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terça-feira, 15 de agosto de 2017

Peter Koenig / Coreia do Norte: Sanções mortíferas impostas pela instituição que diz defender a paz e a justiça, o Conselho de Segurança da ONU

Coreia do Norte: Sanções mortíferas impostas pela instituição que diz defender a paz e a justiça, o Conselho de Segurança da ONU


por Peter Koenig [*]

Como informa a CNN, "O Conselho de Segurança das Nações Unidas aprovou no sábado [05/Agosto/2017] uma resolução impondo novas sanções à Coreia do Norte pelos seus testes continuados de mísseis balísticos intercontinentais (ICBM) e violações de resoluções da ONU.
Com 15 votos a favor, a Resolução 2371 foi aprovada por unanimidade.
A resolução aponta às exportações primárias da Coreia do Norte, incluindo carvão, ferro, minério de ferro, chumbo, minério de chumbo e mariscos. As sanções também têm em vista outros fluxos de receitas, tais como bancos e joint ventures com companhias estrangeiras.
A Resolução 2371 foi imposta – logo por quem? – pelos Estados Unidos da América, o principal agressor do universo, a excepcional nação patife que nunca é punida, nunca é sancionada pelo próprio organismo da paz, o Conselho de Segurança das Nações (CSNU), pelos milhões de mortos em guerras e assassinatos por drones causados por guerras ilícitas e hegemónicas, por proxies ou pela sua própria máquina de matar por todo o globo nos últimos 70 anos – ou mais.

Esta Resolução anti-RDPC foi aprovada unanimemente por todos os 15 membros do CSNU, incluindo os únicos aliados da Coreia do Norte, a China e a Rússia. Eles podem ter tido suas próprias razões estratégicas e egoístas para a sua falta de solidariedade, para não vetar a Resolução e ao invés propor medidas diplomáticas. Medidas diplomáticas que podem ter chamado à razão Washington e os falcões do Pentágono, bem como travado o monstruoso belicismo de Trump, a berrar ameaças nucleares do seu clube de golpe em Bedminster, Nova Jersey: "Eles se depararão com fogo e fúria tal como o mundo nunca viu". A Rússia e a China podiam ter proposto uma contra-Resolução que procurasse o diálogo e forçasse Washington a parar seu belicismo. Eles não o fizeram e isso é triste.

É uma vergonha absoluta a medida em que todo o mundo está literalmente a fazer um enorme esforço para agradar Washington – e, como sempre, seus negros manipuladores do estado profundo que puxam os cordéis dos fantoches na Casa Branca. Será que nos tornamos um mundo de vassalos de um império agonizante?

Os mesmos agressores militares liderados por Washington, há mais de 60 anos atrás destruíram a Coreia do Norte deixando-a em escombros, dizimando sua população de 10 milhões em um terço. Os EUA nunca permitiram a assinatura de um Acordo de Paz. Em vez disso a República Democrática e Popular da Coreia (RDPC) sob um precário pacto de armistício é permanentemente ameaçada pelas enormes bases militares de Washington na Coreia do Sul e no Japão com frotas de aviões e navios de guerra. O espaço aéreo da RDPC é frequentemente invadido por bombardeiros dos EUA, manobras militares das forças armadas dos EUA com o Japão e a Coreia do Sul são intimidações repetidas sobre as vidas pacíficas do povo da Coreia do Norte. Uma Linha de Demarcação Militar com 250 km imposta estritamente ao longo do paralelo 38 Norte está a manter separadas famílias coreanas há mais de três gerações.

O que o regime de Kim-Jong-un está a mostrar ao mundo é nada mais do que a sua prontidão para defender as realizações da RDPC num país admiravelmente reconstruído, com plenos benefícios sociais de educação e serviços de saúde gratuitos para mais de 25 milhões de pessoas. A dissuasão nuclear não é perigo para ninguém, nem para o Japão nem para o seu irmão do Sul e muito menos para os Estados Unidos. E Trump sabe disso muito bem. Sua jactância do "fogo e fúria" é nada mais do que fanfarronice, exibicionismo, como é próprio de um multi-bilionário psicopata, o qual sonha dirigir um império felizmente em decadência. Ele não ousaria tocar na Coreia do Norte, porque nesse caso enfrentaria o fogo e a fúria dos aliados da RDPC, a Rússia e a China, apesar do seu voto infeliz na CSNU.

As sanções da ONU, se cumpridas, reduziriam os ganhos anuais de exportação da Coreia do Norte em um terço, isto, nuns estimados mil milhões de dólares. Elas podem mergulhar o país, já isolado pelas sanções anteriores do ocidente, em extrema dificuldade e fome. Embora seja improvável que a China, com quem a Coreia do Norte faz 90% do seu comércio externo, aderisse a tais sanções, isto é no entanto uma ameaça injusta.

Examinemos por um momento a legalidade da Resolução da ONU sobre as Sanções num contexto mais vasto – num contexto que a população do mundo nunca soube ou se esquece facilmente.

O Capítulo VII da Carta das Nações Unidas trata de Acções a respeito de ameaças à paz, perturbações à paz e actos de agressão. 

Estas acções são abordadas especificamente nos artigos 39, 40, 41 e 42 do Capítulo VII:
Artigo 39 
O Conselho de Segurança determinará a existência de qualquer ameaça à paz, perturbação à paz ou acto de agressão e fará recomendações, ou decidirá que medidas serão tomadas de acordo com os artigos 41 e 42 para manter ou restaurar a paz e segurança internacional.

Artigo 40 
A fim de impedir um agravamento da situação, o Conselho de Segurança pode, antes de fazer as recomendações ou decidir sobre as medidas previstas no artigo 39, apelar às partes interessadas a que cumpram com tais medidas provisórias quando considere necessário ou desejável. Tais medidas provisórias serão sem prejuízo dos direitos, reivindicações ou posição das partes interessadas. O Conselho de Segurança tomará devidamente em conta o fracasso no cumprimento de tais medidas provisórias.

Artigo 41 
O Conselho de Segurança pode decidir que medidas não envolvendo a utilização da armada são empregadas para efectivar suas decisões e pode apelar aos membros da Nações Unidas a que apliquem tais medidas. Isto pode incluir interrupção completa ou parcial de relações económicas e de [tráfego] ferroviário, marítimo, aéreo, postal, telegráfico, rádio e de outros meios de comunicação e a ruptura de relações diplomáticas.

