sábado, 19 de janeiro de 2019

Os satélites estão a mudar de sol

Os satélites estão a mudar de sol

– Intensificação das contradições interimperialistas

por Ángeles Maestro [*]

O objetivo estratégico que presidiu a todos os planos do imperialismo, desde a vitória da Revolução de Outubro até ao afundamento da URSS, em 1991, foi a derrota do comunismo. A finalidade comum de destruir o primeiro Estado proletário tornou possível a luta conjunta contra ele de todas as potências capitalistas que se confrontaram nas duas guerras mundiais. Perante este objetivo superior, as contradições interimperialistas apareciam secundarizadas e a hegemonia de Washington assegurada.
No cenário internacional irromperam recentemente factos aparentemente surpreendentes. Quando, no passado mês de novembro, se celebrava em Paris o centenário do armistício da I Guerra Mundial, Trump, com o objetivo de atacar a França e a Alemanha e de recordar o papel hegemónico dos EUA na Europa, disse que " quando os americanos desembarcaram na Normandia, em 1944, os franceses estavam a aprender a falar alemão ". Mais do que um desejo tão pouco sedutor de conseguir que os países europeus aumentassem a sua participação económica e militar na NATO, essa afirmação deve interpretar-se como mais um exagero na escalada dos confrontos entre os EUA e a UE, que, nessa altura, culminaram com a decisão de esta última criar um exército europeu independente.

São só desafinações de Trump, ou existem, desde há algum tempo, mudanças importantes nas relações interimperialistas?

Há bastante tempo que a Red Roja concentra as suas análises da atual fase do capitalismo precisamente nas contradições interimperialistas entre a UE – e sobretudo da potência hegemónica, a Alemanha – e os Estados Unidos. Esse interesse corresponde à necessidade de conhecer o melhor possível os confrontos que se dão entre as cúpulas do poder, agudizadas em épocas como as atuais de crise geral do capitalismo. Na luta pela conquista do poder político, o fator decisivo que define a correlação de forças é a debilidade do inimigo.

O objetivo estratégico que presidiu a todos os planos do imperialismo, desde a vitória da Revolução de Outubro até ao afundamento da URSS, em 1991, foi a derrota do comunismo. A finalidade comum de destruir o primeiro Estado proletário tornou possível a luta conjunta contra ele de todas as potências capitalistas que se confrontaram nas duas guerras mundiais. Perante este ojetivo superior, as contradições interimperialistas apareciam secundarizadas e a hegemonia de Washington assegurada.

Depois da II Guerra Mundial, o interesse de Washington, como grande potência vencedora e herdeira do imperialismo britânico, concentrava-se em controlar a Europa. Os seus instrumentos para construir uma Europa ocidental a reboque dos interesses do EUA e totalmente dependente dos seus interesses no plano militar foram o Plano Marshall e a NATO.

A meta histórica da Casa Branca, que agora abre brechas, era controlar o continente euroasiático, o " pivô do mundo". Para isso, havia que impedir o surgimento de uma potência europeia com vontade própria, com suficiente poder económico e militar para ser capaz de se opor aos EUA, que pudesse estabelecer relações com a URSS (ou, atualmente, com a Rússia) de forma soberana e contra os seus interesses. O procedimento foi desenhar de forma reiterada confrontos entre os países do Coração Continental, de forma que nenhum pudesse chegar a ser suficientemente forte para ser um obstáculo para a hegemonia anglo-saxónica.

A confrontação entre as duas grandes potências socialistas, a URSS e a China, o posterior desaparecimento da primeira e a instauração na segunda de parâmetros capitalistas, o estabelecimento de bases da NATO na maior parte dos países europeus (sendo as principais na Alemanha e no Kosovo depois da liquidação da República Federal da Jugoslávia), ou a integração na Aliança Atlântica de boa parte dos países do extinto Pacto de Varsóvia, pareciam assegurar um futuro luminoso aos planos norte-americanos.

E pur si muove [1] 

A derrota do movimento comunista e a enorme crise geral que afeta o capitalismo, desde o início da década de 70 do século passado, e cujo penúltimo safanão se iniciou em 2007, está a ter consequências económicas, políticas e sociais que pressupõem mudanças qualitativas nessa ordem mundial estabelecida a partir de 1945.

A leitura desta crise realizada por organizações políticas e sindicais da socialdemocracia (PSOE-IU-PCE, Comissiones Obreras, UGT, e agora o Unidos Podemos) sempre dispostas a prestar ajuda ao capital, foi a contraposição do capitalismo europeu " social e humano " ao norteamericano, " selvagem e brutal ". Este discurso de " regresso ao Estado do bem-estar " prestou enormes favores à burguesia espanhola e à de fora. Agora, essas declarações de lavagem da face ao capitalismo correm por toda a parte e a sua superestrutura política vai abrindo brechas à medida que o descrédito do sistema e a correspondente radicalização de posições ocupam com força crescente o cenário internacional.

Luta pelos mercados e as matérias-primas. Sanções e desdolarização 

A poderosa irrupção da indústria chinesa e a ocupação dos principais mercados em praticamente todos os setores conduziu à queda a pique da economia produtiva norte-americana. A resposta da Casa Branca foi a imposição de importantes obstáculos às importações chinesas e ao estabelecimento de novas sanções à Rússia. Ao assédio económico sucedeu-se o cerco militar: ampliação das bases militares dos EUA na Ásia e o acossar da NATO contra a Rússia ao longo de todas as suas fronteiras europeias.

Enquanto se desenhava a derrota dos EUA e da UE (sobretudo a França e a Grã-Bretanha) na Síria, às mãos do Eixo da Resistência (Hezbollah, Síria, Resistência Palestiniana e Irão), apoiado pela Rússia, abria-se caminho para um novo confronto económico interimperialista.

O acordo nuclear com o Irão e o levantamento de sanções em 2015 foi deliberadamente preparado pela Alemanha. Imediatamente depois de ser assinado, Berlim desenvolveu as suas relações comerciais com Teerão, abrindo caminho a outros países da UE. A Casa Branca ficava secundarizada na competição para converter o território do inimigo "xiita" em campo de negócios.

Washington, pressionado pelos seus sócios na região (Israel e Arábia Saudita), e já em franca retirada da Síria e do Iraque, no passado mês de novembro impôs novas sanções contra o Irão e a qualquer empresa ou país que negocie com ele. Uma mal dissimulada tentativa de impedir o aproveitamento comercial por parte dos concorrentes da UE do novo e poderoso mercado iraniano.

O resultado de todo este complexo processo não pode ser mais nefasto para os EUA. Desde a Turquia ao Estado espanhol – para referir os exemplos mais claros na história de Estados intervencionados pelos EUA – as declarações foram rotundas e insólitas. " Não aceitamos imposições do imperialismo dos EUA ", declarou Erdogan, " Isso de estar por mim ou contra mim pertence a outra época e Espanha não vai permitir esse tipo de conceções ", asseverou o lacaio Borrel, que reapareceu repentinamente.

Se os satélites se manifestam assim não é por lhes ter dado um ataque repentino de soberania e independência, mas porque estão a mudar de sol.

