– O novo livro de Michael Hudson, E perdoai-lhes as suas dívidas
por John Siman
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Dizer que o novo livro de Michael Hudson And Forgive Them Their Debts: Lending, Foreclosure, and Redemption from Bronze Age Finance to the Jubilee Year (ISLET, 2018) é profundo é uma subestimação equivalente a dizer que a Fossa das Marianas é profunda. Apreender o seu argumento central é tão estranho para o nosso moderno modo de pensar acerca de civilização e barbárie que Hudson concordou comigo em que o livro é, na medida em que for compreendido, "devastador" tanto na intenção como no efeito. Ao longo das últimas três décadas, Hudson recolheu (sob os auspícios do Museu Peabody de Harvard) e a seguir sintetizou a erudição de assiriologistas americanos, britânicos, franceses, alemães e soviéticos (escrito com minúsculas a para denotar colectivamente todos os que estudam as várias civilizações da antiga Mesopotâmia, as quais incluem a Suméria, o Império Acadiano, o Ebla, a Babilónia e outras, assim como a Assíria com um A maiúsculo). Hudson demonstra que nós, globalistas do século XXI, temos sido moralmente cegados por um obscuro legado de cerca de vinte e oito séculos de história descontextualizada. Isso nos deixou, para todos os propósitos práticos, absolutamente ignorantes do modelo civilizacional correctivo que é necessário para nos salvarmos do afundamento numa negra barbárie neo-feudal.
Este modelo colectivo realmente existiu e floresceu no funcionamento económico de sociedades da Mesopotâmia durante o terceiro e segundo milénio AC. Ele pode ser denominado amnistia do Passado Limpo (Clean Slate), uma expressão que Hudson utiliza para abarcar a função essencial do que era chamado amargi e níg-si-sá em sumério, e urârum e mîðarum em acadiano (a linguagem da Babilónia),ðudûtu and kirenzi e, hurriano, para tarnumar em hitita, and deror em hebraico: É o apagamento necessário e periódico das dívidas de pequenos agricultores – necessário porque tais agricultores estão, em qualquer sociedade na qual sejam calculados juros sobre empréstimos, inevitavelmente sujeitos a serem empobrecidos, a seguir destituídos da sua propriedade e finalmente reduzidos à servidão (incluindo a servidão sexual de filhas e esposas) pelos seus credores. Estes últimos inevitavelmente procuram efectuar a polarização terminal da sociedade numa oligarquia de credores predatórios canibalizando uma subclasse que se afunda atolada em irreversível servidão da dívida (debt peonage). Hudson escreve: "Que é o que os credores realmente querem. Não meramente o juro como tal, mas o colateral – quaisquer que sejam os activos económicos que os devedores possuem, desde o seu trabalho à sua propriedade, acabando com as suas vidas" (p. 50). E tal polarização é, pela definição de Hudson, barbárie. Pois qual é a condição mais básica da civilização, pergunta Hudson, senão a organização societal que efectua um "equilíbrio" duradouro mantendo "todos acima do nível de ruptura"? "As sociedades mesopotâmicas não estavam interessadas em igualdade", disse-me ele, "mas elas eram civilizadas. E possuíam o refinamento financeiro suficiente para entender que juros sobre empréstimos aumentam exponencialmente, ao passo que o crescimento económico na melhor das hipóteses segue uma curva S. Isto significa que os devedores, se não forem protegidos por uma autoridade central, acabarão por se tornar escravos (bondservants) permanentes dos seus credores. Assim, os reis da Mesopotâmia regularmente resgatavam devedores que estavam a ficar esmagados pelas suas dívidas. Eles sabiam que precisavam fazer isto. Repetidamente, século após século, proclamavam Amnistias Passado Limpo (Clean Slate Amnesties) ". Hudson também escreve: "Ao libertar indivíduos aflitos que haviam caído na servidão da dívida, e ao devolver aos cultivadores as terras que haviam perdido por dívida ou vendido sob pressão económica, estes actos reais mantinham um campesinato livre desejoso de combater pela sua terra e de trabalhar em projectos de edifícios públicos e de canais... Ao limpar a acumulação de dívidas pessoais, os governantes salvavam a sociedade do caos social que teria resultado da insolvência pessoal, da servidão por dívidas e da deserção militar" (p. 3). Marx e Engels nunca apresentaram um tal argumento (nem tão pouco Adam Smith). Hudson destaca que eles nada sabiam destas antigas sociedades mesopotâmicas. Ninguém sabia naquela época. Quase todas as espécies de assiriologistas completaram suas escavações arqueológicas e análises filológicas durante o século XX. Por outras palavras, este livro não poderia ter sido escrito até que alguém digerisse as partes relevantes do vasto corpo deste conhecimento académico recente. E este alguém é Michael Hudson. Assim, vamos reconsiderar a percepção fundamental de Hudson em termos mais incisivos. Nas antigas sociedades mesopotâmicas entendia-se que a liberdade era preservada pela protecção dos devedores. No que chamamos de Civilização Ocidental, isto é, na pletora de sociedades que se seguiram ao florescimento da poleis grega a partir do século VIII AC, exactamente o oposto se passou, com apenas uma única grande excepção (Hudson descreve o Império Bizantino do século X DC de Romano Lecapenus ): Para nós a liberdade tem sido entendida como sancionando a capacidade dos credores de exigir o pagamento de devedores sem restrição ou supervisão. Isto é a liberdade de canibalizar a sociedade. Isto é a liberdade de escravizar. Isto é, afinal das contas, a liberdade proclamada pela Escola de Chicago e a corrente convencional dos economistas americanos. E assim Hudson enfatiza que a nossa noção ocidental de liberdade tem sido, desde há cerca de vinte e oito séculos, orwelliana no sentido mais literal da palavra: Guerra é paz, Liberdade é escravidão, Ignorância é força. Ele escreve: "Uma dinâmica constante da história tem sido o impulso por parte das elites financeiras para centralizar o controle nas suas próprias mãos e administrar a economia de modos predatórios e extractivistas. Sua liberdade ostensiva é a expensas da autoridade governante e da economia como um todo. Como tal, ela é o oposto da liberdade do modo concebido nos tempos da Suméria" (p. 266). E a nossa orwelliana noção neoliberal de liberdade irrestrita para o credor condena-nos mesmo desde o início de qualquer investigação que empreendamos de uma ordem económica justa. Toda e qualquer revolução que efectuarmos, por mais justa que seja na sua concepção, está assim destinada a falhar. E estamos condenados, diz Hudson, porque temos sido moralmente cegados por 28 séculos de história desenraizada ou, como ele diz, descontextualizada. As verdadeiras raízes históricas da civilização ocidental não estão na poleis grega à qual faltava supervisão real para cancelar dívidas, mas nas sociedades mesopotâmicas da Era do Bronze que entendiam como vida, liberdade e terra seriam ciclicamente devolvidas aos devedores repetidas vezes. Mas, no oitavo século AC, juntamente com o alfabeto vindo do Oriente Próximo para os gregos, surgiu o conceito de cálculo de juros sobre empréstimos. Este conceito de juro exponencialmente crescente foi adoptado pelos gregos – e a seguir pelos romanos – sem o conceito equilibrador da amnistia Clean Slate. Assim foi inevitável que, ao longo dos séculos de história grega e romana, números crescentes de pequenos agricultores se tornassem irremediavelmente endividados e perdessem a sua terra. Foi igualmente inevitável que os seus credores acumulassem enormes haveres em terra e se estabelecessem como oligarquias parasitas. Esta tendência inata para a polarização social decorrente do não esquecimento de dívidas é a maldição original e incurável da nossa civilização ocidental pós século VIII AC. Civilização ocidental, escabrosa marca de nascimento que não pode ser lavada ou extirpada. Neste contexto, Hudson cita o classicista Moses Finley com grande efeito: "….a dívida era um artifício deliberado da parte do credor para obter mão-de-obra mais dependente ao invés de um dispositivo para enriquecimento por meio de juros". Ele cita igualmente Tim Cornell: "O objectivo do 'empréstimo', o qual era assegurado na pessoa do devedor, era precisamente criar um estado de servidão" (p. 52 – Hudson anteriormente destacou este ponto nos dois volumes do colóquio por ele editado como parte de seu projecto de Harvard: Debt and Economic Renewal in the Ancient Near East (Dívida e renovação económica no antigo Oriente Próximo) e Labor in the Ancient World (Trabalho no mundo antigo). Hudson é capaz de explicar que o longo declínio e queda de Roma começa não, como disse Gibbon, com a morte de Marco Aurélio, o último dos cinco bons imperadores, em 180 DC, mas quatro séculos antes, a seguir à devastação de Aníbal da Itália rural durante a Segunda Guerra Púnica (218-201 AC). Depois daquela guerra os pequenos agricultores da Itália nunca recuperaram a sua terra, a qual foi sistematicamente absorvida pelos prædia (note-se a conexão etimológica com predatório ), os latifundia,as grandes propriedades oligárquicas: latifundia Italiam ("as grandes propriedades