terça-feira, 6 de dezembro de 2016

PM entra em confronto com servidores e transforma centro do Rio em praça de guerra


PM entra em confronto com servidores e transforma centro do Rio em praça de guerra

Paula Bianchi
Do UOL, no Rio

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Servidores que protestam contra o pacote anticrise do governo do Estado do Rio entraram em confronto com policiais militares nos arredores da Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro), nesta terça-feira (6), no centro do capital fluminense. O embate durou mais de quatro horas e transformou o centro da cidade em um praça de guerra, com direito a invasão de uma igreja, presença de carros blindados e da cavalaria da PM e ruas totalmente bloqueadas.
De acordo com a Polícia Militar, oito militares ficaram feridos e estão sendo atendidos em um ambulatório dentro do Palácio Tiradentes, sede do Legislativo. Um deles teve ferimento próximo ao olho ocasionado pela explosão de um morteiro. Um jovem, não identificado, foi atingido por uma bala de borracha na garganta.
Divulgação/Twitter da PM
PM ferido em protesto na Alerj é atendido no local
PMs e homens da Força Nacional de Segurança, que reforçam o efetivo no local, lançaram várias bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral. Os militares também usaram gás de pimenta a fim de dispersar os manifestantes e chegaram a invadir a Igreja de São José, ao lado da Alerj para usarem como base.
O Batalhão de Choque da PM, que incialmente se posicionou atrás das grades instaladas em frente ao Palácio Tiradentes, sede do Legislativo, foi mobilizado posteriormente para isolar as ruas que dão acesso à Alerj.
Do lado de fora, os servidores soltaram fogos de artifício e chutaram bombas de volta nos policiais.
Devido ao tumulto generalizado, muito trabalhadores da região central da cidade foram liberados mais cedo, e outro sequer conseguiram voltar aos locais de trabalho após o horário de almoço.
Paula Bianchi/UOL
6.dez.2016 - Manifestantes que tentavam invadir a Alerj pelo (Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro) entram em confronto com policiais militares, que jogam bombas de gás de pimenta e de efeito moral

Votação na Alerj

Na sessão da Alerj foram aprovadas duas medidas de cortes de gastos com o próprio Legislativo (no uso de carros pelos parlamentares e com recepções durante sessões solenes) e um dos projetos do pacote, que autoriza o governo a usar notificações eletrônicas em processos da Fazenda estadual.
Os deputados decidiram alterar o calendário de votações. Agora, as sessões irão até a próxima segunda-feira (12). Inicialmente, o plano era seguir com as votações até o dia 15. Os sindicatos de servidores estão agendando uma paralisação geral para os dias 14 e 15. (Com Estadão Conteúdo)
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Pacote de corte de gastos no Rio gera protestos16 fotos

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6.dez.2016 - Policiais entram na Igreja de São José, ao lado da Alerj (Assembleia Legislativa do Rio), no centro da capital fluminense, e atiram da sacada para atirar bombas de efeito moral em direção a servidores públicos que participam de uma manifestação contra o pacote de medidas anticrise do governo do EstadoVEJA MAIS >Imagem: Luiz Souza/Fotoarena/Estadão Conteúdo

"No Rio, há um quadro de bomba-relógio"

Entrevista

"No Rio, há um quadro de bomba-relógio"

por Carlos Drummond — publicado 06/12/2016 05h02
No centro das crises econômica e política, o Rio de Janeiro está no limite, alerta o economista Mauro Osorio
Tânia Rêgo / Agência Brasil
Rio
Servidores estaduais do Rio de Janeiro protestam contra o pacote de cortes do governo do estado em frente ao prédio da Alerj

