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sábado, 3 de outubro de 2020

A juíza mafiosa que instruiu o processo de Assange

 

A juíza mafiosa que instruiu o processo de Assange

por Manlio Dinucci [*]

Emma Arbuthnot.Emma Arbuthnot é a juíza-chefe que, em Londres, instruiu o processo de extradição de Julian Assange para os Estados Unidos, onde o espera uma condenação a 175 anos de prisão por "espionagem", isto é, por ter publicado, enquanto jornalista de investigação, provas dos crimes de guerra dos Estados Unidos, entre os quais vídeos de massacres de civis no Iraque e no Afeganistão. No processo, confiado à juíza Vanessa Baraitser, foram rejeitados todos os requerimentos da defesa.

Em 2018, depois de ter fracassado a acusação de violência sexual por parte da Suécia, a juíza Arbuthnot recusou-se a anular o mandado de prisão, de maneira a que Assange não pudesse conseguir asilo no Equador. Arbuthnot rejeitou as conclusões do Grupo de Trabalho das Nações Unidas sobre a detenção arbitrária de Julian Assange. Também não foram ouvidas e levadas em conta as afirmações do responsável da ONU contra a tortura: "Assange, detido em condições extremas e não justificadas de isolamento, apresenta os sintomas típicos de uma prolongada exposição a tortura psicológica".

Em 2020, enquanto milhares de detidos eram transferidos para prisão domiciliária como medida contra o coronavírus, Assange foi mantido na cadeia, exposto ao contágio em condições físicas muito débeis. No tribunal, Assange não pode contactar com os seus advogados, é mantido numa gaiola de vidro blindado e ameaçado de expulsão se abrir a boca. O que existe por detrás deste extremo rigor?

A mafia da guerra

A juíza Arbuthnot usa o título de "Lady", uma vez que é casada com Lorde James Arbuthnot, conhecido como um "falcão" dos conservadores, antigo ministro das Adjudicações da Defesa, ligado ao complexo militar-industrial e aos serviços de espionagem. Lorde Arbuthnot é, designadamente, presidente da Comissão Consultiva britânica da empresa Thalès, multinacional francesa especializada em sistemas militares aeroespaciais e membro da comissão equivalente da empresa Montrose Associates, especializada em inteligência estratégica (cargos generosamente pagos). Lorde Arbuthnot integra a Henry Jackson Society (HJS), um influente "think tank" ou grupo de pressão transatlântico ligado ao governo e aos serviços de espionagem dos Estados Unidos.

No passado mês de Julho, o secretário de Estado norte-americano, Michael Pompeo, usou da palavra em Londres numa mesa-redonda da HSJ: desde que foi director da CIA em 2017, Pompeo acusa o website WikiLeaks, fundado por Assange, de ser "um serviço de espionagem do inimigo". Uma campanha no mesmo sentido é conduzida pela Henry Jackson Society, que acusa Assange de "semear dúvidas sobre a posição moral dos governos democráticos ocidentais com o apoio de regimes autocráticos".

À imagem da Santa Inquisição

No Conselho Político da mesma HSJ, ao lado de Lorde Arbuthnot, esteve até há pouco Priti Patel, actual ministro do Interior do Reino Unido, a quem está atribuída a extradição de Assange. A este grupo de pressão que conduz uma campanha de intoxicação pela extradição de Assange, sob a direcção de Lorde Arbuthnot e outras personalidades influentes, está substancialmente associada a juíza Lady Arbuthnot. Foi nomeada magistrada-chefe pela rainha em Setembro de 2016, depois de WikiLeaks ter publicado em Março os documentos mais comprometedores para os Estados Unidos. Entre eles os emails da secretária de Estado Hillary Clinton revelando o verdadeiro objectivo da guerra da NATO contra a Líbia: impedir que este país utilizasse as suas reservas de ouro para criar uma moeda pan-africana alternativa ao dólar e ao franco CFA, a moeda imposta pela França a 14 ex-colónias africanas.

O verdadeiro "delito" pelo qual Assange é julgado é o de ter aberto uma brecha no muro da omertà (secretismo mafioso) político-mediático que encobre os interesses reais que jogam a cartada da guerra operando no "Estado profundo". É este poder oculto que submete Assange a um processo, instruído por Lady Arbuthnot, que faz lembrar os da Santa Inquisição em termos de tratamento do acusado. Se for extraditado para os Estados Unidos, Assange será submetido a "medidas administrativas especiais" muito mais duras que as britânicas: ficará isolado numa pequena cela; não poderá contactar a família nem falar, nem mesmo através dos seus advogados uma vez que estes serão incriminados se derem conhecimento de qualquer das suas mensagens. Por outras palavras, será condenado à morte.

17/Setembro/2020

Ver também:
  • Assange e a miséria do jornalismo , também reproduzido aqui

    O original encontra-se em Il Manifesto e a tradução em www.oladooculto.com/noticias.php?id=856


    Este artigo encontra-se em https://resistir.info/ .
  • terça-feira, 4 de agosto de 2020

    Reino Unido recusa-se a divulgar informação básica acerca da juíza de Assange

    Reino Unido recusa-se a divulgar informação básica acerca da juíza de Assange
    – A juíza Baraitser tem uma taxa de aprovação de 96% dos casos de extradição
    – O braço longo do Deep State

    por Mark Curtis e Matt Kennard [*]
    Declassified UK descobriu que a juíza de Julian Assange, Vanessa Baraitser, ordenou a extradição em 96 por cento dos casos por ela presididos sobre os quais há informação publicamente disponível.

    Baraitser foi nomeada como juíza distrital em Outubro de 2011 com base no Chief Magistrate's Office em Londres, depois de ser admitida como candidata (solicitor) em 1994. Nenhuma outra informação no domínio público está disponível acerca dela depois disso.

    Baraitser tem sido criticada por um certo número das suas audiências de julgamento referentes até então a Assange, o qual foi encarcerado numa prisão de máxima segurança, HMP Belmarsh, em Londres, desde Abril de 2019. Estas decisões incluem recusa ao pedido de Assange de fiança (bail) de emergência durante a pandemia Covid-19 e fazê-lo sentar-se por trás de uma cortina de vidro durante a audiência, ao invés de sentar-se com os seus advogados.

    Declassified revelou recentemente que Assange é um dos dois dos 797 presos em Belmarsh que está a ser retido por violar condições de fiança. Mais de 20 por cento dos presos estão retidos por assassínio.

    Declassified também tem evidência de que o UK Home Office está a bloquear a divulgação de informação acerca do papel do secretário do Interior Priti Patel no caso da extradição de Assange.
    A juíza Baraitser.
    Requerimento recusado

    Um requerimento nos termos do Freedom of Information Act (FOIA) foi apresentado por Declassified ao Ministério da Justiça (MOJ) em 28/Fevereiro/2020 solicitando uma lista de todos os processos presididos por Baraitser desde que ela foi nomeada em 2011. Na resposta o MOJ observou que era obrigado a responder dentro de 20 dias úteis.

    Dois meses depois, em 29/Abril/2020, um responsável de informação nos HM Courts and Tribunals Service respondeu que podia "confirmar" que possuía "alguma da informação requerida por si".

    Mas o requerimento foi rejeitado pois o responsável afirmou que ele não estava em consonância com o Constitucional Reform Act. "O judiciário não é um organismo público para as finalidades do FOIA... e requerimentos a pedir para revelar todos os casos presididos por um determinado juiz estão portanto fora do âmbito do FOIA", declarou o responsável.

    O responsável acrescentou que a "informação requerida seriam de qualquer forma isentas de divulgação... porque contêm dados pessoais sobre os casos decididos por um juiz individual" e que "dados pessoais só podem ser divulgados se isso não violar nenhum dos princípios de protecção de dados" da Lei de Protecção de Dados.

    Um advogado britânico, que quis permanecer anónimo, mas que não está envolvido com o processo de Assange, disse a Declassified: "Neste caso a resistência à divulgação é curiosa. Um tribunal é uma autoridade pública para as finalidades da Lei de Direitos Humanos e um juiz é um funcionário do tribunal. Portanto é mais do que surpreendente que a primeira recusa argumentasse que, para as finalidades do FOIA, não há aqui qualquer organismo público sujeito à divulgação".

    O advogado acrescentou: "O argumento alternativo sobre os dados não procede. Um tribunal actua em público. Não há anonimato por defeito dos nomes dos processos, a menos que estejam envolvidas crianças ou outras circunstâncias limitadas, nem os juízes que decidam sobre eles. A justiça tem de ser vista a ser feita".

    Apesar de o HM Courts and Tribunals Service invocar uma cláusula de protecção de dados, Declassified conseguiu ver uma série de casos com nomes completos e detalhes no Westlaw, uma base de dados jurídica paga. A imprensa também relatou vários casos de extradição envolvendo o Baraitser.

    Uma análise interna da rejeição do requerimento de Declassified nos termos da Lei de liberdade de informação confirmou a rejeição.
    Resposta ao requerimento.
    Requerimento idêntico

    Em 10/Abril/2020 Declassified enviou ao MOJ um requerimento de informação idêntico a pedir uma lista de processos de um diferente juiz distrital, Justin Barro, que fora nomeado no mesmo dia que Baraitser, em Outubro de 2011.

    Este pedido foi respondido pelo MOJ rapidamente, dentro de 17 dias, a comparar com os dois meses de Baraitser. O responsável da informação também notou que "possui toda a informação que requereu" ao invés de "alguma" como no caso de Baraitser. Não está claro porque o HM Courts and Tribunals Service possuiria apenas alguma informação parcial sobre Baraitser mas nenhuma sobre Barron.

    Desta vez o requerimento não foi bloqueado. Em vez disso o responsável da informação pediu novo esclarecimento acerca da informação desejada, sugerindo questões tais como datas finais de audiência, nomes dos acusados e quais as acusações.

