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quinta-feira, 20 de maio de 2021

Comandante Jesús Santrich, a luta prossegue

Comandante Jesús Santrich, a luta prossegue por FARC-EP Cmte. Jesús Santrich.Informamos a Colômbia e o mundo, com dor no coração, a triste notícia da morte do comandante Jesús Santrich, integrante da Direcção das FARC-EP, Segunda Marquetalia, numa emboscada executada por comandos do exército da Colômbia em 17 de Maio. Foi na Serrania do Perijá, zona binacional fronteiriça, entre El Chalet e o caminho de Los Laureles, dentro do território venezuelano. Até esse lugar penetraram os comandos colombianos por ordem directa do presidente Iván Duque. A camioneta em que viajava o comandante foi atacada com fogo de fusilaria e explosões de granadas. Consumado o crime, os assassinos cortaram o dedo mindinho da sua mão esquerda. Alguns minutos depois, perto do lugar, rapidamente, os comandos foram extraídos num helicóptero de cor amarela rumo a Colômbia. À sua família, nossas mais sentidas condolências. Acompanhamo-la na sua desolação infinita e na tristeza que embarga sua alma. Santrich caiu livre, livre como queria. Livre sonhando a Nova Colômbia em paz completa, com justiça social, democracia e vida digna para sua gente, para os pobres da terra, os excluídos e discriminados, e a população inerme nestes dias atacada brutalmente pelo exército e pela polícia nas ruas por ordem da monstruosa tirania de Duque e Álvaro Uribe. Partiu Santrich rumo à eternidade com todas as suas luzes acesas, com a visão geopolítica de Bolívar e Manuel, sonhando a vitória da unidade, da fraternidade e da solidariedade dos povos do continente. A notícia da morte de Santrich não salvará o arrogante tirano Iván Duque da ira popular desencadeada. Ao povo colombiano mobilizado desde há 20 dias em protestos permanente contra o mau governo, pedimos, em homenagem a Santrich, que não afrouxe na sua justa luta e que se lance com todas as suas forças para derrotar este maldito regime que nos está a esmagar até a alma. Conclamamo-lo a continuar a lutar nas ruas até ter um novo governo do povo e para o povo, mais humano, que pense na dignidade das pessoas e não apenas em acrescentar os privilégios das oligarquias, um governo sem corruptos nem ladrões do Estado, como queria o comandante caído na luta. Saúde pelos que partiram, mas que ainda estão connosco, como Jesús Santrich, o homem que lutou de maneira consequente por uma paz para a Colômbia sem traições e sem perfídia. Povo colombiano, pela vitória, À CARGA! FARC-EP Segunda Marquetalia 18/Maio/2021 Obras do Cmte. Jesús Santrich podem ser descarregadas na secção livros Este comunicado encontra-se em https://resistir.info/ .

domingo, 19 de julho de 2020

Um genocida inominável

Um genocida inominável

por FARC-EP
'.Corajosa, muito corajosa a denúncia de Daniel Mendoza Leal através da sua extraordinária série MATARIFE un genocida innombrable , contra Álvaro Uribe Vélez, essa "tormenta de morte que não deixa de açoitar o país". O povo inteiro, a dignidade humana, deve apoiar sua valentia que recolhe o decoro de muitos compatriotas que sempre esperaram justiça contra os abusos do tirano.

Se se chegar a impor a tutela de Uribe contra a série, "de acordo com a Constituição – considera o advogado Mendoza Leal – seria como infringir as leis da física. Contudo, na Colômbia o dinheiro e o poder podem por vacas a voar no céu". Isso não deve acontecer. O genocida, mesmo que consiga influenciar alguns magistrados, nunca poderá amordaçar a verdade. Uribe tem um cadastro espantoso e aterrador. O ex Promotor Geral, Eduardo Montealegre, disse recentemente que "Uribe é um criminoso de guerra. Chegou a hora de ele responder perante a justiça. Evadiu-se durante a sua longa carreira política de todos os crimes que cometeu". O estranho neste caso notório é o desentendimento e a ausência de perseguição judicial tanto na jurisdição colombiana como no Tribunal Penal Internacional.

'.Tudo em Uribe é dantesco: o paramilitarismo do seu coração, que aperta com a sua mão direita ensanguentada, causou – segundo Memória Histórica – mais de 100 mil mortos na Colômbia. A alcunha de Matarife (Açougueiro) que lhe atribuiu Gonzalo Guillen, é apropriada e justa. É tão assassino que cravou com prazer a faca no Acordo de Paz de Havana.

Quem é realmente Uribe? É a podridão que reúne todo o mal, tudo o que o prejudicou o país: máfia, corrupção política, roubo do erário, falsos positivos, assassinato de líderes sociais, falsos testemunhos, roubo violento de terras... É o pai do narco-Estado colombiano.

Mas como pôde chegar até aí? Inicialmente, ajudando Pablo Escobar a inundar as ruas dos Estados Unidos com cocaína. Recordemos que fez isto aproveitando o cargo de director da Aerocivil. A seguir foi governador de Antioquia e dali saltou à presidência da República, financiado fartamente por uma máfia sempre agradecida. "Vaca ladrona não esquece a brecha", diz o refrão popular. Dessa mesma maneira levou à cátedra presidencial do Palácio de Nariño o seu pupilo Duque, no melhor estilo da Ñeñe-política [NR] . Assim ascendeu Uribe a esse pódio indignante onde hoje brilha com luzes injuriosas, como fundador do primeiro narco-Estado do mundo.

Como pode o açougueiro mafioso proteger até hoje a sua repugnante impunidade? Em primeiro lugar, com o poderoso apoio do governo dos Estados Unidos, ao qual ele é mais útil como presidente títere do que como prisioneiro num condado. Necessita dele como peão da sua política para a América Latina. De Uribe certamente dirão em Washington o que diziam do ditador Anastasio Somoza: é um FP, mas é o nosso FP. E quem o disse foi Franklin Delano Roosevelt que foi presidente dos Estados Unidos durante três mandatos.

O cancro maligno do uribismo invadiu todos os ramos do poder do Estado: o poder judicial, o legislativo, o executivo. Tem vice presidente próprio e uma bancada de legisladores que para se comprazerem assumem posições mais extremas que as do seu patrão (são mais papistas que o Papa). Conta com a cumplicidade criminosa dos magistrados designados por ele para integrar os Tribunais. São a sua quota, devem-lhe o cargo, e por isso prestam-lhe lealdade e os seus préstimos. Não têm olhos para ver o turbilhão dos seus delitos. Mas também dispõe de uma panóplia de advogados do diabo que se ocupam sempre de lhe acolchoar o caminho da impunidade. São peritos sofistas e prestidigitadores jurídicos que emaranham a norma que sanciona, que enredam a vítima e ameaçam-na, que compram testemunhos falsos – e se alguém resiste ou não se vende, pode terminar envenenado com cianuro. O Promotor é da sua corrente política, tal como o Procurador. Também tem "amigos" no Conselho Nacional Eleitoral, em caso de necessidade. Os altos comando militares – que também são seleccionados pelo genocida inominável – baixam as bolinhas diante dele. E ele os defende e os cobre com o manto da impunidade quando são acusados por violação dos direitos humanos. Muitos deles, sobretudo os reformados, actuaram com ele como irmãos no crime. Rodeiam-no pecuaristas e latifundiários que roubam terra, assim como os ladrões do Agro Ingreso Seguro. Apoiam-no também grandes empresários que contribuem com dinheiro para as campanhas políticas, cevados nos contratos do Estado, os quais põem à sua disposição seus meios de comunicação. Roubou a saúde aos colombianos e privatizou em favor da grande empresa e de banqueiros insaciáveis todos os serviços públicos e os bens comuns.

Faz falta um grande acordo político nacional "para que se acabe a trapaça" ("pa' que se acabe la vaina"), como diz "La gota fría", a popular composição do Velho Mile; uma grande convergência de todas as forças democráticas do país, incluídos os militares com decoro, que sentem por dentro a dor da pátria. Comecemos a despertar as consciências, acendamos a chama da esperança de um novo governo justo, inclusivo e resolutamente definido pela paz completa. A chave está na unidade de todos os sonhos de pátria nova. Nela reside a potência transformadora, a força irresistível da mudança social e política.

Vamos, que um novo governo, mais humano e cheio de amor pelo seu povo, é possível.
[1] Política de corrupção caracterizada pela compra de votos.
  • Ver também o livro Biografia no autorizada de Álvaro Uribe Velez, el Señor de las Sombras , de Joseph Contreras e Fernando Garavito

    Este artigo encontra-se em https://resistir.info/ .
  • terça-feira, 7 de julho de 2020

    Apelo às Forças Armadas e ao Povo colombiano

    Apelo às Forças Armadas e ao Povo colombiano


    por FARC-EP

    '.
    Irmãos das Forças Armadas:

    Ser integrante da Força Pública não concede licença para que manadas de soldados violem crianças indígenas, como acaba de acontecer com uma menina Emberá Chamí, em Risaralda. Uma instituição que actue dessa maneira nunca alcançará as "bençãos dos povos", como sonhou o Libertador. Foi tão alarmante o ocorrido que nas próprias fileiras do exército se sente o surdo fragor do repúdio. Por que? Porque no exército também há milhares de Ángeles Zúñiga, aquele patrulheiro da polícia que, deixando-se levar pelo seu coração, preferiu não cumprir uma ordem injusta de desalojamento de camponeses pobres nos arredores de Cali.

