domingo, 10 de dezembro de 2017

Os meus meninos de Gaza


por João Carlos Lopes Pereira [*]
Os meus meninos de Gaza não existem.

Não existem.
Não existem.

Não têm sangue, nem pernas,
nem carrinhos de bebé.
nem olhos, riso ou sandálias. Nem orelhas.
Nem brinquedos. Nem calções,
nem jardins, nem casas onde dormir,
nem pais, avós ou irmãos.
Nem chão, nem água, nem flores,
nem língua, lábios, nariz, mamilos, berço ou lençóis.
Nem têm lápis de cor. Nem manhãs. Nem amanhãs.
Como não tiveram ontens.
Não têm coisa nenhuma porque, afinal, não existem.

Os meus meninos de Gaza
já foram solucionados pelos homens do Sião.
E nem foi preciso gás. Nem fornos de cremação. 

[*] Jornalista. 

Este poema encontra-se em http://resistir.info/ .

sábado, 9 de dezembro de 2017

Viva a Grande Revolução de Outubro, contra 100 anos de agressão imperialista!



por Andre Vltchek [*]
Couraçado Potemkine.O mundo está em ruínas. Está literalmente a arder, coberto por favelas, por campos de refugiados, e na sua grande maioria é controlado pelos "mercados", como era o sonho e o projecto de indivíduos como Milton Friedman, Friedrich von Hayek, Margaret Thatcher e Ronald Reagan.

Führers como Kissinger e Brzezinski, sacrificaram dezenas de milhões de vidas humanas em todo o planeta, apenas para impedir que nações tentassem seguir a sua própria via socialista, e até mesmo, Deus os livre, de sonhos e aspirações Comunistas. Alguns dos tiranos foram na verdade muito "honestos": Henry Kissinger uma vez observou, publicamente, que não via nenhuma razão para que um determinado país devesse ser "marxista" apenas porque "as pessoas são irresponsáveis". Ele estava a pensar no Chile e, em consequência, vários milhares de pessoas foram assassinadas...

Arruinar, destruir países inteiros, só para impedi-los de seguirem o seu próprio caminho, tem sido totalmente aceitável nos círculos políticos, por estrategas militares, responsáveis de serviços secretos e economistas com sede em Londres, Nova Iorque, Washington, Paris e outros centros do chamado "mundo livre", para o qual quase todas as vidas de "não-pessoas" habitando a Ásia, o Médio Oriente, a América Latina, África e Oceânia são dispensáveis e controladas sem cerimónias.

O sistema de opressão ocidental muitas vezes parece ser quase "perfeito". Em grande medida é certamente à prova de bala.

Mas há sempre um grave obstáculo que bloqueia o caminho do imperialismo ocidental, uma barreira que o impede de totalmente controlar e destruir o planeta. Esse obstáculo, essa barreira, chama-se a Grande Revolução de Outubro e o seu legado.

Desde 1917, há exactamente cem anos, que existe este "fantasma" que assombra os impérios europeus e norte-americanos: é um fantasma que sussurra inexoravelmente acerca de internacionalismo, de igualitarismo, sobre grandes sonhos humanistas em que todas as pessoas têm exactamente os mesmos direitos e oportunidades e não podem ser exploradas por uma determinada raça ou por um dogma económico.

Para tornar as coisas ainda piores, esse fantasma vermelho é de alguma forma muito optimista, faz muito mais do que apenas sussurrar: também canta, dança, recita poesia revolucionária e periodicamente pega em armas e luta pelos oprimidos, até por seres humanos totalmente desesperados, independentemente da cor da sua pele.

Muitas vezes perguntamo-nos se o fantasma é realmente um fantasma ou uma criatura viva. O que torna tudo ainda mais assustador, pelo menos para os tiranos e os imperialistas.