Merkel, em nome da UE dirigiu-se ao Irão, contundente: " Mantenham os vossos compromissos que nós manteremos os nossos ".

A ameaça das sanções tem tido como consequência que uma crescente lista de países se declarem insubmissos e decidam realizar as suas transações em moedas diferentes do dólar. As repercussões para a Europa, que começam apenas a manifestar-se, são graves e afetam toda a sua estrutura de dominação.

O imperialismo é uma relação de poder que pode ser exercida sempre que os países subordinados a aceitem. Tudo indica que o coquetel de sanções, juntamente com a desdolarização progressiva, ameaça tornar-se para o império ianque " não um tiro nos pés, mas mais acima ".

O germe do novo exército europeu 

Esta escalada de tensão entre os EUA e a UE tende a crescer porque se baseia nos interesses económicos em confronto que, por sua vez, favorecem a aproximação desta última com a Rússia. Os últimos episódios aprofundam a confrontação: o apoio dos EUA ao Brexit, para debilitar a UE, ou a tentativa – condenada ao fracasso – de impedir que se materialize, através do Nord Stream [2] . a compra de gás natural russo pela UE.

Parece estar a terminar o longo período em que as contradições euro-norte-americanas se conciliavam debaixo do chapéu de chuva da NATO.

O estouro da URSS anulou a necessidade de " proteção perante a ameaça comunista " e a crise geral do capitalismo manifesta-se como uma luta feroz pelos mercados e as matérias-primas, com o objetivo de controlar a queda crescente da taxa de lucro.

E, efetivamente, o confronto económico interimperialista terá as suas consequências militares. Merkel declarou em maio que " A época em que podíamos confiar que os EUA nos protegessem acabou-se. A Europa deve tomar o seu destino nas próprias mãos ".

O projeto PESCO (Cooperação Estruturada Permanente em Segurança e Defesa) dotado de um orçamento inicial de 12 000 milhões de euros, inicia a criação de um exército estritamente europeu e uma base de produção de armamento e inovação tecnológica a partir exclusivamente de empresas europeias e explicitamente independente dos EUA.

Luta de classes e relações interimperialistas 

A decadência económica relativa dos EUA, que também pode ter consequências para a manutenção da sua descomunal estrutura militar, com cerca de 1000 bases militares no planeta, não supõe que a sua capacidade agressiva diminua. A relativa independência da UE em relação aos EUA e à NATO não se concretizou nem, em caso de concretizar-se, supõe que o imperialismo europeu seja " bom " ou " humano ".

São orientados exatamente pelos mesmos objetivos na luta de morte para concorrer nas melhores condições na selva do capitalismo, erguida sobre a exploração – sem mais limites do que a luta de classes – da classe operária e da natureza.

Por aqui não há nenhuma esperança. O dilema continua a ser: socialismo ou barbárie. A conquista do poder político pela classe operária, única possibilidade de destruir o monstro capitalista que aniquila a humanidade, exige conhecer as suas debilidades e, sobretudo, as suas divisões e as suas discordâncias. 
18/Janeiro/2019

Notas da autora
[1] Estes aspetos foram analisados em Maestro, A. (2016) Las contradicciones entre el imperialismo estadounidense y el europeo. Controlar el "pivote mundial" [As contradições entre o imperialismo norte-americano e o europeu. Controlar o "pivô mundial].    www.redroja.net/...
[2] O documento da Red Roja intitulado El mito de la vuelta al estado del Bienestar. Otro capitalismo es imposible [O mito do regresso do Estado do bem-estar. Outro capitalismo é impossível], escrito no início das convulsões da crise (2012), tinha o objetivo de desfazer a enésima tentativa de colocar a "reforma" da UE e o regresso ao "Estado do bem-estar" como objetivo das mobilizações populares contra a colocação do peso brutal das consequências da crise sobre as classes populares. Depois do 15 de março, pretendia-se impor estas palavras de ordem, a partir de uma chamada Cimeira Social, formada pelas Comissiones Obreras, a UGT, o PSOE, a IU e os seus satélites. Desta vez, não alcançaram o objetivo. As Marchas pela Dignidade surgiram um ano depois, colocando no centro do seu programa o Não Pagamento da Dívida e o questionamento do euro e da UE, entre outras coisas.    www.redroja.net/..
[3] A lista de países e empresas que realizam o seu comércio em moedas diferentes do dólar está em crescendo. Destacam-se a compra de armas à Rússia por países como a Índia, o Paquistão, o Qatar ou a Turquia, aliados incondicionais dos EUA durante décadas.
[4] No passado dia 12 de dezembro, a Câmara dos Representantes dos EUA aprovou uma resolução contra a entrada em funcionamento do Nord Stream 2, com a qual ameaça a Rússia de novas sanções e apela à Europa que faça o mesmo. O Nord Stream 2 é um gasoduto de 1.200 km que une a Rússia e a Alemanha através do Mar Báltico; quer dizer, sem passar pela Ucrânia. Além da Gazprom russa, participam nele os grupos energéticos alemães Uniper e Wintershall, a austríaca OMV, a francesa Engie e o gigante anglo-holandês Shell.

Notas do editor
[1] E pur si muove: E, no entanto, [a Terra] move-se – frase atribuída a Galileu, obrigado a renegar pela Inquisição a sua teoria heliocêntrica.
[2] Nord Stream: também conhecido como Gasoduto Russo-Alemão e Gasoduto do Mar Báltico, é um gasoduto submarino para o transporte de gás natural entre Vyborg, na Rússia, e Greifswald, na Alemanha. 


[*] Médica, responsável pela Red Roja.

O original encontra-se em redroja.net/...
e a tradução em pelosocialismo.blogs.sapo.pt/os-satelites-estao-a-mudar-de-sol-57459 


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Alma descobre protoestrela com disco deformado

Alma descobre protoestrela com disco deformado


Impressão de artista de um disco deformado em torno de uma protoestrela. O ALMA observou a protoestrela IRAS04368+2557 na nuvem escura L1527 e descobriu que a protoestrela tem um disco com duas partes desalinhadas.Crédito: RIKEN

Usando o ALMA (Atacama Large Millimeter/submillimeter Array) no Chile, investigadores observaram, pela primeira vez, um disco deformado em torno de uma jovem protoestrela formada há apenas algumas dezenas de milhares de anos. Isto implica que o desalinhamento das órbitas planetárias em muitos sistemas planetários, incluindo o nosso, pode ser provocado por distorções no disco de formação planetária no início da sua existência.

Os planetas do Sistema Solar orbitam o Sol em planos que estão, no máximo, desviados do equador do próprio Sol até cerca de sete graus. Sabe-se há algum tempo que muitos sistemas exoplanetários têm planetas que não estão alinhados com um único plano ou com o equador da estrela. Uma explicação para isto é que alguns dos planetas podem ter sido afetados por colisões com outros objetos no sistema ou por estrelas que passaram pelo sistema, ejetando-os do plano inicial.