    Declassified esclareceu desejar que a lista incluísse "a data, o acusado, a acusação e a decisão do juiz".

    O responsável acabou por recusar deferir o requerimento, declarando que "excederia o limite de custo especificado no FOIA", mas acrescentando: "Embora não possamos responder ao seu requerimento no momento, podemos ser capazes de responder a um requerimento reformulado dentro do limite de custo".

    Com os registos idênticos de Baraitser, a possibilidade de reformular a pesquisa nunca foi apresentada – duas desculpas "absolutas" sendo aplicadas ao requerimento desde o princípio.
    Resposta ao 2º requerimento.
    O registo de Baraitser

    Apesar da rejeição do MOJ, Declassified descobriu 24 casos de extradição que Baraitser presidiu de Novembro de 2015 a Maio de 2019, descobertos utilizando o arquivo de media Factiva e a Westlaw . Destes 24 casos, Baraitser ordenou a extradição de 23 dos acusados, um registo de 96 por cento de extradições a partir da evidência disponível publicamente.

    Baraitser ordenou a extradição de acusados para pelo menos 11 países neste período, incluindo uma pessoa para o Reino Unido. Seis das extradições, ou 26 por cento das decisões, tiveram recurso com êxito.

    Num caso, a decisão de Baraitser de extraditar foi derrubada porque o juiz do tribunal de recurso "atribuiu peso considerável ao provável impacto da extradição sobre a saúde e bem estar da esposa do acusado", a qual "será deixada com muito pouco apoio".

    Recentemente, de modo controverso Baraitser recusou-se a garantir anonimato à parceira de Assange, Stella Moris, o que a levou a revelar publicamente seu relacionamento com Assange e seus dois filhos.

    A nomeação de Baraitser para presidir o processo de Assange permanece controversa e a decisão não transparente. É provável que a Magistrada Chefe, Lady Emma Arbuthot, estivesse envolvida na decisão de nomear Baraitser para o processo.
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    A magistrada chefe tem uma "responsabilidade de liderança" por aproximadamente 300 distritos e juízes suplentes na Inglaterra e Gales. Arbuthnot ouve "muitos dos processos mais sensíveis ou complexos nos tribunais de magistrados e em particular processos de extradição e de jurisdição especial".

    O papel de Arbuthnot também inclui "apoio e orientação" a juízes distritais tais como Baraitser e "ligação com os juízes senior e presidentes do judiciário" sobre os processos que estão a presidir.

    Mas o papel de Arbuthnot no processo de Assange está atolado em controvérsia e conflitos de interesse devido às suas conexões familiares ao establishment militar e de inteligência britânico, como anteriormente revelou Declassified. Arbuthnot recebeu pessoalmente benefícios financeiros de organizações parceiras do Foreign Office britânico, o qual chamou Assange de um "pequeno verme miserável".

    Arbuthnot presidiu directamente o processo de Assange em 2018-19 e nunca renunciou formalmente ao mesmo. Segundo uma declaração dada a Private Eye, ela pôs-se de lado devido a um "viés de percepção", mas não esclareceu o que isto significava.

    Uma vez que Arbuthnot não renunciou formalmente, a equipe de defesa de Assange não pode revisitar suas determinações pois podia ter deixado em aberto a possibilidade de ela escolher qual dos seus juízes júnior devia presidir o processo de Assange.

    Num julgamento chave em Fevereiro de 2018, Arbuthnot rejeitou as constatações do Grupo de Trabalho das Nações Unidas sobre Detenção Arbitrária (United Nations Working Group on Arbitrary Detention) – um organismo internacional composto por peritos legais – de que Assange estava a ser "detido arbitrariamente" , caracterizou a permanência de Assange na embaixada como "voluntária" e concluiu que a saúde e o estado mental de Assange era de menor importância.

    Numa segunda decisão uma semana depois, Arbuthnot descartou os temores de Assange de extradição do Reino Unido. "Eu aceito que o sr. Assange tenha manifestado temores de ser devolvido (returned) para os Estados Unidos desde a primeira etapa no processo de extradição sueco mas... não considero que os temores do sr. Assange fossem razoáveis", disse ela.

    Em Maio de 2019, logo depois de Assange ter sido capturado pela polícia britânica no seu asilo na embaixada equatoriana, o governo dos EUA requereu a sua extradição com acusações que podiam aprisioná-lo por 175 anos .
    Lady Arbuthnot.
    Mais silêncio

    Declassified tambem apresentou um requerimento nos termos do Freedom of Information Act de uma lista de todos os processos corridos no Woolwich Crown Court, próximo Belmarsh, durante 2019. Baraitser havia de modo controverso mudado as audiências de Assange para Woolwich – que é frequentemente utilizado para processos de terrorismo – antes da pandemia do Covid-19. Estas agora foram mudadas outra vez para o Old Bailey, o tribunal criminal central da Inglaterra e Gales.

    Este requerimento, enviado em 31/Março/2020, foi mais uma vez rejeitado. O responsável do MOJ declarou: "Posso confirmar que o MOJ possui a informação solicitada. A totalidade da informação está isenta de divulgação ao abrigo da secção 32 da FOIA porque é mantida num registo judicial".

    Acrescentou que: "A secção 32 é uma isenção absoluta e não há nenhum dever de considerar o interesse público em divulgar".

    Apesar de listas diárias dos casos ouvidos em Woolwich serem livremente disponíveis online , incluindo nomes de acusados, um pedido de revisão interna efectuado a pedido de Declassified chegou à mesma conclusão.

    Em 15/Maio/2020, Declassified enviou novo requerimento ao FOI, desta vez para a Secretaria do Interior, a pedir informação sobre quaisquer chamadas telefónicas ou emails feitos ou recebidos pelo actual secretário do Interior Priti Patel referente ao processo Assange.

    A Secretaria do Interior respondeu: "Nós nem confirmamos nem negamos se possuímos qualquer informação, dentro do âmbito do seu requerimento". Acrescentou que a razão era "proteger dados pessoais".

    Mas, em Janeiro de 2020, Declassified requereu a mesma informação relativa ao período em que Sajid Javid era secretário do Interior, Abril/2018 – Julho/2019. Neste caso, a secretaria do Interior respondeu: "Efectuámos uma procura meticulosa e estabelecemos que a Secretaria do Interior não possui a informação que requereu".

    As respostas da Secretaria do Interior parecem indicar que Patel teve comunicações respeitantes a Assange durante o seu mandato como secretário do Interior, mas que o governo está relutante em revelar esta informação. O processo Assange continua a estabelecer um precedente legal ao estar atolado em opacidade e conflitos de interesse.

    Patel – que também é ligado ao marido de Arbuthnot, Lord Arbuthnot – assinará a extradição de Assange do Reino Unido, se for ordenada por Baraitser.
    31/Julho/2020

    [*] Matt Kennard é chefe de investigações e Mark Curtis é editor de Declassified UK. Seus tweets são @kennardmatt e @markcurtis30.

    O original encontra-se em Declassified UK e em Consortium News

    Este artigo encontra-se em https://resistir.info/ .

    sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

    Relator da ONU: "O caso de Julian Assange é um enorme escândalo. Se ele for condenado, será uma sentença de morte para a liberdade de imprensa"


  • Como Assange foi perseguido politicamente por quatro países – EUA, Reino Unido, Equador e Suécia – que queriam acabar com o Wikileaks
  • Os media corporativos fazem silenciamento deliberado do caso Assange
  • por Nils Melzer
    entrevistado por Daniel Ryser
    Nils Melzer.Uma acusação de estupro que as mulheres não fizeram, testemunhos adulterados, pressão do Reino Unido para não largar o caso, um juiz parcial, uma prisão em uma penitenciária de segurança máxima, tortura psicológica – Julian Assange enfrentou tudo isso e agora corre risco de uma extradição para os EUA, onde ele pode enfrentar até 175 anos de prisão por expor crimes de guerra.

    Os Estados Unidos pedem a extradição do fundador do Wikileaks com base na Lei de Espionagem por ter publicado documentos secretos do governo americano. Enquanto aguarda o julgamento do pedido, Assange está em um presídio de segurança máxima na Inglaterra.

    Pela primeira vez, o Relator Especial sobre tortura da ONU, Nils Melzer, fala em detalhes sobre as descobertas explosivas de sua investigação no caso do fundador do Wikileaks. Melzer é taxativo ao explicar por que o caso de Assange interessa a ele – e por que deveria interessar a todos que se importam com a democracia. "Julian Assange foi intencionalmente torturado psicologicamente pela Suécia, Inglaterra, Equador e pelos EUA", diz.

    "A coisa realmente horripilante nesse caso é a ilegalidade que se desenvolveu: os poderosos podem matar sem medo de punição e o jornalismo se transforma em espionagem. Está se tornando um crime dizer a verdade".

    Leia a entrevista:

    Nils Melzer, por que a Relatoria Especial de Tortura da ONU está interessada em Julian Assange?

    Isso é uma coisa que o ministro de Relações Exteriores da Alemanha também me perguntou recentemente. Isso está dentro do seu mandato, como relator para tortura? O Assange é vítima de tortura?

    Qual foi sua resposta?

    O caso está sob meu mandato de três maneiras diferentes: primeiro, Assange publicou provas de tortura sistemática, mas ao invés dos responsáveis pela tortura, é o Assange que está sendo perseguido. Segundo, ele mesmo foi tão maltratado que agora está exibindo sintomas de tortura psicológica. E terceiro, ele está prestes a ser extraditado para um país que detém pessoas como ele em condições de detenção que a Anistia Internacional descreveu como tortura. Em suma: Julian Assange denunciou práticas de tortura, foi ele mesmo torturado e poderia ser torturado até a morte nos Estados Unidos. E um caso desses não deveria ser de minha responsabilidade? Além disso, esse caso tem grande importância simbólica e afeta todos os cidadãos de países democráticos.

    Por que você não assumiu o caso antes, então?

