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quinta-feira, 19 de setembro de 2019

A desinformação dos media dominantes acerca da vida internacional – Mentiras, manipulações, silêncios

A desinformação dos media dominantes acerca da vida internacional
– Mentiras, manipulações, silêncios

por Investig'action













   Os media dominantes, sem complexos e muito para além da questão europeia, mentem, deformam, dissimulam com mais ou menos subtileza, alinham (quando não são dominados pelo recrutamento selectivo de seus editorialistas) com os interesses dos grupos que os financiam. O resultado é um desconhecimento grosseiro da opinião pública sobre a realidade das relações internacionais e um confinamento mental dos cidadãos no pré-estabelecido. Como pode alguém surpreender-se com o periódico reavivar do chauvinismo estreito e do nacionalismo arrogante, frequentemente acompanhado de racismo, pelas grandes potências? Os poderes "ensinam" de facto o desprezo pelos outros e um desejo de poder muito maior que a solidariedade internacional [1]

O paradoxo é profundo num tempo de globalização desejada pelo mundo dos negócios e seus auxiliares estatais, o que significa que nenhuma economia nacional e nenhuma pessoa podem escapar à interferência estrangeira e ao impacto dos interesses transnacionais sempre presentes em todos os lugares: qualquer regime, qualquer que seja, passa por uma espécie de "mestiçagem". O Estado mais apegado à soberania nacional e o povo mais patriótico são vítimas de um ambiente internacional desfavorável e, apesar de tudo, são transformados pela penetração de interesses que não são os seus. Este é particularmente o caso dos poucos bastiões que se reivindicam do socialismo, muitas vezes degradado por sanções de todos os tipos (embargos, bloqueio de activos financeiros, discriminações comerciais, pressões políticas e ideológicas etc.), que podem chegar até à sabotagem e intervenção militar.

Os grandes media ocidentais ocultam o que pode constituir suas culpas ou seus vexames, por causa dos equilíbrios de poder com os regimes de que não gostam: a forma como apresentam a Coreia do Norte desde há mais de meio século torna-se a caricatura mais básica. O mesmo acontece com o chavismo na Venezuela, com o Vietname e com Cuba! A desinformação é a regra: um simplismo doentio domina a luta que opõe um "campo" a outro, num nevoeiro mantido por uma conversa incessante sobre "valores" e "ideias"! A adesão à ideologia dos gestores capitalistas, associada a uma "cultura descuidada, atrevida, faladora e narcisística", como escreve A. Accardo, [2] caracteriza certos espécimes das escolas de jornalismo, produtoras mais de habilidade do que de saber. Esse não é o caso de todo os jornalistas, mas, na precariedade, quase todos concordam em sofrer a trela mantida pelos "patrões"! [3]
(...)

Para todas as questões internacionais é feita quase que sistematicamente uma avaliação binária baseada nas noções (primárias e quase religiosas) do Bem e do Mal, regularmente confirmadas pelas correntes doutrinárias dos EUA. A transposição para a ordem interna é evidente: os media dominantes servem o Bem e aqueles que discordam situam-se no campo do Mal!

Enfim, todas as informações macroeconómicas situam-se dentro do quadro exclusivo do capitalismo e da sua gestão: os problemas peculiares ao socialismo, considerado "contra-natura", são sempre objecto de uma rejeição global. As controvérsias admitidas nos media dominantes situam-se apenas dentro do único sistema permitido, ou seja, na economia de mercado e na sua lógica à qual ninguém pode escapar sob pena de desastre social. Não existe nenhuma alternativa e a história económica não tem lugar: está concluída. A prova deste fim da evolução foi trazida pelo fracasso das outras experiências que seria absurdo querer reproduzir "em casa": está fora de questão ter em conta as múltiplas agressões económicas e financeiras sofridas pela URSS, Cuba, Chile, Coreia do Norte, Venezuela, etc.

Denunciar a penúria "noutros lugares" (ou, em alguns casos, o sucesso de tal ou tal medida que seria necessário tomar "em casa") é o caminho para descartar as propostas das oposições na própria economia do país! Inclusive se os contextos estrangeiros são muito diferentes e racionalmente não transponíveis. Assim, favorece-se nos espíritos o conceito de "modelo" e "modelo-a-rejeitar". Todos os "especialistas" (seleccionados) convocados pelos editores principais obviamente confirmam-no em todas as ocasiões!

As regras seguidas

As notícias internacionais dos grandes media estão sujeitas a certas regras de "eficácia" propagandística, embora a equipe editorial se defenda declarando-se "ofendida" e vítima de populismo inaceitável quando questionada.

Uma breve exposição dos métodos seguidos é, no entanto, dificilmente contestável com boa fé.

O descritivo prevalece sistematicamente. Os eventos do dia não têm nem raiz nem história. O flash privilegiado, buscando a emoção, exclui a explicitação. Usa-se a imagem simbólica (por exemplo, uma criança ferida nas ruínas de um bombardeamento) ou um testemunho individual escolhido, como bastando para fazer sentido!
(...)

Cada acontecimento mediático é martelado durante um ou mais dias seguidos, com uma forte intensidade para impregnar os espíritos, desaparece abruptamente para dar lugar a outro que desaparece por sua vez: não há acompanhamento. O objectivo não é fazer as pessoas compreenderem o que se passa, mas "impressionar" a mente para fabricar a opinião desejada pelos poderes. Pode-se imaginar o dano intelectual que esse método produziria no campo da pedagogia escolar!

Todos os dias, existem vários acontecimentos nos ou entre os 200 estados que compartilham o planeta. Os media dominantes "vão às compras", à ordem do dia monopolizada pelas autoridades públicas e privadas, a fim de influenciar a opinião, seja para reforçar uma ideia geral recebida seja para agir sobre uma questão específica sobre a qual é necessário orientar. São escolhidos, por exemplo, eventos que reforcem a hostilidade à China ou à Rússia ou demonstrem que a polícia argelina sabe usar o bastão como a francesa e que não nos podemos deter nas condenações do governo francês pronunciadas pelas Nações Unidas ou o Parlamento Europeu por ocasião da repressão dos Coletes Amarelos em Paris!

Os acontecimentos não são retidos diariamente pelo seu interesse intrínseco, novidade, o seu significado maior ou menor, mas por sua "utilidade" na batalha local do momento (social, ideológica, institucional, etc). Trata-se de ilustrar com imagens internacionais "significativas" o que é "apropriado" pensar na ordem interna: o exercício mediático, de perfeita má-fé, é antes de tudo "pedagógico".

Na ordem internacional, as redacções dispõem de uma grande "liberdade": os cidadãos, na sua maior parte, não estão em condições de verificar o que é dito, ao contrário do que pode ser afirmado na ordem interna. Na massa de acontecimentos que ocorrem em todos os continentes, onde os cidadãos têm alguns meios de avaliação, sempre há alguns que basta referenciar e desenvolver para legitimar qualquer causa!

Ninguém é imposto objectivamente em detrimento de todos os outros! Jornalistas "responsáveis" [4] por serem hábeis, capazes de escolher os factos, mais os "sabedores" que oferecerão um pouco de música de objectividade, para bem orientar os debates e eventualmente desestabilizar o convidado com maus pensamentos, por excepção convidado expressamente para tornar credíveis os "habituais" "bem pensantes" porque a posição destes é conhecida com antecedência!

Está obviamente excluído que os dominantes sejam dominados, mesmo que acidentalmente (daí a raridade de uma passagem de TV ou rádio de um Bourdieu (no passado), um Onfray ou um Badie (actualmente), ou mais geralmente académicos em número capaz (desde que sejam solicitados) para fazerem frente a "avençados" do estilo Minc, Finkelkraut, BH Lévy e outros Zémour ou Ménard e de uma coorte de falsos especialistas mais ou menos economistas ou políticos, saídos de fundações e organizações fantasmas, sempre que sejam necessários!

Repetição é outra regra quando o facto tratado é potencialmente "persuasivo". (...) Assim, a maior ou menor intensidade repetitiva e o domínio dos horários e da preparação criam as condições para um respeito fictício por uma pseudo-"objectividade", altamente reivindicada pelos profissionais dos media. No entanto, o pluralismo não é essa "objectividade" inacessível, mas uma honestidade básica tendo em conta o maior número possível de eventos internacionais, dando-lhes um conteúdo explicativo.

O facto de, nos diversos canais de TV e rádio, a selecção das notícias internacionais estar estandardizada não seria a prova de uma vontade de formatar a opinião, mas, pelo contrário, o respeito por uma "Verdade" única face aos vendedores ambulantes de "notícias falsas", o que é uma triste farsa. Bastaria demonstrar a história das várias "verdades" falsas amplamente divulgadas e repetidas, por exemplo, sobre o exército iraquiano e "suas armas de destruição massiva" ou o "massacre" de Benghazi por mercenários do sr. Kadafi, origem da destruição da Líbia pela NATO.

Eventos internacionais "preferidos" pelos grandes media não são os movimentos populares quando carregam reivindicações sociais, a menos que ocorram em países "inimigos". O que é apresentado não são as pessoas, mas seus líderes que seriam "bons" ou "maus"!
(...)

Um facto nunca é "puro". Ele é sempre "tratado" pelo informante, que fabrica a impressão que o "informado" terá. O tom do comentarista, as palavras que ele usa, possivelmente a música de fundo que acompanha a imagem, a proximidade de outras informações que a contaminam, disfarçando segundo o critério dos media uma realidade crua que é dificilmente acessível.