No entanto, sempre permaneceu a possibilidade de que a formação planetária fora do plano normal era na realidade provocada por uma deformação no disco de acreção a partir da qual os planetas nascem. Recentemente, imagens de discos protoplanetários, discos giratórios onde se formam planetas em torno de uma estrela, mostraram de facto uma tal deformação. Mas ainda não se sabia quão cedo isto acontecia. 

Ilustração que mostra a estrutura do disco deformado em torno da protoestrela, com um disco interno e outro externo.Crédito: RIKEN

As descobertas mais recentes, publicadas na revista Nature, pelo grupo do RIKEN CPR (Cluster for Pioneering Research) e da Universidade Chiba, no Japão, descobriram que L1527, uma jovem protoestrela ainda incorporada dentro de uma nuvem, tem um disco com duas partes, uma mais interna que gira num plano e outra externa situada num plano diferente. O disco é muito jovem e ainda está a crescer. L1527, situada a aproximadamente 450 anos-luz de distância na Nuvem Molecular de Touro, é um bom objeto de estudo, pois tem um disco que está quase de lado a partir do nosso ponto de vista da Terra.

De acordo com Nami Sakai, que liderou o grupo de investigação, "esta observação mostra que é concebível que o desalinhamento das órbitas planetárias possa ser provocado por uma estrutura deformada produzida nos primeiros estágios da formação planetária. Teremos que investigar mais sistemas para descobrir se isto é um fenómeno comum ou não."

A questão que ainda permanece é saber a razão da deformação do disco. Sakai sugere duas explicações razoáveis. "Uma possibilidade, diz, "é que as irregularidades no fluxo de gás e poeira na nuvem protoestelar ainda estão preservadas e manifestam-se como um disco distorcido. Uma segunda possibilidade é que o campo magnético da protoestrela está num plano diferente do plano rotacional do disco e que o disco interno está a ser puxado para um plano diferente do resto do disco pelo campo magnético." Ela diz que a equipa planeia determinar o responsável pela deformação do disco.
Fonte: Astronomia OnLine

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

"O projeto de conciliação de classes do PT faliu"

"O projeto de conciliação de classes do PT faliu"

por Ricardo Antunes [*]
entrevistado por Gabriel Brito [**]
Jair Bolsonaro assumiu a presidência da República e seus primeiros dias de mandato deixam claro que sua agenda política é uma radicalização daquela executada por Temer. Na primeira entrevista de 2019, o Correio da Cidadania conversou com o sociólogo do trabalho Ricardo Antunes, que acaba de publicar O privilégio da servidão – o novo proletariado de serviços na era digital (Editora Boitempo), e faz uma dura análise do atual estágio político e ideológico sobre os setores que deveriam fazer o contraponto ao projeto de uma direita de evidentes traços autoritários e excludentes.

Na conversa, Antunes aponta para o caminho de destruição total do mundo do trabalho ofertado pelo novo governo, o que mal foi disfarçado em sua campanha eleitoral. E constata que apesar da forte votação o PT já não tem condições de liderar as lutas sociais no Brasil. "O partido terá de abdicar de qualquer hegemonismo nas esquerdas. Poderá ser um partido de centro-esquerda parlamentar, capaz de votar contra projetos que ataquem direitos do mundo do trabalho e setores vulneráveis da população. Mas nem com isso devemos ter ilusões. Que ninguém espere que o parlamento seja a barreira contra a tragédia anunciada de Bolsonaro".

Tal como aponta em seu livro, Antunes afirma reiteradamente as novas facetas dos movimentos que se opõem ao capitalismo e suas políticas econômicas, reorganizadas em escala global. "Precisamos de organização social e política autônoma, de base e classe, formada com espírito anti-capitalista, coisa que o PT no poder ajudou a obliterar. As esquerdas sociais precisam jogar sua energia na combinação das lutas de resistência em todos os espaços possíveis com a busca de um projeto autônomo de emancipação social e política. O calendário das oposições não pode mais ser o calendário das eleições".

Sobre este reordenamento mundial, o sociólogo explica: "estamos num período de tripé devastador: hegemonia profundamente destrutiva do capital financeiro, uma pragmática neoliberal que não tem mais nenhum limite e uma reestruturação produtiva do capital que por sinal é permanente. O mundo informacional-digital sob comando do capital financeiro sabe que não pode eliminar o trabalho definitivamente. Mas sabe que pode depauperá-lo e só remunerar quando um trabalho for realizado, sem descanso, férias, fim de semana, nada. Por isso chamo tais trabalhadores e trabalhadoras de novos proletários da era digital".

No entanto, é enfático em afirmar que tal modelo de capitalismo inevitavelmente produzirá uma grande massa de rebelados, dado o rebaixamento das condições de vida e enorme concentração de renda que garantirá a seus donos. 

A entrevista completa pode ser lida a seguir.

Correio da Cidadania: O que esperar do governo de Jair Bolsonaro e seu perfil de extrema-direita, refletido, para além da histriônica figura presidencial, na equipe de trabalho? O que esperar para o chão social brasileiro em 2019? 

Ricardo Antunes: O que pode ser dito de imediato é que entramos num tempo de completa imprevisibilidade. Sabemos que Bolsonaro surfa num momento de ascensão da extrema-direita. Não falamos da direita neoliberal tradicional, dominante em especial nos países de capitalismo avançado de forma quase inquestionável, com suas variantes neoliberal pura ou social-liberal, como no fundo são os socialistas europeus.

O Bolsonaro surfa nesta onda, que, à diferença do neoliberalismo, tem uma construção menos globalista e mais nacional. O Trump é fundador deste projeto. Mas uma coisa é ter um projeto de reposição dos EUA no mundo global, outra coisa é o papel do Brasil. As diferenças são fundantes: um é o centro, o império do capitalismo, o outro é um país da periferia, importante, mas um país que depende do comércio com a China, os EUA, a Europa, a Argentina. Isso torna tal governo imprevisível.

Politicamente, parece não haver dúvida de que será extremamente conservador, protofascista e que em seu ideário podemos caracterizar como profundamente antipopular, antissocial, anticlasse trabalhadora. Bolsonaro deixou claro que vai avançar na informalidade do mundo do trabalho. Seu projeto de carteira de trabalho verde amarela é ultraortodoxo no sentido neoliberal.

Portanto, para o cotidiano das pessoas só podemos esperar o pior possível. Mas ele deixou isso claro em sua campanha eleitoral, anunciou o desmonte completo da classe trabalhadora, coisa que Temer em seus dois anos já fez amplamente, com a Reforma Trabalhista, a lei da terceirização total e a permissão da terceirização ampla e quase irrestrita no setor público.

Correio da Cidadania: O que esperar dessa combinação de liberalismo econômico extremado e um governo de traços protofascistas? 

Ricardo Antunes: O governo, para além de seu "mito", já mostra em seus primeiros passos ser eivado de tensões e contradições em seu interior. Traz uma política ortodoxa capaz de fazer a Margaret Thatcher revirar-se em seu túmulo. De um lado traz uma liderança que surfou em cima de uma onda ultraconservadora e de um enorme desencanto da população com a falência do projeto de conciliação de classes do PT.

