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terça-feira, 31 de março de 2015

Colaboradores de George Bush Conspiram na Colômbia contra a Venezuela

Nota dos Editores

Colaboradores de George Bush
Conspiram na Colômbia contra a Venezuela



31.Mar.15 :: Editores


Semanas depois de Obama ter emitido um Decreto Executivo acusando a Venezuela bolivariana de ameaçar a segurança nacional dos EUA, o Noticias Uno, da rede independente, de Caracas, divulgou uma nova manobra provocatória imperialista em que estão envolvidos dois altos funcionários norte-americanos: o ex presidente da Camara de Nova York, Rudolph Giuliani, e Mary Beth Long, ex- subsecretária de Estado da Defesa de George Bush.
Ambos intervieram ativamente numa mesa redonda promovida em Bogotá pelo ministro da Defesa da Colômbia, Juan Carlos Pinzón, o falcão do governo do presidente Santos.
No encontro participaram também altas patentes das Forças Armadas colombianas.
O tema da iniciativa é esclarecedor do objetivo: o papel do exército da Colômbia se os atuais Diálogos de Paz de Havana terminarem com a assinatura de um Acordo de Paz que conduza à desmobilização das FARC-EP e sua integração na vida política.
Giuliani foi particularmente agressivo. Refletindo sobre os problemas que podem surgir no «pós conflito», afirmou que o perigo maior não viria da violência, dos escândalos e roubalheiras, da delinquência em geral, mas da possibilidade de «os narcotraficantes das FARC se tornarem governo». Caberia às Forças Armadas enfrentar essa situação.
Mary Beth, que, antes de ser nomeada por Bush subsecretária da Defesa, fora agente da CIA e funcionária da NSA (o sistema de espionagem planetária dos EUA) manifestou a sua grande preocupação com as ameaças externas de «vizinhos como a Venezuela». Mas está convicta de que as Forças armadas saberão enfrentá-las com firmeza.
Na conferência de imprensa realizada após o encontro, o ministro Pinzón disse partilhar tais temores, mas afirmou estar certo de que os generais Mora (o comandante chefe das Forças Armadas) e Naranjo estão conscientes dos perigos que se esboçam no horizonte.
Essa estranha mesa redonda de Bogotá confirmou que os EUA estão empenhados em sabotar o processo de paz com as FARC e no agravamento das relações da Colômbia com o governo de Nicolas Maduro. Sabe- se que 1800 paramilitares colombianos estão acampados na fronteira da Venezuela, prontos a instalar a desordem e a violência nos estados de Zulia e Tachira.
O envolvimento direto do governo de Washington na conspiração que visa o derrubamento do governo da Venezuela bolivariana está a contribuir para o reforço da solidariedade internacionalista àquele país.
Dezenas de personalidades da América Latina e da Europa, participantes da organização Intelectuais e Artistas em Defesa da Humanidade, exigiram já a revogação do Decreto Executivo de Obama e condenaram as ameaças à Venezuela.

Os Editores de ODiário.info

Lua do Alabama /EUA, treinar insurgentes sírios & Jabhat al-Nusra

31 mar 2015

US Military Novamente Atrasa Training Of Jabhat al-Nusra Recrutas

Os EUA tinham planos para treinar insurgentes sírios que são, então, supostamente para combater o Estado Islâmico. Mas a Turquia, onde a formação é suposto ter lugar, quer aqueles lutadores para atacar o governo sírio.
Os planos dos EUA, irrealista, para começar, mais uma vez foi adiada :
Um programa liderado pelos Estados Unidos para treinar rebeldes sírios para combater militantes islâmicos do Estado vai começar em maio, da Turquia ministro da Defesa, Ismet Yilmaz, citado pela agência de notícias Anadolu estatal na terça-feira.
...
Detalhes sobre o treinamento - que deverá ter lugar na Turquia, Jordânia, Qatar e Arábia Saudita - têm sido escassas, embora anteriormente havia sido planejada para começar este mês.
Este atraso vem depois Jabhat al-Nusra, a filial da Al-Qaeda na Síria, capturou a cidade síria de Idlib. O militar síria acusa a Turquia de apoiar diretamente Jabhat al Nusra:
Ecoando comentários mais gerais do presidente Bashar al-Assad, a fonte militar acusou a Turquia e Jordânia de apoiar os insurgentes em sua ofensiva Idlib, dizendo que eles estavam "liderar as operações e planejamento deles". Os insurgentes estavam usando aparelhos de comunicação avançado que tinha sido posto à sua disposição através da Turquia, acrescentou a fonte.O Ministério das Relações Exteriores turco se recusou a comentar.
O colunista Arábia Jamal Khashoggi, que está próximo dos centros de poder na Arábia Saudita, confirma as alegações da Síria:
Patrocinadores árabes e turcos sauditas, [Mr.Khashoggi, o editor da Arábia Saudita,] disse, tinha apoiado a coalizão de grupos jihadistas que recentemente capturaram a cidade síria de Idlib na primeira grande vitória em meses contra o governo do presidente Bashar al-Assad.Um participante da coalizão foi a Frente Nusra, o braço sírio da Al Qaeda, um grupo terrorista aos olhos do Ocidente. Mas os membros da coalizão jihadista "são os que capturaram Idlib, é um desenvolvimento importante, e eu acho que nós vamos ver mais do que", disse Khashoggi. "A coordenação entre a inteligência turca e saudita nunca foi tão bom como agora."
Se os militares dos EUA iria treinar aqueles lutadores na Turquia eles provavelmente se transformaria em Jihadis ligados a Jabhat al-Nusra assim que voltar atrás em terra sírio. O Pentágono não gostam de ser vistos em apoio direto da Al-Qaeda.
A CIA embora ...