O Ocidente está totalmente petrificado! Ele tenta parecer simpático no seu controlo total. Implanta um sistema de elaborada propaganda, regurgita os seus dogmas em todos os lugares; introduz-se nas artes, entretenimento, noticiários, currículos escolares, psicologia e até mesmo na publicidade. Ele mente, distorce factos, perverte a história e constrói uma pseudo-realidade. Todos os meios disponíveis são utilizados; a guerra ideológica é completa.

O que quer que faça o Império do Ocidente, o fantasma vermelho ainda está presente, por toda a parte, e inspira milhões de homens e mulheres cultos e dedicados em todo o mundo. É tremendamente resiliente. Ele nunca se rende, nunca desiste de lutar, mesmo em países onde todas as esperanças e os sonhos parecem estar totalmente destruídos. E onde existem apenas cinzas a esquerda nunca cede, assombrando, assustando quer as elites locais e quer os regimes imperialistas implantados.

Enquanto para muitas pessoas que vivem nas capitais ocidentais, este fantasma vermelho é sinónimo do pior inimigo, na maioria das nações oprimidas, ocupadas e humilhadas, representa a perpétua luta contra o colonialismo e a opressão, simboliza resistência e resiliência, o orgulho e a crença num mundo totalmente diferente.

Os imperialistas sabem que a menos que esta criatura, o fantasma e a esperança que ele representa, sejam completamente destruídos, aniquilados e enterrados em algum lugar debaixo da terra não pode haver nenhuma vitória final e, portanto, nenhuma celebração.

Eles estão a fazer tudo ao seu alcance para desacreditar o fantasma e os ideais que professa. Eles apresentam-no com as piores cores, confundindo as pessoas, conectando-o com o fascismo e o nazismo (enquanto são eles – os imperialistas ocidentais – e o seu próprio sistema, que foram fascistas e "nazis", por décadas e mesmo séculos).

Eles brutalizam, aterrorizam e matam pessoas inocentes em países que se atrevem a decidir ser Comunistas, socialistas ou simplesmente "independentes". Tais actos hediondos forçam os governos das Nações em dificuldades a ficarem na defensiva e tomar "medidas extraordinárias" para proteger os seus cidadãos, E estas medidas defensivas são, por sua vez, descritas pela propaganda ocidental como opressivas, dogmáticas e "antidemocráticas".

A estratégia e as tácticas do Império são claras e altamente eficazes: agridem, molestam e assediam pessoas inocentes que estão simplesmente a tentar viver a sua vida. Quando estas acharam que era demais e decidem replicar, armar-se, mudar a fechadura de sua casa, descrevem-nas como agressivas, paranóicas e perigosas para a sociedade. Afirmam que o seu comportamento dá o direito de invadir-lhe a casa, bater-lhe, violá-la e depois forçá-la a mudar completamente de convicções e estilo de vida.

Logo após a Revolução, há 100 anos atrás, os Soviéticos deram o direito de separação a todas as partes do anterior Império Russo. Foram introduzidas reformas democráticas radicais e todas as estruturas feudais e opressivas do governo czarista entraram imediatamente em colapso. Mas o país jovem foi atacado quase imediatamente do exterior, por um grupo de nações que incluiu o Reino Unido, EUA, França, Polónia, Checoslováquia, Roménia e Japão. Agressões implacáveis e campanhas estrangeiras de sabotagem radicalizaram o Estado Soviético, como mais tarde Cuba, Coreia do Norte, Nicarágua, Vietname, China, Venezuela e muitos outros países revolucionários.

É uma maneira hedionda de governar o mundo, repugnante, mas é altamente eficaz; "funciona". E isso tem sido feito durante tanto tempo, que ninguém já fica surpreendido. É assim que o Ocidente controla, manipula e arruína o mundo desde há séculos, desfrutando de absoluta impunidade, mesmo congratulando-se por ser "livre" e "democrático", descaradamente usando clichés como o dos "direitos humanos".

Mas pelo menos agora, há uma luta.

O mundo costumava estar totalmente à mercê da Europa e América do Norte.

Até a Grande Revolução Socialista de Outubro!