Teve um "líder" que soube se utilizar das campanhas anticorrupção para converter o PT no inimigo central do país como se este fosse o criador da corrupção e que participou de apenas um debate televisivo, logo no começo da campanha. E mesmo quando estava em condições de aparecer nos debates não o fez, fazendo sua vacuidade política não aflorar com a intensidade que já aflora, como na sua incapacidade de indicar alguma equação para questões de economia, saúde, educação...

O vazio do seu ideário é compensado pelo ódio às esquerdas, aos movimentos populares, aos LGBTs, aos indígenas, às mulheres, aos negros... O elemento complicador é a cunha militar muito forte dentro do governo. O vice, ao que parece, foi uma imposição das forças armadas, um sinal de ser preciso alguém de confiança para dar comedimento e mesmo um contraponto ao tom intempestivo do "líder" vitorioso nas urnas.

É o neoliberalismo levado ao limite, com mais privatização, mais concentração de renda [rendimento, NR], mais enriquecimento das burguesias, mais empobrecimento das classes trabalhadoras, mais informalidade do trabalho, coisa que Bolsonaro insiste em defender...

Dessa forma, a combinação colocada pela pergunta apenas nos faz antever a multiplicação das possibilidades e tons do desastre econômico, social e político.

Correio da Cidadania: Já falamos em outras entrevistas sobre a dificuldade de recolocar o PT como grande liderança das lutas sociais e da classe trabalhadora depois de seus governos e opções políticas e econômicas. Mas também se trata da maior força de oposição, partido que mais elegeu deputados. Como você imagina a volta do PT à oposição, com todo seu desgaste entre setores populares e também nas alas progressistas da sociedade? 

Ricardo Antunes: O projeto de conciliação de classes do PT faliu. A medida do Bolsonaro de fechar o Ministério do Trabalho é mais do que emblemática. O Ministério do Trabalho foi criado em 1930 por Getúlio para ser um organismo a serviço da conciliação de classe. Ao extingui-lo, Bolsonaro mostra que não vem fazer a conciliação de classes, mas dar continuidade à contrarrevolução preventiva iniciada por Temer, que agora entra em período mais crítico, com a radicalização da Reforma Trabalhista e a Reforma da Previdência que visa jogar a população pobre na imprevidência.

O PT recuperou certo fôlego por conta do desmonte ultraliberal do governo Temer. O partido saiu do governo Dilma sem força para fazer sequer uma greve de um dia por conta do impeachment ou contra a prisão de seu principal líder, Lula. Mesmo assim, se fortaleceu na reta final da eleição, entre outras coisas porque a população tem sua sensibilidade. É muito evidente: o governo do PT foi em seu conjunto desalentador para a classe trabalhadora, mas o governo Temer foi devastador. Assim, o PT ainda ganhou um voto de confiança de muita gente. Até figuras como Joaquim Barbosa e Rodrigo Janot declararam voto em Haddad, um amplo leque de tendências o fizeram, abstraindo o fato de o candidato ser do PT, diante do fato de no outro lado estar o inimigo maior, com cheiro de fascismo.

Mas as eleições já foram. Como fica o PT agora? Terá de fazer um acerto de contas profundo consigo mesmo, com o fenômeno do lulismo e sua pragmática. Isto é, aquela pragmática de um partido que sempre espera a decisão final de seu líder, entendido pela maioria de seus militantes como um gênio político infalível. O PT só terá chance de se recuperar se fizer uma profunda autocrítica em relação a este ponto. E não vejo condições para isso dentro do partido, especialmente porque sua cúpula é predominante e visceralmente lulista. Faço uma análise do PT que temos pela frente, independentemente das adversidades que o Lula padece na prisão, condenado sem provas materiais, como é de consenso considerável por todo um pensamento jurídico razoavelmente independente.

A discussão a respeito da corrupção, que foi intensa nos governos do PT, é vital. Se não houver uma autocrítica em relação a isso... Até porque o partido nasceu com uma certa concepção udenista, dado que a UDN tinha um traço levemente liberal-democrático. Havia a ideia de que o PT seria capaz de acabar com a corrupção brasileira, mas terminou no mesmo lamaçal. Dito isso, o que o judiciário fez em relação ao Lula é outra questão.

De todo modo, o resultado é que o PT não é mais líder, por definição ou vontade divina de seu líder, da oposição de esquerda no Brasil. As oposições de esquerda terão de se reinventar, e por fora do lulismo. Uma coisa é defender um julgamento até última instância e sua condenação a depender de provas materiais concretas. Outra coisa é praticar uma forma de lulismo mesmo fora do PT, que dificulta e impede o nascimento de uma esquerda social e política de perfil mais autônomo, ideologicamente mais consistente e que perceba que o desafio fundamental do próximo período é combinar uma resistência de perfil antifascista com um projeto de classe. Como já vemos na Hungria, onde houve uma manifestação muito importante contra o governo neofascista e xenofóbico que visa à devastação da legislação trabalhista do país.

Não que o PT deva ser excluído de tudo. Para algumas questões as esquerdas devem caminhar juntas, quando houver unidade básica. Se é contra a reforma trabalhista do Temer e sua radicalização pelo governo que entra, de devastação integral do mundo do trabalho, deve caminhar junta. Devemos ter a CUT e o PT em manifestação de oposição deste tipo. Até por ser importante diferenciar um pouco a cúpula dominante do PT de amplos setores do partido, que estão de fato descontentes. Não imagino que figuras como Tarso Genro e Olívio Dutra, com todas as diferenças marcadas pelo tempo, mas ainda lideranças muito respeitadas, não tenham nenhuma insatisfação com a tragédia desenvolvida pelo PT no último período. 

Existe um mosaico de movimentos sociais: MST, MTST, dos indígenas, das mulheres, dos LGBT, dos negros, da juventude, da periferia, uma miríade de movimentos sociais profundamente descontentes com a tragédia dessa contrarrevolução preventiva e o que implementará a partir de janeiro.

O PT devia fazer o que tanto cobrou do PCB em relação a 1964 (a partir daquele golpe militar abriu-se um debate nas esquerdas, muitos saíram do PCB e foram para a luta armada etc). Em poucas palavras, o debate era: o PCB cometeu erros "de esquerda" ou repetiu um traço constante desde 1945, isto é, desvios "de direita", de colaboracionismo e conciliação de classes?

Além desta autocrítica fundamental, o PT não vai poder ressurgir das cinzas sem pelo menos outras duas autocríticas fundamentais: a excessiva institucionalidade e apego ao calendário eleitoral e o distanciamento das classes trabalhadoras, como ficou claro no impeachment, quando nenhuma reação, nem por uma hora, pode ser realizada. A ponto de a prisão de Lula no Sindicato dos Metalúrgicos não ser marcada pela presença de operários, de gente que foi a base de sustentação do PT e Lula desde os anos 70. Estavam presentes o MTST, MST e outros movimentos sociais. A base metalúrgica não fez sequer uma greve ou resistência contra a prisão de Lula, o que mostra o imenso descontentamento em relação a seu líder do passado.