Postado por b em 31 de março de 2015, 08:42 | Link permanente

segunda-feira, 30 de março de 2015

Prabhat Patnaik / O conceito de imperialismo

O conceito de imperialismo


por Prabhat Patnaik [*]
Há uma visão, mesmo em círculos de esquerda nos países capitalistas avançados, de que o imperialismo como categoria conceptual perdeu sua relevância na era da globalização. Por um lado, as grandes burguesias em países do terceiro mundo como a Índia, estão tão profundamente integradas no projecto da "globalização" que suas contradições com o capital metropolitano estão muito mais atenuadas hoje do que anteriormente. No período imediatamente após a descolonização, por exemplo, burguesias do terceiro mundo isolaram o mercado nacional através de barreiras proteccionistas contra mercadorias metropolitanas e protegeram suas economias dos fluxos financeiros internacionais. Mas hoje elas prosseguem com satisfação políticas neoliberais. Por outro lado, os trabalhadores nos países capitalistas avançados são agora empurrados para a mesma triste situação dos trabalhadores nos países do terceiro mundo, onde aumentos na produtividade do trabalho não são correspondidos por quaisquer aumentos em salários reais, o que não era o caso anteriormente. Joseph Stiglitz por exemplo estima que hoje a taxa de salário real do trabalhador americano médio (homem) não é mais alta do que era em 1968 e possivelmente é um pouco mais baixa.

Em consequência, a divisão do mundo em dois segmentos geográficos diferentes, um dos quais domina o outro, frustrando mesmo as ambições da burguesia deste último, e cuja população trabalhadora também experimenta melhoria de padrões de vida em contraste com a do outro, não mais se sustém. Uma vez que, de acordo com esta visão, uma tal divisão é característica do fenómeno do imperialismo, o seu desaparecimento torna o próprio conceito obsoleto.

Há naturalmente muita diversidade teórica entre aqueles que questionam o pleno significado do conceito de imperialismo. Enquanto alguns confinariam o termo imperialismo apenas à fase da pré descolonização, quando esta divisão do mundo em dois segmentos diferentes e desiguais, com um a dominar o outro, era palpável, outros aceitariam sua relevância mesmo na fase da pós descolonização, isto é, mesmo na fase do dirigismo do terceiro mundo. Na verdade, o controle político chegara a um fim com a descolonização, mas eles reconheceriam nas tentativas da principal potência capitalista da época, os Estados Unidos, de "reverter" o dirigismo do terceiro mundo (adoptando o termo utilizado por John Foster Dulles num contexto diferente mas semelhante) e recusar tentativas do terceiro mundo de ganhar controle sobre seus mercados e recursos naturais, um claro projecto imperialista.

Toda a série de tentativas de derrubar governos progressistas do terceiro mundo que chegaram ao poder no período da descolonização, desde Cheddi Jagan da Guiana a Mossadegh do Irão, de Arbens na Guatemala e Sukarno da Indonésia e a Allende do Chile, sem mencionar as horrendas guerras impostas a países como a Coreia e o Vietname que estavam a iniciar-se num trajectória socialista de desenvolvimento, testemunharia para eles a realidade do imperialismo.

Mas agora, argumentariam, o mundo tornou-se totalmente diferente. Não há dúvida de que ainda há guerras horrendas, as quais foram impostas no período mais recente a um certo número de países pela principal potência capitalista, os Estados Unidos, dentre as quais as guerras no Afeganistão e no Iraque são exemplos óbvios; mas estas diferem das guerras anteriores uma vez que foram travadas contra forças fundamentalistas ou contra regimes ditatoriais, em grande media por razões políticas que supostamente não estão directamente relacionadas com cálculos económicos; e tais guerra muitas vezes obtiveram algum apoio local do povo pertencente aos próprios teatros da guerra.

E como regimes económicos em grande parte do terceiro mundo que estão a seguir políticas neoliberais estão a assim fazer não como "fantoches do imperialismo", e sim habitualmente sob a égide de governos eleitos pelo voto popular, e conseguiram mesmo em muitos casos taxas de crescimento substanciais, ultrapassando mesmo as dos próprios países capitalistas principais, ligar tais regimes e suas políticas a "imperialismo" é claramente injustificável. A época actual, por outras palavras, em contraste não só com a do período colonial mas mesmo com a do período dirigista pós colonial, não pode ser considerada como estando a cair dentro da era do imperialismo.

PERCEPÇÃO ERRADA 

O problema básico com toda esta argumentação, contudo, é que a sua percepção de imperialismo está errada. O termo "imperialismo" não está ligado nem ao comportamento da burguesia do terceiro mundo nem à condição da classe trabalhadora nas metrópoles. De facto, na década de 1920 havia uma visão avançada por muitos teóricos importantes da Internacional Comunista de que o imperialismo começava a "acomodar" a burguesia do terceiro mundo. Esta visão foi chamada a tese da "descolonização", a qual naturalmente não significava o fim do colonialismo ou do imperialismo, mas apenas uma mudança na posição da burguesia terceiro-mundista em relação ao imperialismo. O ponto a destacar aqui não é se a tese da "descolonização" era ou não válida; o ponto é simplesmente que uma mudança na posição da burguesia não implica, e nunca se pensou que implicasse, num fim do imperialismo.

