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sábado, 31 de dezembro de 2016

Robson Viana,A crueldade de não pagar trabalhadores


A crueldade de não pagar trabalhadores

whatsapp-image-2016-12-29-at-09-42-36São Gonçalo, Caxias, Guapimirim, Nova Iguaçu, Mesquita e Itaguaí são alguns dos municípios do Estado do Rio de Janeiro onde os governos estão atrasando salários e comprometendo serviços básicos que deveriam ser prestados à população.
Em Itaboraí, na região metropolitana, onde sou professor, a situação se repete. Funcionários públicos terceirizados e concursados estão com salários atrasados, afetando o funcionamento de coleta de lixo, postos de saúde, escolas e demais serviços públicos.
Durante os últimos quatro anos a situação dos funcionários terceirizados foi – e ainda é – dramática. Nesse longo período, foram raros os momentos que tiveram sua remuneração salarial em dia, amargando, por vezes, absurdos cinco meses sem receber pelo que trabalharam.
Na área da educação, onde trabalho há 12 anos, as escolas funcionaram de maneira precária, como nunca havia acontecido, com falta constante de merenda, de professores e professoras, de funcionários e de infraestrutura sem a manutenção mínima necessária.
Muitas greves foram realizadas, manifestações, denúncias na rua e na justiça, entre outras ações. Nossa luta, antes focada na melhora das qualidades de trabalho para os profissionais da educação, passou a ser uma luta quase que por sobrevivência, sobretudo para os terceirizados.
Os funcionários terceirizados em Itaboraí são contratados por diversas “cooperativas”, que na verdade são fachadas de empresas. Muitos reclamam que têm imposto sindical descontado em seus pagamentos, destinados a sindicatos que sequer são encontrados. Há relatos também de pessoas que assinam folha de pagamento maior do que efetivamente recebem. E quando os salários atrasam, o medo de interromper o trabalho ou de se organizar politicamente é o medo de nunca mais ver esse dinheiro que lhes é devido, de conseguir outro trabalho e até retaliações mais graves.
Nas poucas vezes que a categoria conseguiu sentar com representantes do governo municipal para negociar, o sindicato da educação, o SEPE, se viu impedido legalmente de representar os trabalhadores terceirizados, pois a prefeitura não os considera profissionais da educação.
Isso só demonstra o quanto está fragilizado o trabalho terceirizado e o quanto necessita avançar a organização política para este setor.
A prefeitura alega, em entrevistas para grandes jornais, que todo esse caos é devido à queda de arrecadação ocasionada pelas paralisações nas obras do COMPERJ (complexo petroquímico citado em grandes casos de corrupção). Mas nós sabemos que isso não é verdade.
Um estudo detalhado do DIEESE, que apresenta os números da arrecadação municipal de Itaboraí nos últimos 20 anos, mostra claramente que a gestão que se encerra agora em 2016 contou com o maior orçamento da história da cidade. Assim, grande parte dos atrasos de pagamento é resultado de decisão política, de má gestão de recursos públicos, de corrupção, e não apenas de crise financeira.
whatsapp-image-2016-12-29-at-09-42-37Em 2016, os profissionais da educação encaminharam denúncia ao ministério público. Estávamos em greve há quase um mês e, além das irregularidades com a merenda, salários e infraestrutura, denunciamos a defasagem salarial e exigimos eleições para direção de escola, o cumprimento de 1/3 da carga horária para planejamento, entre outras questões. Meses após uma primeira audiência muito promissora, a promotora mudou seu tom inicial de cobrança, argumentando que o problema “é a crise”, e a denúncia não avançou mais.
Em dezembro, os profissionais da educação estiveram presentes todos os dias no centro da cidade e arrancaram da câmara de vereadores a liberação de uma verba do FUNDEB que estava parada, o que garantiu o pagamento de novembro a alguns trabalhadores. Com fortes indícios de irregularidade, o uso dessa verba do governo federal, destinada à valorização profissional na educação, é usada em Itaboraí exclusivamente para pagamento de folha salarial.
Agora, faltando poucos dias para o fim do ano e a troca de governo, numa demonstração de crueldade, a prefeitura intensificou os atrasos salariais aos trabalhadores. A cidade foi abandonada pelo ainda prefeito Helil Cardoso (PMDB), que se elegeu e governava sob influência de Eduardo Cunha.
Os terceirizados completam em dezembro quatro meses sem salário. Os professores e professoras estão sem previsão de receber 13º, dezembro e férias. Uma medida judicial obtida pelo SEPE, ainda em prazo de recurso, exige os pagamentos de todos os profissionais da educação, sob pena de multa e arresto de contas. Embora a justiça poucas vezes fique ao lado de trabalhadores pobres, outras medidas estão sendo discutidas pela categoria como forma de manter a pressão sobre o governo.
Pelo que temos até agora, 2017 será um ano de mobilização, de organização e de luta já nos seus primeiros dias. Sob os fogos acanhados da festa estão famílias indignadas em diversas cidades e estados do Brasil. Desrespeitadas no que têm de mais valioso em suas mãos: o seu trabalho.
Robson Viana, professor e membro da Executiva da UP no Rio de Janeiro
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Prabhat Patnaik / A dialéctica do autoritarismo