O PT deve definitivamente abandonar a ideia de que é o epicentro da oposição brasileira. O partido e Lula não merecem mais esse posto há muito tempo. Não lideram a classe trabalhadora mais. Ao longo da história mereceu, como nos anos 80, quando o partido liderava as lutas sociais, pois tinha como apoio um tripé espetacular: a classe operária industrial, amplos setores do campesinato e amplos setores da classe média assalariada. Por todas as modificações que tais setores sofreram ao longo de 30 anos, o partido já não tem o apoio majoritário de nenhum deles. O partido teve votação expressiva, mas tratou-se de um voto contra o Bolsonaro. Teve votação expressiva entre setores que ganham um ou dois salários [mínimos, NR] e em especial no Nordeste.

No meu livro e vários artigos anteriores, aponto que a base de apoio do governo Lula mudou entre o primeiro e o segundo governos. Na medida em que perdeu apoio na massa sindicalmente organizada pela CUT e politicamente dirigida pelo PT, ganhou apoio das massas atingidas pelo Bolsa Família, que embora fosse um tipo de assistencialismo apoiado até pelo Banco Mundial, pelos traços de forte miserabilidade de seus beneficiários foi importante. Neste momento o Nordeste se tornou um pilar de sustentação do lulismo. Mas a classe trabalhadora industrial do Sudeste e do Sul passou a se afastar. A classe trabalhadora nordestina ainda ficou ao lado do PT, por motivos compreensíveis, pois vivenciou o desgaste completo que foi a devastação de Temer.

O partido terá de abdicar de qualquer hegemonismo nas esquerdas. Poderá ser um partido de centro-esquerda parlamentar, capaz de votar contra projetos que ataquem direitos do mundo do trabalho e setores vulneráveis da população. Mas nem com isso devemos ter ilusões. Que ninguém espere que o parlamento seja a barreira contra a tragédia anunciada de Bolsonaro. Precisamos de organização social e política autônoma, de base e classe, formada com espírito anticapitalista, coisa que o PT no poder ajudou a obliterar. As esquerdas sociais precisam jogar sua energia na combinação das lutas de resistência em todos os espaços possíveis com a busca de um projeto autônomo de emancipação social e política. O calendário das oposições não pode mais ser o calendário das eleições.

Uma lição das rebeliões de junho que as esquerdas deveriam ter aprendido é que a população não crê na institucionalidade, em nenhuma de suas expressões. Naturalmente, não quero dizer que tais instrumentos não tenham nenhuma importância. Vimos que o STF agiu positivamente ao impedir ataques da extrema-direita institucional às universidades e suas expressões internas. Aliás, até a ditadura era mais cautelosa em fazer isso...

De todo modo, as rebeliões de 2013 mostraram que os novos caminhos são mais plebiscitários, horizontais, extraparlamentares, anti-institucionais e não jogam todas as suas energias no judiciário. O judiciário está incapacitado para tanto... Ele reflete o plano da normatividade e as oscilações das confrontações da vida social, que vêm das ruas.

Correio da Cidadania: Pelas declarações de suas principais lideranças não haverá essa tão propalada autocrítica. Aliás, falar nisso chega a parecer uma fuga da realidade. 

Ricardo Antunes: Com tristeza, digo que não vejo a menor possibilidade desta autocrítica do PT. Mas muitos setores de base do partido, e até da direção, menos comprometidos com a trágica política que levou ao fim de seus governos, participarão de novos embates.

É preciso extirpar o mito de Lula como grande líder e herói da classe trabalhadora, o infalível e insuperável. Neste sentido, o lulismo, tal como foi o prestismo no PCB, e como todos os movimentos por demais canalizados na figura de seu líder, a exemplo também da Venezuela, padecem do mesmo mal. O chavismo, que tantas mudanças positivas gerou na Venezuela, não foi capaz de formar lideranças que substituíssem Chávez. No Brasil, esse líder não tem mais condições de capitanear a luta por uma outra sociedade. Não vi até hoje uma única frase do Lula a questionar "onde nós erramos?". Antes de ser preso, Lula dizia em seus palanques que queria de novo unir o país e acabar com o clima de tensão. Em que mundo ele vive? Num país pautado pelo racismo, o escravismo e a superexploração do trabalho, como podem se juntar forças tão díspares? Esse não e o país da conciliação, é o país da contradição visceral.

É importante lembrar que a extrema direita politizou o debate eleitoral. Bolsonaro politizou o debate e ao contrário do que se falou da Dilma não cometeu o chamado estelionato eleitoral. Usou sua retórica contra a esquerda, disse que precisava rebaixar direitos do trabalho, defender empresários, fazer privatizações, jogou toda a culpa no PT.

E a esquerda conseguiu minimamente oferecer um projeto de esperança em direção de outra sociedade? Eu não vi em nenhum programa ou debate. Não vi ninguém dizer que o desafio é recuperar uma vida dotada de sentido e um outro mundo, não mais capitalista. Não vi, salvo um ou outro grupo minoritário. Ninguém defendeu um socialismo de novo tipo, capaz de acabar com a exploração visceral do trabalho, com a propriedade privada e intelectual, que domina riquezas criadas pela humanidade, a exemplo das comunidades indígenas que veem grandes laboratórios se apropriarem de conhecimentos seculares.

A extrema-direita está apresentando um projeto. A esquerda não. Lembro de uma vez que estive em Roma, há uns 15 anos, quando vi um cartaz que me impressionou muito: "nós somos a verdadeira direita". Quinze anos atrás ou mais. Na Itália a direita está dizendo que ela é a verdadeira, porque a direita sempre aparecia como liberal, liberal-conservadora, democrata-conservadora, mas não como fascista e protofascista aberta, como vemos hoje no Brasil. Por que a esquerda não politiza o debate com radicalidade? Não estou falando de doutrinarismo. Mas o que ensinam as comunidades indígenas? A vida comunal. O que o majestoso Quilombo dos Palmares , talvez o primeiro experimento de emancipação social no Brasil, ensinou? A vida comunal. O que ensinou a rebelião do Haiti, a primeira dos escravos e brutalmente reprimida? A possibilidade da vida comunal, com as propriedades coletivas prevalecendo sobre a privada.

O problema é que na ânsia de ter mais votos considera-se necessário calibrar e moderar demais o discurso, para adequar-se a uma onda antiesquerda de amplitude global, sob hegemonia financeira, dado que as populações sofrem um inculcamento muito profundo contra tais ideias. Mas nunca é integral. A resposta vem dos levantes, como as greves de Jirau e Santo Antônio, as greves do começo desta década que foram muito importantes na história recente do país. Estamos instados a pensar outro modo de vida.

Correio da Cidadania: Relacionando a entrevista com seu livro, que fala da precarização do trabalho em escala totalizante, temos a herança do governo Temer que avançou neste sentido com leis em favor da terceirização e a entrada de um governo que visa reforçar tais projetos. Considerando ainda as politicas econômicas que se anunciam, o que esperar em termos de emprego e renda para a população brasileira de modo geral? 