Uma escrita "boa" é por função manipuladora: os adjectivos de qualificação são usados com oportunidade (um líder odiado que não se deixará de chamar "ditador"), a ironia é bem-vinda (especialmente para os pequenos Estados do Sul em que alguns aspectos podem parecer folclóricos), uma prudência austera é necessária (seja para o Vaticano ou para Israel). O estilo deve ir até à indignação (por violações de direitos humanos num país não ocidental ou por guerras destrutivas quando não são "justas" por exemplo, as da Rússia, e não as de uma coligação pró-ocidental, como no Iémen, cujos "danos colaterais" devem ser admitidos.
(...)

Para os media dominantes, um atirador de pedras contra a polícia de Paris ou contra a polícia da sra. Park (agora na prisão) em Seul [5] é um bandido, mas será um cidadão lúcido e corajoso. se for "gaseado" em Argel [6] ou em Caracas! Um manifestante morto ou ferido em Paris é apenas um "erro grave" de um comportamento individual no âmbito da manutenção da "ordem republicana", nos países menos apreciados como a Venezuela é o resultado da natureza repressiva do poder!

Estas práticas significam que os media dominantes estão necessariamente cada vez mais desacreditados (só 10% dos franceses ainda confiam neles), seja o Pravda do fim da URSS ou a BFMTV (canal de notícias francês) sob a presidência de Macron. No entanto, eles têm o "dever" de superar, através de uma variedade de diversões a sua falta de princípios, a incoerência dos seus julgamentos de valor e o enfraquecimento da cultura democrática de muitos jornalistas, muitas vezes seleccionados pela sua adequação às "normas" e ao seu servilismo oportunista! [7]

Algumas ilustrações

Na ordem interna, é o social que é objecto de todas as censuras e autocensuras, mas reivindicações diferentes, mesmo com reflexos no orçamento, contradizem de facto a lógica de um capitalismo sem escrúpulos que nunca cede quando se trata de dinheiro!

Na ordem internacional, da mesma forma, é neutralizado tudo o que diz respeito às transacções financeiras, imposto de "optimização", fenómenos de concentração, concorrência nunca livre e sempre distorcida! Convém tornar credível uma sociedade internacional "equilibrada", graças ao "livre jogo das leis do mercado" como sendo o melhor para o crescimento e o progresso. O coração do sistema é, portanto, cuidadosamente protegido pelos media dominantes.

A ordem da UE é objecto de todas as "precauções" dos media sejam quais forem as críticas que alguns lhe fazem. A UE, a Comissão e o BCE beneficiam da condescendência mediática, isto foi constatado quando o Estado grego se lhe opôs, também por ocasião do Brexit e das disputas italianas. Na França, o episódio do "Não" ao Referendo de 2005, apesar do apoio total e quase unânime dos media ao "Sim" e depois a manipulação parlamentar, foram apresentados de forma caricatural.

O tratamento dos paraísos fiscais e da evasão fiscal é extremamente complacente: há críticas dos media apenas contra algumas "ovelhas negras", mas nunca o julgamento feito ao sistema de fraude "legal" tolerado pelos Estados. Os casos "Paradise Papers" ou "Panama Papers" foram despolitizados ao máximo possível e as propostas de medidas para impedir estes movimentos financeiros não foram apoiadas.

Os jornalistas sujeitos às classes decadentes e corruptas têm, como elas, medo da verdade, como disse Jaurès em 1904! Eles pertencem a esse "extremo centro", no coração da ideologia servil do sistema mediático, uma opção que permite sucessivamente todas as adesões (Sarkozy, Holland e Macron, este último omnipresente em todas as suas facetas e em todos os canais), expressão de um "novo" mundo, perfeitamente análogo ao antigo. Envergando as vestes da "moderação" sobre as questões financeiras mais "delicadas", os media dominantes salvaguardam o liberalismo financeiro e o seu lugar fora de qualquer controvérsia política!

Para os observadores "honestos", como são os jornalistas dos grandes media, o mundo está dividido sem distinção entre dois tipos de Estado, dois tipos de sistemas socioeconómicos, liderados por dois tipos de líderes: os "bons" (EUA, mesmo com Trump, o capitalismo e os responsáveis alemães e britânicos...) e os "maus" (Rússia, China, Irão, além de Putin, os dirigentes do PC da China, etc). Os meios de comunicação não estabelecem diferenças: estes nunca conseguem nada, estão em permanente crise e ameaçam-nos perigosamente! Em suma, tudo ficaria bem no mundo se eles não existissem.

O delírio às vezes atinge novos patamares: nas últimas décadas, somam-se os absurdos acumulados contra a Coreia do Norte ou a Líbia!

Os media ocidentais não cessaram, por exemplo, de anunciar a morte do regime de Pyong Yang brandindo a ameaça que representava para a paz no mundo, encarnada pelo desfile militar, apresentado em todos os ecrãs, visivelmente a única actividade dos norte-coreanos fanatizados. A este espectáculo edificante, foram adicionados, até à reviravolta de Trump, comentários na televisão e na rádio pelos "especialistas" mais analfabetos sobre os horrores sem paralelo do regime norte-coreano.

A evolução dos Estados Unidos sobre o assunto colocou em reverso a desinformação europeia que então, com pesar, mudou de tom e ... de "especialistas", sem no entanto lembrarem os danos económicos, políticos e humanos de 70 anos de embargo!

Kaddafi, comparado a um louco perigoso, e a Jamahiriya líbia, não foram melhor tratados até a guerra de Sarkozy e B-H. Levy destruindo todo o país que oito anos depois ainda vive no caos! Os media preferem ainda hoje manter um silêncio quase total sem o menor arrependimento.

Por outro lado, o menor sobressalto positivo na Arábia Saudita, como a carta de condução para mulheres, é saudado como um grande avanço democrático! Dólares e petróleo assim obrigam!

Na África (especialmente de língua francesa), onde se multiplicam eleições presidenciais fraudulentas, os media ocidentais dominantes fazem prova de discrição: a indignação por fraude eleitoral é orientada noutras direcções! É que os media devem ser prudentes com os Bolloré e outros grandes grupos como o Total com interesses nessas terras difíceis e, portanto, são complacentes com as autoridades locais mais corruptas. [9]

Quando as tropas da NATO destruíram todo o Médio Oriente e continuam a fazê-lo com a Arábia Saudita no Iémen, é "explicado" que essas guerras são conduzidas de acordo com o direito humanitário, o que não é o caso dos russos na Síria, por exemplo, "aliado incondicional" do carrasco de Damasco! Os jornalistas não precisam se perguntar sobre o custo das"guerras justas", mas apenas sobre o das intervenções russas ou iranianas, cuja maleficência é óbvia!

A nova ditadura brasileira não preocupa os jornalistas especialistas da América do Sul. Por outro lado, a Venezuela chavista merece todas as acusações, embora o regime bolivariano tenha tirado, antes de sofrer a crise actual em grande parte devido às políticas americanas, milhares de venezuelanos de miséria!

Está claro para os media dominantes que nenhuma experiência de orientação socialista pode beneficiar do mínimo de crédito, porque, é desnecessário dizer, nenhuma "deve" ter sucesso!

De Allende a Maduro, passando pelo regime cubano, foi mediaticamente proclamado que o fracasso estava programado. E são tantos os golpes na esquerda ocidental quando esta é solidária!
(...)

Tendo necessidade de inimigos, o sistema mediático cultiva um espírito de "guerra fria" e um mundo unipolar cujo centro é o Ocidente, contra qualquer avanço de uma multipolaridade, no entanto favorável às trocas e à manutenção de uma paz justa.

A NATO (ao contrário das Nações Unidas) nunca é questionada, apesar do protagonismo desempenhado pelos Estados Unidos e pelo seu unilateralismo agressivo (800 bases militares em todo o mundo). Pelo contrário, é apoiada pelos media, como vimos na crise ucraniana, na reintegração da Crimeia na Rússia e na agressividade polaca ou báltica em relação ao Kremlin.

Quanto aos direitos humanos e humanitários, são tratados de maneira muito diferente, conforme os casos.

Às vezes, ocupam o essencial ao ponto de subordinarem qualquer outro problema; são esquecidos quando os poderes que os violam estão associados ao Ocidente, como é o caso da Turquia de Erdogan, um pivô da Aliança Atlântica, inclusive quando massacrou o povo curdo. O mesmo vale para os direitos dos migrantes dos quais se esquece que são humanos, postos de parte perante uma política securitária cada vez mais invasiva.

Estas orientações gerais não excluem expressões pontuais de posições críticas, fazendo acreditar que não há monolitismo, ilusão que tem o "mérito" de reforçar a credibilidade de um pensamento conformista, mas renovado, se o compararmos, por exemplo, com a época gaulista dos primórdios da V República Francesa. A falsa "elite" que exerce a sua hegemonia através dos media tem, é necessário reconhecê-lo, a capacidade de inovar e oferecer à opinião pública as variações que lhe permitem perdurar. [9]

Assim, dia após dia, desenvolve-se em contínuo a desinformação que formata os cidadãos, utilizando o subterfúgio do internacional, para adoptarem uma posição "politicamente correcta" na ordem interna. É este o único objectivo do tempo e lugar limitados concedidos às relações internacionais. Essa propaganda intensa é na "sociedade democrática", como diz Noam Chomsky, o que a matraca é no Estado totalitário! Se a matraca é dolorosa, a prática dos media ocidentais tem a "virtude" de fabricar em cadeia imbecis e ignorantes que é difícil de curar.

