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segunda-feira, 29 de julho de 2019

Garimpeiros assassinam os povos indígenas em nome dos lucros dos capitalistas



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A política de genocídio dos povos indígenas continua sendo comandada pelas classes dominantes em busca de lucros desumanos.
Gabriela Torres 
Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo.

Foto: Apu Gomes/MídiaNinja

AMAPÁ – Durante esse final de semana, na madrugada de sábado (27), o povo waiãpi foi invadida por garimpeiros na região da Pedra Branca do Amapari no estado do Amapá.
O ataque começou com o assassinato da liderança dos waiãpi: o cacique Emyra Waiãpi, de 68 anos, foi morto por facadas e teve seu corpo jogado no rio. “Ele foi morto a facadas. Várias facadas no corpo dele, inclusive no pênis. Foi muito feio”, testemunhou Viceni Waiãpi, membro e coordenador das aldeias Waiãpi.
Os habitantes descreveram ainda disparos feitos para intimidar e agressões às crianças e mulheres, promovidas por cerca de 50 garimpeiros. A comunidade indígena mantém 1.300 integrantes e reside em uma área que possui aproximadamente 6.000 quilômetros quadrados e é objeto de cobiça das mineradoras.
Os Interesses Econômicos Por Trás da Política de Extermínio
A região que inclui Pedra Branca do Amapari, onde se localiza a aldeia Mariri atacada, foi demarcada durante os anos 90 e abarca 4.6 milhões de hectares de floresta amazônica, tanto do estado do Amapá quanto do estado do Pará. A existência dos povos nativos se consolida ainda mais como empecilho para o interesse das grandes empreiteiras graças à RENCA (Reserva Nacional do Cobre e Associados), um projeto que restringe a atuação empresarial externa com o intuito de tentar defender alguma soberania nacional, criando unidades de conservação integral, reservas indígenas e, portanto, delimitações na extração autorizada de minérios, sendo permitido que apenas os povos originários (que o fazem de forma não predatória) utilizem as riquezas do solo. A delimitação geográfica protegida possui o tamanho do estado do Espírito Santo e abundância em cobre, ferro e ouro.

Foto: Apu Gomes/AFPRESISTÊNCIA – Os povos indígenas resistem assim como a classe operária e os camponeses às políticas genocidas do governo Bolsonaro.

O Governo Federal e a Submissão aos Interesses Econômicos
Em contrapartida com o cenário sangrento dos brasileiros originários, o que a comunidade indígena recebeu como respaldo do Estado brasileiro diante do genocídio dos waiãpis dessa semana foi omissão: após as denúncias, e apesar de um vídeo enviado por Kurani Waiãpi às autoridades alegando “estamos pedindo socorro”, o Ministério Público Federal demorou quatro dias para responder a esse genocídio. A investigação criminal só foi aberta neste domingo (28), e por isso as próprias vítimas tiveram de planejar sua sobrevivência: as mulheres e crianças indígenas tiveram de ser transferidas para a aldeia Aramirá, enquanto os homens mantiveram-se tentando expulsar os garimpeiros.
O atual presidente da república, Jair Bolsonaro, além de não se pronunciar sobre tal atrocidade, é favorável à barbárie promovida com as terras indígenas: fomentando nepotismo, anunciou durante um evento das Forças Armadas que indicaria seu filho Eduardo Bolsonaro para fazer uma aproximação com os Estados Unidos para invadir terras Ianomamis demarcadas: “estou procurando o ‘primeiro mundo’ para explorar essas áreas”, destacou Eduardo.
A defesa feita no governo Bolsonaro é para os banqueiros, ruralistas e garimpeiros, e as empresas mineradoras que patrocinam o assassinato indígena só se preocupam com o abastecimento do comércio exterior e com a proteção da política de subserviência aos Estados Unidos e à China adotada pelo Brasil, e enquanto o protagonismo delas for admitido, o lucro se manterá acima da vida de todos os brasileiros.

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sexta-feira, 5 de junho de 2015

Sem proteção do Estado, indígenas Ka'apor se arriscam para expulsar madeireiros de terras no Maranhão

Sem proteção do Estado, indígenas Ka'apor se arriscam para expulsar madeireiros de terras no Maranhão


Terra dos Ka'apor contém o pouco que resta da Amazônia no estado e sofre constantes invasões para o roubo de árvores; indígenas suspeitam que madeireiros estejam por trás de assassinato de um dos líderes do movimento de resistência
Ruy Sposati

Sem proteção do Estado, indígenas Ka'apor arriscam a vida para expulsar madeireiros da sua terra, no Maranhão  
Eusébio Ka'apor e seu primo viajavam de moto quando foram abordados por dois homens encapuzados e armados em uma encruzilhada. Os indígenas seguiam o caminho de casa, cruzando os povoados que cercam a Terra Indígena Alto Turiaçu, no Maranhão. "Tava chovendo muito, quase escuro", relembra P (os nomes dos indígenas foram ocultados). Ao ouvir os gritos dos pistoleiros, ele resolveu acelerar. “Achei que não ia atirar, mas o cara atirou: tá!”, diz, simulando o som do disparo que atravessou o corpo de Eusébio, na garupa, e pegou de raspão nas costas de P.