Ricardo Antunes: Quando olhamos os países europeus que tiveram vigência da socialdemocracia, vimos que conseguiram legislações de proteção social e do trabalho muito positivas, escola e saúde públicas, níveis de civilidade do capitalismo que jamais existiram na periferia. Se vemos que o máximo de civilidade que tivemos na periferia, no caso brasileiro, foi com Getúlio Vargas, sendo que a classe trabalhadora rural estava excluída da CLT ...

Mas acontece que estamos num período de tripé devastador: hegemonia profundamente destrutiva do capital financeiro, uma pragmática neoliberal que não tem mais nenhum limite e uma reestruturação produtiva do capital que por sinal é permanente. Nasceu na Alemanha, mas se espalhou no mundo avançado a indústria 4.0. Em poucas palavras significa que as corporações se devoram. O futuro de uma depende da absorção que ela fará de sua concorrência.

Exemplo: 20 anos atrás havia uma disputa cerrada entre [os produtores de cerveja] Brahma e Antarctica. Hoje são a mesma, e são uma empresa muito maior do que a soma dessas duas marcas. Havia também uma disputa intensa entre Perdigão e Sadia. Hoje são a mesma, a Brasil Foods. No centro global as fusões se ampliam exponencialmente. Paralelamente, considerando que as corporações comandam a vida produtiva e, portanto, as cadeias produtivas de valores, a tecnologia é vital, especialmente quando o setor de serviços passou a interessar diretamente aos capitais.

Quando da revolução inglesa, no século 18, a indústria foi o novo, ainda que houvesse indústria antes. Entre aspas a indústria vem desde as comunidades primitivas quando ao se aquecer minérios se conseguia a forma de metal. Mas a revolução inglesa levou a lógica capitalista à indústria e a um processo de transformação capitalista do mundo rural no século 19, que passou ao século 20. Indústria e campo eram os setores principais da criação de valor e lucro, da extração da mais valia. Nesses séculos o setor de serviços, embora tivesse núcleos privatizados, era essencialmente público: estradas, telefonia, saúde, educação, previdência, cárcere...

Mas com a crise dos anos 70, estrutural e muito profunda, tanto do capitalismo como de seu sistema, houve uma intensificação à enésima potência da tecnologia de informação e comunicação no mundo das empresas, em particular do setor de serviços. E a introdução do mundo maquínico, da lógica informacional e digital, transformou profundamente a produção capitalista. Hoje uma grande empresa carrega o nome de uma marca, mas terceiriza toda sua produção. O Wallmart tem uma cadeia vastíssima, que começa no sul da China. A Amazon tem um mundo esparramado de empresas que oferecem trabalhos de ponta na área digital, tem experimentos como lojas e shoppings onde a pessoa entra, é identificada digitalmente, pega um produto, sai e seu preço cai direto na conta bancária. Tudo sem contato com nenhum trabalhador. Uber e assemelhados praticam uma escravização do(a) trabalhador(a) que usa seu carro, paga seguro, gasolina e que numa corrida vê 20%, 30% do pagamento imediatamente recolhido pelo aplicativo.

Como cito no livro, tem o contrato de zero hora na Inglaterra, que abarca praticamente todas as profissões de serviços, médicos, advogados, técnicos, cuidadores, limpeza, domésticas, jardineiros... Eles ficam à disposição de seus aplicativos, que os chamam para prestar serviços. E só recebem quando há uma chamada para fazer um serviço. Se ficar 3 ou 4 dias esperando uma chamada que não vem, não recebe. As empresas de tais áreas foram as que mais comemoraram a aprovação desta contrarreforma trabalhista do Temer, em favor do trabalho intermitente, porque podem fazer os trabalhadores esperarem, seja de sábado, domingo, sem pagá-los. E quando chamados ganham por duas ou três horas. Se de repente chove e o movimento de um fast food fica abaixo do esperado a remuneração pode ser insuficiente até paracondução.

Correio da Cidadania: Esse aspecto não se choca frontalmente com o discurso ufanista em favor do trabalho dito autônomo, do empreendedorismo, condições que supostamente tornariam o trabalhador mais livre? 

Ricardo Antunes: O mundo informacional-digital sob comando do capital financeiro sabe que não pode eliminar o trabalho definitivamente. Mas sabe que pode depauperá-lo e só remunerar quando um trabalho for realizado, sem descanso, férias, fim de semana, nada. Por isso chamo tais trabalhadores e trabalhadoras de novos proletários da era digital. E daí vem o título do livro, a partir do livro de Albert Camus, o Primeiro Homem, quando em linhas gerais ele diz que só os acidentes de trabalho, em empresas que dão seguro saúde, dão a chance de férias e lazer ao trabalhador. Só quando eles se acidentam podem ter tais benefícios. O desemprego passa a ser o maior medo e o trabalho, que deveria ser uma virtude, acaba sendo um caminho para a morte, fotografia que resulta no Privilégio da servidão.. Isto é, os jovens que hoje têm 20, 25 anos, se tiverem sorte, serão servos, submetidos e dominados em seu trabalho. O assalariado é o escravo da era capitalista, como dizia Marx.

Os jovens de hoje, qualificados ou não, nativos ou imigrantes, se tiverem sorte terão o privilégio de serem servos. Caso contrário, estarão no desemprego, que será muito maior no futuro. Em suma, a indústria 4.0 significa digitalização, automatização, introdução da inteligência artificial, da lógica dos algoritmos, todo esse monumental avanço de tecnologia da comunicação e informação, de tal modo que todas as atividades vão eliminar o trabalho vivo, intensificar o trabalho realizado pelo mundo digital ("a internet das coisas", como dizem), em qualquer setor, escolas, bancos etc. No mundo produtivo, seja na indústria, agricultura, suas intersecções e serviços, tudo que for possível digitalizar, computadorizar, automatizar e eliminar trabalho humano será valido.

A pergunta que não quer calar é: o que vai acontecer com a massa de trabalhadores(as)? Teremos um pequeno grupo de trabalhadores(as) muito qualificados(as) na ponta do sistema, para realizar as atividades humanas absolutamente insubstituíveis ao menos até o presente, mas toda a massa de trabalhos intermediários, desde as gerências e supervisões até a parte mais executora, operária, todos jocosamente chamados de "colaboradores", vai perder seu emprego. Assim teremos uma situação na qual os bolsões de desempregados aumentarão.

O Brasil tem praticamente 20 milhões de desempregados. Mais um conjunto que faz bico, trabalho informal, autônomos sem formalização, à margem muitas vezes do sistema de previdência. Consequentemente, a previdência arrecadará menos, vão dizer que ela é deficitária por culpa dos trabalhadores, quando é o grande capital que arrebenta a previdência pública em favor da previdência privada, favorável aos bancos com seu modelo de capitalização.

Correio da Cidadania: É um cenário profundamente destrutivo. 

Ricardo Antunes: Tem um elemento importante que destaco no livro: essa massa imensa de trabalhadores e trabalhadoras na China, Índia, na Europa, EUA, Canadá, Brasil, Argentina etc. etc. etc., enfim, massa imensa de jovens informalizados, terceirizados, intermitentes, alguns com poucos direitos, outros com burla completa, se rebela. Recentemente houve greves dos trabalhadores de fast food nos EUA e das trabalhadoras da limpeza dos tribunais de justiça de Londres. Há greves frequentes em escritórios de telemarketing.