destruíram a Itália", como observou Plínio o Velho. Mas entre os académicos modernos, como destaca Hudson, "Arnold Toynbee está quase sozinho ao enfatizar o papel da dívida na concentração da riqueza romana e da propriedade" (p. xviii) – e portanto na explicação do declínio do Império Romano. "Arnold Toynbee", escreve Hudson, "descreveu a ideia de 'liberdade' da aristocracia romana como limitada à liberdade oligárquica de reis ou instituições cívicas suficientemente poderosas para conferir poder ao credor para endividar e empobrecer a cidadania em geral. "O monopólio de gabinete da aristocracia patrícia após o eclipse da monarquia [Hudson cita do livro de Toynbee, Hannibal's Legacy ] foi utilizado pelos patrícios como uma arma para manter o seu domínio sobre a parte do leão dos activos económicos do país; e a maioria plebeia da cidadania romana tinha de se esforçar para ganhar acesso a cargos públicos como um meio de assegurar uma distribuição mais equitativa da propriedade e uma restrição à opressão dos devedores pelos credores. Esta última tentativa fracassou", observa Hudson, "e a civilização europeia e ocidental ainda vive com as consequências" (p. 262). Como Hudson põe em foco o grande quadro geral, o pulsar da história ocidental ao longo de milénios, é capaz de descrever o abismo económico entre a antiga civilização mesopotâmica e as sociedades ocidentais posteriores que começam com a Grécia e Roma: "No início deste século [isto é, o consenso académico até a década de 1970] entendia-se que os cancelamentos da dívida da Mesopotâmia eram semelhantes a seisachtheia de Solon de 594 AC libertando os cidadãos atenienses da servidão por dívida. Mas as proclamações reais do Oriente Próximo estavam baseadas num contexto sócio-filosófico diferente das reformas gregas que visavam substituir aristocracias fundiárias credoras com democracia. As exigências da populaça grega e romana pelo cancelamento da dívida podem ser correctamente chamadas de revolucionárias [itálico meu], mas as exigências sumérias e babilónicas eram baseadas numa tradição conservadora enraizada em rituais do calendário cósmico e das suas periodicidades bem ordenadas. A ideia mesopotâmica de reforma "não tinha a noção [Hudson cita aqui o livro de Dominique Charpin,Hammurabi of Babylon ] do que chamaríamos de progresso social. Ao invés, as medidas que o rei instituiu sob o seu mîðarum eram destinadas a trazer de volta a ordem original [itálicos meus]. As regras do jogo não foram mudadas, mas fora dada uma nova mão de cartas a toda a gente" (p. 133). Contraste com os gregos e romanos: "A antiguidade clássica", escreve Hudson, "substituiu a ideia cíclica de tempo e renovação social pela de tempo linear. A polarização económica tornou-se irreversível, não meramente temporária" (p. xxv). Por outras palavras: "A ideia de progresso linear, na forma de dívida irreversível e transferências de propriedade, substituiu a tradição da Idade do Bronze de renovação cíclica" (p. 7). Após todos estes séculos, permanecemos ignorantes do facto de que nas profundidades das raízes da nossa civilização está contido o modelo correctivo do retorno cíclico – aquilo a que Dominique Charpin chama a "restauração da ordem" (p. xix). Continuamos a inundar-nos com mil milhões de variações de argumentos de venda para contrair cada vez mais empréstimos, com a exortação para aplicar cada vez mais no crédito, porque, como sabe, o futuro é tão brilhante que preciso usar óculos escuros. Em parte alguma, mostra Hudson, é mais evidente que estamos cegados por um entendimento desenraizado, descontextualizado, da nossa história do que na nossa ignorância da carreira de Jesus. Daí o título do livro: And Forgive Them Their Debts, E perdoa-lhes as suas dívidas e a ilustração da capa com Jesus a açoitar os prestamistas – os credores que não perdoavam dívidas – no templo. Durante séculos falantes do inglês recitaram a Oração do Senhor com a suposição de que estavam meramente a pedir o esquecimento das suas ofensas (trespasses), seus pecados teológicos: "... e esqueça nossas ofensas, assim como nós esquecemos quem nos ofendeu..." é a tradução apresentada na Versão Padrão Revista da Bíblia. O que se perde na tradução é o facto de que Jesus veio "pregar o evangelho (preach the gospel) aos pobres... pregar o Ano do Senhor aceitável": Ele veio, por outras palavras, proclamar um Ano Jubileu, uma restauração do deror para os devedores. Ele veio instituir uma Amnistia Passado Limpo (que é o que a palavra hebraica denota neste contexto). Assim, considere-se literalmente a passagem [em grego] da Oração do Senhor: "... e remover para nós as nossas dívidas". A tradução latina não é gramaticalmente idêntica à grega, mas também mostra a palavra grega reveladoramente traduzida como debita: ... et dimitte nobis debita nostra : "... e livrai-nos(dimitte) das nossas dívidas (debita)". Consequentemente havia, da parte da classe credora, uma razão prática e premente para condenar Jesus à morte: Ele estava a exigir que restaurassem a propriedade que haviam avidamente tomado dos seus devedores. E após a sua morte havia igualmente uma razão premente e prática para tornar inoperante a sua proclamação do Jubileu de uma Amnistia Passado Limpo, o que equivale a dizer tornada meramente teológica. Assim os ricos podiam continuar a oprimir os pobres para todo o sempre. Amen. Por este livro ser profundo, é escrito de modo tão denso que é muito difícil lê-lo. Levei seis dias, o que incluiu seis ou mais horas de conversações excelentes e esclarecedoras com o próprio autor, para penetrá-lo. Muitas vezes recorri ao livro de David Graeber, Debt: The First 5.000 Years , quando tive dificuldade em acompanhar alguns dos argumentos de Hudson. (Graeber e Hudson foram amigos durante dez anos, contou-me Hudson, e Graeber, ao escrever Debt; The First 5.000 Years, apoiou-se na erudição de Hudson para relatar a teoria económica da antiga da Mesopotâmia, cf. p. xxiii). Escrevi a presente resenha do livro a fim de proporcionar alguma ajuda a outros leitores: não posso enfatizar demasiado o quanto este livro é de facto um verdadeiro terramoto, mas é preciso muito trabalho intelectual para digeri-lo. ADENDA: Risco moral (Moral Hazard) Depois de enviar um rascunho desta resenha a um amigo na noite passada ele respondeu-me com esta pergunta: – Será que cancelamentos de dívida não retirariam quaisquer incentivos às pessoas para reembolsarem empréstimo e, portanto, retirariam incentivos para conceder empréstimos? Pessoas que não ouviram antes o argumento e lêem então a sua resenha provavelmente ficarão cépticas no início. Eis a resposta de Michael Hudson: – Credores argumentam que se você esquecer dívidas para uma classe de devedores – digamos que empréstimos a estudantes – haverá alguns "free riders" e que as pessoas esperarão ter maus empréstimos cancelados. Isto é chamado um "risco moral", pois cancelamentos de dívida são um risco para a economia e, portanto, imorais. Isto é um exemplo típico da linguagem dupla orwelliana engendrada por empregados de relações públicas para os possuidores de títulos e os bancos. O risco moral para toda economia é a tendência para as dívidas crescerem para além da capacidade dos devedores de pagarem. Os primeiros incumpridores são vítimas de hipotecas lixo e devedores estudantes, mas de longe as maiores vítimas são os países que tomam empréstimos do FMI em programas de "estabilização" monetária (isto é, desestabilização económica). É moral para os credores terem de arcar com o risco de fazer maus empréstimos, definidos como aqueles em que o devedor não pode pagar sem perder a propriedade, status ou tornar-se insolvente. Um mau empréstimo internacional a um governo é aquele em que o governo não pode pagar excepto impondo austeridade à economia até um ponto em que a produção cai, o trabalho é obrigado a emigrar para encontrar emprego, o investimento de capital declina e os governos são forçados a pagar credores pela privatização e liquidação do domínio público a monopolistas. A analogia na Babilónia da Idade do Bronze era uma fuga de devedores da terra. Hoje, desde a Grécia até à Ucrânia, é uma fuga de mão-de-obra qualificada e mão-de-obra jovem a fim de encontrar trabalho no estrangeiro. Nenhum devedor – quer seja uma classe de devedores como estudantes ou vítimas de hipotecas lixo predatórias, ou um governo inteiro e uma economia nacional – deveria ser obrigado a seguir o caminho do suicídio económico e da autodestruição a fim de pagar credores. A definição de soberania – e, portanto, de direito internacional – deveria ser colocar a solvência nacional e a autodeterminação acima dos ataques financeiros estrangeiros. Ceder o controle financeiro deveria ser encarado como uma forma de guerra, na qual os países têm o direito legal de resistir como "dívida odiosa" sob o direito moral internacional. O princípio financeiro moral básico deveria ser que os credores arcassem com o risco de fazerem maus empréstimos que o devedor não pudesse pagar – tal como os empréstimos do FMI à Argentina e à Grécia. Risco moral é colocar exigências do credor acima da sobrevivência da economia.