A moto percorreu cerca de 80 metros, até que ele caiu. “Tá doendo”, foram algumas das últimas palavras de Eusébio. Ainda vivo, foi carregado até um povoado próximo. P foi então pedir socorro na aldeia Ximborendá. Com M, filho de Eusébio, usaram um caminhão para carregar o corpo, "espirrando sangue", e correram para o hospital no município de Zé Doca. Alguns quilômetros antes de chegar à cidade, o Ka'apor faleceu.

P é a única testemunha da morte de Eusébio. O crime ocorreu no dia 26 de abril, na zona rural do município de Maranhãozinho, a três quilômetros da entrada da aldeia Ximborendá. Na manhã seguinte, na sede da cidade de Zé Doca, seu filho conta que foi abordado por um proprietário de serraria. "Ele disse que já sabia da morte e veio dizer que tinha outras pessoas pra morrer”, relata M. “E ainda reclamou que não consegue mais madeira lá". 
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O madeireiro se referia à terra indígena dos Ka'apor, que sofre constantes invasões para o roubo de árvores. Cansados de esperar pela ajuda do Estado, desde 2013 os índios resolveram colocar a própria vida em risco para expulsar os madeireiros. Eusébio era uma das lideranças deste movimento.  

Essas ações foram batizadas pelos indígenas como “missões”. Sempre dentro de sua terra, eles seguem a trilha dos invasores, tomam seus equipamentos, queimam seus veículos e expulsam os madeireiros, que têm que sair a pé. As trilhas por onde as árvores eram retiradas são fechadas. Os pátios, antes usados como base pelas serrarias, passam a ser ocupados por novas aldeias Ka'apor que levam o nome de Kaar Husak Ha - “áreas protegidas".  

Embora a investigação sobre o assassinato ainda esteja em andamento, são muitos os elementos que levam os indígenas a suspeitar dos madeireiros. Além de terem sido abordados por um proprietário de serraria na manhã seguinte ao crime, outros dois Ka'apor sofreram um atentado parecido: uma semana antes do assassinato, no dia 19, dois indígenas foram abordados por homens encapuzados e armados enquanto andavam de moto. Os pistoleiros tomaram o veículo, espancaram um dos indígenas e ordenaram que corressem para a mata. A poucos quilômetros do local, os agressores dispararam três tiros - um deles, no tanque da moto, que foi deixada na estrada.  

Ex-cacique de Ximborendá, a maior das dezoito aldeias na terra Alto Turiaçu, Eusébio perdera o posto quando os Ka'apor substituíram o cacicado por conselhos gestores. Mas ainda era uma liderança importante. Sua morte assustou os dois mil indígenas que vivem nos 530 mil hectares do território indígena - uma das áreas mais conservadas do Maranhão.  

A sobrevivência dos Ka'apor está diretamente relacionada à floresta. "Nós não dependemos da cidade, nós dependemos da mata. Por isso o nome é Ka'apor: 'nós somos da mata'. E a mata também depende da gente", diz J, outro indígena que falou sob anonimato. Ainda triste pela morte de Eusébio, ele aponta uma castanheira e explica por que as missões não podem parar: "esta árvore já estava aqui antes de eu nascer e antes do meu pai nascer. Por isso que lutamos. Nós podemos morrer, mas nossos filhos sempre vão ter a floresta".
Quem matou Eusébio?
A investigação foi prejudicada pelo fato de a Polícia só ter chegado ao local do crime dias depois, quando a Secretaria de Segurança Pública do estado encarregou uma equipe para investigar o caso. O delegado José Henrique Mesquita trabalha com duas hipóteses: “A primeira é de que alguém está cometendo assaltos na região, e não tem nenhum envolvimento do conflito com os madeireiros. A segunda é de que a morte aconteceu a mando dos madeireiros para amedrontar os indígenas”.  