Precisamos estudar, compreender e analisar o modo de ser daquilo que chamo de nova morfologia do trabalho, do proletariado de serviços, que não é a classe média. O que caracteriza a classe média é a prevalência do trabalho intelectual, o que não é o caso das categorias aqui citadas. Há uma massa de jovens bem formados em Portugal, Grécia, que vai trabalhar em hotéis, restaurantes. Vi em Veneza jovens formados em engenharia abrindo e fechando as portas do vaporetto (as barcas que transportam as pessoas pelos canais) por 500 euros por mês, seis dias por semana, durante 5 ou 6 meses, em um contrato só, depois substituído por outro jovem.

É claro que tal contingente de proletários é diferente em sua subjetividade quando comparado ao antigo operário industrial, um metalúrgico, um trabalhador rural. Mas o setor de serviços se tornou altamente produtivo, gerador de lucro e mais valor. Duas passagens importantes colocadas por Marx em O Capital:   para gerar valor e mais valia a produção do trabalho não precisa ser materialmente produtiva; ela pode ser vista no espaço da circulação, a exemplo da indústria do transporte. Esta não produz nada, mas transporta pessoas e mercadorias. É um eixo vital da geração de lucro. É preciso entender o processo de produção que existe dentro de atividades de circulação. E tal atividade é vital porque quanto mais tempo se leva a circular, menor sua produtividade. Quanto mais rápido o tempo de circulação se aproxima de zero, maior o tempo de produção.

Não é difícil compreender que o mundo das tecnologias da comunicação e informação expandidas em todas as áreas passou a ser um setor vital na esfera de circulação do capital. Nossos gostos são conhecidos pelos sites e redes sociais. Se procuramos uma passagem para a França, na mesma hora recebemos no computador informações de novas passagens a um preço mais razoável. Significa que o capital quer extrair mais valor em todos os espaços em todas as formas de produção no sentido lato.

Por que o governo Bolsonaro defende o ensino a distância? Porque o professor, ganhando 15 reais por aula, pode deixar de dar aula para 20 ou 30 alunos e poderia dar para 20 mil ou 30 mil. Quando isso ocorre, aquele professor que foi vital para a aula presencial, numa escola privada, passa a ser gerador de um lucro muito potencializado.

Tudo isso cria um proletariado de novo tipo que luta, se rebela, e é diferente do anterior. Dizem na Europa "nós somos a parte mais precária da classe trabalhadora: somos jovens, temos qualificação, homens, mulheres, nativos, imigrantes, brancos, negros, amarelos, mas não temos direitos adquiridos como tinha a antiga classe trabalhadora". Vi muita gente na Itália a dizer, "o sindicato representa vocês, a velha classe trabalhadora. Teremos de criar os nossos, porque o de vocês não nos representa". O sindicalismo, especialmente o europeu, muito moderado e tradicional, aprendeu a representar sua classe no desenho socialdemocrata. Mas hoje a socialdemocracia é mais ficção que realidade.

Os direitos estão sendo eliminados país por país. Era inimaginável na Itália, que em 1970 fez um código do trabalho altamente avançado, vermos, como estabelecido em 2017, um sistema de pagamentos por voucher. O trabalhador faz, por exemplo, 100 horas mensais e pega um voucher por hora de trabalho, para depois trocar cada um deles pelo equivalente à hora do salário mínimo italiano. O empresário diz que pode arrumar mais horas de trabalho, mas não pelo mesmo valor. Cria-se um sistema de pagamento direto. E se o trabalhador não aceita há uma massa imensa de imigrantes e pobres desesperados por tais postos.

Estamos diante da criação ilimitada de massas de jovens disponíveis para o trabalho que não têm mais o regime de proteção, no qual há direitos como férias, saúde, descanso etc. É um movimento duplo e contraditório: precarização ilimitada, na qual o intermitente global é emblemático, e uma massa que se rebela, está lutando para aprender a criar suas novas formas de associativismo, como se vê em Milão, em Nápoles, em Portugal, a exemplo do movimento Precari@s e Inflexíveis. Neste país há o recibo verde como modo de pagamento, recibo que mede seu pagamento de acordo com a produção no tempo de trabalho.

Correio da Cidadania: Desse modo, faltaria reconhecer que uma das brechas aproveitadas pela extrema-direita na atual conjuntura foi uma interpretação deficiente da atual formação das classes trabalhadoras? 

Ricardo Antunes:  As teses sobre o fim da classe trabalhadora estão sepultadas. É uma classe que se amplia. Mas como é muito segmentada, heterogênea, com distinções de classe, geração, gênero, etnia, é evidente que há uma dúvida sobre quais organismos vão dar sentido de pertencimento de classe a este conjunto heterogêneo, polimorfo, polissêmico que caracteriza a classe trabalhadora na China, na Índia, na Coreia do Sul, na África, no leste europeu, na América do Sul...

Nas rebeliões de junho [de 2013] era muito visível o jovem proletariado brasileiro que ralava o dia inteiro em empregos precários para pagar uma faculdade de noite imaginando que ia participar da festa e dividir o bolo. Quando ele percebeu que a divisão do bolo, metaforizada nos megaeventos esportivos, não tinha pedaço nenhum paraele, só para as grandes corporações, se rebelou. Esse jovem é política e ideologicamente muito diferente, porque não tem tradição política nem sindical em seu lastro.

E os sindicatos e partidos de esquerda, grosso modo, têm sido incapazes de compreender a vida cotidiana, a consciência contingente e aquilo que é capaz de mobilizar o proletariado que na Europa já se autodenomina precariado. Essa definição não veio da sociologia do trabalho. Foram os movimentos de trabalhadores que deram este nome, a exemplo do San Precario, dos trabalhadores de Milão. É a nova franja do proletariado, que antes era pequena, mas se expandiu mundialmente, solapando as bases sociais da socialdemocracia. É uma parcela da jovem classe trabalhadora que não se beneficia das conquistas sociais da época do welfare state do taylorismo e do fordismo.

Portanto, quais os interesses desses segmentos que compõem a totalidade da classe trabalhadora? Que lutas querem realizar? Como vão soldar laços de pertencimento de classe a fim de evitar que sejam tratados de forma individual? Como mostram as reformas de Temer, Macri e Macron, querem que o trabalhador se entenda sozinho com a empresa. Mas quando o trabalhador ganhou uma? Neste cenário o capital ganha todas.

A saída dos trabalhadores só pode ser solidária e coletiva, como tento trabalhar nos dois capítulos finais do livro: "Há futuro para os sindicatos? Há futuro para o socialismo?" É decisivo recuperar as questões vitais da vida cotidiana e desenhar outro modo de vida, muito além do capital. Este é o imperativo do século 21. 
11/Janeiro/2019

[*] Sociólogo.
[**] Jornalista e editor do Correio da Cidadania.

O original encontra-se em www.correiocidadania.com.br/... 