    Sim, esse é o novo sentimento de humanidade que hoje percorre os quartéis e as esquadras de polícia nesta época de pandemia que despertou a solidariedade e a consciência do povo uniformizado. E não ocorre só aqui, mas nos Estados Unidos onde o exército insubordinou-se e não quis cumprir a ordem violenta de Trump de reprimir o seu próprio povo que protestava contra o racismo. Oxalá que nunca mais desapareça esta percepção nos corpos de tropa.

    Já o dizia o historiador de La Estrella de Medellín, Juvenal Herrera Torres [1] , que "o fundamento principal do Exército, tal como o concebeu o Libertador, é sua profunda identidade com o povo. Dele nasce e a ele deve. Está é a sua legitimidade, sua natureza e sua legalidade. O Povo e o Exército são os pilares da construção republicana democrática. O Exército é o Povo em Armas lutando pela Pátria. Precisamente porque o Exército nasceu do Povo e a ele deve sua existência e sua razão de ser, é [a razão] porque é considerado como a força pública: não pertence a nenhuma classe social em particular e sim a conjunto de toda a nação. É por isso que Povo e Exército estão convocados a compartilhar igualmente seus esforços e anseios na construção da Pátria de todos".

    Em síntese, o exército é "o povo que pode! E o povo que combate, no fim triunfa!" A Força Pública é o povo que pode e "pode" porque as armas estão nas suas mãos. Os soldados e os polícias, os sub-oficiais, muitos oficiais e alguns altos comandos são o povo uniformizado e já estão cansados de que os continuem a utilizar, sem reflexão, para afogar em sangue os humildes, só para proteger os interesses económicos de uma elite social egoísta e sem alma, que se crê a dona exclusiva do poder e que ordena chuzadas [2] e perfilamentos de cidadãos que consideram inimigos internos.

    Uribe, o carniceiro.A Força pública não pode ser utilizada pelo senhor Álvaro Uribe Vélez e o subpresidente Duque, ou pelo todo-poderoso Sarmiento Angulo, como um exército privado. O exército e a polícia não foram instituídos para proteger os peixes gordos da corrupção, nem os espoliadores de terras, nem as multinacionais que saqueiam nossas riquezas. Eles foram moldados pelo pai Libertador para proteger com suas armas as garantias sociais, os direitos do povo.

    Esses que tratam a Força Pública como seu exército privado agravaram o problema para o exército e a polícia com os falsos positivos, que são crimes de lesa humanidade e que agora, assustados perante a verdade, ainda aspiram viver eternamente no regaço da impunidade. Bobos foram todos aqueles generais e comandos médios que acataram a horrorosa Directiva 029 [3] do ministro da Defesa, Camilo Ospina, durante o mandato sangrento do ex-presidente Uribe. Nenhum gesto de agradecimento por haverem sido nomeados para esses altos cargos justificava matar de modo tão vil, como o fizeram, milhares de jovens inocentes.

    A força armada da nação, que é o "povo que pode", não quer mais na instituição esses altos comandos delinquentes e corruptos que, como hienas famintas, afocinham os contratos para se enriquecerem. Estão ali porque Uribe os nomeou e por isso tremem diante do seu nome. São uns covardes.

    Recordamos a todos este discurso carregado de razão do Libertador Simón Bolívar, de 16 de Novembro de 1823: "Soldados colombianos!... Todos os exércitos do mundo foram armados pelos reis, pelos homens poderosos: armai-os vós, os primeiros, pelas leis, pelos princípios, pelos débeis, pelos justos... Soldados! Armai sempre em vossos fuzis ao lado das baionetas as leis da liberdade, e sereis invencíveis".

    As FARC-EP, Segunda Marquetalia, acreditam que na unidade e coordenação do movimento social e político, incluída a força pública, está a força da mudança, a potência transformadora que haverá de conduzir-nos rumo à pátria do futuro, com paz, com democracia e vida digna para todos.

    FARC-EP

    28 de Junho de 2020
    [1] Juvenal Herrera Torres em resistir.info:   A "Campanha Admirável" de Bolívar recordada por Juvenal Herrera Torres , "Bolívar e a campanha da Venezuela" . Esta obra pode ser adquirida aqui .
    [2] Chuzadas: escutas telefónicas organizadas ao mais alto nível do Estado; «falsos positivos»: assassinatos pelo exército colombiano de cidadãos comuns que depois apresentavam como guerrilheiros mortos em combate (a justiça tem mais de 3.000 casos entre mãos).
    [3] Acerca da Directiva ministerial 029 de 2005 ver El Espectador


    Este apelo encontra-se em http://resistir.info/ .

    quarta-feira, 24 de junho de 2020

    Que cesse a farsa da guerra contra o narcotráfico

    Que cesse a farsa da guerra contra o narcotráfico

    por Iván Márquez [*]
    A maior fábrica de mentiras do mundo é a Casa Branca dos Estados Unidos. O "cartel de los soles" é só um nome chamativo para enganar incautos. Não existe. Qual é a sua estrutura? Quem são os integrantes do famoso cartel? Isso é uma invenção envenenada saída da poderosa fábrica de fakes new e de desinformação manipulada por Washington. A vinculação dos negociadores de paz das FARC-EP, Iván Márquez e Jesús Santrich a uma organização nebulosa, utilizada para justificar a injusta agressão dos Estados Unidos à Venezuela, deve ser classificada como infame. Rememora a injustiça contra Simón Trinidad. Que cartel de los soles nem que caralho! Deixem que a verdade pura e limpa abra suas asas e voe livre, para que o mundo possa ver a implosão de uma mentira lançada ao vento.

    A guerra contra as drogas é um fracasso e uma fraude. Jesse Ventura, ex-governador de Minnesota, denunciou há anos que a DEA e a CIA financiam a desestabilização de governos democráticos e soberanos com dinheiros do narcotráfico. E fazem-no porque consideram improvável, por ser imoral, a aprovação pelo Congresso de recursos destinados a uma causa tão horrível quanto inapresentável. Essas agências sabem também que jamais obteriam a aprovação do povo dos Estados Unidos para propósitos tão sujos. Isso explica porque na grande nação do norte não existe uma perseguição coerente à máfia da distribuição de cocaína, que é o que finamente se revela com os exorbitantes lucros do negócio.

    A postura do governo de Washington contra o narcotráfico é totalmente hipócrita. É cega ou finge sê-lo quando as condutas delituosas contribuem para reforçar sua ambição de predomínio.

    Por esta altura, quem não sabe que Iván Duque foi eleito presidente da Colômbia com dinheiro da máfia colectados pelo narcotraficante conhecido como o "Ñeñe Hernández", dinheiros mal ganhos que se utilizaram para a fraude eleitoral e a compra de votos. A esse senhor Duque deveria se aplicada a revogação do mandato e, também, o que ele próprio pediu como candidato presidencial: que não só sigam para o cárcere os tesoureiros das campanhas como também os próprios candidatos.

    Mas as pegadas do ex-presidente Uribe nas suas antigas andanças pelos caminhos do narcotráfico são muito mais profundas, porque sendo Director da Aeronáutica Civil autorizou a Pablo Escobar a utilização de pistas clandestinas, licença que lhe permitiu despachar aviões repletos de cocaína em direcção aos Estados Unidas. Em dinheiro vivo, foi Uribe quem tornou Escobar famoso ao abrir-lhe o corredor aéreo para o norte, o que finalmente o catapultou como o mais poderoso capo mafioso da época. Com razão Pablo Escobar, agradecido, referia-se ao jovem funcionário como "esse bendito rapaz". Dizem que Uribe sempre foi descarado. E talvez por isso permitiu, sendo presidente, a utilização do aeroporto internacional de El Dorado de Bogotá para despachar, por essa grande porta, enormes carregamentos de cocaína e que, por essa mesma via, retornassem alguns lucros. Bem, e até o embaixador de Duque no Uruguai, o senhor Sanclemente, tinha um laboratório de processamento de cocaína nas adjacências de Bogotá.

    E estes hipócritas ofendem-se quando alguém, ao ver a realidade, conclui que a Colômbia é um narcoestado. Perseguem com sanha o degrau mais fraco da cadeia, que são os camponeses pobres, mas nunca os banqueiros e empresários lavadores de activos. Perguntem à actual vice-presidente, Marta Lucía Ramírez, que enquanto pagava sigilosamente a fiança do seu irmão Bernardo, preso nos Estados Unidos por tráfico de heroína, e tendo relações turvas com o mafioso conhecido como o "Memo Fantasma", quer comer vivos os camponeses, as pobres "mulas", e condená-los por séculos e séculos...

    O povo estado-unidense deveria ajudar o seu governo a remover a vergonhosa venda "que não o deixa ver".