A primeira linha da investigação, de latrocínio, é a mais difundida pela imprensa local. O histórico de conflitos na região, contudo, corrobora a segunda hipótese. “Esse tipo de ameaça já vinha sendo feita, e o Eusébio era uma das lideranças ameaçadas. É estranho que alguém tenha abordado justamente a motocicleta de uma liderança como ele”, diz o advogado Luiz Antônio Pedrosa, presidente da comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-MA).   
“A gente entende que, a princípio, é um delito relacionado com a situação de conflito local com os madeireiros”, diz o procurador Galtiênio Paulino, do Ministério Público Federal do Maranhão. Ele solicitou que a Polícia Federal investigue o caso, mas a PF respondeu que não deve entrar no caso enquanto as suspeitas de latrocínio não forem descartadas pela Polícia Civil.   
Apesar de não ter ajuda federal, a investigação tem apoio dos próprios indígenas. Primeiros ao chegar ao local do crime, eles acharam um projétil calibre 38 revestido com uma capa de cobre. Pouco comum na região, é similar a outra bala disparada contra os indígenas na semana anterior ao assassinato, dia 19 de abril. Segundo o delegado da Polícia Civil, a coincidência entre os projéteis fortalece a hipótese do assassinato pelos madeireiros.

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Ruy Sposati

Indígenas ka'apor partem da aldeia para a colheita na floresta
Um crime anunciado
O histórico de ameaças e os atentados contra os Ka´apor apontam para outro possível elemento do assassinato de Eusébio: a omissão do Estado. Desde 2008, o Ministério Público Federal pede ajuda de instâncias federais para conter este conflito. Seis anos depois, a Justiça Federal determinou que a Funai apresentasse um plano de fiscalização para a terra indígena e a instalação de postos de segurança fixos, o que ainda não aconteceu.   
A Funai afirma que intensificou as operações contra a extração ilegal de madeira na região nos últimos cinco anos e que “orienta os indígenas a não abordarem os invasores diretamente”. Segundo os Ka'apor, porém, as ações de fiscalização pontuais não funcionam porque os madeireiros voltam depois.   
O diretor de proteção ambiental do Ibama, Luciano de Meneses Evaristo, reconhece os limites das operações e avalia positivamente ações como as dos Ka’apor. "Eles protegem estas áreas. Por que eu tenho hoje um milhão de metros quadrados [preservados em Terras Indígenas]? Por que o índio está lá. Se ele não estivesse lá, já tinha ido" afirma. Mas essa proteção pode custar a vida dos indígenas. As ameaças contra eles aumentaram a partir de dezembro de 2014, depois que os Ka'apor fecharam o último ramal por onde a madeira era retirada da terra indígena. Foi quando um grupo de madeireiros invadiu e queimou plantações de uma aldeia. "Roubaram as roupas, as galinhas, queimaram os barracos, pisaram nos velhos", conta J.   
Ele relembra a dificuldade para registrar o boletim de ocorrência do episódio. "Os policiais viam os parentes todos enfaixados, cabeça com esparadrapo, ombro machucado, mas ninguém queria fazer B.O. Andamos 200 quilômetros, fomos na delegacia do Encruzo [Governador Nunes Freire], de Centro do Guilherme, de Santa Luzia do Paruá, e só diziam que o delegado não estava, que não tinha escrivão". Em fevereiro, indígenas Ka'apor de diferentes aldeias envolvidas nas operações relataram ter sofrido dois ataques semelhantes ao de Eusébio, mas dizem ter “medo de registrar ocorrência por não confiar nos policiais e medo de serem insultados ou agredidos por parentes dos agressores na cidade", segundo documento entregue pela associação indígena Janderuhã ha Ka’a rehe à Secretaria Estadual de Segurança Pública do Maranhão no início de maio.
Em dezembro do último ano, os Ka'apor solicitaram à Secretaria Especial de Direitos Humanos, órgão vinculado à Presidência da República, a inclusão de quatro indígenas no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos. Esse programa dá escolta a lideranças ameaçadas. A secretaria afirma que recebeu o pedido para três indígenas e que aguarda informações do MPF, Funai, PF e do governo do estado para dar prosseguimento à avaliação do caso.
Fronteira verde
As árvores dos Ka'apor são tão cobiçadas porque representam o pouco que resta da Amazônia no Maranhão. Segundo dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), pouco mais da metade do que sobrou da floresta no estado está dentro de Terras Indígenas. Até nos mapas do Google é possível ver como a fronteira Ka'apor coincide com a fronteira de desmatamento: o verde da floresta é mais forte dentro do território indígena, enquanto as áreas do entorno estão desmatadas.   
A simples repressão aos madeireiros, porém, não seria suficiente para sanar o conflito, acredita o procurador federal Alexandre Soares. Para ele, a pressão sobre a floresta é agravada pela falta de outro modelo econômico na região, que dê alternativas de renda aos moradores locais. Até mesmo alguns Ka'apor, antes do início das missões, recorriam ao trabalho em serrarias para sobreviver.   
"Foi antes do nosso despertar”, diz J, que carrega uma certa tristeza no rosto ao lembrar dessa parte de seu passado. “Nós, Ka'apor, estávamos perdendo o tradicional, agora está voltando. Estamos recuperando a floresta e recuperando como nós vivíamos antes".   
Após o assassinato, a pressão sobre eles só aumenta. "Ontem [dia 9 de maio], os madeireiros abriram outro ramal próximo ao que tínhamos fechado na missão", relata o indígena A, que avistou diversos caminhões e tratores dentro da terra indígena. Mas lembra que só será possível avaliar a real intensidade da invasão com o fim das chuvas amazônicas e chegada do período seco, em junho. A tensão pode ganhar contornos trágicos se, até lá, os governos federal, estadual e municipal continuarem deixando os Ka'apor sozinhos na defesa da floresta.


