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segunda-feira, 9 de agosto de 2021

Igualdade e escassez

Igualdade e escassez por Prabhat Patnaik [*] Muitos recordarão que a União Soviética e outros países socialistas da Europa do Leste costumavam ser caracterizados por longas filas de consumidores de várias mercadorias. Isto foi motivo para muita ridicularização no ocidente e era atribuída à ineficiência do sistema socialista de produção, em comparação com o capitalismo onde bastava ir a um supermercado e comprar tudo o que se quisesse. Na realidade, longe de serem um sintoma de ineficiência, as longas filas de consumidores eram um reflexo da natureza altamente igualitária das sociedades socialistas. Analogamente, o livre acesso a bens sob o capitalismo é fundamentado na extrema desigualdade de rendimento que prevalece sob este sistema. Este ponto pode ser ilustrado por um exemplo em que deliberadamente escolhemos números que são idênticos em todos os aspectos excepto na distribuição do rendimento. Tomem-se duas economias S (sob o socialismo) e C (sob o capitalismo). Cada uma investe 20 unidades e pode fabricar 100 unidades de produto. Os 20 por cento superiores em S (consistentes de funcionários socialistas) têm 30 por cento do produto e os 80 por cento mais baixos (consistentes de trabalhadores) têm os restantes 70 por cento. Em contraste, os 20 por cento superiores em C (consistentes de capitalistas e funcionários) têm 60 por cento do produto e os restantes 80 por cento (consistentes de trabalhadores) têm 40 por cento. O segmento de topo em cada economia consome a metade do seu rendimento e os trabalhadores em cada economia consomem a totalidade do seu rendimento. Agora, se a plena capacidade de produção dos 100 for atingida em S, então o total da procura para consumo será 85 (consistindo de metade de 30 mais 70) e a procura agregada total (inclusive de investimento de 20) será 105. Em contraste, o total da procura para consumo em C será 70 (metade de 60 mais 40) e a procura agregada total (inclusive de investimento de 20) será 90. Por outras palavras, se a plena capacidade de produção de 100 for atingida, então haverá um excesso de procura de 5 em S e uma procura deficiente de 10 em C. Portanto a economia capitalista não produzirá em plena capacidade devido à procura deficiente. Em vez disso produzirá apenas 66 2/3, uma vez que com esta produção e as mesmas fatias distributivas os capitalistas obterão 40 e os trabalhadores obterão 26 2/3, de modo que o consumo total será 46 2/3, os quais juntamente com o investimento de 20 será exactamente igual à produção verificada, 66 2/3. O emprego real portanto será apenas dois terços do que teria sido se a produção em plena capacidade estivesse a verificar-se. Em suma, haveria desemprego maciço. Uma vez que não se trata de qualquer falta ou excesso de procura (bem pelo contrário) nesta economia, os consumidores podem simplesmente entrar em qualquer supermercado e comprar o que quiserem; não há quaisquer filas de espera por bens. Em contraste, na economia socialista, onde a produção de 100 causa um excesso de procura de 5, será produzida a capacidade total de produção de 100; mas a questão é como é que uma tal economia irá lidar com o excesso de procura de 5? A forma fácil de o fazer seria simplesmente deixar os preços subirem, até que os rendimentos reais de alguns consumidores tenham sido suficientemente esmagados para reduzir as suas compras em 5; mas tipicamente isto significaria um esmagamento desproporcionalmente grande dos trabalhadores que terão muito pouco dinheiro para reduzir, a fim de manter o consumo. Todo o excesso de procura de 5 será então reduzido a expensa dos trabalhadores. Mas comparado a isto, uma redução proporcional no consumo de toda a gente será melhor; isto é o que as economias socialistas faziam, mantendo os preços ao nível antigo mas instituindo o racionamento, para que a redução da procura em 5 pudesse ser mais igualmente repartida. Este racionamento significava que as pessoas tinham de fazer fila para as suas compras. Assim, o facto de que as economias socialistas eram caracterizadas por filas de espera não era causado por qualquer ineficiência do sistema. Ao contrário, era um reflexo da preocupação do sistema em manter baixa a desigualdade na distribuição dos rendimentos. Assim fazia de duas formas distintas: uma, mantendo o nível base de distribuição relativamente mais igual; e a segunda, assegurando que se no entanto surgisse um excesso de procura, então que a sua resolução assumisse a forma não de um aumento de preços que teria sido regressivo, mas de um racionamento a preços determinados. As filas de espera eram um resultado deste racionamento. Sem dúvida houve muitos problemas na implementação efectiva de uma tal política na economia socialista, tais como o acesso privilegiado de alguns (funcionários do Estado ou do Partido) a bens escassos, e a violação do princípio da igualdade de rações para todos pela instituição de um princípio de "primeiro a chegar, primeiro a ser servido", o qual tinha o efeito de distribuir o bem escasso arbitrariamente. Mas isto não nega o ponto básico de que a escassez observada de bens numa economia socialista foi o resultado de uma distribuição mais igualitária do rendimento. Do mesmo modo, a plenitude observada de bens sob o capitalismo é o resultado do facto de vastas massas de trabalhadores terem demasiado pouco poder de compra nas suas mãos para comprarem estes bens, o que é tanto uma causa como uma consequência do desemprego em massa que invariavelmente caracteriza este sistema. O bem conhecido economista húngaro Janos Kornai, um crítico do sistema socialista que existia no seu país, tinha dito: "o capitalismo clássico é limitado pela procura enquanto o socialismo clássico é limitado pelos recursos", o que significa que este último utiliza plenamente todos os seus recursos, incluindo a mão-de-obra disponível. A razão que ele deu para este fenómeno foi que sob o socialismo, uma vez que as empresas têm subsídios governamentais assegurados elas enfrentam uma "restrição orçamental branda" que as faz gastar em excesso em projectos de investimento, sem serem demasiado calculistas quanto à taxa de retorno esperada. Sob o capitalismo, pelo contrário, as empresas enfrentam uma "restrição orçamental dura" que as torna cautelosas na realização de investimentos. Se bem que isto possa ser verdade, há uma poderosa razão adicional que temos enfatizado para o capitalismo ser constrangido pela procura e o socialismo constrangido pelos recursos – e esta é a maior igualdade na distribuição do rendimento sob o socialismo. Dito de modo diferente, uma vez que o nível da procura agregada em qualquer economia (ignorando o comércio externo) consiste de dois elementos, o nível de investimento e o nível de consumo tal como determinado pelo rácio médio do consumo em relação ao rendimento (ou propensão da economia a consumir nas palavras de Keynes), a explicação de Kornai para a diferença entre capitalismo e socialismo refere-se só ao primeiro elemento, embora também haja uma diferença muito importante em relação ao segundo. A maior igualdade na distribuição de rendimento sob o socialismo significa na média um rácio consumo-rendimento mais elevado e, portanto, um nível de procura agregada mais alto para qualquer dado nível de investimento (o que os economistas chamam um "multiplicador" mais alto para o investimento). Este aspecto chave das economias socialistas foi omitido por Kornai. Qual o interesse, poder-se-ia perguntar, em dizer tudo isto agora, quando o socialismo na União Soviética e na Europa do Leste entrou em colapso? Bem, uma razão parcial é recordar-nos que, apesar de todas as suas limitações, as economias socialistas constituíram um grupo que alcançou o pleno emprego, em contraste com o que tem acontecido com todas as outras economias nos últimos duzentos anos. Isto acontece porque o capitalismo, pela sua própria natureza, não pode alcançar o pleno emprego, ao passo que economias socialistas têm dinâmicas muito diferentes que lhes permitem assim fazê-lo. Que tais economias existiram deveria ser sempre recordado. A outra parte da resposta reside no facto de que o contraste agudo entre capitalismo e socialismo também se refere numa menor extensão à diferença entre o regime dirigista e os regimes neoliberais em países do terceiro mundo como a Índia. Não que estes países tenham alcançado algo como o pleno emprego, mas os regimes dirigistas tinham maior igualdade na distribuição do rendimento razão pela qual eles enfrentavam problemas de excesso de procura agregada e tinham de recorrer ao racionamento de vários bens. Isto estava em contraste com a fase neoliberal destas mesmas economias que assistiram a um enorme aumento na desigualdade de rendimento e, portanto, a um esmagamento do poder de compra nas mãos das massas trabalhadoras, a qual dá uma impressão totalmente enganosa de plenitude nos supermercados. Na Índia por exemplo, segundo Chancel e Piketty, a fatia do rendimento nacional dos um por cento do topo da população era tão baixa quanto seis por cento em 1982, antes de ser introduzida a "liberalização" iniciada em 1985, mas aumentou para 22 por cento em 2013, a mais alta em quase um século. Portanto a inflação sob o regime neoliberal geralmente não é causada pelo excesso de procura; ela é tipicamente administrada pelos governos através da elevação de impostos sobre bens de uso comum ao invés de sê-lo sobre a riqueza dos capitalistas ou os lucros. Mas mesmo esta inflação pretende-se então que seja controlada através da imposição de austeridade orçamental (como se a sua causa fosse excesso de procura), o que por sua vez agrava a situação de desemprego sem reduzir a inflação. O governo da Índia está agora a prosseguir um exercício tão insensato. 08/Agosto/2021 [*] Economista, indiano, ver Wikipedia O original encontra-se em peoplesdemocracy.in/2021/0808_pd/equality-and-scarcity Tradução de JF. Este artigo encontra-se em https://resistir.info/ .