    Imagine um quarto escuro. De repente, uma pessoa coloca luz sobre um elefante no quarto – e revela criminosos de guerra, ou corrupção. Assange é o homem com a lanterna. Os governos ficam primeiro em estado de choque, mas depois desviam a luz da lanterna com acusações de estupro. É uma manobra clássica para manipular a opinião pública. O elefante desaparece mais uma vez na escuridão. E Assange vira o foco da atenção, no seu lugar. E nós começamos a discutir se ele está andando de skate na embaixada ou se está alimentando seu gato corretamente. De repente, todos nós sabemos que ele é um estuprador, um hacker, um espião e um narcisista. Mas os abusos e crimes de guerra que ele denunciou desaparecem na escuridão. Eu também perdi o foco, apesar da minha experiência profissional, que deveria ter me deixado mais atento.

    Vamos começar pelo começo. O que te levou a assumir esse caso?

    Em dezembro de 2018, os advogados dele me pediram para intervir. Inicialmente eu recusei. Eu estava sobrecarregado com trabalho e não estava familiarizado com o caso. Minha impressão, altamente influenciada pela mídia, também foi direcionada pelo preconceito, de que o Assange era de certa maneira culpado e queria me manipular. Em março de 2019, seus advogados me abordaram uma segunda vez, porque uma série de fatores indicavam que logo ele seria expulso da embaixada do Equador em Londres. Eles me enviaram alguns documentos importantes e um resumo do caso e eu percebi que minha integridade profissional exigia que eu pelo menos olhasse para o material.

    E então?

    Rapidamente eu percebi que algo estava errado. Era uma contradição que não fazia sentido para mim, com minha extensiva experiência legal: por que uma pessoa seria submetida a nove anos de uma investigação preliminar por estupro, sem ser indiciado?

    Isso é incomum?

    Eu nunca vi um caso parecido. Qualquer um pode iniciar uma investigação preliminar contra qualquer pessoa simplesmente indo à polícia e acusando outra pessoa de um crime. As autoridades suecas , no entanto, nunca se interessaram em tomar o depoimento de Assange. Eles o deixaram num limbo intencionalmente. Imagine ser acusado de estupro por nove anos e meio por todo um aparato de Estado e pela mídia, sem nunca ter tido a chance de se defender porque nenhuma acusação formal foi feita.

    Você diz que as autoridades suecas nunca se interessaram em tomar o depoimento de Assange, mas a mídia e as agências governamentais pintaram uma imagem completamente diferente durante esses anos: de que Julian Assange teria fugido da Justiça sueca para evitar a condenação.

    Foi isso o que eu sempre achei, até que comecei a investigar. O oposto é a verdade. Assange se apresentou às autoridades suecas em muitas ocasiões, porque ele queria responder às acusações. Mas as autoridades o bloquearam.

    O que você quer dizer com "as autoridades o bloquearam"?

    Permita-me começar do começo. Eu falo sueco fluentemente e assim fui capaz de ler todos os documentos originais. Eu mal pude acreditar no que li: de acordo com o testemunho da mulher em questão, o estupro nunca aconteceu. E não apenas isso: o testemunho da mulher foi alterado pela polícia de Estocolmo sem o seu envolvimento, para que de alguma forma parecesse que houve um estupro. Eu tenho todos os documentos comigo, os e-mails, as mensagens.

    "O testemunho da mulher foi alterado pela polícia", como exatamente?

    Em 20 de agosto de 2010, uma mulher chamada S. W. entrou em uma delegacia de Estocolmo, junto com uma outra mulher chamada A. A.

    A primeira mulher, S. W., disse que ela teve relação sexual consensual com Julian Assange, mas ele não usou um preservativo. Ela disse que estava preocupada sobre ele ter possivelmente a infectado com HIV e queria saber se podia forçar Assange a fazer um teste. Ela disse que estava muito preocupada. A polícia anotou seu depoimento e imediatamente informou promotores. Antes mesmo do interrogatório acabar, S. W. foi informada que Assange seria preso sob suspeitas de estupro.

    S. W. ficou chocada e se recusou a continuar o interrogatório. Ainda na delegacia, ela escreveu uma mensagem a uma amiga dizendo que não queria incriminar o Assange, que ela só queria que ele fizesse um teste de HIV, mas a polícia aparentemente estava interessada em "colocar suas mãos nele".

    O que isso quer dizer?

    S.W. nunca acusou Julian Assange de estupro. Ela se negou a participar de outros interrogatórios e foi para casa. Apesar disso, duas horas depois, uma manchete apareceu na primeira página da Expressen, um tabloide sueco, dizendo que Julian Assange era suspeito de ter cometido dois estupros.

    Dois estupros?

    Sim, porque havia uma segunda mulher, A. A. Ela não queria prestar queixas também, ela apenas estava acompanhando S. W. à delegacia. Ela nem foi interrogada naquele dia. Depois ela disse que Assange a assediou sexualmente. Eu não posso afirmar, claro, se isso é verdade ou não. Só posso apontar para a ordem dos acontecimentos: uma mulher vai até a delegacia de polícia. Ela não quer prestar uma queixa, mas quer pedir um teste de HIV. A polícia então decide que isso pode ser um caso de estupro e um assunto para promotores públicos. A mulher se recusa a colaborar com essa versão dos acontecimentos, vai para casa e escreve para uma amiga que não era sua intenção, mas a polícia queria "colocar suas mãos" em Assange. Duas horas depois, o caso está nos jornais.

    Hoje sabemos que os promotores vazaram o caso para a imprensa – e eles o fizeram sem nem ao menos chamar Assange para depor. E a segunda mulher, que supostamente foi estuprada de acordo com a manchete do dia 20 de agosto, só foi interrogada no dia 21 de agosto de 2010.

    O que a segunda mulher disse quando foi interrogada?

    Ela disse que havia disponibilizado seu apartamento para Assange, que estava na Suécia para uma conferência. Um pequeno apartamento de um quarto. Enquanto Assange estava no apartamento, ela voltou mais cedo a casa do que o planejado e disse a ele que não tinha problema, e que eles dois poderiam dormir na mesma cama.

    Naquela noite eles tiveram sexo consensual, com preservativo. Mas ela disse que durante o sexo, Assange intencionalmente furou a camisinha. Se isso for verdade, então foi, claro, um crime sexual, chamado stealthing . Mas a mulher também disse que ela só percebeu depois que o preservativo estava furado. Isso é uma contradição que deveria ser esclarecida. Se eu não percebi, então não posso saber se o outro o fez intencionalmente. Nenhum traço de DNA de Assange ou de A. A. foi detectado na camisinha que foi apresentada como prova.

    Como as duas mulheres se conheciam?

    Na verdade elas não se conheciam. A. A., que estava hospedando Assange e que estava trabalhando como sua assessora de imprensa, conheceu S. W. em um evento no qual S. W. estava usando um casaco de cashmere rosa. Ela aparentemente sabia, de Assange, que ele estava interessado em dormir com S. W., porque em uma noite ela recebeu uma mensagem de um conhecido dizendo que ele sabia que Assange estava se hospedando com ela e que ele, o conhecido, gostaria de contatar Assange. A. A. respondeu: Assange aparentemente está dormindo agora com a "cashmere girl". Na manhã seguinte, S. W. falou com A. A. pelo telefone e ela disse que também havia dormido com Assange e estava preocupada sobre ter possivelmente se infectado com HIV.

    Essa preocupação, aparentemente, era real, porque S. W. foi a uma clínica se consultar. A. A. então sugeriu: vamos à polícia – eles podem obrigar Assange a fazer um teste de HIV. As duas mulheres, porém, não foram à delegacia mais próxima, mas a uma afastada, onde uma amiga de A. A. trabalhava como policial – foi ela quem posteriormente interrogou S. W., inicialmente na presença de A. A., o que não é a prática apropriada.

    Até aí, porém, o único problema era a falta de profissionalismo. A malevolência intencional das autoridades só se tornou aparente quando elas imediatamente disseminaram a suspeita de estupro através da imprensa tabloide, e o fizeram sem interrogar A. A. e em contradição com o depoimento de S. W.

    Isso também violou uma clara proibição da lei sueca sobre vazar nomes de supostas vítimas ou acusados de ofensas sexuais. O caso então chamou a atenção da promotora-chefe da capital sueca e ela encerrou as investigações de estupro dias depois, com a justificativa de que, apesar dos depoimentos de S. W. serem críveis, não havia evidências de que o crime fora cometido.

    Mas o caso realmente decolou. Por quê?

    O supervisor da policial que conduziu o interrogatório escreveu um e-mail a ela pedindo para reescrever o depoimento de S. W.

    O que a policial mudou?

    Não sabemos, porque o primeiro depoimento foi alterado diretamente no computador e não existe mais. Nós só sabemos que o original, de acordo com a promotora-chefe, aparentemente não continha nenhuma indicação de que um crime havia sido cometido. Na forma editada, o depoimento diz que os dois tiveram relações sexuais muitas vezes – consensuais e sem camisinha. Mas de manhã, de acordo com o depoimento editado, a mulher acordou com ele tentando penetrá-la sem camisinha. Ela perguntou: "Você está de camisinha?" E ele disse: "Não." Então ela disse: "É bom você não ter HIV". E permitiu que ele continuasse. O depoimento foi editado sem o envolvimento da mulher em questão e não foi assinado por ela. É uma prova manipulada sobre a qual a polícia sueca construiu a história de um estupro.

    Por que as autoridades suecas fariam isso?

    O timing foi decisivo: No final de julho, o Wikileaks – em cooperação com o New York Times, The Guardian e a revista Der Spiegel – publicaram os Diários da Guerra no Afeganistão . Foi um dos maiores vazamentos na história do exército americano. Os EUA imediatamente exigiram que todos os seus aliados enchessem Assange de processos criminais. Não sabemos de todas as conexões, mas a empresa Stratfor, uma consultoria de segurança que trabalha para o governo dos EUA, aconselhou oficiais americanos a afogar Assange com todos os tipos de processos criminais pelos próximos 25 anos.