A dialéctica do autoritarismo


por Prabhat Patnaik [*]
Actualmente assistimos na Índia a uma notável inversão da razão. Quanto mais as pessoas comuns sofrem com o impacto da desmonetização de Modi, mais ele é louvado pela "coragem" que mostrou ao empreende-la. Uma medida económica deveria ser, e normalmente é, julgada na base do benefício que traz ao povo – e qualquer medida que traz sofrimento ao povo é escarnecida pela mesma razão. Contudo, o que descobrimos no caso presente é exactamente o oposto: quanto mais sofrimento a desmonetização traz ao povo, mais ela é aplaudida pela sua sabedoria e coragem. E isto é feito não apenas pelos habituais ideólogos reaccionários empedernidos do [partido] BJP; é feito por muitos comentadores, incluindo mesmo um grupo de altos académicos não residentes na Índia que argumentaram nestes moldes e recorreram assim a tal inversão da razão.

Naturalmente, se aqueles que argumentam deste modo mostrassem que a desmonetização seria benéfica a longo prazo, e com base nisso argumentassem que as dificuldades do povo seriam apenas transitórias, então poderia ter havido alguma substância nos seus elogios encomiásticos a Modi. Eles poderiam então argumentar com alguma justificação que Modi tinha de ser louvado pela sua coragem em arriscar-se à ira popular durante o seu período de transição. Mas nenhum dos que aplaudem a "coragem" de Modi refutou, ou mesmo tentou refutar, os críticos que mostraram que a desmonetização não pode alcançar os objectivos que o governo mencionou como justificação. Portanto, a questão de ser benéfica no longo prazo simplesmente não foi levantada. O louvor a esta medida é então estabelecido na base de pouco mais excepto o facto drástico de que trouxe sofrimento ao povo. Eis porque as suas afirmações constituem um caso de pura e simples inversão da razão.

INVERSÃO DA RAZÃO 

O presente caso de inversão da razão é ainda pior do que aquele satirizado por Bertold Brecht quando escreveu: "O governo parece que perdeu a confiança do povo; por que ele não demite o povo e elege um outro?" O caso actual não é o de um governo que perde a confiança do povo e ainda assim retém o poder em nome do povo – o caso é o de um governo a provocar sofrimento agudo ao povo e a ser louvado por este mesmo facto.

Uma tal inversão da razão é fundamentalmente anti-democrática. Ela decorre de uma comutação de foco do povopara o líder. Esta comutação reduz o povo, no melhor dos casos, ao estatuto de um mero pano de fundo contra o qual o feito heróico do líder tem uma oportunidade de ser exibido. Uma vez que o foco está no líder, o qual, como centro de atracção de todos os olhos, deve exibir seus feitos heróicos, a tendência é inevitavelmente para o "choque e pavor", para ofuscar toda a gente através da tomada de decisões extremas as quais são tanto chocantes como inspiradoras de pavor. E precisamente porque estas decisões são extremas, provocando graves adversidades ao povo, a sua própria natureza extrema as faz parecerem particularmente heróicas.