16/Novembro/2018
O original encontra-se em www.nakedcapitalism.com/2018/11/145003.html . Tradução de JF. Esta resenha encontra-se em http://resistir.info/ . |
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terça-feira, 18 de dezembro de 2018
domingo, 4 de fevereiro de 2018
A ascensão dramática da desigualdade de riqueza
A ascensão dramática da desigualdade de riqueza
por Prabhat Patnaik [*]
A OXFAM acaba de produzir um relatório no qual destaca o aumento dramático na desigualdade de riqueza que está a verificar-se na Índia. Os dados básicos que utiliza são do Credit Suisse, o qual regularmente publica o Global Wealth Databook . E de acordo com o Credit Suisse os 1 por cento do topo da população indiana açambarcaram 73 por cento da riqueza adicional gerada no ano de 2017.Trata-se de um número incrível por si mesmo. Além disso, esta percentagem, que se refere ao ano passado, é mais alta do que o número que prevalecer antes deste ano, o qual era de 58 por cento. A percentagem à margem sendo mais elevada do que a percentagem média significa que a própria média, já extremamente elevada, está em vias de ascender ainda mais. A crescente desigualdade de riqueza e rendimento não é um fenómeno confinado só à Índia. É um fenómeno à escala mundial o qual agora começou a preocupar mesmo os líderes de topo do mundo capitalista que se reúnem todos os anos em Davos no Fórum Económico Mundial. A ameaça de instabilidade social desta crescente desigualdade económica foi colocada como um ítem importante na agenda de Davos. Mas a Índia destaca-se no facto de que o crescimento da desigualdade tem sido mais rápido do que em qualquer outro lugar do mundo, ao ponto de agora classificar-se entre as sociedades mais desiguais do mundo. Comparando-se por exemplo os 58 por cento de riqueza total que os 1 por cento do topo possuíam na Índia antes de 2017, o número correspondente para o mundo como um todo é de 50 por cento. E muito embora para o mundo como um todo os 1 por cento do topo em 2017 possuíssem 82 por cento do acréscimo de riqueza comparados aos 73 por centro para a Índia, o nível de desigualdade de riqueza no mundo continuará abaixo daquele da Índia no futuro previsível. O que isto sugere é que a razão subjacente que está a promover a desigualdade de riqueza por toda a parte está a operar com maior intensidade na Índia. E esta razão primariamente tem a ver com a prossecução de políticas económicas neoliberais. A riqueza crescente e a desigualdade de rendimento é uma característica necessária do capitalismo neoliberal. A tendência "espontânea" do capitalismo para produzir "riqueza num pólo e pobreza no outro" a qual foi algo restrita nos anos do pós-guerra através da intervenção do Estado, em resposta à ameaça socialista e à força crescente da classe trabalhadora que o capitalismo enfrentava no fim da segunda guerra mundial, foi agora reintroduzida com uma vingança, sob o capitalismo neoliberal. Há pelo menos cinco caminhos óbvios pelos quais o capitalismo neoliberal promove a desigualdade de riqueza. O primeiro é através do aumento na desigualdade de rendimento que ele provoca. Uma vez que o rácio de rendimento que é poupado (e portanto acrescentado ao stock de activos) é maior para os grupos de rendimento mais altos, uma mudança na distribuição do rendimento em favor destes últimos aumenta tanto o rácio geral de poupança (e formação de activos) no rendimento total como a fatia dos possuidores de activos do topo nos activos totais. Um exemplo tornará este ponto mais claro. Suponha, para começar, que os 10 por cento de topo da população possuíssem activos no valor de 250 e ganhassem um rendimento de 50, ao passo que os 90 por cento da base tivessem um activo de 5'0 e rendimento de 50; e suponha que os primeiros habitualmente poupassem metade do rendimento enquanto os últimos habitualmente poupassem 10 por cento do seu rendimento. Assim, os 10 por cento do topo poupariam 25 e os 90 por cento da base 5 por cento, de modo que cada activo do grupo cresça em 10 por cento – e não há ascensão da desigualdade de riqueza. Mas agora, se a distribuição de rendimento se tornar 60 para os 10 por cento do topo e 40 para o resto, então com os mesmos rácios de poupança o crescimento em activos é 34 ou 11,3 por cento do nível existente anteriormente. O crescimento dos activos do grupo do topo 12 por cento ao passo que o do grupo da base é de 8 por cento. A fatia do grupo do topo no total de activos aumenta de 83 para 84. E se o aumento na desigualdade de rendimento continuar então a fatia dos 10 por cento do topo continuaria a ascender. A tendência sob o neoliberalismo é continuar a piorar a distribuição do rendimento. Isto acontece porque o número de empregos criados sob o mesmo cai aflitivamente abaixo do número dos que buscam emprego, o que aumenta a dimensão relativa do exército de reserva do trabalho, de modo que os salários permanecem ligados a um nível de subsistência mesmo quando a produtividade do trabalho aumenta. A fatia do excedente a acumular-se para os ricos mantém-se portanto a aumentar ao longo do tempo sob o capitalismo neoliberal, implicando um aumento na desigualdade do rendimento e por conseguinte da riqueza. No exemplo acima assumimos que o rácio das poupanças em relação aos rendimentos de cada grupo permanece inalterado quando muda a distribuição do rendimento. Mas de facto o consumo tende a ser relativamente rígido quando muda o rendimento, caso em que, no exemplo acima, as poupança dos 10 por cento do topo aumentariam para 35 quando o seu rendimento aumenta para 60 (uma vez que o consumo permanece fixado em 25) e as poupanças dos 90 por cento da base cairiam para menos 5 já que o seu consumo permanece em 45 mesmo quando o rendimento cai para 40. Nesta nova situação, então, a fatia na riqueza total dos 10 por cento do topo aumenta de 83 para 86 por cento. Esta tendência para um aumento da fatia de riqueza dos percentis do topo torna-se particularmente pronunciada quando há um declínio absoluto nos rendimentos dos percentis da base. E uma das razões porque isto acontece num regime neoliberal é a privatização de serviços essenciais como educação e cuidados de saúde, o que também os torna mais caros, de modo que os pobres têm mesmo de esgotar o seu magro stock de activos para serem capazes de dispor de um nível particular de acesso a estes serviços. Este portanto é o segundo caminho pelo qual um regime neoliberal contribui para um aumento na desigualdade de riqueza. O terceiro modo pelo qual um regime neoliberal acentua a desigualdade de riqueza é através de um processo intensivo de acumulação primitiva de capital que ele desencadeia sobre a economia. Através de uma variedade de meios, que vão desde uma tomada sem rodeios da pequena propriedade, incluindo a propriedade camponesa (ou a sua compra "por tostões"; até a invasão de bens comuns; a apropriação de propriedade do Estado (a qual é construída através de impostos sobre pessoas comuns); ao simples roubo de crédito bancário dos bancos do sector público (o que é habitualmente mencionado como um acúmulo dos seus "Activos em incumprimento"), os grandes capitalista aumentam a sua fatia no total de riqueza da economia. A acumulação primitiva aumenta de facto a concentração de riqueza de dois modos: um que acaba de ser discutido; ele suplementa o efeito daquilo que Marx chamou de "centralização do capital". O outro modo é que pelo esmagamento de camponeses e pequenos produtores expulsa-os das suas ocupações tradicionais para migrarem para cidades onde se juntam às fileiras dos que procuram emprego e portanto incham a dimensão relativa do exército de reserva do trabalho; isto acentua a desigualdade de rendimento pelas razões já discutidas e, portanto, da desigualdade de riqueza. O quarto caminho pelo qual o neoliberalismo promove a desigualdade de riqueza é pela transferência de concessões e isenções fiscais aos ricos em nome da promoção do crescimento económico mais alto. Tais concessões aumentam directamente a desigualdade de riqueza. Além disso, uma vez que elas são equilibradas pela redução da despesa governamental com educação e saúde, e dessa forma privatizando directa ou indirectamente estes serviços essenciais, contribuem assim para o empobrecimento de vastos segmentos de pessoas comuns, o que, como vimos anteriormente, também aumenta a desigualdade de riqueza. O quinto caminho pelo qual aumenta a desigualdade de riqueza sob o neoliberalismo é através da formação de bolhas de preços de activos. Booms especulativos no mercado de acções ou em outros mercados de activo dão um impulso aos valores dos activos. Como percentis do topo figuram de modo destacado entre os possuidores de activos, verifica-se que o valor absoluto da sua riqueza, e portanto da sua fatia na riqueza total, aumenta bastante rapidamente num período muito curto. Isto entretanto levanta um ponto discutível. Em que medida um aumento do montante absoluto de riqueza e da sua fatia no total fez com que um tal boom especulativo fosse considerado genuíno? Afinal de contas, assim como uma bolha especulativa pode impulsionar a riqueza dos percentis do topo, o colapso da bolha pode reduzir a sua riqueza da noite para o dia. Por que então um aumento da desigualdade de riqueza baseado na bolha deveria ser motivo de preocupação? Isto contudo torna-se motivo de preocupação porque, mais uma vez sob um regime neoliberal, os governos tentam impedir o colapso da bolha (o qual teria sérias repercussões adversas sobre a economia) sustentando-o através de vários meios. Estes vão desde o apoio orçamental (tal como aquele que Obama prometeu nos EUA para suster o efeito do colapso da bolha habitacional sobre o sistema financeiro), à mercantilização de elementos da natureza como água e ar (de modo a que novos activos lucrativos sejam introduzidos a fim de manter a continuidade do boom), à privatização de activos do governo tais como o "espectro" [rádio-televisivo] (com o mesmo objectivo). Assim, a visão de que a riqueza adquirida através de uma bolha no mercado de activos constitui apenas riqueza fictícia e não deveria ser motivo de preocupação, não se mantém necessariamente. Com certeza, estimativas de riqueza e portanto estimativas da distribuição de riqueza estão repletas com uma multidão de dificuldades estatísticas. Mas apesar de tais dificuldades, não há que negar o facto de que está a ocorrer algo de extremamente grave para a nossa democracia e liberdade com a extraordinária ascensão da desigualdade de riqueza.