Recentemente, escrevi um livro sobre a Grande Revolução Socialista de Outubro, o seu impacto sobre o mundo e sobre o nascimento do internacionalismo. Eu tinha de escrevê-lo. Cansei de ler e assistir a todo aquele bordel de propaganda anticomunista e anti-soviética, esse evangelho fundamentalista; Cansei de ser bombardeado com lavagem ao cérebro com lixo dia após dia, ano após ano, década após década!

Depois de trabalhar em mais de 160 países, em todos os cantos do mundo, testemunhei a unidade assassina Ocidental contra a democracia e a vontade livre das pessoas, senti que era minha obrigação pelo menos explicar minha posição sobre o evento que teve lugar há 100 anos na cidade e o país onde eu nasci.

E no meu livro foi exactamente isso que fiz.

Não é o que alguns podem chamar de "livro objectivo". Definitivamente não é nenhum ensaio académico cansativo, cheio de notas de rodapé e citações inúteis. Não acredito em "objectividade". Ou mais precisamente, não acho que os seres humanos sejam capazes de ser objectivos, ou que sequer devam preocupar-se com isso. No entanto, acredito fortemente que deveriam clara e honestamente dizer e definir onde se situam, sem enganar os seus leitores.

E isso foi precisamente o que fiz no meu último livro: Esclareci o que a Revolução significa para mim. Lembrei-me do que significa para centenas de milhões de oprimidos e atormentados de seres humanos em todo o mundo. Eu citei alguns deles.

A Grande Revolução Socialista de Outubro não era perfeita. Nada neste mundo é, nada deve ser "perfeito". A "perfeição" é aterradora, fria, e até mesmo se a imaginarmos terrivelmente aborrecida.

Em vez disso, a Grande Revolução Socialista De Outubro fez uma tentativa heróica de libertar pessoas de crenças arcaicas, do feudalismo e da submissão cega, da escravidão física, intelectual e emocional. Definiu todos os seres humanos como iguais, independentemente da sua raça e sexo. Não fez isso por meio de hipocrisias "politicamente correctas" que apenas espalham mel pegajoso de má qualidade sobre bosta, deixando o próprio excremento intacto. A Revolução cortou até ao âmago; construiu um novo léxico, uma nova compreensão do mundo e uma realidade totalmente nova.

A Revolução deu esperança a centenas de milhões de seres humanos que já haviam perdido toda a fé numa vida melhor. Deu orgulho e coragem aos escravos. Devolveu todas as cores e tons ao mundo, que tinha sido brutalmente dividido entre brancos e negros, entre aqueles que tinham e os que não tinham, entre aqueles que eram racial e "culturalmente" destinados a dominar e aqueles que só estavam destinados a servir.

O Ocidente odiou o fantasma vermelho revolucionário desde o início. Odeia-o até hoje. Porque se a União Soviética Comunista tivessem vencido, isso significaria o fim do colonialismo e imperialismo, como o conhecemos. Não haveria a pilhagem e destruição, não haveria a aniquilação monstruosa do Iraque, Líbia, Afeganistão, nenhuma ruína da Síria; nenhuma ameaça mortal como a que paira sobre a Coreia do Norte, o Irão, a Venezuela, não haveria milhões de homens, mulheres e crianças sacrificados no altar do capitalismo global, como está acontecendo na República Democrática do Congo e em tantos outros pontos do globo.

Não seria possível uma ditadura global racista, pós-cristã; nem um sistema de "valores" retorcidos e "cultura" hipócrita empurrada pelos olhos adentro em todos os países conquistados por um punhado de Estados historicamente gangsters, localizados principalmente na Europa e América do Norte.

O Ocidente lutou contra a Grande Revolução Socialista De Outubro desde o primeiro dia. Lutou contra a União Soviética, em todas as frentes, banhando o seu povo em sangue, procedendo a lavagem cerebral e assassinando os seus aliados. Finalmente conseguiu feri-la mortalmente no Afeganistão, quebrando primeiro os ossos da URSS e do Afeganistão logo depois.