A comutação do foco do "povo" para o "líder" leva necessariamente a questão da tomada de decisão para fora das fronteiras da "racionalidade". Decisões "racionais" são baseadas em cálculos cuidadosos, os quais procuram maximizar algum objectivo (ou o que economistas chama uma "função objectivo") dentro de um conjunto de constrangimentos que são dados. "Decisões racionais" naturalmente não são sinónimas de decisões "boas" ou "morais" ou "éticas". Quando um "investidor" maximiza seus ganhos económicos entregando-se à especulação, ele está a actuar "racionalmente", muito embora a especulação não seja necessariamente uma actividade "desejável" ou saudável. Mas um líder a tentar "chocar e apavorar", para estabelecer sua imagem "heróica", a fim de justificar ser o centro de atenção, não faz cálculos cuidadosos. Ele orgulha-se com o facto de não fazer cálculos cuidadosos mas ter a coragem de tomar decisões que outros são demasiados tímidos para tomar. Em suma, ele orgulha-se da suairracionalidade. 

Naturalmente, mesmo uma "decisão racional" pode parecer irracional em retrospectiva. Isto acontece porque ao tomar a "decisão racional" os constrangimentos podem ser sido compreendidos erradamente, ou a eficácia de instrumentos particulares em atingir objectivos pode ter sido estimada de forma errada, e assim por diante. Em suma, pode haver erros de dados devido aos quais decisões tomadas "racionalmente" com base nos dados disponíveis podem em retrospectiva revelar-se irracionais. Mas tal "irracionalidade", decorrente de erros de dados dissimulados mesmo nos cálculos mais cuidadosos que se supõe produzirem "decisões racionais", é muito diferente de se abster totalmente de cálculos cuidadosos e da tomada de uma decisão racional substituindo-a pelo "choque e pavor". Regimes autoritários da espécie que Narendra Modi está a liderar tendem a ser "irracionais" neste sentido fundamental: eles são irracionais não no sentido de que as suas decisões "racionais" se revelam erróneas devido a erros de dados, e portanto aparentemente irracionais em retrospectiva, mas porque elas censuram a "racionalidade" como timidez, como sendo indigna do líder que veste o manto de um herói.

A questão muitas vezes levantada é:    qual foi o motivo de Narendra Modi para por em prática a referida desmonetização maciça? Perguntaram-me muitas vezes isso em reuniões onde tenho falado acerca da desmonetização. Aqueles que perguntam concordam em que o efeito da desmonetização seria dizimar o "sector informal", o qual representa cerca da metade do produto total da economia e mais de oitenta por cento do seu emprego total, sem fazer mossa na economia negra ou nas actividades terroristas, as quais supostamente eram os seus objectivos primários. De facto esta questão adquire pertinência, nesta visão, por esta mesma razão: uma vez que tal dizimação da "economia informal" terá um enorme custo eleitoral do governo BJP, por que Modi empreendeu esta desmonetização maciça?

A resposta esperada por aqueles que perguntam isso jaz em um de dois possíveis reinos: ou que houve "erros de dados" a viciarem sua tomada de decisão racional para alcançar seus objectivos declarados, ou que ele tinha algum outro objectivo não especificado (isto é, uma função objectivo diferente daquela que ele havia publicamente apregoado). Em ambos os casos é assumido que ele estava a actuar "racionalmente" ao invés do que com "irracionalidade" heróica. Mas a atribuição de "racionalidade" a uma tal decisão é em sim mesma injustificável. Ninguém decide, na base de cálculos racionais, desmonetizar da noite para o dia 86 por cento das divisas de um país que é predominantemente utilizador de papel-moeda. Tais decisões são necessariamente "irracionais", empreendidas em busca de um heroísmo que é uma característica necessária de um regime autoritário, isto é, de um regime onde o "povo" foi suplantado pelo "líder" como o foco da atenção.

Uma marca inconfundível desta "irracionalidade" é a recusa absoluta em emendar, ajustar, ou fazer alterações na política em vista do sofrimento do povo, ou mesmo a discutir com outros o que pode ser feito para mitigar o sofrimento. Uma decisão "racional" é aquela que necessariamente está aberta a emendas. Quando erros de dados se tornam manifestos, uma decisão racional tomada para alcançar algum objectivo é emendada pois torna-se claro que ela não poderia alcançar este objectivo, ou na medida prevista. Mas uma decisão "irracional" não recebe emenda, uma vez que não é baseada sobre qualquer cálculo racional, mas é destinada só a destacar o heroísmo do líder. A recusa de Modi em conversar com partidos políticos sobre caminhos e meios para aliviar o sofrimento do povo, ou para modificar a medida original a fim de aliviar este sofrimento, é em si própria um sintoma de "irracionalidade". Obviamente é o seu prestígio ao invés do sofrimento do povo que tem prioridade do seu ponto de vista. O foco, em suma, está no "líder" ao invés de estar no "povo".

