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domingo, 12 de julho de 2020

Por que são tão irrisórias as respostas dos palestinos à proposta de anexação israelense?


por Adnan Abu Amer [*]
O exército israelense está a preparar-se para anexar a Margem Ocidental (Cisjordania) e para as reacções dos palestinos, embora seja provável que os apelos para que se tomem medidas contra o Estado de ocupação sejam inúteis nas circunstâncias actuais.

De facto, é pouco provável que os palestinos participem em actividades contra Israel por diversas razões, sendo as principais a recusa da Autoridade Palestina (AP) à resistência armada (o Presidente Mahmoud Abbas está disposto a frustrar os ataques contra o Estado colono), a má situação económica e o temor de Fatah de que o Hamas assuma o controle da Margem Ocidental.

A contagem regressiva para a anexação começa no início de Julho, e os serviços de segurança israelenses crêem que se a anexação ocorrer será renovada a resistência armada tanto na Margem Ocidental como em Israel e isso poderia levar ao colapso da Autoridade Palestina. Poderia estourar uma nova Intifada.

O exército e os serviços de segurança israelenses têm considerado, obviamente, a possibilidade de uma escalada posterior a anexação, e estão a treinar para fazer frente aos diferentes cenários que poderiam surgir nos territórios palestinos ocupados. Os israelenses estão muito preocupados com os custos dos planos do governo tanto em termos financeiros e económicos como em termos de segurança e escalada no terreno.

Os especialistas em segurança e economia israelenses estimam que custará ao Estado cerca de 288 milhões de dólares fazer frente a oposição palestina à anexação. Em suma, baseado nos últimos dados, desestabilizaria a economia israelense. Ademais, no pior dos casos, o recrutamento de tropas adicionais necessárias no território custaria uns 28,8 milhões de dólares por batalhão; cada batalhão operacional custa 17 milhões de dólares ao ano, mais 11,5 milhões de dólares a título de salários.

Durante a Operação Escudo Defensivo em 2002, só na Margem Ocidental, as Forças de Defesa de Israel haviam recrutado cinco divisões, três regulares e duas de reserva, e cada reserva tinha de 20 a 25 batalhões, com um custo de milhões e milhões de dólares. Além desses gastos, também estavam os custos da polícia de fronteiras. Quanto mais durar a Intifada, mais custará.

Além disso, serão necessários milhões de dólares para melhorar a infraestrutura e proporcionar armas e munições específicas aos soldados e franco-atiradores para as demonstrações. O pesadelo de segurança israelense é que as forças de segurança palestinas estão a unir-se às operações contra os colonos ilegais e os movimentos do exército nas estradas principais da Margem Ocidental. Se isso ocorrer, os israelenses seriam obrigados, segundos os analistas, a mobilizar 10 batalhões de reserva para o final de 2020, porque nesse caso os palestinos não terão nenhuma razão para deter suas operações contra Israel.

Entretanto, não são essas previsões que mais preocupam os israelenses que se opõem à anexação; todo o projecto lhes parece prejudicial, tanto do ponto de vista moral e político como do ponto de vista da segurança. Nada é gratuito na política e o plano de anexação logo se converteria numa dor de cabeça para Israel.

O que mais preocupa é que poderia conduzir a um enfrentamento armado na fronteira norte do Líbano e a acções ofensivas dos cidadãos palestinos na própria Israel, como ocorreu no princípio da segunda Intifada (Al-Aqsa), o que seria ainda mais custoso. Também poderia ter consequências regionais.

É preciso reconhecer que a AP não quer realmente cortar seus laços com Israel e não quer perder seu poder político e económico como resultado de uma escalada generalizada. Mas a principal ameaça para Israel não é a AP, e sim a opinião pública palestina. Esse é um verdadeiro desafio, e a AP terá dificuldades para cumprir sua promessa de que o cesse da cooperação em matéria de segurança com as autoridades de ocupação não será acompanhado de uma onda de escalada.