Artigo 42 
Se o Conselho de Segurança considerar que medidas previstas no artigo 41 serão inadequadas ou que se demonstraram inadequadas, ele pode adoptar acção por ar, mar ou forças terrestre quando necessário a fim de manter ou restaurar a paz e segurança internacional. Tal acção pode incluir demonstrações, bloqueio e outras operações por ar, mar ou forças terrestres de membros das Nações Unidas.
Sanções económicas impostas bilateralmente, o principal elementos com que os Estados Unidos esbofeteia todo o mundo à vontade e a qualquer nação que não lhe lamba as botas, são totalmente ilegais e em ruptura de qualquer lei internacional.

A legalidade de sanções económicas impostas pela ONU é altamente questionável na maior parte dos casos e particularmente no caso da Coreia do Norte, quando podem afectar Direitos Humanos, ou mais especificamente os direitos económicos, sociais e culturais civis, pois efeitos colaterais adversos podem conduzir a uma emergência humanitária, isto é, à escassez de certos bens e serviços essenciais para a garantia de padrões de vida básicos (Gebs, Robin. “Humanitarian Safeguards in Economic Sanctions Regimes: A Call for Automatic Suspension Clauses, Periodic Monitoring, and Follow-Up Assessment of Long-Term Effects”. The Harvard Human Rights Journal 18 (2005), p. 173).

No caso da Coreia do Norte, tais sanções são absolutamente grotescas, se não ilegais, uma vez que o principal agressor não é e nunca foi a RDPC mas sim os Estados Unidos.

Contudo, nunca ocorreria a qualquer nação deste planeta encantador propor um regime de sanções aos EUA no principal organismo de Paz e Segurança das Nações Unidas. E por que não? Porque elas todas têm medo das retaliações dos EUA. Embora a Rússia, a China e o bloco do Acordo de Cooperação de Shangai já abranjam metade da população mundial e controle um terço do produto económico global – e estejam claramente num processo de se afastarem da hegemonia do US dólar – elas não devessem mais temer retaliações.

É impressionante como o mundo, tal como a liga das nações, foi submetido a lavagem cerebral até o cerne aceitando quase sem excepções e questionamentos as atrocidades de Washington, seus crimes contra a humanidade, matanças indiscriminadas de dezenas de milhões de pessoas por todo o mundo, sem sequer piscar um olho. Ao mesmo tempo, esta "solidária" liga de nações está pronta para estrangular uma pequena e valente nação, a Coreia do Norte, que está simplesmente a testar sua capacidade de auto-defesa enfrentando constantes ameaças ilegais do agressor em chefe do mundo, os Estados Unidos da América. 
10/Agosto/2017

[*] Economista e analista geopolítico.   Foi funcionário do Banco Mundial e trabalhou extensamente por todo o mundo nos campos do ambiente e recursos aquíferos.   Escreve regularmente para Global Research, ICH, RT, Sputnik, PressTV, The 4th Media (China), TeleSUR, The Vineyard of The Saker Blog, e outros sítios da internet.   É autor de Implosion – An Economic Thriller about War, Environmental Destruction and Corporate Greed , obra de ficção baseada em factos e em 30 anos de experiência no Banco Mundial.   É também co-autor de The World Order and Revolution! – Essays from the Resistance .

O original encontra-se em http://www.globalresearch.ca/... 


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Venezuela: Rupturas na narrativa

Venezuela: Rupturas na narrativa


por Thierry Deronne
Em 2 de agosto pouco depois de uma forte mobilização cidadã que se manifestou pela eleição da Assembleia Constituinte, os venezuelanos puderam ver na Globovision (uma das televisões privadas maioritárias do país) Henry Ramos Allup, um dos mais beligerantes líderes da oposição declarar: "decidimos participar nas eleições regionais, na dos presidentes de câmara e nas presidenciais". [1] Um sector importante da direita demarca-se assim publicamente das violências da extrema-direita de Leopoldo Lopez e admite publicamente a validade doCentro Nacional Eleitoral (CNE), que até à pouco denegria como instrumento chavista. Legitimar o retorno à via democrática preconizado pelo presidente Maduro? A "história contada" a toda a hora, destilada todos os dias, por todos os meios e que em consequência a quase totalidade dos cidadãos ocidentais acreditam, começa a rodar no vazio.

Quanto mais tempo passa, mais o mamute da concentração mundial dos media tem dificuldades em impedir a difusão de elementos que lhe escapam. A imagem de uma guerra civil ou de uma oposição democrática em luta contra um regime repressivo já não se mantém. Sabe-se que a maioria das vítimas foi causada pelas violências da extrema-direita [2] , que esta violência está confinada a alguns por cento do território – zonas ricas ou paramilitarizadas (municípios de direita e fronteira com a Colômbia) – que a grande maioria vive em paz e rejeita estas violências, incluindo eleitores de direita [3] . O "regime" (na realidade um governo eleito) prendeu e julgou rapidamente os membros das forças da ordem que fizeram uso de força de excessiva [4] .
É preciso destruir o perigoso exemplo de uma Assembleia Constituinte. Enquanto em 4 de agosto militantes chavistas, feministas, ecologistas, militantes da cultura popular ou contra a especulação imobiliária estreiam em Caracas os seus lugares de deputados constituintes [5] os grandes media fazem tudo para denegrir o sufrágio dos venezuelanos tornando credíveis as denúncias de "fraude" lançadas desde Londres pelo diretor da Smartmatic – uma sociedade comercial que forneceu máquinas ao Centro Nacional Eleitoral (CNE) mas que não tem acesso aos dados da votação [6] .

Os media não mencionam uma fonte bem mais séria. Após terem observado o escrutínio localmente, o Conselho dos Peritos Eleitorais da América Latina (CEELA) formado por juristas e ex-presidentes de tribunais eleitorais de vários países da América Latina concluiu que "o resultado das eleições na Venezuela é verídico e fiável". O CEELA "utilizou o mesmo sistema que utilizou em todas as eleições, incluindo as de 2015 em que a oposição obteve a maioria dos lugares na Assembleia Nacional". Este sistema eleitoral, qualificado pelo observador Jimmy Carter de "melhor do mundo" [7] permite a "a qualquer pessoa verificar que os votantes foram efetivamente os 8 089 320 anunciados pelo CNE" [8] .

