isso representa a primeira vez que os cientistas detectaram a luz proveniente de um evento gerador de onda gravitacional, graças à fusão de duas estrelas de nêutrons, que ocorreu na galáxia NGC 4993, localizada a cerca de 130 milhões de anos-luz de distância da Terra, na constelação da Hydra.
Crédito da Imagem: NASA Goddard Space Flight Center/CI Lab

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Condenado Tenente Coronel do Exército



No mês de setembro foram condenados sete pessoas, entre oficiais do exército brasileiro e empresários, envolvidas em um esquema de desvio de dinheiro público em obras sob a responsabilidade do 8º Batalhão de Engenharia de Construção (8º BEC), em Santarém-PA.
Os acusados foram condenados com penas variando de três a cinco anos de prisão. A quadrilha fraudou mais de R$ 4 milhões, com a participação de oficiais do Exército. Os envolvidos foram o Tenente Coronel Carlos Alberto Baccini Barbosa, o ex 1º Tenente Pedro Augusto Pereira Vanderlei, Além dos empresários(as) Margarene Gamboa, Mercedes Farias Hamad, Níder Romero e Sandoval Bezerra dos Santos.
As irregularidades ocorreram em obras como a restauração e ampliação da pista de pouso do Aeroporto de Tefé (AM), decorrente de convênio com a Aeronáutica e na construção de residências oficiais para subtenentes e sargentos do Exército Brasileiro da 16ª Brigada de Infantaria de Selva, também em Tefé (AM). Estas obras começaram em 1999, mas só agora saiu a condenação dos envolvidos, sendo possível ter outra casos ainda não investigados.
O chefe da quadrilha era o tenente Coronel Carlos Alberto Baccini Barbosa, chefe da Seção Técnica do 8º Batalhão de Engenharia de Construção e tinha como função na época fiscalizar os contratos com as empresas contratadas, para “evitar fraudes”. Segundo o processo, a forma de como ocorria a corrupção no exército era com o pagamento de serviços não realizados, onde o tenente coronel emitia a comprovação, a exemplo das obras do trabalho de escavação e carga de material para o local das obras, sendo que foi pago 75 mil m³ e executados cerca de 18 mil m³.
Outro serviço fraudando foi o da base estabilizadora com areia, neste caso foi pago R$ 266 mil referente a 87% do montante do serviço e executado 12,65% do serviço, o que equivaleria a pouco mais de R$ 38 mil, dando um prejuízo de mais de 227 mil reais aos cofres público, somente neste item.
Como a justiça militar é mais lenta do que a comum, principalmente no que se refere aos caso de corrupção nas forças armadas, a condenação só ocorreu agora e foi confirmada em 2ª instância pela justiça militar, no crime de peculato, com prejuízos calculados em cerca de quatro milhões de reais e que deveria ser usados na melhoria da estrutura do Exército e infraestrutura na BR – 163. Para maiores informações consultar a apelação nº 59-32.2012.7.08.0008/PA, no saite da justiça militar.
Redação – PE
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quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Acerca da guerra bacteriológica durante a Guerra da Coreia

Acerca da guerra bacteriológica durante a Guerra da Coreia
– Relatório da Comissão Científica Internacional que a investigou


por Jeffrey Kaye [*]
Este artigo é a primeira abordagem concreta na Internet e análise de um documento único de guerra-fria, o "Relatório da Comissão Científica Internacional (ISC) para a Investigação dos Factos Relativos à Guerra Bacteriológica na Coreia e na China." ( "Report of the International Scientific Commission for the Investigation of the Facts Concerning Bacterial Warfare in Korea and China" ). A ISC foi dirigida por um dos maiores cientistas britânicos da sua época, Sir Joseph Needham. O relatório foi publicado pelo governo chinês em 1952. A versão aqui apresentada em link, impressa pela Agência de Notícias Hsinhua em Praga, Checoslováquia, não inclui centenas de páginas de anexos que constam do relatório inicial. Temos esperança que estas serão disponibilizadas on-line num futuro próximo.

As acusações de utilização guerra biológica pelos EUA durante a Guerra da Coreia têm sido há muito objecto de intensa controvérsia. A confiança, parcial, nos testemunhos de prisioneiros de guerra norte-americanos levados para os EUA conduziu a alegações de "lavagem ao cérebro". Essas acusações mais tarde tornaram-se a base de uma história de encobrimento para experiências secretas da CIA no uso de uso de drogas e outras formas de interrogatório coercivo e tortura na qual se baseou o seu manual KUBARK de 1963 sobre interrogatório e, muito mais tarde, uma influência poderosa no programa pós-11/Set da CIA de "interrogatório reforçado" ("enhanced interrogation"). 

Se bem que o documento incorporado abaixo tenha sido objecto de numerosos ensaios e livros, o próprio documento geralmente não está disponível ao público. Mesmo aqueles que queiram estudar o assunto considerarão provavelmente que é muito difícil obtê-lo. Vou explorar algumas dessas razões abaixo. Mas note-se que, embora alguns estudiosos de guerra-fria tenham sido rápidos em desmascarar o relatório ISC, nenhum fez o mínimo esforço para disponibilizar materiais originais de outros estudiosos ou do público para avaliar por si mesmos a verdade ou a falsidade de suas análises.

No fim deste texto há uma bibliografia para os leitores interessados

Report of the International Scientific Commission for the investigation of the facts concerning bacterial warfare in Korea and China , 1952, 68 p.


ISC Report Part 1
ISC Report Part 2
(Cryptome.org aproveitou a minha colocação na internet deste documento na Nuvem de Documentos. Combinou as suas duas partes que eu incorporei aqui, com um tamanho de 2,6 MB. Para aqueles que o desejam usar ou ligar à sua versão o link está aqui ).