    Por que Assange não se entregou à polícia na ocasião?

    Ele se entregou. Eu disse isso anteriormente.

    Então elabore, por favor.

    Assange descobriu sobre as acusações de estupro através da imprensa. Ele entrou em contato com a polícia para prestar depoimento. Apesar do escândalo ter sido publicado, ele só pode fazer isso depois de nove dias, depois que a acusação de que ele estuprou S. W. não estava mais sendo investigada. Mas os procedimentos relacionados ao assédio sexual de A. A. continuavam. No dia 30 de agosto de 2010, Assange foi à delegacia prestar depoimento. Ele foi interrogado pela mesma policial que recebeu o pedido para revisar o depoimento de S. W. No início da conversa, Assange diz que está pronto para prestar o depoimento, mas acrescenta que não quer ler sobre seu depoimento na imprensa. Isso é seu direito, e ele recebe garantias de que isso seria feito. Mas naquela mesma noite, tudo estava nos jornais de novo. E só poderia ter vindo das autoridades, porque ninguém mais estava presente durante o interrogatório. A intenção de manchar seu nome foi muito clara.

    De onde veio a história de que Assange estava tentando evitar a Justiça sueca?

    Essa versão foi fabricada, mas não condiz com os fatos. Se ele estivesse tentando se esconder, ele não teria ido à delegacia por vontade própria. Com base no depoimento editado de S. W., uma apelação foi feita contra a decisão da promotoria de suspender as investigações e, no dia 2 de setembro de 2010, o processo de estupro foi retomado. Um representante legal chamado Claes Borgström foi indicado para as duas mulheres, pago pelo governo. O homem era sócio do escritório de advocacia do antigo ministro da justiça, Thomas Bodström, sob cuja supervisão funcionários de segurança prenderam dois homens considerados suspeitos pelo governo dos EUA no centro de Estocolmo. Os homens foram presos sem nenhum procedimento legal e entregues à CIA, que os torturou.

    Isso mostra o pano de fundo transnacional desse caso. Após o reinício da investigação de estupro, Assange repetidamente indicou por meio de seu advogado que desejava responder às acusações. O promotor responsável continuava protelando. Em uma ocasião não tinha agenda, em outra o policial responsável estava doente. Três semanas depois, seu advogado finalmente escreveu que Assange precisava ir a Berlim para uma conferência e perguntou se ele podia sair do país. O escritório do promotor deu autorização escrita de que ele poderia sair do país por curtos períodos de tempo.

    E então?

    No dia que em Julian Assange saiu da Suécia, em um momento em que não estava claro se ele estava saindo por um curto período ou por um longo tempo, foi emitido um mandado de prisão. Ele voou com a Scandinavian Airlines (SAS) de Estocolmo para Berlim. Durante o voo, seus laptops desapareceram do compartimento de bagagem. Quando ele chegou em Berlim, a Lufthansa solicitou uma investigação à SAS, mas a companhia aérea aparentemente se recusou a fornecer qualquer informação.

    Por quê?

    É exatamente esse o problema. Nesse caso, acontecem o tempo todo coisas que não deveriam ser possíveis, a não ser que você olhe para elas de um ângulo diferente. Assange, ainda assim, continuou a viagem rumo a Londres, mas não tentou se esconder do judiciário. Através do seu advogado sueco, ele ofereceu uma série de possíveis datas para o interrogatório na Suécia – essas correspondências existem. Então aconteceu o seguinte: Assange percebeu o fato de que um caso criminal secreto havia sido aberto contra ele nos EUA. Na época, isso não foi confirmado pelos EUA, mas hoje sabemos que era verdade. A partir daí, o advogado de Assange começou a dizer que seu cliente estava pronto para testemunhar na Suécia, mas ele exigia a garantia diplomática de que a Suécia não iria extraditá-lo para os EUA.

    E essa era uma possibilidade real?

    Com certeza. Alguns anos antes, como mencionei, agentes de segurança suecos entregaram dois homens que pediam asilo, ambos registrados na Suécia, para a CIA, sem nenhum processo legal. Os abusos já começaram no aeroporto de Estocolmo, onde foram maltratados, drogados e levados de avião para o Egito, onde foram torturados.

    Nós não sabemos se eles foram os únicos casos, mas sabemos desse caso porque os homens sobreviveram. Ambos registraram queixas junto a agências de direitos humanos da ONU e venceram seus processos. A Suécia foi obrigada a pagar para cada um deles meio milhão de dólares pelos danos.

    E a Suécia concordou com as exigências de Assange?

    Os advogados dizem que durante os quase sete anos nos quais Assange viveu na embaixada do Equador, eles fizeram mais de 30 ofertas para que Assange fosse à Suécia – em troca da garantia de que ele não seria extraditado para os EUA. Os suecos recusaram a dar essas garantias argumentando que os EUA não haviam feito um pedido formal de extradição.

    Qual é sua visão sobre essa exigência feita pelos advogados de Assange?

    Garantias diplomáticas como essa são parte da prática internacional rotineira. Pessoas pedem garantias de que não serão extraditadas para lugares onde há perigo de sérias violações de direitos humanos, completamente independentemente de um pedido de extradição ter sido apresentado pelo país em questão ou não. É um procedimento político, não legal. Aqui está um exemplo: imagine que a França exija que a Suíça extradite um empresário cazaque que mora na Suíça, mas que é procurado pela França e pelo Cazaquistão por alegações de fraude fiscal. A Suíça não vê perigo de tortura na França, mas acredita que esse perigo existe no Cazaquistão. Então a Suíça diz para a França: "vamos extraditar o homem para você, mas queremos uma garantia diplomática de que ele não será extraditado para o Cazaquistão posteriormente". A resposta francesa não é: "Cazaquistão nem registrou um pedido". Em vez disso, eles obviamente concederiam tal garantia.

    Os argumentos provenientes da Suécia foram fracos, na melhor das hipóteses. Isso é uma parte disso. A outra parte, e digo isso com base em toda a minha experiência nos bastidores da prática internacional: se um país se recusa a fornecer tal garantia diplomática, todas as dúvidas sobre as boas intenções do país em questão são justificadas. Por que a Suécia não deveria fornecer tais garantias? Do ponto de vista jurídico, afinal, os EUA não têm absolutamente nada a ver com os processos de crimes sexuais suecos.

    Então por que a Suécia não ofereceu tal garantia?

    Apenas veja como o caso foi conduzido: para a Suécia nunca foi sobre os interesses das duas mulheres. Mesmo após seu pedido de garantias de que não seria extraditado, Assange ainda queria testemunhar. Ele disse: se você não pode garantir que eu não serei extraditado, estou disposto a ser interrogado em Londres ou por vídeo.

    Mas é normal, ou legalmente aceitável, que as autoridades suecas viagem para um país diferente para um interrogatório como esse?

    Essa é mais uma indicação de que a Suécia nunca esteve interessada em encontrar a verdade. Para exatamente esses tipos de questões judiciais, existe um tratado de cooperação entre o Reino Unido e a Suécia, que prevê que as autoridades suecas possam viajar para o Reino Unido, ou vice-versa, para conduzir interrogatórios ou que esse questionamento possa ocorrer via vídeo. Durante o período em questão, esse questionamento entre a Suécia e a Inglaterra ocorreu em outros 44 casos. Foi apenas no caso de Julian Assange que a Suécia insistiu que era essencial que ele aparecesse pessoalmente.

    Por que isso?

    Existe apenas uma explicação para tudo – a recusa em conceder garantias diplomáticas, a recusa em interrogá-lo em Londres: eles queriam prendê-lo para que ele fosse extraditado para os EUA. O número de violações da lei que se acumulou na Suécia apenas algumas semanas durante a investigação criminal preliminar é simplesmente grotesca. O Estado designou um consultor jurídico para as mulheres, que lhes disse que a interpretação criminal sobre o que elas vivenciaram estava a cargo do Estado, e não mais delas. Quando o consultor jurídico foi questionado sobre as contradições entre o testemunho das mulheres e a narrativa adotada pelos funcionários públicos, ele disse, em referência às mulheres: "ah, mas elas não são advogadas".

    Mas por cinco longos anos, a promotoria sueca evitou interrogar Assange sobre o suposto estupro, até que seus advogados finalmente peticionaram a Suprema Corte Sueca a forçar a promotoria a oferecer denúncia ou encerrar o caso. Quando os suecos disseram ao Reino Unido que eles poderiam ser obrigados a abandonar o processo, os britânicos responderam preocupados: "Não ousem ficar com medo!".

    É sério?

    Sim, os ingleses, ou mais especificamente o serviço de promotoria da Coroa, queriam evitar que a Suécia abandonasse o caso a qualquer custo. Quando na verdade os ingleses deveriam estar felizes porque não teriam que gastar mais milhões de dólares de impostos para manter a embaixada equatoriana sob constante vigilância para prevenir uma fuga de Assange.

    Por que os ingleses estavam tão determinados a evitar que os suecos encerrassem o processo?

    Temos que parar de acreditar que havia um real interesse de conduzir uma investigação sobre crime sexual. O que o WikiLeaks fez foi uma ameaça à elite política dos Estados Unidos, do Reino Unido, da França e da Rússia em igual medida. O WikiLeaks publica segredos de estado, documentos confidenciais – eles são contra qualquer sigilo.