quinta-feira, 22 de julho de 2021

O neoliberalismo e a extrema-direita

O neoliberalismo e a extrema-direita por Prabhat Patnaik [*] O império alinha os seus asseclas.Ultimamente tem havido um recrudescimento de partidos de extrema-direita, fascistas, semi-fascistas ou neo-fascistas em todo o mundo, de uma forma que lembra a década de 1930. Os governos fascistas servem invariavelmente os interesses do capital monopolista em geral, e da sua secção mais recente, menos "liberal" e mais reaccionária em particular, razão pela qual Georgi Dimitrov, presidente da Internacional Comunista, tinha, no seu Sétimo Congresso, caracterizado um Estado fascista como a "ditadura terrorista aberta da secção mais reaccionária do capital financeiro"; mas os movimentos fascistas desta era anterior haviam começado como movimentos contra o big business. Tendo adquirido um seguimento através da sua retórica anti- big business ou "direita radical", fizeram então uma aliança com o big business para chegarem ao poder e traíram os seus próprios seguidores. Hitler fez isto da forma mais sangrenta possível durante a chamada "noite das facas longas", quando o seu próprio associado mais próximo, Ernst Rohm, o chefe da SA, e uma série de outros nazis foram assassinados sob as suas ordens. Os movimentos neo-fascistas e de extrema-direita contemporâneos diferem, no entanto, dos seus congéneres anteriores a este respeito: eles esquivam-se desde o início a qualquer retórica radical de direita. Não há diatribes deles contra o big business, não há tentativas da sua parte para aproveitar a ira legítima das pessoas contra um sistema que as mantém desempregadas. No contexto actual, claro, tal retórica anti- big business teria necessariamente de tomar a forma de um ataque às políticas económicas neoliberais, uma vez que estas políticas são a expressão perfeita da hegemonia do capital globalizado com o qual o big business interno está integrado. Mas os movimentos neo-fascistas e de extrema-direita contemporâneos por todo o mundo são ostensivos pelo seu silêncio e, por conseguinte, pelo seu endosso às políticas económicas neoliberais. Em alguns casos há um apoio aberto e entusiástico, em oposição ao endosso tácito, a tais políticas desde o início, e à grande burguesia que está por detrás de tais políticas. Um exemplo importante disto é o BJP que se tornou próximo do big business e do capital globalizado sob Narendra Modi. De facto, a proximidade de Modi ao big business, quando ele era o principal ministro de Gujarat, foi o que levou o big business indiano a "adoptá-lo" abertamente após uma cimeira de investidores em Gujarat há alguns anos atrás e a promovê-lo com êxito como o próximo candidato a primeiro-ministro. Modi efectuou a aliança corporações-Hindutva que impulsionou a sua ascensão ao poder; e um aspecto crucial para forjar esta aliança foi a marginalização do Hindutva de frentes como o Swadeshi Jagaran Manch que anteriormente abraçou algum tipo de programa de direita radical. Uma vez no poder, Modi recompensou amplamente os seus apoiantes corporativos, não apenas através de contratos e acordos específicos (dos quais o acordo [dos aviões] Rafale é considerado como um exemplo primordial), ou através de legislação para reduzir os direitos dos trabalhadores e minar a independência do campesinato, mas através de um programa de privatização maciça de empresas do sector público. Ele justificou tudo isto com o argumento de que a grande burguesia constitui os "criadores de riqueza" da nação! Isto, ironicamente de acordo com ele, justifica entregar-lhes a riqueza da nação. Mas, deixemos de lado o Modi que está na sua própria liga. Mesmo outros partidos de extrema direita no mundo, como a Liga do Norte de Matteo Salvini, na Itália, que inicialmente pareciam opor-se às políticas neoliberais, pelo menos no contexto da União Europeia, cuja expressão era a sua oposição à moeda comum Euro, agora acalmaram-se e aceitaram toda a gama de medidas económicas ortodoxas da UE. Recentemente, o endosso do neoliberalismo por parte da extrema-direita na Europa foi expresso de modo formal por uma declaração conjunta de dezasseis partidos europeus de extrema-direita, os quais incluem o Fidesz de Victor Orban na Hungria, a Frente Nacional de Marine Le Pen em França, o Partido da Liberdade na Áustria, o Partido Lei e Justiça da Polónia, o Vox da Espanha e a Liga do Norte bem como o Irmãos da Itália daquele país. Nesta declaração não houve nem uma única palavra dedicada a questões de política económica (Thomas Fazi, The Delphi Initiative, July 9). A necessidade de preservar culturas nacionais dentro da Europa foi enfatizada, tal como a tradição judia-cristã daquele continente (acenada pela direita como um meio de atacar minorias religiosas); mas não houve menção a qualquer retirada da moeda comum ou a qualquer repúdio da imposição draconiana de austeridade sobre todo Estado-membro que está associada à moeda comum. É verdade que, neste momento, devido à pandemia, a UE suspendeu a rigorosa disciplina orçamental do seu Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC) e deu aos países membros alguma margem de manobra em matéria de défices orçamentais, mas esta suspensão supõe-se que seja apenas temporária; e a Comissão Europeia já declarou recentemente que o PEC estaria outra vez em vigor em 2023. A declaração dos partidos de extrema-direita não pede sequer um adiamento desta data alvo para a reimposição do PEC. Levanta-se a questão: porque é que a extrema-direita se tornou tão mansa, tão acomodatícia em relação ao big business, mesmo antes de ter chegado ao poder na maior parte destes países? Porque difere a este respeito da sua anterior encarnação na década de 1930? A resposta básica a esta pergunta reside no facto de que, ao contrário da década de 1930, quando o capital financeiro de qualquer país, apesar de ter um alcance internacional, estava essencialmente enraizado na nação e apoiado pelo Estado-nação, o capital financeiro contemporâneo está globalizado. É um capital globalizado que confronta o Estado-nação. Para contrariar o neoliberalismo e a austeridade orçamental que invariavelmente implica, um país teria de sair da globalização que o envolve dentro de um turbilhão de fluxos financeiros globais e, assim, minar a autonomia orçamental do seu Estado. No contexto europeu isto significaria sair da União Europeia, uma vez que a UE é o instrumento através do qual se exprime a hegemonia do capital globalizado. O capital financeiro com origem em qualquer país particular opor-se-ia a tal saída uma vez que está integrado num sistema de capital financeiro globalizado. Uma agenda de saída teria portanto de ser baseada no apoio de outras classes, acima de tudo a classe trabalhadora – e a extrema-direita não é conhecida por representar ou promover os interesses da classe trabalhadora, apenas quer enganá-la. As objecções à União Europeia provenientes da extrema-direita permanecem portanto confinadas a questões "culturais", as quais podem ser acomodadas sem qualquer ameaça à hegemonia do capital globalizado. Na verdade é de algum benefício para o capital globalizado pois comuta o discurso afastando-o de assuntos vitais, como desemprego e aflição económica, e confinando-o à "identidade nacional" e à ameaça à "tradição judia-cristã". Ele comuta o discurso para longe das questões materiais que afectam a classe trabalhadora e portanto serve os propósitos do capital globalizado. No entanto, há um aspecto da aquiescência da extrema-direita quanto à hegemonia do capital globalizado que merece atenção. Para ultrapassar a crise de estagnação na qual o capitalismo metropolitano e portanto a economia capitalista mundial está apanhado, o presidente Joe Biden dos EUA tem advogado um ressuscitar de políticas keynesianas: ele anunciou um conjunto de medidas que aumentariam a despesa governamental consideravelmente e seria financiada através de um aumento no défice orçamental estado-unidense bem como de impostos sobre capitalistas (para os quais ele quer um acordo internacional acerca de uma taxa fiscal corporativa mínima). O êxito da agenda de Biden exige um mínimo de concordância de outros governos capitalistas quanto a uma agenda semelhante. Mesmo se todos os governos de países avançados concordassem numa agenda semelhante, a menos que também aos países do terceiro mundo fosse permitida autonomia orçamental, nomeadamente a libertação do estrangulamento da "austeridade", então a dicotomia entre um terceiro mundo "austero" e um primeiro mundo que persegue uma agenda estilo New Deal seria odiosa para o primeiro. Mas se mesmo o primeiro mundo não estiver de acordo sobre uma agenda expansionista keynesiana, então os EUA, por si sós, não conseguiriam sequer cumprir uma tal agenda. Isto acontece porque se os EUA seguirem uma política keynesiana, a menos que se isolem completamente através de restrições à importação, aumentaria as importações de outros que não seguissem tal política, o que ampliaria o seu défice comercial em relação a eles. Os EUA estariam assim a gerar emprego noutros países ao mesmo tempo que ficariam em dívida para com eles (por atenderem o seu défice comercial), o que não pode durar muito tempo. Com a extrema-direita a aceitar a reimposição da austeridade orçamental na Europa, que teria o apoio de um espectro de partidos políticos do "establishment", e a esquerda europeia não suficientemente forte para resistir a tal austeridade, parece pouco provável que a Europa prossiga uma agenda ao estilo Biden, o que portanto significaria a persistência da submersão do capitalismo mundial na sua actual estagnação e crise. 18/Julho/2021 [*] Economista, indiano, ver Wikipedia O orig

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Ressurgimento rentista e tomada de controle: Capitalismo financeiro vs. capitalismo industrial (1)

 


por Michael Hudson

Foto de Mike Kienle.Marx e muitos dos reformadores menos radicais que lhe foram contemporâneos via o papel histórico do capitalismo industrial como sendo o de remover a herança do feudalismo – os latifundiários, banqueiros e monopolistas que extraíam renda económica sem produzir valor real. Mas aquele movimento de reforma fracassou. Hoje o sector das Finanças, Seguros e Imobiliário (Finance, Insurance, Real Estate, FIRE) recuperou o controle do governo, criando economias neo-rentistas.

O objectivo deste capitalismo financeiro pós-industrial é o oposto daquele do capitalismo industrial bem conhecido dos economistas do século XIX: Ele busca riqueza primariamente através da extracção de renda económica, não da formação de capital industrial. O favoritismo fiscal para o imobiliário, a privatização do petróleo e da extracção mineral, a banca e os monopólios de infraestrutura aumentam o custo de vida e de fazer negócio. O trabalho está a ser explorado crescentemente pela dívida à banca, dívida estudantil, dívida do cartão de crédito, ao passo que a habitação e outros preços são inflacionados com o crédito, deixando menos rendimento para gastar em bens e serviços quando economias sofrem deflação da dívida.

A Nova Guerra Fria de hoje é um combate para internacionalizar este capitalismo rentista pela privatização e financiarização global dos transportes, educação, cuidados de saúde, prisões e policiamento, correios e comunicações, além de outros sectores que antigamente eram mantidos no domínio público de economias europeias e americanas de modo a manter seus custos baixos e minimizar seus custos de estrutura.

Nas economias ocidentais tais privatização reverteram o impulso do capitalismo industrial para minimizar custos de produção e distribuição socialmente desnecessários. Além dos preços de monopólio para serviços privatizados, administradores financeiros estão a canibalizar a indústria pela alavancagem da dívida e elevados desembolsos de dividendos para aumentar preços de acções.


As economias neo-rentistas de hoje obtêm riqueza principalmente pela busca de renda, enquanto a financiarização capitaliza a renda imobiliária e monopólica em empréstimos bancários, acções e títulos. A alavancagem da dívida para aumentar preços e criar ganhos de capital sobre crédito para esta "riqueza virtual" tem sido alimentada desde 2009 pela Facilidade Quantitativa (Quantitative Easing) do banco central.