Parafraseando G. Bachelard que afirmava "não há ciência, apenas crítica", podemos concluir "não há informação autêntica, apenas crítica", ou seja, em ruptura com o Estado e o dinheiro.

Mas como conseguir isso? No contexto do sistema, é óbvio que o realismo proíbe qualquer solução.

Mas "realismo", responde Bernanos, "é o bom senso dos patifes".

Aqui chegámos!
[1] Lembremos como os "boatpeoples" de vietnamitas anticomunistas foram "aplaudidos", ao contrário dos refugiados chilenos, por exemplo, expulsos por Pinochet, acolhidos por comunistas e progressistas europeus.
[2] A. Accardo. Pour une socio-analyse du journalisme, Agnone. 2017.
[3] Ver A. Lancelin. La pensée en otage. S'armer intellectuellement contre les médias dominants, Les liens qui libèrent, 2018.
[4] Essa categoria muito privilegiada e muito restrita, adquirida no sistema, deve ser distinguida da massa de jornalistas mais ou menos precários que não podem realmente exercer a sua profissão (metade dos jornalistas franceses ganha o salário mínimo, totalmente dependentes de seu empregador).
[5] O movimento popular na Coreia do Sul, que, de maneira massiva e pacífica, conseguiu impor a demissão de Mrs. Park em 2017, foi praticamente ignorado na Europa. O "exemplo" era "perigoso"!
[6] Como é tradição dos governos e dos media franceses, a posição em relação aos eventos na Argélia é a de pôr "dois espetos no mesmo lume": garantindo que qualquer que seja o seguimento poder optar claramente por uma força ou outra (veja-se a "cautela" usada na guerra civil entre os islamitas e o exército nos anos 90 ou nas eleições presidenciais de abril de 2019).
[7] Quando os jornalistas mais "eminentes" (os únicos responsáveis pelo discurso dominante) são postos em causa pelo seu seguidismo, seu espírito de cortesãos e a sua agressividade (inclusive no Serviço Público) contra os oponentes, eles tendem a fazer bloco, aproveitando o silêncio forçado dos seus colegas mais precários. Eles denunciam "conspirações" e "populismo", sem dar qualquer definição. Esse espírito de corpo é pré-fabricado nas escolas de jornalismo, onde um certo "know-how" é ensinado acima de tudo o resto, sem exigências da necessária cultura crítica.
[8] As críticas são muito mais firmes quando se trata de certos países mais distantes da Europa, como por exemplo Sudão ou Argélia. Existe, portanto, uma visão muito diferente das práticas internas idênticas dos Estados, de acordo com sua orientação externa. Ver R. Charvin. Nouvelle "guerre froide" ou nouveau type de belligérance? in Relations Internationales (Paris), n° 108. janeiro a março de 2017.
[9] Felizmente, "A história é um cemitério de elites", como escreve Thomas Bo Homore (Elites and Society, Londres, Watts, 1964).


A íntegra do original encontra-se em www.investigaction.net/...

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

"O jornalismo real atua como agente do povo, não do poder"

"O jornalismo real atua como agente do povo, não do poder"

por John Pilger
entrevistado por Eresh Omar Jamal

John Pilger.
John Pilger, correspondente estrangeiro, fez a cobertura da Guerra de Libertação de Bangladesh. Sua reportagem de primeira página, "Morte de uma Nação", alertou o mundo para a luta de vida ou morte do povo bengali. Pilger tem sido correspondente de guerra, autor e realizador de documentários que ganhou duas vezes o mais alto prémio do jornalismo britânico. Pelos seus documentários, ganhou o Prémio da Academia Americana de Televisão, um Emmy, e o Prémio da Academia Britânica, atribuído pela Academia Britânica de Artes Televisivas. Recebeu o Prémio da Paz e a Medalha de Ouro das Nações Unidas. O seu documentário de 1979, "Camboja Ano Zero" é considerado pelo Instituto do Filme Britânico um dos 10 documentários mais importantes do século XX. É autor de numerosos best-sellers, incluindo Heroes, A Secret Country, The New Rulers of the World e Hidden Agendas. Numa entrevista (eletrónica) exclusiva com Eresh Omar Jamal de The Daily Star, Pilger fala da cobertura que fez da Guerra de Libertação do Bangladesh, do estado atual do jornalismo e das mudanças políticas atuais que ocorrem no Ocidente.
Num artigo para The Guardian , em 2008, escreveste que, quando foste fazer a cobertura da Guerra de Libertação do Bangladesh em 1971, Sheikh Fazilatunnesa Mujib, mulher de Bangabandhu Sheikh Mujibur Rahman, te perguntou: "Porque é que vieste quando até os corvos têm medo de voar sobre a nossa casa?" Mas não escreveste a resposta. Podes revelar qual foi? 

Passei grande parte de 1971 em Calcutá, noticiando os sete milhões de refugiados que chegavam do então Paquistão Oriental. O percurso deles era ao longo do que os repórteres chamavam um "corredor de sofrimento". No ano anterior, eu havia assistido à devastação causada pelo grande maremoto que engolira o desprotegido Golfo de Bengala. O que me chocou foi a falta de real preocupação do governo de Islamabad, que enviou o exército para impor a lei marcial ao povo de Bengala Oriental.

Era um canto perigoso do mundo para pessoas comuns e para os dissidentes do poder colonial que ali viviam; também era um local inspirador onde, tinha a certeza, havia um Bangladesh a lutar para nascer.

Gosto do povo bengali; admiro a sua resistência, o seu calor e a sua inteligência. No Verão de 1971, um jovem advogado idealista, Moudud Ahmed (que, mais tarde, ocupou um alto cargo no Bangladesh), levou-me à noite à Radcliffe Line que dividia a Índia do Paquistão Oriental. Marchámos atrás de um guia armado, com uma bandeira verde e vermelha do Bangladesh e escutámos os lancinantes relatos das atrocidades paquistanesas e vimos as aldeias destruídas.

O meu subsequente relato no London Daily Mirror e as fotografias do meu colega Eric Piper forneceram provas substanciais de que o governo de Islamabad estava a travar uma guerra genocida em Bengala.

Podes dar uma imagem geral do que viste acontecer em Bangladesh em 1971, e depois quando voltaste a fazer a cobertura da fome no Bangladesh em 1974? 

À medida que íamos de aldeia em aldeia, esperando que os jatos passassem, os indícios eram cruéis. Onde houve comunidades hindus, cujo lugar étnico na Bengala Oriental muçulmana se tinha mantido, delicada mas pacificamente, desde a Partição, só havia agora ruínas. Onde quer que os punjabis atacassem, era o mesmo padrão de massacre de bengalis, muçulmanos e hindus. Numa aldeia, as pessoas haviam sido enterradas vivas na lama. De vez em quando, no meio daquela desgraça, eu ouvia as palavras desafiadoras " Joi Bangla !"

Os anos que se seguiram à libertação foram extremamente difíceis. A guerra e a recusa intencional de recursos haviam deixado o Bangladesh sem nada. Filmei as consequências humanas de uma fome que devastava o país e os meus relatos perguntavam porquê.

Em Washington, Henry Kissinger, na altura poderoso secretário de Estado do presidente Nixon, considerava Bangladesh como um "caso bicudo", o que era uma posição ideológica radical que dividia o mundo em "estados com êxito" e "estados falhados". Lembra-te que os EUA, nessa altura, controlavam a maior parte do comércio alimentar mundial. Para Washington, os "estados falhados" eram dispensáveis, ou locais onde despejar excedentes; os carregamentos de alimentos eram usados como arma política, literalmente para "sabotar" governos de que a administração dos EUA não gostava.

Recusava-se o envio de alimentos e o apoio de organizações internacionais aos países que tentavam afirmar a sua independência – por exemplo, votando contra ou abstendo-se das moções dos EUA na ONU. Os dilemas de um estado novo e perturbado, como o Bangladesh, eram inúmeros. Conheci Sheikh Mujibur Rahman e ele perguntava, alto e bom som, se a democracia podia ou não sobreviver naquelas condições. Claro que as eleições recentes dizem que não sobreviveu. O conteúdo das urnas, a exibição de bandidos armados e a brutal intimidação dos candidatos da oposição envergonham as lutas de libertação e os que morreram nesses tempos épicos.

Para além da Guerra de Libertação do Bangladesh, também fizeste a cobertura de guerras no Vietname, no Camboja e na Nigéria. Que papel podem os jornalistas e os media desempenhar para ajudar a população que sofre por causa da guerra? 

Os jornalistas podem ajudar a população, contando a verdade, pelo menos a verdade que conseguem encontrar e agindo não como agentes do governo ou do pode, mas da população. É isso o verdadeiro jornalismo. O resto é ilusório ou falso.

Já és jornalista há muitas décadas. Como é que o jornalismo mudou durante este tempo, segundo a tua opinião? 