    E em um mundo, mesmo nas chamadas democracias maduras, onde o sigilo se tornou desenfreado, isso é visto como uma ameaça fundamental. Assange deixou claro que hoje os países não estão mais interessados em confidencialidade legítima, mas na supressão de informações importantes sobre corrupção e crimes. Veja o famoso caso do WikiLeaks dos vazamentos fornecidos por Chelsea Manning: o chamado vídeo "Collateral Murder" . [Em 5 de abril de 2010, o Wikileaks publicou um vídeo secreto das forças armadas dos EUA que mostrava o assassinato de várias pessoas em Bagdá por soldados dos EUA, incluindo dois funcionários da agência de notícias Reuters]

    Como um conselheiro de longa data para o Comitê Internacional da Cruz Vermelha em zonas de guerra, eu posso te dizer: O vídeo sem sombra de dúvidas documenta um crime de guerra. A tripulação de um helicóptero simplesmente matou um monte de gente. Pode até ser que uma ou duas dessas pessoas estivessem carregando uma arma, mas as pessoas feridas foram alvos intencionais. Isso é um crime de guerra. "Ele está ferido", você pode ouvir um americano dizendo. "Estou atirando." E então eles dão risada. Então uma van chega para ajudar os feridos. O motorista está com duas crianças. Dá pra ouvir os soldados dizerem: "Bom, é culpa deles terem levado as crianças para uma guerra". E abrem fogo. O pai e os feridos são imediatamente mortos, mas as crianças sobrevivem com sérios ferimentos. Através da publicação do vídeo, nós nos tornamos testemunhas de um massacre injusto e criminoso.

    O que uma democracia constitucional deve fazer em uma situação dessas?

    Uma democracia constitucional provavelmente investigaria Chelsea Manning por violar o sigilo oficial, porque ela passou o vídeo para Assange. Mas certamente não iria atrás de Assange, porque ele publicou um vídeo de interesse público, o que faz parte das práticas do jornalismo investigativo clássico.

    Mais do que isso, uma democracia constitucional investigaria e puniria os crimes de guerra. Esses soldados deveriam estar presos. Mas nenhuma investigação criminal foi aberta contra nenhum deles. Em vez disso, o homem que informou o público está preso em uma penitenciária pré-extradição em Londres e pode enfrentar uma condenação nos EUA de até 175 anos de prisão. É uma sentença completamente absurda. Para comparar, os principais criminosos de guerra do tribunal da Iugoslávia receberam sentenças de 45 anos. Cento e setenta e cinco anos de prisão em condições que foram consideradas desumanas pelo Relator Especial da ONU e pela Anistia Internacional.

    Mas a coisa realmente horrível nesse caso é a ilegalidade que se desenvolveu: os poderosos podem matar sem medo de punição e o jornalismo se transforma em espionagem. Está se tornando um crime dizer a verdade.

    O que aguarda Assange se ele for extraditado?

    Ele não vai receber um julgamento consistente com a lei. Esse é outro motivo pelo qual sua extradição não deveria ser permitida. Assange receberá um julgamento por júri em Alexandria, na Virgínia – a famosa "Corte da Espionagem", onde os EUA julgam todos os casos de segurança nacional. A escolha da localidade não é uma coincidência, porque os membros do júri devem ser escolhidos proporcionalmente à população local e 85% dos residentes em Alexandria trabalham nos serviços de segurança nacional – na CIA, na NSA, no Departamento de Defesa e no Departamento de Estado. Quando as pessoas são julgadas por ameaçarem a segurança nacional em frente a um júri desses, o veredicto é claro desde o início. Os casos são sempre julgados em frente ao mesmo juiz, atrás de portas fechadas e com as provas sob sigilo. Ninguém nunca foi inocentado em um caso como esse. O resultado é que a maioria dos réus chega a um acordo, no qual eles admitem culpa parcial para receber uma sentença mais branda.

    Você está dizendo que Julian Assange não receberá um julgamento justo nos Estados Unidos?

    Sem dúvidas. Enquanto os empregados do governo americano obedecerem os seus superiores, eles podem participar em crimes de guerra e tortura com total certeza de que nunca terão que responder por suas ações.

    O que aconteceu com as lições aprendidas nos Julgamentos de Nuremberg? Já trabalhei o suficiente em zonas de conflito para saber que erros acontecem na guerra. Nem sempre são atos criminosos sem escrúpulos. Muito disso é resultado de estresse, exaustão e pânico. É por isso que eu posso entender completamente quando um governo diz: "vamos trazer luz à verdade e nós, como Estado, nos responsabilizamos completamente pelos males causados, mas se a culpa não pode ser direcionada para indivíduos, nós não vamos impor punições draconianas."

    Mas é extremamente perigoso quando a verdade é suprimida e os criminosos não são julgados. Nos anos 30, a Alemanha e o Japão deixaram a Liga das Nações. Quinze anos depois, o mundo estava em ruínas. Hoje, os Estados Unidos deixou o conselho de Direitos Humanos da ONU e nem o massacre "Collateral Murder" nem a tortura da CIA depois de 9 de setembro, nem a guerra de agressões contra o Iraque levaram a investigações criminais. Agora, o Reino Unido está seguindo esse exemplo. O Comitê de Segurança e Inteligência do parlamento do país publicou dois extensos relatórios em 2018 mostrando que o Reino Unido estava muito mais envolvido com o programa secreto de tortura da CIA do que se acreditava. O comitê recomendou uma investigação formal. A primeira coisa que Boris Johnson fez depois que se tornou primeiro ministro foi anular essa investigação.

    Em abril de 2019, Julian Assange foi retirado da embaixada equatoriana pela polícia britânica. Qual é a sua visão sobre esses eventos?

    Em 2017, um novo governo foi eleito no Equador. E os EUA escreveram uma carta indicando que eles tinham o desejo de cooperar com o Equador. Havia, é claro, muito dinheiro em jogo, mas havia também um empecilho no caminho: Julian Assange. A mensagem era que os EUA estavam preparados para cooperar se o Equador entregasse Assange aos EUA. A essa altura, a embaixada equatoriana começou a aumentar as pressões sobre Assange. Tornaram sua vida mais difícil. Mas ele permaneceu. Então o Equador retirou sua anistia e deu à Inglaterra sinal verde para prendê-lo. Já que o governo anterior havia garantido a ele cidadania equatoriana, o passaporte de Assange também teve que ser revogado, porque a Constituição do Equador proíbe a extradição de seus próprios cidadãos. Tudo isso aconteceu em uma madrugada, sem nenhum procedimento legal. Assange não teve a oportunidade de se pronunciar ou recorrer a recursos legais. Ele foi preso pela polícia britânica e levado a um juiz naquele mesmo dia, que o condenou por violar a condicional.

    O que você conclui sobre esse veredito acelerado?

    Assange só teve 15 minutos para se preparar com seu advogado. O julgamento em si só levou 15 minutos. O advogado do Assange colocou um enorme dossiê na mesa e fez uma objeção formal a uma das juízas por conflito de interesses, porque seu marido havia sido objeto de exposições do Wikileaks em 35 documentos. Mas o juiz principal colocou de lado as objeções sem nem examiná-las a fundo. Ele disse que acusar sua colega de conflito de interesses era uma afronta. O próprio Assange falou apenas uma frase durante todo o processo: "Não me declaro culpado". O juiz voltou-se para ele e disse: "Você é um narcisista que não consegue ir além do seu próprio interesse. Eu o condeno por violação da condicional."

    Se eu entendi direito, Julian Assange nunca teve uma chance desde o princípio?

    É exatamente isso. Não estou dizendo que Julian Assange é um anjo ou um herói, mas ele não precisa ser. Estamos falando sobre direitos humanos e não sobre heróis e anjos. Assange é uma pessoa, e ele tem o direito de se defender e de ser tratado de maneira humana. Não importa do que ele é acusado, Assange tem o direito a um julgamento justo. Mas ele teve esses direitos negados deliberadamente – na Suécia, nos EUA, no Reino Unido e no Equador. Em vez disso, deixaram-no apodrecer por quase sete anos no limbo de um quarto.

    Depois, ele foi subitamente retirado e condenado em questão de horas, e sem nenhuma preparação, por uma violação de condicional que consistia no fato de ele ter recebido asilo diplomático de outro Estado membro da ONU com base em perseguição política, exatamente como a lei internacional prevê e assim como inúmeros dissidentes chineses, russos e outros fizeram nas embaixadas ocidentais.

    É óbvio que o que estamos lidando aqui é uma perseguição política. Na Inglaterra, violações de condicional raramente levam à prisão – elas geralmente são sujeitas a multas. Assange, por outro lado, foi condenado em um processo sumário a 50 semanas em uma prisão de segurança máxima – claramente uma penalidade desproporcional que tinha apenas um único objetivo: deter Assange por tempo suficiente para que os EUA preparem seu caso de espionagem contra ele.

    Como o Relator Especial sobre Tortura na ONU, o que você tem a dizer sobre suas condições atuais de prisão?

    A Inglaterra negou contato de Assange com seus advogados nos EUA, onde ele é alvo de processos sigilosos. Sua advogada inglesa também reclamou que ela não tem tido acesso suficiente ao seu cliente para mostrar-lhe os documentos da corte e as provas. Até outubro [de 2019], ele não podia ter nenhum documento sobre seu processo com ele na cela. Ele teve o direito fundamental de preparar sua defesa, como garantido pela Convenção Europeia de Direitos Humanos, negado. Além disso, a quase completa solitária à qual ele está submetido é completamente desproporcional com a sua violação de condicional. Assim que ele deixa a cela, os corredores são esvaziados para evitar que ele tenha contato com outros presos. E tudo isso por causa de uma violação de condicional? Quando é que a prisão vira tortura?

    Julian Assange foi intencionalmente torturado psicologicamente pela Suécia, Inglaterra, Equador, e pelos EUA. Primeiro através do processo altamente arbitrário contra ele. A maneira que a Suécia direcionou o caso, com assistência ativa da Inglaterra, teve como objetivo colocá-lo sob pressão e prendê-lo na embaixada. A Suécia nunca esteve interessada em encontrar a verdade e ajudar aquelas mulheres, mas em cercar Assange. Foi um abuso do processo judicial conduzido para colocar uma pessoa em uma posição na qual ela não consegue se defender.