Famílias e indústria estão a ficar afundadas em dívida, devendo renda e serviço de dívida ao sector FIRE. Esta sobrecarga rentista deixa menos rendimento de salários e lucros para gastar em bens e serviços, levando a um encerramento dos 75 anos de expansão dos EUA e da Europa desde o término da II Guerra Mundial em 1945.

Estas dinâmicas rentistas são o oposto do que Marx descreveu como leis do movimento do capitalismo industrial. A banca alemã na verdade financiava a indústria pesada sob Bismarck, em associação com o Reichsbank e os militares. Mas em outros lugares o empréstimo bancário raramente financiou novos meios de produção tangíveis. Aquilo que prometia ser uma dinâmica democrática e em última análise socialista degradou-se em direcção ao feudalismo e à servidão da dívida, com a classe financeira de hoje a desempenhar o papel que a classe dos senhores da terra tinha em tempos pós-medievais.

A visão de Marx do destino histórico do capitalismo: Libertar economias do feudalismo

O capitalismo industrial que Marx descrevia no Volume 1 do Capital está a ser desmantelado. Ele considerava que o destino histórico do capitalismo era libertar as economias do legado do feudalismo: uma classe hereditária de senhores da guerra que impunha uma renda da terra tributária e da banca usurária. Ele pensava que na medida em que o capitalismo industrial evoluísse rumo a uma administração esclarecida, e na verdade rumo ao socialismo, ela substituiria a "usurária" finança predatória, suprimindo o economicamente e socialmente desnecessário rendimento rentista, a renda da terra, os juros financeiros e taxas relativas a crédito improdutivo. Adam Smith, David Ricardo, John Stuart Mill, Joseph Proudon e seus companheiros economistas clássicos analisaram este fenómeno e Marx resumiu sua discussão nos Volume II e III do Capital e no seu livro paralelo Teorias da mais-valia que trata da renda económica e da matemática do juro composto, o qual leva a que a dívida cresça exponencialmente a uma taxa mais alta do que o resto da economia.

Entretanto, Marx dedicou o Volume I do Capital à característica mais óbvia do capitalismo industrial: o impulso para fazer lucros pelo investimento em meios de produção para empregar trabalho assalariado a fim de produzir bens e serviços para vender com uma margem superior ao que pagava ao trabalho. Analisando o valor excedente pelo ajustamento das taxas de lucro para levar em conta gastos com a fábrica, equipamento e materiais (a "composição orgânica do capital"), Marx descreveu um fluxo circular no qual patrões capitalistas pagam salários aos seus trabalhadores e investem seus lucros na fábrica e em equipamentos com o excedente não pago aos empregados.

O capitalismo financeiro corroeu este núcleo da circulação entre trabalho e capital industrial. Grande parte do meio-oeste dos Estados Unidos transformou-se num cinturão de ferrugem. Ao invés de o sector financeiro evoluir para financiar investimento de capital na manufactura, a indústria está a ser financiarizada. A feitura de ganhos económicos financeiramente, primariamente pela alavancagem da dívida, ultrapassa de longe a feitura de lucros pela contratação de empregados para produzir bens e serviços.

A aliança do capitalismo dos bancos com a indústria para promover reforma política democrática

O capitalismo nos dias de Marx ainda continha muitas sobrevivências do feudalismo, mais notavelmente uma classe hereditária de senhores da terra a viverem de rendas da terra, a maior parte das quais era gasta improdutivamente com serviçais e luxos, não para obter lucro. Estas rendas tiveram origem num imposto.
Estas rendas tinham tido origem num imposto. Vinte anos após a Conquista Normanda, Guilherme o Conquistador havia ordenado a compilação do [censo territorial] Domesday Book em 1086 para calcular o rendimento (yield) que podia ser extraído como imposto das terras inglesas que ele e os seus companheiros haviam capturado. Como resultado das exigências fiscais prepotentes do Rei João, a Revolta dos Barões (1215-17) e a sua Carta Magna permitiram aos principais senhores da guerra obter grande parte desta renda para si próprios. Marx explicou que o capitalismo industrial era politicamente radical ao procurar libertar-se do fardo de ter de suportar esta classe privilegiada de senhores da terra, a receber rendimentos sem qualquer base no valor de custo ou do próprio empreendimento.

Os industriais procuravam ganhar mercados através de cortes de custos abaixo daqueles dos seus competidores. Aquele objectivo exigia libertar toda a economia das "faux frais" [falsas despesas] de produção, encargos socialmente desnecessários embutidos no custo de vida e de fazer negócio. A renda económica clássica era definida como o excesso de preço acima do valor de custo intrínseco, este último sendo em última análise redutível aos custos do trabalho. O trabalho produtivo era definido como aquele empregado para criar um lucro, em contraste com os serviçais e criados (cocheiros, mordomos, cozinheiros, et al.) com os quais os senhores da terra gastavam grande parte da sua renda.

A forma paradigmática de renda económica era a renda de terra paga à aristocracia hereditária da Europa. Como explicou John Stuart Mill, os senhores da terra colhiam rendas (e aumentos dos preços da terra) "durante o sono". Ricardo havia apontado (no capítulo 2 dos seus Princípios de Economia Política e Tributação, de 1817) uma forma parecida de renda diferencial em renda de recursos naturais decorrente da capacidade de minas com teores de minério de alta qualidade para venderem a sua produção mineral de baixo custo a preços estabelecidos pelas minas de alto custo. Finalmente, havia uma renda monopolista paga aos proprietários em pontos de estrangulamento na economia onde podiam extrair rendas sem base em qualquer desembolso de custos. Tais rendas logicamente incluíam juros financeiros, taxas e penalidades.

Marx via o ideal capitalista como libertar economias da classe dos senhores da terra que controlavam a Casa dos Lordes na Grã-Bretanha, assim como legislativos superiores em outros países. Aquele objectivo exigiu reforma política do Parlamento na Grã-Bretanha, em última análise para substituir a Casa dos Lordes pela Câmara dos Comuns (Commons), de modo a impedir os senhores da terra de protegerem seus interesses especiais a expensas da economia industrial britânica. A primeira grande batalha neste combate contra o interesse dos proprietários de terra foi vencida em 1846 com a revogação das Leis do Milho. A luta para limitar o poder dos proprietários de terra sobre o governo culminou com a crise constitucional de 1909-10, quando os Lordes rejeitaram o imposto fundiário imposto pelos Comuns. A crise foi resolvida por uma decisão de que os Lordes nunca mais poderiam rejeitar uma lei de arrecadação fiscal aprovada pela Câmara dos Comuns.

O lobbies da banca contra o sector imobiliário, 1815-1846

Pode parecer irónico hoje em dia que o sector da banca britânico estivesse de todo o coração por trás do primeiro grande combate para minimizar a renda da terra. Tal aliança verificou-se depois de acabarem as Guerra Napoleónicas em 1815, o que terminou o bloqueio francês contra o comércio marítimo britânico e reabriu o mercado da Grã-Bretanha a importações de cereais com preços mais baixos. Os senhores da terra britânicos exigiam tarifas protectoras de acordo com as Leis do Milho – para elevar o preço da alimentação, de modo a aumentar a receita e portanto o valor locativo dos seus haveres territoriais – mas isso resultava em economia de alto custo. Uma economia capitalista com êxito teria de minimizar estes custos a fim de ganhar mercados estrangeiros e, na verdade, defender o seu próprio mercado interno. A ideia clássica de um mercado livre era um mercado livre de renda económica – do rendimento do rentista na forma de renda da terra.

Esta renda – um quase-imposto pago aos herdeiros dos bandos de senhores da guerra que haviam conquistado a Grã-Bretanha em 1066, e bandos vikings semelhantes que haviam conquistado outros reinos europeus – ameaçava minimizar o comércio exterior. Isso era uma ameaça para as classes banqueiras da Europa, cujo mercado era o financiamento do comércio através de letras de câmbio. A classe banqueira ascendeu quando a economia da Europa foi reanimada pelo vasto saqueio do ouro monetário de Constantinopla pelos Cruzados. Aos banqueiros foi permitida uma escapatória para evitar a proscrição à cristandade de cobrar juros, pela tomada deste retorno na forma de ágio, uma taxa pela transferência de moeda de uma divisa para outra, incluindo de um país para outro. Mesmo o crédito interno podia utilizar esta escapatória do "câmbio fictício" (" dry exchange "), cobrando ágio em transacções interna camufladas como transferência de moeda estrangeira, da mesma forma que as corporações modernas utilizam hoje "centros bancários offshore" para fingir que ganham os seus rendimentos em países que não cobram um imposto sobre o rendimento.

Se a Grã-Bretanha se tornasse a fábrica do mundo, isto se demonstraria altamente benéfico para a classe dos banqueiros. (Ele era o seu porta-voz parlamentar; hoje diríamos lobbyist.) A Grã-Bretanha desfrutava de uma divisão internacional do trabalho em que exportava manufacturas e importava alimentos e matérias-primas de outros países especializando-os em commodities primárias e dependentes dos produtos industriais britânicos. Mas para isto acontecer, a Grã-Bretanha precisava de um trabalho a baixo preço. Isso significava baixos custos alimentares, os quais naquele tempo eram as maiores rubricas nos orçamentos familiares dos trabalhadores assalariados. E isto por sua vez exigia acabar com o poder da classe dos senhores da terra de proteger o seu "almoço gratuito" da renda da terra e o de todos os receptores de tais "rendimentos não merecidos".

Hoje em dia é difícil imaginar industriais e banqueiros de mãos dadas a promover uma reforma democrática contra a aristocracia. Mas aquela aliança foi necessária no princípio do século XIX. Naturalmente, a reforma democrática naquela época só ia até o ponto de remover a classe dos proprietários de terra, não de proteger os interesses do trabalho.
A retórica democrática vazia da classe industrial e banqueira tornou-se evidente nas revoluções da Europa de 1848, onde os interesses instalados se uniram contra a extensão da democracia à população em geral, uma vez que esta última havia ajudado a acabar com a protecção das rendas dos proprietários de terra.