Esta mudança de foco é tipicamente acompanhada pela afirmação de que o próprio "povo" aprecia o acto heróico do "líder" mesmo quando este lhe causa adversidades. Por exemplo: um argumento avançado não só pelos ideólogos do BJP como também por vários outros, incluindo mesmo os altos académicos não residentes na Índia mencionados anteriormente, é o seguinte: uma vez que não há protestos sérios do povo contra a desmonetização do governo, apesar do seu sofrimento, o povo está a aceitar esta medida para o maior bem social que ela produz.

ARGUMENTO DÉBIL 

Obviamente este argumento é débil. Assim como a ausência de protestos contra a opressão não indica uma aceitação da opressão, igualmente a ausência de protesto contra a medida da desmonetização não sugere que esta medida é aceite. Porque não há protestos mesmo quando o povo está a sofrer é matéria que tem de ser investigada à parte. Mas a ausência de protestos certamente não constitui uma justificação da própria medida.

E na medida em que a ausência de protestos indica uma crença na validade da medida, isto sugere apenas que a inversão da razão que circunda a desmonetização não está confinada à elite dirigente mas penetra mesmo segmentos daqueles que são por ela prejudicados. Muitos deles também, uma vez que não podem acreditar que tal tormento lhes possa ser imposto gratuitamente, chegam a pensar que o seu sofrimento deve estar a servir a alguma finalidade mais elevada. E ao aceitarem isto também eles louvam pela sua audácia o próprio governo que lhes impôs o sofrimento. Em suma, a operação "choque e pavor" do governo tem êxito, pelo menos ao instilar "pavor" em segmentos daqueles que são as suas vítimas.

A menos que esta bolha do "choque e pavor" seja perfurada e o povo se torne consciente do facto de o seu sofrimento não servir a qualquer propósito mais elevado, mas que ao contrário constitui apenas uma imposição gratuita sobre ele, a mudança de foco do "povo" para o "líder" estabelecerá uma dialéctica de transição da democracia para o autoritarismo que é extremamente perigosa. 
25/Dezembro/2016

Acerca da experiência indiana de demonetização ver também:
  • Desmonetização e taxas de empréstimos bancárias , 12/Dez/16
  • A desmonetização de notas de dinheiro , 19/Dez/16

    [*] Economista, indiano, ver Wikipedia

    O original encontra-se em peoplesdemocracy.in/2016/1225_pd/dialectics-authoritarianism . Tradução de JF. 


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
  • sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

    Onde está a liberdade de imprensa, agora que os EUA manipula no Panamá?

    Onde estão os gargalhada todos os dias contra Venezuela ou Equador, em nome da "liberdade de imprensa", agora que os Estados Unidos tenta privar arbitrariamente um homem de negócios de suas mídia no Panamá?
    Por que nenhuma campanha internacional do American Press Inter Association , o grupo é visto PRISA , da CNN , NTN24 ou a si mesmo agora Vargas Llosa que o embaixador dos Estados Unidos ameaça fechar o jornal La Estrella e El Siglo ?
    A verdade foi posta a nu, o governo dos EUA como chefe do sistema capitalista mundial, e os grandes meios de comunicação social correntes que a servem, interpretar conceitos de conveniência aparentemente sagrada e princípios supostamente universal, tais como a democracia, a liberdade de opinião ea liberdade de imprensa . Estas liberdades são aceitas somente se estiverem de acordo com os seus interesses políticos e económicos mas por outro lado se ele combina com as grandes potências capitalistas, proceder cercenándolas.
    O bom caso GESE-Waked, se você tem algo bom, é que põe a nu a falsidade ea hipocrisia "democrático" do governo dos EUA e redes de comunicações grandes ou "mass media". Pelo menos na Venezuela ou Equador, sempre que procedeu contra qualquer jornalista ou estava sob a lei, evidência de crimes ou má conduta à luz.
    No Panamá, o procônsul dos EUA tem sido a coragem de privar um empregador de suas propriedades, incluindo dois grandes meios de comunicação, com base em insinuações lavagem de dinheiro e tráfico de drogas, sem apresentar o rosto público, muito menos para os tribunais, nem uma única prova. Eles são empreendedores, especialmente os proprietários dos meios de comunicação avisou: como você invadir arbitrariamente, administrados ou dosado o grau de acesso aos meios de comunicação e subalternos sociais opinião pública ou setores sociais e políticos alternativos, você pode ser vítimas de liberdades castrados por um poder superior, que vem de cima, e não do céu, mas a partir do norte.
    Aqueles que acreditam acriticamente tudo o que dizem os monopólios de mídia grandes no serviço do sistema, conhecer a história do mundo e na América Latina, e ignorar quantas vezes imperialismo norte-americano tem minado essas liberdades sabotar os governos legitimamente eleitos, promovendo golpes e até mesmo recorrer o assassinato de líderes populares. Só para citar alguns casos: de Arbenz na Guatemala, Salvador Allende no Chile, Zelaya em Honduras, Dilma Rousseff no Brasil e Fernando Lugo no Paraguai.
    Coincidentemente, estamos prestes a comemorar 27 anos da sangrenta invasão de 20 de dezembro de 1989, cujo objetivo era nem Noriega, não "democracia", mas a imposição de um regime político oligárquico anti-democrática, em que governar um punhado de imoral, mas obediente aos ditames dos Estados Unidos. Prova de que a invasão norte-americana reduzida a uma semi-colônia, é a atitude servil do presidente Varela no caso GESE, e sua falta de coragem de colocar o embaixador dos EUA no lugar.
    Escrito por Olmedo Beluche