Quando comecei como jornalista, especialmente como correspondente estrangeiro, a imprensa no Reino Unido era conservadora e estava na mão de poderosas forças institucionais, tal como agora. Mas a diferença, em comparação com os dias de hoje, é que havia espaço para o jornalismo independente dissidente das autoridades. Esse espaço está hoje fechado e os jornalistas independentes foram para a Internet ou para um subterrâneo metafórico. O Bangladesh tem uma rica tradição de jornalismo independente; é preciso protegê-lo.

Quais são alguns dos maiores desafios e problemas que existem atualmente nesta profissão e quais são as melhores soluções para isso, na tua opinião? 

O maior desafio é salvar o jornalismo do seu papel deferente de estenógrafo do grande poder. Os Estados Unidos têm, segundo a Constituição, a imprensa mais livre do planeta mas, na prática, tem media subservientes às fórmulas e às manipulações do poder. É por isso que os media deram a sua aprovação aos EUA para invadirem o Iraque, a Líbia, a Síria e dezenas de outros países.

Durante muitos anos foste um grande defensor de Julian Assange e da WikiLeaks. Como os vês no enquadramento dos atuais media mundiais? 
A WikiLeaks é possivelmente a evolução mais emocionante do jornalismo na minha vida. Enquanto jornalista de investigação, tive muitas vezes que confiar nos atos corajosos e escrupulosos dos informadores. A verdade sobre a Guerra do Vietname foi contada quando Daniel Ellsberg revelou os Documentos do Pentágono. A verdade sobre o Iraque e o Afeganistão, a Arábia Saudita e muitos outros pontos de conflito foi contada quando a WikiLeaks publicou as revelações dos informadores.

Quando consideramos que 100 por cento das fugas para a WikiLeaks são autênticas e rigorosas, compreendemos o impacto, assim como a fúria gerada entre poderosas forças secretas. Julian Assange é um refugiado político em Londres apenas por uma razão: a WikiLeaks contou a verdade sobre os maiores crimes do século XXI. Não lhe perdoam e ele tem de ser apoiado por jornalistas e pessoas de todo o mundo.

Por que é que pensas que o populismo na América e na Europa está em crescimento, assim de repente? 

"Populismo" é um termo pejorativo dos media . O que vemos é uma revolta da classe popular; as pessoas estão fartas da pobreza, da redução dos direitos ao emprego e da insegurança que estão a subjugar as suas vidas, provocadas pelas políticas económicas radicais dos seus governos.

Claro que há outras razões que contribuem, mas basicamente as pessoas comuns no Ocidente – em especial nos EUA, na Grã-Bretanha, em França, na Grécia e em Itália – estão a ver os seus preciosos ganhos desaparecerem. É por isso que os "Coletes Amarelos" em França têm um apoio tão amplo. Também é verdade que a invasão de refugiados dos países devastados pelas políticas gananciosas do Ocidente – como na Líbia e na Síria – proporcionaram os bodes expiatórios.

Porque é que pensas que as forças liberais nesses países estão a ser substituídas por elementos descritos como da extrema-direita? 

As forças liberais são culpadas muitas vezes pelas condições que deram origem à extrema direita. Proporcionaram a divisão. Nos EUA, o Partido Democrático há muito que atraiçoou as pessoas comuns, que Hillary Clinton classificou abusivamente de "deploráveis". Os liberais no Ocidente têm hoje uma obsessão de classe, por detrás duma aparência da alegada "política de identidade". As pessoas comuns estão a começar a perceber isso ou, pelo menos, estão a tentar perceber. 
16/janeiro/2019

O original encontra-se em www.thedailystar.net/... . Tradução de Margarida Ferreira. 

este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Media Lens \ Autópsia de uma cobertura jornalística

Autópsia de uma cobertura jornalística

– Os criminosos ficaram em liberdade e os media encobriram o crime

por Media Lens
Na noite de 3 de outubro de 2015, um AC-130 Gunship da US Air Force atacou repetidamente um hospital dos Médicos Sem Fronteiras (MSF) em Kunduz, no Afeganistão. Foram mortas 42 pessoas e dezenas ficaram feridas. O avião militar dos EUA efetuou cinco bombardeamentos durante mais de uma hora apesar dos apelos dos MSF aos funcionários afegãos, norte-americanos e da NATO para cancelar o ataque.

Conforme noticiámos na altura, os MSF foramperentórios na sua condenação do ataque norte-americano. O hospital foi "intencionalmente alvejado" num "massacre premeditado"; foi um"crime de guerra" . A organização médica rejeitou as garantias dos EUA de três inquéritos feitos pelos EUA, pela NATO e pelo governo afegão. Os MSF exigiram uma investigação internacional independente. Não serviu de nada. Os EUA ignoraram o escândalo público e prosseguiram com os seus procedimentos de branqueamento habituais quando pratica crimes de guerra que são denunciados. O resultado foi anunciado a 18 de março. A BBC Newsnoticiou :
"As forças militares dos EUA levantaram processos disciplinares a mais de uma dúzia de membros depois de um ataque aéreo a um hospital dos Médicos sem Fronteiras (MSF) no Afeganistão ter matado 42 pessoas, no ano passado.

"O Pentágono reconheceu que a clínica foi alvejada por engano, mas ninguém enfrentará acusações criminais".
De notar que nas palavras da BBC – "O Pentágono reconheceu que a clínica foi alvejada por engano – são uma expressão tendenciosa. A BBC não mencionou que os MSF tinham apresentado fortes provas de que a clínica foi "deliberadamente alvejada", de que o ataque foi um "crime de guerra" e de que havia necessidade urgente de um inquérito independente.

A BBC continuava:
"As sanções, que não foram tornadas públicas, foram sobretudo administrativas.
"Alguns receberam reprimendas formais, outros foram suspensos do serviço.
"Houve processos disciplinares para oficiais e para o pessoal mobilizado, mas nenhum general foi punido".
Os MSF disseram que não iriam fazer comentários enquanto o Pentágono não tornasse público o seu relatório. (Na altura deste artigo, isso ainda não aconteceu).

Na manhã de 18 de março, reparámos que a notícia da BBC esteve, pelo menos durante algum tempo, ligada a partir da página principal do seu sítio web noticioso. Mas depressa foi retirada da sua posição importante e enterrada profundamente na secção das notícias internacionais. Isto não é invulgar, quando se noticiam os crimes do Ocidente, se é que são noticiados.

As nossas pesquisas subsequentes na Internet revelaram apenas quatro notícias moderadas de jornais, relativamente breves, na imprensa britânica de que o pessoal dos EUA tinha sido "punido" pelo bombardeamento de Kunduz: no Independent , no Daily Mail , no Telegraph e no Guardian . O Telegraph noticiava que o Pentágono iria em breve "publicar uma versão do seu relatório sobre o ataque. Será redigido de forma a não ser classificado como material confidencial". Por outras palavras, tudo o que seja demasiado embaraçoso ou prejudicial para os interesses dos EUA.

Uns dias depois, a 23 de março, uma pequena notícia na página 34 do The Times tinha o título "Comandante norte-americano lamenta ataque ao hospital". A totalidade da peça, ao todo 61 palavras, era assim:
"O novo comandante das forças EUA-NATO no Afeganistão apresentou desculpas pelo ataque errado a um hospital em Kunduz no passado mês de outubro, que matou 42 pessoas. O general John Nicholson do exército dos EUA, foi à cidade do norte para se encontrar com familiares dos que morreram no hospital, dirigido pela organização Médicos Sem Fronteiras. Disse que o incidente fora uma "tragédia terrível".
Como sempre, as atrocidades do Ocidente são descritas como "tragédia", em vez de "crime de guerra". Nenhum outro jornal nacional do Reino Unido, tanto quanto pudemos ver, noticiou as "desculpas" do general Nicholson.

O New York Times fez melhor, e incluiu esta citação de Zabiullah Niazi, um enfermeiro que perdeu um olho, um dedo e o uso de uma mão, assim como sofreu outros ferimentos no ataque dos EUA:
"Atingiram-nos há seis meses e agora vêm pedir desculpas. O chefe do conselho provincial e outros funcionários que disseram que nós aceitamos as desculpas, não teriam dito isso, se tivessem perdido um filho e comido cinzas, como aconteceu connosco".
Segundo Mr. Niazi, o general Nicholson nem sequer apareceu numa reunião arranjada no gabinete do governador, com dois sobreviventes e membros das famílias das vítimas. Em vez disso, fez um discurso num auditório apinhado, em que os membros das famílias e os sobreviventes não tiveram possibilidade de falar. Como mais um sinal dos procedimentos profundamente encenados, a mulher do general apareceu para "dizer olá, num minuto, e exprimir a sua pena", disse Mr. Niazi. Passou mais tempo – cinco minutos – com mulheres sobreviventes e membros das famílias, numa sala em separado.

As "desculpas" do general também foram desdenhadas por um médico afegão cujo irmão, também médico, foi morto no ataque norte-americano. O Dr. Karim Bajaouri disse :
"Estão a pedir perdão por terem morto civis?! Estão apenas a pedir desculpas? Primeiro disparam sobre civis e depois pedem desculpa. Pessoalmente, não preciso dessas desculpas, não as aceito. As nossas feridas morais não podem ser curadas dessa forma".
O Guardian fez recentemente uma referência de passagem a Kunduz num artigo de Simon Tisdall, editor assistente e colunista de assuntos externos. A peça focava o Afeganistão como uma questão de eleições na corrida presidencial nos EUA.
"O facto de que a mais memorável contribuição dos EUA para a batalha de Kunduz foi a destruição de um hospital dos Médicos Sem Fronteiras, com a perda de pelo menos 22 vidas, nenhuma delas de rebeldes, realçou como a missão dos EUA no Afeganistão se tornou infeliz e acidental".
(Estranhamente, o artigo de Tisdall foi inicialmente publicado em 15 de outubro de 2015, mas depois foi atualizado em 29 de março de 2016, presumivelmente para incluir a linha acima.