Além disso, a ideia de que o imperialismo está associado a fortunas divergentes das classes trabalhadoras nas metrópoles e na periferia não constitui uma característica definidora do imperialismo. Esta percepção é mantida pelos teóricos da "troca desigual", mas não por Lenine que via apenas um fino estrato de "aristocracia do trabalho" a beneficiar-se do imperialismo mas não a classe trabalhadora da metrópole como um todo. Portanto, num sentido essencial, o conceito de imperialismo nunca foi associado nem com quaisquer divergências nas fortunas da classe trabalhadora nem com qualquer "exclusão" das burguesias do terceiro mundo. O argumento de que a estagnação dos salários reais no primeiro mundo ou a integração da burguesia do terceiro mundo no corpo do capital financeiro internacional nega o conceito de imperialismo, é portanto destituído de base.

Dito de modo diferente, imperialismo implica a opressão, a opressão necessária, dos povos do terceiro mundo, das massas trabalhadoras, através da operação do capitalismo metropolitano. Como as burguesias do terceiro mundo se saem no processo, e como as fortunas dos trabalhadores do primeiro mundo se alteram sob o imperialismo, não são pertinentes para a definição de imperialismo.

Esta opressão dos trabalhadores do terceiro mundo pelo capital metropolitano não é alguma conspiração clandestina; é uma parte do próprio modus operandi do capitalismo. É errado portanto identificar imperialismo só com casos em que são engendrados golpes militares, ou em que é executadas intervenção militar por países capitalistas avançados ou pelo seu líder, os EUA. O imperialismo, muito embora possa, em certas ocasiões, dar origem a tais intervenções, ou à "diplomacia da canhoneira", não é idêntico à "diplomacia da canhoneira". Assim, o facto de nenhuns coup d'etats à ordem de algumas corporações multinacionais como a Union Minière (que era activa no Congo) ou a United Fruit Company (que era activa na Guatemal) ou a ITT (que era activa no Chile) possam ser citados em tempos mais recentes a acompanhar as acções destrutivas de tais corporações nos anos 50 e 60, não é um argumento contra o conceito de imperialismo. Imperialismo não é alguma ânsia por encenar golpes; é o próprio modo de existência do capitalismo.

CONTEXTO CONTEMPORÂNEO 

No contexto contemporâneo ele abrange todo o conjunto de disposições que asseguram a operação desembaraçada e incontestada do capital financeiro internacional. Tal operação, é óbvio, inclui entre outras coisas a apropriação dos recursos de todo o mundo pelo capital financeiro internacional, mas também significa muito mais do que isto. Mesmo se o capital internacional controlasse todos os minerais e os outros recursos naturais do mundo, se houvesse um aumento substancial do poder de compra do povo trabalhador, especialmente no terceiro mundo, então suas procuras sobre estes recursos aumentariam, resultando numa ascensão nos preços de tais recursos. Uma tal ascensão de preços, entretanto, poria em risco o sistema financeiro do mundo capitalista.

Portanto não basta que recursos estejam nas mãos do capital internacional; além disso deve verificar-se que os povos trabalhadores dos países do terceiro mundo sejam impedidos de fazerem quaisquer reivindicações sobre eles. Isto é assegurado pelo neoliberalismo através da precipitação de desemprego e de cortes de salários reais entre os trabalhadores do terceiro mundo, o que força cortes no rendimento real dos camponeses e micro produtores do terceiro mundo. Dessa forma impõe-se o conservadorismo orçamental e a "austeridade" a nações-Estado de modo a que elas não estejam em posição de fazer "transferência de pagamentos" a favor da população trabalhadora, mas ao contrário devem provocar um aumento nos preços de um conjunto de serviços essenciais incluindo saúde e educação.

Intrínseco portanto ao neoliberalismo, o qual é uma característica chave do imperialismo contemporâneo, está um empobrecimento do povo trabalhador do terceiro mundo. É irónico ouvir em debates públicos na Índia a afirmação de que a busca do neoliberalismo, ao provocar uma aceleração na taxa de crescimento da economia, ajudará no alívio da pobreza: o neoliberalismo é suas políticas associadas são um instrumento nas mãos do capital financeiro internacional para manter baixos os rendimentos e o poder de compra do povo trabalhador. A "austeridade", como observou Noam Chomsky, é uma guerra de classe sem peias. Esperar que o neoliberalismo melhore as condições do povo trabalhador quando o seu objectivo é fazer exactamente o oposto é extraordinariamente ingénuo.

A ira do imperialismo contra os regimes dirigistas pós descolonização é explicável não apenas pelo facto de que eles estavam a tentar assegurar controle "nacional" sobre seus minérios e outros recursos, mas também porque, dadas as suas origens na luta anti-colonial e os compromissos assumidos para com o povo durante aquela luta, eles estavam, não importa em quão pequena medida, procurando efectuar alguma melhoria nas condições de vida do povo. E a arma básica do imperialismo contra tais regimes, além da intervenção militar sem rodeios, foi o desencadeamento de fundamentalismos religiosos, conflitos étnicos e outros meios igualmente reprováveis para dividir o povo. Mesmo enquanto encenava um golpe militar contra Mossadegh no Irão, ele utilizou a ajuda do Ayatollah Kashani; mais recentemente no Iraque utilizou o fundamentalismo xiíta para estimular o apoio ao derrube de Saddam Hussein. No Afeganistão ele utilizou uma coligação fundamentalista islâmica contra o governo PDPA e a União Soviética.

E quando algumas destas forças fundamentalistas, como o monstro de Frankenstein, começa a criar problemas para o próprio imperialismo, sua resposta invariavelmente é procurar novas forças fundamentalistas. O IS, acerca do qual muito se fala nestes dias, foi ele próprio encorajado pela secretária de Estado estado-unidense Condoleezza Rice como meio de se contrapor ao fundamentalismo xiíta, o qual fora igualmente encorajado pela mesma administração americana.