Matéria produzida pelo Repórter Brasil e parte da série Vidas pela Floresta.

sábado, 16 de maio de 2015

John Pilger / Já é tempo de celebrar os heróis reais, como o que acabámos de perder

Já é tempo de celebrar os heróis reais, como o que acabámos de perder


por John Pilger
Kwementyaye Randall.Se quiser encontrar os melhores australianos, encontre homens e mulheres indígenas que entendem este país extraordinário e têm combatido pelos direitos da mais antiga cultura do mundo. A sua é uma luta mais abnegada, heróica e duradoura do que qualquer aventura histórica que australianos não indígenas são incessantemente instados a celebrar.

Sei que isto é verdade porque tenho informado e filmado comunidades indígenas a maior parte da minha vida. Em 1984, encontrei um dos melhores australianos, Kwementyaye Randall.

Kwementyaye Randall foi, como muitos outros, roubado da sua mãe. Ele tinha sete anos quando foi levado e nunca mais viu a sua mãe outra vez. Na verdade, ele sentiu toda a força da brutalidade e duplicidade australiana na maior parte da sua vida; mas combateu-a e elevou-se acima dela. Ele nunca vacilou em confrontar a injustiça imposta sobre o povo indígena. Choro a morte deste velho amigo, um herói real numa nação que ainda tem de descobrir o sentido moral para honrar quem corajosamente se ergueu contra a opressão dentro da Austrália.

Quando entrevistei Kwementyaye para o meu filme, Utopia, em 2012, em Mutitjulu na sombra de Uluru, ele tinha cabelos brancos e um porte distinto, mas ainda tinha o brilho da rebeldia nos seus olhos. Sua balada, "My Brown Skin Baby, They Take 'Im Away", é uma das mais comovedoras canções políticas do nosso tempo. Ele cantou-as para mim quando nos encontrámos pela primeira vez e pude experimentar minha resposta electrizante. Sim, era uma canção triste; era também colérica e dizia que seria um combate até que houvesse justiça.

Sentado à sombra da sua casa mais de 30 anos depois, ele falava eloquentemente acerca do amor e do respeito por esta terra que ele o povo indígena sentiam. Era um educador e um líder natural que ensinava o povo a reclamar a identidade cultural que é a característica única da Austrália.

Mas, sobretudo, Kwementyaye Randall ainda estava colérico e ferido. Ele descreveu vividamente como o exército australiano invadiu sua comunidade em 2007 – "ali eles deitaram abaixo suas tendas, sem perguntarem, pode acreditar: o exército australiano. Estávamos a ser invadidos".

Ele estava a referir-se à chamada "intervenção", quando o primeiro-ministro John Howard enviou o exército a dúzias de comunidades no Território do Norte com base numa grande mentira: que "gangs pedófilas" indígenas estavam a abusar de crianças em "números impensáveis". A seguir, a Comissão Australiana do Crime, a Polícia do Território do Norte e o principal organismo de especialistas médicos da Austrália Central investigaram estas alegações e não descobriram qualquer evidência que as confirmasse.

As palavras "números impensáveis" foram utilizadas pelo ministro de Howard dos Assuntos Indígenas, Mal Brough, no programa ABC Lateline de Tony Jones. Era uma mancha histórica na Austrália Indígena e levou a um sofrimento indizível no Território do Norte – pois comunidade após comunidade era humilhada e aterrorizada por uma forma de malícia burocrática. Auto-mutilações e suicídios quadruplicaram, segundo o próprio organismo governamental de monitoramento; o povo caía no que o relatório denominou "desespero generalizado".

Os media desempenharam um papel crucial em tudo isto, nomeadamente o Lateline, o qual difundiu uma entrevista com uma testemunha encoberta a que o programa chamou de "jovem trabalhador". Ele era, de facto, um alto responsável do Departamento de Assuntos Indígenas que se reportava directamente a Brough. Suas ridículas alegações foram desacreditadas, mas a ABC nunca pediu desculpas – ao invés disso, efectuou um inquérito que se limpava a si própria de um modo fantástico. Pedi tanto a Tony Jones como à repórter Suzanne Smith para relataram por si mesmos diante da câmara – como eles pediam a outros que o fizessem – mas eles nem sequer responderam. Mesmo um funcionário da ABC recusou-se a ser entrevistado.