Mais uma vez, o jornalismo "liberal" colaborador destaca-se pela sua prontidão em rotular crimes de guerra como "infelizes" e "acidentais".

Na sequência da declaração do Pentágono sobre as "punições" para os criminosos de Kunduz, um artigo no sítio web da Foreign Policy assinalava:
"Os defensores dos direitos humanos denunciaram a decisão dos militares norte-americanos de não apresentarem queixas criminais contra as tropas".
Andrea Prasow, da Human Rights Watch disse ao Foreign Policy:
"É incrivelmente frustrante e desencorajador. Fizemos a nossa análise do caso e pensamos que devia haver uma investigação criminal".
Conforme Prasow observou, os militares norte-americanos "têm interesse em proteger os seus".

A Human Rights Watch acrescentou :
"Com toda a razão, os membros das famílias das vítimas verão isto como uma injustiça e um insulto: os militares dos EUA investigaram e decidiram que não tinha havido crimes".
A declaração continuava:
"A ausência de investigação criminal de funcionários seniores responsáveis pelo ataque não só é uma afronta às vidas perdidas no hospital dos MSF, mas um golpe contra o estado de direito no Afeganistão e em toda a parte.
Estes comentários contrastam profundamente com a branda indiferença da imprensa "liberal".

Em resumo, a reação à "punição" do Pentágono dos criminosos de Kunduz, na imprensa "dominante" foi tão instrutiva como de costume. Como habitualmente, não encontramos um único editorial ou coluna que denuncie esta recente lavagem dos EUA de crimes dos EUA. 

Mais uma vez, é prática usual dos media ocidentais troçar dos Inimigos Oficiais, mantendo-se cegos aos crimes dos "nossos" Gloriosos Líderes.
O original encontra-se em www.medialens.org/... . Tradução de Margarida Ferreira. 

Wste artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

terça-feira, 21 de abril de 2015

Mentiras..../ Exegese de uma "notícia" da Bloomberg

Exegese de uma "notícia" da Bloomberg

– A entrevista da Bloomberg a Zakharchenko não podia ser mais venenosa nem mais desonesta


por Joaquin Flores [*]
Zakharchenko.Numa rara entrevista aos media ocidentais concedida pelo líder da República de Donetsk, Zakharchenko, a Bloomberg deu-lhe "tratamento completo". Ao assim fazer a Bloomberg pode na verdade ter violado o direito internacional e cometido crimes contra a humanidade e contra a paz. 

O artigo de hoje naquela publicação dos EUA é realmente particularmente instrutivo. Ele mostra como os EUA e os atlantistas europeus tentarão tornear as reais violações ucranianas do Acordo Minsk II e do cessar-fogo. Os EUA e seus agentes directos e indirectos a trabalharem nos media ostensivamente"privados/independentes" (mas de facto controlados pelo estado) estão a criar o pretexto para utilizar a resolução do Conselho de Segurança da ONU que ratifica o Acordo Minsk II contra aqueles aos quais ele favorece:   aqueles cujas vitórias no campo de batalha o tornaram possível. Além disso, no mínimo eles estão a fomentar um clima interno [belicista] e a estabelecer o discurso nacional a fim de justificar coisas que violam o direito internacional.

Os media ocidentais fazem isso adulterando palavras de Zakharchenko de modo a que se ajustem a uma tremenda mentira. Especificamente fazem-no retirando o que ele disse do contexto e a seguir inserindo suas palavras no contexto ficcional por eles inventado.

Do modo como apresentam as coisas, não teremos dúvida em ouvir que "o próprio Zakharchenko" disse que pretendia desde o princípio romper o cessar-fogo.

Se não ficar insultado ou colérico pelo que passa por notícia, análise ou comentário no ocidente então sugerimos que leia por si próprio "Gunfire in Donetsk as Rebel Leader Refuses Ukrainian Unity" .

Nesta revisão, destacaremos alguns dos enganos e partes mais desonestas e mais perigosas do artigo da Bloomberg. Na medida em que estes artigos são utilizados para encorajar o público dos EUA a apoiar o governo estado-unidense a aumentar suas guerras ilegais no mundo, trata-se de crimes de guerra tal como entendidos pelo precedente estabelecido em Nuremberga e pelos processos subsequentes do Tribunal Penal Internacional (TPI), em Haia, nas décadas seguintes.

Naturalmente, de acordo com a teoria da "arrogância em gotas", mesmo as moscas a berrarem "acusações" enquanto pousadas no carro de guerra da história, tal como o autor do artigo, Stefan Kravchenko, corporificam a arrogância imperial que tem sua origem no topo máximo. Pode passar desapercebido a estes criminosos, grandes e pequenos, que as suas calúnias não são diferentes daquelas que levaram Julius Streicher à forca.

Sim, as condenações em Nuremberga não foram apenas dos que estavam no comando militar, ou de decisores políticos – mas também os dos media. Devemos recordar que Streicher, tal como Joseph Goebbels, só escreveu palavras. Eles apenas criaram um discurso que justificava guerras agressivas de conquista.

Os patrões dos media americanos acreditam claramente que estão do lado vencedor da história, assumindo de modo arrogante que nunca terão de prestar contas pelos seus crimes documentados.

Mas com o poder estado-unidense agora em declínio, estamos a aproximar-nos rapidamente de uma época em que vários homens de estado e magnatas dos EUA terão de enfrentar julgamento semelhante ao de Nuremberga, sob a observação da comunidade internacional. Será uma época importante para a verdade e a reconciliação.

O Acordo Minsk II verificou-se num momento em que milhares de inocentes estavam a ser mortos pelas Forças Armadas Ucranianas (FAU) e foi posteriormente ratificado por uma resolução do Conselho de Segurança da ONU. Trabalhar para solapar este acordo para a paz consagrado pela ONU é claramente um crime contra a humanidade e um crime contra a paz, o que constitui crime de guerra. Neste contexto podemos ver o que é de facto o melhor cenário de fim de jogo para aqueles nos media que são culpados de crimes contra a humanidade e crimes contra a paz, o que possivelmente inclui Kravchenko e seu patrão, a Bloomberg.

É muito importante compreender como os media estado-unidenses conduzem sua propaganda. Um dos métodos primários é a destruição da língua inglesa. A gramática e as palavras são muito importantes, pois definem conceitos específicos. Quando palavras e gramática são sacrificadas, os próprios conceitos e pensamentos que estas representam são também destruídos.

Além disso, quando o contexto crítico é subtraído, o resultado empobrecido é uma forma de linguagem que reduz a capacidade cognitiva do leitor. Faz-nos estúpidos.

Certamente, desde pelo menos a semana passada, temos visto um ligeiro aumento no volume de notícias de confrontos. Em torno do Aeroporto de Donetsk tem havido muitas centenas de feridos do lado das FAU, segundo informações da RPD . Não só alguns destes confrontos ocorreram entre as várias forças que combatem a favor da Junta de Kiev e os revolucionários no Donbass, mas também entre os vários grupos da Junta de Kiev. Na verdade, está confirmado que só na semana passada as FAU tiveram várias escaramuças graves com a OUN na semana passada.

Ao ler o artigo da Bloomberg, algumas coisas saltam à vista como críticas na definição da narrativa estado-unidense. Uma das principais "tácticas" utilizadas para inventar esta narrativa é combinar só tangencialmente factos relacionados e citações numa única sentença ou parágrafo. Estes factos e citações podem nem mesmo estar correlacionados, mas são apresentados como se estivessem e até mesmo como relações causais.

Outras mistificações também eram gritantes, algumas eram uma questão de manipulação (spin), outras de omissão. Outras ainda envolviam a utilização do equívoco, uma respeitada falácia lógica nos media ocidentais. Escolhemos algumas para destacar do artigo a fim de ajudar a melhor vacinar o público quanto à espécie de guerra de informação que está ser travada pelos media dos EUA contra o seu público. Nossa esperança é que nossos leitores considerem útil desenredar o facto da ficção. A coisa mais frustrante ao desvendar mentiras e desinformação é que requer mais texto e esforço para desvendá-las do que para fazê-las.

Amostra I 
"As possibilidades de guerra em plena escala agora são "muito altas, 90 por cento" após dois meses de trégua, disse Zakharchenko no seu gabinete no centro da cidade, aspirando seu terceiro cigarro Parliament da entrevista. Uma submetralhadora desmontada jazia numa estante junto a ícones religiosos. "O inimigo está activamente a preparar-se para acções ofensivas, reforçando posições na linha de frente".

O "inimigo" a que se referia é o governo da Ucrânia, o país a que a sua região seccionada pertencia até ao ano passado quando a insurgência pró russa turvou a questão. As Nações Unidas dizem que o conflito ceifou mais de 6.000 vidas. Este também mergulhou a Ucrânia na crise económica e levou as relações da Rússia com os EUA e aliados ao ponto mais baixo pós Guerra-fria.
Deixando de lado as conotações enviadas aos leitores ocidentais para os quais fumadores, portadores de armas e religiosos devotos são pessoas altamente questionáveis (e aparentemente Zakharchenko dispõe de todas as três características, a par de David Koresh ), as primeiras mentiras reais estão contidas no segundo parágrafo.