A tensão na Cisjordânia e a morte de um soldado da Brigada Golani golpeado por uma pedra na cidade de Ya'bad, sugerem que estão se preparando operações de resistência armada, sejam ou não escaladas organizadas. O ataque ocorreu durante um período relativamente tranquilo para Israel, que experimentou muito poucos ataques hostis, embora tenha havido alguns lançamentos de pedras e cocktails molotov. Estes últimos incidentes enviaram uma mensagem a Israel de que qualquer confrontação com a resistência palestina levará a novas tensões e problemas de segurança.

A relativa calma que tem prevalecido na Margem Ocidental durante o último decénio também levanta interrogantes sobre a cooperação da Autoridade Palestina com Israel e sua própria estabilidade económica. Apesar de do status quo político com Israel, a época presidencial de Abbas, que dura desde 2005, se caracterizou por crises persistentes: Israel lançou três importantes ofensivas militares contra Gaza em 2008-2009, 2012 e 2014; o "levante das facas" de 2015; a crise da mesquita de Al-Aqsa de 2017; a transferência da Embaixada dos Estados Unidos de Tel Aviv à Jerusalém em 2018; e os recentes acontecimentos dramáticos sobre o "acordo do século" e a crise do coronavírus.

As advertências estratégicas de Israel pontuaram estas crises para evitar que degenerem num levante armado da magnitude da Intifada de Al-Aqsa de 2000 ou num terceiro levante popular da magnitude da Primeira Intifada de 1987. Mas a ameaça de uma nova intifada não se materializou. Isso nos leva a questionar o que poderia ser chamado de o estranho silêncio e o profundo ódio da AP à luta armada contra Israel, assim como seu temor de que o Hamas se fortaleça e assuma o controle da Cisjordânia.

A ausência de uma autêntica resposta palestina à agressão israelense se deve em grande medida ao fato de que o povo já não confia em seus líderes. Em sua opinião, os altos funcionários da AP são corruptos e constituem um obstáculo para o renascimento das instituições políticas palestinas. As sondagens de opinião dão uma clara indicação dessa desconfiança, com mais de 60% dos palestinos esperando ansiosamente a saída de Mahmoud Abbas. A AP não pode mobilizar o apoio público às acções que promove e isso explica porque as reacções oficiais à anexação proposta por Israel são tão inconsistentes.
26/Junho/2020

[*] Dirige o Departamento de Ciências Políticas e Meios de Comunicação da Universidade de Educação Aberta Umma, em Gaza, aonde dá conferências sobre a história da causa palestina, segurança nacional e Israel. Tem um doutorado em história política da Universidade de Damasco e publicou vários livros sobre a história contemporânea da causa palestina e sobre o conflito árabe-israelense. Também trabalha como investigador e tradutor para centros de investigação árabes e ocidentais, e escreve regularmente para periódicos e revistas árabes.

A versão em castelhano encontra-se em redroja.net/...


Este artigo encontra-se em https://resistir.info/ .

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Corrupção e ocupação: Israel mostra sua verdadeira essência