O imperialismo, em suma, fareja todas as linhas de fractura de uma sociedade do terceiro mundo e deliberadamente divide o povo de acordo com aquelas linhas. Esta é uma táctica a qual o imperialismo britânico recorreu amplamente durante o seu auge, incluindo na Malásia (como aconteceu) derrotar o levantamento revolucionário do pós-guerra através da promoção e exploração de contradições étnicas entre os malaios e os chineses. E o imperialismo americano está a utilizar a mesma táctica agora.

Em consequência, o imperialismo contemporâneo causa ao terceiro mundo não só uma pauperização (immiserisation) da população trabalhadora como também um processo de desintegração social. 
29/Março/2015

[*] Economista, indiano, ver Wikipedia

O original encontra-se em peoplesdemocracy.in/2015/0329_pd/concept-imperialism 


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

Neve em Chamas, o heroísmo soviético na luta contra o nazifascismo



Neve em Chamas, o heroísmo soviético na luta contra o nazifascismo

neve em chamasHá 70 anos, em maio de 1945, chegava ao fim a 2ª Guerra Mundial, a guerra contra o nazismo e que deixou milhões de homens e mulheres mortos.
A vitória contra a ameaça fascista só foi possível graças à atuação heroica do Exército Vermelho, que impôs a primeira grande derrota das hordas hitleristas em Stalingrado, enfraquecendo o exército alemão em força e moral.
Mas a Grande Guerra Patriótica, como os soviéticos se referiam à 2ª Guerra, também serviu de inspiração para que escritores produzissem dezenas de livros sobre o heroísmo do povo e do exército soviético durante o conflito. Um desses livros, Neve em Chamas, de Iuri Bondarev, narra justamente uma batalha durante o cerco alemão a Stalingrado.
Na obra, o autor aborda o confronto das mais diversos pontos de vista, desde a perspectiva de simples soldados na frente de batalha até o alto comando militar.
O próprio Bondarev foi oficial de artilharia durante a guerra e se tornou membro do Partido Comunista da URSS, em 1944, formando-se no Instituto de Literatura Máximo Gorki, em 1951. Ganhou diversos prêmios e escreveu vários romances sobre a guerra, alguns dos quais ganharam versões no cinema.
Neve em Chamas mostra com riqueza de detalhes os augures da guerra e o heroísmo, combatividade, abnegação e determinação dos membros do Exército Vermelho.
A importância desses homens para a história da humanidade é enorme. Sem os sacrifícios realizados pelos combatentes do Exército Vermelho o mundo poderia ter sido curvado pelas bestas fascistas, e a quantidade de mortes, torturas e demais mazelas seriam muito superiores.
Neve em Chamas é uma leitura recomendada para quem quer conhecer um pouco mais dessa história e do exemplo deixado pelo povo soviético para as futuras gerações. O livro pode ser encontrado em sebos ou pela internet.
Rafael Coletto, Rio de Janeiro
    A Verdade

Snowden, Obama e o IV Reich Americano

Miguel Urbano Rodrigues
30.Mar.15 :: Colaboradores
O documentário de Laura Poitras “Citizenfour”, premiado com um Óscar, não tem tido a atenção que merece por parte do público no nosso país. O seu título é o nome de código de Edward Snowden, o ex agente da CIA que revelou ao mundo a existência e o funcionamento do monstruoso sistema de espionagem criado pela NSA, cujos tentáculos cobrem o mundo. Peça fundamental da estratégia imperialista de dominação planetária, o desmascaramento desta ameaça é uma tarefa de defesa da humanidade.