    Além disso, há as medidas de vigilância, os insultos, a degradação e os ataques feitos pelos políticos desses países, inclusive ameaças de morte. Esse constante abuso do poder do Estado levou a um sério estado de estresse e ansiedade em Assange que resultou em um considerável dano cognitivo e neurológico. Eu visitei Assange na sua cela em Londres em maio de 2019 junto com dois médicos experientes e respeitados, especializados em avaliação forense e psicológica de vítimas de tortura. O diagnóstico foi claro: Julian Assange demonstra os típicos sintomas de tortura psicológica. Se ele não receber proteção logo, uma rápida deterioração de sua saúde é provável e a morte pode ser uma das consequências.

    Seis meses depois de Assange ter sido colocado em uma prisão pré-extradição na Inglaterra, a Suécia silenciosamente abandonou o caso contra ele em novembro de 2019, depois de nove longos anos. Por que agora?

    O governo sueco gastou quase uma década intencionalmente apresentando Julian Assange ao público como um estuprador. Depois, eles subitamente abandonaram o caso contra ele sob o mesmo argumento que a primeira promotora sueca usou em 2010, quando ela suspendeu inicialmente as investigações depois de 5 dias: Apesar do testemunho da mulher ser crível, não havia provas de que um crime tinha sido cometido. É um escândalo inacreditável. Mas o timing não foi acidental.

    No dia 11 de novembro, um documento oficial que eu enviei ao governo sueco dois meses antes veio a público. No documento, eu pedi ao governo sueco explicações sobre 50 pontos referentes às implicações de direitos humanos na maneira como lidaram com o caso. Como é possível que a imprensa tenha sido imediatamente informada, apesar da proibição de fazê-lo? Como é possível que uma suspeita seja publicada mesmo antes do interrogatório? Como é possível que se diga que houve um estupro apesar da vítima contestar essa versão dos acontecimentos? No dia que o documento foi publicado, eu recebi uma simples resposta da Suécia: O governo não tem mais comentários sobre este caso.

    O que essa resposta significa?

    É uma admissão de culpa.

    Por quê?

    Como Relator Especial da ONU, eu fui incumbido pela comunidade internacional das nações de investigar as denúncias apresentadas pelas vítimas de tortura e, se necessário, solicitar explicações ou investigações dos governos. É esse o trabalho diário que eu faço com todos os Estados da ONU.

    Pela minha experiência, posso dizer que países que agem de boa-fé estão quase sempre interessados em me ajudar com as respostas que eu preciso para esclarecer a legalidade de suas ações. Quando um país como a Suécia se nega a responder perguntas enviadas pelo Relator Especial sobre Tortura da ONU, isso mostra que o governo sabe da ilegalidade de suas ações e não quer se responsabilizar pelo seu comportamento. Eles puxaram a tomada e abandonaram o caso uma semana depois porque sabiam que eu não ia desistir. Quando países como a Suécia se permitem a ser manipulados dessa maneira, então nossas democracias e nossos direitos humanos enfrentam uma grande risco.

    Você acha que a Suécia estava completamente consciente do que estava fazendo?

    Sim. Do meu ponto de vista, a Suécia claramente agiu de má-fé. Se eles tivessem agido de boa-fé, não haveria razão para não responderem às minhas perguntas. A mesma coisa para os ingleses: depois da minha visita ao Assange em maio de 2019, eles demoraram seis meses para me responder – em uma única página de texto, que se limitou principalmente a rejeitar todas as acusações de tortura e todas as inconsistências nos procedimentos legais.

    Se você vai jogar dessa maneira, então qual é o sentido do meu trabalho? Eu sou o Relator Especial sobre Tortura da ONU. Eu tenho o mandato de fazer questionamentos claros e exigir respostas. Qual é a base legal para negar o direito fundamental à própria defesa? Por que um homem que não é nem perigoso ou violento está sendo mantido em regime de solitária por meses quando os estatutos da ONU proíbem o confinamento solitário por períodos maiores que 15 dias? Nenhum desses Estados-membro da ONU começou uma investigação ou respondeu às minhas perguntas ou mesmo demonstrou qualquer interesse em dialogar.

    O que significa quando um Estado membro da ONU se recusa a fornecer informações para seu próprio relator especial sobre Tortura?

    Que é um assunto previamente combinado. Um julgamento espetacularizado deve ser usado para fazer de Julian Assange um exemplo. O objetivo é intimidar outros jornalistas. A intimidação, aliás, é uma das principais motivações de tortura ao redor do mundo.

    A mensagem para todos nós é: isso é o que vai acontecer com você se você imitar o modelo do Wikileaks. É um modelo tão perigoso porque é muito simples: pessoas que têm acesso a informações sensíveis de governos ou empresas transferem essas informações ao Wikileaks, mas os delatores continuam anônimos.

    A reação mostra o quão grande pode ser a ameaça: quatro países democráticos se juntaram – os EUA, o Equador, a Suécia e o Reino Unido – para usar seu poder de retratar um homem como um monstro, para que mais tarde pudesse ser queimado na fogueira sem protestos.

    O caso é um enorme escândalo e representa o fracasso do Estado de Direito ocidental. Se Julian Assange for condenado, será uma sentença de morte para a liberdade de imprensa.

    O que esse possível precedente significa para o futuro do jornalismo?

    De maneira prática, significa que você, como jornalista, agora precisa se defender. Porque se o jornalismo investigativo for considerado espionagem e puder ser incriminado ao redor do mundo, então a censura e a tirania virão em seguida. Um sistema assassino está sendo criado bem na nossa frente. Crimes de guerra e tortura não estão sendo combatidos. Vídeos de YouTube nos quais soldados americanos se gabam por levar mulheres iraquianas ao suicídio através de estupros frequentes. Ninguém está investigando isso. Ao mesmo tempo, uma pessoa que expõe essas coisas é condenada a 175 anos de prisão.

    Por uma década inteira, ele foi inundado com acusações que não podem ser provadas e que estão acabando com ele. E ninguém está sendo responsabilizado. Ninguém está sendo condenado. Isso marca uma erosão do contrato social.

    Nós damos poder aos países e delegamos isso aos governos – mas em resposta, eles devem ser responsabilizados pela maneira que exercem esse poder. Se nós não exigirmos isso, nós perderemos nossos direitos mais cedo ou mais tarde. Seres humanos não são democráticos por natureza. O poder corrompe, se não é monitorado. A corrupção é o resultado se nós não insistirmos que esse poder seja fiscalizado.

    Você está dizendo que a perseguição de Assange ameaça o cerne da liberdade de imprensa.

    Vamos ver onde estaremos daqui a 20 anos se o Assange for condenado – o que você continuará a poder publicar como jornalista. Eu estou convencido de que estamos em sério risco de perder liberdades de imprensa. Já está acontecendo: De repente, a sede da ABC News na Australia foi invadida em conexão com os Diários da Guerra no Afeganistão. O motivo? Mais uma vez a imprensa revelou má conduta de representantes do Estado. Para que as divisões de poder funcionem, o Estado deve ser fiscalizado pela imprensa como um quarto poder. O WikiLeaks é a consequência lógica de um processo contínuo de sigilo expandido: se a verdade não puder mais ser examinada porque tudo é mantido em segredo, se os relatórios de investigação sobre a política de tortura do governo dos EUA forem mantidos em sigilo e quando até grandes partes do resumo publicado são censuradas, vazamentos serão a consequência.

    O WikiLeaks é a consequência do sigilo crescente e reflete a falta de transparência no nosso sistema político moderno. Existem, é claro, áreas nas quais o sigilo pode ser vital. Mas se nós não pudermos mais saber o que os governos estão fazendo e quais critérios estão seguindo, se os crimes não forem mais investigados, então isso representa um grave perigo para a integridade social.

    Quais são as consequências?

    Como Relator Especial sobre Tortura da ONU e, antes disso, como membro da Cruz Vermelha, eu já vi horrores e violências e já vi o quão rápido países pacíficos como a Iugoslávia ou a Ruanda podem se transformar em infernos. Nas raízes desses acontecimentos estão sempre a falta de transparência e poder político ou econômico desenfreado, combinados com a ingenuidade, indiferença e maleabilidade da população.

    De repente, o que sempre aconteceu com o outro – a tortura impune, estupro, expulsão e assassinato – pode facilmente acontecer conosco ou com nossos filhos. E ninguém vai se importar. Eu posso te garantir isso.
    04/Fevereiro/2020

    O original encontra-se no sítio suiço Republik e a tradução de Ethel Rudnitzki em apublica.org/...

    Esta entrevista encontra-se em http://resistir.info/ .

    domingo, 26 de janeiro de 2020

    Uma pequena vitória Assange removido da solitária

    Uma pequena vitória
    Assange removido da solitária

    – Nenhum jornal português publicou esta notícia

    Julian Assange no presídio de Belmarsh.Julian Assange foi retirado da solitária!   O fundador da WikiLeaks foi finalmente retirado da cela de segredo da prisão de Belmarsh após uma série de petições da sua equipe legal e de outros prisioneiros.

    O prisioneiro político australiano foi mantido quase incomunicável e com severas restrições a acesso de visitantes desde Abril de 2019, enquanto aguarda o seu processo de extradição para os EUA que deve começar em 24 de Fevereiro.

    Joseph Farrell, embaixador da WikiLeaks, diz que na sexta-feira 24 de Janeiro o prisioneiro de 48 anos foi removido da solitária na ala médica do presídio para outra ala com 40 condenados.

    Esta conquista, afirma ele, verificou-se depois de a sua equipe legal e de três petições separadas de condenados ao governador da prisão considerarem que o seu tratamento era injusto e irrazoável.

    Após várias reuniões entre autoridades do presídio e a equipe legal de Assange e de condenados, ele foi transferido.