Imediatamente depois disto, começou uma reformulada campanha de doutrinação. Seu objectivo tem sido obliterar totalmente o legado do "Grande Outubro". O Ocidente não tem poupado meios e milhares de milhões de dólares têm sido gastos.

Logicamente, que tipo de "'objectividade" se pode se esperar da "cultura" de uma parte do mundo que tem brutalmente tiranizado e pilhado o planeta por mais de 500 anos? Como poderiam eles ser tolerantes para com o evento e o país, que teve como propósito de sua existência, a batalha pela libertação do imperialismo e do colonialismo em todo o mundo?

Agora, a luta contra a barbárie neocolonialista continua sob várias bandeiras vermelhas. Bandeiras Comunistas ainda flutuam sobre a China e Cuba, assim como na Venezuela, Angola e outros países. Há muitas outras cores da resistência, também. A coligação é ampla.

Mas o que é claro e essencial é que a Revolução de 1917 inspira milhares de milhões, consciente e subconscientemente.

O que também está claro é que o Ocidente nunca realmente venceu. Tivesse ele ganho e não estaria tremendo de medo, como agora. Não estaria a oprimir o livre pensamento, derrubando governos democraticamente eleitos, assassinando líderes que estão lutando contra o seu monstruoso regime global.

Para ser franco, o "espírito revolucionário vermelho" na realidade não é um fantasma. Ainda é uma criatura extremamente poderosa. É só se esconde por agora, reagrupando-se, preparando-se para levantar as suas bandeiras e arrastar para o campo de batalha todos os tiranos imperialistas.

O Ocidente adora falar sobre paz. Adora dar lições ao mundo acerca de "paz". Mas a sua "paz" é, de facto, nada mais que um status quo horrível, em que há apenas alguns países ricos e poderosos que reinam sobre o mundo, e há o resto da humanidade, consistindo em fracas, miseráveis, submissas e servis "não-pessoas".

Para o inferno com essa "paz". Tal paz não pode durar muito tempo; Não deve durar muito, porque é totalmente grotesca e imoral. Não é muito melhor do que a "paz" numa plantação de escravos!

É só o legado do Grande Outubro pode terminar com este status quo. E ele o fará.

O fantasma vermelho está assombrando os tiranos. Eles tentam, mas não conseguem expurgar as esperanças e sonhos das pessoas que habitam o nosso planeta. Quanto mais medos os tiranos têm, mais brutais são as suas acções. E mais determinado é o povo dos países subjugados.

Cem anos desde que o couraçado Aurora disparou a sua primeira salva sobre o Palácio de Inverno em São Petersburgo.

Cem anos desde que o mundo abriu os olhos, percebendo que um novo mundo é possível.

Cem anos e o Outubro Vermelho está ainda nos lábios de pessoas na América Latina, na África, Ásia, em todos os lugares.

Os imperialistas são brutais, mas simplistas. Podem matar um homem ou uma mulher, podem matar milhares, até milhões. Mas não podem matar os sonhos. Não podem matar a coragem da raça humana, a menos que assassinem toda a raça humana. Podem matar, mas definitivamente não podem transformar as pessoas em escravos.

Durante a Grande Revolução Socialista de Outubro, as pessoas levantaram-se. Puseram-se de pé. Quebraram as cadeias.

Eles levantar-se-ão novamente. Eles estão a levantar-se novamente, basta olhar com atenção.

Nos últimos 100 anos, tanta coisa mudou e nada mudou. As esperanças e sonhos ainda são os mesmos. Precisamente como então, não há paz sem justiça. E dificilmente haverá alguma justiça da forma como o nosso mundo está organizado.

Viva a Grande Revolução Socialista de Outubro!

Avante! Tal como Hugo Chávez costumava clamar da sua varanda: "Aqui ninguém se rende!"