Naturalmente, foram os socialistas que retomaram o combate político depois de 1848. Marx mais tarde recordou a um correspondente que o primeiro ponto do Manifesto Comunista era socializar a renda da terra, mas divertia-se com os críticos da renda no "mercado livre" que se recusavam a reconhecer que existia uma exploração semelhante ao do rentista no emprego industrial da mão-de-obra assalariada. Tal como os proprietários de terra obtinham uma renda da terra superior ao custo de produzir as suas culturas (ou arrendamentos de habitação), também os empregadores obtinham lucros através da venda dos produtos do trabalho assalariado com uma margem de lucro. Para Marx, isso em princípio tornava os industriais parte da classe dos rentistas, embora o sistema económico geral do capitalismo industrial fosse muito diferente do dos rentistas pós-feudais, senhores da terra e banqueiros.

A aliança da banca com o imobiliário e outros sectores em busca de renda

Com estes antecedentes de como o capitalismo industrial estava a evoluir nos dias de Marx, podemos ver quão excessivamente optimista ele estava a encarar o impulso dos industriais para se desfazerem de todos os custos de produção desnecessários – todos os encargos que aumentavam o preço sem aumentar o valor. Nesse sentido, ele estava plenamente em sintonia com o conceito clássico de mercados livres, como mercados livres da renda da terra e de outras formas de rendimento rentista.

A teoria económica convencional de hoje reverteu este conceito. Numa distorção orwelliana de duplo pensamento, os direitos adquiridos (vested interests) definem um mercado livre como sendo "livre" para a proliferação de várias formas de renda da terra, chegando ao ponto de dar benefícios fiscais especiais ao investimento imobiliário ausente, a indústrias de petróleo e mineração (renda sobre recursos naturais) e acima de tudo à alta finança (a ficção contabilística dos "direitos adquiridos", uma expressão obscura para arbitragem especulativa a curto prazo).

O mundo de hoje na verdade libertou as economias do fardo do arrendamento de terras hereditárias. Quase dois terços das famílias americanas são proprietárias das suas próprias casas (embora a taxa de propriedade da casa própria tenha vindo a diminuir constantemente desde os Grandes Despejos de Obama, que foram um subproduto da crise das hipotecas lixo e dos salvamentos (bailouts) de bancos de Obama de 2009 a 2016, que baixaram as taxas de proprietários de casas próprias de mais de 68% para 62%). Na Europa, as taxas de propriedade imobiliária atingiram 80% na Escandinávia e taxas elevadas caracterizam todo o continente. A propriedade da casa própria – e também a oportunidade de comprar bens imobiliários comerciais – tornou-se de facto democratizada.

Mas foi democratizada a crédito. Este é o único modo de assalariados obterem habitação, porque do contrário teriam de gastar a poupança de toda a vida para comprar uma casa. Após o término da II Guerra Mundial, em 1945, os bancos forneceram o crédito para a compra de casas (e para especuladores comprarem propriedades comerciais), concedendo-lhes crédito hipotecário a ser liquidado ao longo de 30 anos, a provável vida de trabalho do jovem comprador de casa.

O imobiliário é de longe o maior sector do mercado bancário. Os empréstimos hipotecários representam cerca de 80 por cento do crédito bancário estado-unidense e britânico. Ele desempenhava apenas um papel menor remontando a 1815, quando os bancos se concentravam no financiamento do comércio e nas transacções internacionais. Hoje podemos falar da Finança, Seguros e Imobiliário (FIRE) como o sector rentista dominante da economia. Esta aliança de banca com imobiliário levou os bancos a tornarem-se os principais lobistas da protecção dos proprietários imobiliários, opondo-se ao imposto territorial que parecia ser a onda do futuro em 1848 face à crescente advocacia no sentido de tributar todos os ganhos de preços e de rendas da terra, para fazer da terra a base tributária como instava Adam Smith, ao invés de tributar o trabalho e os consumidores ou os lucros. De facto, quando o imposto sobre o rendimento dos EUA começou a ser cobrado em 1914, ele incidia apenas sobre os mais ricos Um Por Cento dos Americanos, cujo rendimento tributável consistia quase inteiramente em propriedades e direitos financeiros.

O século passado reverteu aquela filosofia fiscal. A nível nacional, os bens imóveis pagaram quase zero de imposto sobre o rendimento desde a Segunda Guerra Mundial, graças a duas dádivas. A primeira é a "depreciação fictícia", por vezes denominada de "super-depreciação" (" over-depreciation " ). Os donos podem fingir que os seus edifícios estão a perder valor, alegando que estão a desgastar-se a taxas ficticiamente elevadas. (É por isso que Donald Trump tem dito que adora a depreciação.) Mas de longe a maior dádiva é que os pagamentos de juros são dedutíveis nos impostos. Os bens imóveis são tributados localmente, com certeza, mas tipicamente apenas a 1% da sua valorização avaliada, o que é menos de 7 a 10% da renda real do terreno [1] .

A razão básica porque os bancos apoiam o favoritismo fiscal para os proprietários é que tudo o que o arrecadador fiscal abrir mão fica disponível para ser pago como juro. Banqueiros hipotecários acabam assim por ficar com a vasta maior parte da renda da terra nos Estados Unidos. Quando uma propriedade é posta a venda e proprietários licitam uns contra os outros para comprá-la, o ponto de equilíbrio é onde o vencedor está disposto a pagar ao banqueiro o valor pleno da renda para conseguir uma hipoteca. Investidores comerciais também estão desejosos de pagar todo o rendimento como rendas para conseguirem uma hipoteca, porque eles são após o ganho de "capital" – ou seja, da ascensão do preço da terra.

A posição política dos chamados socialistas ricardianos na Grã-Bretanha e dos seus homólogos em França (Proudhon, et al.) era a de que o Estado cobrasse a renda económica da terra como a sua principal fonte de receitas. Mas os ganhos de "capital" de hoje verificam-se principalmente no sector imobiliário e financeiro e são virtualmente isentos de impostos para os proprietários de terras. Os proprietários não pagam impostos sobre as mais-valias à medida que os preços imobiliários sobem, ou mesmo sobre a venda se utilizarem as suas mais-valias para comprar outra propriedade. E quando os proprietários morrem, toda a responsabilidade fiscal é extinta.

As indústrias petrolífera e mineira também estão notoriamente isentas do imposto de rendimento sobre as suas rendas de recursos naturais. Durante muito tempo, o subsídio de esgotamento (depletion allowance) permitiu-lhes um crédito fiscal para o petróleo que era vendido, permitindo-lhes comprar novas propriedades produtoras de petróleo (ou o que quisessem) com a sua suposta perda de activos, definida como o valor para recuperar o que quer que tivessem esgotado. Não havia perda real, é claro. O petróleo e os minérios são fornecidos pela natureza.

Estes sectores também se tornam isentos de impostos sobre os seus lucros e rendas no estrangeiro utilizando "pavilhões de conveniência" registados em centros bancários offshore. Este estratagema permite-lhes reivindicar a realização de todos os seus lucros no Panamá, Libéria ou outros países que não cobram um imposto sobre o rendimento ou têm mesmo uma divisa própria, mas utilizam o dólar americano para poupar às empresas americanas qualquer risco com câmbios estrangeiros.

No sector petrolífero e mineiro, tal como no sector imobiliário, o sistema bancário tornou-se simbiótico com os beneficiários do rendas, incluindo as empresas que extraem renda monopolista. Já no final do século XIX, o sector bancário e segurador era reconhecido como "a mãe dos trusts", financiando a sua criação para extrair rendas monopolistas acima das taxas de lucro normais.

Estas mudanças tornaram a extracção de renda muito mais remuneradora do que a busca do lucro industrial – exactamente o oposto do que os economistas clássicos insistiam e esperavam que viesse a ser a trajectória mais provável do capitalismo. Marx esperava que a lógica do capitalismo industrial libertasse a sociedade do seu legado rentista e criasse investimento público em infra-estruturas a fim de reduzir o custo de produção em toda a economia. Ao minimizar as despesas de mão-de-obra que os empregadores tinham de cobrir, este investimento público colocaria em funcionamento a rede organizacional que, a seu tempo (por vezes necessitando de uma revolução, certamente) se tornaria uma economia socialista.

Embora a banca se tenha desenvolvido ostensivamente para servir o comércio externo das nações industriais, ela tornou-se uma força em si mesma minando o capitalismo industrial. Em termos marxistas, ao invés de financiar a circulação M-C-M' (dinheiro investido em capital para produzir lucro e, portanto, ainda mais dinheiro), a alta finança abreviou o processo para M-M', ganhando dinheiro puramente com dinheiro e crédito, sem investimento de capital tangível.

O esmagamento rentista nos orçamentos: Deflação da dívida como um subproduto da inflação dos preços de activos

Democratização da propriedade das casas significava que a habitação já não era mais possuída primariamente por proprietários ausentes a extraírem renda, mas sim pelos seus próprios ocupantes. À medida que a propriedade das casas se difundia, novos compradores vieram apoiar o impulso rentista para bloquear a tributação da terra – não percebendo que a renda que não era tributada seria paga aos bancos como juros para absorver a renda de arrendamento até então paga a senhorios ausentes.

Os preços do imobiliário subiram em consequência da alavancagem da dívida. O processo torna ricos os investidores, especuladores e seus banqueiros, mas eleva o custo da habitação (e da propriedade comercial) aos novos compradores, os quais são obrigados a assumir mais dívida a fim de obter habitação segura. Esse custo é também transferido para os arrendatários. E os empregadores, em última análise, são obrigados a pagar à sua força de trabalho o suficiente para que esta cubra estes custos financiarizados de habitação.

A deflação da dívida tornou-se a característica distintiva das economias actuais desde a América do Norte até a Europa, impondo austeridade à medida que o serviço da dívida absorve uma parte crescente do rendimento pessoal e empresarial, deixando menos para gastar em bens e serviços. Os 90% da economia endividada vêem-se obrigados a pagar cada vez mais juros e taxas financeiras. O sector empresarial, e agora também o sector estatal e local, são igualmente obrigados a pagar uma parte crescente das suas receitas aos credores.

Os investidores estão dispostos a pagar a maior parte dos seus rendimentos de rendas como juros ao sector bancário, porque esperam vender a sua propriedade em algum momento por um ganho de "capital". O capitalismo financeiro moderno centra-se nos "retornos totais", definidos como rendimentos correntes mais ganhos nos preços de activos, sobretudo para terrenos e bens imobiliários. Na medida em que uma casa ou outra propriedade é valiosa por muito que os bancos emprestem contra ela, a riqueza é criada principalmente através de meios financeiros, pelos bancos que emprestam uma proporção crescente do valor dos activos dados em garantia colateral.

As alterações anuais do PIB e os principais componentes dos ganhos em preços de activos.