Uma das consequências da velocidade emocional, da comunicação instantânea por satélite, da falta de contexto, etc que caracterizam qualquer campanha de propaganda chama-se a obrigação da média . Por um lado, milhares de órgãos de comunicação martelam-nos exatamente a mesma versão, por outro a Venezuela real permanece distante e de difícil acesso. A maioria dos cidadãos, intelectuais e ativistas é reduzida a fazer uma médiaforçosamente frágil entre a enorme quantidade de mentiras diárias e uma minoria com verdade. O que dá, no melhor dos casos é que "há uma luta entre blocos, há problemas de direitos humanos, há uma simetria na violência, uma guerra civil e condeno a violência venha do onde vier, etc..." E no pior, o prazer cobarde de repetir os títulos de 99% dos media sem nada saber da Venezuela, de gritar com a matilha para se sentirem poderosos, de apontar o dedo e ir caçar os "partidários do ditador". Em França sobretudo, mas também em Espanha, a Venezuela é substituída por um ecrã em branco para sessões de ajustes de contas entre correntes políticas. O problema é que a quantidade de repetição, mesmo se cria uma qualidade de opinião não faz por si uma verdade. O número de títulos ou de imagens idênticas poderia ser mil vezes mais elevado que isso não significaria que nos falassem do real.

Como, portanto, voltar a conectar-se ao real? Quando o Movimento dos Sem Terra no Brasil, o conjunto dos movimentos sociais [9] , os principais partidos de esquerda da América Latina [10] ou as 28 organizações venezuelanas de direitos humanos [11] denunciam a violenta desestabilização da democracia venezuelana e apoiam a mobilização dos cidadãos para eleger uma Assembleia Constituinte, dispõe-se então de um vasto leque de conhecimentos mais profundos da realidade provenientes de organizações democráticas, que a uma "ciência-política" europeia "média" obrigada a preservar um mínimo de "respeitabilidade" nos media para proteger a sua carreira.

Para não deixar assassinar Salvador Allende de novo e não agredir os que rejeitam a febre da propaganda, que se descobrirá amanhã que tinham razão sobre a Venezuela, a sociedade ocidental necessita de uma democratização radical dos meios de comunicação social – o desenvolvimento do pluralismo de informação em França é obrigação legal do CSA [12] e paralelamente a criação e multiplicação de meios de comunicação fora da esfera privada quer sejam públicos quer associativos, criar novas escolas onde sejam restabelecidos como fatores centrais de um jornalismo ao serviço dos cidadãos: o tempo de investigação, a aquisição de cultura histórica, a possibilidade de viajar aos locais [13] e escutar um sector tão vivo como o dos movimentos sociais.

Caracas, 4 de agosto 2017
Fotos (Invisíveis nos nossos media): Assembleia Constituinte a instalar-se no Congresso em Caracas, 4 de agosto.

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Notas
1 – Ver entrevista completa na televisão privada Globovision: www.youtube.com/watch?v=9unGt_pSCnM . Na Venezuela a maioria dos media, como a economia em geral são privados e opõem-se às políticas sociais do governo. Ler Thomas Cluzel ou l'interdiction d'informer sur France Culture
2 – Para um gráfico e um quadro exato e completo das vítimas, dos sectores sociais, dos responsáveis e pessoas condenadas, vervenezuelanalysis.com/analysis/13081 ; Sobre os assassinatos racistas da direita: Sous les Tropiques, les apprentis de l'Etat Islamique , 27 juillet 2017;Le Venezuela est attaqué parce que pour lui aussi "la vie des Noirs compte" (Truth Out) 24 de julho de 2017
3 – Sobre as sondagens da firma privada Hinterlaces: Nouveaux sondages surprises au Venezuela (juillet 2017)
4 – Sobre prisões de membros das forças da ordem, ver Direitos Humanos na Venezuela, dois pesos e duas medidas.venezuelanalysis.com/analysis/13081 E um quadro completo da situação em venezuelanalysis.com/analysis/13081
5 – Sobre a mobilização popular para eleger a Constituinte: venezuelainfos.wordpress.com/... pode-se ler entre outros: Quels sont les enjeux du vote du 30 juillet pour l'Assemblée Nationale Constituante ? 28 juillet 2017, De qui ont peur les Etats-Unis et la droite mondiale? 28 juillet 2017, Génération "chaviste rebelle": les visages et les voix des candidat(e)s député(e)s à la Constituante, par Angele Savino (L'Huma) 27 de julho de 2017
6 – Ver "O CNE rejeita as alegações de fraude" www.cne.gob.ve/web/sala_prensa/noticia_detallada.php?id=3554
7 – Former US President Carter : Venezuelan Electoral System "Best in the World" ",
venezuelanalysis.com/news/7272
8 – Informações dadas em conferência de imprensa da CEELA e retomadas por El Universal (jornal da oposição) www.eluniversal.com/...
9 – Reunião de movimentos sociais do Brasil com lista de assinaturas: baraodeitarare.org.br/...
10 – Les partis de gauche et les mouvements sociaux d'Amérique Latine appuient un peuple qui écrit sa constitution à la barbe de l'Empire. 21 de julho de 2017
11 – 28 organisations des droits humains demandent le respect du droit au suffrage pour l'Assemblée Constituante 29 de julho de 2017
12 – Com efeito, segundo a lei, uma das obrigações do Conseil Supérieur de l'Audiovisuel (CSA), as obrigações da lei francesa n° 86-1067 de 30 setembro 1986, modificada e completada relativa à liberdade de comunicação (e que se gostaria de ver aplicada) diz: Artigo 29: o CSA vela para que uma parte suficiente dos recursos em frequência seja atribuída aos serviços editados por uma associação e realizando uma missão de comunicação social de proximidade, entendida como para favorecer as trocas entre grupos sociais e culturais de expressão das diferentes correntes socioculturais, a manutenção do desenvolvimento da proteção do ambiente ou a luta contra a exclusão.
13 – A entrada em força dos grandes acionistas privados no campo mediático levou a cortes nos orçamentos e por consequência à supressão de correspondentes estrangeiros e ao aumento da dependência de agências como a AFP, Reuters ou EFE. Ora estas recentemente procederam ao blanchi le terrorisme d'extrême droite en le relookant comme un "combat pour la liberté" (Reuters) ou fizeram passar les photos d'électeurs chavistes pour des électeurs de droite (EFE) . 