    Está claro: A Casa Branca utiliza presidentes fracos, com rabos-de-palha. Oferece-lhes imunidade desde que se convertam nas suas marionetes. E as melhores marionetas que tiveram na América do Sul foram, sem dúvida, Álvaro Uribe e Iván Duque da Colômbia. Por isso, para eles não há perseguição nem castigo judicial.

    Os mentirosos, como os burros, juntam-se para se coçarem.

    Simon Trinidad.Encerro estas linhas rememorando a injusta montagem judicial de Álvaro Uribe e seu Promotor Geral de bolso, senhor Camilo Osorio, mediante a qual foi extraditado para os Estados Unidos o impecável líder guerrilheiro Simón Trinidad, sob a acusação mentirosa de narcotráfico. A opinião pública recorda que Simón derrotou nos palcos judiciais desse país a mentira dos dois abjectos personagens. Tiveram que inventar outra acusação, alheia ao motivo da sua extradição, para podê-lo condenar: o de ser integrante do Estado-Maior Central das FARC. E foi assim que o condenaram a 60 anos de prisão, dos quais já purgou mais de 15. Actualmente está preso num dos cárceres mais desumanos dos Estados Unidos, o de Florence, Colorado. Informo ao mundo nessa prisão encontra-se agrilhoado um homem inocente chamado Simón Trinidad, para o qual peço solidariedade e justiça, e através dela a sua libertação. Simón nunca foi integrante do Estado-Maior Central das FARC, ainda que de facto tenha ostentado o elevadíssimo cargo de negociador de paz de uma força insurgente. Mentiu o secretário de Estado, John Kerry, quando nos assegurou em Havana que com a assinatura do Acordo de Paz considerariam a libertação de Simón Trinidad.
    22/Junho/2020

    [*] Comandante das FARC-EP

    Este artigo encontra-se em https://resistir.info/ .

    quarta-feira, 10 de junho de 2020

    A traição aos Acordos de Paz

    A traição aos Acordos de Paz


    por Jesús Santrich [*]
    entrevistado por Cira Pascual Marquina [**]

    Jesús Santrich.
    Nesta entrevista conversámos com o comandante das FARC sobre a geopolítica da região, com ênfase quanto à Colômbia e à Venezuela
    O processo de paz entre a guerrilha das FARC-EP e o governo colombiano teve um impacto profundo na região, especialmente sobre a Venezuela. Esta – ligada à Colômbia por mais de 200 anos de história, cultura e política – promoveu e patrocinou o processo de paz nas suas primeiras etapa. A situação pós acordo, na qual numerosos líderes sociais foram assassinados e as causas do conflito permanecem por resolver, conduziu um grupo de dissidentes a romper com o Partido FARC no ano passado.
    Aqui falamos com Seuxis Pausias Hernández Solarte, mais conhecido como Jesús Santirch. Santrich é um comandante importante das FARC-EP o qual, junto com Iván Marquez, é um líder fundamental dentro do grupo “dissidente”. Esta entrevista data de 4 de Fevereiro de 2020.
    Está claro que o governo colombiano não tem intenção de respeitar os Acordos: persegue e assassina líderes sociais e incumpriu os seis pontos do acordo subscritos pelas partes em 2016. As consequências negativas disto são evidentes para a Colômbia. Quais seriam as consequências para a região e sobretudo para a Venezuela?

    Através de diversos meios e desde antes da assinatura dos Acordos, vários dos plenipotenciários insurgentes na Mesa de Diálogo em Havana percebíamos as inconsequências do governo quanto ao propósito da reconciliação porque não se via a determinação de resolver os problemas concretos em matéria económica, política e social. E estando já na Colômbia, chamámos a atenção sobre a indolência com que o Estado iniciou a implementação, começando pelo incumprimento do compromisso primeiro que tinha de adequar os lugares onde ocorreria o pré agrupamento e a seguir o agrupamento das unidades guerrilheiras. O nosso pessoal chegou a iniciar sua reincorporação em sítios nos quais, em alguns casos, não havia onde se abrigar da inclemência do clima. Muitas das necessárias e urgentes instalações onde viveriam nossos companheiros e companheiras nunca se terminaram de construir.

    De tal maneira – e é algo que reiterámos com maior ênfase desde que se completou o primeiro ano da assinatura e os avanços da implementação foram avaliados como fracos pelos organismos de verificação – que o Acordo foi rompido pelo estabelecimento a partir do próprio momento em que se devia iniciar a execução do pactuado. Santos deu o primeiro passo rumo ao que se converteu em crime de perfídia e seu sucessor, Iván Duque, aprofundou traição a sangue e fogo, multiplicando a insegurança jurídica, pessoal e económica dos ex combatentes e deixando de lado as mudanças prometidas às comunidades mais empobrecidas em matéria de reforma rural integral, de substituição de cultivos de uso ilícito e de reforma política, por exemplo. Como disse a senhora, que por acção quer por omissão, tanto o descalabro do processo no plano dos compromissos reivindicativos com as comunidades, como o número de assassinatos dos líderes sociais, que ultrapassa o meio milhar, e dos ex-combatentes, que está na ordem dos 200, sempre a avançar com um negacionismo institucional que ofende e que é complementado pelo regime com imputações descaradas de toda ordem lançadas contra sectores do movimento revolucionário, incluindo-nos a nós.

    A respeito de toda esta situação demasiado lamentável, explicamos todas as vezes que pudemos que, rompido o acordo por parte do Estado, apesar dos nossos esforços para mantê-lo vivo, não tivermos outra opção senão retomar o caminho das armas – porque, apesar de se ter aceite desistir do uso destas partindo de um mútuo compromisso de superação das causas do levantamento, tal passo nunca foi concebido como desmobilização e menos ainda como um compromisso unilateral da insurgência. Assim, ficando em evidência plena a traição do Estabelecimento, fechada novamente a via da legalidade e pisoteadas com sanha nossa boa fé e dignidade, não podíamos cair no derrotismo e na claudicação. Em meio da estigmatização e das calúnias, das montagens asquerosas, com perseguição judicial e tentativas de extradição e assassinatos que indicavam que a reconciliação era uma farsa e a paz uma bandeira de mentiras, o nosso dever era o de buscar uma saída decorosa e não de submissão a uma casta política iníqua e mesquinha.

    Este dano à paz da Colômbia é uma lesão directa à paz do continente, porque enquanto há governos da América Latina e do Caribe a impulsionarem todo tipo de iniciativas e esforços para fazer do continente um território de paz, o Blodo de Pode Dominante na Colômbia presta-se a converter nosso país num cenário de confrontação submetido de maneira abjecta aos caprichos dos Estados Unidos, à sua voracidade quanto ao saqueio descarado dos bens do comum, no momento que se erige em plataforma de intervencionismo e de hostilidades contra países que não comungam os interesses imperialistas de Washington, tal como ocorre com a Venezuela e com Cuba, por exemplo.

    No meu modo de ver os governos de Juan Manuel Santos e de Iván Duque, mas pela mão dos Estados Unidos, com sua traição lesionaram enormemente o valor da palavra empenhada, fundamentos essenciais do diálogo e dos acordos como são a boa fé e o pacta sunt servanda deixando em muito má posição o papel de mediação de importantes organismos internacionais como é o caso das Nações Unidas e dos países que participaram directamente como garantes e como acompanhantes dos compromissos assumidos pelas partes, o que implica simultaneamente uma sabotagem dos princípios mais elementares e básicos do DIH e do Direito Internacional, começando pelo da soberania ou pelo da autodeterminação dos povos.

    Acrescentaria que a traição governamental ao Acordo de Paz inseriu no conflito colombiano um combustível de desconfiança difícil de apagar a curto prazo, o qual desestabiliza o conjunto da região mas em especial os países vizinhos e dentre eles, de maneira dirigida pela decisão inocultável de Washington e Bogotá, afecta a Venezuela, porque além do impacto que nossa guerra interna causa na extensa e permeável zona de fronteira com o país irmão, se toma o conflito como desculpa para desencadear e manter actos de hostilidade e agressão permanentes que já se converteram abertamente em bandeira principal da política internacional da Colômbia. Note-se que o governo de Iván Duque, além de medíocre dedicou-se à continuidade da mafia uribista e à conspiração, desestabilização e agressões contra a Venezuela, enquanto afunda o próprio país nas misérias das suas políticas neoliberais e numa terrível crise humanitária que se exprime nas mortes diárias de dirigentes sociais e ex-combatentes que adiantavam processo de reincorporação.

    Como os dogmas da "Maré Rosada" (os processos progressistas da década de 2000 em diante) afectaram o processo de paz da Colômbia? Pergunto porque o fetiche eleitoral destes processos amiúde ignorou que na Venezuela por exemplo o processo de mudanças foi acompanhado por um exército patriótico – e isto nem sempre se pode reproduzir em outros lugares – e porque o carácter popular de outros processos se foi contraindo progressivamente.