Por que foi este relatório efectivamente suprimido? 

O que se segue é uma transcrição de uma importante sessão do relatório relativo ao uso pelo Japão de armas biológicas contra a China durante a Segunda Guerra Mundial. O conhecimento aliado sobre isto e o possível uso pelos EUA durante a Guerra da Coreia deste conhecimento científico e técnico detido pelo Japão, como bem como do seu pessoal militar.

Em 1952, a colaboração entre os EUA e criminosos de guerra japoneses que usaram armas bacteriológicas foi mantida ultra-secreta e totalmente negada pelos EUA. Mas hoje, mesmo historiadores dos Estados Unidos aceitam que foi feito um acordo entre os EUA e os membros da Unidade 731 associando militares japoneses que na verdade tinham quase 15 anos de experimentação sobre o uso de armas bacteriológicas, incluindo vivissecção humana e bárbaras torturas de milhares de seres humanos, a maioria dos quais foram depois suprimidos em crematórios. Além disso, houve colaboração entre o Japão e o regime nazi sobre estas questões, embora isto esteja para além do tema deste artigo. (ver o ensaio Martin na bibliografia).

Shiro Ishii, general que comandou a Unidade 731.A colaboração dos EUA com criminosos de guerra japoneses da Unidade 731 foi admitida formalmente em 1999 formally admitted in 1999 pelo governo dos EUA, embora a documentação sobre isto nunca tenha sido publicada. Tenho esses documentos e irei publicá-los muito em breve. É uma questão de registo histórico, agora que se sabe que o governo dos EUA concedeu amnistia ao chefe da Unidade 731, o General-médico Shiro Ishii e seus cúmplices. A amnistia foi mantida secreta durante décadas, até ser revelada pelo jornalista John Powell num artigo de referência para o Bulletin of Atomic Scientists , em Outubro de 1981.

O que veio a ser conhecido como o relatório Needham, devido ao facto de o ISC ter sido liderado pelo prestigiado cientista britânico, Sir Joseph Needham, ficou desde logo sob fogo após a publicação. O relatório continua a ser um ponto de referência para os estudiosos. Um artigo de 2001 da Historical Association do Reino Unido detalhava como responsáveis da ONU e do governo do Reino Unido colaboraram na tentativa de desacreditar as conclusões do ISC. O Ministério dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido emitiu memorandos dizendo que alegações de guerra bacteriológica pelo Japão em 1941 foram dadas "oficialmente como 'não provadas'".

O material sensível descoberto pelo ISC referia-se a duas áreas de pesquisas secretas do governo dos EUA. Primeiro, foram os próprios planos de governos dos EUA para pesquisa e possivelmente implementação de guerra bacteriológica. A segunda questão diz respeito a confissões de aviadores dos EUA sobre como foram agendados em reuniões e implementados ensaios de guerra bacteriológica durante a Guerra da Coreia. Os EUA alegaram que os aviadores foram torturados e a CIA difundiu a ideia que haviam sido sujeitos a "lavagem ao cérebro" por métodos diabólicos, causando pânico sobre programas de controlo da mente pelos "comunistas" e destruidores da mente (menticide) os quais eles utilizaram para justificar o gasto de milhões de dólares em programas de controlo da mente nos EUA durante as décadas de 1950-1970.

Os programas dos EUA de controlo da mente e interrogatórios-tortura usaram civis involuntários em experiências, bem como com soldados em suposta formação anti-tortura nas escolas militares SERE (Survival, Evasion, Resistance and Escape). Mostrei através de registos públicos que cientistas da CIA continuaram a fazer experiências sobre "stress" nas escolas SERE após o 11/Set e acredito que tais experiências foram realizadas em detidos da CIA e do Departamento de Defesa. Que tal pesquisa teve lugar pode ser inferida a partir do lançamento em Novembro de 2011 de um novo conjunto de orientações relativas à investigação de Departamento de Defesa. Esta versão mais recente de uma instrução padrão (directiva 3216.02) continha pela primeira vez uma proibição específica de pesquisa feita sobre os detidos. (Ver secção 7 c.)

Acredito que pode ser apresentado um argumento convincente de que métodos coercivos, principalmente o isolamento, foi usado em prisioneiros de guerra dos EUA que posteriormente confessaram, que suas confissões eram predominantemente verdadeiras. A ideia de que apenas falsas confissões resultam de tortura é na verdade falsa em si mesma. Se bem que falsas confissões possam resultar da tortura (como também de menos método opressivos, tais como a técnica de Reid , utilizada hoje pelos departamentos de polícia nos Estados Unidos), confissões reais também podem por vezes ocorrer. Tenho experiência em primeira-mão, por trabalhar com sobreviventes de tortura, para saber que é verdade.

É verdade que todos os prisioneiros de guerra que confessaram o uso de guerra bacteriológica depois retrataram-se ao voltarem para os Estados Unidos. Mas os termos das suas retratações são suspeitas. As retratações foram feitas sob a ameaça de tribunal marcial. As provas em arquivo das inquirições aos aviadores foram destruídas ou perdidas devido ao fogo (de acordo com o governo). Enquanto isso, pelo menos um cientista que trabalhou em Fort Detrick naquela altura admitiu antes de morrer, num documentário de investigadores alemães, que os EUA realmente estiveram envolvidos em guerra bacteriológica na Coreia. ( Ver video ).