Contei as pessoas à saída da sala do pequeno cinema do Porto que acabara de exibir o documentário Citizenfour: eram apenas 19.
Porquê tão pouca gente?
Eu conhecia a resposta:
1.A esmagadora maioria dos portugueses (o panorama não difere muito noutros países) desconhece a perigosa ameaça que a estratégia de poder dos EUA representa para a humanidade.
2. É extremamente difícil conseguir que centenas de milhões de pessoas, manipuladas pela gigantesca máquina de desinformação mediática controlada por Washington, tomem consciência de que os valores da chamada «democracia americana» são hoje uma arma de propaganda e que nos EUA, neste início do seculo XXI, a Casa Branca, o Pentágono e a Agencia Nacional de Segurança – NSA com a cumplicidade do Congresso, montaram uma engrenagem diabólica, na prática incontrolável, para dominar o planeta, através, da espionagem.
Citizenfour é o nome de código de Edward Snowden no Documentário em que a cineasta e jornalista norte-americana Laura Poitras resume em linguagem fílmica a estória do jovem informático, ex agente da CIA, que revelou ao mundo a existência e o funcionamento do monstruoso sistema de espionagem criado pela NSA, cujos tentáculos cobriam o mundo.
O importante no filme não é a sua qualidade, mas o desmascaramento da ameaça à humanidade.
Snowden estava em Hong Kong quando, após cautelosos contactos por mails encriptados, aceitou encontrar-se naquela cidade com Laura Poitras e o jornalista americano Glenn Greenwald, colunista do diário britânico The Guardian. Sabendo que estava a ser vigiado, entregou a ambos os documentos secretos em seu poder. Quando Greenwald, com a sua anuência, começou a publicá-los em The Guardian, ficou transparente que o chamado sistema de Vigilância da NSA, elogiado pelo presidente Obama, é, na realidade, uma poderosa máquina de espionagem de dimensão planetária. O escândalo adquiriu proporções mundiais quando o Washington Post e o semanário alemão Der Spiegel e a BBC decidiram também divulgar provas indesmentíveis das atividades ilegais da NSA, criminosas segundo o direito internacional. Até a chanceler Angela Merkel, entre muitos outros aliados dos EUA (incluindo Dilma Roussef e o próprio Cameron) era alvo da espionagem da NSA.
Obama sentiu a necessidade de intervir e pediu desculpas a Merkel, e ela, tao hipócrita como o americano, simulou acreditar na garantia de que não voltaria a ser espiada pela NSA.
O filme ilumina bem o cinismo do presidente dos EUA, mais perigoso para a humanidade do que Reagan e os Bus. Não somente atacou agressivamente Snowden, afirmando que não era «um patriota», como deu luz verde à perseguição judicial iniciada ao ex funcionário da NSA. Para o incriminar acharam que o Patriot Act era insuficiente e foram desenterrar uma lei da época da Primeira Guerra Mundial, que visava desertores e terroristas. No Senado e na Camara dos Representantes chegaram a exigir-lhe a cabeça, e nos grandes media tornaram-se rotineiros os apelos para que fosse assassinado.
Em Hong Kong, Snowden apercebeu-se de que se permanecesse ali as suas probabilidades de sobreviver eram mínimas. Retiraram-lhe inclusive o passaporte americano.
O documentário de Laura Poitras descreve os esforços de Greenwald e outros amigos para o tirarem da China enquanto pedia asilo a muitos países. A ajuda de Sónia Bridi, uma jornalista do Wikileaks, de Julian Assange, foi decisiva para o meterem num avião da Aeroflot que o levou a Moscovo. O desfecho da estória é bem conhecido. Snowden permaneceu na área internacional do aeroporto internacional daquela cidade, até que finalmente o governo de Putin, resistindo às pressões de Washington, lhe concedeu asilo na Rússia. Ali se encontra ainda.
O escasso número de espectadores que o filme de Laura Potras, premiado com um Óscar, tem atraído em Portugal é esclarecedor da dificuldade, mencionada no início deste artigo, da desmontagem da máquina de desinformação do imperialismo. O sistema dos Cinco Olhos que transforma a mentira em verdade - no qual o Reino Unido, o Canadá, a Austrália e a Nova Zelândia participam como cúmplices - tem aliás colaborado ativamente com a NSA.
Mas o diabolismo da espionagem mundial da Agencia de Segurança norte americana funciona também como incentivo à luta contra a engrenagem do sistema de poder que gradualmente está transformado os EUA num Estado totalitário com matizes neofascistas,
Não instalou campos de concentração, não construiu camaras de gás e fornos crematórios mas, sob uma enganadora fachada democrática, faz do seu sistema de espionagem o instrumento de um poder hegemónico, desencadeia guerras genocidas, saqueia os recursos naturais de dezenas de povos e semeia o terrorismo pelo mundo. Neste início do seculo XXI os seus atos e ideologia justificam o qualificativo de IV Reich.
Vila Nova de Gaia, 21 de Março de 2015
    ODiario.info

domingo, 29 de março de 2015

O capitalismo no país das maravilhas

30.03.2015
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O capitalismo no país das maravilhas*
Nos EUA, a segunda economia mais rica do mundo, o número de gente sem casa triplicou desde 1983, atingindo os 3,5 milhões. Há actualmente 15 milhões de crianças com fome. Destas, 1,5 milhões não tem casa. Na lista de países que melhor protegem as suas crianças, a UNICEF coloca os EUA abaixo da Grécia e apenas duas posições acima da Roménia.
António Santos
A maior potência imperialista, que leva a guerra a todo o planeta, está também em guerra com os pobres do seu próprio país.
Num ano em que a cidade de Nova Iorque enfrenta o frio mais inclemente de várias décadas, o número de «sem-abrigo» na Grande Maçã também bateu o maior recorde de todos os tempos: 60 000 pessoas sem casa, metade das quais são crianças. E de acordo com um estudo publicado na semana passada pela Universidade de New Hampshire, o problema é à escala federal. Na segunda economia mais rica do mundo, o número de gente sem casa triplicou desde 1983 para 3,5 milhões. Curiosamente, desde essa mesma data, também triplicou para 18 milhões o número de casas sem gente.
O estudo concluiu que de geração para geração cada vez é mais difícil sair da pobreza. Na «terra das oportunidades», a pobreza das famílias de classe trabalhadora tem uma tendência consistente para perpetuar-se e crescer nas gerações vindouras, criando um ciclo vicioso e cada vez mais difícil de inverter. Ou, como demonstra o testemunho recolhido pela investigadora e jornalista Tiffany Willis: «Uma vez, eu precisava de lápis-de-cor para um trabalho. A minha professora disse-me que se eu não os trouxesse levava um zero. Disse-lhe que não tinha, mas ela respondeu-me que eu tinha de tratar disso. No caminho para a escola, a minha mãe entrou no supermercado e pediu-me para esperar à porta. Eu não percebi, porque ela tinha dito que não tinha dinheiro. Quando saiu, levava com ela os meus lápis-de-cor, mas não estavam dentro de um saco de plástico, estavam escondidos dentro da blusa. Acho que os roubou. Ela estava a chorar.» Segundo os autores do estudo, a percentagem de crianças sem-abrigo que conclui o ensino secundário situa-se nos 20 por cento. No reverso da medalha, observa o estudo, cresce a tendência para que os filhos dos muito ricos ultrapassem a fortuna dos pais.
O que dizem as crianças sem tecto dos EUA