    Pela primeira vez, Estados Unidos experimentam o golpismo ao estilo latino-americano

    Pela primeira vez, Estados Unidos experimentam o golpismo ao estilo latino-americano

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    A CIA, que está se metendo na política doméstica, participa de uma conspiração para negar a decisão constitucional da eleição de Donald Trump.


    Fonte: Carta Maior
    reprodução
    Pela primeira vez, Estados Unidos experimentam o golpismo ao estilo latino-americano
    Entrevista realizada pelo jornalista uruguaio Efraín Chury Iribarne com o sociólogo estadunidense ames James Petras, professor da Universidade de Binghamton (NY) e autor de vários trabalhos sobre questões políticas da América Latina e Oriente Médio, para a Rádio Centenário, do Uruguai.
    Pergunta: você sabe que as notícias que difundimos na América Latina são surpreendentes, porque falam de uma alteração nas eleições norte-americanas através da intromissão da Rússia. Como se está vendo isso nos Estados Unidos? Qual é a opinião de Trump? O que dizem os democratas? O que disse Hillary Clinton a respeito?
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    Petras: Bom, poderíamos começar enfatizando a importante gravidade do que está ocorrendo. Não é nada que um golpe. Um golpe institucional, que busca negar a eleição de Donald Trump. Está sendo orquestrado por instituições como a CIA, como forma de ilegitimar o novo governo e tentar acusá-lo de traidor do país.
    Ou seja, querem transformar Trump num traidor, um cúmplice da Rússia, e dizer que os serviços de inteligência estão envolvidos, e que não só enganaram o público sobre as eleições, com dados conseguidos pela inteligência russa, mas que querem penetrar o Estado, influenciando nas nomeações para o gabinete de Trump. E para esse golpe, estão mobilizando o Congresso e todos os partidos da direita, do centro e da esquerda, para negar o que ocorre nas eleições.
    Ou seja, dizer que Trump é cúmplice da Rússia e que todos os seus colaboradores estão envolvidos nessa farsa. Nada disso está comprovado, são informações inventadas pela CIA, que está se metendo na política doméstica, participando desta conspiração para negar a decisão constitucional.
    É um modelo que utilizaram no Brasil, no Paraguai e em Honduras. Países onde um setor dos governos atuais utilizou algum mecanismo falsificado para derrubar o presidente legítimo e tomar o poder. O caso que vemos agora nos Estados Unidos é inclusive pior, porque acusam o presidente eleito de traidor, de possuir ligação com um poder estrangeiro que é inimigo dos Estados Unidos. Barack Obama, um presidente que se meteu em todos os problemas mundiais, intervindo em todos os golpes, agora quer repetir o mesmo cenário em seu próprio país. E, pela primeira vez na história, temos uma versão do golpismo latino-americano dentro dos Estados Unidos.
    A imprensa burguesa, a imprensa liberal e a imprensa supostamente de centro-esquerda, estão implicadas, e repetem todas as acusações de traição, de conspiração russa, sem apresentar nenhuma prova definitiva, ou mesmo uma questionável, nada.
    Trump está respondendo de uma maneira específica, está preenchendo os cargos com militares e multimilionários, como contrapeso às instituições que Obama lançou contra ele. Existe uma disputa de poder interessante aí, uma luta de elites.
    Com os militares nomeados em cargos ligados à segurança, Trump está criando um poder de militares que poderiam resistir ao golpe organizado pela CIA. Com os multimilionários, está justificando suas relações com a Rússia, e as demais propostas que tem sobre a mesa. Precisamente, o novo chanceler é ex-diretor da Exxon, a empresa petroleira mais importante do mundo, bastante vinculada no comércio com a Rússia, e isso também significa marcar uma posição forte.