Uma "verdadeira investigação... poderia provocar danos psicológicos e danos militares" 

As acusações de uso de armas biológicas durante a guerra da Coreia são ainda mais incendiárias do que as actualmente comprovadas alegações de que os EUA amnistiaram médicos militares japoneses e outros que trabalharam no desenvolvimento de armas bacteriológicas experimentadas em seres humanos e que acabaram por matar milhares com a utilização operacional dessas armas contra a China durante a guerra Sino-Japonesa na Segunda Guerra Mundial. A amnistia foi o preço pago pelos investigadores militares e dos serviços secretos dos EUA para obter acesso ao acervo de investigação , grande parte dele através de experiências fatais sobre seres humanos, que o Japão havia conseguido ao longo de anos de desenvolvimento de armas para a guerra bacteriológica.

Os EUA negaram veementemente tais acusações e exigiram uma investigação internacional através das Nações Unidas. Os chineses e norte-coreanos ridicularizaram tais intenções porque foram sancionadas pelas forças das Nações Unidas que a eles se opuseram e bombardearam as suas cidades. Mas por trás desta cena, um documento da CIA tornado acessível em Dezembro de 2013 revelou que os EUA consideravam como mera propaganda o apelo para uma investigação da ONU.

Numa reunião de alto nível entre dirigentes dos serviços secretos e do governo em 6 de Julho de 1953, os Estados Unidos não foram sérios sobre a realização de qualquer investigação sobre tais acusações, apesar do que afirmavam publicamente. A razão pela qual os EUA não quiseram qualquer investigação era que uma "verdadeira investigação" revelaria operações militares, "que, tornadas públicas poderiam provocar danos psicológicos e danos militares" "Um memorando do Conselho de Estratégia Psicológica (PSB) detalhando esta reunião definia especificamente como um exemplo do que poderia vir a ser revelado: "a preparação ou operações do 8º Exército (por exemplo, a guerra química)."

Acusações da guerra química pelos EUA durante a guerra da Coreia faziam parte de um relatório ( PDF ), por organização de advogados com influência comunista de visita à Coreia, e os seus resultados foram descartados como propaganda. Mas o memorando do PSB sugere que talvez tivessem razão. Existem também outras evidências de falsas histórias divulgadas pelos EUA.

Não muito tempo depois de ter publicado o documento do PSB acompanhando o meu artigo, o universitário Stephen Endicott escreveu-me para me lembrar que ele e o seu associado Edward Hagerman, co-autores do livro de 1998, " The United States and Biological Warfare: Secrets from the Early Cold War and Korea (Indiana Univ. Press)" tinham eles próprios encontrado material que indicava que os apelos dos EUA para "inspecção internacional a fim de combater as acusações chinesas e norte-coreanas... era menos que ingénuo." Endicott e Hagerman descobriram que o Comandante do Extremo Oriente, General Matthew Ridgway, "secretamente deu permissão para recusar a eventuais inspectores da Cruz Vermelha acesso a quaisquer fontes específicas de informação". Além disso, apresentaram um memorando do Departamento de Estado datado de 27 de Junho de 1952 em que este notificava ser "impossível" o embaixador na ONU daquela altura garantir que os EUA não tinham a intenção de usar "guerra bacteriológica -- mesmo na Coreia." (p.192, Endicott e Hagerman)

O julgamento de Crimes de guerra de Khabarovsk 

O relatório ISC faz referência ao julgamento de crimes de guerra realizado pela URSS em Dezembro de 1949 em Khabarovsk, não muito longe da fronteira chinesa. O julgamento de criminosos de guerra japoneses associados às Unidades 731, 100 e outras divisões de guerra bacteriológica seguiu-se a um quase apagão destas questões durante o julgamento de crimes de guerra Toyko realizado pelos aliados, alguns anos antes.

Na época do julgamento de Khabarovsk, os media e responsáveis do governo dos EUA ignoraram o processo, ou denunciaram-no como sendo mais outro "julgamento espectáculo" dos soviéticos. Os soviéticos, por sua vez publicaram o processo e distribuíram-no amplamente, inclusive em inglês. Cópias deste relatório são mais fáceis de encontrar na Internet para compra de exemplares usados, embora caros, mas nenhuma versão aparece disponível on-line, e não há edição académica que tenha sido publicada.

Mesmo assim, historiadores dos Estados Unidos foram obrigados ao longo dos anos a aceitar as conclusões do Tribunal de Khabarovsk, embora a generalidade da população e meios de comunicação permaneçam ignorando que tal julgamento se tenha realizado. O facto de os soviéticos terem também documentado o uso pelo Japão de experiências bacteriológicas em prisioneiros de guerra dos EUA foi altamente controverso, negado pelos Estados Unidos durante décadas, foi uma questão bastante polémica na década de 1980-1990. Embora um historiador ligado aos arquivos nacionais tenha discretamente determinado que tais experimentos de facto tiveram lugar , a questão foi silenciada no país.

A relevância destas questões é natural para a propaganda de guerra em curso entre os Estados Unidos e a Coreia do Norte, bem como para a reconstrução militar e a postura agressiva contra o Japão e o global "Asian Pivot" em que o Pentágono está redistribuindo recursos no teatro de operações asiático para uma possível guerra futura contra a China.

A história por trás da Guerra da Coreia, assim como as acções militares e as encobertas dos EUA relativas à China, Japão e Coreia, são uma matéria de quase total ignorância entre a população dos EUA. As acusações de "lavagem cerebral" de prisioneiros de guerra dos Estados Unidos, num esforço contínuo para esconder evidências das experiências de guerra bacteriológica dos EUA e seus ensaios, ficaram interligados com a propaganda usada para explicar o programa de interrogatórios e tortura após o 11/Set dos EUA e serviu de álibi para crimes passados da CIA e do Departamento de Defesa durante anos de programas ilegais de controlo da mente, incluídos nos programas MKULTRA, MKSEARCH, ARTICHOKE e outros.