Há actualmente 15 milhões de crianças com fome nos EUA. Destas, 1,5 milhões não tem casa. Com efeito, na lista de países que melhor protegem as suas crianças, a UNICEF coloca os EUA abaixo da Grécia e apenas duas posições acima da Roménia. Poderíamos acreditar que a colossal dimensão deste crime, que constitui uma continuada violação da Convenção Internacional dos Direitos da Criança e que, para além do mais, decorre num país rico, seria alvo de severas atenções mediáticas e de consensuais admoestações internacionais. Mas a pobreza das crianças dos EUA é invisível. Na verdade, é exactamente essa a estratégia de um número crescente de estados: varrer a miséria extrema para debaixo do tapete. No Arizona proíbem a mendicidade; em Boston instalam a chamada «arquitectura hostil», que impede as pessoas de repousarem nos espaços públicos; no Colorado, o Estado oferece bilhetes de autocarro aos sem-abrigo, para que vão e não voltem; em Hollywood, a cidade está a comprar às organizações de caridade os imóveis onde funcionam os abrigos nocturnos... para poder demoli-los; no Alasca, o Representante Don Young foi mais longe e sugeriu «alcateias de lobos» para acabar com o problema.
São as regras do jogo do capitalismo em todo o seu brutal esplendor: privatizar a produção de riqueza e socializar a produção prejuízos, pelo que os resultados económicos negativos que se sucedem em catadupa nos EUA fazem adivinhar que a escala e a gravidade da miséria extrema irão continuar a agudizar-se, acentuando cada vez mais as contradições mais abjectas e anti-humanas do capitalismo. Neste jogo viciado, a falta de habitação, de emprego e de comida não são infortúnios, são jogadas de classe. As cartas do capitalismo estão há muito tempo à vista: desvalorização do trabalho; guerra infinita; miséria. Não basta virar o jogo, é preciso virar a mesa.
*Este artigo foi publicado no "Avante!" nº 2155, 19.03.2015

Hubble, Chandra e Matéria Escura

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Astrônomos usando observações feitas com o Telescópio Espacial Hubble da NASA e com o Observatório de Raios-X Chandra, encontraram que a matéria escura não reduz de velocidade quando colide entre si. Isso significa que ela interage com ela mesmo ainda menos do que se pensava anteriormente. Os pesquisadores dizem que essa descoberta estreita as opções sobre o que pode ser essa misteriosa substância. A matéria escura é uma forma transparente de matéria que faz parte da maior massa no universo. Pelo fato da matéria escura não refletir, absorver, ou emitir luz, ela só pode ser traçada indiretamente, medindo como ela destorce o espaço por meio do fenômeno de lente gravitacional, onde a luz de distantes fontes é ampliada e distorcida pelos efeitos gravitacionais da matéria escura. Os dois observatórios espaciais foram usados para estudar como a matéria escura nos aglomerados de galáxias se comporta quando os aglomerados colidem. O Hubble foi usado para mapear a distribuição das estrelas e da matéria escura pós-colisão, que foi traçada através do efeito de lente gravitacional na luz de fundo. O Chandra foi usado para observar a emissão de raios-X do gás em colisão. Os resultados foram publicados na revista Science do dia 27 de Março de 2015.

“A matéria escura é um enigma que nós buscamos a muito tempo revelar”, disse John Grunsfeld, administrador assistente do Science Mission Directorate da NASA em Washington. “Com as capacidades combinadas desses grandes observatórios, ambos em missões estendidas, nós estamos ainda mais perto de entender esse fenômeno cósmico. Para aprender mais sobre a matéria escura, os pesquisadores podem estuda-la de maneira similar como fazem com experimentos com a matéria visível – observando o que acontece quando ela atinge objetos celestes. Um excelente laboratório natural para essa análise pode ser encontrado nas colisões entre aglomerados de galáxias. Os aglomerados de galáxias são feitos de três principais ingredientes: galáxias, nuvens de gás e matéria escura. Durante as colisões, as nuvens de gás que envelopam as galáxias se chocam e param.

As galáxias são muito menos afetadas pelo arrasto do gás e, graças aos grandes vazios entre as estrelas, não se tem o efeito redução de velocidade em cada uma. Nós sabemos como o gás e as galáxias reagem a essas colisões cósmicas e onde eles emergem a partir desse choque. Comparando como a matéria escura se comporta pode nos ajudar a estreitar o que ela realmente é”, explica David Harvey da École Polytechnique Fédérale de Lausanne, na Suíça, principal autor do novo estudo. Harvey e sua equipe usou os dados do Hubble e do Chandra para estudar 72 grandes colisões em aglomerados. As colisões acontecem em tempos diferentes, e são vistas de diferentes ângulos – algumas de lado e outras de frente.

A equipe descobriu que, como as galáxias, a matéria escura continua direto através das violentas colisões sem reduzir a velocidade relativa para as galáxias. Pelo fato das galáxias passarem sem impedimentos, se os astrônomos observarem uma separação entre a distribuição das galáxias e a matéria escura então eles sabem que houve uma diminuição de velocidade. Se a matéria escura reduz a velocidade, ela se arrastará e ficará localizada em algum lugar entre as galáxias e o gás, que pode dizer aos pesquisadores o quanto ela tem interagido.

A teoria vigente é que as partículas da matéria escura se espalham através dos aglomerados de galáxias e frequentemente não se chocam uma com a outra. A razão da matéria escura não reduzir a velocidade é porque não somente ela não interage com as partículas visíveis, mas também ela pouco frequentemente interage com outra matéria escura. A equipe mediu essa interação própria e descobriu que ela ocorre menos frequentemente ainda do que se pensava anteriormente. “Um estudo prévio tinha visto um comportamento similar no Aglomerado Bullet”, disse Richard Massey, um membro da equipe, da Universidade de Durham, no Reino Unido. “Mas é difícil interpretar o que nós estamos vendo se nós só temos um exemplo. Cada colisão leva centenas de milhões de anos, assim, durante a nossa vida, nós só podemos ver um quadro congelado de um ângulo único de uma câmera.