O facto de que os ganhos em preços de activos são amplamente financiados pela dívida explica porque o crescimento económico está a arrefecer nos Estados Unidos e na Europa, mesmo quando o mercado de acções e os preços imobiliários são inflacionados com crédito. O resultado é uma economia alavancada por dívida.

As alterações económicas no valor da terra de ano para ano excedem de longe as alterações do PIB. A riqueza é obtida primariamente através de ganhos em preços de activos ("capital") na valorização de terras e imóveis, acções, obrigações e empréstimos de credores ("riqueza virtual"), não tanto pela poupança de rendimentos (salários, lucros e rendas). A magnitude destes ganhos de preços de activos tende a apequenar lucros, rendimentos de arrendamentos e salários.

A tendência tem sido de imaginar que o aumento dos preços dos imóveis, acções e títulos tem tornado os proprietários mais ricos. Mas esta subida de preços é alimentada pelo crédito bancário. Uma casa ou outra propriedade é valiosa por mais que um banco empreste contra ela – e os bancos têm emprestado uma proporção cada vez maior do valor das casas desde 1945. Para os bens imobiliários dos EUA como um todo, a dívida tem excedido o capital próprio desde há mais de uma década. A ascensão dos preços imobiliários tornou os bancos e especuladores ricos, mas deixou os proprietários das casas e a dívida imobiliária comercial afundados em dívidas.

A economia como um todo sofreu. Os custos de habitação alimentados pela dívida nos Estados Unidos são tão elevados que se todos os americanos recebessem gratuitamente os seus bens de consumo físico – a sua comida, vestuário, etc – ainda assim não poderiam competir com os trabalhadores na China ou na maior parte dos outros países. Esta é uma das principais razões pelas quais a economia dos EUA está a desindustrializar-se. Assim, esta política de "criação de riqueza" através da financeirização socava a lógica do capitalismo industrial.

(continua)

[1] Apresento os gráficos em The Bubble and Beyond (Dresden: 2012), Capítulos 7 e 8, e Killing the Host (Dresden: 2015).

Este artigo é baseado no Capítulo 1 de Cold War 2.0. The Geopolitical Economics of Finance Capitalism vs. Industrial Capitalism (Dresden, ISLET: em impressão; tradução chinesa em 2021). ©

O original encontra-se em michael-hudson.com/...


Este artigo encontra-se em https://resistir.info/ .

sábado, 30 de janeiro de 2021

Contemplada por bilhões em incentivos fiscais, Ford encerra produção no Brasil

 


 

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Trabalhadores participam de assembleia em frente a fábrica da Ford de Taubaté nesta terça, 12/01 – FOTO: EDILSON DANTAS

Carol Matos


SÃO PAULO – A Ford anunciou o encerramento da produção de veículos no Brasil ao declarar que irá fechar de imediato as unidades de Taubaté (SP) e Camaçari (BA) e que pretende encerrar as atividades da fábrica em Horizonte (CE) até o fim deste ano. Em 2019, a Ford já havia fechado a planta em São Bernardo do Campo (SP).

A crise causada pela pandemia do novo coronavírus provocou uma queda brusca nas vendas em inúmeros setores da economia em todo o mundo. A queda no faturamento das unidades brasileiras e uma reestruturação global na companhia foram algumas das razões apontadas para decisão da companhia.

Em todo o mercado nacional do setor automotivo a queda foi de 26,2% em 2020 comparadas ao ano anterior; na Ford, foi ainda maior: 39,2%. 

O fim da produção da Ford no Brasil deve fechar cerca de 6 mil empregos diretos e ameaça milhares de outros empregos de fornecedoras em todo o setor metalúrgico e em áreas como serviços e vendas. 

Acontece que as grandes companhias nunca deixaram de angariar lucros líquidos com a produção e a venda global de automóveis. Segundo dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (ANFAVEA), em 2018, com 2,566 milhões de veículos novos vendidos, as montadoras instaladas no país faturaram USD$ 61,8 bilhões.

Diante das 2,058 milhões de unidades vendidas em 2020, dá para se ter uma dimensão do alto faturamento do setor e da Ford, uma vez que ela possui quase 8% do mercado nacional.

É importante ficar claro como isso mostra que os reais problemas da matriz giram em torno de uma “baixa margem de lucratividade”, como a própria companhia declara, e não de prejuízos. 

A despeito dos supostos percalços do mercado a Ford sempre contou com generoso apoio governamental. Segundo informação publicada primeiramente em blog do jornal O Globo, a montadora recebeu R$ 20 bilhões em incentivos fiscais desde 1999. A empresa beneficiou-se de isenção ou redução em tributos como o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), Imposto sobre a Renda das Pessoas Jurídicas (IRPJ) e a Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL).

Lucro capitalista impede real desenvolvimento industrial no país

No Brasil, companhias como a Ford foram responsáveis por uma intensa guerra fiscal entre os estados, especialmente na região Nordeste. Nos anos 1980, utilizando poder de barganha, grandes empresas induziam governos locais a oferecerem o máximo de incentivos fiscais com a promessa de instalar unidades em regiões pouco dinâmicas economicamente. Assim, puderam utilizar terrenos públicos e contaram com isenção de até 100% de impostos estaduais.

Mais de 30 anos depois continuam sendo beneficiadas com tais vantagens. Em 2019, por exemplo, o governo do Ceará cedeu incentivos para a fábrica da Ford em Horizonte, reduzindo ICMS na importação de matéria-prima.

As principais políticas de desenvolvimento industrial no país passam pela concessão de incentivos fiscais sem quase nenhuma contrapartida social e econômica e a Ford aproveitou-se enormemente disso.

Depois de décadas de faturamento significativo, a companhia – junto com o anúncio do fim da produção nacional de veículos – impulsiona o enfraquecimento da cadeia produtiva do setor automobilístico nas regiões onde vinha atuando, gerando ainda mais desemprego.

Essa intransigente busca por super-lucros e a injusta apropriação privada de toda riqueza gerada pelos trabalhadores e trabalhadoras das fábricas são os verdadeiros entraves para produção industrial e sua distribuição.

f: A Verdade

 

sábado, 12 de dezembro de 2020

Depois da Argentina, Bolívia aprova imposto sobre grandes fortunas

Depois da Argentina, Bolívia aprova imposto sobre grandes fortunas Imposto de natureza “permanente” alcançará por meio de uma alíquota progressiva as pessoas com patrimônio superior a US$ 4,3 milhões. A estimativa do governo boliviano é que a tributação arrecade anualmente cerca de US$ 15,1 milhões 11 de dezembro de 2020, 11:09 h Atualizado em 11 de dezembro de 2020, 11:14 21 Câmara dos Deputados da Bolívia Câmara dos Deputados da Bolívia Siga o Brasil 247 no Google News Assine a Newsletter 247 247 - A Câmara dos Deputados da Bolívia aprovou, nesta quinta-feira (10), a cobrança de impostos sobre grandes fortunas do país. O imposto, de natureza “permanente”, alcançará as pessoas com patrimônio superior a US$ 4,3 milhões. A estimativa do governo boliviano é que a tributação arrecade cerca de US$ 15,1 milhões por ano. A iniciativa do país andino acontece pouco menos de um mês após a Argentina aprovar uma legislação semelhante que alcança ativos declarados acima de US$ 2,35 milhões. PUBLICIDADE De acordo com reportagem do site MDZ, a legislação boliviana estabeleceu que a cobrança seguirá uma base tributária progressiva de 150 mil bolivianos (cerca de US$ 21.500) para as fortunas entre 30 milhões a 40 milhões de bolivianos (US$ 4,3 milhões a US$ 5,7 milhões), e de 600 mil bolivianos (US$ 86.200) para os patrimônios entre 40 milhões a 50 milhões de bolivianos (de US$ 5,7 milhões a US$ 7,2 milhões). O projeto foi encaminhado ao Senado para ratificação. No mesmo dia, a Câmara também aprovou a devolução de 5% de todas as compras faturadas a pessoas com renda inferior a 9 mil bolivianos (cerca de R$ 6,5 mil). No Twitter, o presidente boliviano, Luis Arce comemorou a provação da legislação. por taboolaLinks promovidos Você pode gostar Rosa Weber vota contra golpe pró-Maia no STF e complica reeleição na Câmara e no Senado Aumente suas chances de ganhar a Mega da Virada Loteria Brasil Bolsonaro acha positiva demissão de 1 milhão durante pandemia: "esperávamos 10 milhões" Perdeu, Bolsonaro - Tereza Cruvinel “Saudamos a Câmara dos Deputados por aprovar dois importantes projetos de lei voltados à reativação da economia, como o reembolso do RE-IVA aos trabalhadores que recebam salário mensal igual ou inferior a 9.000 bolivianos, e o Imposto sobre Grande Fortunes (IGF)", postou. A cobrança de impostos sobre grandes fortunas na Bolívia vem na esteira de uma legislação semelhante aprovada em novembro pela Argentina. A lei prevê a tributação de pessoas cujos ativos declarados sejam superiores a US$ 2,35 milhões com uma alíquota progressiva de até 3,5% para ativos no país e até 5,25% sobre os localizados fora do país. A estimativa do governo de centro-esquerda do presidente Alberto Fernández é que taxação resulte em uma arrecadação extra de cerca de US$ 3 bilhões. PUBLICIDADE O conhecimento liberta. Saiba mais