    Não creio que se tenha apresentado, no caso da inegável crise estrutural em que mergulharam as antigas FARC-EP como organização revolucionária, uma afectação do que a senhora chama os "dogmas" da "Maré rosada" ou dos processos progressistas das primeiras décadas do século XXI. Por um lado, nossa crise tem como fundo causas que decorrem do desgaste produzido pelo prolongamento de qualquer guerra. E pelo outro, a uma evidente dupla traição tanto do regime que enfrentamos como de elementos internos da alta direcção político-militar do nosso movimento.

    Não sou a favor de desqualificar, de modo algum, as conquistas do progressismo, muitas ou poucas, duráveis ou não. Para mim, sobretudo em tempos em que a decadência do império e sua perda de controle mundial são evidentes, ressaltando a imposição do fascismo como uma das suas reacções desesperadas, qualquer forma de resistência às tiranias é válida para avançar. Mas, sem passar por alto que as metas a alcançar por um movimento revolucionário devem ir mais além que as do progressismo. E penso que nenhum processo de mudança profunda pode sobreviver desarmado. Assim como, no caso específico da Colômbia, num processo de luta que aspire a mudanças radicais que permitam superar as desigualdades, a miséria e a exclusão política, prescindir das armas é uma quimera, é um caminho praguejado de martirológio e de incertezas. Mas se o movimento popular que enfrenta – que é o que ocorre na Colômbia – é um Bloco de Poder tão sórdido e sanguinário para com seus compatriotas, ajoelhado e vendido mas lisonjeiro para com os seus amos gringos, o que lhes dá um carácter comprovadamente criminoso, terrorista. vingativo e traidor em que não tem lugar o jogo democrático limpo e que obriga a prover-se de garantias extremas para poder pactuar com ele.

    Com este quadro de ideias e com o critério de que actualmente tanto o neoliberalismo como o progressismo estão em crise, devo dizer que o que se continua a impor como necessidade é propor uma alternativa de mudanças estruturais que apontem à construção do socialismo. Porque para mim não é exagerado dizer que, em meio à crise do progressismo, o neoliberalismo agoniza na América Latina e que é necessário dar-lhe a estocada final. Reiteraria o que já dissemos como novas FARC: que as promessas de leite e mel dos países do "capitalismo avançado" e das suas instituições gangsters como o FMI e o BM, assim como dos seus porta-vozes e propagandistas, caem por terra irremediavelmente. E que tal situação exprime-se na realidade que atravessa a farsa do sistema chileno, por exemplo, posto em evidência como maquinaria de saqueio. Tal farsa vem sendo demolida a golpes de manifestações multitudinárias, sem precedentes na história do país austral e da Nossa América, que desmascararam não só Sebastián Piñera como todo o conjunto do falso paraíso do consumismo capitalista fingidamente democrático, mas comprovadamente ladrão e encoberto com a maquinaria mediática que ajudou a criar o engano da bonança que nunca existiu e que era protagonizada com os alunos mais avançados do Consenso de Washington.

    Como contexto destas afirmações, existem inúmeras teses correspondentes à análise do que foi dentro do "prolongado ciclo histórico da civilização burguesa", o Capitalismo do século XXI e sua crise irreversível. Mas não é o caso de trazer todo esse universo argumentativo para insistir em que ninguém pode negar que, com sua evidente característica de militarização, entrou numa nova dinâmica de decadência inexorável. E a tarefa dos revolucionários é batalhar para apressar o seu desmoronamento, pondo ênfase na organização e na mobilização, com ideias que nos permitam lutar de modo coeso contra a descomunal máquina de desinformação alienação possuída pelo sistema imperial.

    Actualmente o Complexo Militar-Industrial norte-americano (em torno do qual reproduzem-se os dos seus sócios da NATO) contribui de modo crescente para o défice orçamental e por conseguinte para o endividamento do Império (e para a prosperidades dos negócios financeiros beneficiários do referido défice). Disto se depreende que a sua eficácia militar é declinante, ao mesmo tempo que a sua burocracia é cada vez maior assim como a aceleração da sua decadência geral e a exacerbação da sua agressividade belicista. E a administração actual da crise de decadência do capitalismo corre a cargo de um poder imperial global, que se acomoda e articula de um modo ou de outro às circunstâncias económicas e políticas do campo internacional, promovendo a maior campanha de alienação e desmobilização política de que se tem notícia. E nisso, infelizmente, não se tem saído mal, porque se algum êxito pudesse ser atribuído ao neoliberalismo é precisamente o de haver conseguido minar a consciência revolucionária contra o capitalismo em quase todos os povos e classes sociais exploradas do mundo.

    A quase desmobilização geral da classe operária e a incapacidade das alternativas comunistas, socialistas ou de esquerda em agrupar e mobilizar as grandes maiorias atropeladas pelo sistema são mostras disso. O poder do capital tornou-se tamanho que ninguém se atreve a definir a fórmula para aceder, sequer a médio prazo, a uma sociedade socialista capaz de evitar as pressões do mercado mundial ou sua influência. O que se observou nos poucos processos de mudança social de corte popular no poder foi a preocupação em sobreviver e avançar com muito tacto, priorizando as políticas democráticas e sociais sobre os traumatismos económicos de derivariam do choque frontal com o poder do capital.

    Com tudo isto, para mim não há dúvida de que o capitalismo perecerá sob o avanço dos povos, mas a luta contra ele constitui um processo mais longo do que parecia. O trabalho ideológico, político e organizativo que exige dos revolucionários é muito maior, intenso e necessário do que pensamos ou sonhamos. Mas a urgência deste grande repto é evidente e as tentativas não são desdenháveis porque por toda a orbe terrestre estalaram e estalam lutas reivindicativas que exprimem inconformidade com as consequências do capitalismo neoliberal, lutas heróicas que conseguem arrancar pequenas conquistas, mas que não se articulam com as outros sectores ou países onde também se dá a luta. Então, verifica-se que a dispersão e a falta de propósitos políticos claramente revolucionários, que é o défice que se costuma assinalar ao progressismo como essência da sua génese, constituem grandes obstáculos que temos de vencer, com projectos unitários de carácter nacional, regional e mundial.

    Apesar de assinalar o tal "défice", particularmente sobre os processos democráticos e progressistas na região, quero apontar outras ideias que podem ajudar a fazer uma valorização mais justa e dar respostas às inquietudes sobre as vias que devemos tomar para enfrentar a "América do Norte capitalista, plutocrática, imperialista" conforme o que põe em causa recordando o verbo de Mariátegui. Com isso passo a dizer-lhe o que penso sobre sua terceira pergunta.

    Mariátegui disse: "à América do Norte capitalista, plutocrática, imperialista, só é possível opor eficazmente uma América Latina ou íbera socialista", vinculando assim o projecto socialista à integração continental com a emancipação dos nossos países. Como entende a sra. a integração destes povos, especialmente o colombiano e o venezuelano nestes tempos de borrasca? Que papel desempenha o socialismo no projecto?

    Comecemos por dizer que pelas raízes históricas e culturais comuns, os povos da América Meridional, essa que o Apóstolo cubano José Martí chamou a América Nuestra, tiveram e continuarão a ter um mesmo destino, o qual não pode ser outro senão o da segunda e definitiva independência da que o herói antilhano também nos falou, senão a constituição de uma só grande nação de repúblicas irmãs tal como sonhou e projectou o Libertador Simón Bolívar como pioneiro e arauto da integração continental e caribenha, observando precisamente que esse tipo de unidade era o que nos podia livrar da voracidade imperial dos Estados Unidos da América do Norte.

    Por razões geoestratégicas o cenário da América Latina é considerado pelos Estados Unidos como principal e decisivo para exercer seu controle político e militar (espaço vital) e manter sua condição de potência absoluta. É a herança trágica da Doutrina Monroe. Daí a instalação de bases militares com presença directa de efectivos estado-unidenses e contratistas mercenários, assim como a concepção de um esquema de controle militar baseado, dentre outros instrumentos, nos chamados FOL (Forward Operation Location) que permitem mobilidade estratégica, desencadear guerras relâmpago mediante bases e tropas aerotransportadas de instalação rápida e a proliferação de acordos de segurança com diversos países entre os quais se conta a Colômbia, como ponta de lança para a avançada neocolonizadora.

    Dentro deste enfoque, quanto à política internacional norte-americana, a América Latina está condenada a permanecer alinhada com este império e a ser o cenário fundamental para a expansão das suas transnacionais, o que implica que qualquer processo de construção de rumos pós capitalistas, ou de realização de mudanças que não coincidam com a estratégia hegemónica de Washington, estarão submetidos a acções de contenção, destruição ou desestabilização.

    Em consequência, os processos de mudança que se viveram no século XXI e que, embora de modo algum sejam capítulos encerrados, continuam a lançar lampejos de permanência e de influxo na região, tal como ocorre por exemplo na Venezuela (sobretudo), Equador, Bolívia, Brasil, Argentina, Uruguai, Nicarágua e El Salvador, têm uma origem comum na crise generalizada dos modelos capitalistas do continente, com o esgotamento das formas representativas restringidas do "jogo democrático" (plutocrático) e dos seus partidos tradicionais, coincidente com o descrédito do modelo económico neoliberal, que aprofundou a miséria e a desigualdade na região.