Uma das vítimas do [programa] Lateline foi Kwementyaye Randall. O programa atacou de emboscada em Melbourne e divulgou a impressão de que ele e outros idosos em Mutitjulu não cumpriram seu dever de cuidar da sua comunidade. É difícil descrever o grau de sofrimento que isto provocou – em Kwementyaye, em outros idosos, em toda a comunidade e nos indígenas por toda a Austrália. Foi esta incapacidade de pedir desculpas, para consertar um erro, que devastou um dos melhores australianos.

Na véspera da morte de Kwementyaye Randall, o [programa] Four Corners divulgou mais do mesmo – desta vez endossando distorções acerca de comunidades na Austrália Ocidental que o deseducado primeiro-ministro Colin Barnett pretende encerrar, transgredindo portanto pelo menos três regras estabelecidas do direito internacional. Amy McQuire demoliu este programa miserável em New Matilda recomendo a leitura do seu artigo .

Vi Kwementyaye Randall pela última vez em Janeiro do ano passado, em lugar de honra entre outros idosos que vieram de toda a Austrália para se juntarem à multidão de mais de 4000 pessoas em The Block, em Redefern, para assistir ao lançamento de "Utopia". Pusemo-nos de pé de braços dados com Rosalie Kunoth-Monks, outra heroína australiana. Estávamos ambos contentes pela enorme multidão de não indígenas e a esperança que isto trazia.

Mas esperança não basta. Kwementyaye Randall sentia profundamente que até ser dita a verdade aos não indígenas da Austrália acerca do seu próprio passado de rapina e que cessassem de encobrir isto com o implacável e dúplice despojamento de australianos indígenas, bem como com a conivente calúnia covarde nos media, não haveria justiça neste país.

No meu filme, Utopia, há uma sequência pouco antes dos créditos finais, na qual soam as palavras pungentes da balada de Glenn Scuthorpe, "No More Whispering". Quando Glenn canta as palavras, "O sorriso que não será esquecido; pode alguma vez desaparecer?", há uma ténue imagem de Kwementyaye Randall, cuja memória nunca desaparecerá. 
15/Maio/2015
O original encontra-se em johnpilger.com/articles/time-to-celebrate-real-heroes-like-the-one-just-lost 

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

sábado, 25 de abril de 2015

John Pilger / A Austrália secreta trava guerra contra o seu próprio povo

A Austrália secreta trava guerra contra o seu próprio povo


por John Pilger
A Austrália mais uma vez declarou guerra à sua população indígena, o que recorda a brutalidade que levou à condenação universal do apartheid na África do Sul. O povo aborígene está a ser afastado das terras ancestrais onde suas comunidades viveram por milhares de ano. Na Austrália Ocidental, onde companhias de mineração ganham lucros de milhares de milhões de dólares a explorar a terra aborígene, o governo estadual diz que já não pode mais "apoiar" as terras ancestrais.

Populações vulneráveis, às quais já são negados os serviços básicos que a maior parte dos australianos consideram normais, estão sob aviso de expropriação (dispossession) sem consulta prévia e de expulsão sob a mira de armas. Ainda mais uma vez, líderes aborígenes advertiram acerca de "uma nova geração de pessoas deslocadas" e de "genocídio cultural".

Genocídio é uma palavra que os australianos odeiam ouvir. O genocídio acontece em outros países, não na sociedade "feliz" que é a segunda mais rica da terra em rendimento per capita. Quando a "lei do genocídio" foi utilizada no memorável relatório de 1997 "Bringing Them Home", o qual revelava que milhares de crianças indígenas haviam sido roubadas das suas comunidades por instituições brancas e abusadas sistematicamente, foi lançada uma campanha de negação por uma clique de extrema-direita à volta do então primeiro-ministro John Howard. Ela incluía aqueles que se auto-denominavam Galatians Group, a seguir Quadrant e depois a Bennelong Society; a imprensa de Murdoch era a sua voz.

A Geração Roubada foi exagerada, disseram eles, se chegou a acontecer de todo. A Austrália Colonial era um lugar afável; não houve massacres. Os Primeiros Australianos foram vítimas da sua própria inferioridade cultural, ou eram nobres selvagens. Eufemismos adequados eram avançados.

O governo do actual primeiro-ministro, Tony Abbott, um conservador fanático, ressuscitou este assalto ao povo que representa o carácter único da Austrália. Logo depois de chegar ao gabinete, o governo de Abbott cortou US$534 milhões nos programas sociais indígenas, incluindo US$160 milhões do seu orçamento de saúde e US$13,4 milhões do apoio legal indígena.