O original encontra-se em www.legrandsoir.info/venezuela-ruptures-du-storytelling.html .
Tradução de DVC. 


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Prabhat Patnaik / Vinte anos após a crise financeira asiática

Vinte anos após a crise financeira asiática

por Prabhat Patnaik [*]
Exactamente a vinte anos atrás uma grande crise financeira atingiu os países do Leste e do Sul da Ásia, em Julho de 1997. Esta crise foi um divisor de águas na história do desenvolvimento do terceiro mundo, no sentido de que estes "tigres económicos" que haviam experimentado taxas de crescimento extraordinariamente altas até então ficaram permanentemente incapacitados depois disso. Bem no momento em que estavam a livrar-se dos efeitos da crise de 1997 nas suas respectivas economias, o colapso da "bolha habitacional" nos Estados Unidos mergulhou todo o sistema capitalista mundial dentro de uma crise que também os afectou, de modo que nunca puderam recuperar a sua tendência de crescimento anterior.

O desempenho anterior de crescimento destas economias asiáticas fora utilizado pelo Banco Mundial, pelo FMI e pela OCDE (o clube dos países ricos) para desprestigiar a estratégia de crescimento perseguida pela Índia e um punhado de outras economias do terceiro mundo na sequência imediata da descolonização (a que chamamos a "estratégia de Nehru"), a qual encarava o desligamento do capitalismo mundial através do comércio e do controle de capitais, assim como enfatizava o desenvolvimento dirigista baseado no mercado interno, para romper o padrão colonial da divisão internacional do trabalho. O argumento utilizado contra uma tal estratégia de "nacionalismo económico" era que as economias asiáticas estavam a sair-se bem ao amarrarem-se à economia global e evitarem o dirigismo e controles.

Dito de modo diferente, o argumento era que uma ruptura com o padrão herdado da divisão internacional do trabalho verificar-se-ia espontaneamente sob o capitalismo; não era precisa a parafernália da intervenção e controles do Estado. Na verdade países que recorriam às mesma haviam fracassado, ao passo que países, a exemplo dos "tigres asiáticos", que haviam adoptado o liberalismo e "deixado as coisas para o mercado", haviam-se desempenhado muito melhor. Uma vez que a antiga estratégia económica tivera origem num certo entendimento do capitalismo mundial, nomeadamente que estava marcado pelo "imperialismo" o qual tendia a produzir "subdesenvolvimento" no terceiro mundo, a experiência das economias do Leste e do Sul da Ásia era utilizada para invalidar a ideia de "imperialismo", certamente no mundo pós colonial e mesmo como um acompanhamento económico necessário do anterior sistema político do colonialismo.

A OCDE publicara vários volumes em 1970 contendo estudos de caso de países do terceiro mundo, nos quais argumentava esta tese e lançava um ataque à estratégia dirigista. A esquerda também fora crítica da estratégiadirigista (no nosso caso a "estratégia de Nehru"), mas com bases totalmente diferentes. Ela apoiara resolutamente todos os aspectos anti-imperialistas que tinha esta estratégia, mas criticara-a por sua incapacidade para efectuar reformas agrárias radicais e romper a concentração da terra, a qual mantinha tanto a dimensão do mercado interno como a sua taxa de crescimento restringidas (esta última devido à baixa taxa de crescimento da agricultura dentro de uma estrutura agrária em grande medida não reformada). A limitação da estratégia, argumentava a esquerda, tem esta origem e não na sua adopção da substituição de importações, do investimento do Estado, dos controles de capitais e de comércio e das restrições ao big business interno e internacional.

Com um olhar mais atento verificou-se que a estratégia do Leste asiático não fora realmente o que economistas da OCDE, do FMI e Banco Mundial haviam afirmado. Não se baseara na confiança em mercados livres, evitando a intervenção do Estado e dando rédea solta ao capital. Ao contrário, o Estado havia tentado intervenção mesmo ao nível micro, exortando capitalistas a exportarem, permitindo-lhes fazer dumping de mercados no exterior (através da cobrança de preços mais altos no mercado interno) e estabelecendo zonas de processamento de exportação às quais o capital interno e estrangeiro (principalmente japonês) podia utilizar como bases para o lançamento de campanhas de exportação. A sua estratégia fora neo-mercantilista ao invés de neoliberal, com o Estado a desempenhar um papel principal, embora um papel diferente daquele em países como a Índia, e tivera êxito porque países imperialistas lhes permitiram acesso ao mercado.

O que deitou abaixo as trajectórias de crescimento destas economias foram os fluxos mais livres da finança internacional. Estas economias lançaram um programa de "liberalização financeira" apenas uns poucos anos antes da crise, a qual fez entrar enormes montantes de finança estrangeira. A própria abertura de economias em crescimento rápido mas até então financeiramente fechadas (elas estiveram a obter investimento estrangeiro directo mas não de finanças com livre transito) para fluxos livres de finança teria provocado de qualquer forma grandes influxos financeiros. Mas além disso tais influxos foram ajudados por um diferencial de juros. Nos EUA, as taxas de juros haviam sido mantidos baixos no princípio dos anos 90 numa tentativa de estimular o crescimento, ao passo que as taxas de juros eram comparativamente mais elevadas nas economias em crescimento rápido da Ásia. Com a liberalização financeira, isto fez com que firmas internas se voltassem para fundos estrangeiros mais baratos e também fizeram com que bancos e instituições financeiras estrangeiras despejassem fundos nas economias asiáticas para obter maiores ganhos de juros.

Sempre que há um surto de influxos financeiros para dentro de uma economia, então, não importa o que provoque, esta economia entra em dificuldades. Pense-se apenas nas várias possibilidades. Se ela simplesmente permite que estes fundos entrem sem qualquer intervenção e a despesa interna não aumenta, então a taxa de câmbio valoriza-se, a qual tem um efeito contraccionário sobre o produto interno e o emprego, mesmo quando os passivos externos do país vão em aumento. Isto é uma situação bizarra, um caso de "desindustrialização financiada por dívida", isto é, contracção de empréstimos no exterior para arruinar a própria economia.