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

O tsunami de dívidas que ameaça o sistema

O tsunami de dívidas que ameaça o sistema Crise do coronavírus poupou os grandes bancos e corporações. Para socorrê-las, Estados criaram, do nada, avalanche de dinheiro. Mas deixaram de fora populações e pequenas empresas. Ambas podem ser o novo espantalho do capitalismo. por Michael Roberts [*] Tsunami.A crise gerada globalmente pela pandemia global é diferente das crises anteriores do capitalismo. A mudança da expansão para a recessão no ciclo capitalista e os impactos recessivos na produção e no investimento são frequentemente desencadeados por um crash financeiro, seja no sistema bancário (como na Grande Recessão de 2008-9) seja na esfera do capital fictício, isto é, no mundo das ações e dos títulos (como em 1929 ou 2001). Claro, a causa subjacente de tais quedas regulares e recorrentes reside nos movimentos na lucratividade do capital, tal como foi discutido ad nauseam neste blog . Esta é a causa "última". Mas as causas "próximas" podem ser diferentes. E nem sempre são de origem "financeira". A primeira queda global simultânea no pós-guerra, ocorrida em 1974-5, foi desencadeada por um forte aumento nos preços do petróleo, após a guerra árabe-israelense; a recessão de duplo mergulho de 1980-2 teve origens semelhantes. A recessão de 1991-2, igualmente, seguiu-se à Guerra do Golfo de 1990. A crise produzida pela pandemia do coronavírus também tem uma causa "próxima" distinta. Em certo sentido, essa queda global sem precedentes, afetando 97% das nações do mundo, começou por causa de um "evento exógeno", ou seja, a propagação de um vírus mortal. Mas, como tem sido argumentado por ecologistas, mas também neste blog, a busca voraz por lucros por parte de empresas capitalistas na exploração de combustíveis fósseis, extração de madeira, mineração e expansão urbana, sem consideração pela natureza, criou as condições para o surgimento de uma sucessão de doenças mortais; ligadas a patógenos para os quais o corpo humano não tinha resistência e imunidade. Nesse sentido, a crise não foi "exógena". Mas, as quedas na produção, no comércio, no investimento e no emprego mundiais que se seguiram à difusão do vírus não começaram com um colapso financeiro ou com uma queda abrupta no mercado de ações. Não foram eles, portanto, que levaram ao colapso do investimento, da produção e do emprego. Aconteceu o contrário. Houve um colapso na produção e no comércio, forçado ou imposto por bloqueios provocados pela pandemia, que então levaram a uma enorme queda nas receitas, gastos e comércio. Assim, a queda começou com um "choque exógeno" aparente; ela ocorreu, depois, porque os bloqueios geraram um "choque de oferta" seguindo de um "choque de demanda". Até agora, porém, não ocorreu um "choque financeiro". Pelo contrário, os mercados de ações e títulos dos principais países estão em níveis recordes. O motivo é claro. A resposta das principais instituições monetárias nacionais e governos foi injetar milhões de milhões de massa monetária, ou seja, crédito, em suas economias para fortalecer os bancos, as grandes e as pequenas empresas; bem como pagar cheques para milhões de trabalhadores desempregados e/ou despedidos. O tamanho dessa "generosidade", financiada pela "criação" de dinheiro pelos bancos centrais, não tem precedentes na história do capitalismo moderno. Isso significa que, ao contrário da situação no início da Grande Recessão, os bancos e as principais instituições financeiras estão longe de entrar em colapso. Os balanços dos bancos estão mais fortes do que antes da pandemia. Os lucros financeiros aumentaram. Os depósitos bancários dispararam à medida que os bancos centrais aumentam as reservas dos bancos comerciais e as empresas e famílias acumulam dinheiro na forma da poupança; dado que o investimento se reduziu e as famílias passaram a gastar menos. De acordo com a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), as taxas de poupança das famílias aumentaram entre 10 e 20 pontos percentuais durante a pandemia. Os depósitos das famílias nos bancos dispararam. Da mesma forma, as reservas de caixa das empresas não financeiras aumentaram à medida que as empresas tomam empréstimos – baratos ou sem juros – garantidos pelo governo, ou que as empresas maiores emitiram ainda mais títulos, todos incentivados e financiados por programas patrocinados pelo Estado. Os impostos também foram diferidos conforme as empresas foram sendo bloqueadas e se adotou uma espécie de purdah [NT] , novamente acumulando ainda mais caixa. Os diferimentos de impostos equivalem a 13% do PIB na Itália e 5% do PIB no Japão, de acordo com a OCDE. Imagem 1. De fato, os últimos dados das corporações (terceiro quarto de 2020) nos EUA mostraram um aumento acentuado dos lucros, quase inteiramente devido a empréstimos e subsídios do governo. Estes impulsionaram o fluxo de caixa junto com uma queda nos impostos sobre vendas e produção conforme as empresas pararam os seus negócios. Os lucros corporativos aumentaram US$495 mil milhões no terceiro trimestre, em contraste com uma redução de US$209 mil milhões no segundo trimestre. O órgão que publica as estatísticas do governo norte-americano explica: "os lucros corporativos e a renda dos proprietários foram em parte reforçados por provisões de programas criados pelo governo federal em resposta à pandemia, tal como o programa de proteção aos salários, o diferimento dos pagamentos de impostos, os créditos fiscais para retenção de funcionários, as licenças médicas pagas etc., que forneceram apoio financeiro às empresas e pessoas afetadas pela pandemia no segundo e terceiro trimestres." Assim, cerca de US$1,5 milhão de milhões de subsídios e empréstimos do governo dos Estados Unidos foram usados para subsidiar empresas americanas durante a pandemia. Portanto, os lucros corporativos têm sido sustentados pela intervenção do governo – ao custo de níveis sem precedentes de déficits orçamentários do governo e de enormes aumentos na dívida do setor público. A esperança agora é que, à medida que as vacinas fiquem prontas e sejam distribuídas durante 2021, e que o isolamento social termine, a economia mundial se recupere, de tal modo que o aumento da poupança familiar e dos lucros corporativos sejam disponibilizados para atender a uma demanda "reprimida". Assim, a locomotiva da economia capitalista voltaria a andar celeremente. Os gastos do consumidor voltariam, as pessoas retomariam as viagens, o turismo internacional se expandiria, inclusive com a volta dos eventos de massa. Diante desse quadro, as empresas se lançariam numa espiral de investimentos. A OCDE é menos otimista em relação a esse cenário. Ela está preocupada com o fato de que grande parte do aumento na poupança pessoal veio dos ricos, ao quais tendem a gastar menos como porcentagem de sua renda (porque eles simplesmente têm muito!). O conjunto das famílias médias não acumulou poupanças seja nas principais economias seja nas economias capitalistas menos desenvolvidas. Pelo contrário, aumentaram os seus níveis de endividamento durante a pandemia. Além disso, com o provável fim, em 2021 dos cheques de pagamento do Estado e de outros apoios, a situação da família média pode muito bem se deteriorar. Essas desigualdades também se aplicam ao setor corporativo. A OCDE avalia que a maior parte do apoio governamental na forma de empréstimos e de doações foi canalizado para as empresas maiores, especialmente no setor de tecnologia – um setor, aliás, menos atingido pela crise. Portanto, encontra-se aqui o elo mais fraco da matriz de inter-relações capitalistas. Eis o lugar provável em que emergirá o terceiro elemento da crise pandêmica – uma crise de crédito seguida de colapso financeiro à medida em que as empresas, especialmente as pequenas e médias empresas começarem a quebrar. Estas colapsam na mesma medida em que o apoio do governo evapora: as suas receitas de vendas permanecem fracas, mas os custos da dívida e dos salários aumentam. O Instituto de Finanças Internacionais (IIF) relatou recentemente que a proporção da dívida global em relação ao produto interno bruto aumentará de 320%, em 2019, para um recorde de 365%, em 2020. O IIF conclui o seu relatório com um forte alerta: "mais dívidas, mais problemas". Como disse Martin Wolf no Financial Times: "Os mercados financeiros estão ignorando esses avisos. As ações globais alcançaram novos máximos e os spreads de crédito têm diminuído, quase como se a dívida extrema fosse algo virtuoso e não um péssimo rumo do processo econômico." Como já foi relatado, mesmo antes dessa pandemia, a dívida corporativa atingira níveis recordes, medida em relação ao PIB anual. Medida em relação ao patrimônio líquido dos ativos da empresa, essa situação apareceria de forma ainda mais dramática já ficaria mais claro o potencial de uma avalanche de falências associadas a ela. Imagem 2. A OCDE estima que, se os lucros corporativos caírem drasticamente em 2021, à medida que os governos retirem o apoio financeiro, muitas empresas podem ficar "em dificuldades". O número das "empresas zumbis" tem aumentado significativamente. São aquelas que não estão obtendo lucros suficientes para cobrir os juros de suas dívidas pendentes. A OCDE observa que um quinto das empresas na Bélgica, por exemplo, não poderia honrar seus passivos financeiros por mais de três meses sem contrair mais dívidas ou obter uma injeção de capital. Essa proporção é muito maior em alguns setores como hospedagem, eventos e lazer. A OCDE conclui que "as preocupações com a estabilidade financeira provavelmente ressurgirão" , já que o rápido aumento da dívida do setor público e do setor corporativo pode em breve levar a "preocupações com a solvência em um grande número de empresas". A inadimplência corporativa no que se refere aos títulos de empresas mais fracas pode dobrar em 2021, diz a OCDE, especialmente em "setores duramente atingidos como companhias aéreas, hotéis e indústria automobilística". As falências em pequenas e médias empresas nos setores de varejo, lazer e imóveis comerciais são particularmente prováveis. Esse cenário é ainda mais evidente nas chamadas economias emergentes. Mesmo na China, onde a economia em geral está se recuperando de modo mais rápido, uma série de empresas com pesadas dívidas estão começando a deixar de pagar os seus empréstimos, colocando, assim, o governo em um dilema. Tem que decidir se salva essas empresas (algumas das quais são estatais locais) ou as deixa quebrar, a fim de reduzir o peso da dívida geral sobre a economia. Isso não levará a um grande colapso financeiro ou a uma forte ruptura na recuperação chinesa, porque o governo tem reservas enormes e pode tirar proveito das enormes poupanças familiares do povo chinês, principalmente depositadas em bancos estatais – ao contrário do que ocorre em outras grandes economias. Mas os problemas de uma série de empresas chinesas superendividadas são um prenúncio do que poderia haver um "tsunami de dívida" em muitos setores corporativos – e não só na economia chinesa, mas também na economia de outros países durante o próximo ano. Muito depende de saber se o setor corporativo conseguirá ou não se sustentar em 2021, à medida que os subsídios dos Estados forem sendo cortados. Mesmo que os custos de juros sobre a dívida existente permaneçam baixos, se os lucros corporativos não aumentarem, mas, em vez disso, caírem em 2021, a OCDE estima que mais de 30% das empresas em todo o mundo podem ficar "em dificuldades", podendo enfrentar a falência. No mínimo, em consequências, as empresas não vão aumentar os seus investimentos, mas, ao contrário, ficarão "quietas". A OCDE avalia que existe o risco de uma "dívida pendente". E isto reduziria o crescimento do investimento empresarial em 2 pontos percentuais em comparação com a média de longo prazo, antes da pandemia. Portanto, mesmo que não haja o tal "tsunami de dívidas" e um crash financeiro causado por uma onda de falências de empresas, a recuperação na maioria das economias capitalistas provavelmente será muito fraca. A OCDE em sua última previsão para a economia mundial fala sobre um "futuro mais brilhante ", em 2021, quando as vacinas contra a Covid passarem a serem distribuídas. Mas essa previsão ainda espera que a maioria das economias do mundo não recupere as perdas de produção sofridas em 2020. No final de 2021, apenas algumas economias terão experimentado algum crescimento real do PIB em comparação como o nível do final de 2019. A economia líder na recuperação será a China – quase 10% a mais de PIB; seguem-se as economias da Coreia do Sul e da Indonésia. Os aumentos do PIB nesses países resultará em um aumento médio do PIB mundial nesses dois anos, isto é 2020 2021. Mas a China contribuirá com um terço desse crescimento real do PIB até o final desse período. As economias capitalistas avançadas do G7 não terão nenhum crescimento real do PIB (é o caso dos EUA), ou terão recuado algo entre 3 e 5% até o final de 2021 (os casos da Europa e do Japão); nesse quadro, o Reino Unido terá o pior desempenho com uma contração de 6,4%. As outras grandes economias do G20, como Índia e Brasil, terão declínios significativos. Imagem 3. A OCDE espera uma "recuperação gradual, mas desigual". E isso pressupõe que ocorram as melhores expectativas possíveis sobre o impacto das vacinas contra a Covid. Mesmo assim, embora se espere que o PIB da economia mundial retorne ao seu nível anterior à pandemia no final de 2021, ele ainda não alcançará o PIB mundial que teria atingido sem a queda produzida pela difusão do coronavírus. A perda representará cerca de 6% do PIB, conforme mostra o gráfico acima. A trajetória da "raiz quadrada reversa" da Longa Depressão parece que vai continuar. 07/Dezembro/2020 [NT] Consiste na prática entre os persas de impedir as mulheres de serem vistas pelos homens que não sejam seus parentes diretos. [*] Economista. As suas obras estão aqui . O original encontra-se em thenextrecession.wordpress.com/2020/12/02/a-credit-crash-ahead/ e a tradução de Eleutério Prado em outraspalavras.net/desigualdades-mundo/tsunami-de-dividas-que-ameaca-o-sistema/ Este artigo encontra-se em https://resistir.info/ .