No relatório de 2014 "Indicadores chave para ultrapassar a desvantagem indígena" ("Overcoming Indigenous Disadvantage Key Indicators"), fica clara a devastação. O número de aborígenes hospitalizados por danos infligidos a si próprios saltou, assim como suicídio entre gente tão jovem como 11 anos. Os indicadores mostram um povo empobrecido, traumatizado e abandonado. A leitura do desmascaramento clássico do apartheid na África do Sul, The Discarded People, de Cosmas Desmond, mostrou-me que ele podia escrever um relato semelhante para a Austrália.

Tendo insultado os indígenas australianos ao declarar (no pequeno-almoço do G20 para David Cameron) que antes do homem branco não havia "nada excepto mato", Abbott anunciou que o seu governo deixaria de honrar o antigo compromisso para com terras ancestrais aborígenes. Ele disse com desprezo: "Não é tarefa dos contribuintes subsidiar opções de estilos de vida".

A arma utilizada por Abbott e seu estado brutal, bem como seus equivalentes territoriais, é a expropriação pela violência, propaganda, coerção e chantagem, assim como a sua exigência de um arrendamento por 99 anos da terra indígena no Território do Norte em troca de serviços básicos: uma tomada da terra na plena acepção da palavra. O ministro para Assuntos Indígenas, Nigel Scullion, contesta isto, afirmando que se trata "de comunidades e do que as comunidades querem". De facto, não houve qualquer consulta real, apenas a cooptação de uns poucos.

Tanto os governos conservadores como os trabalhistas já removeram o programa nacional de empregos, CDEP, das terras ancestrais, acabando com oportunidades de emprego, e proibiram o investimento em infraestrutura: habitação, geradores, saneamento básico. A poupança obtida é desprezível.

A razão é uma doutrina extremista que relembra as campanhas punitivas do "protector chefe de aborígenes" nos princípios do século XX, tal como o fanático A.O. Neville o qual decretou que os primeiros australianos fossem "assimilados" ou extintos. A campanha foi influenciada pelo mesmo movimento eugenista que inspirou os nazis, as "leis de protecção" da Queensland foram um modelo para o apartheid sul-africano. Hoje, o mesmo dogma e o mesmo racismo são instilados através da antropologia, da política, da burocracia e dos media. "Nós somos civilizados, eles não são", escreveu há duas gerações o aclamado historiador australiano Russel. O espírito permanece intacto.

Desde a década de 1960 tenho informado acerca das comunidades aborígenes e observo uma rotina sazonal pela qual a elite australiana interrompe seus maus-tratos e desprezo "normais" ao povo original da nação e passa ao ataque sem rodeios. Isto acontece quando se aproxima uma eleição, ou a avaliação de um primeiro-ministro junto à opinião pública anda baixa. Chutar negros (blackfella) é considerado popular, embora a captura à força de terras ricas em minérios através de movimentos furtivos sirva propósitos mais prosaicos. Conduzir pessoas para as favelas à margem dos "centros económicos citadinos" satisfaz a compulsão de engenharia social dos racistas.

O último ataque frontal foi em 2007 quando o primeiro-ministro Howard enviou o exército para dentro de comunidades aborígenes no Território do Norte a fim de "resgatar crianças" as quais, disse o ministro para Assuntos Indígenas, Mal Brough, estavam a ser abusadas por gangs pedófilas em "números impensáveis".

Conhecida como "a intervenção", os media desempenharam um papel vital. Em 2006, o programa nacional de actualidades da TV, o "Lateline" da ABC, divulgou uma entrevista sensacional de um homem cuja cara foi ocultada. Descrito como um "jovem trabalhador" que havia vivido na comunidade aborígene de Mutitjulu, ele fez uma série de alegações chocantes. Posteriormente revelou-se como sendo um alto responsável do governo que se reportava directamente ao ministro, suas afirmações foram desacreditadas pela Comissão Australiana do Crime, pela polícia do Território do Norte e por um relatório condenatório de médicos pediatras. A comunidade não recebeu um pedido de desculpa.

A "intervenção" de 2007 permitiu ao governo federal destruir muitos dos vestígios da auto-determinação do Território do Norte, a única parte da Austrália onde o povo aborígene havia ganho direitos de terra por legislação federal. Ali, eles haviam administrado suas terras ancestrais com a dignidade da auto-determinação e ligação à terra e à cultura – e, como relatou a Amnistia, com uma taxa de mortalidade 40 por cento mais baixa.