    A extraordinária onda continental de mudanças revolucionárias e progressistas, que se desencadeou iniciando um ciclo ascendente e esperançoso com o triunfo do comandante Hugo Chávez Frías nas eleições presidenciais venezuelanas de 1998, talvez tenha alcançado seu nível mais alto com a oposição radical que assentou em Novembro de 2005 contra a ALCA (Área de Livre Comércio para as Américas) em Mar del Plata e assentou as bases para a projecção e o fortalecimento do ALBA, que havia sido criada entre Cuba e a Venezuela em Dezembro de 2004 como organização internacional de âmbito regional, que teria o objectivo de lutar contra a pobreza e a exclusão social.

    Com a crise mundial do capitalismo, em 2008 inicia-se o declínio desta fase de ascensão, suscitando factos que assim o corroboram, como a decadência do Fórum Social Mundial de Porto Alegre e a viragem para a direita que se verifica no Brasil e na Argentina, países que muitos analistas consideravam que vinham transitando um caminho de "centro-esquerda", e as pressões do bloco oligárquico-imperialista sobre os governos progressistas da Bolívia, Equador e Venezuela intensificam-se, observando-se o desenvolvimento, então, de um processo de reorganização e reposicionamento das forças conservadoras no continente. Nisto incide a promoção pelo capitalismo mundial da assinatura individual ou associada de tratados de livre comércio com muitos países da região, que acedem a isso em sentido contrário à oposição generalizada à ALCA.

    Podemos dar uma olhadela às particularidades de cada país que participou na chamada "Maré Rosa", começada cerca de 1998?

    Os processos revolucionários e progressistas são muito singulares, todos muito diferenciados e com suas particularidades, mas têm em comum que não surgem de um levantamento popular armado, nem da luta guerrilheira, mas tiveram como chispa que provoca o incêndio em cada um dos países, a inconformidade e o protestos das massas, pela forma violenta como foi diminuída a participação das maiorias na riqueza nacional e na condução política.

    Também têm em comum que, como processos que se ligam intimamente com a luta de massas, a mobilização popular foi marcada por movimentos sociais e novos sujeitos políticos diferentes dos modelos clássicos de classe operária e partido de vanguarda. O que tão pouco exclui o protagonismo de alguns partidos políticos em países como a Bolívia (MAS), Venezuela (PSUV) e Equador (Alianza País). Também haveria que considerar que se dá um fenómeno de contradição não manifestada enquanto se produzem legítimas expressões de inconformidade de sectores sociais populares e suas organizações com governos amigos ou próprios. Caso MST-Brasil, Quispe e sua gente-Boívia, CONAIE-Equador.

    É preciso destacar igualmente que se trata de processos que, na maioria dos casos, puseram em primeiro lugar os legados autóctones de rebeldes e patriotas da Nossa América (Bolívar, Martí, Artigas, Sandino, etc) no momento em que reivindicam as tradições de luta dos povos originários e as comunidades de base, pondo como protagonistas de primeira ordem, em grande medida, as mulheres e os jovens.

    Dentre os mesmos [governos progressistas] puderam diferenciar-se os processos que se adiantavam simplesmente pelo desenvolvimento social e económico, mas sob o âmbito capitalista (Brasil, Argentina, Uruguai) dos que propunham a construção do socialismo (Venezuela, Equador e Bolívia). Trata-se de uma visão do socialismo distinta da que historicamente defendeu o campo comunista: em princípio não contemplaram partidos de vanguarda, proscrições maciças da propriedade privada, nem eliminação da burguesia. O debate sobre o "socialismo do século XXI" e sobre as novas contribuições destes processos (o "buen vivir", a "revolución ciudadana") ainda está aberto para os revolucionários de Nuestre América e nas FARC-EP foi-lhes dada boas vinda e foi o pano de fundo durante os diálogos de paz.

    As mudanças que estes governos empreenderam para superar as relações injustas de propriedade e de poder, ou pelo menos para superar no fundamental as falências da participação cidadão, ampliando os espaços da democracia, e inclusive alguns procurando estabelecer modelos pós-capitalistas, vários em via para o socialismo, constituíram a pedra de toque para determinar como eram compatíveis suas contribuições ideológicas e como era realista e possível o chamado "socialismo do século XXI". Daí a importância de assumir uma análise séria e profunda, com a mais ampla visão, sem desqualificar nenhum a partir da óptica das novas FARC-EP, de todos os processos democráticos e progressistas da região, dos seus êxitos e seus fracassos, sem perder de vista nossos próprios descalabros – que mais do que de um influxo de qualquer destas experiências, dependeram de uma credulidade ingénua e injustificável na palavra de um governo miserável e de uma camarilha interna derrotista que abandonou os princípios revolucionários de origem.

    Há que levar em conta que de uma forma ou de outra nestas experiências, e mais nas dos países bolivarianos, adiantaram-se processos extremamente importantes e valiosos quanto a ganhar autonomia frente às transnacionais e ao império, marchando pelo caminho da redistribuição do rendimento e do combate à desigualdade e à miséria. De facto, seu impacto foi tal que por volta do ano 2005, momento em que tem um pico notório, a BBC informou que, dos 350 milhões de sul-americanos, três quartas partes viviam em países com "presidentes que se inclinam pela esquerda, eleitos durante os seis anos anteriores". Esta informação dizia que "outro elemento comum da 'maré rosa" é a clara ruptura com o Consenso de Washington de princípios da década de 1990", fazendo referência aos países latino-americanos pertencentes a uma tendência que o repórter Larry Rohter, do New York Times, utilizou para caracterizar a eleição de Tabaré Vázquez como presidente do Uruguai, pretendendo ilustrar que se tratava não da ascensão de ideias "vermelhas" (comunistas) e sim mais suaves ou "róseas", ou progressistas e socialistas mais moderadas, mas em todo caso fazendo parte de um fenómeno de volta à esquerda e centro-esquerda que a seguir seria sucedido por uma onda conservadora, que localizam na década de 2010.

    Além da resistência ao Consenso de Washington, em matéria de restabelecimento e defesa da soberania, a oposição a receber imposições de Washington foi evidente, com também o foi sua oposição à presença de bases estado-unidenses no continente. E sem dúvida que marcou a pauta neste campo foi o presidente Hugo Chávez com a proclamação de uma revolução e uma pátria bolivarianas, fazendo mudanças constitucionais e sociais em consequência. A revolução bolivariana foi o detonador e a locomotora desse processo continental. Pelo seu lado, o presidente Correa no seu momento no Equador, dentro de perspectiva semelhante, encerrou a base de Manta como cenário para a presença de pessoal militar estado-unidense e tomou outras medidas como auditar a dívida externa e retirar apoio ao Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR). Determinações parecidas foram tomadas por Evo Morales na Bolívia, expulsando embaixadores dos Estados Unidos por intromissão em assuntos internos, tal como a Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional (USAID) e a DEA. Evo renegociou os contratos petrolíferos desfavoráveis à nação a fim de recuperar o património dos bolivianos cedido às transnacionais, o que o império nunca perdoaria.

    Em todos os casos, incluindo cenários como Nicarágua e Salvador, onde houve e há experiências interessantes de avanço popular, mas particularmente nos países bolivarianos, as acções hostis e intervencionistas dos Estados Unidos não se fizeram esperar, mostrando-se com maior ênfase sobre a Venezuela, país no qual se joga em grande dimensão o futuro dos processos de mudança e de independência na Nossa América. E é por isso que os Estados Unidos declararam o governo de Nicolás Maduro como uma ameaça à sua segurança nacional, que desde então ou mais do que nunca pôs a Venezuela sob a hostilidade pertinaz dos ianques e dos governos cipaios da orbe terrestre, gerando a recusa e repúdio do seu povo e dos governos e organizações regionais e mundiais dignas que exigem a cessação de tanta agressão que tomou a Colômbia como principal plataforma de ataque.

    Cuba, ainda com as enormes dificuldades que lhe provoca o bloqueio criminoso norte-americano, que agora se intensificou, mantém-se como a experiência de revolução e construção socialista mais sólida na região, constantemente avaliando, rectificando e avançando, como farol de dignidade e exemplo de condução revolucionária para todo o campo da nossa América.

    Neste contexto é que se produzem os principais factos e reptos políticos do continente, com factores de instabilidade que é urgente avaliar tendo em vista o futuro da região e para recolher as experiências no que seja válido e útil para o nosso processo.

    Desta avaliação, o primeiro a dizer é que hoje, na América Latina e no Caribe, observou-se na transição da década uma desaceleração do ciclo de ascensão do movimento popular e dos processos mencionados, com a circunstância especial da crise económica que o assédio imperialista gerou na Venezuela, país que se havia constituído num dos propulsores fundamentais das transformações que se vinham dando em favor principalmente dos empobrecidos. Não obstante, a luta de classes incrementa-se em muitos países, exprimindo-se nas mais diversas formas de movimento real de massas, de resistências aos extensos processos de despojamento e saqueio que avançam as transnacionais de todo tipo, as minero-energéticas, as de "agro-negócios" e a depredação neoliberal em geral.