Se com maiores influxos de fundos o défice corrente se expande por causa da maior despesa interna, então também se verificam problemas. Se o aumento é em despesas de consumo, então efectivamente o país está a tomar fundos emprestados a curto prazo a fim de permitir-se um consumo ostentatório, tipicamente dos ricos, e quando tais fundos são retirados há uma crise cambial, a qual provoca um esmagamento, tipicamente sobre o consumo dos pobres, para gerar recursos para os fluxos de saída. Por outro lado, se o país utiliza os fundos para finalidades de investimento, então país está "tomar emprestado a curto prazo para investir no longo", isto é, a utilizar fundos de curto prazo para investimento de longo prazo, o que significa que quando os fundos são retirados ele enfrentará uma crise de liquidez.

Ele pode naturalmente simplesmente manter reservas e impedir qualquer apreciação da taxa de câmbio. Mas uma vez que reservas (as quais são equivalente a emprestar ao estrangeiro) rendem muito pouco como retornos, possuir reservas maiores, embora previna as perspectivas de uma crise cambial no caso de os fundos serem retirados, implica em que o país está a "tomar emprestado caro para conceder empréstimos baratos", o que é evidentemente absurdo. Portanto, quaisquer grandes influxos de fundos estrangeiros a curto prazo estão necessariamente repletos de perigos para a economia hospedeira.

As economias asiáticas tipicamente ampliaram suas taxas de investimento quando se verificou este surto de influxos financeiros externos. Alguns destes influxos aumentaram de qualquer modo porque firmas internas estavam a tomar emprestado no exterior para aumentar o investimento. Além disso, outras firmas aumentaram seu investimento com a disponibilidade fácil de fundos devido a estes influxos, alguns dos quais encontraram o seu caminho para bancos locais. Estas economias, sendo a Coreia do Sul um exemplo primário, estiveram portanto não só a "tomar emprestado no curto prazo para investir no logo" como também a tomar emprestado em divisa estrangeira para financiar investimentos sem ganhos de divisa estrangeira, tais como no sector de infraestrutura.

Quando a crise chegou, houve tanto uma corrida à divisa estrangeira como uma corrida aos bancos e estas duas reforçaram-se uma à outra. Quando a taxa de câmbio cai, os passivos dos bancos que eram em divisa estrangeira aumentam em relação aos seus activos que eram em divisa interna, tornando-os vulneráveis. E este mesmo facto faz com que investidores estrangeiros retirem seus depósitos o que mais uma vez faz com que a taxa de câmbio entre em colapso.

As políticas impostas pelo FMI para as quais estas economias se voltaram fizeram as coisas piores, uma vez que o FMI, se bem que concedendo empréstimos, insistia em que aqueles que retiravam fundos deviam ter liberdade de assim fazer. Os empréstimos do FMI foram portanto utilizados para financiar a fuga de capitais, enquanto as medidas de austeridade draconiana e de "desnacionalização" (entregando activos internos a estrangeiros) cobravam um alto preço às vidas dos povos e à soberania dos países. Ironicamente o país que saiu da crise em primeiro lugar e com os efeitos menos penosos sobre o povo foi a Malásia, a qual impôs controles de capitais para impedir a fuga da finança.

Desde a crise, estas economias (e a de outros países do terceiro mundo também, incluindo a Índia) começaram a manter reservas de divisas externas muito maiores a fim de evitar uma repetição de tal eventualidade. Mas ao mesmo tempo a sua dívida a estrangeiros, o que é diferente de dívida em divisa externa, subiu substancialmente. Esta distinção pode ser entendida como se segue: quando um indivíduo estrangeiro entra com divisa externa, troca-a por divisa local e compra activos internos com isso, então há uma dívida a indivíduos estrangeiros mas não uma dívida em divisa externa. Mas a partir daí, na ausência de controles de capitais, o indivíduo estrangeiro pode sempre vender o activo e levar a moeda para fora trocando a divisa interna em divisa externa, a ameaça para a economia do país não é menor com a anterior espécie de dívida do que com a última. Se ambas as espécies de dívidas são somadas, então as reservas cambiais destes países ainda permanecem lamentavelmente inadequadas, em relação a esta dívida total, para impedir a recorrência de uma crise no caso de uma saída de capitais. Mas enquanto tais países permanecem tão vulneráveis como antes, e estão bem abaixo da trajectória de crescimento que seguiam anteriormente, o controle estrangeiro sobre os seus activos aumentou dramaticamente. O problema, em suma, jaz em permitir fluxos livres de capital, incluindo fluxos financeiros, e não em medidas específicas de políticas dentro de tal regime.

A hegemonia do capital financeiro internacional, a qual levou economias a "abrirem-se" ao turbilhão de fluxos financeiros globais, demoliu tanto dirigismo de Nehru como o neo-mercantilismo do Leste asiático. E a mesma hegemonia trouxe agora a economia capitalista mundial a uma crise da qual não está em posição de recuperar-se.
06/Agosto/2017

[*] Economista, indiano, ver Wikipedia

O original encontra-se em peoplesdemocracy.in/2017/0806_pd/twenty-years-after-asian-financial-crisis 