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No final de maio, as autoridades israelenses confirmaram que a Autoridade Palestina da Cisjordânia, liderada pelo Fatah e Mahmud Abbas de Ramallah, estava encerrando a coordenação de segurança com Israel. O relacionamento entre a ANP e o Estado de Israel chegou ao fim após o Knesset, o Parlamento de Israel, fixar a data para a anexação unilateral e ilegal dos territórios ocupados da Cisjordânia e do vale do Jordão: julho.
Quando do lado palestino havia uma mão estendida para a compreensão, quando até o Hamas, o grupo mais radical e 'o coco', ao qual todos culpam os males da região, aceitaram a 'solução de dois estados'. Nas fronteiras de 1967, os sionistas decidiram dinamizar todas as possibilidades de coexistência ; e é que a anexação de territórios por Israel poderia espalhar toda a região. Uma terra especialmente importante que representa metade de toda a terra arável da Palestina. Embora a Jordânia seja um dos poucos países árabes a ter abertamente acordos com Israel, o rei Abdullah II declarou, em uma entrevista para Der Spiegel, que se os israelenses anexarem definitivamente os territórios ocupados em julho, eles provocarão um "conflito maciço"
Os sionistas, não em vão apoiados de fora principalmente por protestantes e evangélicos, apenas entendem o mundo como algo que lhes pertence , sendo incapazes de entender que existem comunidades com outra concepção de vida que se estabeleceram na área por muito mais tempo. E, embora se escondam atrás do 'anti-semitismo' para justificar seu respeito nulo pelo direito internacional, a coexistência e a vida de não-judeus, não há nada mais anti-semita do que expulsar os árabes semitas indígenas para entregar esse território a 'seus próprios ' ; mesmo que sejam poloneses, argentinos, etíopes ou de qualquer outra parte do globo.
Alberto Rodríguez García, jornalista especializado no Oriente Médio, propaganda e terrorismo
Alberto Rodríguez García, jornalista especializado no Oriente Médio, propaganda e terrorismo
Os israelenses sempre tiveram em mente recriar o Oriente Médio de acordo com sua conveniência; nunca se integre à dinâmica existente
Israel sente a capacidade de anexar territórios, como se tivessem algum direito divino sobre eles, porque eles têm a aprovação de Donald Trump, o megalomaníaco que se considera 'xerife' do mundo. E é por causa de Donald Trump que Tel Aviv tem pressa de anexar os territórios ocupados, temendo que Joe Biden esteja apostando na solução de dois estados por puro pragmatismo, pois parece ter conselheiros mais sérios do que o atual presidente. Isso não muda que a política de Biden no Oriente Médio seja (para vencer as eleições) a mesma dos Estados Unidos. até agora; com apoio cego ao estado de Israel. Mas a mudança de presidente em Washington forçaria as autoridades israelenses a serem mais restritas em seus métodos, sem o apoio atual para mais territórios do que os já ocupados.
Israel nunca esteve no negócio de fazer sua parte na solução de dois estados. Não foi nem pelo trabalho de aceitar o direito de retorno das centenas de milhares de palestinos deslocados cuja diáspora agora chega a milhões. Um direito de retorno estabelecido pela Resolução 194 da ONU e endossado pela Convenção de Genebra. Você não pode falar sobre um relacionamento bilateral ponto a pontoquando nos territórios ocupados a população palestina sofre cortes no fornecimento de água, enquanto os colonos não. Você não pode falar de um relacionamento bilateral ponto a ponto quando os palestinos são limitados em seus movimentos, com controles estritos, enquanto os colonos não o são. Os israelenses sempre tiveram em mente recriar o Oriente Médio de acordo com sua conveniência; nunca se integre à dinâmica existente.