Esta entrevista encontra-se em http://resistir.info/ .

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Bolsonaro : Um governo baseado em mentiras




Bolsonaro : Um governo baseado em mentiras

Segundo o dicionário, demagogia é a manipulação de sentimentos e paixões populares visando conquistar o poder, quando um político corrupto se utiliza de um discurso bonito, mas com um único intuito: enganar a população ou mesmo demonstrar bons sentimentos e boas intenções, porém, falsas. E demagogia é a palavra que melhor resume o governo recém-empossado Jair Bolsonaro.  Eleito espalhando mentiras, discursos de ódio contra mulheres, negros e indígenas, tudo via Whatsapp, o capitão reformado do exército agora vê seu castelo de cartas desmoronar, isso tudo com menos de um mês de mandato.
 O problema é que, segundo a cultura popular, a mentira, mesmo andando quilômetros, ainda tem pernas curtas. Os discursos inflamados contra a corrupção, se dizendo o que havia de mais novo na política, que iria mudar o país radicalmente ficou, como diria o narrador, no zero a zero. As mentiras do candidato ficaram no “zap zap” e o vento levou. Dos 22 ministros escolhidos, nove estão envolvidos em processos e investigações, denúncias essas que vão desde corrupção, improbidade administrativa, favorecimento ilícito, fraude em licitação, caixa dois, inquéritos envolvendo o Ministério Público e a própria Operação Lava Jato.
Isso sem falar no próprio presidente, que, apesar do discurso anticorrupção, teve seu nome envolvo em crimes como lavagem de dinheiro, funcionários fantasmas em seu gabinete e o antiético auxílio moradia de R$ 3.083,00 pagos pela câmara de 1995 até ser denunciado perto das eleições. Sabe aquela expressão, “casa de ferreiro, espeto de pau?” bem isso. Prometendo “enxugar a máquina”, acabar com as regalias, vimos cair a máscara de bolsonaro e sua trupe, com escândalos como ex-alunos assumindo cargos, o filho do vice-presidente ser promovido de modo relâmpago e muita polêmica se espalharem pelas redes sociais.
A cara de pau chega a ser tanta que até generais nomeados ministros, tidos como exemplos de conduta e probidade, também tiveram seus nomes manchados em denúncias e escândalos, como o general Heleno, que recebia um salário de R$ 59 mil do Comitê Olímpico do Brasil (COB), sendo R$ 47 mil vindos de recursos públicos, ou seja, recebendo acima do teto permitido para funcionários públicos (R$33,9 mil). Mas não nos enganemos. A demagogia é a principal característica do fascismo, como denunciou Geórgi Dimitrov em sua obra A Unidade Operária Contra o Fascismo:
 “(…) o fascismo surge e conquista influência sobre as massas, destacando o apelo demagógico sobre as necessidades mais urgentes dos trabalhadores, bem como pela incitação aos antigos preconceitos alimentados pela ideologia burguesa sobre o proletariado (…) o fascismo é demagógico. Promete às massas melhores condições de vida, mas proporciona, na realidade, o aumento da sua exploração, empurrando a classe trabalhadora para a sarjeta (…)”.
Ou seja, Bolsonaro, como uma espécie de “trump tupiniquim”, junto com a sua equipe tem trabalhado para dar seguimento a austeridade e destruição dos direitos adquiridos por décadas de lutas pelos trabalhadores.  Como fascista, representante dos interesses mais escusos do capital financeiro e da elite nacional, Bolsonaro tem como missão aplicar sua agenda antipovo. Não vai ser uma frase polêmica dita por um dos seus ministros ou uma postagem no facebook que guiará seu governo, que é bem assessorado pelos setores mais reacionários dos Fake News como a Cambridge Analytica, de Steve Bannon, o principal articulador da campanha de trump e outros políticos dessa laia ao redor do mundo.
Mas se a demagogia é pior que a mentira, e se ela tem pernas curtas, não iria demorar muito para cair por terra. O povo brasileiro, que enfrentou tantas provações e adversidades, não seria enganado por muito tempo. Se a demagogia é uma característica do fascismo, não se render é uma do brasileiro. Esses humilhados e ofendidos não irão ficar calados diante desse fascismo. A resposta para essa má fé do milionário fascista será respondida à altura. Afinal, nós brasileiros não temos a menor vocação para sermos escravos.
Clóvis Maia, Pernambuco.
jornal
 A  Verdade
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terça-feira, 15 de janeiro de 2019

China consegue que uma semente de algodão brote na Lua pela primeira vez!


Conquista faz parte dos experimentos da Sonda Chang'e 4, que pousou com sucesso na face oculta do satélite em 3 de janeiro

Uma semente de algodão brota na lua, dentro da sonda chinesa Chang'e 4
Uma semente de algodão brota na lua, dentro da sonda chinesa Chang'e 4
China conseguiu que uma semente de algodão brote na Lua pela primeira vez, o que significa o sucesso de um dos experimentos da sonda Chang'e 4, a primeira a pousar na face oculta do satélite, informa a agência estatal de notícias Xinhua nesta terça-feira, 15. Segundo uma equipe de cientistas da Universidade de Chongqing (sudeste da China), esse feito representa a primeira “miniexperiência” bem-sucedida em solo lunar.
A sonda Chang'e 4, que no último dia 3 fez o primeiro pouso da história da humanidade na face oculta da Lua, levou consigo sementes de algodão, colza (planta usada na fabricação de óleos), batatas e arabidopsis (uma flor muito usada em experiências genéticas), além de ovos de drosófilas (mosca-da-fruta) e algumas leveduras, com a intenção de poder criar uma “minibiosfera simples”, segundo a Xinhua. Nesse sentido, as imagens enviadas pela Chang'e 4 mostraram nesta terça um broto de algodão que tinha crescido com sucesso, a única semente que germinou até agora.
Esse cultivo não é nada fácil: as temperaturas sobre a superfície lunar podem superar os 100 graus Celsius durante o dia lunar, e cair a menos de 100 negativos de noite, além de receber uma maior radiação solar e de apresentar uma menor gravidade do que na Terra. Xie Gengxin, cientista encarregado do experimento com plantas na Lua, contou ao jornal South China Morning Post, de Hong Kong, que sua equipe havia desenhado um recipiente que manteria a temperatura entre 1 e 30 graus, permitindo a entrada de luz natural e o fornecimento de água e nutrientes para as plantas.
Segundo o jornal, esse dispositivo, um cilindro de alumínio de 18 centímetros de altura e 16 de diâmetro, pesa 3 quilos e teve um custo de mais de 10 milhões de yuans (5,5 milhões de reais). Porém, essas plantas não foram as primeiras a crescer no espaço: uma equipe da NASA já desenvolveu em 2016 um sistema de zínias (uma flor) na Estação Espacial Internacional.
A China anunciou nesta segunda-feira sua intenção de continuar ampliando seu programa de exploração espacial, com uma missão de recolhimento de amostras na Lua neste ano e outra em 2020 cujo objetivo será Marte, segundo o subdiretor da Agência Nacional Espacial da China (ANEC), Wu Yanhua.
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