O seguinte é uma transcrição de parte do relatório ISC que deveria ser de interesse para os leitores. São as primeiras alegações que pude encontrar relativas ao programa japonês BW e links para o que então foi apenas concebido como um possível encobrimento e colaboração das autoridades dos EUA. Needham (que nunca perdeu a crença na correcção do que os seus investigadores descobriram) estava então certo. Ele e o trabalho dos seus investigadores não mereciam o descrédito e o esquecimento que aguardava o seu trabalho. Esta transcrição é uma tentativa de corrigir esse erro histórico.

A relevância da guerra bacteriana japonesa na Segunda Guerra Mundial 

Nenhuma investigação sobre alegações de guerra bacteriológica na Ásia Oriental poderia deixar de tomar conhecimento do facto indubitável de que foi utilizada pelos japoneses contra a China durante a Segunda Guerra Mundial. A Comissão foi relativamente bem informada sobre este assunto, uma vez que um dos seus membros fora o principal especialista no julgamento de Khabarovsk e outro fora um dos poucos cientistas ocidentais com uma posição oficial na China durante o decorrer dos acontecimentos. Em 1944, parte do seu dever era informar aquele governo que apesar de inicialmente ter uma atitude de grande cepticismo, o material colectado pelo gabinete do responsável da saúde pública da China parecia mostrar claramente que os japoneses haviam disseminado pulgas infectadas com praga em vários distritos. Assim, foram capazes de provocar um número considerável de casos de peste bubônica em áreas onde normalmente não era endémica, mas onde as condições para sua propagação eram bastante favoráveis. Como é geralmente conhecido, em circunstâncias normais, a peste bubônica é endémica apenas em determinadas áreas fortemente circunscritas (por exemplo na província de Fukien) para fora da qual não se propaga.

A partir dos arquivos do Ministério da Saúde chinês um dos relatórios originais sobre a indução artificial de peste em Changte na província de Hunan, pelos japoneses em 1941 foi colocada perante a Comissão (App. ISCC/1). Este documento é ainda hoje de considerável valor e de facto de interesse histórico. Registos oficiais chineses indicam o número de cidades de Hsien, que foram atacadas desta forma pelos japoneses como onze: quatro em Chekiang, duas de cada em Hopei e Honan e uma em Shanxi, Hunan e Shantung. O número total de vítimas da peste artificialmente disseminada é agora avaliado pelos chineses como aproximadamente 700 entre 1940 e 1944.

O documento reproduzido abaixo tem, além disso, interesse histórico. Sabe-se que o responsável de então da saúde pública na China distribuiu dez cópias entre as embaixadas em Chungking, e, podendo bem ser mais do que uma coincidência, segundo o bem conhecido Relatório Merck de janeiro de 1946, trabalhos em larga escala sobre métodos de guerra bacteriológica, começaram nos Estados Unidos no mesmo ano, 1941. A Comissão estava feliz por ter a oportunidade, durante o seu trabalho na Coreia, de conhecer o distinto especialista nestas matérias que escreveu o memorando original de Changte e de ouvir sua opinião sobre o fracasso do governo Kuomintang em dar seguimento às provas que já estavam nas suas mãos no final da Segunda Guerra Mundial (App.). Como é do conhecimento geral, suas conclusões foram depois totalmente confirmados pelo que os acusados admitiram no julgamento de Khabarovsk.

Através da publicação do "Material on the Trial of Former Servicemen of the Japanese Army charged with Manufacturing and Employing Bacteriological Weapons" (Moscovo, 1950) importantes informações sobre práticas realizadas sob a direcção do bacteriologista japonês Shiro Ishii (que infelizmente não estava no banco dos réus) foi disponibilizada para o mundo. Apurou-se para além de quaisquer dúvidas que haviam sido empregadas técnicas para a produção em massa de bactérias tais como as da cólera, febre tifóide e peste, literalmente em centenas de quilos de pasta húmida de cada vez. Técnicas, bastante simples, também haviam sido usadas para a procriação de um grande número de ratos e um grande número de pulgas, embora na prática apenas as últimas pareçam ter sido disseminadas.

Além disso, várias testemunhas estavam prontas a dar informações detalhadas incluindo as datas em que elas haviam actuado em várias bases japonesas na China para supervisionar os métodos de disseminação utilizados. Detalhes abundantes também foram entregues sobre os destacamentos secretos especiais (como o notório "731") e seus laboratórios, fábricas piloto e prisões em que patriotas chineses e russos foram usados com perfeito sangue frio como animais experimentais. No decorrer do seu trabalho, como será mencionado abaixo (p. 44) a Comissão teve oportunidade de examinar alguns dos poucos espécimes restantes das "bombas" de cerâmica que foram manufacturadas para Ishii numa fábrica especial em Harbin.

Aparentemente os militaristas japoneses nunca abandonaram as suas visões de conquista do mundo com a ajuda de armas bacteriológicas em geral e em particular a disseminação através de insectos. Antes de eles partiram de Dairen destruíram sistematicamente todas as publicações da Universidade e artigos em bibliotecas departamentais que tivessem qualquer conexão com a guerra bacteriológica. Não deveria ser esquecido que antes de as alegações da guerra bacteriológica na Coreia e Nordeste da China (Manchúria) começarem a ser feitas nos primeiros meses de 1952, artigos em jornais haviam relatado duas visitas sucessivas de Shiro Ishii, à Coreia do Sul, e que ele estava lá novamente em março. Se as autoridades de ocupação no Japão haviam promovido as suas atividades, e se o Comando Americano do Extremo Oriente esteve envolvido no uso de métodos essencialmente japoneses, eram questões que dificilmente poderiam ter estado ausentes das mentes dos membros da Comissão.