Para começar, o "inimigo" a que Zakharchenko se refere não é o "país" Ucrânia em si. País é um termo vasto e ambíguo, mas claramente expressões como "ame o seu país, não o seu governo" não são construções possíveis se os termos forem sinónimos.

Isto pode parecer discussão de filigranas para os suficientemente anestesiados ou para aqueles cujo Adderal foi gasto, mas estas distinções são extraordinariamente cruciais e críticas para o modo de entender o direito internacional e especificamente o Acordo Minsk II (o qual alguns combates podem estar a violar) e o modo como é entendido por aqueles que o assinaram. Estas também são distinções importantes que não devem ser ignoradas por aqueles na Bloomberg, cuja circulação é de quase um milhão. Leitores da Bloomberg utilizam a informação providenciada para entender o mundo e para apoiarem ou se oporem a iniciativas do governo, que vão desde o relativamente banal até o extraordinariamente grave, tal como fazer guerra.

Na medida em que Zakharchenko se refere aos militares da Ucrânia, suas funções existem dentro da constituição, isto é, do estado e não do governo, o qual inclui também várias brigadas voluntárias não governamentais e batalhões tais como as OUN, Pravy Sektor, Aidar e Azov. Estas são compostas por elementos que são parte do estado (como cidadãos) mas não parte do governo em si. Governo é uma função do estado; todos os cidadãos são parte do estado mas nem todos os cidadãos são membros do governo. Um estado possui soberania, ao passo que poderes de governo são derivados do estado. Estados têm, por exemplo, como no caso da Ucrânia, uma constituição.

Os governos vão em vêm, são eleitos e saem por disposições na constituição. Tipicamente, como no caso da Ucrânia, para um governo mudar a constituição e permanecer um governo constitucional, deve derivar esta autoridade do estado. Em repúblicas democráticas, tais como a Ucrânia antes do golpe, esta autoridade é normalmente derivada do povo, o qual é parte do estado como cidadãos. Os processos para mudar constituições deste tipo, tal como criar novas constituições cria um novo estado, são muitas vezes chamadas referendo.

Se bem que estas distinções possam parecer tediosas à partida, a questão da destruição da linguagem feita pela Bloomberg destina-se a combinar dentro de "uma mesma sensação" um bocado de conceitos realmente distintos, tanto em termos práticos como legais. Dentre eles estão os direitos de cidadãos se insurgirem contra a criação inconstitucional de um novo estado por um governo fantoche instalado por um patrocinador estrangeiro e um golpe organizado.

Se um governo muda a constituição através de meios inconstitucionais, portanto introduzindo um novo estado o qual remove sua fundamentação da cidadania, ele não é mais um governo constitucional. Cidadãos, historicamente e na lei, são considerados como tendo o direito de se rebelarem utilizando força, de resto e tipicamente reservada para a auto-defesa, contra uma usurpação inconstitucional de poder, como se verificou na Ucrânia.

Também há um conjunto de mercenários e turistas do conflito a combaterem na região. De facto, informações até à data de violações de Minsk II dizem que estas são executadas por estes agrupamentos voluntários que combatem do lado da junta de Kiev. O Acordo Minsk II exige especificamente que estes sejam desmantelados. É igualmente concebível que Zakharchenko se refira a estes agrupamentos ilegais e não ao estado que sanciona e ao governo que controla os militares da Ucrânia (as FAU).

Muitos dos nossos leitores fora dos EUA apreciarão instantaneamente a distinção entre governo e estado. Um corolário aqui é a medida em que Poroshenko é o Comandante Supremo em Chefe dos militares do estado – ele tem este poder, segundo os rebeldes, como o chefe de um governo que ganhou o controle dos militares do estado em consequência de um golpe inconstitucional contra o estado. Esse governo fez uma nova constituição, a qual faz do "estado da Ucrânia" um "novo estado".

A Bloomberg, ao defender junto ao público os envios ilegais dos EUA de armas e treinadores para a Ucrânia, faz aqui um truque de prestidigitação: a utilização da ambiguidade (equivocation) em que as palavras "governo" e "país" são utilizadas como sinónimos. Agora estas categorias muito importantes para o entendimento desta crise patrocinada pelos EUA (a diferença entre governo, estado e país) foram embrulhadas em conjunto à moda orwelliana.

Dito isto, a utilização da expressão "turvou a questão" na mesma sentença em causa é uma projecção clássica. Turvar a questão é precisamente o que esta passagem, na verdade todo o artigo, faz melhor. De facto, a utilização desta expressão é extremamente bizarra – a insurgência "pró russos" turvou a questão é o que gramaticalmente esta sentença nos instrui a inferir. Isto é circular, porque logicamente a própria questão é a da insurgência e suas causas. O que literalmente está a ser dito é que a questão se turvou a si própria. O autor tenta quebrar nossas capacidades cognitivas nas rochas da tautologia. Literalmente, o autor disse que a existência da insurgência turvou a questão do (entendimento?) da existência da insurgência.

Na última sentença, dizem-nos que "Também mergulhou a Ucrânia numa crise económica...". Assim, com esta sentença somos instruídos a escolher entre "as NU" ou "o conflito", sendo "o conflito" [a opção] mais razoável.

E este ponto é evidentemente falso – a dívida de 15 mil milhões de euros com que a Ucrânia arcava foi uma das causas do facto de Yanukovich voltar-se para a Rússia em Novembro de 2013, a qual por intermédio da China obteve um salvamento(bail out) daquele montante. A UE e o Banco Mundial declararam-se incapazes de ajudar nisto de qualquer maneira significativa, com qualquer ajuda de balança de pagamentos, reestruturação de dívida ou outras alternativas de pagamento sobre o empréstimo do FMI. Mesmo o FMI o declarou em Dezembro de 2013 : 
"A economia ucraniana tem estado em recessão desde meados de 2012 e a perspectiva permanece desafiadora. Em Janeiro-Setembro de 2013 o PIB contraiu-se em 1 ¼ por cento anuais, reflectindo a procura mais baixa por exportações ucranianas e investimentos em queda. Os preços no consumidor permaneceram estáveis, sendo responsáveis pela diminuição dos preços alimentares e endurecimento da política monetária. A procura externa fraca e a competitividade enfraquecida levaram o défice posterior de transacções correntes em 12 meses elevar-se em cerca de 8 por cento do PIB no de Setembro apesar de uma redução significativa nas importações de gás natural. O alto défice da conta corrente em meio a um ambiente do mercado internacional menos favorável pressionou as reservas internacionais, as quais caíram abaixo do equivalente a 2 ½ meses de importações no fim de Outubro de 2013. Sob as políticas actualmente planeadas, um crescimento modesto deveria retornar em 2014, conduzido por melhorias na procura externa, fortes exportações de cereais e a continuação da expansão do consumo. Contudo, esta perspectiva está sujeita a riscos significativos, decorrentes do mix político inconsistente e à elevação da incerteza política e económica nas últimas semanas.
Isto já era assim com um rácio dívida-PIB de mais de 40%. A Bloomberg tenta reescrever a história e confundir causa com efeito.

E quanto à nossa insurgência "rebelde"? Porque a existência da insurgência "turva a questão" da existência da insurgência, ficamos incapazes de perguntar porque exactamente a "turvada" insurgência declarou independência em relação ao novo estado da Ucrânia. Na verdade, o contrato social foi rompido por Yatsenyuk e Turchinov sob as ordens dos EUA. O novo estado da Ucrânia é uma entidade ocupada ilegalmente, sob administração estado-unidense. As palavras "golpe", "apoiado", "financiado", "étnico", "limpeza", "assassínio", "morto" e "inconstitucional" não aparecem nem uma única vez num artigo que pretende discutir o pensamento de Zakharchenko. Na verdade, isto é uma questão "enturvada".

Amostra II 
"A Ucrânia também é o país que, sob o cessar-fogo de Fevereiro acordado em Minsk por negociadores internacionais, finalmente recuperará as regiões rebeldes de Donetsk e Lugansk, embora sob estatuto especial. Enquanto a trégua tem em grande medida sido mantida em meio a acusações mútuas de violações pelos dois lados, Zakharchenko permanece desafiante.

"Ninguém quer voltar para a Ucrânia sob pretexto algum", diz Zakharchenko acerca da reunificação. "Não posso mesmo imaginar isto a acontecer. Desacordos fundamentais entre nós e Kiev não estão a desaparecer. De facto eles tornam-se mais fortes a cada dia".
Sim, a Ucrânia é um país na área geográfica onde há tanto um estado da Ucrânia como um governo da Ucrânia. Como já vimos, o termo "país" também é intencionalmente vago.

Um país por definição pode referir-se a um estado soberano, ou a uma área de terra sob ocupação, ou a um estado anteriormente soberano sob ocupação estrangeira. Além disso, "país" pode referir-se a uma parte de um estado que é disputada por dois ou mais estados.