    Neste ambiente, sob a direcção de Washington e em diversos momentos, verificaram-se tentativas de golpes de Estado que foram quase sempre frustradas pela acção das massas, ou foram dados "golpes institucionais", como os realizados em Honduras e no Paraguai e mais recentemente na Bolívia, onde actuaram os Estados Unidos e seus cipaios locais. O imperialismo não se resigna a perder o que considera sua "retaguarda estratégica". Empenha nisso grande parte dos seus esforços, patrocinando e organizando com os sectores mais entreguistas seu projecto de "restauração conservadora", ou mediante estratégias institucionais, impulsionando partidos de direita que tratem de avançar dentro das regras legais e eleitorais, ou ainda com estratégias conspirativas e sediciosas, tal como ocorre actualmente contra a Venezuela, mediante "guarimbas" ou distúrbios vandálicos da direita nas cidades ou com lacaios tipo Guaidó que se prestam para a sabotagem imperialista.

    Esta situação desperta a atenção dos dirigentes políticos dos países que empreenderam o caminho das reformas que favorecem as maiorias e desperta também dos dirigentes populares, no sentido de que o aprofundamento dos processos transformadores jamais se concretizará cedendo ou pactuando com o poder central hegemónico, nem com os seus agentes locais. A derrota do campo popular é impedida consolidando as conquistas, aprofundando-as sem deter a marcha, a partir da qualificação da organização dos movimentos sociais e políticos que se identifiquem com as mudanças; a partir também da educação, da formação ideológica, da consciencialização dos sectores populares e afins à causa proposta.

    Em consequência, deveremos impulsionar um projecto socialista, dotado de uma identidade autóctone, que partindo das contribuições dos clássicos e das experiências de luta dos povos do mundo que transitaram formulações anti-capitalistas, há de buscar identidade nas raízes culturais próprias e é neste campo em que o papel das pessoas comuns desempenha seu protagonismo principal, incluindo sem dúvida a prática profundamente ancestral da comuna, do mutirão (minga) e do trabalho solidário.

    O que nos pode comentar a respeito da Comuna Venezuelana como proposta de reorganização política e económica da sociedade?

    A este respeito, não conheço bem as experiências do trabalho organizativo, político e produtivo na Venezuela, mas tive notícia da fortaleza do tecido social forjado pelas propostas deixadas pelo comandante Chávez, especificamente no plano do trabalho em comunas como semente do novo e do bom em alternativa ao caos que se vislumbra com a depredação ambiental do capitalismo. E nisso nossas experiências particulares encontram identidade porque são as práticas que melhores resultados nos apresentaram, sobretudo nos cenários rurais, quer camponeses, de povos originários ou de territórios comunitários de afrodescendentes.

    Tais experiências são alternativas, sem dúvida, ao carácter auto-destrutivo das práticas capitalistas catalisadas pela dinâmica tecnológica dominante e pela incapacidade da economia mundial de continuar a crescer, circunstância que acelera a concentração de riquezas em muito poucas mãos e a marginalização de milhares de milhões de seres humanos que "estão a mais" do ponto de vista da reprodução do sistema.

    Ainda que me estenda um pouco, quero recordar que o Acordo de Paz, segundo um dos seus apartados essenciais que figura como "Acordo de 7 de Novembro de 2016", foi assinado com o carácter de Acordo Especial, nos termos do Artigo Comum terceiro das convenções de Genebra de 1949 e dele derivou uma "Declaração Unilateral perante o Secretário-Geral das Nações Unidas", como compromisso de cumprimento do Estado colombiano; e derivou a solicitação, como com efeito se fez, da incorporação do conteúdo integral do Acordo de Paz num Documento do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

    Tal "Declaração Unilateral de cumprimento" fez-se perante o Secretário-Geral das Nações Unidas mediante comunicação de 13 de Março de 2017, e esta junto com uma comunicação datada de 29 de Março de 2017 pelo mencionado Secretário-Geral, agregando o texto do "Acordo Final para o Término do Conflito e a Construção de uma Paz Estável e Duradoura", chegou à presidência do Conselho de Segurança, atravessando um procedimento que culminou com a incorporação dos referidos textos ao Documento S/2017/272 com data de 21 de Abril de 2017 do mesmo Conselho de Segurança. Tudo isso comporta obrigações adquiridas que deviam cumprir-se a respeito do Pacta Sunt Servanda e do conjunto do Direito Internacional.

    Trata-se de responsabilidades do Estado que, em teoria e segundo as boas práticas de convivência pacífica das nações, não podem cessar por efeito de uma mudança de Governo, porque do que se trata é de garantir tanto a segurança jurídica interna como de assegurar a estabilidade jurídica internacional que são factores iniludíveis de concórdia – a não que existisse a determinação de actuar como Estado foragido procedendo contra o Acordo e contra a ordem internacional, tal como se viu e se continua a observar quanto à Jurisdição Especial para a Paz, por exemplo, ou com o desconhecimento que em certo momento fez a Presidência do Senado dos Garantes Internacionais Cuba e Noruega, ou o que fez o mesmo governo de Duque dos protocolos que regiam as conversações com o ELN em Havana.
    14/Março/2020

    De Jesús Santrich ver também:
  • Marquetalia, raices de la resistencia , Colômbia, 32 p., 5094 kB.
  • Antologia de escritos e desenhos do Comandante das FARC Jesús Santrich , Ediciones Espartaco, New York, 2018, 343 p., 3026 kB
  • Bolivarianismo y marxismo: un compromiso con lo imposible , Bogotá, 2018, 172 p., 6942 kB.
  • Memorias sobre educación, cultura y experiencia comunicacional en las FARC-EP , Colômbia, 2019, 25 p., 418 kB.