O fantasma vermelho está aqui, é o do Grande Outubro Vermelho. É tremendamente poderoso. É o aliado de todos os seres oprimidos. Um dia guiará o povo à vitória. Não pode haver absolutamente nenhuma dúvida sobre isso. 
07/Novembro/2017

[*] Filósofo, romancista, cineasta e jornalista de investigação.   Cobriu guerras e conflitos em dezenas de países.   Três de seus livros mais recentes são o romance revolucionário Aurora e dois best-sellers de não-ficção política: Exposing Lies of The Empire Fighting Against Western Imperialism .   Vltchek actualmente reside no sudeste da Ásia e no Médio Oriente e continua a trabalhar em todo o mundo.   Pode ser contactado através do seu sítio web e do seu Twitter . 

Original encontra-se em http://www.informationclearinghouse.info/48147.htm 

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Fatah pede um retorno à resistência armada. Hamas pede uma nova Intifada




Fatah

Em um breve discurso da Casa Branca, Donald Trump, o presidente dos EUA reconheceu Al Quds como a capital de Israel na quarta-feira, 6 de dezembro. Uma decisão tomada apesar das advertências dos palestinos e da comunidade internacional sobre suas conseqüências perigosas.
Desde o anúncio, o movimento palestino Fatah proclamou em uma declaração a retomada da resistência armada contra o regime de Tel Aviv, relata o canal Al Manar.
A ala militar do Fatah alertou efetivamente suas forças militares, ao mesmo tempo que exortou a Autoridade Palestina e a Organização de Libertação da Palestina (OLP) a deixar de reconhecer Israel como um estado independente.
Fatah convida a OLP, a Liga Árabe e a Organização da Cooperação Islâmica (OIC) a reconhecer Al Quds como a capital da Palestina e expulsar os territórios palestinos de diplomatas dos EUA e israelenses.
Ele também convocou todas as forças militares sob seu controle e a resistência palestina (Hamas) para realizar uma luta armada contra o inimigo israelense.
O Hamas, que controla a Faixa de Gaza, pediu uma "nova intifada". A artilharia de ocupação bombardeou duas vezes um ponto de controle da Resistência a leste do campo de refugiados de Magazi, no centro da Faixa de Gaza, na sexta-feira.
Fonte: Al Manar

A violência israelense deixa 31 palestinos mortos e 3730 feridos

  • Palestinos celebram cerimônias funerárias para um palestino assassinado por tiros demitidos por soldados israelenses em Al-Quds (Jerusalém).
Postado: quarta - feira, 14 de outubro de 2015 às 5:02
Pelo menos 31 palestinos foram mortos e mais de 3730 ficaram feridas desde 1 de Outubro, como resultado de ataques das forças israelenses na cidade de Al-Quds (Jerusalém) ea Faixa de Gaza.
Cerca de 20 palestinos foram mortos por tiros disparados por forças israelenses nas cidades da Cisjordânia ocupada, enquanto outros 11 foram mortos por balas de soldados israelenses em Gaza " , relata Osama al-Nayar no início da quarta-feira. o porta-voz do Crescente Vermelho da Palestina em um comunicado.
As tensões nos territórios palestinianos ocupados aumentaram dramaticamente  após novas incursões e profecias à Mesquita Al-Aqsa em Al-Quds, que provocou a ira do povo palestino.
mkh / ktg / msf

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Ciência: desenvolvimento nacional ou negócio?