28/Janeiro/2018
[*] Economista, indiano, ver Wikipedia O original encontra-se em peoplesdemocracy.in/2018/0128_pd/dramatic-rise-wealth-inequality Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ . |
terça-feira, 7 de julho de 2015
Prabhat Patnaik / O espectro dos anos trinta
O espectro dos anos trinta
por Prabhat Patnaik [*]
A questão entretanto não é se Rajan realmente disse isto. A questão não é tão pouco se o mundo realmente deslizaria para uma depressão tipo década de 1930. A questão é se os problemas levantados por Rajan no evento organizado em Londres eram válidos e significativos. Ele referia-se ao abrandamento competitivo da política monetária que se está a verificar por todo o mundo devido à pressão para ressuscitar o crescimento, o qual tem estado sempre esquivo desde a crise de 2008. Tal abrandamento competitivo, ao invés de criar crescimento na melhor das hipóteses tem o efeito de transferir crescimento de um país para outro – o que leva o mundo a ser capturado numa versão actualizada da política "empobrecer o meu vizinho" que caracterizou a década de 1930 e realmente agravou o declínio (slump) ao efectivamente destruir os arranjos económicos internacionais que existiam até então e minar o "estado de confiança" dos capitalistas por toda a parte. EFEITO AGRAVAMENTO Quando o Padrão Ouro entrou em colapso em 1931 seguiram-se desvalorizações competitivas de divisas por toda a parte. Agora, se um país desvaloriza sua divisas,enquanto outros não o fazem, então as suas mercadorias, tudo o mais permanecendo o mesmo, tornam-se mais baratas em comparação com as de outros países, o que portanto transfere a procura de outros países para as suas mercadorias. Isto equivale a uma tentativa de aumentar o emprego interno (porque mais mercadorias domésticas são agora procuradas e portanto produzidas) a expensas do emprego em outros países (porque menor quantidade das suas mercadorias são agora procuradas). Uma tal tentativa, contudo, que equivale a tornar-se mais rico a expensas do vizinho (daí a expressão política do "empobrecer o meu vizinho") não funciona se outros países também efectuarem acções protectoras, desvalorizando também suas divisas. Em tal caso há apenas um enxurrada de desvalorizações por toda a parte, sem que um único país seja o ganhador por causa disto. Mas tais depreciações competitivas da taxa de câmbio não deixam apenas todos os países exactamente onde estavam antes de tudo começar; elas exacerbam a incerteza na economia mundial e servem para amortecer o investimento ainda mais, provocando uma nova contracção da procura agregada e portanto do emprego por toda a parte. Em suma, as políticas do empobrecer o meu vizinho, com cada um a tentar "roubar" emprego dos demais, tem o efeito de agravar a situação para todos. A versão moderna da política do "empobrecer o meu vizinho" a que Raja estava a referir-se funciona como se segue. O principal país capitalista do mundo, os Estados Unidos, a fim de estimular crescimento na sua economia, reduz a sua taxa de juro quase a zero e neste processo inunda a economia com dólares impressos pelo seu banco central, o Federal Reserve Board. Estes dólares vão então para todo o mundo uma vez que as taxas de juro alhures ainda não foram reduzidas. Um tal aumento na oferta de dólares reduziria, se tudo o mais permanecesse o mesmo, o preço do dólar em relação a outras divisas, o que significaria uma mudança da procura das mercadorias de outros países para mercadorias americanas, ou um "roubo" de empregos dos outros países pelos EUA. Outros países obviamente não permitem que isto aconteça, isto é, não permitem que suas divisas valorizem em relação ao dólar. Assim, previnem isto fazendo com que os seus bancos centrais detenham os dólares despejados nas suas economias à taxa de câmbio prevalecente. Como os bancos centrais detêm cada vez mais dólares, eles imprimem cada vez mais divisa interna; donde se segue um abrandamento da sua política monetária interna. Temos portanto um abrandamento competitivo da política monetária em toda a parte, o qual realmente camufla um impulso competitivo que não está a ser encenado na frente da taxa de câmbio. É portanto uma versão moderna do espectro das desvalorizações competitivas da década de 1930. Contudo, neste processo um enorme montante de liquidez é acumulado na economia mundial, o qual tem o potencial para desestabilizá-la e precipitar um agravamento da situação para todos, o que recorda a década de 1930. É para isto que Rajan estava a chamar a atenção – e com razão. O problema com o seu argumento, contudo, está não no que ele disse mas no que ele não disse. E é o seguinte. Normalmente, deveria haver dois instrumentos disponíveis para os Estados capitalistas estimularem maior emprego e crescimento: a política orçamental e a política monetária. A política orçamental pode ter um impacto expansivo sobre a economia se o governo incidir num défice orçamental; ela pode mesmo ter impacto expansivo através de um "orçamento equilibrado" (ou com um tecto sobre o défice orçamental) através de um aumento absoluto na dimensão do orçamento. Esta última possibilidade, de um orçamento equilibrado provocar um aumento na procura agregada, através de um aumento absoluto na dimensão do orçamento, decorre da seguinte razão. Suponha que o governo gaste um adicional de 100 rupias. Isto gera Rs100 de procura adicional. Mas se o governo equilibra esta despesa pela elevação de impostos adicionais no valor de Rs100, então só uma parte disto reduz o consumo ao passo que o resto vem de "poupanças". Suponha que o consumo é reduzido em Rs80 e as "poupanças" em Rs20. Uma vez que as "poupanças" por definição não estavam a ser gastas, isto significa que a redução na procura devido à tributação é de apenas Rs80. Portanto mesmo com um orçamento equilibrado há uma expansão líquida da procura em Rs20 (isto é, Rs100 – Rs80). Contudo, o capital financeiro não gosta de défices orçamentais e prefere ao invés "finanças saudáveis" (isto é, orçamentos equilibrados), inventando toda espécie de argumentos espúrios para isso, aos quais a grande economista Joan Robinson denominou "a impostura da finança". Além disso, num mundo no qual a atracção do investimento estrangeiro (e, mais geralmente, a promoção do "incentivo a investir" dos capitalistas) é vista como o principal instrumento para gerar maior actividade, é evitada qualquer tributação mais ampla de capitalistas (os quais institucionalmente poupam uma maior proporção do rendimento, via lucros não distribuídos das firmas, e portanto são os melhores candidatos à tributação para aumentar a procura através de um "orçamento equilibrado"). Na verdade, de facto, são-lhes oferecidas concessões fiscais numa tentativa fútil de gerar maior actividade. A utilização do instrumento orçamental é portanto impedida no capitalismo neoliberal, marcado pela hegemonia do capital financeiro internacional. A política monetária, dentro da qual a política da taxa de juro tem o lugar de destaque, torna-se o instrumento único para promover o crescimento. Agora, uma redução da taxa de juro é o método para "criar" crescimento. Mas uma redução da taxa de juro é também o método para enfraquecer a divisa e depreciar a taxa de câmbio. Para utilizar a distinção de Rajan, o mesmo instrumento que se supõe "criar" crescimento acontece também que "muda" o crescimento de outros países através do seu efeito sobre a taxa cambial. Naturalmente, se o crescimento estivesse realmente a ser "criado" e a economia americana (a qual tomou a iniciativa de reduzir as taxa de juro) estivesse a expandir-se rapidamente, emparelhando todo o mundo consigo, então conflitos sobre taxas de câmbio, decorrentes de quem cresce àquela taxa, seriam ao invés postos em surdina.Mas o crescimento não está a ser "criado", isto é, mesmo o regime de taxas de juro quase a zero nos EUA não desencadeou um boom nos próprios EUA, muito menos na economia mundial. É neste contexto que as preocupações sobre as políticas de "empobrecer o meu vizinho", tais como as exprimidas por Rajan, vêm à superfície. Em suma, a preocupação de Rajan, embora válida em si mesma, decorre de um contexto acerca do qual ele faz silêncio, um contexto no qual o "abrandamento competitivo da política monetária" por todo o mundo não está a promover a procura agregada mundial em qualquer medida significativa e na qual a utilização do outro instrumento além da política monetária, a saber, a política orçamental, a qual é um instrumento seguro para promover procura agregada, é vetado pelo capital financeiro. A economia capitalista mundial está a ficar presa num síndrome de na melhor das hipóteses meramente "desviar crescimento" porque actualmente é incapaz de "criar crescimento". Esta é exactamente a situação na qual o capitalismo mundial foi apanhado na década de 1930. O capital financeiro impediu mesmo então a incidência de défices orçamentais. E a ideologia da "finança saudável", que caracterizava o Padrão Ouro, foi mantida mesmo após o seu colapso. E governos, ansiosos por promover "incentivos ao investimento" dos capitalistas, eram avessos a aumentar os impostos sobre eles. O instrumento orçamental portanto não foi utilizado, ao passo que o instrumento da política monetária foi ineficaz, uma vez que os "incentivos ao investimento" dos capitalistas permaneceram extremamente baixos. Não surpreendentemente, "roubar emprego" de outros países através de políticas "empobreço o meu vizinho" ficaram em voga. Estas políticas tornaram-se um assunto preocupante numa situação de crise que decorre de factores estruturais mais básicos. Eles podem agravar a crise, mas não são a causa da crise. MAL-ESTAR ESTRUTURAL Segue-se que enquanto estes factores estruturais básicos operarem, meras tentativas para impedir o abrandamento competitivo da política monetária nunca porão fim à crise, nem mesmo terão êxito: uma vez que sob o capitalismo contemporâneo a facilitação da política monetária é o único instrumento ao dispor dos governos para tratar da crise, a alternativa ao abrandamento da política monetária é simplesmente nada fazer. Não é por acaso que Rajan, que sugeriu coordenação entre bancos centrais sob a supervisão do FMI para impedir tal abrandamento competitivo da política monetária, manteve-se silencioso acerca do que implicaria exactamente tal coordenação e de como ajudaria a aliviar a crise. O abrandamento competitivo da política monetária situa-se dentro de um capitalismo que está estruturalmente avariado. E isto é assim devido a pelo menos três razões: uma, o espaço (scope) para a ultrapassagem das crises nas metrópoles infligindo "desindustrialização" às colónias (o que equivalia a "roubar" emprego do terceiro mundo) não existe mais, pois os mercados do terceiro mundo já estão penetrados e em qualquer caso são demasiado magros no mundo de hoje para proporcionar uma solução. Dois, a prescrição keynesiana de utilizar o instrumento orçamental, a qual nunca foi aceitável para o capital financeiro, está particularmente descartada no capitalismo contemporâneo onde o capital financeiro está internacionalizado e portanto tem o controle. Três, a internacionalização do capital tornou em toda a parte do mundo o vector dos salários reais sujeito ao efeito pernicioso das reservas de trabalho maciças do terceiro mundo, de modo que este vector não provoca aumento mesmo quando a produtividade do trabalho aumenta por todo o mundo, provocando uma tendência ex ante rumo à super-produção global. Face a este mal-estar estrutural o único factor de compensação que o capitalismo tem é a emergência de "bolhas" ocasionais. O abrandamento da política monetária é um meio de estimular tais "bolhas", mas não pode forçar uma bolha a surgir, razão pela qual, apesar de todo este abrandamento, o mundo capitalista permanece fincado numa crise mesmo oito anos depois de ela irromper, com poucas esperança de qualquer recuperação no futuro previsível. As políticas do "empobrecer o meu vizinho" que surgem no contexto desta crise só podem torná-la pior, como seria um aumento da taxa de juro nos EUA.