    [*] Comandante das FARC-EP
    [**] Jornalista de Venezuelanalysis


    A versão em inglês encontra-se em venezuelanalysis.com/analysis/14799

    Este artigo encontra-se em https://resistir.info/ .
  • 09/Jun/20

    sexta-feira, 24 de junho de 2016

    FARC-EP:Timoleon Jimenez na assinatura de acordos Havana

    palavras Timoleon Jimenez na assinatura de acordos Havana

    23 de junho de 2016 +
    Timoleon Jimenez, chefe do Estado Maior Central das FARC-EP, na cerimónia de assinatura do Acordo de Cessar-Fogo e garantias bilaterais e Definitivo Hostilidades abandono de armas e segurança entre o Governo da Colômbia e as FARC-EP .  Foto: Ladyrene Pérez / Cubadebate
    Timoleon Jimenez, chefe do Estado Maior Central das FARC-EP, na cerimónia de assinatura do Acordo de Cessar-Fogo e garantias bilaterais e Definitivo Hostilidades abandono de armas e segurança entre o Governo da Colômbia e as FARC-EP . Foto: Ladyrene Pérez / Cubadebate
    Discurso do Comandante Timoleon Jimenez, chefe do Maior Central das FARC-EP, na cerimónia de assinatura do Acordo de Cessar-Fogo e garantias bilaterais e Definitivo Hostilidades abandono de armas e segurança entre o Governo da Colômbia e as FARC-EP, Havana, 23 de junho, 2016, "Ano 58 da Revolução".  (Tradução - Conselho de Estado)
    Que este seja o último dia da guerra.
    Sr. Raul Castro Ruz, Presidente da República de Cuba;
    Sr. Presidente da República da Colômbia, Juan Manuel Santos;
    Senhor Secretário-Geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon;
    Senhor Chanceler do Reino da Noruega, Borge Brende;
    Sr. Presidente da República Bolivariana da Venezuela, Nicolas Maduro;
    Senhora Presidente da República do Chile, Michelle Bachelet;
    Sr. Presidente da República e CELAC Dominicana, Danilo Medina;
    Sr. Presidente da República de El Salvador, Salvador Sanchez Ceren;
    Sr. Presidente da República do México, Enrique Peña Nieto;
    Sr. Presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas, Mogens Lykketoft;
    Sr. Presidente do Conselho de Segurança das Nações Unidas, François Delattre;
    Sr. Bernard Aronson, especial do governo dos Estados Unidos enviou;
    Sr. Eamon Gilmore, enviado especial da União Europeia;
    Sra representante da CEPAL, Alicia Bárcena:
    Gostaria de pedir, com o maior respeito, desculpas, para aproveitar este momento, a fim de decorar uma grande ausente, o eterno Comandante Hugo Rafael Chavez Frias (Aplausos), um guerreiro pela paz na América Latina e no Caribe, sem cuja iniciativa e de gestão valioso ter sido impossível chegar a este evento histórico.
    Senhoras e Senhores Deputados, uma vez que alguém condenado sonhos alcançados únicos que têm sucesso são aqueles que tentam. Hoje mais do que nunca nós sentimos que esta sentença contém uma verdade indiscutível.
    Em 1964, no calor da luta armada desigual, a Assembleia de combatentes Marquetalia produziu o seu programa agrário, cuja parte introdutória a seguinte declaração que nos lembramos de estar à esquerda: "Nós somos revolucionários que lutam por uma mudança regime, mas queríamos e lutou para que esta alteração utilizando o caminho menos doloroso para o nosso povo, pacificamente, democraticamente em massa; esse caminho foi fechado para nós violentamente com o pretexto fascista oficial de combater a alegada repúblicas independentes, e como somos revolucionários que de uma forma ou de outra, vai desempenhar o papel histórico que tocou-nos olhar para o outro, o caminho armada revolucionária à luta pela o poder."
    Hoje, 52 anos depois, as FARC estão a vedar com o governo de Juan Manuel Santos um cessar-fogo e um acordo hostilidades bilaterais e definitivos sobre as garantias de segurança e de luta contra o paramilitarismo, e outro sobre abandono de armas, deixe-nos às portas de concreto em um tempo relativamente curto, o acordo final vai nos permitir voltar finalmente para o exercício político legal através de meios pacíficos e democráticos.
    Aumentá-lo antes da Operação Marquetalia era um absurdo para os poderes e partidos no poder na época, eles decidiram recorrer à força e extermínio, animado pela convicção de que, através de bombas e armas poderia acabar com protestos populares; Eles também foram vezes a altura da Guerra Fria e da filosofia do inimigo que transformou as forças de segurança na ocupação exército de seu próprio país e seu próprio povo.
    Os mortos, sangue, devastação e horror que ele tinha guardado para a Colômbia, se em vez de assistir as vozes fãs que chamados de forma irresponsável para a guerra, a apelar para os argumentos mais absurdos, tinha escutado aqueles que chamou para o diálogo , a solução proposta de acordo sobre presença situação económica e social, enquanto democratizar o cenário político em um ambiente de tolerância e respeito pela diferença.
    48 marquetalianos camponeses tornaram-se as décadas milhares de mulheres e homens em armas que vieram para colocar em sérios problemas para o Estado colombiano, mas ao mesmo tempo não parava de falar sobre um acordo de paz por meio de conversas civilizadas. E dolorosamente várias tentativas para obter frustrado. Mas eles continuaram tentando uma e outra vez, e hoje vemos os frutos de sua persistência.
    Porque se algo atestam os presidentes dos países que acompanham e garantes hoje aqui presentes e todos os altos personalidades internacionais, imersa no processo de paz em curso e se juntaram a nós aqui, que está prestes a ser selado sem é uma capitulação da insurgência, como eles queriam alguns obtuso, mas o produto de um diálogo sério entre duas forças entraram em confronto durante mais de meio século sem qualquer poderia derrotar o outro.
    Nem as FARC nem o estado são derrotados forças e, portanto, o acordo não pode ser interpretada por alguém como o produto de qualquer imposição de uma parte à outra. Nós discutimos longamente, até mesmo para pistas que pareciam final, que só poderiam ser superadas graças à intervenção generosa e eficaz dos países garantes, Cuba e Noruega, e as fórmulas oportunas e sábios sugerido pela criatividade dos porta-vozes de ambas as partes ou seus conselheiros diligente.
    Além de um pobre Por favor, faça um dano imenso à Colômbia, à vida e à esperança de seu povo, que insistem em negar a importância vital do acordo, apenas para seu conteúdo identifica as partes à mesa, sem se algum elenco ou entregues um ao outro.
    Estamos confiantes de que a nação colombiana, que sofreu a guerra e as suas consequências, dar de volta para aqueles que seguem o holocausto convidando talvez o propósito escuro.
    Estamos muito perto de assinar o acordo final que irá acabar com o conflito e começar a construir uma paz estável e duradoura.
    Desde o início, argumentou que a assinatura deste acordo é a melhor chance que teremos nosso país para a estrada na direção da justiça social e do progresso, na base de que as comportas da verdadeira democracia estará aberto para movimentos de oposição sociais e políticos gozarão de plenas garantias e que a voz das comunidades em etapas locais, regionais e nacionais para adquirir toda a sua importância e pode desempenhar um papel nas decisões públicas sobre o seu futuro.
    Estamos certos de que esta será uma realidade que vai romper, terminando a tradição imposta de cima, ignorando os interesses, políticas que elegeram líderes com cédulas duvidosas considerados mais conveniente para eles das pessoas. Existem acordos selados sobre este assunto, e estão perto de ser definida em alguns brincos, bem como no âmbito da reforma rural, abrangente e pontos de cultivos ilícitos. Quanto a este último recentemente implementado um projeto piloto em substituição Briceno, Antoquia, que necessariamente devem ser replicadas em outras áreas que sofrem do problema. Não vai ser tudo rosado e certamente vai lutar porque ele cumpre integralmente assinado, porque como eu disse no título de um de seus romances escritor colombiano Salom Alvaro Becerra: "As pessoas nunca tocá-lo."
    O acordo final será a chave para ligar o bloqueio, mas exigem organizadora constante e as pessoas se mobilizando para o seu cumprimento. Eles colocá-lo para apresentar a insistência oficial sobre cíderes, apesar do acordo em Havana eo recente Código de Polícia, que se choca com o acordo assinado em participação política no Bureau.
    O Acordo sobre garantias de segurança e de luta contra o paramilitarismo deve ser uma realidade nos fatos, deixando de conduzir o resultado final da falha no processo histórico.
    Dói profundamente e é intolerável que, neste ponto essas estruturas continuam assassinando livremente, como aconteceu entre os dias 11 e 13 deste mês, em Barrancabermeja, com quatro jovens. SMAD siga os colombianos moagem vir a protestar com justiça e do sistema judicial continua ordenando privação abusiva de liberdade como companheiro Carlos Arturo Velandia.
    Ele também chegou a acordo sobre abandono de armas, o que evidencia a soma de invenções com o qual se destina a enganar as pessoas de nosso país, quando se afirma que após os acordos, as Farc pretendem continuar a política armados e fazer.
    O país pode saber a partir de hoje. É claro que nós política das Farc, se essa é a nossa razão de ser, mas por meios legais e pacíficos com os mesmos direitos e garantias de outros partidos (Aplausos).
    O governo colombiano terá de impor que nenhum colombiano será perseguido por motivos de suas ideias ou práticas políticas. O hábito perverso de incluir na ordem de batalha das Forças Armadas os nomes dos líderes dos movimentos de oposição sociais e políticos terão de desaparecer definitivamente da terra natal. Uma vez assinado o acordo final irá desaparecer dispositivo guerra militar e doutrina de segurança antiquado.
    As Forças Armadas da Colômbia, enorme crescimento no curso da guerra, contra-insurgência hábil e ações especiais são chamados para a frente a desempenhar um papel importante no interesse da paz, reconciliação e desenvolvimento. Eles eram os nossos adversários, mas a partir de agora temos de ser aliada forças para o bem da Colômbia. Sua infra-estrutura e os recursos podem ser de serviço para as comunidades e as suas necessidades, sem prejudicar a sua capacidade de cumprir o papel constitucional de guarnecer as fronteiras.
    Além disso, o papel das comunidades deve representar também uma oportunidade para começar a resolver o grave conflito que existe nas cidades: o desemprego, a insegurança, a falta de serviços públicos. Escravidões como pagadiario e exploração sexual, micro-tráfico, crime e gangues associados com a máfia e grupos paramilitares requerem atenção imediata.paz Rural deve significar uma transformação participativa das cidades.
    Precisamos que no nosso país é efetivamente produzir uma reconciliação final. Chega de violência e raves para ela. Ela requer um paciente e divulgação intensa, educação e sensibilização do acordo em Havana, para pessoas de Colômbia é clara do seu conteúdo valioso e positivo, e para que você saiba o que pode e deve reivindicar o estado, de modo que mais e organizar para obtê-lo e só então fazer uma nova Colômbia.
    As FARC EP concluída a 27 de maio, 52 anos de resistência guerrilheira, e hoje vemos o sonho de paz muito mais perto do que nunca. Nós trabalhamos para a unidade do movimento democrático e popular em nosso país, sem posições sectarismo e hegemônicos, buscando a confluência de toda a insatisfação com o atual modelo de coisas para gerar mudanças profundas na vida colombiana, sempre pensando o interesse da maioria.
    A guerra já custou centenas de bilhões de dólares para o nosso país. Na verdade, o jogo de orçamento militar exagerada teve uma justificação permanente da existência de um conflito armado. Um país em paz já não necessitam de tais argumentos e pode passar uma boa parte desses recursos para atividades mais saudáveis ​​e mais produtivas. Não é verdade que não há dinheiro para a paz e que tudo tem que ser de ajuda internacional, basta alterar as prioridades.
    Sabemos que nada vai ficar facilmente ou rapidamente. Entendemos que os principais beneficiários dos nossos esforços serão as futuras gerações, por isso, estender a mão à juventude, é a chamada para a construção do novo país e, portanto, a chamada para defender a defesa da paz e da reconciliação, promoção de um novo tipo de política, a consolidação de civilidade e atividade democracia mais ampla.
    As FARC têm sido sempre otimista, mesmo nos momentos mais difíceis sempre acreditou que a paz era possível e decidiu tentar tantas vezes quanto necessário, e nós à direita.
    O cessar-fogo Acordo e hostilidades, bilateral e definitiva, é lido por todos como o fim do conflito armado na Colômbia. Assim seja.
    Estamos confiantes dentro de um prazo razoável espera outra cerimônia: a assinatura do acordo final. Que este seja o último dia da guerra!
    Muito obrigado (Aplausos).

    sábado, 16 de abril de 2016

    Timoleón Jiménez* / Santos: Vamos consegui-lo, estamos certos

    Santos: Vamos consegui-lo, estamos certos

    Timoleón Jiménez*
    14.Apr.16 :: Outros autores
    Tal como o conflito também as conversações de paz a decorrerem em Havana são longas, requerem amor ao povo e à pátria, mas também exigem disponibilidade, paciência, sagacidade para desarmar e afastar os escolhos que constantemente são atravessados para dificultar os acordos na Mesa de negociações.
    Neste texto, Timoleón Jimenez, Comandante do Estado-Maior Central das FARC-EP, diz-nos por que razão os insurrectos vão conseguir, e disso estão certos, um Acordo Final.