Um estado corrupto

E embora os israelenses pensem que seu modelo é o único válido - se não o melhor - a verdade é que seu estado é sustentado por supremacia e corrupção. Após três eleições e quase 500 dias sem governo, 18 meses, Benjamin Netanyahu tornou-se primeiro ministro novamente. Benjamin Netanyahu, que não hesita em afirmar que "Israel não é o estado de todos os seus cidadãos, mas o estado-nação dos judeus" , e que ele é capaz de questionar o mesmo sistema judicial do qual ele se beneficia há anos agora do que aquele que é. o centro das atenções é ele, sendo julgado por suborno, fraude e abuso de poder.
Alberto Rodríguez García, jornalista especializado no Oriente Médio, propaganda e terrorismo
Alberto Rodríguez García, jornalista especializado no Oriente Médio, propaganda e terrorismo
Os sionistas tentarão expandir no menor tempo possível, tanto quanto possível, as fronteiras de Israel; como se o direito internacional não significasse nada e como se os palestinos não existissem
Ainda é poético, de certa forma, ver o primeiro-ministro de Israel, após 11 anos consecutivos no poder (e somando-se), julgado em territórios de Jerusalém ocupados desde 1967, questionando o funcionamento de seu próprio sistema.
Egito e Arábia Saudita optaram por se abrigar sob o guarda-chuva de Israel, o Líbano está passando por uma crise econômica sem precedentes, a Síria está tentando se recuperar da guerra enquanto a economia enfraquece, o Iraque está tentando recuperar a estabilidade política, o Irã teve que fechar fileiras e o mundo está pendente. somente a partir do coronavírus. Os sionistas sabem disso, e é por isso que tentarão expandir o máximo possível as fronteiras de Israel o mais rápido possível; como se o direito internacional não significasse nada e como se os palestinos não existissem. Julho será quando Israel decidir aniquilar permanentemente toda a esperança de paz, e desta vez eles não poderão culpar o Hamas ou o 'anti-semitismo'.
As declarações e opiniões expressas neste artigo são de exclusiva responsabilidade do autor e não representam necessariamente o ponto de vista da RT.

sábado, 1 de fevereiro de 2020

Marcelo Buzetto: “Só a legítima luta do povo palestino pode garantir a construção de um Estado Independente”


Marcelo Buzetto: “Só a legítima luta do povo palestino pode garantir a construção de um Estado Independente”

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Sob o pseudônimo de “paz”, os planos de Donald Trump para o Oriente Médio na verdade equivalem a uma rendição da Palestina e uma nova guerra na região.
Marcelo Buzetto*