05/Julho/2015
[*] Economista, indiano, ver Wikipedia O original encontra-se em peoplesdemocracy.in/2015/0705_pd/spectre-thirties . Tradução de JF. Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ . |
quinta-feira, 25 de junho de 2015
Jorge Batista / Review de O Capital no século XXI, de Thomas Piketty: A economia política e o marxismo hoje
O livro de Piketty se propõe a analisar o desenvolvimento do sistema capitalista desde o início do século 19 sob dois aspectos principais: a relação entre a taxa de lucro e a taxa de crescimento das economias nacionais; e a relação entre o fluxo total de renda e o estoque de renda acumulado dentro de um determinado país. A quantidade de dados que o autor pôde analisar, principalmente acerca dos países imperialistas (França, Inglaterra e EUA) é impressionante.
O marxismo hoje
Talvez o grande êxito da obra de Piketty seja o de comprovar as mesmas teses que já havia provado Marx na metade do século 19, agora com a possibilidade de utilizar muito mais dados estatísticos, sem chegar, contudo, à mesma profundidade nas conclusões. Piketty procura evitar os conceitos formulados por Marx e, quando fala de capital, não se refere ao processo descrito nas obras marxistas, mas estritamente a uma quantidade de riqueza acumulada.
A análise da obra O capital no século XXI deixa ainda mais clara a genialidade de Karl Marx, que pôde explicar com tanta profundidade os processos do capitalismo sem ter acesso, em sua época, a tal quantidade de dados estatísticos que apenas hoje podemos manejar.
O que Piketty prova, principalmente, é que, a longo período, a taxa de lucro do capital (chamada de ‘r’) será sempre maior que a taxa de crescimento da economia (chamada de ‘g’). Isso é exatamente o que Marx havia dito com outras palavras em O capital, ou seja, que no processo da produção a ação da força de trabalho do operário gera uma mais-valia que é apropriada pelo dono do capital.
O autor chega à conclusão de que o livre desenvolvimento dessa força de concentração de riqueza (r>g) levará ao colapso da produção social, estabelecendo uma sociedade de rentistas que solapam o que ele considera como sistema democrático.
O capitalismo e seus períodos
Os dados apresentados levam à conclusão da divisão do capitalismo, pelo menos no que diz respeito aos países ricos, em três fases distintas. A primeira cobre toda a segunda metade do século 19 e vai até o fim da Primeira Guerra Mundial (1919); a segunda compreende os choques que foram fruto da Primeira e Segunda Guerras e vai até meados da década de 1970; a terceira vai do fim da década de 1970 até os dias de hoje.
Piketty caracteriza a primeira fase como de altíssima concentração de riqueza nas mãos de muito poucas pessoas e de enfraquecimento do poder público, e aponta esses problemas como os causadores dos dois conflitos mundiais. A segunda fase é a de maior igualdade de rendimentos até hoje vivida nos países estudados, quando foi criado o Estado de Bem-estar Social e havia a sensação de que o capitalismo seria capaz de dar cobro dos problemas sociais. Já na terceira, 1980 em diante, o autor identifica a volta da situação de profunda injustiça social existente antes da Primeira Guerra.
Durante o século 19, a taxa de lucro oscilou na casa de 4 a 5% nos países ricos, enquanto a taxa de crescimento não foi maior do que 1,5%. No final do século 20 e início do século 21, vivemos situação semelhante, com a taxa de lucro se fixando nos mesmos 4 ou 5%, e a taxa de crescimento não superando 1%.
Essa situação é a responsável pelo extremo acúmulo de riqueza nas mãos dos mais ricos do mundo. Na pesquisa do banco Crédit Suisse ficou comprovado que 0,7% da população mundial é dona de 41% da riqueza acumulada, 99 trilhões de dólares (o PIB dos Estados Unidos é de 14 trilhões, o PIB mundial da ordem de 80 trilhões), enquanto mais de um bilhão de pessoas passam fome.
Piketty procura se distanciar das posições do marxismo e, por isso, desconsidera quase completamente o papel cumprido pela luta de classe dos trabalhadores na conquista das posições de igualdade no período que compreende a segunda fase, período de existência da União Soviética e em que esta nação exercia posição de retaguarda dos movimentos de trabalhadores da Europa e do mundo. Desconsidera também as contribuições dadas por Lênin e outros teóricos sobre a nova fase imperialista do capitalismo no início do século 20, representando a nova repartição do mundo uma questão fundamental para o advento das guerras.
Rentistas, ‘managers’ e capitalismo patrimonial
A obra de Piketty analisa de maneira aprofundada a origem das desigualdades sociais em seus diferentes aspectos, no que diz respeito à divisão capital-trabalho, mas também no que diz respeito à divisão entre as diferentes remunerações no trabalho. Ele demonstra que os novos ‘managers’ das instituições financeiras e monopólios passaram a receber, a partir da década de 1980, um salário 300 vezes maior que a média de sua empresa.
Os supersalários se somaram ao afrouxamento do imposto sobre a herança, que, no caso dos países ricos, caiu de 70% para menos de 35%. Dessa maneira, os grandes ricos do período atual são exatamente os que herdaram essa riqueza e a renda advinda do trabalho de nenhuma maneira é capaz de distribuir a riqueza como pareceu possível durante o segundo período analisado pela obra.
Para Piketty, vivemos em um capitalismo patrimonialista, no qual os executivos do mercado financeiro se tornaram rentistas que não atuam sobre a produção; e a tendência natural desse sistema é a de agravar ainda mais a desigualdade, caso nada mude.
A utopia é salvar o capitalismo
A utopia é salvar o capitalismo
A solução que Piketty defende pretende evitar o que ele chama de insucessos do socialismo e está em taxar o patrimônio, a herança e o rendimento do capital de maneira progressiva – ou seja, quanto mais rico, maior a alíquota, e os mais pobres pagam menos ou não pagam. Uma taxação desse tipo tornaria possível dar transparência à dimensão da riqueza e à forma como ela é distribuída, além de fornecer aos Estados nacionais as condições de superar seu atual endividamento e financiar melhores políticas públicas.
Evidentemente, uma política de taxação deste tipo precisa ser aplicada em todos os países ao mesmo tempo, pois, do contrário, bastaria aos capitalistas transferir seus rendimentos para outros países para evitar a taxação, como aliás já acontece bastante nos paraísos fiscais onde está depositada grande parte dos capitais do mundo.
Evidentemente, uma política de taxação deste tipo precisa ser aplicada em todos os países ao mesmo tempo, pois, do contrário, bastaria aos capitalistas transferir seus rendimentos para outros países para evitar a taxação, como aliás já acontece bastante nos paraísos fiscais onde está depositada grande parte dos capitais do mundo.
A verdade é que uma política desse tipo não pode ser aplicada enquanto o poder político e econômico se mantiver nas mãos de um punhado de pessoas que, como a própria história demonstra, exercem uma resistência desesperada, inclusive recorrendo à guerra e ao terrorismo para manter seus privilégios. Uma taxa de imposto progressiva não salvará o capitalismo, mas apenas colocará a luta de classes pelo poder político em outro patamar.
Marx voltou
Para o Brasil, os temas levantados na obra de Thomas Piketty são de grande atualidade. Chegamos à condição de ser a sexta maior economia do mundo, mas, ao contrário do que diz a propaganda oficial, o povo continua pobre. Se o atual Produto Interno Bruto (PIB) nacional fosse igualmente dividido, ele seria suficiente para garantir uma renda de R$ 8 mil por mês para cada família de até quatro pessoas, o suficiente para garantir condições dignas de vida para todos.
Mas não apenas pelo volume de dados avaliados a obra é importante. Também é importante a postura do autor em colocar a atual ciência econômica em seu verdadeiro lugar, ou seja, no lugar da economia política, como uma ciência social irmã da sociologia, da antropologia, etc. Os modelos matemáticos criados pela atual economia não são uma lei natural, e o mercado tampouco tem uma tal mão invisível que tudo regula. São contingências de decisões políticas e de estruturas formadas ao longo da História e que, portanto, podem e devem ser mudadas para o futuro.