-A partir de páginas 13 e 14 do relatório da Comissão científica internacional para a investigação dos factos relativos bacteriana guerra na Coreia e na China 
Alguma Bibliografia
Daniel Barenblatt, A Plague Upon Humanity: The Secret Genocide of Axis Japan's Germ Warfare Operation , HarperPerennial, 2005
Tom Buchanan, "The Courage of Galileo: Joseph Needham and the 'Germ Warfare' Allegations in the Korean War," The Historical Association, Blackwell Publishers, 2001
Dave Chaddock,  This Must Be the Place: How the U.S. Waged Germ Warfare in the Korean War and Denied It Ever Since , Bennett & Hastings, 2013
Stephen Endicott & Edward Hagerman,  The United States and Biological Warfare: Secrets from the Early Cold War and Korea , Indiana Univ. Press, 1998
Stephen Endicott & Edward Hagerman, "Twelve Newly Released Soviet-era `Documents' and allegations of U. S. germ warfare during the Korean War," online publication, 1998, URL:http://www.yorku.ca/sendicot/12SovietDocuments.htm
Sheldon H. Harris, Factories of Death: Japanese Biological Warfare, 1932-45, and the American Cover-up , rev. ed., Routledge Press, 2002
Milton Leitenberg, "New Russian Evidence on the Korean War Biological Warfare Allegations: Background and Analysis" Cold War International History Project, Bulletin 11 , 1998
Jeffrey A. Lockwood, Six-Legged Soldiers: Using Insects as Weapons of War , Oxford Univ. Press, 2010
Bernd Martin, "Japanese-German collaboration in the development of bacteriological and chemical weapons and the war in China." Ch. 11 (p. 200-214) in Japanese-German Relations, 1895-1945: War, diplomacy and public opinion (Ed. Christian W. Spang and Rolf-Harald Wippich), Routledge, 2006
John Powell, "A Hidden Chapter in History," Bulletin of the Atomic Scientists , October 1981

Ver também: 
  • Ensaios médico-sociais , livro do Dr. Samuel Barnley Pessoa, médico brasileiro que participou da comissão internacional de investigação dos crimes de guerra bacteriológica dos Estados Unidos durante a Guerra da Coreia. O livro contém um capítulo acerca dos mesmos. 

    [*] Psicólogo, especialista em psicoterapia, reside em San Francisco, EUA. Trabalhou profissionalmente durante mais de 10 anos com vítimas de tortura e solicitadores de asilo.

    O original encontra-se em valtinsblog.blogspot.pt/2015/01/a-lost-document-from-cold-war.html 


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
  • terça-feira, 17 de outubro de 2017