É esta "vida tradicional" que é um anátema para uma indústria parasitária branca de funcionários públicos, empreiteiros, advogados e consultores que controlam e muitas vezes lucram com a Austrália Aborígene, ainda que indirectamente através de estruturas corporativas impostas a organizações indígenas. As terras ancestrais são vistas como uma ameaça, pois elas exprimem um comunalismo em divergência com o neoconservadorismo que domina a Austrália. É como se a existência duradoura de um povo que sobreviveu e resistiu a mais de dois séculos de massacre e roubo colonial permanecesse um espectro sobre a Austrália branca: uma recordação de quem é realmente a terra.

O actual ataque político foi lançado pelo estado mais rico, a Austrália Ocidental. Em Outubro último, o primeiro-ministro do estado, Colin Barnett, anunciou que o seu governo não podia arcar com o orçamento de US$90 milhões para serviços básicos municipais a 282 terras ancestrais: água, energia, saneamento básico, escolas, manutenção de estradas, colecta de lixo. Era o equivalente a informar os subúrbios brancos de Perth que os seus irrigadores de relva não funcionariam mais e que as suas casas de banho já não dariam descarga e que tinham de mudar – e se recusassem, a polícia os expulsaria.

Para onde iriam os expropriados? Onde viveriam? Em seis anos, o governo Barnett construiu em áreas remotas algumas casas para indígenas. A região Kimberley, lar ancestral indígena, é uma das mais prósperas de todas, um estado reconhecido por sua riqueza evidente, campos de golfe e prisões super-lotadas com negros empobrecidos. A taxa de aprisionamento de aborígenes da Austrália Ocidental é mais de oito vezes superior à do apartheid na África do Sul. Ali há uma das mais elevadas taxas de encarceramento juvenil do mundo, quase toda constituída por indígenas, incluindo crianças mantidas em confinamento solitário em prisões de adultos, com suas mães a vigiarem do lado de fora.

Em 2013, a antiga ministra das Prisões, Margaret Quirk, contou-me que o estado estava "empilhar em prateleiras" prisioneiros aborígenes. Quando lhe perguntei o que queria dizer, ela respondeu: "É um armazém".

Em Março, Barnett alterou sua história. "Surgiu prova", disse ele, "de pavorosos maus tratamento de crianças pequenas" nas terras ancestrais. Qual a prova? Barnett afirmou que fora descoberta gonorreia em crianças com até 14 anos, a seguir admitiu que não sabia se isto acontecera nas terras ancestrais. Seu comissário de polícia, Karl O'Callaghan, corroborou que o abuso sexual de crianças era "comum". Ele mencionou um relatórios de 15 anos atrás do Australian Institute of Family Studies. O que deixou de dizer era que o estudo destacava a pobreza como a causa esmagadora do "descaso" e que o abuso sexual representava menos de 10 por cento.

O Australian Institute of Health and Welfare, uma agência federal, divulgou recentemente um relatório do que denomina o "Fardo fatal" de doenças e traumas do Terceiro Mundo arcadas pelo povo indígena que "resulta em quase 100 mil anos de vida perdida devido à morte prematura". Este "fardo fatal" é o produto da pobreza extrema imposta na Austrália Ocidental, tal como no resto da Austrália, pela negação de direitos humanos.

Na vasta e rica Austrália Ocidental de Barnett, uma escassa fracção dos rendimentos da mineração, do petróleo e do gás beneficiou comunidades o seu governo tem o dever de cuidar. Na cidade de Roeburne, no auge da mineração na região de Pibara, 80 por cento das crianças indígenas sofriam de uma infecção dos ouvidos chamada otitis media que causa surdez.

Em 2011, o governo Barnett demonstrou uma brutalidade na comunidade de Oombulgurri que as demais terras ancestrais podem aguardar. "Primeiro, o governo fechou os serviços", escreveu Tammy Solonec da Amnistia Internacional, "fechou as lojas, de modo que o povo não podia comprar alimentos nem bens essenciais. Fechou a clínica, de modo que os doentes e idosos tinham de se mudar, e as escolas de modo que famílias com filhos tinham de abandonar ou terem seus filhos delas arrancados. A esquadra de polícia foi o último serviço a fechar e a seguir a electricidade e a água foram desligados. Finalmente, os dez residentes que resolutamente permaneceram até o fim foram expulsos à força e tiveram de abandonar suas posses pessoais. A seguir, os bulldozers arrasaram Oombulgum. O governo da Austrália Ocidental literalmente escavou um buraco e enterrou o entulho das casas das pessoas e seus pertences pessoais".