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

Astrônomos encontram um planeta tão grande que ele é quase uma estrela

Astrônomos encontram um planeta tão grande que ele é quase uma estrela


Na semana passada, uma equipe de astrônomos relatou a primeira descoberta potencial de uma exolua – um satélite girando em torno de um planeta perto de uma estrela. O mais impressionante na descoberta é a escala deste possível sistema. Neste caso, a “lua” parece ser do tamanho de Netuno, enquanto o planeta que ela orbita tem cerca de 10 vezes a massa de Júpiter, ou cerca de 3.000 vezes a massa da Terra!
Estas escalas desafiam os limites de como normalmente classificamos objetos no espaço e permite algumas questões sobre onde estamos na escala das coisas. Qual é o maior planeta possível? Considerando toda a gama de possibilidades, a Terra é um planeta grande ou pequeno?
Há duas maneiras de responder, dependendo do que queremos dizer com “grande”. Se pensamos sobre o tamanho de um planeta em termos de massa, então há uma resposta específica, mas bastante técnica. Os planetas são definidos como corpos que não geram sua própria energia a partir da fusão nuclear. Qualquer planeta com mais do que cerca de 13 vezes a massa de Júpiter (4,ooo massas da Terra, a grosso modo) gera calor e pressão suficientes no seu núcleo para desencadear reações de fusão limitadas de deutério, um isótopo pesado de hidrogênio. Nesse ponto, o objeto é considerado uma anã marrom em vez de um planeta.
Mas fronteira da ignição nuclear entre planetas e anãs marrons é baseada em processos internos que ficam escondidos, no entanto, e não são de todo óbvios do lado de fora. A massa crítica para a fusão também depende da combinação de elementos dentro do objeto. Para uma gama plausível de composições, o ponto de corte pode ser de 11 a 16 vezes a massa de Júpiter.
Fora dessa zona cinza, porém, as coisas se tornam mais claras. Qualquer coisa bem abaixo do limite inferior de 11 massas de Júpiter (3.500 massas da Terra, mais ou menos) é indiscutivelmente planetária. Qualquer coisa bem acima, por outro lado, é definitivamente capaz de criar alguma energia própria e não se encaixa mais na definição astronômica padrão de um planeta.

A gravidade contra os gigantes

Mas também há um ponto de vista mais literal sobre a questão: existe um limite sobre quão grande um planeta pode ser fisicamente? Aqui há uma resposta definitiva e bastante surpreendente. Júpiter tem 11 vezes o diâmetro da Terra, e isso é tão grande quanto qualquer planeta pode ser! Se você continuasse despejando mais matéria em Júpiter, ele não ficaria maior. Em vez disso, a gravidade faria com que sua massa ficasse mais junta ainda, de forma mais forte e eficiente.
Através de todo o intervalo entre um planeta com a massa de Júpiter ao limite das anãs marrons, até as estrelas anãs de massa mais baixa (cerca de 70 vezes a massa de Júpiter, o ponto em que ocorre a fusão sustentada de lítio e hidrogênio), o tamanho quase não muda. Todos esses objetos estão dentro de um limite de cerca de 15% do mesmo diâmetro. Essa constância tem algumas consequências estranhas.
Peguemos, por exemplo, a estrela Trappist-1A, que estava nas notícias recentemente porque tem sete planetas do tamanho da Terra a orbitando. Trappist-1A é uma anã vermelha, apenas 1/2000 tão brilhante quanto o sol, mas é uma estrela genuína, sem dúvida. Ela é alimentada por reações nucleares constantes e sustentadas que queimarão por trilhões de anos ou mais. É 80 vezes mais massiva do que Júpiter.
Por outro lado, Trappist-1A é menos de 10% maior em diâmetro do que Júpiter. Coloque esses dois detalhes juntos, e você rapidamente percebe que essa pequena estrela deve ser extremamente densa – como de fato são todas as estrelas anãs vermelhas. Trappist-1A é cerca de 60 vezes mais densa do que Júpiter. Traduzido em termos mais familiares, esta pequena bola de plasma de hidrogênio brilhante é 25 vezes mais densa que o granito e mais de seis vezes mais densa que o chumbo.
Embora Trappist-1A esteja sustentando reações de fusão, está fazendo isso a uma taxa tão baixa que o derramamento de energia quase não suporta o volume da estrela contra a atração da gravidade. Ainda mais extrema é a estrela anã vermelha EBLM J0555-57Ab, recentemente medida e declarada 15% menor do que Júpiter, do tamanho de Saturno. É a menor estrela madura conhecida (em oposição a cinzas estelares como anãs brancas ou estrelas de nêutrons), e tem 17 vezes a densidade do chumbo – 188 vezes a densidade da água!
Existem algumas exceções notáveis ​​a esse padrão. Alguns planetas que orbitam extremamente perto de suas estrelas são superaquecidos e inchados em diâmetros anormalmente grandes. O exoplaneta de “isopor” KELT-11b, na ilustração acima, é 40% maior do que Júpiter apesar de ter apenas 1/5 da massa. Já o HD 100546bn tem cerca de 7 vezes o diâmetro de Júpiter, o que tornaria o planeta de maior tamanho conhecido, mas com algumas ressalvas: ele parece estar se formando, e as observações atuais deixam muitas incertezas sobre sua natureza – pode ser na verdade uma anã marrom precoce.
Fora de tais valores abertos, o padrão é rígido. À medida que os planetas ficam mais maciços, eles não ficam fisicamente maiores. Eles apenas são muito, muito mais fortemente ”apertados” pela gravidade, até que eles se incendeiem e já não sejam considerados planetas. 

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

CAleksandr Vorontsov / como os EUA chantageiam a China

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    Moedas e notas de yuan chinês em torno de um dólar norte-americano

    Como os EUA chantageiam a China

    © AP Photo/ EyePress, FILE
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    O orientalista russo Aleksandr Vorontsov, na sua entrevista à Sputnik China, chamou de "chantagem" o adiamento dos EUA da aplicação das sanções definidas contra os bancos chineses após a China ter apoiado a resolução do Conselho de Segurança da ONU que impõe novas sanções contra a Coreia do Norte.
    Segundo divulgaram à agencia Reuters fontes oficiais anônimas nos EUA, além de ser adiada a implementação das sanções, foi suspensa a propagandeada investigação às violações dos direitos de propriedade intelectual pela China, que devia ter sido anunciada na sexta-feira passada pela administração Trump.
    De acordo com os funcionários públicos e diplomatas norte-americanos, foi exatamente a ameaça das sanções dos EUA contra a China que acabou dissuadindo os chineses de impedir que o novo pacote de sanções fosse aplicado contra a Coreia do Norte.
    Todavia, o especialista do Centro de Estudos da Ásia-Pacífico e da Estratégia Global Wang Jinsheng acredita que essa tese não corresponde aos fatos.
    "A China, sendo uma grande potência e presidindo ao Conselho de Segurança da ONU, não pode fazer nada senão implementar as sanções duras contra a Coreia do Norte que realizou testes nucleares violando as resoluções da ONU e ameaçando a segurança nacional da China", assegurou o especialista à Sputnik China.
    Mesmo assim, as fontes anônimas da Casa Branca avisaram que a paciência de Washington tem seus limites e prometeram observar atentamente o processo de aplicação das sanções contra Pyongyang.
    Conforme o especialista do Instituto de Estudos Orientais da Academia de Ciências da Rússia Aleksandr Vorontsov, essa atitude faz lembrar a "política da cenoura e do cacete" em relação à China. Para ele, as sanções são vistas pelos EUA como uma vitória diplomática sobre a China:
    "Essa suposição é válida, levando em conta a maneira intensa como os EUA estão utilizando a "política da cenoura e do cacete" contra a China. De acordo com o representante permanente da Rússia na ONU Vasily Nebenzya, os EUA discutiram com a China durante bastante tempo o projeto de resolução e quando o submeteram a debate geral, exigiram sem cerimônia que ele fosse aprovado pelos outros países o mais rápido possível. Esse estilo arrogante e prepotente é uma falta de respeito para com os outros membros do Conselho de Segurança da ONU. É uma chantagem descarada."
    Não podendo solucionar o problema norte-coreano sozinho, Trump se dirigiu à China, que, por sua vez, não vai resolvê-lo de uma forma que sirva aos americanos, pois isso não corresponde aos seus interesses nacionais. Aliás, Trump havia prometido aos seus eleitores e partidários que tomaria medidas duras no comércio com a China. Daí sua vacilação e passos impulsivos que resultaram no jogo de sanções contra os chineses.