A obra já pode ser baixada em inglês na internet pelo sítio:http://dowbor.org/blog/wp-content/uploads/2014/06/14Thomas-Piketty.pdf
Jorge Batista, São Paulo
jornal: A verdade
sábado, 20 de junho de 2015
Tommy McKearney / Miséria económica e caos sangrento
Miséria económica e caos sangrento
por Tommy McKearney [*]
Os sabichões falam solenemente acerca do risco de a Grécia deixar a UE, de ameaças à estabilidade financeira ou de uma ruptura da eurozona. Enquanto isso o novo governo em Atenas incha o peito e fala em impor responsabilidade ao poderoso ministro alemão das Finanças e aos outros membros da Troika. Que o drama acabasse por uma tímida lamúria do SYRIZA ao invés de alguma coisa tão perturbadora como um estrondo era, infelizmente, demasiado previsível. O novo primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, pode ser um bem apessoado e articulado acréscimo na cena política europeia mas ele não é Fidel Castro. O seu ministro das Finanças, Varoufakis, ostenta uma pose arrojada quando viaja pelas capitais do continente, mas, por fotogénico que possa ser, ele não tem a têmpera de um Che. Aqui situa-se a essência da decepção do povo grego. Não só precisava de um governo socialista determinado e decidido obtendo ao invés sociais-democratas, como também a uma população oprimida foi permitido acreditar que um resultado diferente e melhor seria possível. Não que qualquer socialista genuíno ou activista da classe trabalhadora possa estar senão consternado pelo que aconteceu. Muitos na esquerda por toda a Europa saudaram a vitória eleitoral do SYRIZA com entusiasmo genuíno. O povo grego rejeitou a pilhagem, o programa neoliberal imposto sobre ele pela finança internacional, e parecia, com as declarações do governo recém eleito, que alguém estava finalmente pronto a rejeitar as exigências do capitalismo rentista. Que a retórica inicial se tenha demonstrado oca é uma regressão para todos à esquerda, pois o optimismo primitivo (e não só na Grécia) pode vir a ser substituído pelo desencanto. Quantas vezes – alguns podem perguntar, com razão – podemos nós levantar expectativas antes de o povo deixar de acreditar na possibilidade de mudança significativa? Seria errado, no entanto, atribuir o fracasso do SYRIZA a fraquezas pessoais, traição ou falta de fibra moral. A infelicidade dos sociais-democratas gregos era serem pequenos jogadores num jogo muito maior – e um jogo no qual a sua liderança acreditou erradamente que podia provocar mudança enquanto permanecendo dentro dos parâmetros do sistema actual. A resposta a esta lamentável situação não deveria ser um grito estéril de "Nós bem lhe dissemos" mas esforçarmo-nos por promover um entendimento mais profundo do que saiu errado e porque. Após a crise no capitalismo criada pelo crash económico de 2008, a classe dominante da Europa e o seu veículo de entrega, a União Europeia, não está em estado de espírito de aguentar qualquer desafio à sua autoridade ou de tolerar desenvolvimentos que possam minar o seu poder. Como uma besta ferida, a classe dominante é ainda mais agressiva e perigosa do que era quando se sentia mais forte. A natureza da sua resposta à presente crise manifesta-se em dois teatro diferentes mas relacionados. Um está a ser encenado com o governo e povo grego; o outro é o ainda mais letal e perigoso conflito que devasta Donets e toda a Bacia do Don. Enquanto actuam duramente nas negociações entre Atenas e a Troika, a UE e seus aliados também estão a perseguir sua agenda no Leste da Europa. De acordo com uma rotina bem praticada, os media da Europa ocidental prepararam o terreno quando promoveram uma narrativa a asseverar que a Rússia e seu presidente, Vladimir Putin, pretendiam uma agressiva política de invasão e expansão. A velha e bruta retórica anti-soviética foi vomitada. Em Fevereiro, o segundo homem no comando das forças da NATO, general Adrian Bradshaw, disse no Royal United Services Institute (o think-tank estratégico da elite, em Londres) que as forças da NATO devem preparar-se para um assalto convencional em grande escala da Rússia num estado-membro europeu do Leste [1] . Pouco após o primeiro-ministro britânico, David Cameron, anunciou que estava para enviar pessoal militar para Kiev a fim de treinar tropas do regime, bem como dar financiamento adicional à BBC para "neutralizar propaganda russa" [2] . Na descrição deste clima de alarmismo e ruido de sabres foi ignorado o facto de que a UE e os Estados Unidos haviam encorajado um golpe contra um governo eleito em Kiev e que apoiaram a sua substituição por um regime que não fazia segredo da sua hostilidade a Moscovo e aos ucranianos falantes do russo. Ninguém mencionou tão pouco a intrusão da NATO numa área de imensa sensibilidade estratégica para um país que perdeu 26 milhões de cidadãos dentro da memória viva. Donets está, afinal de contas, a apenas duas horas de carro da cidade russa de Volgogrado (ou Stalingrado, como era conhecida quanto foi assaltada pela Alemanha nazi em 1942). Além disso, deliberadamente ocultado, está um cálculo implícito que está a ser feito pelos escalões superiores dos mediadores do poder capitalista nos Estados Unidos e Europa ocidental. Perseguindo implacavelmente, ao longo das últimas décadas, uma política neoliberal a curto prazo de maximização do lucro a qualquer custo, eles levaram a que as suas próprias indústrias manufactureiras se re-estabelecessem fora dos seus países, muitas vezes nos BRICS (Brasil, Rússia, Índia e China). Inevitavelmente isto levou a um declínio da sua própria capacidade produtiva, forçando-os a tornarem-se ainda mais dependentes das finanças e dos serviços. No longo prazo isto cria um dilema para as potências ocidentais, porque a história económica e a experiência demonstram claramente que a finança segue a produção, ao invés do inverso. Inevitavelmente isto deve significar um declínio da sua hegemonia global – a menos que possam compensar esta tendência por uma política relacionada de (a) utilizar dívida para subjugar alguns e (b) minar qualquer zona potencial de competição económica entre outros. Mas a ordem vigente no Ocidente persiste nesta política de duas vias, com a intenção óbvia de que os fardos das dívidas esmagarão, conterão e confundirão os estados da Europa inclinados à social-democracia enquanto criam caos alhures, impedindo a emergência de uma potência económica rival [3] . O cínico cálculo que unifica esta estratégia é que, com a ausência de um bloco económico alternativo, os endividados têm poucas opções e os BRICS têm poucas saídas. Aqueles que acreditam que eles venceram a "Guerra fria" pela ameaça da mútua destruição assegurada agora parecem sentir que podem reter influência por um estratagema de "Dominaremos ou arruinaremos". E a evidência para concretizar esta afirmação? A prova está na ausência de qualquer outra explicação possível ou plausível para o comportamento dos líderes mundiais que impuseram miséria económica a vastas secções da classe trabalhadora europeia e americana, enquanto levam o caos sangrento ao Médio Oriente, África, Afeganistão e agora a Ucrânia. Nenhum economista do mercado racional demonstrou que a austeridade por levar a qualquer coisa diferente de deflação e perda de produção. Nenhum indivíduo são alguma vez argumentou que a intervenção ocidental no Norte de África, Médio Oriente, Afeganistão, Paquistão, Iraque, Síria ou Rússia pode levar a qualquer outra coisa senão a uma catástrofe mundial. A máxima de que o socialismo é a única alternativa à barbárie, ou pior, nunca foi mais válida do que hoje. 2. Chris Green, "British troops to 'train soldiers in Ukraine'," Independent (London), 24 February 2015. 3. For those who may argue that China disproves this contention it would be worth their while reading Martin Wolf's article "How addiction to debt came even to China," Financial Times (24 February 2015). [*] Analista político, irlandês. O original encontra-se em http://politicaleconomy.ie/?p=913 Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ . |
sábado, 13 de junho de 2015
Prabhat Patnaik / O declínio mundial das reservas cambiais estrangeiras
O declínio mundial das reservas cambiais estrangeiras
por Prabhat Patnaik [*]
Uma parte do declínio deve-se sem dúvida a um puro "efeito-preço". Uma vez que o valor do Euro e outras divisas de reservas está a declinar em termos de dólar US, haveria algum declínio no valor das reservas totais quando medimos tudo em termos de dólar. Mas isto não explica todo o declínio observado. Além disso, a própria queda no valor do Euro e de outras divisas de reservas em termo de dólar revela-se o resultado do mesmo fator que também explica, independentemente do "efeito-preço", o declínio em reservas. O que é este fator? Considere-se, para clareza de entendimento, um mundo muito simples onde haja somente dois segmentos: um país com divisa de reserva e o "resto". Num mundo assim há dois meios pelos quais a magnitude das reservas pode aumentar: um, se o país da divisa de reserva tiver um défice em conta corrente na balança de pagamentos com o "resto" a qual paga proporcionando documentos de dívida (IOUs) que são mantidos por estes últimos como reservas. Agora, o principal país da divisa de reserva do mundo, os EUA, tem na verdade estado a incorrer um persistente défice de conta corrente na sua balança de pagamentos o qual tem contribuído para o crescimento das reservas de cambiais do mundo. Mas o recentedeclínio nas reservas cambiais estrangeiras não pode ser explicado por este fator, uma vez que os EUA não desenvolveram subitamente um excedente da conta corrente. Por outras palavras, o comércio ou explicações com base na conta corrente simplesmente não funcionam neste caso. A outra razão pela qual as reservas de câmbio estrangeiro podem elevar-se ou cair fica a