Foto: Mohammed Salem/Reuters
SÃO PAULO – Violando todas as leis, procedimentos e princípios que regem o direito internacional e a própria Carta de fundação das Nações Unidas, o governo dos EUA, mais uma vez, tenta intervir para impor uma “solução” para um conflito que tem origem na colonização sionista do território da Palestina. O presidente Trump, após encontro realizado no Bahein em 2019, tem propagandeado aquilo que denomina “Acordo do Século”, que seria a “última oportunidade” dos Palestinos para garantir a paz e um Estado independente. Trump não está sozinho nesse empreendimento. Tem o apoio do governo de Israel e de muitas monarquias árabes, como Bahrein e Arábia Saudita. Essas monarquias reacionárias e pró-imperialistas, junto com Israel e EUA vem tentando, há décadas, seduzir e cooptar setores do movimento nacional palestino, em especial da burguesia palestina, oferecendo dinheiro, vantagens, privilégios e “oportunidades de negócios”. Dessa vez Trump oferece “investimentos” da ordem de 50 bilhões de dólares para a constituição de um “Estado Palestino”, de uma “Nova Palestina”.
O encontro realizado ano passado foi boicotado e denunciado por todas as facções e partidos políticos palestinos, inclusive pelo presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas. Sem a presença dos principais protagonistas, foi um encontro que beirava ao ridículo, com bilionários e empresários discutindo o futuro de um povo que luta por soberania e independência nacional desde o início do século XX. Mesmo sem a presença de nenhuma força política palestina, Trump insiste na ideia irrealizável, impossível de acontecer na atual conjuntura.
O “Acordo do Século” – que os palestinos estão chamando de “Roubo do Século” – é só mais um instrumento de propaganda para manter em evidência na mídia a imagem de um presidente que perde popularidade e está envolvido com um processo de impeachment dentro de seu país. Pura peça de propaganda para desviar a atenção do povo dos EUA e da chamada “comunidade internacional” dos principais problemas causados pela desastrosa política de Trump. Mas onde tem bilhões de dólares, sempre tem alguém pensando: “Não seria interessante aceitar isso?”, “Pelo menos os palestinos teriam paz e tranquilidade”. Mas quem pensa assim já está derrotado, pois o conjunto das forças da resistência palestina já iniciaram um processo de mobilização popular e denúncia internacional das intensões de Israel, EUA e seus aliados regionais. A Autoridade Palestina, sob pressão permanente depois do fracasso dos Acordos de Oslo (1993/1994), se juntou ao Hamas, à Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP), à Jihad Islâmica, à Frente Democrática para a Libertação da Palestina (FDLP), à FATAH e praticamente todas as organizações sociais, políticas, populares e culturais palestinas para combater mais essa violação da soberania e autodeterminação desse heroico povo.
A proposta absurda, inviável e sem nenhum respaldo do direito internacional  desconsidera todas as resoluções aprovadas sobre a Questão Palestina no interior da ONU. Pelo plano de Trump Israel continuaria tendo o controle do suposto “Estado Palestino” por ar, terra e mar, os palestinos que vivem em Israel perderiam seu direito de voto, o território do novo estado seria 15% do total da Palestina histórica, ou seja, 10% menor do foi aprovado em 2012 numa sessão da Assembléia Geral da ONU,  e 31% menor do que foi aprovado na Resolução 181 – Plano de Partilha da Palestina (29/11/1947, conhecida como solução de dois estados). Ou seja, é muito pior do que todas as decisões já existentes, que também retiram direitos inalienáveis do povo palestino, como o direito de retorno dos refugiados. Desde 1949, a partir da Resolução 194 da ONU está assegurado o direito de retorno, mas essa questão nunca entrou em debate na proposta de Trump. Esse direito seria anulado, esquecido. Também Trump exige que os palestinos reconheçam o caráter judaico do Estado de Israel e Jerusalém como sua “capital eterna e indivisível”. E promete uma capital do “Estado Palestino” à leste de Jerusalém, mas muito a leste. Também nenhuma linha sobre a libertação dos presos políticos palestinos em cárceres israelenses, que chegam a quase 7 mil. Em qualquer situação de negociação entre um movimento de libertação nacional e uma potência colonialista, esse é um tema crucial, afinal de contas, muitos dos melhores quadros dirigentes da revolução palestina se encontram nas prisões. Cessar as torturas e libertar os presos políticos é condição indispensável para iniciar qualquer diálogo entre as forças em conflito. Mas a proposta de Trump nunca foi um acordo, é uma imposição, é uma intimidação, mas nasce fracassada.
Da transferência da Embaixada de Tel Aviv para Jerusalém até este plano absurdo, Trump nunca esteve – nem estará – interessado numa paz entre palestinos e israelenses. O povo palestino, e suas legítimas organizações, são os únicos que tem condições de assegurar uma paz justa e duradoura, mas isso virá com o fim do colonialismo sionista-israelense na Palestina, com a reparação histórica a esse povo, que significa a devolução de suas terras e do território, do Mar Mediterrâneo ao Rio Jordão, para que seja construído um Estado único, em todo o território onde hoje se encontra Gaza, Cisjordânia, Jerusalém ocupada e Palestina ocupada em 1948, também conhecida como “Estado de Israel”. Um Estado Palestino onde judeus, cristãos, muçulmanos, drusos e ateus, enfim, cidadãos de qualquer religião ou posição política tenham direitos iguais, numa república democrática, popular e anticolonialista/anti-imperialista. Esse é o desejo da ampla maioria dos palestinos, e será realidade no final desse caminho heroico construído pela luta de libertação nacional na Palestina.