    Finalmente, Trump fez uma viagem por diferentes cidades, enchendo estádios, para reagir aos setores de esquerda e centro-esquerda que se lançaram como comparsas dos golpistas.
    Estamos numa situação que parece uma guerra civil clandestina, porque está ocorrendo, em grande parte, dentro da institucionalidade. Uma guerra do FBI contra a CIA, os militares contra os congressistas, os multimilionários entre si, um setor contra outro. E isso não fala em nenhum meio de comunicação, nem os críticos nem os que apoiadores do processo político atual.
    Acreditamos que esta é a realidade porque estamos acostumados a ver o que acontece na América Latina nos últimos anos, e observamos que há uma réplica norte-americana desse processo, que podemos entender melhor tendo estudado os últimos golpes institucionais latino-americanos.
    Pergunta: Outro tema relevante é a importância, para a União Europeia, dos movimentos políticos e das mudanças governamentais que vêm ocorrendo na Itália Como você vê isso?
    Petras: É uma mescla de forças. Nós temos, por um lado, o Movimento Cinco Estrelas (de Beppe Grillo), que é um partido heterogêneo, mais ou menos de centro-esquerda, mas que criticava o governo de Matteo Renzi, já que os ex-comunistas se direitizaram bastante, poderíamos até dizer que se tornaram de centro-direita. Além deles, temos a Força Social, o grupo de Berlusconi, e a Liga Norte, que são agrupações muito de direita. Então, houve uma aliança da centro-esquerda e da direita contra o governo de centro-direita de Renzi.
    Agora, entre os opositores de Renzi e os opositores do referendo há também muitas empresas locais, setores que temem uma centralização do poder, marginando as pequenas e médias indústrias e os profissionais que estão vinculados com o aparato do Estado, como consequência do referendo – do dia 4 de dezembro, sobre a reforma constitucional, que terminou com derrota do governo e renúncia do primeiro-ministro Matteo Renzi.
    Então, também existem forças na oposição que estão contra a União Europeia e a oligarquia de Bruxelas. Embora haja também outros grupos que continuam apoiando a União Europeia.
    Pergunta: Falando agora sobre a Turquia e a Síria. Por que esse empenho em derrubar Bashar al-Assad, que vemos por parte da União Europeia, dos Estados Unidos, da Turquia e de outros países? Como se vê a situação da Síria neste momento?
    Petras: Há várias razões. Por exemplo, a Turquia quer conquistar parte da Síria, o norte do país, e talvez também o do Iraque. Então, há uma política de imperialismo regional da Turquia, que vem tentando reivindicar algo da imagem otomana do passado. Os Estados Unidos, como na Líbia e no Iraque, quer derrubar o governo sem ter muita ideia de quem poderia substitui-lo. Porém, Israel também quer uma Síria dividida, fragmentada, frágil, e também está ganhando influência. A Arábia Saudita também está contra Bashar al-Assad, por ser um governo secular, democrático e popular, e apoia a sua queda por causa dessa inimizade.
    Então, há uma comunhão de vários elementos da reação mundial entre Israel, Turquia e Arábia Saudita, encabeçados, dirigidos e financiados tanto pela Arábia Saudita quanto pelos Estados Unidos, que já enviaram mais de mil soldados de forças especiais para apoiar os terroristas e mercenários, que são equivocadamente chamados de rebeldes. É uma das propagandas que a direita utiliza para disfarçar os terroristas invasores e mercenários.
    O problema é que a imprensa de centro-esquerda, como o Página/12 (da Argentina), como o La Jornada (do México), utilizam a retórica estadunidense, e citam reportagens produzidas em Washington. Devemos reconhecer a grande vitória de Bashar al-Assad e de seus aliados do Irã e do Líbano, com a ajuda da Rússia, ao reconquistar a cidade de Alepo.