    "A transferência é uma enorme vitória para a equipe legal de Assange e para os que fizeram campanha insistindo durante semanas para que as autoridades prisionais acabassem o tratamento punitivo de Assange", disse Farrell.

    Assange deve enfrentar julgamento no próximo mês para determinar se ele deveria ser extraditado para os EUA, onde foi acusado com 17 alegações de espionagem e uma de conspiração para cometer intrusão informática.

    As acusações relacionam-se a alegações de que Assange tentou ajudar a antiga analista de inteligência do US Army Chelsea Manning a proteger a sua identidade digital quando esta acessou ficheiros classificados do Pentágono sobre as guerras do Iraque e do Afeganistão.

    A WikiLeaks ajudou a publicar milhares daqueles ficheiros, incluindo alguns que revelavam crimes de guerra dos Estados Unidos em ambos os países. O seu caso é encarado como um teste ácido quanto à protecção de fontes de jornalistas.

    Farrell disse que a saída de Asssange da solitária após nove meses de permanência é uma pequena vitória, mas que ainda lhe está a ser negado acesso adequado aos seus advogados.

    Numa recente audiência para a gestão do processo o solicitador Gareth Pierce disse que à equipe de defesa só foram permitidas três horas de conversação com Assange para discutir o caso.

    "Ainda lhe está a ser negado acesso adequado aos seus advogados, como até o juiz reconheceu numa audiência no Tribunal de Magistrados de Westminster", disse Farrell.

    "E os promotores da campanha continuam a insistir em que Assange não deveria estar na prisão de modo algum, pelo menos no presídio de alta segurança de Belmarsh".
    24/Janeiro/2020
  • Escrever a Assange é uma forma de apoiá-lo. Nas cartas e cartões-postais deve-se incluir sempre o seu número de prisioneiro (do contrário não serão entregues). O endereço é:
       Mr. Julian Assange
       Prisoner # A9379AY
       HMP Belmarsh
       Western Way
       London SE28 0EB UK
       Grã-Bretanha

    A fonte desta notícia encontra-se em 7news.com.au/...

    Esta notícia encontra-se em http://resistir.info/ .
  • quinta-feira, 21 de novembro de 2019

    Conflito de interesse: as ligações da juíza de Julian Assange e do seu marido com o establishment militar britânico


    por Mark Curtis e Matt Kennard [*]
    Lorde Arbuthnot.















    Lorde Arbuthnot de Edrom , ex-ministro da Defesa, é presidente remunerado do conselho consultivo da corporação militar Thales Group e, até o início deste ano, foi conselheiro da empresa de armas Babcock International. Ambas as empresas têm grandes contratos com o Ministério da Defesa do Reino Unido (MOD).

    As revelações põem em evidência preocupações quanto a conflitos de interesse. A sua esposa, sra. Arbuthnot, começou a presidir o processo legal de Assange em 2017 e decidiu em Junho último que iniciaria uma audiência plena em Fevereiro próximo a fim de considerar o pedido de extradição do Reino Unido feito pelo governo Trump.

    Exige-se aos juízes britânicos que declarem quaisquer potenciais conflitos de interesses aos tribunais, mas entendemos que a sra. Arbuthnot não o fez.

    Lady Arbuthnot nomeou recentemente um juiz distrital para julgar o caso de extradição de Assange, mas continua a ser a figura legal que supervisiona o processo. De acordo com o serviço de tribunais do Reino Unido, o magistrado-chefe é "responsável por ... apoiar e orientar colegas juízes distritais".

    Actualmente Assange está detido na prisão de segurança máxima de Belmarsh, em Londres, em condições descritas pelo relator especial da ONU sobre tortura, Nils Meltzer , como "tortura psicológica". Se for transferido para os EUA, Assange enfrenta prisão perpétua com acusações de espionagem.

    Lady Arbuthnot beneficiou-se financeiramente das organizações expostas pela WikiLeaks

    Quando Lady Arbuthnot estava no seu cargo anterior, como juíza distrital em Westminster, ela beneficiou-se pessoalmente de financiamentos, juntamente com o marido, de duas fontes expostas pelo WikiLeaks nas suas divulgações de documentos.

    O registo de interesses do parlamento britânico mostra que, em Outubro de 2014, a sra. Arbuthnot recebeu ingressos no valor de 1.250 libras para o Chelsea Flower Show em Londres, juntamente com o seu marido. Os ingressos foram fornecidos pela Bechtel Management Company Ltd, parte da grande corporação militar dos EUA, a Bechtel, cujos contratos com o Ministério da Defesa do Reino Unido incluem um projecto de até 215 milhões de libras para transformar sua Organização de Equipamentos e Apoio da Defesa, o organismo que compra e suporta todo o equipamento usado pelas forças armadas britânicas.

    Outra linha de negócios da Bechtel é " cibersegurança industrial ", expressão que é frequentemente um eufemismo para guerra cibernética e tecnologia de vigilância.

    As divulgações da WikiLeaks acerca da Bechtel mostraram conexões estreitas da empresa com a política externa dos EUA. Os telegramas publicados em 2011, por exemplo, mostram que a embaixadora dos EUA no Egipto, Margaret Scobey, pressionou o Ministério da Electricidade e Energia a aceitar uma proposta da Bechtel para consultoria técnica e concepção da primeira central nuclear do Egipto.

    Em outro benefício pessoal declarado ao parlamento, a sra. Arbuthnot, mais uma vez junto com o seu marido, teve voos e despesas no valor de 2.426 libras esterlinas pagos para uma visita a Istambul em Novembro de 2014. Isto foi para "promover e incrementar relações bilaterais entre a Grã-Bretanha e a Turquia em alto nível", de acordo com a declaração de registo de interesses de Arbuthnot.

    Estas despesas foram pagas pelo Tatlidil britânico-turco, um fórum estabelecido em 2011 durante a visita a Londres do primeiro-ministro turco a Recep Tayyip Erdoðan e anunciado com o então primeiro-ministro David Cameron. Tatlidil descreve seus objectivos como "facilitar e fortalecer as relações [sic] entre a República da Turquia e o Reino Unido ao nível de governo, diplomacia, negócios, academia e media".

    Seu papel principal é realizar uma conferência anual de dois dias, com a presença do presidente da Turquia e de ministros turcos e britânicos. Lord Arbuthnot também participou do Tatlidil em Wokingham, uma cidade nos arredores de Londres, em Maio de 2018.

    Como sujeitos de fugas não desejadas, tanto a Bechtel quanto a Tatlidil têm motivos para se opor ao trabalho de Assange e da WikiLeaks. Embora os pagamentos tenham sido inscritos no registo parlamentar de interesses, as partes no processo judicial não foram informadas acerca deles. Apesar de o julgamento de Assange ter atraído críticas significativas por todo o mundo, a sra. Arbuthnot não considerou necessário mencionar estes pagamentos às partes, ao público e aos media.

    A conexão turca

    Num julgamento importante em Fevereiro de 2018, a sra. Arbuthnot rejeitou o argumento dos advogados de Assange de que mandato de prisão de então deveria ser cancelado e, ao invés disso, proferiu uma decisão notável.

    Ela rejeitou as conclusões do Grupo de Trabalho das Nações Unidas sobre Detenção Arbitrária – um órgão composto por peritos jurídicos internacionais – de que Assange estava a ser " detido arbitrariamente ", caracterizou a permanência de Assange na embaixada como "voluntária" e concluiu que a saúde e o estado mental de Assange eram de importância menor.

    A sra. Arbuthnot envolveu-se no processo legal de Assange por volta de Setembro de 2017 e presidiu a audiência em 7 de Fevereiro de 2018, antes de proferir uma sentença uma semana depois. Durante uma parte deste período – de 29 de Janeiro a 1º de Fevereiro – seu marido esteve novamente na Turquia em visita a Erdoðan e outros altos responsáveis do governo turco.

    Alguns destes responsáveis foram revelados especificamente pela WikiLeaks e tinham razões para se oporem à libertação de Assange. Não há qualquer sugestão de que Lorde Arbuthnot tenha pedido para exercer, ou exercido, pressão sobre sra. Arbuthnot, nem que ela sucumbiu a alguma pressão, mas há uma aparência de viés que poderia ter sido evitada se essa conexão tivesse sido revelada e se Lord Arbuthnot tivesse evitado reunir-se com aqueles indivíduos naquele momento.

    Arbuthnot fazia parte de uma delegação de quatro membros, sendo os outros a Baronesa Neville-Jones, ex-presidente do comité conjunto da inteligência britânico, a qual coordena o GCHQ, o MI5 e o MI6; Lord Polak, o presidente dos Amigos Conservadores de Israel; e lorde Trimble.

    Entre aqueles com que Arbuthnot e os outros lordes estiveram na viagem encontravam-se o ministro das Relações Exteriores Mevlüt Çavuþoðlu e o ministro da energia Berat Albayrak, genro de Erdoðan. Em 2016, a WikiLeaks publicou 57.934 dos emails pessoais de Albayrak, dos quais mais de 300 mencionaram Çavuþoðlu, na sua divulgação da " Berat's Box ".

    Assim, ao mesmo tempo em que Lady Arbuthnot presidia o processo legal de Assange, seu marido mantinha conversações com altos funcionários na Turquia revelados pela WikiLeaks, alguns dos quais têm interesse em punir Assange e a organização WikiLeaks.

    As ramificações do revelado por Assange acerca de Berat Albayrak e do partido governante AKP, que ocorrera há pouco mais de um ano, estavam em andamento no momento das reuniões dos Lordes na Turquia. As publicações da WikiLeaks levaram a medidas de força contra os media na Turquia, incluindo a prisão de jornalistas e a proibição total do acesso à WikiLeaks no país.