* – Marcelo Buzetto é analista de política internacional, mestre e doutor em Ciências Sociais PUC/SP, pós-doutorando em Ciências Sociais UNESP Marília, autor do livro “A Questão Palestina: guerra política e relações internacionais” (Editora Expressão Popular), membro do Conselho Acadêmico do Instituto Brasil-Palestina (IBRASPAL).
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terça-feira, 16 de abril de 2019

Palestina,segue a resistência

Sangue e resistência*

 Jorge Cadima     05.Abr.19     Outros autores
A resposta sionista ao protesto e à resistência do povo palestiniano é, ainda e sempre, a violência e o massacre. Em cada protesto há dezenas de mortos e centenas de feridos, metódica e friamente alvejados por atiradores de elite. O Conselho de Direitos Humanos da ONU denuncia esses crimes de guerra. Mas os EUA e seus aliados dão total cobertura ao genocídio sionista.
Mais um fim-de-semana sangrento na Palestina. Dezenas de milhar de palestinianos manifestaram-se, exigindo os seus inalienáveis direitos nacionais. Israel reprimiu, matando cinco manifestantes e ferindo mais de 200. Fontes do Ministério da Saúde palestiniano na Faixa de Gaza informam que pelo menos 24 manifestantes foram feridos a tiro na cabeça ou pescoço. São crimes de guerra deliberados. É assim há um ano, desde que no Dia da Terra (30 de Março) de 2018 começou a Grande Marcha do Retorno. É assim há mais de sete décadas, desde a fundação do Estado Sionista sobre os escombros da Nakba (Catástrofe) de 1948.
O Conselho de Direitos Humanos (CDH) da ONU nomeou uma Comissão de Inquérito independente para investigar a sangrenta repressão israelita contra a Grande Marcha do Retorno. Em 22 de Março o CDH aprovou o seu Relatório, confirmando que entre 30 de Março e o fim de 2018, foram mortos 189 palestinianos, dos quais 183 a tiro, pelas «forças de segurança de Israel». De entre os feridos, em número superior a 20 mil, mais de 6100 foram atingidos a tiro. Segundo o Relatório, «vítimas que se encontravam a centenas de metros das forças israelitas e visivelmente empenhados em actividades civis foram alvejados […]. Jornalistas e pessoal médico claramente assinalados como tal foram atingidos a tiro, tal como crianças, mulheres e pessoas com incapacidades». A Comissão fala em «violações do Direito Internacional» e pede que os responsáveis sejam enviados a tribunais internacionais e sancionados. Na votação do Relatório houve 8 votos contra e 15 abstenções, de governos de países que enchem a boca com palavras como ‘democracia’ e ‘direitos humanos’: países da NATO e da UE e governos seus vassalos, chegados ao poder pela via do golpe, como na Ucrânia e no Brasil. O Ministro dos Negócios Estrangeiros inglês, Jeremy Hunt, passou um cheque em branco a Israel. Desagradado por o CDH ter sempre a situação nos territórios palestinianos ocupados nas suas Ordens de Trabalho, afirmou que o governo inglês «opor-se-á a todas as iniciativas do Conselho de Direitos Humanos da ONU para debater abusos de direitos humanos na margem Ocidental ou Faixa de Gaza» (The Jewish Chronicle, thejc.com, 21.3.19).
Israel é um agente de guerra, morte e agressão no Médio Oriente. Foi sempre ponta de lança dos seus patronos imperialistas para a ingerência na região do planeta mais rica em recursos energéticos. Mas estamos perante uma viragem. O governo mais extremista da História de Israel tem luz verde de Trump para todos os seus crimes. Décadas de resoluções da ONU são rasgadas com impunidade pelos EUA (o ‘nosso aliado da NATO’, com quem ‘partilhamos valores’). É assim sobre Jerusalém, sobre o Irão, agora na tentativa de legitimar a ocupação por Israel, há mais de meio século, dos Montes Golã sírios. Nas eleições deste mês em Israel, os candidatos e partidos sionistas disputam entre si o lugar de maior ‘falcão’. Advogam abertamente a anexação formal da Margem Ocidental. Ameaçam o Irão. Podemos estar em vésperas de novas Nakbas.
Mas a resistência heroica dos povos do Médio Oriente, com destaque para a Palestina e Síria, é fonte de inspiração para os povos de todo o mundo. Aponta o caminho para alcançar a viragem na situação mundial, de que a Humanidade precisa tão urgentemente.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2366, 4.04.2019
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