Agora que nós estamos estudando muito mais colisões, nós podemos começar a montar um filme completo e entender melhor o que está acontecendo. Descobrindo que a matéria escura interage com ela mesmo ainda menos do que se pensava anteriormente, a equipe conseguiu com sucesso estreitar as propriedades da matéria escura. Os teóricos de física de partículas têm agora um conjunto menor de variáveis desconhecidas para trabalhar quando construírem seus modelos. Não está claro quanto nós esperamos que a matéria escura interaja com ela mesmo, pois a matéria escura vai contra tudo o que conhecemos”, disse Harvey. “Nós sabemos de observações prévias que ela precisa interagir com ela mesmo de maneira razoavelmente fraca, contudo, esse estudo tem agora colocado essa taxa abaixo até mesmo do grau de interação de dois prótons interagindo um com o outro – o que é uma teoria para a matéria escura”.

Harvey disse que os resultados sugerem que a matéria escura ‘e pouco provável de ser somente um tipo de próton escuro. Se a matéria escura espalhar como os prótons fazem um com os outros (eletrostaticamente) ela teria sido detectada. Isso desafia a ideia de que existam prótons escuros, o equivalente aos fótons na matéria escura”, disse ele. A matéria escura poderia potencialmente ter propriedades ricas e complexas, e existem ainda outros tipos de interações para o estudo. Esses últimos resultados descartam as interações que criam um forte força de fricção, fazendo com que a matéria escura reduza a velocidade durante as colisões.

Outras possíveis interações poderiam fazer com que as partículas da matéria escura rebatessem uma nas outras como bolas de sinuca, fazendo com que as partículas da matéria escura fossem ejetadas das nuvens pelas colisões ou para as bolhas de matéria escura para mudar a forma. A equipe estudará isso posteriormente. Para aumentar o número de colisões que podem ser estudadas, a equipe está também buscando estudar colisões envolvendo galáxias individuais, que são muito mais comuns. Existem ainda alguns candidatos viáveis para o posto de matéria escura, assim o jogo ainda não acabou, mas nós estamos chegando cada vez mais perto da resposta”, concluiu Harvey. “Esses colisores de partículas astronomicamente grandes estão finalmente deixando com que possamos espiar o mundo escuro ao nosso redor e fora do nosso alcance”.
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sábado, 28 de março de 2015

51 anos do golpe: os “patriotas” de hoje são os velhos entreguistas

Kennedy and Goulart review troops 1962Brasil - Diário Liberdade - [Roberto Bitencourt da Silva]

 O golpe empresarial-militar, que ora completa 51 anos, promoveu não poucos males à sociedade brasileira, com frutos ainda perceptíveis. Frutos danosos que tolhem o adensamento da democracia brasileira, a redução das grotescas disparidades sociais e a ruptura com o nosso papel dependente e subordinado na cena mundial.