    A visita de Lord Arbuthnot e outros lordes britânicos à Turquia foi paga pelo Bosphorus Centre for Global Affairs , que se auto-descreve como uma ONG que monitora a precisão das notícias sobre a Turquia. Contudo, os ficheiros "Berat's Box" da WikiLeaks revelaram que o centro era financiado por Berat Albayrak e actuou como uma frente do governo para suprimir reportagens críticas ao governo. Também foi revelado que o centro administrava um certo número de contas de trolls a favor do governo.

    Não se sabe o que foi discutido na viagem de Lord Arbuthnot à Turquia, ou se a questão de Assange foi levantada. No entanto, os contactos que o marido da juíza de Assange teve com figuras políticas poderosas que recentemente haviam sido reveladas pela WikiLeaks levantam preocupações sobre conflitos de interesse e se estes deveriam ter sido declarados pela sra. Arbuthnot, se não o foram.

    Conexões militares e de inteligência de Lorde Arbuthnot

    Lord Arbuthnot é membro da Câmara dos Lordes e foi o ministro de compras para a defesa no governo conservador entre 1995 e 1997. Mais tarde, serviu como chefe de bancada (chief whip) durante a liderança de William Hague no partido. Arbuthnot foi um forte defensor da guerra de David Cameron na Líbia em 2011 e foi Cameron quem propôs o então deputado James Arbuthnot para um título de par do reino em 2015.

    Lord Arbuthnot também tem conexões com antigos responsáveis dos serviços de inteligência do Reino Unido, que a WikiLeaks revelou nas suas publicações e que efectuaram operações de inteligência no Reino Unido contra a WikiLeaks.

    Até Dezembro de 2017, Lord Arbuthnot era um dos três directores de uma empresa de segurança privada, a SC Strategy , junto com o ex-director do MI6, Sir John Scarlett Lord Carlile . Até Junho de 2019, Arbuthnot permaneceu como " consultor sénior " da SC Strategy. A Scarlett é mencionada nas divulgações da WikiLeaks e permaneceu em grande parte fora dos debates públicos sobre privacidade e vigilância.

    Pouco se sabe da SC Strategy, que não possui sítio web, mas a a Companies House lista um endereço em Watford. A Carlile declara no seu registo de interesses que a SC Strategy foi formada por ela e a Scarlett em 2012 "para fornecer consultoria estratégica sobre políticas públicas, regulamentação e práticas comerciais do Reino Unido". Ela lista um cliente como o Ministério das Relações Exteriores e Autoridade de Investimentos do Catar.

    Foi relatado que a SC Strategy "parece manter um certo grau de influência em Whitehall" e que em 2013 e 2104 a empresa teve uma reunião privada com o secretário de gabinete Sir Jeremy Heywood.

    O antigo parceiro de Lord Arbuthnot na SC Strategy, Lord Carlile, foi o Revisor Independente da Legislação sobre Terrorismo em 2001-11 e é um proeminente defensor público dos serviços de inteligência.

    Lord Arbuthnot também foi, até Fevereiro de 2019, " conselheiro " da corporação militar Babcock International, em cujo quadro está o ex-chefe do GCHQ, Sir David Omand.

    Até Novembro de 2018 Arbuthnot era membro do conselho consultivo do Information Risk Management, uma consultoria de cibersegurança sediada em Cheltenham, o lar do GCHQ, um dos cujos " peritos " é Andrew France, ex-diretor adjunto de operações de defesa cibernética do GCHQ.

    Antes de se tornar um par do reino, Lord Arbuthnot foi membro do Comitê Parlamentar de Inteligência e Segurança entre 2001 e 2006. Actualmente, ele também é responsável do grupo parlamentar de segurança cibernética de todos os partidos, administrado pelo Grupo de Segurança da Informação (ISG) da Royal Holloway, Universidade de Londres. O ISG administra um projecto no valor de 775 mil libras que é em parte financiado pelo GCHQ.

    O próprio Lord Arbuthnot aparece em documentos publicados pela WikiLeaks, incluindo dois telegramas diplomáticos dos EUA. Um telegrama confidencial dos EUA em Dezembro de 2009 observa Arbuthnot a dizer a um funcionário da embaixada dos EUA em Londres que apoiava o discurso do presidente Obama acerca da estratégia dos EUA para o Paquistão e o Afeganistão.

    Membro do establishment militar britânico
    As posições passadas e presentes de Lord Arbuthnot tornam-no uma parte firme da comunidade industrial militar britânica. Um de seus perfis declara que "ele tem uma longa história de envolvimento no topo da defesa e da vida política do Reino Unido". O WikiLeaks qualificou-se como um adversário da comunidade militar, com muitas das suas divulgações a focarem o meio em que operam pessoas como Lord Arbuthnot.

    Arbuthnot é ex-presidente do comité de defesa parlamentar – cargo que ocupou durante nove anos, entre 2005 e 2014 – período em que a WikiLeaks ganhou atenção mundial através da publicação de ficheiros sobre as guerras no Iraque e no Afeganistão, nas quais estavam envolvidos os militares britânicos. Ele também é um antigo membro do comité conjunto de estratégia de segurança nacional e do comité de lei das forças armadas.

    O perfil parlamentar de Arbuthnot afirma : "De tempos em tempos, o membro recebe hospitalidade do fórum de defesa do Reino Unido, o grupo parlamentar de todos os partidos para as forças armadas e o grupo parlamentar de todos os partidos sobre questões de defesa e segurança".

    Lord Arbuthnot também é o presidente do conselho consultivo do Thales Group, uma corporação de armamento que foi denunciada pela WikiLeaks em várias divulgações.

    A Thales também tem grandes contratos com o Ministério da Defesa, incluindo um projeto de drone de 700 milhões de libras e um acordo de 600 milhões de libras para a manutenção dos navios de guerra da marinha real. Uma das linhas de negócios lucrativos da Thales é a "segurança cibernética" e o seu sítio web refere-se de maneira depreciativa à WikiLeaks e a Assange pessoalmente como capazes de "roubar" informação.

    A Thales produz drones de "vigilância" usados pelos militares britânicos no Afeganistão, os quais foram expostos em divulgações da WikiLeaks. Arbuthnot é um forte defensor dos drones: ele era o presidente do comité de defesa quando este produziu um relatório altamente favorável às operações britânicas em 2014 que recomendava "levar o vigilância à sua plena capacidade operacional".

    O perfil parlamentar de Lord Arbuthnot também listou a Babcock International como sendo um " cliente pessoal " no seu papel de consultor da SC Strategy até Fevereiro de 2019. A Babcock tem mais de £ 22 mil milhões em contratos com o Ministério da Defesa e é o maior fornecedor de serviços de suporte , apoiando mais 70% de todas as suas horas de treino de voo .

    Tal como a Thales, a Babcock possui uma linha de negócios em " inteligência cibernética e segurança ". Arbuthnot era o ministro encarregado das compras em 1996, quando o governo anunciou a venda do controverso estaleiro naval privatizado de Rosyth para Babcock.

    Lord Arbuthnot também é presidente do Conselho Consultivo de Garantia da Informação, um órgão cujos patrocinadores incluíam as empresas de armas norte-americanas Raytheon e Northrop Grumman, e que também trabalha com segurança cibernética, entre outras questões de informação digital. A Raytheon é amplamente exposto nas divulgações da WikiLeaks.

    Conflito de interesses

    Os vínculos de Lord Arbuthnot com o establishment militar britânico constituem conexões profissionais e políticas entre um membro da família do magistrado principal e um certo número de organizações e indivíduos que se opõem profundamente ao trabalho de Assange e da WikiLeaks e que foram expostos pela organização.

    As orientações legais do Reino Unido declaram que "qualquer conflito de interesses numa situação litigiosa deve ser declarado". A orientação judicial para magistrados do Supremo Juiz (Lord Chancellor) e do Lorde Chefe de Justiça Justice é clara :
    "Os membros do público devem estar confiantes em que os magistrados são imparciais e independentes. Se se souber que a sua imparcialidade ou independência está comprometida num caso específico, deve-se retirar de imediato ... Nem tão pouco deveria ouvir qualquer caso sobre o qual já tenha conhecimento de algo ou que toque numa actividade em que esteja envolvido".
    Entendemos que a sra. Arbuthnot não revelou nenhum conflito de interesse em potencial no seu papel de juiz ou magistrada-chefe.

    Sabe-se que Lady Arbuthnot se afastou de pronunciar-se acerca de outros dois processos devido a possíveis conflitos de interesse, mas só após investigações dos media. Em Agosto de 2018, como juíza no centro da batalha legal da gigante da tecnologia Uber para operar em Londres, ela recusou-se a prevenir qualquer conflito de interesses com o seu marido.

    Lady Arbuthnot restabeleceu a licença da Uber em Londres depois de ter sido julgada não uma operadora de aluguer de carros particulares "adequada e apropriada". Ela finalmente desistiu de ouvir outros apelos da empresa depois de uma investigação do Observer levantou questões sobre ligações entre o trabalho do marido e a companhia.

    A Qatar Investment Authority (QIA), o fundo soberano do país, é um dos principais investidores na Uber. A QIA também era cliente da SC Strategy, onde Lord Arbuthnot era director e então consultor. A Senhora e Lord Arbuthnot alegaram que nem sabiam que a QIA investiU no Uber, apesar de ser um dos seus maiores accionistas.

    Em 2017, Lady Arbuthnot também evitou pronunciar-se sobre um caso relativo à transmissão de material "ofensivo" sobre o Holocausto quando a equipe de defensores legais do réu levantou a questão de "apreensão razoável de viés" por parte da juíza. Isto relacionava-se com o envolvimento do seu marido com os Amigos Conservadores de Israel (Conservative Friends of Israel), um organismo do qual Arbuthnot é ex-presidente e que no passado havia pago pelo menos uma visita a Israel.

    Nem Lady nem Lord Arbuthnot retornaram pedidos de comentário.
    [*] Jornalistas.

    O original encontra-se em Daily Maverick e em www.globalresearch.ca/...


    Este artigo encontra-se em https://resistir.info/ .
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