Na Austrália do Sul, os governos estadual e federal lançaram um ataque semelhante a 60 remotas comunidades indígenas. A Austrália do Sul tem desde há muito estabelecido a Aboriginal Lands Trust, de modo a que as pessoas pudessem defender seus direitos – até certo ponto. Em 12 de Abril, o governo federal ofereceu US$15 milhões ao longo de cinco anos. Que uma soma tão miserável seja considerada suficiente para financiar serviços adequados na grande extensão de lares ancestrais do estado mostra o valor atribuído a vidas indígenas pelos políticos brancos que gastam sem hesitar US$28 milhões por ano em armamentos e tropas. Haydn Bromley, presidente do Aboriginal Lands Trust, contou-me: "Os US$15 milhões não incluíam a maior parte das terras ancestrais e mal cobriam o essencial – electricidade e água. Desenvolvimento da comunidade? Infraestrutura? Esqueça isso".

O actual diversionismo em relação a estes segredos sujos nacionais é abordar as "celebrações" do centenário do desastre militar Edwardiano de Gallipoli , em 1915, quando 8.709 australianos e 2.779 soldados neo-zelandeses – os Anzacs – foram dizimados num fútil assalto a uma praia na Turquia. Nos últimos anos, governos de Canberra promoveram este desperdício imperial de vidas como um feito histórico a fim de mascarar o militarismo subjacente ao papel da Austrália como "vice-xerife" da América no Pacífico.

Nas livrarias, prateleiras de "não ficção australiana" estão cheias de volumes oportunistas acerca acções audaciosas em tempo de guerra, heróis e chauvinismo. Subitamente, o povo aborígene que combateu para o homem branco ficou na moda, ao passo que aqueles que combateram contra o homem branco na defesa do seu próprio país, a Austrália, estão fora da moda. Num país atulhado com memoriais Anzac, não há nem um memorial oficial para os milhares de nativos australianos que combateram e caíram defendendo a sua terra ancestral.

Isto faz parte do "grande silêncio australiano", como o denominou W.E.H. Stanner em 1968 na palestra em que descreveu um "culto do esquecimento a uma escala nacional". Referia-se ao povo indígena. Hoje, o silêncio é omnipresente. Em Sydney, a Art Gallery da Nova Gales do Sul tem actualmente uma exposição, "O fotógrafo e a Austrália", na qual a cronologia temporal deste antigo país começa, incrivelmente, com o Capitão Cook.

O mesmo silêncio encobre outra resistência épica e permanente. Extraordinárias manifestações de mulheres indígenas a protestarem contra a remoção dos seus filhos e netos pelo estado, algumas delas a ponta de bala, são ignoradas pelos jornalistas e patrocinadas pelos políticos. Mais crianças indígenas estão hoje a ser arrancadas dos seus lares e comunidades do que nos piores anos da Geração Roubada. Um recorde de 15 mil crianças está actualmente detida "sob cuidados"; muitas são dadas a famílias brancas e nunca retornarão às suas comunidades.

No ano passado, o ministro da Polícia Australiana Ocidental, Liza Harvey, compareceu a um visionamento em Perth do meu filme, Utopia o qual documentava o racismo e selvajaria da polícia para com australianos negros e as muitas mortes de jovens aborígenes sob custódia. O ministro chorou.

Sob a sua vigilância, 50 polícias armados da cidade de Perth atacaram um campo indígena ancestral em Matagarup e arrebanharam sobretudo mulheres idosas e jovens mães com filhos. As pessoas no campo consideraram-se como "refugiados... à procura de segurança no seu próprio país". Clamaram pela ajuda do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados.

Políticos australianos ficam nervosos com as Nações Unidas. A resposta de Abbott foi o insulto. Quando o Professor James Anaya, o Relator Especial da ONU sobre Povos Indígenas, descreveu o racismo da "intervenção", Abbott disse-lhe para "fazer algo útil" e "não ouvir a antigas vítimas da brigada".

O planeado encerramento de lares ancestrais indígenas infringe o Artigo 5 da Convenção Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial (ICERD) e a Declaração sobre os Direitos dos Povos Indígenas (UNDRIP). A Austrália comprometeu-se a "providenciar mecanismos eficazes para a prevenção de, e reparação para... qualquer acção que tenha o objectivo de expropriar [povos indígenas] das suas terras, territórios e recursos". A Cláusula sobre Direitos Económicos, Sociais e Culturais está embotada. "Expulsões forçadas" são contra a lei.

Uma pressão internacional está a acumular-se. Em 2013, o Papa Francisco instou o mundo a actuar contra o racismo em prol de "povos indígenas que estão cada vez mais isolados e abandonados". Foi o desafio da África do Sul a estes princípios básicos de direitos humanos que desencadeou o opróbrio internacional e a campanha que deitou abaixo o apartheid. A Austrália que tome cuidado. 
22/Abril/2015

O original encontra-se em johnpilger.com/articles/the-secret-country-again-wages-war-on-its-own-people 

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
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