    Depois de respirar o límpido sentimento de liberdade que se inspira logo pela manhã ao viajar de Havana para Oriente, contemplando o mar azul de múltiplas tonalidades causadas pela passagem de uma brisa forte, a vista regala-se, surpreendida, com a paisagem de Matanzas, a sua formosa baía, o seu rio, a sua singular arquitectura, as suas pontes, donde mergulham crianças sorridentes.
    Dezenas de veleiros navegam em distintas direcções, empurrados pelo sopro dos ventos, como se tivessem agarrados à sua popa um desses motores com que na Colômbia nos movimentamos nos grandes rios, cuja recordação nos faz parecer pequenas levadas os rios daqui. O tamanho dos barcos, as suas velas brancas falam-nos de uma ensonada aldeia de pescadores.
    Como aquela em que vivia Santiago, o velho que passara 84 dias sem picar um peixe que merecesse reconhecimento, e que a cada amanhecer se lançava mar adentro na sua lancha, sonhando pescá-lo. Falo da narrativa que valeu a Ernest Hemingway o Prémio Pulitzer, e que acabou por o converter em ídolo de todos os cubanos. Um cântico à tenacidade humana, disse alguém, e eu concordo.
    Nunca um pescador tinha apanhado um espadarte de dezoito pés de comprido, como o que ele pescou depois de uma titânica e solitária luta. Após o amarrar a um dos costados do barco, empreendeu o regresso até ao seu povoado, imaginando a admiração geral e todo o proveito que retiraria do seu trabalho. Foi então que apareceram os tubarões, atraídos pelo fio de sangue do arpão.
    A batalha nocturna do velho contra aqueles tubarões que atacavam com furiosas dentadas o seu precioso tesouro, parece-me apropriada para comparar ao processo de Havana, uma longa saga que se iniciou há mais de trinta anos, e se diz à porta de um Acordo Final, vítima ele também de raivosas investidas, obstinadas em impedir a sua chegada a bom porto. Sobram as interpretações interessadas e mal-intencionadas sobre o conflito colombiano. Todas elas mostram desconhecer duas realidades históricas de monta: a enorme desigualdade económica e social dominante no país e o carácter profundamente elitista, intolerante, antidemocrático e violento do regime político vigente. Tratá-las como deviam ser tratadas possibilitou o caminho da paz.
    Ainda que com diversos critérios sobre a forma de abordar esses dois grandes falhanços, é inegável que o Acordo Geral de Agosto de 2012 fixou neles a sua atenção. A problemática da terra e das culturas de uso ilícito, a abertura política e as garantias, as vítimas e a justiça ocuparam mais de três anos de debates. Não será o paraíso, mas começámos por fim a caminhar.
    Pelo caminho, somaram-se a este sonho mais e mais colombianos, cada vez mais conscientes da oportunidade que representa para o futuro de todos o pôr um fim a este longo conflito fratricida. E veio a comunidade internacional, países acompanhantes e garantes. Os enviados dos EUA e da União Europeia. As Nações Unidas e o seu Conselho de Segurança. Esta questão é levada a sério.
    Enquanto John Terry, secretário de Estado norte-americano, acorre a Havana para se reunir separadamente com as delegações das duas partes sentadas à Mesa, e o secretário-geral das Nações Unidas escreve respeitosamente ao Comandante das FARC, persistem vozes na Colômbia a dizer que se é certo que o processo é bilateral ele não é entre partes iguais.
    E que portanto não abandonam a sua aspiração de submeter a insurreição aos intocáveis poderes estatais. O Acordo Geral proclama coisa diferente. O ponto terceiro da Agenda, Fim do conflito, descreve-o como um processo integral e simultâneo que envolve sete grandes temas, e que começará o seu desenvolvimento com a assinatura do Acordo, num prazo prudencial acordado.
    Quem quiser ver de forma desprevenida os sete grandes temas referidos, concluirá que se trata de assuntos complexos, em não se pode exigir a uma das partes que abandone as armas e se reincorpore na vida civil, sem que, por sua vez, a outra não concretize os compromissos correspondentes. Conservar as armas não nos interessa tanto como conservar a vida.
    Os prazos não podem ser ilimitados para uma das partes, e fixos, precisos e firmes para a outra parte. Por isso devem ser prudenciais, hábeis para desenvolver integral e simultaneamente os acordos. Será que há alguém que acredita que o paramilitarismo, o atentado pessoal e o semear diário de ódios não são ameaças reais para a insurreição armada e o movimento popular?
    O mito do proselitismo armado, dos guerrilheiros armados a fazerem política por todo o país não passa de uma mal-intencionada caricatura propalada sem avaliar o dano provocado. Claro que na Colômbia deve acabar para sempre a ligação entre a política e as armas, não mais terrorismo de Estado, não mais ódios, não mais paramilitarismo, não mais marchas contra a paz.
    Ou será que tudo não passa de proselitismo armado? As conversações de paz iniciaram-se para pôr definitivamente termo à violência e às armas na política. A insurreição não pode acordar com o governo nacional, com os países acompanhantes e garantes, com toda a comunidade internacional como testemunha fórmulas se não pensasse cumprir. Não temos vocação para tolos ou suicidas.
    Surpreende que se invoque a figura de colombianos desprotegidos no Cáguan, quando fora da zona desmilitarizada, em todo o território nacional, o paramilitarismo, com a clara cumplicidade das forças militares inundou o país de sangue com os seus crimes, massacres e despojos. Horrores como o de Catatumbo [1] ocorreram na Colômbia protegida, essa que nunca quiseram ver.
    Os Acordos pressupõem a verificação e as Nações Unidas já avançam nessa direcção, com representação do Estado e dos insurrectos. Ninguém se nega a isso. No entanto, o presidente insinua na sua declaração pública, como se nós tivéssemos, o propósito de nos rendermos, nos desmobilizarmos e nos humilharmos. Uma coisa improcedente para quem têm dignidade.
    O governo colombiano exigiu como condição indispensável das conversações uma discrição total sobre as discussões à Mesa. Cumprimos. Mas poderíamos, por exemplo, demonstrar que não é verdade a negação absoluta do doutor De La Calle sobre o que aconteceu na Sub-comissão Técnica, mas não nos interessa aprofundar contradições, mas aproximar, consensualizar acordos.
    Por isso mesmo, também não fornecemos qualquer informação reservada à imprensa, para que esta publique crónicas e notas sobre os diversos temas em discussão, a fim de criar um clima desfavorável aos nossos interlocutores. Não se trata disso. Queremos a paz, lutamos por ela, desejamos assinar um Acordo Final o quanto antes. Isso requer medida, sensatez, responsabilidade.
    Sabemos que os tubarões carniceiros preservarão a sua obra predadora, e por isso, talvez seja impossível que as soluções convenham a todos os colombianos. Mas basta que uma imensa maioria se incline para a paz e apoie os acordos finais. É com elas e eles que nos devemos unir agora. A Colômbia inteira o merece.
    A recente e reconfortante notícia de um início próximo da fase pública de conversações de paz com o ELN constitui, sem dúvida, uma voz de alento e esperança para todos os interessados no fim do longo conflito armado colombiano. Os astros realinham-se novamente e não pode afundar-se a pique esta feliz oportunidade. Santos: Vamos consegui-lo, estamos certos.
    La Habana, 4 de abril de 2016.
    Nota do Tradutor:
    [1] Em 25 de Junho de 2013, 8º dia de luta pela Reserva Camponesa de Catatumbo durante uma manifestação de camponeses a Polícia e o Exército abriram fogo sobre os manifestantes, assassinando 4 camponeses e fazendo 10 feridos. O Estado da Colômbia procurou fazer crer que os mortos e feridos eram guerrilheiros, e só o não conseguiu porque havia jornalistas internacionais a reportar a luta dos camponeses, que repuseram a verdade.

    * Comandante do Estado-Maior Central das FARC-EP

    Tradução de José Paulo Gascão
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