dever-se a movimentos privados transfronteiriços de capital. No nosso caso simples, se os detentores da riqueza das reservas de divisas do país disserem: ao invés de manter esta divisa em casa como depósitos nos seus próprios bancos decidirmos trocá-las pelas divisas do "resto", as quais o banco central destes permite a uma taxa de câmbio fixa, e mantivermos esta divisa do "resto" como depósitos nos bancos da primeira, então as reservas mundiais de câmbio estrangeiro teriam de subir. A divisa de reserva que era mantida em bancos privados do país da divisa de reserva, e assim não era contada como reservas de câmbio estrangeiro, agora passa a ser detida pelo banco central do "resto" e conta como reserva de câmbio estrangeira, em virtude das decisões de detentores de riqueza privada. Em exata analogia, se detentores de riqueza, quer sejam ou não pertencentes ao país da divisa de reserva, decidirem mudar a sua riqueza para fora do "resto" e, em vez disso, passarem a ser detentores de títulos no país da divisa de reserva, então a magnitude das reservas de câmbio estrangeiras à escala global cairia. O súbito declínio das reservas de câmbio estrangeiras é o resultado desta decisão de escolha de ativos por parte dos detentores de riqueza mundiais. É uma consequência não daquilo a que os economistas chamam decisões de "fluxo", relativas a défices e/ou excedentes comerciais ou de balança corrente, mas de decisões de "stock", atinentes à escolha, por parte dos detentores de riqueza, da forma como preferem manter a sua riqueza. REGRESSO MASSIVO DOS INVESTIDORES AOS EUA Mais especificamente, o que se está a passar na economia mundial hoje em dia é que os detentores de riqueza estão a transferir esta para os EUA, mantendo-os sob a forma de ativos denominados em dólares, enquanto antes aqueles estiveram a mudar para ativos espalhados pelo mundo, fora dos EUA. Na Índia sabemos bem disso através do aumento massivo das nossas reservas de câmbio estrangeiras, as quais foram construídas não em virtude de quaisquer excedentes de balança corrente, como aconteceu na China (porque de facto, e pelo contrário, nós tivemos défice), mas por causa das chegadas de fluxos financeiros à Índia através dos Investidores Estrangeiros Institucionais (IEIs), atraídos pelos retornos elevados (inclusive ganhos financeiros) que a economia indiana tem vindo a oferecer. Em suma, estamos perante uma mudança no padrão dos fluxos de capital autónomos, com os detentores de riqueza regressando aos EUA. Todos os fenómenos que observamos no presente, como por exemplo um declínio na magnitude nas reservas de câmbio mundiais; uma apreciação do valor do dólar relativamente a outras moedas importantes à escala mundial (a ponto de o governador do Banco de Reserva da Índia poder consolar-se com base no facto de a Rupia não se ter comportado tão "mal" como várias outras moedas); o "efeito-preço" nas reservas de câmbio que mencionámos acima, o que faz o valor daquelas descer ainda mais quando medido em dólares; as atribulações do Euro, que está a perder severamente para o dólar; o colapso do preço dos ativos na China na Índia e alhures; todos estes fenómenos são explicáveis em termos da escolha de ativos por parte dos detentores mundiais de riqueza, nomeadamente o facto de eles estarem a refluir em massa para os EUA. Mas a questão permanece: porque é que ocorre o referido refluxo para os EUA? Uma razão óbvia para isso é o fim anunciado do "facilitamento quantitativo" (" quantitative easing ") por parte da Reserva Federal norte-americana (Fed). Aquela andou a bombear enormes montantes de dólares na economia dos EUA, com o propósito de manter próximas de zero não apenas as taxas de juro de curto prazo, mas também as de longo prazo, de forma a estimular a economia. E estes dólares espalharam-se por todo o mundo, à procura de oportunidades de "investimento" lucrativas. Agora o Fed decidiu acabar com este "facilitamento quantitativo" e sugeriu mesmo que as taxas de juro nos EUA iriam aumentar nos próximos dias, o que torna o refluxo em massa dos investidores aos EUA fácil de compreender. É necessário acrescentar a isto um fator que é simultaneamente uma causa e uma consequência do mencionado refluxo massivo. No caso das bolhas do preço dos ativos, à medida que elas vão crescendo o crescimento torna-se causa de maior crescimento subsequente, o que aliás faz delas precisamente "bolhas". Da mesma forma, se por alguma razão ocorre um colapso, então este tende a reforçar-se a si mesmo. Um crescimento esperado das taxas de juro nos EUA, por exemplo, estimulando umas quantas saídas iniciais de fundos da Índia, induz mal-estar nos mercados bolsistas neste país, levando a descidas no preço dos ativos. E isto, por sua vez, estimula uma subsequente fuga de fundos das bolsas indianas, os quais se escapam para investimentos nos EUA, o que por sua vez induz uma descida subsequente dos preços dos ativos bolsistas indianos, e assim sucessivamente. Os colapsos das bolhas de preços na Índia e na China são ambos uma causa da deslocação dos detentores de riqueza para ativos nos EUA, mas são igualmente gerados inter alia pela dita deslocação. Esta deslocação, todavia, irá agravar ainda mais a crise capitalista mundial. Pode pensar-se que, em virtude do declínio das outras divisas face ao dólar, os países respetivos seriam ajudados através da expansão das suas exportações; mesmo sendo isso uma verdade, dado que a referida expansão das exportações ocorreria à custa dos EUA, não existiria qualquer aumento necessário na procura mundial como um todo e portanto não haveria alívio para a crise do mundo capitalista tomado em bloco. Adicionalmente, e por muito que no passado esses efeitos das desvalorizações cambiais se tenham realmente feito sentir, a saída de fundos especulativos estimulada pela dita desvalorização (e antecipando desvalorizações ulteriores) pode tornar-se uma torrente impetuosa, induzindo uma aguda crise financeira nestes países. Para evitar as consequências de tal eventualidade, os países adotariam então medidas de contração, não apenas na esfera fiscal, onde em todo o caso a "austeridade" campeará, mas mesmo na esfera monetária, onde as taxas de juro serão drasticamente elevadas para impedir a fuga de fundos. Uma desvalorização cambial, nesse caso, paradoxalmente gera uma resposta tal ao nível das políticas económicas que induz uma contração na economia. E se isto ocorre no resto do mundo como um todo, então ocorrerá uma contração geral deste segmento, por causa da fuga em massa dos detentores de riqueza para os EUA. Simultaneamente, nos próprios EUA o aumento da taxa de juro que o Fed promete efetuar aniquilará qualquer recuperação que tenha ocorrido. Considerado o mundo na sua totalidade, por conseguinte, a perspetiva é de um aprofundamento da crise. Noutros termos, a subida das taxas de juro nos EUA provocará necessariamente uma subida das taxas de juro no resto do mundo, o que tenderá a acentuar a recessão mundial. Dado que os meios fiscais visando o estímulo à economia mundial estão postos de lado na corrente era de "austeridade", não existem fatores obstaculizando a tendência para o acentuar da recessão. CONSERVADORISMO IDEOLÓGICO Mas então defrontamos uma questão que tem de ser respondida: porque é que essa atitude política é adotada? A "esquerda" norte-americana (isto é, os chamados " American radicals " para usar o jargão ianque) tende a acusar o Partido Republicano por esse facto, atribuindo a tal atitude política à alegada estupidez e aos preconceitos daquele partido. E é verdade que o aumento da taxa de juro que o Fed anunciou ir levar a cabo, oficialmente como medida de prevenção da inflação, é bastante indesejável neste momento, até porque a inflação nos EUA está muito abaixo dos 2 por cento correspondentes ao "objetivo-inflação" do próprio Fed. Existe aqui, portanto, inquestionavelmente um elemento de conservadorismo ideológico subjacente às medidas que estão a empurrar a economia mundial para o aprofundamento da recessão. Ao mesmo tempo, porém, não devemos limitar a acusação ao tal conservadorismo ideológico. O facto é que a enorme acumulação de riqueza sob a forma financeira, a qual alguns autores designaram como "financeirização", o poder dos interesses prestamistas, cresceu duma forma tal, sem precedentes em toda a história do capitalismo, e com ele também o poder da fobia da inflação, que faz descer o valor "real" do dinheiro e dos ativos financeiros denominados em termos monetários. Atribuir-se a importância que se atribui à redução da inflação é um reflexo disto mesmo. E a truncagem da recuperação que mal arrancou, por medo de que ela possa causar inflação, também é um reflexo disso mesmo.
10/Junho/2015
[*] Economista, indiano, ver Wikipedia O original encontra-se em peoplesdemocracy.in/2015/0607_pd/declining-world-foreign-exchange-reserves . Tradução de JCG. Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ . |
sexta-feira, 15 de maio de 2015
Grécia atravessa as linhas vermelhas
Grécia atravessa as linhas vermelhas
por Michael Roberts [*]
A notícia de que o primeiro-ministro grego Tsipras retirou o seu ministro das Finanças Yanis Varoufakis das negociações directas com o Eurogrupo sugere que o governo Syriza está a preparar-se para mais concessões à Troika a fim de chegar a acordo sobre os termos da liberação dos fundos existentes da UE e do BCE ao abrigo da quarta extensão do segundo pacote de salvamento (bailout).Varoufakis foi substituído por Euclid Tsakalatos, economista educado em Oxford e anteriormente, quando o Syriza estava na oposição, ministro sombra das Finanças (ver aqui ). Tsakalatos possivelmente é mais "moderado" e certamente mais aceitável para os ministros das Finanças do Eurogrupo do que o "carismático" Varoufakis, que parece odiado.