N
a terça-feira 22, em Brasília, em reunião sobre a crise fiscal aguda nos estados, o governo federal deixou claro: pingará 5,3 bilhões de reais da repatriação de recursos em troca da intensificação do arrocho nas unidades federativas.
O risco é o agravamento do impacto na sociedade, mostram os protestos populares no Rio de Janeiro nas últimas semanas. Atingido pelas crises do petróleo, da Petrobras e dos estaleiros e com a máquina pública sucateada, o estado possui a periferia metropolitana em pior situação socioeconômica no País e tende a ser o estopim de uma eventual reação nacional à austeridade.
A possibilidade horroriza Brasília, empenhada na aprovação da PEC 55 no Senado. O economista Mauro Osorio, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e presidente do think tank Instituto Pereira Passos, explica na entrevista a seguir por que o Rio se tornou uma bomba-relógio.
CartaCapital: Qual é a situação dos municípios da periferia da capital?
Mauro Osorio: A maioria das prefeituras está quebrada, há pouquíssimo emprego formal, a situação da educação e da saúde é a pior do País. Existe um quadro de bomba-relógio muito mais grave do que nos entornos de São Paulo e Belo Horizonte. Há uma carência inacreditável de infraestrutura e políticas sociais. Em Duque de Caxias, 40% das escolas públicas não têm água encanada.
Enquanto São Caetano e São Bernardo do Campo, da periferia de São Paulo, possuíam taxas de 4,48 e 6,20 homicídios por 100 mil habitantes, respectivamente, em 2013, várias cidades do entorno da cidade do Rio de Janeiro apresentavam proporções acima de 40 homicídios por 100 mil habitantes.
CC: Como está a arrecadação?
MO: A crise agudizou uma dificuldade crônica. A receita líquida corrente per capita é de 896 reais em São Gonçalo, 904 em São João de Meriti e 947 em Ribeirão das Neves. Muito longe da arrecadação de 7,6 mil reais em Barueri e 6,8 mil em São Caetano, na região metropolitana de São Paulo. Ou dos 3,4 mil de Betim, na periferia de Belo Horizonte.
CC: Há excesso de funcionários no estado?
MO: O Rio tem falta de funcionários, não excesso. O número de trabalhadores na ativa no serviço público estadual cresceu só 2,5%, entre 2006 e 2014. No período de 2010 a 2014, houve queda de 3,7%. Há escassez de concursos públicos desde o governo Chagas Freitas, na ditadura.
CC: O Ministério da Fazenda diz que o Rio de Janeiro foi a única unidade da Federação a elevar o gasto com pessoal entre 2014 e 2015.
MO: A causa principal foi o crescimento do gasto com inativos, por causa da não renovação dos quadros. O número de engenheiros caiu de 1,2 mil nos anos 1980 para cerca de 400 hoje. Não há nenhum assistente social no quadro de carreira ativo do estado, enquanto a prefeitura do Rio tem 1,2 mil.
A Fundação Ceperj, órgão de estatística e treinamento dos servidores públicos estaduais, tem só um estatístico e um cartógrafo. Houve também reajuste para o pessoal ativo, porque, em 2014, o governo fez planos de carreira com aumentos escalonados por vários anos.
Alerj
A tomada da Assembleia desnudou a gravidade do problema (Wladimir Platonow/Agência Brasil)
CC: Os gastos com pessoal são bem distribuídos?
MO: A despesa per capita com o Legislativo, em 2015, foi de 77 reais no estado do Rio, bem acima dos 29 reais em São Paulo e 56 reais em Minas Gerais. No Judiciário, a diferença se repete, com 239 reais no Rio, 188 em São Paulo e 169 em Minas Gerais.
CC: Quem perde?
MO: Os principais prejudicados são a saúde e a educação. Os gastos com o Legislativo subiram de 1,61% da folha, em 2014, para 3,14%, entre janeiro e agosto deste ano, segundo a Secretaria da Fazenda, e os do Judiciário subiram de 4,61% para 7,14%. As despesas com educação, entretanto, só cresceram de 8,25% para 9,23% e as da saúde tiveram pequena queda, de 6,74% para 6,53%, no mesmo período.
CC: O desbalanceamento tem quais efeitos?