Foto no domínio público - John F. Kennedy durante a visita do então presidente João Goulart aos Estados Unidos em 1962. Posteriormente descobriu-se que o presidente estadunidense planejava invadir militarmente o Brasil para depor o governo de Goulart.
Uma modernização capitalista, reacionária e autocrática moldou padrões de sociabilidade, que hoje têm no consumo o deus máximo, consistindo em um dos mais expressivos fatores de identidade das pessoas. O individualismo campeia, na esteira da busca pela satisfação de desejos artificialmente criados pelos conglomerados de mídia, com a publicidade financiada pelo sagrado altar contemporâneo, composto pelas marcas das corporações multinacionais.
A brutalidade nas ações policiais contra os potenciais sujeitos "perigosos", pobres, negros ou dissonantes da ordem social hierárquica e grosseiramente desigual, não deixa de pagar o seu tributo à ditadura instalada em 1964. A cotidiana violação de direitos humanos tende a assumir ares de naturalidade, buscando legitimar, tacitamente, iniciativas arbitrárias, tidas como necessárias na cosmovisão de parcelas importantes da sociedade.
Não são poucas as mazelas herdadas da experiência ditatorial e passíveis de serem identificadas. Contudo, quero explorar apenas uma questão que tem saltado às vistas e ganhado significativa expressão política nos últimos meses, desde o curso da última eleição presidencial: o "patriotismo" reacionário de direita.
É bastante comum vermos, à direita, líderes políticos, agentes das forças de segurança, publicistas e intelectuais com inserção na imprensa e nos círculos acadêmicos, bem como inúmeros grupos sintonizados com a cantilena do combate à corrupção, desfraldarem símbolos e algumas ideias que visam glorificar a "pátria", o "verde-amarelo" como bastião. As manifestações que apresentaram acentuados laivos fascistas e golpistas, em 15 de março, foram uma demonstração significativa desse "patriotismo".
Realmente, trata-se de um caso curioso: os pretensos "patriotas" dos nossos dias receberiam, com facilidade, a classificação de entreguistas nas lutas políticas desenroladas nos anos 1950/60, até a destituição do presidente João Goulart. À época, "patriotas", melhor dizendo, nacionalistas, situavam-se à esquerda – setores militares, estudantes, trabalhadores rurais e urbanos, intelectuais e artistas. Comunistas, trabalhistas, socialistas, católicos de esquerda: forças políticas e sociais, então, designadas e autorepresentadas como nacionalistas.
Os nacionalistas, grosso modo, defendiam inúmeras reformas sociais e econômicas, como a desconcentração da posse da terra, a estatização de setores concebidos como estratégicos, a reforma tributária progressiva, o controle do capital estrangeiro, visando, senão estancar, ao menos reduzir a transferência desenfreada de riqueza nacional e dos frutos dos trabalhadores para o centro capitalista.
Assegurar direitos sociais e defender a legitimidade da participação das classes trabalhadoras, populares e médias, nos processos de decisão nacional e de formulação da agenda pública, consistiam, igualmente, em traços salientes dos antigos nacionalistas. Retirar amplas camadas da população da condição de párias da nação, assim como preconizar os interesses soberanos do país, foram objetivo e característica marcante dos antigos nacionalistas.
Quanto ao pólo antagônico no período, refiro-me aos entreguistas, estes esposavam o liberalismo econômico – que apenas favorecia às corporações multinacionais e à burguesia tupiniquim associada e subalterna –, o alinhamento subordinado aos Estados Unidos (referencial civilizatório) e a democracia restrita às forças conservadores e às classes proprietárias, "agentes ativos e com responsabilidade na nação", como argumentavam os jornalões do período. A ampla maioria do próprio povo brasileiro era vista como um conjunto de classes "perigosas" e destituída da capacidade de ingerência sobre os rumos da nação.
O movimento que promoveu a desestabilização e o golpe sobre o governo Goulart – grande capital nacional e internacional, maior parte da imprensa e setores militares conservadores – e, sobretudo, a ditadura instalada em 1964, conseguiu ressignificar a ideia de nacionalismo: "patriotas" seriam representados como sujeitos adeptos da preservação das "tradições brasileiras".
Quais "tradições"? O latifúndio, o silêncio e a invisibilidade política das classes subalternas, a abertura da economia à irrestrita atuação dos capitais estrangeiros, a conservação de privilégios e status para segmentos altos e medianos da sociedade.
A grande obra-denúncia do consagrado jornalista Edmar Morel, publicada em 1965 e reeditada apenas no ano passado, "O golpe começou em Washington", revela muitos argumentos mobilizados pelas forças sociais e políticas que apoiaram ao golpe e que empreenderam a caça às bruxas contra os nacionalistas, demonizados como comunistas. Demonstra, especialmente, o "patriotismo" defendido pelos encarniçados entreguistas. Uma pátria livre da "ameaça soviética" ou "cubanizante". Na prática, uma "pátria" que iria tratar a sua maioria como pária.
Não é equivocado afirmar que a ditadura foi muito eficiente em seus propósitos. Conseguiu emudecer a tradição nacionalista e anti-imperialista das esquerdas, criando uma ambiência favorável ao obscurecimento da questão nacional do raio de atenção, daquelas esquerdas que emergiram no processo de redemocratização. O trabalhismo de Leonel Brizola e Darcy Ribeiro à parte, após a década de 1980 o nacionalismo sumiu da temática dos partidos e demais forças e setores esquerdistas, organizados ou não.
Um colonialismo cultural e intelectual imperou, inclusive na seara acadêmica, tornando o nacionalismo uma "praga" que deveria ser esquecida entre os setores progressistas. O economista Nildo Ouriques, em seu recém-lançado "O colapso do figurino francês", salienta com muita lucidez o papel desempenhado pela USP na desqualificação do nacionalismo.
Como lembra Ouriques, a USP se consolidou sob os escombros do antigo Instituto Superior de Estudos Brasileiros, perseguido e fechado pela ditadura. O ISEB tinha na questão nacional, na reflexão sobre os problemas brasileiros e a inserção do país no sistema econômico e político mundial temas fundamentais. Buscava produzir um pensamento sem importação acrítica, "não enlatado", para usar expressão de um grande isebiano, o sociólogo Guerreiro Ramos.
O velho nacionalismo tornou-se, na linguagem disseminada pela sociologia uspiana, "populismo demagógico e anacrônico". Não é gratuito que, em nossos dias, amplos setores da sociedade, inclusive parcelas expressivas das esquerdas, revelam reticências e distanciamentos em relação às experiências políticas de alguns países coirmãos, conhecidas como "bolivarianas". Consideram o Brasil "muderno" demais para entender o que ocorre em alguns países sul-americanos, com a ascensão protagônica das classes populares na cena política e a busca por exercício de soberania nacional.
Ademais, em meio à ditadura, o nacionalismo foi ressignificado, destituído do seu caráter popular, anti-imperialista e socializante, convertendo-se em um patriotismo ufanista, do "ame-o ou deixe-o". Uma visão de pátria assentada em relações sociais hierárquicas, na defesa de um organismo social em que "cada macaco fica no seu galho", contribuindo para o bem do todo.
Dessa forma, os "filhotes da ditadura", como diria Leonel Brizola, hoje empunham a bandeira nacional, cantam o hino e vestem a camisa da CBF, sob o embalo de anos de aprendizado com a ditadura e a televisão. Acham que esta ordem de comportamentos corresponde a ser "patriota".
Mas, essas são apenas expressões superficiais e caricatas de "patriotismo". O que aprenderam com os promotores da ruptura democrática de 1964 e com a ditadura, muitos sem o saber, é que, como os antigos entreguistas, defendem uma pátria com amplo número de párias e a tradição de privilégios, status e participação nos rumos decisórios do país nas mãos de poucos.
Ter que compartilhar espaços coletivos como shoppings, aeroportos e universidades, com setores populares destituídos de acesso até a poucos anos, é o suficiente para um griteiro. Flagrante sintoma de que as "tradições brasileiras" remontam ao período colonial.
Alguns "patriotas" têm demonstrado tamanha convergência com os entreguistas do passado, que têm chegado ao cúmulo de reivindicar a intervenção "redentora" não apenas dos militares brasileiros, como das Forças Armadas dos EUA. Nesse sentido, infelizmente, ao completarmos 51 anos do golpe empresarial-militar, é difícil deixar de reconhecer que as sementes plantadas pela ditadura têm se desenvolvido e dado frutos, praticamente congelando o país no tempo.
Roberto Bitencourt da Silva – doutor em História (UFF), professor da FAETERJ-Rio/FAETEC e da SME-Rio.