Este passo de Tsipras rumo a mais concessões e talvez a abandonar as suas "linhas vermelhas" não negociáveis que o Syriza não permitiria serem transpostas possivelmente obteria apoio do povo grego, se os actuais inquéritos de opinião forem correctos. Um deles dizia que 79% dos gregos querem permanecer no euro e 50% querem alcançar um compromisso ao invés de uma ruptura (36%). Cerca de 63% dos gregos querem evitar um incumprimento das dívidas do governo grego. E se houvesse um acordo que rompesse as ditas linhas vermelhas, então os gregos prefeririam um governo de unidade nacional (44%) ao invés de um referendo (32%) ou de novas eleições (19%) para confirmá-lo. O Syriza ainda lidera nos inquéritos com 36% dos votos potenciais, a comparar com 22% para a direita da Nova Democracia; 5% para o social-democrata Potami; 3% para o PASOK em bancarrota e agora apenas 5% para o fascista Aurora Dourada e para os comunistas. O tempo está a esgotar-se para chegar a qualquer espécie de acordo que mereça a aprovação do povo grego e evite um incumprimento de dívidas e uma possível saída da Eurozona. O governo conseguiu "raspar" suficiente cash apropriando-se de reservas de autoridades locais e outras agências do governo de modo a que possa pagar as próximas obrigações de dívida ao FMI durante o mês de Maio. Mas é improvável que tenha o suficiente para reembolsar o FMI em Junho e certamente não o suficiente para pagar a conta de €3,5 mil milhões do BCE em Julho – a menos que deixe de pagar salários aos seus trabalhadores e as pensões do estado.
Ironicamente, o governo Syriza ainda dispõe de um excedente orçamental de €1,7 mil milhões do primeiro trimestre deste ano. Ele conseguiu isto simplesmente por não pagar as suas contas a fornecedores do governo ou aos serviços de saúde e escolas. Ao fazer isto, ele pode cumprir com os salários dos trabalhadores do sector público e com as pensões. O problema é que [o montante] de impostos não pagos está a subir constantemente, atingindo €3,5 mil milhões no primeiro trimestre, embora o crescimento deste défice tenha estado a atenuar-se. O povo, especialmente pessoas ricas e homens de negócios, fica pouco desejoso de cumprir seus deveres fiscais se pensar que em breve a Grécia será lançada para fora da Eurozona e o governo incumprirá com suas dívidas e desvalorizará os euros gregos. Eles querem manter consigo todos os euros que obtiveram.
Até agora o BCE tem estado a financiar os bancos gregos à medida que os seus depósitos caem. Mas os bancos gregos começam a ter falta de "colateral" adequado para financiamento do BCE, nomeadamente de Euro bonds da Euro instituição, o EFSF (European Financial Stability Facility), que os bancos mantêm desde a recapitalização executada em 2013. E o BCE cessará o crédito se o governo grego incumprir suas dívidas. Quando em Fevereiro último começaram as negociações sobre uma extensão de quatro meses do pacote de salvamento, considerei que era provável um acordo mas que as negociações seriam longas e tortuosas, e assim aconteceu. Mesmo que haja um acordo para liberar os €7,2 mil milhões ainda disponíveis sob o antigo pacote de salvamento, será difícil alcançar um novo pacote para financiar os bancos gregos e cumprir com os reembolsos ao FMI até Abril de 2016. Há uma possibilidade de que se o Syriza fizer bastantes concessões quanto a: redução de pensões; aumento do IVA; permissão de privatizações e introdução de "reformas" nos mercados de trabalho, poderia então obter os €7,2 mil milhões e negociar também um terceiro pacote para o período pós Junho que cumprisse futuros reembolsos ao BCE e ao FMI e ainda não impor um pacote de austeridade demasiado pesado. Aparentemente, Tsipras, Merkel e o Eurogrupo concordaram em que o alvo do superávite primário orçamental será reduzido de 3-4% do PIB por ano para cerca de 1,5%. E se a economia da Eurozona começasse a recuperar, isso também poderia impulsionar a economia grega através de exportações mais elevadas e entrada de mais investimento. Este é o cenário que Tsipras e os líderes do Syriza procuram. Na verdade, Varoufakis explicou minuciosamente como tal cenário pode funcionar se os líderes Euro fossem apenas um pouco mais cordatos (ver aqui ). Varoufakis dissera anteriormente que o objectivo seria convencer os líderes Euro e os mercados financeiros que dar à Grécia algum "espaço para respirar" permitiria que a economia recuperasse e isto ajudaria o capitalismo europeu. E o objectivo correcto agora é "salvar o capitalismo de si próprio" e não lançar ridículas medidas socialistas pois "simplesmente não estamos prontos para colmatar o abismo que abrirá um capitalismo europeu em colapso com um sistema socialista a funcionar" (ver aqui ). Naturalmente, esta "saída" significa que o Syriza ainda estará a efectuar austeridade orçamental (ainda que "mais leve") com um excedente no orçamento do governo no momento em que o desemprego grego permanece acima dos 25% e a economia ainda está a contrair-se em termos reais e nominais. Na verdade, desde 2009 os gregos já sofreram um ajustamento de austeridade orçamental equivalente a 20% do PIB potencial.
E os trabalhadores gregos receberam uma enorme pancada a fim de restaurar a lucratividade corporativa grega: um corte de 25% nos custos do trabalho do sector privado, ou mais de 30% em relação à média euro.
Mas todos estes cortes fracassaram em reduzir mesmo uma mínima parte do rácio da dívida do governo. Ao contrário, o rácio da dívida do governo está agora nos 175% do PIB, mais alto do que em 2010. Sob qualquer acordo com a Troika, este fardo da dívida não seria reduzido pois não haveria cancelamento da dívida com a "instituições" da UE. Os gregos nunca poderão reembolsar esta dívida e é ridículo esperar que assim o façam. E, como sabemos, cerca de 90% destes empréstimos da Troika não "salvaram" gregos mas foram utilizados para reembolsar bancos franceses e alemães e hedge funds americanos que mantinham títulos gregos e estavam a pedir o seu dinheiro de volta. O dinheiro devido a estas finanças capitalistas foi meramente transferido para o sector oficial (as "instituições" da UE e o FMI) – ver aqui .
Ver também:É verdade que os empréstimos da UE não começam a ser reembolsados até 2020, mas o Eurogrupo está a insistir em que os gregos comecem a efectuar redução de dívidas antecipadamente através de impostos mais altos e controles sobre os gastos, muito embora famílias gregas ainda estejam atoladas na pobreza e os serviços públicos de saúde, educação e habitação estejam no caos. Para os líderes Euro, é melhor preservar os outros e manter o pacto orçamental da UE. Além disso, pretendem restaurar o capitalismo grego através do aumento da lucratividade, não a restauração dos rendimentos de famílias gregas. Ainda em Fevereiro, apresentei esta questão como um triângulo impossível. O Syriza não podia reverter a austeridade, ficar no euro e permanecer unido como um partido único no governo. Um ou mais destes objectivos teriam de ser abandonados. Parece que Tsipras optará por ficar no euro, ainda que não possa reverter a austeridade ou cancelar (write off) dívida do governo grego. A questão então torna-se política: o que fará a esquerda dentro do Syriza? Será que também engolirá qualquer acordo, especialmente se Tsipras apresentá-lo num referendo popular e ganhar os votos? Ou será que dividirão o partido e forçarão Tsipras a uma aliança com a oposição (unidade nacional) para conseguir qualquer acordo aprovado pelo parlamento? Ainda há a possibilidade de que os termos da austeridade exigidos pela Troika sejam excessivos para a liderança do Syriza aceitar e em Junho os gregos optem pelo incumprimento dos pagamentos. O FMI permite um "período de graça" de 30 dias no cumprimento de dívidas vencidas, assim o incumprimento não será tecnicamente imediato, embora provavelmente haja uma corrida aos bancos gregos. O governo teria de impor controles de capitais e travar a saída de dinheiro do país ou mesmo o simples entesouramento. Introduzir controles de capital não significa romper quaisquer regras da Eurozona, de modo que tecnicamente a Grécia ainda seria membro da mesma. Mas a corrida aos bancos significaria que ou BCE interviria a fundo ou os bancos faliriam. A condição grega como membro da Eurozona seria posta em causa. O governo poderia continuar a afirmar que o euro era a divisa grega e não introduzir qualquer novo dracma. Mas os euros logo se tornariam escassos para pagar trabalhadores do governo e para as empresas pagarem importações e salários dos seus trabalhadores. A economia grega caminharia para um desmoronamento ainda mais profundo mais adiante. Então a desvalorização e uma nova divisa grega não estariam longe, a fim de tentar evitar um colapso. Mas desvalorização significaria que os negócios gregos encontrariam ainda mais dificuldade para pagar suas contas em euros e muitos iriam à falência. Seria uma outra forma de colapso. Estas são as consequências para o povo grego, com acordo ou sem acordo, sob o capitalismo. A alternativa para enfrentar o problema: exigir o cancelamento dos empréstimos em euro e do FMI (o pedido original do Syriza) ou incumprimento; impor controles de capital, tomar o comando (take over) dos bancos gregos e apelar ao apoio do povo grego e do movimento trabalhista europeu. Deixar os líderes euro tomarem a iniciativa quanto à condição de membro da Eurozona, não o Syriza. O problema é que agora o povo grego tem sido levado a acreditar que há apenas uma saída: um acordo com o Eurogrupo em termos cada vez piores. A alternativa de um plano socialista de investimento e de um apelo a toda a Europa não está diante de si (ver aqui ). A abordagem Tsipras-Varoufakis de concessões agora e esperança de uma melhor economia capitalista mais à frente poderia funcionar por um breve período. Mas ela não reverterá as perdas terríveis em rendimentos, empregos, educação e saúde que sofreram aqueles gregos que não conseguiram ou não quiseram deixar o país. E o que acontecerá quando vier o próximo desmoronamento (slump) na economia mundial? [*] Economista, britânico. O original encontra-se em https://thenextrecession.wordpress.com/2015/04/28/greece-crossing-the-red-lines/ Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ . |




A OXFAM acaba de produzir um relatório no qual destaca o aumento dramático na desigualdade de riqueza que está a verificar-se na Índia. Os dados básicos que utiliza são do Credit Suisse, o qual regularmente publica o