    FARC: Não podemos negar que a paz avança

    FARC: Não podemos negar que a paz avança

    17.10.2017
    FARC: Não podemos negar que a paz avança. 27502.jpeg
    Não podemos negar que a paz avança, ainda que em meio às  as incoherências conhecidas
    Nosso dever é resgatar a força do trabalho coletivo, aquele que sempre nos acompanhou nos longos anos de guerra, onde contribuíamos um para todos e todos para um.
    Penso que o Acordo de Paz firmado em Havana com o governo, ademais de um bom acordo com base nas realidades existentes no momento, é uma acertada decisão política tomada por nossa organização.
    Escrito por  Martín Cruz Vega
    O Acordo reflete uma realidade que muitos esquecem na hora de fazer análises individuais ou coletivas, a correlação de forças. Se pode querer mais, porém em política se necessita força para impor os objetivos próprios.
    Se examinamos a nossa contraparte nos diálogos, poderíamos falar de um governo dividido e com crescente perda de prestígio para implementar os acordos. Pior talvez, com a intenção planejada de descumprir para nos desmotivar. Isso dentro de um Estado que ainda conserva suas estruturas e concepções fascistas, raivosamente antipopulares. Uma forte oposição à paz e ansiosa de guerra, envolvida em graves responsabilidades frente ao paramilitarismo, em crimes de Estado e mergulhada na corrupção. Uma pesada burocracia à qual se soma o improviso, a tramitologia planificada ao extremo, entre muitos outros fatores.
    Todas elas são grandes dificuldades que nos geram sérias preocupações. Há graves incoerências no processo de implementação e reincorporação integral das FARC. O que não quer dizer que não se avançou na implementação e sobretudo na reincorporação. Claro que foram feitos importantes avanços. Demos passos muito importantes, estratégicos, dissera eu, para ir consolidando o processo de paz. Ninguém se pôs a relacionar um a um os avanços, nos vamos sempre por todo o mau, e isto não é sensato. Vejamos algumas conquistas fundamentais: 
    A passagem de movimento armado a partido político aberto e legal, a bancarização, o serviço de saúde, os documentos de identidade, o credenciamento, a certificação, ECOMUM, a capacitação e validação de saberes, as visitas a nossos familiares, os plenários nacionais, o congresso fundacional, a participação em distintos eventos nacionais, o trabalho de pedagogia, o afloramento de nossas expressões culturais e artísticas, Vozes de Paz, o CNR, os cursos de escoltas e sua implementação através de UNP, bolsas de medicina em Cuba, curso de segurança em Havana, a inscrição de nosso partido ante o CNE.
    Somemos a anistia, a segurança prestada pela UNIPEP e a força pública nos distintos espaços e movimentos, as visitas de personalidades e pessoas humildes a nossos acampamentos, o apoio de governos estaduais, prefeituras e outros entes a nossos projetos em vários lugares, o reconhecimento e apoio a nossa organização por parte de distintos presidentes e da comunidade internacional. Agora mesmo poderíamos somar a sentença da Corte Constitucional que blinda juridicamente os Acordos de Paz pelos seguintes três períodos presidenciais.
    O processo conseguiu um empoderamento e, se conseguimos generalizá-lo na opinião pública, com uma linguagem clara, inclusiva, que nos aproxime de todos os setores sociais, nos pode proporcionar importantes ganhos políticos a médio prazo. Creio que a Força Alternativa Revolucionária do Comum, FARC, vive um momento muito importante na construção da paz e do futuro do país. Oxalá nosso entusiasmo ultrapassasse a realidade e que os sonhos se cumprissem como os concebemos. Porém tudo é uma luta, um acumular permanente, com toda segurança estamos melhor que há 10 anos.
    O Estabelecimento, por sua parte, seguirá fazendo o impossível para nos destruir e nos desanimar. Não podemos ignorar que em certa forma conseguiu isso com seus descumprimentos programados. Claro que devemos exigir do governo cumprimento em todo o pactuado, porém também devemos autogestionar nossos projetos econômicos com organizações sociais e solidárias. Não há caminho mais esperançoso que o que abre o esforço coletivo.
    Pelo que se escuta, muitos ex-combatentes homens e mulheres, buscando soluções imediatas, fizeram suas próprias experiências laborais, uns com suas famílias e outros com particulares, deixando-nos só desesperanças. Nosso dever é resgatar a força do trabalho coletivo, aquele que sempre nos acompanhou nos longos anos de guerra, onde todos contribuíamos um para todos e todos para um. Nossa vitalidade foi o trabalho comunitário, cada quem ajudava segundo sua capacidade e todos tínhamos os mesmos direitos e deveres, segundo a capacidade de cada quem.
    Esse interesse coletivo nos tirou de tremendas dificuldades. Agora será igual, se sabemos aproveitar todo o potencial humano, político-ideológico que possuímos. Há alguns "Espaços Territoriais de Capacitação e Reincorporação" onde o trabalho coletivo tem sido exemplar, e não somente no que tem a ver com a parte econômica como também na explosão das expressões artísticas e culturais que possuímos. Sim, é verdade, o Acordo de Paz fala de financiamento da reincorporação, porém se nos colocamos esperar estes dinheiros nos massacra a situação econômica. A autogestão social e solidária é bem importante.
    É o que fazíamos na guerra em tempos de colheita. Isso não podemos esquecer. E, claro, se a população nos vê nessa atitude vai nos ajudar, como está acontecendo em muitas partes. Desde logo que há que somar a isto nossa luta para que o governo cumpra o acordado. O processo de paz, suas normas e implementação avançam. Me parece muito interessante o desembolso financeiro anunciado por nossa direção política para projetos existentes nos "Espaços Territoriais de Capacitação e de Reincorporação".
    Para nós e o povo nada tem sido fácil. Construir as FARC-EP nos levou 53 anos. O processo de paz avança em meio às dificuldades e incoerências, porém existem por sua vez algumas possibilidades e realidades que não podemos desconhecer. Conseguimos com que o governo cumpra em algumas coisas substanciais que nos permitirão em seguir a luta política, como o fizemos toda a vida. Estamos certos de que mediante o trabalho coletivo de nosso partido Força Alternativa Revolucionária do Comum, FARC, e nossa unidade política, ideológica e organizativa faremos possíveis o cumprimento dos acordos e nossa reincorporação integral à vida civil
    Tradução > Joaquim Lisboa Net


    segunda-feira, 16 de outubro de 2017

    Mudanças estruturais no interior do imperialismo

    Mudanças estruturais no interior do imperialismo


    por Prabhat Patnaik [*]
    Prabhat Patnaik.Durante longo tempo foi possível classificar as divisas do mundo em três categorias distintas:   (i) a divisa principal, tipicamente pertencente à principal potência imperialista, os Estados Unidos, a qual era considerada "tão boa quanto o ouro" pelos possuidores da riqueza do mundo;   (ii) outras divisas metropolitanas nas quais os possuidores da riqueza do mundo também mantinham sua riqueza, mas as quais, precisamente por não serem consideradas "tão boas quanto o ouro", tinham de manter um certo valor estável em relação à divisa principal através do prosseguimento de políticas macroeconómicas apropriadas; e   (iii) divisas do terceiro mundo as quais, independentemente das políticas macroeconómicas que fossem prosseguidas, geralmente esperava-se que se depreciassem ao longo do tempo no seu valor relativo face aos dois conjuntos de divisas acima, tanto em termos nominais como reais (isto é, mesmo quando as taxas diferenciais de inflação entre aqueles países e as economias metropolitanas fossem consideradas) e nas quais, portanto, detentores de riqueza não gostariam de manter a sua riqueza. Os possuidores locais de riqueza em tais países sem dúvida assim o faziam, mas isto era devido ou à inércia ou à coerção (isto é, à existência de controles de câmbio, os quais colocam restrições à transferência da sua riqueza para fora destes países).

    Tais divisas portanto tendiam realmente a depreciar-se ao longo do tempo em relação à divisa principal, o que por sua vez justificava a expectativa de que as mesmas iriam depreciar-se secularmente e portanto estabelecia uma tendência rumo a uma viciosa espiral descendente dos seus valores relativos. A economia capitalista mundial operava assim de uma maneira em que a tendência era para os possuidores de riqueza, incluindo os do terceiro mundo, a transferissem para divisas metropolitanas e localizações metropolitanas se pudessem, isto é, a menor que fossem impedidos de fazê-lo (razão pela qual controles de câmbio eram considerados essenciais para economias do terceiro mundo).