MO: Os piores resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, o Ideb, em 2015, no conjunto das regiões metropolitanas de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, são os de Belford Roxo (4,1), São Gonçalo (4,3) e Queimados (4,4), todos na periferia carioca.
No entorno da cidade de São Paulo, São Caetano do Sul alcançou 7,2 e São Bernardo do Campo, 6,8. As desproporções são grandes também na saúde. O Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal mais baixo no setor, em 2013, foi 0,447, em Japeri, na região metropolitana do Rio. O mais alto, de 0,967, o de São Caetano do Sul, no entorno de São Paulo.
CC: A saúde perdeu mais do que a educação.
MO: Na educação, o gasto é muito concentrado em pessoal. Na saúde, nem tanto, pois é preciso comprar remédio, materiais cirúrgico e hospitalar, as unidades funcionam 24 horas por dia e gastam mais energia elétrica.
CC: Qual é a sua opinião sobre os arrestos determinados pela Justiça em ações de associações de funcionários com salários em atraso?
MO: Um absurdo, uma maluquice. Quando ocorrem, o governo não pode desembolsar nada. Como comprar remédio para hospitais, comida para os presos, insumo para a polícia?
CC: Como funciona a arrecadação?
MO: Há uma lógica injusta e cruel. O ICMS é cobrado tradicionalmente onde ocorreu a produção do bem ou do serviço. No caso da extração e refino do petróleo, a tributação é, no entanto, permitida só no destino onde serão consumidos.
Essa norma foi criada porque a produção estava muito concentrada no Rio, mas subtrai uma receita pública entre 8 bilhões e 10 bilhões de reais. Há outro problema. A extração é feita em alto-mar, gera menos atividade produtiva no entorno em comparação com a exploração em terra.
Aumenta, porém, o PIB do Rio, o que diminui a sua participação no Fundo de Participação dos Estados, distribuído conforme uma regra que procura reduzir as desigualdades. A situação fica ainda mais grave no contexto de queda do preço da commodity e paralisação política e econômica. Atinge em cheio a periferia metropolitana com estrutura produtiva rarefeita, baixa geração de tributos e alta dependência dos royalties.
Restaurante Bangu
O ajuste fechou o restaurante popular de Bangu e outros nove (Jorge Heli/Futura Press)
CC: Como está a arrecadação dos royalties?
MO: Acompanha a queda dos preços e da atividade econômica. Além disso, a Petrobras e as multinacionais do setor se recusam a fazer a atualização periódica dos valores e geram uma perda adicional entre 1 bilhão e 2 bilhões de reais para o estado.
Outro problema é a substituição das encomendas de embarcações e plataformas marítimas daquela estatal à indústria naval local por aquisições no exterior. Metade dos estaleiros do País fica no Rio e eles estão quebrando. Para nossa periferia metropolitana, uma situação dessas é absolutamente dramática.
CC: Houve problemas na concessão de subsídios?
MO: Há situações defensáveis, outras não, mas é preciso abrir os dados, pois as informações disponíveis são contraditórias. Não está entre as causas mais importantes dos problemas.
CC: Qual o papel do governo federal na solução da crise?
MO: O quadro descrito mostra claramente que a saída passa necessariamente pela esfera federal, pois o estado não a superará com seus próprios recursos. A queda da taxa Selic é parte da solução. Sem isso, as receitas públicas não voltarão a aumentar, pois o imposto é pró-cíclico, cresce ou cai com o movimento da economia. São mais de 500 bilhões de reais drenados para os credores da dívida pública por causa dos juros altos.
CC: Como está o ânimo dos funcionários?
MO: O nível de irritação está num grau absurdo. A possibilidade de greve da polícia no réveillon, no Carnaval ou durante o verão é imensa. A segurança pública piora a olhos vistos.
*Entrevista publicada originalmente na edição 929 de CartaCapital, com o título "Triste e pobre Guanabara
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