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Miséria e concentração de riquezas aumentam na pandemia

Miséria e concentração de riquezas aumentam na pandemia 1 de dezembro de 2020 Categoria: Brasil, Destaques, Últimas Notícias permalink Tagged under: Brasil, economia, Instagram, Miséria, Pandemia, Pobreza Share this on WhatsApp ShareShare POBREZA – Pandemia aumentou número de pessoas abaixo da linha da miséria em todo o mundo (Foto: Reprodução/Rodrigo Oliveira) Dados do estudo “Quem paga a conta?”, publicado pela OXFAM em junho de 2020, apontam que os super ricos brasileiros ficaram 34 bilhões de dólares mais ricos durante a pandemia. Enquanto isso, 21% das famílias mais pobres estão sem renda e dependem de doações para poder se alimentar. Raphael Almeida RIO DE JANEIRO (RJ) – Diferente do que dizem os analistas econômicos dos principais jornais do país, a crise econômica iniciada em 2008 ainda não acabou. Se em 1929 foi chamada de “A Grande Depressão”, os economistas fazem questão de afirmar que se trata apenas de uma recessão, todavia, é preciso desnudar a razão da crise econômica e como a pandemia de Covid-19 acelerou seus efeitos. Em “O Capital: crítica da economia política”, Marx aponta que o átomo da economia capitalista se encontra na mercadoria, não à toa, o primeiro capítulo do livro começa por debater esse tema. Em sua genialidade, comprova por A+B, que o capitalismo cria dentro de si tendências e contratendências. Quando a mercadoria não é vendida, o ciclo da mais-valia não se completa (a mais-valia não é transformada em lucro). Para recuperar o valor investido os patrões reduzem os salários, porém, com o salário ainda mais achatado, os trabalhadores não conseguem comprar, aumentando ainda mais os produtos nos estoques. Na mesma proporção encontra-se a linha de crédito bancário: as pessoas não pagam, os bancos aumentam os juros para manter sua taxa de lucro, com isso, aumenta-se a inadimplência. Com o perdão de parecer vulgar, excluir diversos outros elementos econômicos e resumir uma obra magnífica, percebe-se que o sistema capitalista aponta sempre para a crise. Ou seja, a crise não é um ponto fora da curva do desenvolvimento capitalista, ela estrutura a economia capitalista. Ela é a síntese do descompasso entre a produção de mercadorias e o consumo das mercadorias, entre o caráter social da produção e o caráter individual da apropriação das riquezas. Uma das consequências da crise é a ampliação dos monopólios. Olhemos para 2008 e a grande crise iniciada com a quebra do Lehman Brothers, quarto maior banco de investimentos dos Estados Unidos. Mesmo com o Federal Reserve (FED), o Banco Central dos Estados Unidos, e o Banco Central Europeu injetando centenas de bilhões de dólares e euros no sistema financeiro, quando a grande árvore do Lehman Brothers caiu, em 15 de setembro de 2008, levou consigo outros 25 bancos. Os números seguiram em 2009 com a falência de mais 140 instituições financeiras; 157 em 2010 e 71 em 2011. Ao todo, 393 bancos quebraram no período de três anos. Por óbvio, as pessoas não ficaram sem conta bancária. O JP Morgan, maior banco dos EUA, terceira maior empresa do mundo, passou a absorver os clientes do rival falido e viu seu valor de mercado triplicar desde 2008. O desenvolvimento desigual do capitalismo fez com que o centro do Império sofresse os primeiros efeitos da crise que rapidamente se alastrou para Portugal, Espanha, Alemanha, Grécia, França, Inglaterra… Os países que tinham sua matriz econômica nos commodities, como o Brasil, assistiram os efeitos da crise a partir de 2014, quando despencou o preço do barril de petróleo e estende-se até hoje. Muitos economistas afirmam que a crise econômica no centro do Império foi superada, já que entre 2010 e 2019, o Produto Interno Bruto norte-americano cresceu ininterruptamente em numa média 2% ao ano, da mesma forma o crescimento nas bolsas de investimento segundo o índice Dow Jones. Mas, ao observarmos os dados do Bureau of Economic analysis, percebemos que 70% do crescimento do PIB dos EUA estavam sedimentados no aumento de consumo das famílias, e a maior parte desse consumo foi garantido pelo aumento de crédito cedido. A saída do mercado financeiro foi transformar o crescimento econômico num biscoito de polvilho, aparentemente grande, mas cheio de ar e extremamente frágil. Segundo o economista Marcelo Roubicek, redator do jornal Nexo, a injeção de crédito ligado ao consumo dos lares norte-americanos alcançou seu maior nível na história, um valor que em 2019 foi de 4 trilhões de dólares, pela cotação atual 22,5 trilhões de reais, três vezes mais que o PIB do Brasil. Com a pandemia de Covid-19 tomando proporções mundiais, no dia 12 de março deste ano, as bolsas sofreram em um único dia o maior abalo de sua história. A Ibovespa caiu 15%, maior tombo desde 1998. Num mesmo dia, a Bolsa de Valores foi fechada duas vezes, o circuit breaker, como foi amplamente noticiado. A instabilidade e a possibilidade do lockdown (o que pararia a produção e venda de produtos, por conseguinte, estagnação do lucro) fez com que houvesse um efeito cascata em todas as bolsas de valores pelo mundo. Somente após o Banco Central dos EUA anunciar que injetaria US$ 1,5 trilhão no sistema financeiro (que o Estado doaria aos bancos e investidores) o mercado se acalmou. Nesse momento, as manchetes da crise voltaram a surgir. Todavia, basta olharmos para os portais das próprias elites econômicas para confirmar que a economia mundial dava sinais de queda já em 2019: “Mundo corre risco de entrar em recessão; o que aconteceria com o Brasil?”, “O mundo está à beira de uma nova grande crise econômica?”, “A crise econômica global está se formando, e a guerra comercial é só uma parte disso” , “Crise à vista?”. Os capitalistas do mundo enxergaram na crise a possibilidade de ampliar suas fortunas e monopolizar ainda mais a economia. Não à toa, em meio ao empobrecimento generalizado da população, os super ricos ficaram mais ricos. Dados do Institute for Policy Studies e Americans for Tax Fairness mostram que a fortuna dos 643 norte-americanos mais ricos cresceu 29% desde o começo da pandemia, significando mais de 584 bilhões de dólares em suas contas, enquanto 40 milhões de pessoas vivem na linha da pobreza no país. Os mesmos dados mostram que os cinco maiores bilionários dos EUA – Jeff Bezos, Bill Gates, Mark Zuckerberg, Warren Buffett e Larry Ellison – viram sua riqueza crescer durante a pandemia em um total de 101,7 bilhões de dólares, ou 26%. Eles capturaram 17,4% do crescimento total da riqueza de todos os mais de 600 bilionários nos últimos três meses. As fortunas de Bezos e Zuckerberg juntas cresceram quase 76 bilhões de dólares, ou 13% do total de 584 bilhões de dólares. No Brasil, dados do estudo “Quem paga a conta?”, publicado pela OXFAM em junho de 2020, apontam que os super ricos ficaram 34 bilhões de dólares mais ricos. Na América Latina, o aumento da riqueza foi de 48,2 bilhões de dólares durante a pandemia. Dados da Bússola Social mostram que 21% das famílias mais pobres estão sem renda na pandemia, e dessas, 38% dependem de doações para poder se alimentar. Ainda de acordo com os dados, em 71% das famílias pelo menos um membro perdeu o emprego durante a pandemia. É verdade que o lucro dos super ricos se deu, numa parte, pelo aumento de vendas, mas por outro lado, houve uma grande economia de seus déficits com a demissão de milhões de trabalhadores e redução salarial dos empregados, sob alegação de falta de dinheiro. Segundo a OXFAM,“se estima que até 52 milhões de pessoas se tornarão pobres e 40 milhões perderão seus empregos este ano”. Diferente de 2008, onde grandes companhias entraram em falência, levando consigo os pequenos proprietários, fazendo com que os consumidores fossem absorvidos por monopólios ainda mais robustos, durante a pandemia, o pequeno proprietário, dono do pequeno mercado, da pequena loja, da mercearia, foi o principal atingido. Não à toa, assistimos nas capitais um número assustador de placas na frente dos comércios escrito “Vende-se”. O pequeno proprietário está sendo substituído pelo grande monopólio, com o fechamento das pequenas lojas. A população tem como única opção comprar nas grandes redes de atacado como Ponto Frio, Americanas, Magazine Luiza e Amazon. Com o fechamento dos mercados, açougues e hortifrutis, resta os hipermercados do Grupo Pão de Açúcar, Carrefour e Walmart. Se no começo do ano o mundo assistiu com preocupação as declarações das guerras comerciais entre China e Estados Unidos, com a pandemia, a situação se inflamou. Jogou-se gasolina na fogueira. Cada vez mais as grandes empresas ficam incapacitadas de crescer seus tentáculos, não há novos mercados para explorar, já que dominam continentes inteiros, tendo como opção a guerra comercial para penetrar no mercado de seu rival. Isso se verifica nas disputas entre Alibaba (conglomerado privado de empresas chinesas) x Amazon (EUA), a Wish e Ebay x AliExpress (que pertence ao grupo Alibaba), Tik Tok (chinesa) x Instagram (EUA), Huawei e Xiaomi (chinesas) x Apple (EUA) e Samsung (Coreia do Sul). GUERRA ECONÔMICA – EUA e China disputar controle dos mercados e da economia mundial (Foto: Reprodução) Cresce a possibilidade de uma nova guerra no mundo Com as tensões entre os blocos China/Rússia x EUA/União Europeia se intensificando, e um aprofundamento ainda mais violento da crise econômica de 2008, as potências imperialistas investem cada vez mais em suas forças armadas. O ano de 2019 registrou o maior aumento com gasto militar dos últimos dez anos, como comprova o artigo O Balanço Militar, do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos. O país que mais investe é os EUA, com um gasto de US$ 684,6 bilhões. O país conta com 800 bases militares espalhadas pelo mundo. A China aumentou seus gastos em 6,6% em comparação a 2018. Em números brutos, China e EUA estão muito à frente da Rússia, que investe US$ 61,6 bilhões em defesa, todavia, o país dirigido por Putin detém grande quantidade de armas nucleares. A Alemanha, viu seu gasto militar se elevar 9,7% entre 2018 e 2019, país que mais investiu em toda Europa, continente que viu seu gasto aumentar em 4,2% no mesmo período. O assassinato do general iraniano Suleimani pelas forças armadas norte-americanas, no começo do ano, agravou a tensão no país e no conjunto do Oriente Médio, onde os EUA demostram ter mais domínio geopolítico da região. A China amplia seu domínio econômico sobre o continente africano, instalando ainda uma base militar no Djibuti, buscando assegurar o controle da nova rota da seda. A situação se agrava ainda mais nas disputas pelo território sírio entre OTAN e Rússia. As tensões diplomáticas entre China e Taiwan estampam as capas dos jornais internacionais. Estados Unidos e a China posicionaram embarcações militares em vários pontos do Mar do Sul da China, região que inclui sete países e Taiwan e tem importância estratégica: é uma das principais rotas comerciais navais do planeta. Em nosso continente a situação não é diferente. A todo momento o imperialismo norte-americano desestabiliza governos como Honduras, Brasil, Paraguai, Argentina, Bolívia, e tenta criar uma guerra contra a Venezuela em busca de petróleo. Necessidade de uma nova sociedade Não há claridade que cegue a realidade que o capitalismo não consegue resolver os graves problemas da humanidade. Esse modelo econômico se esgotou por completo. Não há desenvolvimento harmônico numa sociedade que destrói os biomas, queima suas florestas para ser ocupado pelo gado do agronegócio. A tecnologia desenvolvida na sociedade capitalista não serve para gerar qualidade de vida ou reduzir a jornada de trabalho, mas sim para aumentar o lucro dos patrões. Enquanto a Covid-19 matava as elites brasileiras, era defendido o lockdown; quando o vírus passou a vitimar principalmente a periferia, tudo voltou a funcionar. Dia após dia faz-se necessário a derrubada do capitalismo e a construção do socialismo, uma sociedade que socialize as riquezas, que emancipe o homem e a mulher, garanta comida aos famintos, terras aos camponeses e trabalho com salário digno para aqueles que vivem do trabalho. Print Friendly, PDF & Email