    Para ilustrar este ponto, o valor da rupia pouco antes da desvalorização de 1966 na Índia era de 5 rupias por dólar e com aquela desvalorização em particular tornou-se cera de 7,5 rupias. Como a Índia prosseguia uma política de taxa de câmbio fixa apenas com desvalorizações ocasionais, este valor atingir apenas cerca de 13 rupias na véspera da liberalização económica quando foi desvalorizado para 20 rupias, antes de ser permitido flutuar, até atingir cerca de 65 rupias por dólar. Nenhuma divisa de país avançado é cambiada hoje contra o dólar a treze vezes a que era cambiada há meio século, o que sublinha a diferença entre as situações do terceiro mundo e as divisas do primeiro mundo.

    Uma implicação desta tendência rumo à depreciação secular das divisas do terceiro mundo foi que o seu trabalho esteve continuamente a ser depreciado em relação ao trabalho das economias do primeiro mundo. Portanto, ironicamente a transferência de riqueza pelos ricos do terceiro mundo dos seus próprios países para lugares "mais seguros" nos centros metropolitanos teve o efeito de reduzir o valor do trabalho nos seus próprios países em relação àqueles das metrópoles, o que significa um agravamento secular dos preços relativos dos seus produtos. Esta é uma razão pela qual mesmo nos dias de hoje vários governos do terceiro mundo, incluindo a Índia, têm pelo menos algumas restrições residuais sobre a transferência para fora da riqueza dos ricos locais: a rupia por exemplo não é uma divisa plenamente convertível mesmo actualmente.

    Contudo, todo este quadro está em mudança. Uma consequência da prolongada crise económica mundial tem sido o facto de que as taxas de juro nos países capitalistas avançados foram derrubadas para níveis quase zero numa tentativa de ressuscitar aquelas economias; e isto significou um fluxo de capital daquelas economias para certas economias do terceiro mundo, incluindo a Índia, onde as taxas de juro são muito mais elevadas. Tal fluxo assumiu a forma tanto de acções como de empréstimos. Algumas destas tomadas de empréstimos de países do terceiro mundo são contratadas em divisa estrangeira e algumas na divisa local. Da mesma forma, algumas delas foram para governos e outras para corporações do sector privado e público. O que tudo isto significa, entretanto, é que possuidores metropolitanos de riqueza, ao contrário do passado, agora começaram a manter alguma da sua riqueza na forma de divisas do terceiro mundo ou de activos denominados nestas divisas.

    Isto constitui uma importante mudança estrutural no interior do imperialismo porque implica em que possuidores de riqueza metropolitanos não podem ser indiferentes à depreciação de tais divisas do terceiro mundo. Já não são apenas os possuidores locais de riqueza que perdem em termos do valor do dólar da sua riqueza quando a divisa local deprecia, mas também os possuidores metropolitanos de riqueza. E uma vez que, mesmo no caso de uma divisa (como a rupia) não ser plenamente convertível, sob as receitas neoliberais permite-se que os possuidores de riqueza metropolitanos retirem os seus fundos quando quiserem, qualquer depreciação da divisa local desencadeia uma avalanche de fugas de capitais e também um dilúvio de insolvências internas (pois várias firmas locais tomaram empréstimos em divisas estrangeiras para financiar a tomada de controle de activos em divisa local).

    Isto basicamente implica procurar [que a actuação sobre] a taxa de depreciação cambial seja afastada dos governos locais. As divisas destes países do terceiro mundo, dos quais a Índia é um exemplo destacado, assim como as divisas de economias metropolitanos não-líderes como as da Zona Euro e a do Japão, têm ser mantidas num valor relativo estável face ao US dólar. O facto de que, durante quase toda a última década, o valor da rupia se ter pouco depreciado face ao US dólar, ao contrário do passado, é uma indicação desta mudança de cenário.

    Esta mudança tem duas importantes implicações, uma óbvia e outra não tão óbvia. A implicação óbvia é que como o instrumento habitual que os governos empregam quando a economia é confrontada com um problema de balança de pagamentos, nomeadamente uma depreciação da taxa de câmbio, é retirado das suas mãos, eles agora têm de confiar muito mais em outros instrumentos, tais como compressão da procura interna e deflação salarial (isto é, um corte em salários monetários) para alcançar o mesmo resultado. Mas, embora tanto a taxa de depreciação cambial como a deflação salarial tenham o efeito de esmagar os trabalhadores, a primeira actua indirectamente enquanto a última actua directamente.

    Isto implica várias coisas (deixem-me, para maior simplicidade, ignorar aqui qualquer consideração da compressão da procura geral através de outros meios) :   (i) uma depreciação da taxa de câmbio de 10 por cento não significa necessariamente uma queda de 10 por cento em salários reais dentro de qualquer dado período de tempo, ao passo que uma deflação salarial de 10 por cento assim o faz;   (ii) por esta mesma razão, uma depreciação da taxa de câmbio de 10 por cento provoca menos resistência imediata dos trabalhadores quando comparada a uma deflação salarial de 10 por cento; por causa disto a imposição de uma deflação salarial é invariavelmente acompanhada por ataques aos sindicatos a fim de quebrar esta resistência.