A ciência na sociedade capitalista, principalmente em países periféricos como o Brasil, é tratada como negócio: estudantes de pós-graduação – cujas bolsas estão defasadas há muitos anos, valendo hoje a metade do que valiam há dez anos – são espremidos para apresentar resultados e melhorar a avaliação das universidades, institutos, departamentos e programas de pós-graduação pelas agências de fomento, o que resulta em maiores recursos financeiros. Tamanha é a pressão que, no fim do mês de outubro, foi noticiado o suicídio de um jovem doutorando da USP.
Esta pressão não pretende buscar resultados inovadores que sirvam como alento a quem tem uma doença que não tem cura na forma de um novo tratamento, por exemplo. Muito menos pretende buscar estratégias de promoção da saúde e prevenção de doenças para que sejam aplicadas pelos profissionais de saúde nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) ou nos Núcleos de Apoio à Saúde da Família (NASF) e diminuam a necessidade de medicamentos que enriquecem a indústria farmacêutica.
 A pressão é em busca de quantidade. Isso é o que importa às agências de fomento (CNPq e Capes): um número imenso de publicações científicas cujo conteúdo às vezes beira o irrelevante, já que o que parece funcionar em determinadas pesquisas simplesmente não funciona em outras com modelos extremamente semelhantes. Mas por que não funcionam?
Atualmente, o que importa no currículo de um estudante de pós-graduação é a quantidade de publicações em revistas de alto impacto. Isso é o que define se ele vai seguir adiante na carreira ou não. As revistas mais bem avaliadas pela Capes são internacionais (principalmente estadunidenses e europeias), que muitas vezes exigem o pagamento para a publicação (em alguns casos, de até 5 mil dólares!), o que por si só, já compromete muito a confiabilidade dos resultados publicados. Além disso, essas revistas tendem a aceitar apenas resultados “positivos”. Os resultados considerados “negativos” voltam para a gaveta ou os dados são publicados de maneira enviesada, para que pareçam mais importantes do que realmente são. Para ter acesso ao conteúdo também é necessário pagamento (cerca de 20 dólares por artigo!). Geralmente esses custos são financiados pelo governo.
Em resumo: o governo, ou melhor, a população brasileira paga para produzir o trabalho (custo de materiais, reagentes químicos, salário de professores, bolsas de estudantes), paga para publicar o trabalho em uma revista internacional que arrecada milhões, e depois paga para que os estudantes das universidades tenham acesso a ele. Além disso, as iniciativas para divulgação da ciência são mínimas, em linguagem extremamente técnica e muitas vezes em língua estrangeira, mesmo em eventos regionais e nacionais. O povo trabalhador, que paga pela realização dos trabalhos científicos, sequer tem acesso a eles!
O investimento em ciência é essencial para o desenvolvimento do país, portanto, é urgente que as agências de fomento se desprendam das correntes da indústria da publicação científica, parem de valorizar a quantidade – e consequente enriquecimento de editoras milionárias – e invistam de fato em ciência.
Peguemos o exemplo de Cuba. Em 1960, Fidel Castro profetizou: “O futuro de nossa pátria tem que ser necessariamente um futuro de homens de ciência, tem que ser um futuro de homens de pensamento”. Em 1965 foi concebido o Centro Nacional de Pesquisas Científicas (CNIC). Até 2011, o CNIC tinha formado 32 mil especialistas nas mais diversas áreas do conhecimento. Em 1986 é fundado o Centro de Engenharia Genética e Biotécnica (CIGB). Mesmo sofrendo com o bloqueio econômico, Cuba investe muito em ciência. O Centro, além de gerar grande contribuição econômica, através da exportação dos produtos criados, tem papel central na prevenção e combate a doenças na ilha, que, por exemplo, já erradicou a hepatite B (nenhum caso desde 1999). Em abril deste ano, Cuba foi reconhecida como o primeiro país do mundo a erradicar a transmissão vertical do HIV (de mãe para filho).
Cuba, cujo índice de analfabetismo é zero, também desenvolveu a primeira vacina contra o câncer de pulmão, que aumenta a expectativa de vida dos pacientes. Segundo o Dr. Fernández Yero, “o maior orgulho do grupo de pesquisadores e técnicos é fazer ciência a favor da saúde dos cubanos e de outros povos”¹.
Certamente, a preocupação de Fidel em desenvolver a educação e a ciência na ilha se espelhou no trabalho de Lênin e Stálin na União Soviética, já que essas eram as bases do crescimento da antiga potência mundial. Destaca-se também o trabalho de Nadezhda Krupskaya, primeira mulher na história a ocupar um alto cargo de Estado, que equivalia ao Ministério da Educação (Leia mais sobre a educação e a ciência na União Soviética em A Verdade nº 200).
Para o avanço da ciência no Brasil, é necessário que se valorize o pós-graduando e o aluno de iniciação científica. Para que eles façam ciência buscando a melhoria da qualidade de vida da população e não quantidade de publicações; e divulguem-na em espaços e linguagem acessíveis às massas. Do contrário, o jovem pobre da periferia continuará sem ter acesso aos laboratórios. Entretanto, para realmente construir a ciência como patrimônio social, que tenha como único objetivo a melhoria da qualidade de vida da população e não o lucro de grandes magnatas, e além disso, para que os trabalhadores pobres tenham acesso à educação, precisamos construir a pátria socialista!
Vinícius Stone é doutorando em bioquímica e coordenador da Associação de Pós-graduandos da UFRGS
¹ “Ciencia en Cuba: apuesta por la soberanía”, Orfilio Peláez Mendoza
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segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Para onde tem ido todo o excedente?