    segunda-feira, 7 de agosto de 2017

    John Pilger / O chamamento da guerra nuclear

    O chamamento da guerra nuclear


    por John Pilger
    O comandante do submarino dos EUA diz: "Todos nós vamos morrer um dia, alguns mais cedo e outros mais tarde. O perturbador sempre foi que nunca se está pronto para isso, pois não se sabe quando é que chega o momento. Bem, agora sabemos e não há nada a fazer".

    Ele diz que estará morto em Setembro. Levará cerca de uma semana para morrer, embora ninguém possa estar muito certo. Os animais viverão mais.

    A guerra acabou em um mês. Os Estados Unidos, a Rússia e a China foram os protagonistas. Não está claro se foi começada por acidente ou por erro. Não houve vitorioso. O hemisfério norte está contaminado e agora sem vida.

    Uma cortina de radioactividade está a mover-se rumo à Austrália e Nova Zelândia, ao sul da África e à América do Sul. Em Setembro, as últimas cidades e aldeias sucumbirão. Tal como no norte, a maior parte dos edifícios permanecerão intactos, alguns iluminados pelos últimos vislumbres de luz eléctrica.

    Este é o modo como o mundo acaba
    Não com um estrondo, mas com um suspiro 


    Estas linhas do poema de T.S. Eliot, The Hollow Men (Os homens vazios), surgem no início do romance On the Beach (Na praia) de Nevil Shute, o qual me deixou próximo às lágrimas. Os endossos impressos na capa diziam o mesmo.

    Publicado em 1957 na altura da Guerra Fria, quando tantos escritores estavam silenciosos ou acovardados, é uma obra-prima. A princípio a linguagem sugere uma relíquia refinada; mas nada do que li sobre guerra nuclear é tão implacável como a sua advertência. Nenhum outro livro é tão urgente.

    Alguns leitores recordarão o filme a branco e preto de Hollywood estrelado por Gregory Peck como comandante da US Navy que leva seu submarino para a Austrália a fim de aguardar o espectro silencioso e informe descer sobre o último ser vivo do mundo.

    Li On the Beach pela primeira vez há poucos dias, terminando-o quando o Congresso dos EUA aprovou uma lei para travar guerra económica à Rússia, a segunda mais letal potência nuclear do mundo. Não havia justificação para esta votação insana, excepto a ânsia da pilhagem.

    As "sanções" também se destinam à Europa, principalmente à Alemanha, a qual depende do gás natural russo, e a companhias europeias que fazem negócios legítimos com a Rússia. Naquilo que passou por debate no Capitol Hill, o mais palrador dos senadores não deixou dúvida de que o embargo se destinava a forçar a Europa a importar o dispendioso gás americano.

    Seu objectivo principal parece ser a guerra – a guerra real. Nenhuma provocação tão extrema pode sugerir qualquer outra coisa. Eles parecem almejar isto, muito embora os americanos tenham pouca ideia do que é a guerra. A Guerra Civil de 1861-65 foi a última no seu território. Guerra é o que os Estados Unidos fazem aos outros.

    O único país a ter utilizado armas nucleares contra seres humanos. Desde então eles destruíram grande número de governos, muitos deles democracias, e destruíram sociedades inteiras – os milhões de mortos no Iraque foram um fracção da carnificina na Indochina, a qual o presidente Reagan chamou de "nobre causa" e o presidente Obama corrigiu como a tragédia de um "povo excepcional". Ele não estava a referir-se aos vietnamitas.

    Ao filmar no ano passado no Lincoln Memorial, em Washington, ouvi acidentalmente um guia do National Parks Service a dar uma lição a um grupo de escolares adolescentes: "Ouçam", disse ele. "Nós perdemos 58 mil jovens soldados no Vietname e eles morreram a defender a vossa liberdade".

    De repente, a verdade era invertida. Nenhuma liberdade foi defendida. A liberdade foi destruída. Um país de camponeses foi invadido e milhões do seu povo foram mortos, mutilados, expulsos, envenenados, 60 mil dos invasores puseram fim à sua própria vida. Ouçam, realmente.

    Uma lobotomia é executada a cada geração. Os factos são removidos. A história é expurgada e substituída pelo que a revista Time chama "um eterno presente". Harold Pinter descreveu isto como "manipulação de poder à escala mundial, mascarando-se como uma força para o bem universal, um brilhante, mesmo brilhante, acto de hipnose com grande êxito [o que quer dizer] que nunca aconteceu. Nada alguma vez aconteceu. Mesmo enquanto estava a acontecer não estava a acontecer. Não importava. Não tinha interesse".

    Aqueles que se auto-denominam liberais ou tendenciosamente "a esquerda" são participantes ávidos desta manipulação e desta lavagem cerebral, a qual hoje reverte a um nome: Trump.

    Trump é louco, um fascista, um tolo da Rússia. Ele também é uma prenda para "cérebros liberais conservados no formaldeído da política de identidade", escreveu Luciana Bohne de modo inesquecível. A obsessão com Trump como homem – não Trump como um sintoma e uma caricatura de um sistema duradouro – atrai grande perigo para todos nós.