    Greve Geral de 1926 na Grã-Bretanha.Pode-se aqui mencionar uma ilustração histórica famosa. Durante a Primeira Guerra Mundial, a Grã-Bretanha foi expelida do Padrão Ouro (Gold Standard), mas a ele retornou em 1925 com uma paridade anterior à da guerra,sob a pressão dos poderosos interesses financeiros britânicos que desejavam tal paridade. Mas o tipo de apoio colonial que estivera disponível à Grã-Bretanha nos anos que antecederam a Primeira Guerra Mundial já não estavam mais disponíveis após a guerra (o Japão por exemplo estava a retirar â Grã-Bretanha fatias significativas do mercado indiano), de modo que a libra esterlina estava sobre-avaliada à paridade anterior à guerra – e a Grã-Bretanha começou a enfrentar problemas de balança de pagamentos. Em consequência, a Grã-Bretanha tentou impor uma deflação salarial aos seus trabalhadores, a qual tornaria seus bens mais baratos no exterior e também reduziria a absorção interna, melhorando assim sua balança de pagamentos. Isto contudo deu origem à famosa Greve Geral de 1926 na Grã-Bretanha, meses após o seu retorno ao Padrão Ouro. Portanto, se bem que uma depreciação da taxa de câmbio e uma deflação salarial tenham o efeito de esmagar os trabalhadores, esta última é uma medida directa que tem um carácter directamente político.

    A implicação menos óbvia do facto de possuidores metropolitanos de riqueza agora possuírem riqueza em divisas do terceiro mundo, o que descarta depreciações da taxa de câmbio, é que as suas decisões doravante têm uma influência sobre direitos sindicais no terceiro mundo e portanto sobre a democracia no terceiro mundo. Se possuidores metropolitanos de riqueza começarem a transferir a sua riqueza para fora de um país, então o país em causa tem de impor uma deflação salarial através do ataque aos sindicatos (além de seduzir o capital metropolitano a permanecer através da oferta de activos internos a preço vil, o que constitui um caso de "desnacionalização" de activos nacionais). Ainda por cima, se os EUA elevarem a sua taxa de juro, então isto também ameaça precipitar uma deflação salarial em países como a Índia a fim de estancar fugas de capitais, com ataques a sindicatos, a direitos democráticos dos trabalhadores e genericamente às estruturas democráticas, torna-se um acompanhamento necessário (além da "desnacionalização" já mencionada).

    Esta nova situação difere da anterior em dois aspectos importantes: primeiro, na ausência de qualquer riqueza metropolitana significativa possuída em activos na divisa local, isto é, quando só os possuidores de riqueza do terceiro mundo mantinham a sua riqueza em activos da divisa local, eles estavam em certa medida sujeitos a algum grau de controle pelo Estado do terceiro mundo. Mas o Estado do terceiro mundo dentro de um regime neoliberal tem pouco controle, mesmo na ausência de convertibilidade da divisa, sobre possuidores de riqueza metropolitanos. Segundo, a depreciação da taxa de câmbio como instrumento era utilizável anteriormente o que removia num certo grau um ataque directo aos trabalhadores e portanto um assalto directo a sindicatos e a direitos políticos dos trabalhadores. Isto agora torna-se impossível.

    Em suma, em países como a Índia as mudanças que ocorrem dentro da estrutura do imperialismo servem para fortalecer o autoritarismo que já é evidente. A exigência da introdução da "flexibilidade no mercado de trabalho", um eufemismo para um ataque aos sindicatos, certamente será acelerada nos dias que estão pela frente e o governo Hindutva, dada a sua inclinação sangrenta e a sua absoluta falta de compreensão das armadilhas do neoliberalismo, é seguro que se torne um instrumento propenso ao cumprimento desta exigência. 
    15/Outubro/2017

    [*] Economista, indiano, ver Wikipedia

    O original encontra-se em peoplesdemocracy.in/2017/1015_pd/structural-changes-within-imperialism .
    Tradução de JF. 


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

    Sobre a legalização das armas e a violência


    Sobre a legalização das armas e a violência

    Há um grande debate na sociedade sobre a legalização do uso de armas. Essa discussão ganhou corpo com as posições públicas do deputado federal Jair Bolsonaro, um fascista pré-candidato a presidente, que tem prometido legalizar o porte de armas, caso seja eleito.
    Penso que, para não assumir uma postura reacionária ou liberal, mais importante do que limitar a discussão sobrea legalização ou não do porte de armas, é necessário discutir o papel da violência na sociedade de classes e o próprio papel do estado.
    Ora, é óbvio que a violência não vai diminuir porque cada cidadão possui uma arma, por outro lado, também é óbvio que a violência continuará intensa tendo o Estado o monopólio da violência.
    A violência tem várias expressões numa sociedade de classes, ou seja, numa sociedade capitalista como a nossa. Primeiro, sem o uso da violência as classes dominantes ao longo da história não teriam exercido o seu poder econômico e político. A própria burguesia é a classe dominante mais violenta da história.
    Segundo, a violência é extremamente lucrativa na sociedade capitalista, que transforma tudo em mercadoria. Então, legalizando ou não o porte de armas, a burguesia continuará exercendo a violência e estimulando a violência entre os de baixo. Dito de outro modo, enquanto houver sociedade de classes, enquanto houver capitalismo e exploração vai haver violência, com legalização ou sem legalização das armas.
    Essa própria realidade só pode ser superada através de uma revolução. Uma revolução que possibilite a paz, ou seja, o fim da sociedade dividida em classes, não é um ato pacífico, é um ato violento dos oprimidos contra os opressores. A burguesia não entregará o poder para os trabalhadores de mão beijada.
    É preciso explicar para o povo que a solução da violência não passa pela legalização ou não das armas. Passa por uma revolução e a superação do capitalismo. É preciso explicar para o povo as razões da violência existir e como o Estado, que é o Estado da burguesia, também é produtor de violência.
    Mais do que nunca essa tarefa é necessária, a burguesia e seu estado estão desmoralizados e a democracia burguesa está totalmente desacreditada. Fora disso, o que sobra é liberalismo ou conservadorismo reacionário.
    Magno Francisco da Silva é militante da UP e Mestre em História Social pela UFAL
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