Donetsk é, confirmadamente, um país que contesta permanecer no estado da Ucrânia. Contudo, a palavra "país" não aparece em lugar algum no Acordo Minsk II e é clara a razão porque esta falácia ambígua foi empregue pela Bloomberg. A Ucrânia é um país sob ocupação estrangeira pelos EUA, o qual tomou o controle do governo e trouxe à existência um novo estado. É contra este estado, e não o anterior estado da Ucrânia, que os rebeldes estão a "rebelar-se".

A Bloomberg interpreta mal o Acordo Minsk II, enganando os leitores que em grande parte estão nos EUA. Os recursos à sua disposição, a equipe de juristas que trabalha para eles o tempo todo em outras áreas e a relativa facilidade de encontrar o texto do acordo (está na Wikipedia) bem como a linguagem clara como está escrito, pode significar só algumas coisas. No contexto das outras omissões e distorções deliberadas que praguejam este "artigo" e impugnam a integridade do seu autor, estamos justificados ao concluir que esta "má interpretação" é intencional.

Cimeira Minsk 2.Considerando que são estas mentiras acerca do significado e linguagem de uma resolução do Conselho de Segurança da ONU que podem manipular uma população levando-a acreditar que o seu próprio governo tem um casus belli legítimo quando não tem, isto é indiscutivelmente um crime de guerra. Vamos examinar as disposições aqui envolvidas : 
9. Restaurar controle da fronteira estatal para o governo ucraniano em toda a zona de conflito, o que tem de começar no primeiro dia após a eleição e acaba após a plena regulação (eleições locais em distritos das oblasts de Donetsk e Lugansk com base na lei da Ucrânia e da reforma constitucional) no fim de 2015, sobre a condição do cumprimento do Ponto 11 – em consulta e em acordo com representantes de distritos particulares das oblasts de Donetsk e Lugansk dentro do quadro do Grupo de Contacto Trilateral.
10. Saída de todas as formações armadas, equipamento militar estrangeiro e também de mercenários estrangeiros do território da Ucrânia sob a supervisão da OSCE. Desarmamento de grupos ilegais.
11. Reforma constitucional na Ucrânia, com uma nova constituição a entrar em vigor no fim de 2015, cujo elemento chave é descentralização (levando em conta peculiaridades particulares das oblasts dos distritos de Donetsk e Lugansk, acordadas com representantes destes distritos) e também aprovação de legislação permanente sobre o estatuto especial das oblasts dos distritos de Donetsk e Lugansk de acordo com as medidas explicitadas na nota de rodapé (nota 1) no fim de 2015.
Se bem que o Acordo de Minsk II declare que o governo da Ucrânia toma controle das fronteiras do estado, em parte alguma do acordo se declara que há qualquer possibilidade (eventuality) do retorno de Donetsk e Lugansk (colectivamente, a Federação da Novorússia) para o país, o estado ou o governo da Ucrânia. Além disso, o retorno do controle das fronteiras do estado não é uma eventualidade, mas mais exactamente baseia-se sobre outras disposições que exigem acordo bilateral. A referência à fronteira do estado está no Ponto 9 do acordo. A execução do artigo não se verifica até o cumprimento do Ponto 11.

Além disso, o Ponto11 requer uma nova constituição antes mesmo que a restauração do controle da fronteira pelo governo ucraniano possa ocorrer. Portanto, o artigo definido "o" refere-se a um futuro governo constituído após a criação de ainda outro novo estado, porque o Ponto 11 deve ser cumprido antes do Ponto 9. Ele não se refere a "o" governo da Ucrânia no tempo presente. Ele não se refere ao presente governo.

O Acordo Minsk II realmente exige uma anulação dos estrangeiros instalados pelo governo do golpe, com federação – isto é, a descentralização sendo o elemento chave de uma nova constituição. Ele também requer que os representantes destes distritos – Donetsk e Lugansk – concordem. O representante de Donetsk dentro do quadro do Grupo de Contacto Trilateral é o próprio Zakharchenko.

Portanto, a interpretação da Bloomberg é inteiramente falsa. Nenhum destes eventos pode ocorrer sem acordo bilateral e nada é "eventual". Mas o que entendemos disto é que Zakharchenko é "desafiador" face a uma eventualidade imperativa, codificada pela ONU, o que faz com que pareça um criminoso.

E o que é o "desafio" de Zakharchenko no contexto da trégua? Esta é uma daquelas palavras que é vaga, mas sua utilização intencional (e colocação) revela a inferência. Com o máximo de generosidade, desafio pode significar tão pouco como "disposição para combater". No pior caso, significa desobediência, não cumprimento e insubordinação. Isto é talvez um significado "imperial", isto é, não cumpridor dos ditames dos EUA e da sua auto-definida "comunidade internacional". "Desafio" é habitualmente utilizado nos media ocidentais para caracterizar líderes globais contra o Império estado-unidense, dos quais dizem-nos que são "homens muito maus". Ou talvez – e isto também é intencional – eles estão a sugerir que ele é não cumpridor do acordo de Minsk II, a qual é uma acusação muito perigosa e criminosa, se não for verdadeira.

Eles não precisam fixar-se num significado, porque "desafiante" tanto literalmente como neste contexto significa tudo isto.

A citação que se segue a esta acusação de comportamento não cumpridor é então estranhamente colocada, a fim de moldar sua própria avaliação do que outros em Donetsk pensam ser evidência do seu próprio "desafio" à suposta eventualidade da reunificação. Somos levados a imaginar que ele estava a adoptar um tom "desafiador" quando faz a citação que se segue, muito embora o artigo tecnicamente não diga nada. Trata-se realmente apenas de uma linha que se segue a outra. Isto destina-se a fazer-nos extrair uma inferência clara que o autor do artigo poderia tentar dizer que não estava implícito.

Amostra III 
Sua advertência foi enfatizada por uma irrupção de violência esta semana. O governo ucraniano disse que perdeu seis soldados num único dia, o período de 24 horas mais mortal em pelo menos dois meses. Líderes estado-unidenses e europeus acusam a Rússia de abastecer os insurgentes com armas, dinheiro e combatentes – acusações que o Kremlin nega.

"A Ucrânia permanece comprometida com um acordo pacífico, ao contrário da Rússia e dos terroristas russos", disse o primeiro-ministro da Ucrânia Arseniy Yatsenyuk na quarta-feira na reunião semanal do governo. "A Ucrânia está pronta para continuar a implementar os acordos de Minsk, incluindo a realização de eleições livres e transparentes".
Aqui na primeira linha da amostra podemos ver que eles estão a insinuar (implying) que a sua declaração desafiadora era realmente uma ameaça de violência, a qual somos levados a assumir que são enfatizados (verbo transitivo, "tornar evidente") pelas suas acções as quais resultaram na perda de seis soldados ucranianos. Este fraseado destina-se a insinuar, ou melhor, levar-nos a inferir, que a perda de seis soldados foi o resultado do desafio de Zakharchenko – ou da disposição a combater, ou do não cumprimento de Minsk II. Em suma, somos levados a entender que Zakharchenko lançou os ataques. Na realidade, a OSCE – a única organização intergovernamental "legitima" cujas descobertas pretendem ser "objectivas", sobre o terreno – informou de ataques ofensivos por parte das forças ucranianas. Os rebeldes da RPD têm acusado os monitores da OSCE de estarem empenhados em colecta de inteligência por conta os militares ucranianos ou dos EUA.

A segunda sentença não tem conexão com a primeira e está colocada logo a seguir a fim de identificar a Rússia como apoiante do "ataque" de Zakarchenko o qual se seguiu à sua advertência "desafiante".

O segundo parágrafo é incluído para insinuar que enquanto Zakarchenko desafiadoramente rompe o acordo Minsk II, enfatizando isto com ataques armados e financiados pelos russos que matam soldados ucranianos, ao passo que Yatsenyuk está comprometido com a sua implementação. Isto está em total divergência com os dados que têm sido recolhidos até à data.

A seguir está outro exemplo do mesmo padrão, a junção de sentenças não relacionadas, colocadas juntas a fim de insinuar uma conexão natural.

Exemplo IV 
O combate continuou "sem pausa na área do Aeroporto de Donetsk", disse quinta-feira em Kiev Michael Bociurkiw, porta-voz da Organization for Security and Cooperation in Europe (OSCE) na Ucrãnia. O Conselho de Segurança Nacional e Defesa da Ucrânia disse no Facebook que rebeldes atacaram com morteiros, tanques e artilharia posições próximas do porto de Mariupol no Mar de Azov.
O parágrafo desta amostra salta da citação do relatório oficial da OSCE para uma declaração do governo ucraniano via Facebook. A primeira citação da OSCE na primeira sentença faz parte de uma notícia a qual realmente confirma que a Ucrânia atacou a RPD no Aeroporto de Donetsk numa "batalha com tanques em plena escala" . Na segunda sentença, colocada logo após a primeira pelas razões que discutimos acima, acontece algo bastante estranho. O "Conselho de Segurança Nacional e Defesa" ucraniano afirma que rebeldes atacaram posições. Tomado em conjunto, este parágrafo destina-se a deixar a impressão de que a OSCE e o Conselho de Segurança Nacional e Defesa concordam ambos em que os ataques foram feitos pelos rebeldes a posições da Ucrânia próximas de Mariupol. Na realidade a OSCE confirma ter ouvido detonações a 20 km, vindas de Mariupol: 
"Enquanto num posto de observação localizado nos arrabaldes de Berdianske controlado pelo governo (2 km a Oeste de Shyrokyne, 20 km a Leste de Mariupol), entre 09h10 e 12h10, a SMM ouviu à distância 40 detonações, a Norte da sua posição".
Dado o historial de relatórios OSCE sobre esta espécie de incidentes, se tivesse havido um meio de insinuar que da RPD era responsável, eles o teriam feito. De facto, a imprecisão deste relatório, se bem que aparentemente objectivo, pode mesmo indicar que eles poderiam plausivelmente negar ter a certeza de que era o exército ucraniano, apesar de saberem certamente que não poderiam afirmar que era a RPD.