    Enquanto as forças pró-Síria avançam e conseguem a liberação de Alepo, Washington facilita a saída dos terroristas do Iraque para lançar uma ofensiva contra Palmira, no sudeste da Síria. Não é casualidade o fato do Daesh (versão iraquiana do Estado Islâmico) conseguir mais de 4 mil homens para invadir, tomando uma grande parte de Palmira, onde há uma guerra feroz atualmente. De onde vieram? Como transportaram tantas armas pesadas rapidamente? Como entraram com elas no país? Obviamente, uma porcentagem importante dos terroristas vieram do Iraque e outros lugares, onde recebem apoio das forças especiais dos Estados Unidos.
    Pergunta: Para terminar, acredito que você também está trabalhando em outros temas, deixo este espaço em aberto para que você os comente, para poder arredondar toda esta entrevista…
    Petras: Sim, poderíamos terminar. Já falamos sobre os Estados Unidos e o Oriente Médio, e para terminar devemos discutir a experiência na Argentina. Os meios de comunicação nos Estados Unidos e na Europa, e talvez um setor importante da América Latina, pensavam que com o governo de Macri haveria um avanço importante da economia, aumentaria o desenvolvimento e se obteriam lucros enormes, o que se refletiria em apoio popular.
    Só que estas suposições não estão se concretizando. No momento, há mais de 400 mil desempregados novos, o número de pobres aumentou em 4 milhões. E o pior de tudo, do ponto de vista econômico poderíamos dizer que o endividamento e a diminuição dos impostos na Argentina não atraiu o capital, como se esperava. Inclusive, no último período houve uma fuga de capitais, de cerca de 12 bilhões de pesos, que foram a Londres, a Washington, e alguns estão se transferindo ao Uruguai.
    As exportações caíram em 6%, o PIB também teve queda, de 4,7%, e a dívida cresceu em 87 bilhões (de pesos). Então, a dívida aumenta, a economia está caindo e naturalmente nenhum capitalista racional vai investir na Argentina, especialmente com uma inflação de 4% ao mês, com uma dívida fiscal de mais de 9%. Não há nenhuma razão para que um capitalista minimamente inteligente pense em se envolver com a Argentina nestes próximos anos.
    Em termos sociais e econômicos, Macri é um desastre total. Ao contrário de qualquer outro governo que conhecemos, não há nenhum aspecto de seu pensamento e de suas práticas que se possa justificar. Mas a grande imprensa continua tentando inventar alguma coisa positiva. Os especuladores de Nova York (os fundos abutre) cobraram o seu dinheiro, encheram os seus bolsos foram embora – o discurso de Macri era o de que a Argentina pagaria os fundos abutre, numa crítica aberta à postura de Cristina Kirchner sobre o tema, e que isso traria novos investimentos ao país, mas isso não aconteceu.
    Então, o que podemos esperar? Que amplos setores da sociedade se posicionem contra Macri. Não há nenhuma possibilidade de manter ou ganhar alguma força no parlamento. Esperamos que o governo seja desestabilizado por seus próprios erros, ou que seja forçado a deixar o poder – como aconteceu com Fernando de la Rúa – por causa da comoção social. A instabilidade está crescendo. Macri se mantém no poder porque os burocratas corruptos da CGT (uma das centrais sindicais da Argentina) continua buscando uma saída negociada, que é impossível. Se não fosse pelos burocratas sindicais, este governo estaria paralisado internamente, e poderia cair.
    O que mantém Macri no poder não é a sua política, nem suas medidas em economia, tampouco o respaldo dos militares. O que o está salvando é o fato de que o movimento popular está buscando uma saída política, mas faltam os mecanismos do sindicalismo para realizar esta tarefa.
    Tradução: Victor Farinelli
    Texto original: http://www.lahaine.org/por-primera-vez-tenemos-una
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    quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

    Discurso e economia, irreconciliáveis no Brasil de Michel Temer

    Discurso e economia, irreconciliáveis no Brasil de Michel Temer