por David Ruccio [*]
Graças à divulgação dos chamados Paradise Papers e das investigações adicionais conduzidas por Gabriel Zucman, Thomas Tørsløv e Ludvig Wier , sabemos que uma grande parte so excedente capturado pelas corporações é artificialmente transferido para paraísos fiscais de todo o mundo. Isto, naturalmente, está no topo da evidente evasão fiscal praticado pelos indivíduos possuidores de uma grande parte da riqueza mundial.
Assim, como exemplo, corporações multinacionais dos EUA agora afirmam gerar 63 por cento de todos os seus lucros realizados no estrangeiro em seis paraísos fiscais, sendo os mais destacados a Holanda, Bermudas & Caribe e Irlanda. Isto representa 20 pontos mais do que em 2006. [1]

O que isto significa é que, nos próprios paraísos fiscais, taxas impositivas baixas podem gerar grandes receitas fiscais em relação à dimensão das economias. Mas também significa que grandes corporações multinacionais podem jogar um paraíso fiscal contra os outros e transferir seus lucros para aqueles com leis e regulamentos mais generosos – como fez a Apple recentemente, ao relocalizar dezenas de milhares de milhões de dólares da Irlanda para a pequena ilha de Jersey (a qual tipicamente não tributa rendimento corporativo e em grande medida é isenta de regulações fiscais da União Europeia).
Isto também significa que os supostos países sede das corporações multinacionais perdem receitas fiscais potenciais, o que representa um fardo fiscal imposto aos demais, especialmente indivíduos e pequenos negócios.

No caso dos Estados Unidos, Zucman e seus colegas estimam que os EUA perderam quase 60 mil milhões de euros para paraísos fiscais (cerca de três quartos dos paraísos fiscais da União Europeia e o resto de paraísos fiscais alhures), o que representa cerca de 25 por cento da receita fiscal corporativa actualmente arrecadada.

Como explica Zucman,
Paraísos fiscais são um propulsor chave da desigualdade global, porque os principais beneficiários são os accionistas das companhias que os utilizam para fugir a impostos.
Claramente, as regras existentes são tais que grandes corporações multinacionais ganham duas vezes: primeiro, pela captura de cada vez mais excedente dos seus trabalhadores, cujos salários mal se moveram nas últimas décadas; e em segundo lugar, por utilizar paraísos fiscais para evitar pagar impostos sobre uma grande porção daquele excedente, transferindo portanto o fardo fiscal para os trabalhadores do seu próprio país. 
[1] Elaborei os gráficos acima com base nos dados disponibilizados publicamente por Zucman, Tørsløv e Wier 
15/Novembro/2017

[*] Economista.

Do mesmo autor: 
  • The poor and unequal die younger (Mortalidade e desigualdade em S. Paulo, Brasil)

    O original encontra-se em https://rwer.wordpress.com/2017/11/15/where-has-all-the-surplus-gone-4/ 


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
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