O exemplo seguinte da notícia da Bloomberg também é interessante, porque utiliza o determinante possessivo "seu" no lugar do artigo definido "o".

Exemplo V 
Zakharchenko disse que Mariupol acabará por fazer parte da sua república popular.
O efeito psicológico sobre o leitor pretendido com esta sentença é claro. Isto transforma "a república popular", a qual é todo um processo social, produzido por condições sócio-políticas objectivas e apoiado por milhões de pessoas, e torna-a a "sua" república popular, isto é, algo que existe quase puramente na mente de um fumador de cigarros, leitor da bíblia, portador de armas, o louco desafiante e violador do Acordo Minsk II.

Trata-se da linguagem da "demonização", semelhante à "Jugoslávia de Milosevic", ao "Iraque de Saddam", à "Líbia de Gaddafi" ou à "União Soviética de Stalin".

Não se trata sequer de alguma variação de estilo no uso da gramática. De modo algum a RPD é propriedade de Zakharchenko. Ele foi eleito no fim do ano passado, numa votação com comparecimento apreciável. Ele não afirmou que a RPD é "sua", nem a constituição – ratificada pela assembleia popular – indica que o seja. Os mecanismos para removê-lo existem. A linguagem utilizada no exemplo acima destina-se a nos dar a impressão de que ele é ditatorial e com uma mentalidade estreita. Eles chegam muito perto, se é que realmente não o fazem, de citá-lo incorrectamente. Dada a criminalidade geral deste artigo, a falta de ética jornalística respeitante à transformação de um artigo definido num adjectivo determinante possessivo dentro de um fraseado pode parecer relativamente controverso. Mas, é a acumulação de tudo isto ao longo do artigo que deixa no leitor a inabalável convicção de que recebeu informação adequada quanto ao carácter e objectivos de Zakharchenko.

Amostra VI 
Enquanto o seu desejo de tomar Mariupol e a sua recusa a reintegrar a Ucrânia contrariam (run counter) o cessar-fogo, Zakharchenko diz que as suas tropas não violarão os acordos de Minsk se não houver "violação óbvia" pela Ucrânia.
Como se pode ver no exemplo acima, a mentira quanto ao cessar-fogo é repetida. Mais uma vez, a reintegração de Donetsk e Lugansk dentro da Ucrânia não é compulsória pelo acordo Minsk II, o qual é muito mais do que um cessar-fogo. Quanto ao "seu desejo de tomar Mariupol", a secção que exibe a amostra V é intitulada "Libertação de Mariupol", mas só a estranha e questionável frase lhe é atribuída.

Sem uma transcrição verificada da entrevista, com suas próprias palavras no original ucraniano (ou russo), então – à luz dos demais graves problemas criminais e éticos deste artigo – não se deveria permitir que fosse matizado nosso entendimento do que possa ter dito ou pretendido. No entanto, um "desejo" não "contraria" o cessar-fogo, acções sim. O artigo está essencialmente, neste exemplo, a tentar acusá-lo de violar o cessar-fogo com base nos pensamentos que eles afirmam estarem na sua cabeça.

Amostra VII 
Zakharchenko disse que os insurgentes não derrubaram o voo MH17 da Malaysian Airline em Julho último, um desastre que os EUA e aliados dizem ter sido causado por mísseis fornecidos pela Rússia. A Ucrânia diz que o avião, derrubado sobre território rebelde, foi atingido por mísseis de um lançador BUK russo que entrou na Ucrânia vindo da Rússia e depois retornou.

Isto foi antes de Zakarchenko tomar posse mas isso não o impediu de ter uma opinião.

"Não fomos nós que o derrubámos", disse ele. "Nós, lamentavelmente (sadly), não tínhamos meios para derrubar aviões àquela altitude".
Porque a [operação de] falsa bandeira do Malysian Airline já foi desmascarada, não entraremos em pormenores excessivos quanto à primeira parte. A citação de Zakharchenko é que é problemática. Esta entrevista não foi efectuada em inglês, mas sim em ucraniano.

A palavra que Zakharchenko mais provavelmente utilizou para "lamentavelmente" terá sido "sumno". Isto pode significar tanto "infelizmente" como "lamentavelmente". Por que "lamentavelmente" faria qualquer sentido, senão para insinuar que Zakharchenko lamenta que eles fossem incapazes de derrubar um avião civil?

O que se pretendeu ao invés foi o frio e burocrático "infelizmente", como em "infelizmente para aqueles que nos acusariam". Isto é transformado de "infelizmente" ("unfortunately") para "lamentavelmente" ("sadly"). O artigo pretende levar-nos a pensar que o desafiante Zakharchenko está triste porque a sua república popular não havia abatido o avião.

Amostra VIII 
"O acordo do cessar-fogo conclama a Ucrânia a gradualmente reafirmar (assert) cada vez mais autoridade sobre as regiões em ruptura até que seja alcançado pleno controle no fim do ano. Poroshenko no mês passado assinou legislação oferecendo status especial para as regiões do Leste, incluindo eleições e auto-governo para áreas que falam principalmente o russo.

O governo russo e os rebeldes dizem que as leis deixam de ser cumpridas nos termos do cessar-fogo e objectaram os legisladores ucranianos no mesmo dia declarando as áreas em ruptura território "ocupado".

Quanto à Rússia, Zakharchenko disse que a sua região com cerca de 2 milhões de pessoas gostaria de nada mais do que a unidade com a nave mãe (mother ship).
Mais uma vez, o acordo Minsk II não conclama a Ucrânia a afirmar "gradualmente" cada vez mais controle sobre as regiões em ruptura até que pleno controle seja alcançado no fim do ano". O acordo praticamente diz o oposto:   ele obriga a que o governo ucraniano avance com a criação de um novo estado, a constituição do qual dá autonomia e etapas definidas para as "regiões em ruptura". Apresentámos algumas das secções relevantes bem como um link para todo o acordo.

Há uma série de mecanismos claramente definidos, etapas, as quais devem ser cumpridas para qualquer destas coisas se verificar. Não há maneira de interpretar isto de qualquer outro modo. A linguagem é clara e não ambígua.

A questão do "controle" é só mencionada literalmente na secção acerca da fronteira e mesmo isto repousa num acordo bilateral entre os representantes das partes como delineado no Grupo de Contacto Trilateral. Em nenhum ponto do processo as "regiões em ruptura" juntam-se ao actual estado da Ucrânia, nem são elas obrigadas unilateralmente a juntar-se a um futuro estado da Ucrânia, nem são forçadas a assim fazer pelo actual ou por qualquer futuro governo.

Esta mentira é promovida a fim de enganar a população dos EUA rumo ao continuado e escalado apoio militar dos EUA à Ucrânia, o qual é um crime de guerra e também pretende minar o Acordo Minsk II. A lógica da mentira é isto: desde que os rebeldes continuam a existir e não "gradualmente afirmam cada vez menos controle", então eles estão a violar Minsk II. Eles o violam só por existirem, de acordo com este artigo criminoso da Bloomberg.

O que Poroshenko assina ou não assina é praticamente irrelevante para o Acordo Minsk II. O acordo conclama uma nova constituição. Só um novo estado ucraniano, organizado como um estado federal tal como declarado claramente no Ponto 11 é o mecanismo que então dispara o processo – um mecanismo que ainda exige acordo bilateral – respeitante a qualquer controle de um futuro governo de Kiev sobre as fronteiras, e apenas as fronteiras de Donetsk e Lugansk, com a Rússia. Este não é de modo algum acerca do controle sobre as regiões "em ruptura".

Uma nova constituição tal como exigido por Minsk II significa um novo estado, um estado federal e não um estado unitário; isto significa essencialmente que o actual governo encabeçado por Poroshenko é provisório. Uma nova constituição, e só uma nova constituição, levaria ao acordo bilateral dos representantes de Donetsk e Lugansk. Estes não são os Governadores nomeados por Turchinov, mas especificamente aqueles do Grupo de Contacto Trilateral – Zakharchenko et al. Estes e apenas estes são indicados no Acordo e provavelmente exigiriam novas eleições, as quais significariam um novo governo em Kiev.

A Bloomberg tenta inverter a realidade. Este conflito iniciado pelos EUA já custou a vida de 50 mil pessoas segundo estimativas da inteligência alemã , bem como mais de um milhão de refugiados deslocados segundo a ONU. Com tão brutal má informação e desinformação do leitor numa matéria desta magnitude, e de adulteração dos factos, das citações e colocação de sentenças juntas de modo a comunicar uma mensagem diferente da verdade, os redactores, editores e proprietários da Bloomberg podem ser acusados de crimes de guerra: crimes contra a humanidade e crimes contra a paz.
[*] Analista político, radicado em Belgrado.

O original encontra-se em russia-insider.com/... 


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
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