sábado, 5 de dezembro de 2020

Crise e predação: Índia, COVID e finança global

Crise e predação: Índia, COVID e finança global – A escolha colocada, uma vez mais, pela crise do COVID-19: continuar a subordinação às finanças globais ou seguir um rumo de desenvolvimento nacional democrático por RUPE [*] Crisis and Predation.A obra Crise e predação: Índia, COVID e finança global destaca os seguintes pontos: 1. Mesmo antes de ocorrer a crise do COVID-19, a economia da Índia estava em depressão. A condição das grandes massas populares, particularmente as do sector informal, era grave. 2. Em resposta ao COVID-19, o governo indiano impôs as medidas de bloqueio mais rigorosas do mundo. Dado o carácter da economia da Índia, isso teve um impacto particularmente grave para a maioria das pessoas. 3. Ao mesmo tempo, o governo despendeu escassas verbas para amortecer o impacto dessas medidas nas pessoas. Em comparação com outros governos, o governo indiano proporcionou apenas despesas adicionais das mais baixas (em percentagem do PIB) a nível mundial. Embora algumas despesas adicionais possam ocorrer nos próximos meses, já está claro que o valor final será terrivelmente baixo. A actual expansão orçamental pode ser de apenas 1% do PIB para o ano fiscal a fechar em Março de 2021, em comparação com 3% do PIB após a Grande Crise Financeira de 2007-09. Porém a crise na economia real agora é muito, muito maior do que a da Grande Crise Financeira. 4. Esta extraordinária falta de firmeza decorre do facto subjacente aos interesses financeiros globais de que se opõem explicitamente a qualquer expansão considerável dos gastos do governo na Índia, pelas razões descritas neste livro. As finanças globais estão em posição de ditar isso porque os governos de todos os matizes, ao longo dos anos, tornaram o país dependente de fluxos de capital estrangeiro. As reservas de moeda estrangeira da Índia, embora aparentemente amplas, foram acumuladas por meio de empréstimos e investimentos voláteis estrangeiros. Dada esta dependência, os governantes da Índia renunciam a qualquer aumento considerável das despesas do Estado. Temem que tal aumento provoque um abaixamento da notação das agências de classificação (rating) baseadas nos EUA, resultando numa saída dos investimentos estrangeiros, uma quebra do mercado de acções e uma queda do valor da rupia. Assim, os legisladores indianos estão empenhados em atrair e reter fluxos de capital estrangeiro, mesmo quando há grandes excedentes no fluxo de capitais. 5. Em resposta à crise actual, o governo depara-se com uma escolha. Em teoria, poderia desafiar a pressão das finanças globais e atender às necessidades básicas de seu povo (um objectivo que está ao alcance da actual capacidade material da Índia). No entanto, isso exigiria impor um controlo sobre os fluxos desestabilizadores de capital estrangeiro e a preparação para renunciar a esses fluxos de capital estrangeiro no futuro, com tudo o que isso implica, a fim de se seguir uma via de desenvolvimento nacional democrático. Para isso, os governantes precisariam do que inerentemente lhes falta, dada as suas próprias bases classistas, a saber, uma visão positiva do desenvolvimento nacional democrático e uma aliança de classes para realizá-lo. A outra opção é submeter-se ao regime de financiamento externo, aguardando os sinais de quanto pode gastar nas diferentes conjunturas, desistindo de qualquer pretensão de soberania económica. 6. Os governantes da Índia aderiram a esta última opção. Agora, ansiosos para reforçar as participações em moeda estrangeira e tranquilizar os investidores estrangeiros sobre os seus créditos, tentam atrair investimentos estrangeiros para a dívida pública, com consequências potencialmente graves. Os governantes também apelaram aos Estados Unidos para ajudar a lidar com a crise cambial por meio do fornecimento de "linhas swap". Se os Estados Unidos estendessem essa ajuda, seria necessário um quid pro quo na forma de subordinação mais completa. Quer esses investimentos e ajuda se materializem ou não, o país está torna-se ainda mais vulnerável a fluxos voláteis, criando assim o cenário para novas crises e pressões. 7. A crise económica e política internacional foi acentuada com o COVID-19. Os Estados Unidos e seus aliados usaram o surgimento do COVID-19 para atingir a China por motivos que nada têm a ver com o vírus. A actual crise internacional também fez com que os governantes da Índia se aproximassem ainda mais dos Estados Unidos, integrando a Índia na estratégia de hegemonia global. Isso agravou muito as disputas não resolvidas e as tensões entre a Índia e a China, desencadeando um confronto de fronteira que terá consequências negativas de longo alcance para o povo indiano, ao mesmo tempo que se coloca ao serviço dos interesses dos EUA. 8. A actual contenção de despesas do governo face a uma depressão sem precedentes está a resultar em enormes dificuldades, que por sua vez podem dar origem a distúrbios e ondas de revolta. As acções dos governantes contra oponentes políticos e activistas de movimentos populares têm sido preventivas, punitivas e severas. À medida que a situação se desenvolve, as condições de emergência prevalecentes permitem o uso mais desenfreado de métodos repressivos e divisionistas – como depender das forças de segurança, vigilância do Estado, deter de activistas políticos e pessoas democráticas, aumento da propaganda e censura dos media independentes – em nome de controle da pandemia. 9. Estas condições impõem com mais urgência do que nunca a escolha delineada anteriormente: resignar-se a uma maior subordinação da economia e das vidas das pessoas às finanças globais, ou seguir a via do desenvolvimento nacional democrático Conteúdo 1 - A escolha colocada mais uma vez pela crise do COVID-19 2 - A crise antes do COVID-19 3 - O impacto do confinamento nas condições da Índia Referência: O subfinanciamento da saúde pública 4 - O que explica a recusa do governo quanto à despesa? Referência: As reservas cambiais da Índia: que protecção oferecem contra uma saída repentina de capital estrangeiro? 5 - Por que motivo os investidores estrangeiros se opõem aos gastos do governo? Referência: A crise financeira como oportunidade para investidores estrangeiros 6 - Aprofundando a dependência e a incerteza Referência: O falso argumento para justificar o desejo de investimento estrangeiro na dívida do governo 7 - Índia, COVID-19, Estados Unidos e China 8 - A economia da Índia e o caminho pela frente Ver também: FMI aproveita a pandemia para abrir caminho a privatizações [*] Research Unit for Political Economy , instituição científica indiana. O presente texto é o sumário do livro Crisis and predation, editada em 2020 pela Monthly Review Press. A obra pode ser descarregada em resistir.info/livros/crisis_and_predation.pdf Este sumário encontra-se em https://resistir.info/ .
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