    Enquanto prosseguem suas fossilizadas agendas anti-russas, media narcisistas tais como o Washington Post, a BBC e o Guardian omitem a essência da mais importante narrativa política do nosso tempo pois fomentam a guerra numa escala de que não posso recordar-me ao longo da minha vida.

    Em 3 de Agosto, em contraste com a extensão que o Guardian tem dado à idiotice de que os russos conspiraram com Trump (o que recorda a difamação da extrema-direita de John Kennedy como "agente soviético"), o jornal enterrou, na página 16, a notícia de que o presidente dos Estados Unidos fora forçado a assinar uma lei do Congresso declarando guerra económica à Rússia. Ao contrário de todas as outras assinaturas de Trump, esta foi efectuada em segredo virtual e acrescentada com uma advertência do próprio Trump de que era "claramente inconstitucional".

    Está a caminho um golpe contra o homem na Casa Branca. Não por ele ser um ser humano odioso, mas sim porque firmemente deixou claro que não quer guerra com a Rússia.

    Este vislumbre de sanidade, ou de simples pragmatismo, é anátema para os administradores da "segurança nacional" que defendem um sistema baseado na guerra, vigilância, armamentos, ameaça e capitalismo extremo. Martin Luther King chamou-os "os maiores fornecedores de violência no mundo de hoje".

    Eles cercaram a Rússia e a China com mísseis e um arsenal nuclear. Eles utilizaram neo-nazis para instalar um regime instável e agressivo na fronteira da Rússia – o caminho pelo qual Hitler invadiu, provocando as mortes de 27 milhões de pessoas. O seu objectivo é desmembrar a moderna Federação Russa.

    Em resposta, "parceria" é uma palavra usada incessantemente por Vladimir Putin – qualquer coisa, parece, que possa travar nos Estados Unidos um impulso evangélico para a guerra. A incredulidade na Rússia pode agora ter-se transformado em medo e talvez uma certa resolução. Os russos quase certamente têm contra-ataques nucleares preparados. Ensaios de ataques aéreos não são incomuns. A sua história diz-lhes para estarem preparados.

    Protestos contra o Talisman Sabre.A ameaça é simultânea. A Rússia é a primeira. A China é a seguir. Os EUA acabam de completar um enorme exercício militar com a Austrália conhecido como Talisman Sabre . Eles treinaram um bloqueio dos Estreitos de Malaca e do Mar do Sul da China, através dos quais passam as linha económicas vitais da China.

    O almirante a comandar a frota estado-unidense do Pacífico disse que, "se necessário", ele atacaria a China com armas nucleares. Que ele dissesse tal coisa publicamente na actual atmosfera pérfida começa a tornar facto a ficção de Nevil Shute.

    Nada disto é considerado notícia. Nenhuma ligação é feita quando se recorda o festim sangrento dePasschendaele um século atrás. A reportagem honesta já não é bem vinda na maior parte dos media. Pessoas enfatuadas, conhecidas como sabichonas, dominam: editores são administradores de info-entretenimento ou da linha do partido. Onde outrora havia edição, há agora o despejar de clichés para trituração. Aqueles jornalistas que não cumprem são defenestrados.

    A urgência tem muitos antecedentes. No meu filme, The Coming War on China (A guerra vindoura à China), John Bordne, membro da equipe de combate de mísseis da US Air Force baseada em Okinawa, Japão, descreve como em 1962 – durante a crise cubana dos mísseis – foi dito a ele e aos seus colegas "para lançar todos os mísseis" a partir dos seus silos.

    Armados com o nuclear, os mísseis destinavam-se tanto à China como à Rússia. Um oficial júnior questionou isto e a ordem acabou por ser revogada – mas só depois de terem sido emitidas com revólveres apontados e ordem para atirar numa equipe de míssil se eles não cumprissem.

    Na altura da Guerra Fria, a histeria anti-comunista nos Estados Unidos era tal que responsáveis estado-unidenses que foram à China em negócios oficiais foram acusados de traição e despedidos. Em 1957 – o ano em que Shute escreveu On the Beach – nenhum responsável no Departamento de Estado podia falar a língua do país mais populoso do mundo. Falantes de mandariam eram expurgados sob restrições agora reflectidas na lei que o Congresso acabou de aprovar, destinada à Rússia.

    A lei foi bipartidária. Não há diferença fundamental entre Democratas e Republicanos. Os termos "esquerda" e "direita" são sem significado. A maior parte das guerras modernas da América foram iniciadas não por conservadores mas sim por liberais democratas.

    Quando Obama terminou o seu mandato havia presidido um recorde de sete guerras, incluindo a mais longa guerra da América, e uma campanha sem precedentes de mortes extrajudiciais – assassinatos – através de drones.

    OBAMA: TRÊS BOMBAS POR HORA, 24 HORAS POR DIA 

    No seu último ano de mandato, segundo um estudo do Council on Foreign Relations, o "relutante guerreiro liberal", lançou 26.171 bombas – três bombas por hora, 24 horas por dia. Tendo prometido ajudar a "livrar o mundo" de armas nucleares, o laureado com o Prémio Nobel da Paz construiu mais ogivas nucleares do que qualquer outro presidente desde a Guerra Fria.

    Trump é um fraco em comparação. Foi Obama – com a sua secretária de Estado Hillary Clinton ao lado – quem destruiu a Líbia como estado moderno e lançou a debandada humana para a Europa. Internamente, grupos de imigração conhecem-no como o "deportador em chefe".

    Um dos últimos actos de Obama como presidente foi assinar uma lei que entrega um recorde de US$618 mil milhões ao Pentágono, reflectindo a ascendência crescente do militarismo fascista na governação dos Estados Unidos. Trump endossou isto.

    Enterrado nos pormenores estava o estabelecimento de um "Centro para Análise de Informação e Resposta". Isto é um ministério da verdade. A sua tarefa é providenciar uma "narrativa oficial dos factos" que nos preparará para a possibilidade real da guerra nuclear – se nós o permitirmos. 
    04/Agosto/2017

    O original encontra-se em johnpilger.com/articles/on-the-beach-2017-the-beckoning-of-nuclear-war e emwww.globalresearch.ca/on-the-beach-2017/5602709 

    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .