Mostrando postagens com marcador golpe no Brasil. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador golpe no Brasil. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

“Ida de Moro para consultoria americana revela promiscuidade sem limites”,

“Ida de Moro para consultoria americana revela promiscuidade sem limites”, diz Paulo Moreira Leite O colunista Paulo Moreira Leite critica a ida de Sérgio Moro para a consultoria Alvarez & Marsal e aponta conflito de interesses. “Depois de ajudar a quebrar as construtoras, vai atuar em recuperação judicial” 30 de novembro de 2020, 11:05 h Atualizado em 30 de novembro de 2020, 11:44 19 Paulo Moreira Leite e Sérgio Moro Paulo Moreira Leite e Sérgio Moro (Foto: Felipe Gonçalves/Brasil 247 | Marcello Casal Jr/Agência Brasil) Siga o Brasil 247 no Google News Assine a Newsletter 247 247 - O jornalista Paulo Moreira Leite, colunista do Brasil 247 e da TV 247, criticou, no programa Bom Dia 247, a decisão do ex-juiz Sergio Moro de se tornar sócio da consultoria estadunidense Alvarez & Marsal, que atua em processos de recuperação judicial de grandes empresas, como a Odebrecht e a OAS. “Isso revela a promiscuidade sem limites da Lava Jato”, diz PML, que escreveu o livro “A outra história da Lava Jato”. Segundo ele, há um claro conflito de interesses e Moro vai agora atuar na recuperação de empresas que ele próprio ajudou a quebrar. PUBLICIDADE Inscreva-se na TV 247 e confira a fala de PML: por taboolaLinks promovidos Você pode gostar Depois da vida, a história - Renato Aroeira Mistérios do passado que continuam confundindo os cientistas Soolide PASSANDO A VISÃO - Miguel Paiva Com Covid-19, Osmar Terra vai para UTI em Porto Alegre O conhecimento liberta. Saiba mais A você que chegou até aqui, agradecemos muito por valorizar nosso cont

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Djamila Ribeiro / É hora de enfrentamento e resistência



É hora de enfrentamento e resistência

Com o golpe, os grupos historicamente discriminados serão vistos pela ótica do descaso. Não há negociação possível com o governo ilegítimo
por Djamila Ribeiro — publicado 01/09/2016 08h50
Tomaz Silva / Agência Brasil
Protesto
Manifestantes protestam após a morte de jovens negros pela polícia no Rio de Janeiro



Algumas ações do governo interino já sinalizavam retrocessos no campo dos direitos humanos e no que diz respeito a avanços obtidos nos últimos anos para grupos historicamente discriminados.
Independente das críticas que se podem ter ao governo da presidenta Dilma, estamos assistindo a um golpe com cunho machista e misógino. É assustador saber que reivindicações históricas das mulheres seguirão sem visibilidade, e os poucos avanços obtidos cortados.
É necessário perceber a impossibilidade de se dialogar com o governo do golpe. São perspectivas radicalmente diferentes. Se, com todas as falhas do governo Dilma, existiram conquistas para a população negra, como a lei de cotas para o serviço público federal, no governo interino a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial sequer existe mais. Onde antes se dialogava e pensava medidas de inclusão, agora será a perspectiva da aniquilação, da desimportância.
As ações serão no sentido de manter os lugares construídos por uma sociedade machista e racista. Mulheres podendo ser até belas, recatadas e do lar, mas não agentes de mudança e ocupando espaços de poder. Da população negra limpando, mas não sentando nos banco da universidade. Da manutenção das mulheres negras dentro de uma lógica escravista. É como se eles dissessem: “vocês já viram demais”.
Obviamente que ainda existia muito a ser feito pelo governo eleito democraticamente. Mudanças e um olhar mais progressista também se faziam necessários. Mas a luta deve ser pela ampliação dos direitos, e não pela redução. Havia ali a possibilidade da crítica, de apontar os limites, da pressão para um caminho que atendesse as demandas dos movimentos sociais. Ao menos podíamos existir como sujeitos do contraponto.
Após a efetivação do golpe, não nos resta opção a não ser o enfrentamento. Os grupos historicamente discriminados serão vistos pela ótica do descaso. Já sabemos o que esperar. A ação deve ser no sentido da não negociação com a ilegitimidade e do repúdio ao aviltamento a nossa humanidade.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Michel Chossudovsky / A Wall Street por trás do golpe de Estado no Brasil

A Wall Street por trás do golpe de Estado no Brasil


por Michel Chossudovsky
Henrique Meirelles.O controle sobre a política monetária e a reforma macroeconómica era o objectivo final do Golpe de Estado. As nomeações chave do ponto de vista da Wall Street são o Banco Central, o qual domina a política monetária bem como as transacções de divisas estrangeiras, o Ministério das Finanças e o Banco do Brasil.

Por conta da Wall Street e do "Consenso de Washington", o "governo" interino pós-golpe de Michel Temer nomeou um antigo presidente-executivo da Wall Street (com cidadania estado-unidense) para a chefia do Ministério das Finanças.

Henrique de Campos Meirelles, antigo presidente do Fleet Boston Financial's Global Banking (1999-2002) e antigo governador do Banco Central sob a presidência Lula foi nomeado ministro das Finanças em 12 de Maio.

Antecedentes históricos 

A divisa do Brasil sob o Real está fortemente dolarizada. Operações de dívida interna são conducentes à ascensão da dívida externa. A intenção da Wall Street é manter o Brasil num colete de força monetário.

Desde o governo de Fernando Henrique Cardoso, a Wall Street tem exercido controle sobre nomeações económicas chave incluindo o Ministério das Finanças, o Banco do Brasil e o Banco Central. Sob os governo de Fernando Henrique Cardoso e Luís Ignácio da Silva (Lula), as nomeações do governador do Banco Central eram aprovadas pela Wall Street.

Nomeações de Cardoso, Lula e Temer no interesse da Wall Street 

Ilan Goldfein.Arminio Fraga: Presidente do Banco Central (4/Março/1999 – 1/Janeiro/2003),
administrador de hedge fund e associado de George Soros, Quantum Fund, Nova York, cidadania dual Brasil-EUA.

Henrique de Campos Meirelles: Presidente do Banco Central (1/Janeiro/2003 – 1/Janeiro/2011). Cidadania dual Brasil-EUA. Presidente e Executivo-Chefe de Operações do Banco de Boston (1996-99) e presidente do FleetBoston Financial's Global Banking (1999-2004). Em 2004 o FleetBoston fundiu-se com o Bank of America. Antes da fusão com o Bank of America o FleetBoston era o sétimo maior banco dos EUA. O Bank of America é actualmente o segundo maior banco dos EUA.

Depois de ter sido afastado por Dilma em 2010, Meirelles retornou. Ele foi nomeado ministro das Finanças pelo "presidente interino" Michel Temer.

Ilan Goldfajn , economista chefe do Itaú, o maior banco privado brasileiro. Goldfajn [Goldfein] foi nomeado pelo "governo" interino de Michel Temer como governador do Banco Central (16/Maio/2016). Cidadania dual Israel-Brasil.

Goldfajn trabalhara anteriormente no Banco Central sob Armínio Fraga bem como sob Henrique Meirelles. Ele tem laços pessoais estreitos com o Prof. Stanley Fischer, actualmente vice-governador do US Federal Reserve. Não é preciso dizer que a nomeação de Goldfajn foi aprovada pelo FMI, pelo Tesouro dos EUA, pela Wall Street e pela Reserva Federal dos EUA.

Armínio Fraga.Convém notar que Stanley Fischer teve anteriormente o posto de vice-administrador director do FMI e de governador do Banco Central de Israel. Tanto Fischer como Goldfajn são cidadãos israelenses, ligados ao lobby pró Israel.

Nomeado de Dilma Rousseff para o Banco Central, não aprovado pela Wall Street 

Alexandre Antônio Tombini, governador do Banco Central (2011-2016). Carreira oficial no Ministério das Finanças. Cidadania: Brasil

Antecedente histórico 

No princípio de 1999, no seguimento imediato do ataque especulativo contra a divisa nacional do Brasil (Real), o presidente do Banco Central, Professor Francisco Lopes (que fora nomeado na quarta-feira negra de 13/Janeiro/1999) foi demitido imediatamente após e substituído por Armínio Fraga, um cidadão estado-unidense e empregado de George Soros no Quantum Fund em Nova York.

"A raposa foi nomeada como guarda do galinheiro". 

Mais concretamente, especuladores da Wall Street ficaram responsáveis pela política monetária do Brasil.

Sob o governo Lula, Henrique Campos Meirelles foi nomeado presidente do Banco Central do Brasil. Ele actuara anteriormente como presidente e CEO numa maiores instituições financeiras da Wall Street. O FleeBoston era o segundo maior credor do Brasil, após o Citigroup. Para dizer o mínimo, ele tinha um conflito de interesses. Sua nomeação foi acordada antes do acesso de Lula à presidência.

Henrique Meirelles foi um firme apoiante do controverso Plano Cavallo da Argentina na década de 1990: um "plano de estabilização" da Wall Street que infligiu destruição económica e social. A estrutura essencial do Plano Cavallo da Argentina foi replicada no Brasil sob o Plano Real, nomeadamente a imposição de uma divisa nacional dolarizada convertível (o Real). O que este esquema implica é que a dívida interna é transformada numa dívida externa denominada em dólar.

Com o acesso de Dilma à presidência, em 2011, Meirelles não foi reconduzido à presidência do Banco Central.

Soberania em política monetária 

O ministro das Finanças Meirelles, sob o "governo" interino, apoia a assim chamada "independência do Banco Central". A aplicação deste falso conceito implica que o governo não deveria intervir em decisões do Banco Central. Mas não há restrições quanto às "Raposas da Wall Street".

A questão da soberania em política monetária é crucial. O objectivo do golpe de Estado foi negar a soberania do Brasil na formulação da política macroeconómica.

Raposa da Wall Street 

Sob Dilma, a "tradição" de seleccionar uma "raposa da Wall Street" fora abandonada com a designação de Alexandre Antônio Tombini, um funcionário de carreira do governo, que encabeçou o Banco Central do Brasil de 2011 a Maio de 2016.

Com o acesso de Michel Temer a "presidente interino", Henrique Campos Meirelles foi nomeado ministro das Finanças. Por sua vez, Meirelles nomeou seus próprios comparsas para chefiar o Banco Central e o Banco do Brasil. Meirelles foi descrito pelos media dos EUA como "amigo do mercado".

Nomeações económicas de Michel Temer: 

Henrique de Campos Meirelles, ministro das Finanças,
Ilan Golfajn, Presidente do Banco Centrl do Brasil, comparsa nomeado por Meirelles
Paulo Caffarelli, Banco do Brasil, comparsa nomeado por Meirelles

Notas conclusivas 

O que está em causa através de vários mecanismos – incluindo operações de inteligência, manipulação financeira, propaganda nos media – é a desestabilização absoluta da estrutura do estado brasileiro e da economia nacional, não mencionando o empobrecimento em massa do povo brasileiro.

Os EUA não querem tratar ou negociar com um governo soberano reformista e nacionalista. O que querem é um submisso estado proxy dos EUA.

Lula foi "aceitável" porque seguia as instruções da Wall Street e do FMI.

Enquanto a agenda política prevaleceu sob Rousseff, uma agenda reformista-populista era também implementada a qual afastava-se dos fundamentos macroeconómicos patrocinados pela Wall Street durante a presidência Lula. Segundo o director administrador do FMI Heirich Koeller (2003) Lula era o "Nosso melhor presidente":
"Sou entusiasta [da administração Lula]; mas é melhor dizer que estou profundamente impressionado pelo Presidente Lula" ( IMF Press Conference , 2003).
Sob Lula, não havia necessidade de "mudança de regime". Luís Ignácio da Silva havia endossado o "Consenso de Washington".

O afastamento temporário de Henrique Campos Meirelles a seguir à eleição de Dilma Rousseff foi crucial. A Wall Stree não aprovou nomeações de Dilma para o Banco Central e o Ministério das Finanças.

Se Dilma houvesse optado por manter Henrique Meirelles, mais provavelmente o golpe de Estado não teria ocorrido. 

Convém notar que o antigo presidente Lula, o qual tem um relacionamento pessoal estreito com Meirelles, havia recomendado à presidente Dilma que nomeasse Meirelles para a posição de ministro das Finanças como um meio de evitar o seu impeachment.
.
O regime proxy dos EUA em Brasília 

Um antigo presidente de uma das maiores instituições financeiras da América (e cidadão americano) controla as instituições financeiras chave do Brasil e estabelece a agenda macroeconómica e monetária para um país de mais de 200 milhões de habitações.

Isto é chamado um Golpe de Estado... pela Wall Street. 
01/Junho/2016

O original encontra-se em http://www.globalresearch.ca/wall-street-behind-brazil-coup-d-etat/5526715 

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Grande mídia é a caixa de ressonância do golpe, mas Judiciário é o ator principal', diz sociólogo da Unicamp

Grande mídia é a caixa de ressonância do golpe, mas Judiciário é o ator principal', diz sociólogo da Unicamp


Para Laymert Garcia dos Santos, professor do departamento de Sociologia da Unicamp, 'esse golpe é, antes de tudo, jurídico', com o Judiciário liderando estratégia de desestabilização 'em articulação com o Legislativo e com a grande mídia'

Na opinião de Laymert Garcia dos Santos, sociólogo da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), a grande mídia funciona como uma caixa de ressonância do golpe no Brasil, mas o grande ator desse processo é o Poder Judiciário. “Utiliza-se a lei de forma excepcional. Isso implica justamente dizer que o Estado de Direito é suspenso”, explica.
Nesse sentido, segundo Santos, a construção do discurso por meio do próprio Direito, através de apurações seletivas promovidas pela Operação Lava Jato, serviu para criminalizar a esquerda no país. “É justamente aí que entram os meios de comunicação para ganhar a chamada opinião pública. Eles funcionam como uma caixa de ressonância para tornar credível e aceitável uma única versão das coisas”, analisa.  
Eduardo Vernizi / Brasil de Fato

Laymert Garcia dos Santos durante evento dos Advogados pela Democracia em Curitiba
Laymert Garcia dos Santos é Doutor em Ciências da Informação pela Universidade de Paris VII, Mestre em Sociologia das Sociedades Industriais pela Escola de Estudos Avançados em Ciências Sociais (EHESS) e professor titular do departamento de Sociologia do Instituto de Filosofia e  Ciências Humanas da Unicamp. Ele participou no dia 18 de maio de um encontro promovido pelo coletivo Advogados pela Democracia, que reúne juristas, professores e estudantes do Paraná em defesa da legalidade democrática no atual momento político do país.
Em entrevista ao Brasil de Fato, Santos fala sobre o papel do Judiciário como articulador do golpe institucional em curso, da atuação dos grandes meios de comunicação na disputa do discurso sobre os acontecimentos e sobre a potencialidade da internet em construir novas narrativas para a esquerda.
Confira a entrevista:
Brasil de Fato: A leitura dos movimentos populares e de intelectuais progressistas é de que há um tripé que sustenta o golpe institucional contra a presidenta Dilma Rousseff, que envolve uma articulação de setores empresariais, parlamentares e do Judiciário, fomentada pelo apoio da grande mídia. Como o senhor enxerga essa leitura?
Laymert Garcia dos Santos: Eu acredito que a mídia seja muito importante nesse processo como caixa de ressonância de uma estratégia de desestabilização e de golpe. Mas, no meu entendimento, ela não é a cabeça. A cabeça dessa estratégia é o Judiciário, mas em articulação com o Legislativo e com a grande mídia. Então realmente existe este tripé.  A questão é que precisamos colocar muito mais luz sobre o papel do Judiciário, incluindo o Supremo Tribunal Federal, porque se a gente só bate na Rede Globo e nos barões da mídia, e no Congresso, de certa maneira, a gente preserva um ator que foi fundamental nessa história para obter a inteligibilidade do golpe. Esse golpe é, antes de tudo, jurídico.
E que pontos podemos ressaltar nessa atuação do Judiciário?
A articulação se dá utilizando tecnologias jurídicas de um modo dentro da lei, mas ao arrepio da lei, com uma flexibilidade das regras do jogo. Utiliza-se a lei de forma paradoxal – ou para usar uma expressão que eu gosto mais –, de forma excepcional, porque isso implica justamente dizer que o Estado de Direito é suspenso. Então você tem a impressão de que está em um Estado de Direito, mas, na verdade, já está em um Estado de Exceção. E esse foi o papel que o Judiciário cumpriu, tanto o Ministério Público Federal, quanto a operação Lava Jato e o Supremo Tribunal Federal, no sentido de fazer uma apuração seletiva da corrupção e de conseguir, através dessa apuração, criminalizar a esquerda. É justamente aí que entram os meios de comunicação para ganhar a chamada opinião pública. Eles funcionam como uma caixa de ressonância para tornar credível e aceitável uma única versão das coisas. E esse é o jogo que eu vejo como mais importante. Insisto no papel do Judiciário, pois ele está sendo muito poupado nesse processo.
Toda ação coletiva precisa disputar a narrativa que vai dar sentido ou não a uma determinada luta, como no caso das manifestações de rua. Como a esquerda tem se saído nisso?
A esquerda tem tentado disputar e tentado construir outra narrativa além da dominante. Em certo sentido, eu diria que, do ponto de vista das ruas, ela ganhou a batalha. Mas como ela não tem o aparato midiático a seu favor, o fato de ganhar a batalha das ruas não significa que ela ganha a guerra. Mas também há conquistas no discurso. Por exemplo, a palavra “golpe” pegou. No início do processo havia um conflito entre duas concepções, a de “golpe” e a de “impeachment”, e depois disso vimos que a narrativa do golpe foi criando raízes. Nas manifestações, começou a aparecer timidamente o “não vai ter golpe, vai ter luta”, e depois a ênfase maior foi dada ao “vai ter luta”. Então, nós percebemos que, apesar do aparato midiático, a esquerda conseguiu validar ou legitimar que o que está acontecendo é um golpe. A mobilização dos intelectuais e a construção – da qual participei também – de canais de esclarecimento à mídia internacional sobre o que estava acontecendo aqui também foi importante para que essa mídia internacional deixasse de comprar a versão de que se tratava de um impeachment constitucional.
A esquerda sempre se sentiu atacada pelo discurso da grande mídia. Mesmo assim, os governos do PT não levaram adiante a elaboração de um marco regulatório das comunicações no Brasil, nem quiseram rever as concessões públicas da Rede Globo, por exemplo. Como o senhor avalia essa atitude?
Nos anos 1980, quando eu era professor de jornalismo, tínhamos um curso sobre crítica da mídia. Já naquele tempo percebíamos que o PT não queria fazer a crítica da mídia. O PT tinha e mantém uma atitude ambivalente com a grande mídia. De um lado, eles querem ser reconhecidos pela mídia, então quando a mídia acena para eles, eles se derretem. E por outro lado, eles criticam a mídia, mas achando que, se a mídia topar fazer uma “troca de sinais”, não será necessário mexer nesse aparato. E eu penso que um dos pecados capitais dos governos populares foi justamente não ter atacado isso de frente, levando a regulação da mídia como uma questão chave. Então estão pagando um preço muito pesado agora. E não sei se já aprenderam.
Em 2013, houve uma mudança no cenário com as manifestações de junho que passa por uma articulação entre as redes e as ruas, surgindo uma novidade para vários espaços tanto da direita como da esquerda. Essa novidade, essa forma de fazer política, essa relação de massa com a tecnologia, foi apreendida pela esquerda?  
Acredito que sim, de forma diferente de como foi apreendida pela direita. E também acho que de uma maneira mais inteligente. A direita tem a possibilidade – porque tem dinheiro – de lançar trolls [método para desestabilizar a discussão e as pessoas envolvidas] em massa, de utilizar dispositivos na internet de difusão de calúnia, de desinformação, etc. Mas ela não tem inventividade de usar a potência dos meios, e a capacidade caritativa, pois tem um discurso muito fechado, monolítico e de pura violência. Ela funciona na base da intimidação e da mentira. Se pegarmos a desconstrução do discurso da direita pela esquerda na internet, perceberemos que é muito mais inteligente o uso da potência dos meios pela esquerda do que pela direita, o que me faz ter mais raiva ainda dos governos populares e do PT por não ter sabido avançar na questão das mídias.
O senhor se negou a escrever um artigo para o jornal O Estado de S.Paulo nas vésperas da votação do impeachment na Câmara dos Deputados. Por quê? Disputar um espaço para uma opinião contrária à linha editorial de um grande veículo não é uma forma interessante de ganhar visibilidade?
Eu acho que essa atitude é necessária. Os grandes jornais sempre contaram com uma espécie de compreensão e leniência dos intelectuais que, de um lado, queriam aparecer na mídia e, de outro, se prestavam ao papel de fazer o pequeno contraponto. Jornais como o Estado de S. Paulo e a Folha de S.Paulo são 95% golpistas e ouvem 5% do outro lado, e você se presta ao álibi dele.  Muito antes de começar essa história do golpe eu já não escrevia mais para a chamada grande imprensa e muitas vezes recusei entrevistas de televisão. Depois da questão do golpe, acredito que aceitar as condições deles é absolutamente impossível.  
Temos saída para a construção de um discurso alternativo pela Internet?
A internet abriu uma possibilidade para nós de construir um discurso que vai bater de frente com o discurso da grande mídia. Mais do que brigar com eles, é importante brigar pela democratização radical da banda larga, pela alfabetização informacional da população inteira, porque aí é possível construir canais para que a própria população construa sua informação e encontre a informação a partir do lugar onde estão. Se acontecer isso, vai ser inevitável as pessoas se desconectarem da Globo, pois verão que ela [emissora] está sendo sacana com elas.

* Anderson Marcos dos Santos é Doutor em sociologia pela Unicamp, mestre em direito pela UFPR e professor de direito da Universidade Positivo.
Entrevista publicada originalmente no site Brasil de Fato

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Diário Liberdade / 'Por Deus, minha família e meu dinheiro' ,sim...

stf congressoBrasil - Inquietude Geral - O que esperar da bancada BBB (Bíblia, Boi, Bala) na Câmara Federal? Nada e tudo! A sociedade cada vez mais espetacularizada pelos barões da mídia com teatros do absurdo e de vampiros sanguessugas: os “representantes do povo” atuando em favor da família (as suas próprias, claro), de Deus e dos amigos (quadrilhas de assalto aos cofres públicos, claro), todos, no entanto, unidos “contra a corrupção”! Manifestavam-se assim os crápulas, os proponentes da perfídia, os achacadores, os oportunistas de camarote, enfim todas as hienas representando contra o PT.

O que vimos neste último domingo, longe de ser uma aberração ou um “circo de horrores” como muitos afirmaram, é o retrato mais fiel da “democracia dos ricos” – e sem retoque no photoshop! Talvez tenha chocado alguns incautos defensores da democracia em geral, mas é o suprassumo da “realidade política” a qual estamos submetidos e que permeia nossos “probos mandatários”. O sistema e o regime corrupto somente poderia gerar todo aquele espetáculo dantesco no Congresso, está na “alma” do capitalismo que a cada dia gera mais e mais indigentes intelectuais e escroques políticos com no máximo dois neurônios na "defesa do povo" brasileiro. O fascismo destrói a política e assassina a gramática!
O “pacto oligárquico” consumado desde o primeiro mandato de Lula no Planalto soçobrou em oceano de águas turvas, atiçadas por ventos que sopram do norte. Ou seja, a recuperação (da bolha especulativa) econômica dos Estados Unidos após a grande recessão de 2008 provocou uma superdesvalorização das commodities, principalmente do petróleo, o que fez desabar as economias dos BRICS, por sobre cujas raízes assentara-se fugazmente o “superávit” brasileiro. Banqueiros, latifundiários (agronegócio), ricaços como Eike Batista e até a mídia corporativa estavam ganhando a custa do governo do PT e do Tesouro Nacional. Mas toda farra tem um custo! O dinheiro acaba um dia e chega a conta... Dívida pública, falência dos estados, alta dos juros, desemprego em massa. A burguesia demanda mudanças estruturais, como fim dos benefícios sociais, privatização da previdência, isenções, maiores subsídios estatais, ajustes fiscais não com a velocidade com que a frente popular estava implementando, mas em curto prazo, de lampejo e de bandeja. Para se chegar a este ponto, foi necessária a destruição das forças produtivas do país, paralisar todos os investimentos em infraestrutura. Papel desempenhado com desenvoltura pela “crash wash” do midiático tucano Moro ao lado de seus consortes do Ministério Público e STF que criam novas jurisprudências golpistas a seu bel-prazer. Em resumo, a “governabilidade” edificada pela frente popular ruiu, tomando o seu lugar os bandidos de toga e seu braço armado a PF.
FRACASSO DA CONCILIAÇÃO DE CLASSES DO LULISMO
Em questão, portanto, está o completo fracasso do projeto lulista de uma socialdemocracia tupiniquim cimentada em acordos com a classe dominante e oligarquias regionais (Joaquim Levy, Sarney, Katia Abreu, Michel Temer, Collor, Maluf e toda escória de fisiologistas...). Mais uma vez está provado que a prática da conciliação de classes sempre conduzirá a tragédias políticas, representadas pela conspiração aberta e descarada do vice-presidente. O PT é um bagaço de laranja chupado e jogado fora: após todos os corruptos e larápios terem se saciado, agora o cospem enojados. A “democracia” no Brasil espelha a podridão do regime político. O pus cancerígeno fez sua metástase no Congresso Nacional com todo seu reacionarismo.
Outro “espetáculo” está por vir no Senado, outras 72 horas de transmissões televisivas reverenciando nossos “representantes” fantoches e seus discursos bizantinos. Qual será a nova senha para receber as malas de dinheiro? Na Câmara foi “deus e a família”. Mas quem são os titeriteiros das marionetes?
Eles estão nas mãos dos industriais da Fiesp, Firjan e CNI; os empresários das associações comerciais e Fecomércio; os ruralistas da CNA, SRB e ABAG; os capitalistas dos oligopólios de comunicação, proprietários do Estadão, Folha, Globo, Abril, etc. Ou seja, a fonte da corrupção, a qual é tomada inversamente como “vítimas” do PT pelo PIG. Estes setores deram vazão à “nova direita” surgida após as manifestações de junho de 2013, alimentando toda sorte de imbecis e fascistas num Congresso em que dos 511 deputados somente 36 elegeram-se por suas próprias forças. Daí o “altíssimo nível”...
TRANSFERÊNCIA DA RIQUEZA PÚBLICA PARA OS GRANDES CAPITALISTAS
A burguesia pleiteia pela transferência de fundos públicos diretamente para seus bolsos através do “ajuste fiscal”, redução e restrição a pensões e ao seguro desemprego. O capital exige “austeridade”, neste sentido. Dilma em sua vereda direitista não teve cacife para atender estes reclames rentistas. Além disso, o PT, após diversas manifestações de massas não tem demonstrado ser confiável no controle social no país. Para a burguesia e o imperialismo o modelo petista está esgotado como meio de contenção de massas.
E ainda há quem defenda que este congresso de carrapatos convoque “eleições gerais” para postular o mafioso Moro para ocupar a cadeira do Planalto e, acredite, uma “assembleia constituinte livre e soberana” para instaurar no mínimo uma... teocracia evangélica!! Em que mundo da constelação onírica-delirante vivem?
A derrota do PT no plenário da Câmara e, certamente, no Senado não está balizado por nenhuma tendência progressista das forças sociais que compõem os agentes golpistas pró-impeachment; nem constitui uma via de superação ao governo neoliberal do PT. Antes de mais nada, este golpe institucional é uma séria derrota popular perante a ascendente direita mais encardida no país – há pouco base aliada de Dilma/Lula - que faz livremente proselitismo a torturadores e à ditadura militar assassina e nada sofre em termos de punição. Os “senhores” deputados foram as peças de um xadrez bem mais complexo no extenso jogo do poder que passa pela “Lava Jato”, Operação Zelotes, escândalo do HSBC, os “Panama papers”, a entrega do pré-sal às transnacionais, Trensalão, Merendão, Banestadão... que tem por finalidade um grande acordo nacional para salvar as grandes corporações e manter inabalável a corrupção capitalista, “pela graça de deus e da família”!

Diário Liberdade é um projeto sem fins lucrativos, mas cuja atividade gera uns gastos fixos importantes em hosting, domínios, manutençom e programaçom. Com a tua ajuda, poderemos manter o projeto livre e fazê-lo crescer em conteúdos e funcionalidades.
Microdoaçom de 3 euro:

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Pepe Escobar / Guerra híbrida das hienas dilacera o Brasil

Guerra híbrida das hienas dilacera o Brasil


por Pepe Escobar [*]
Cartoon de Latuff, golpe para a mudança de regime.A sombria e repulsiva noite em que a presidente da 7ª maior economia do mundo foi a vítima escolhida para um linchamento de hienas num insípido e provinciano Circo Máximo viverá para sempre na infâmia.

Por 367 votos a favor e 137 contra, o impeachment/ golpe/ mudança de regime contra Dilma Rousseff foi aprovado pelo circo parlamentar brasileiro e agora irá para o Senado, onde uma "comissão especial" será instituída. Se este for aprovado, Rousseff será então marginalizada durante 180 dias e um ordinário Brutus tropical, o vice-presidente Michel Temer, ascenderá ao poder até o veredicto final do Senado.

Esta farsa desprezível deveria servir como um alerta não só para os BRICS como também para todo o Sul Global. Quem é que precisa de NATO, R2P ("responsability to protect") ou"rebeldes moderados" quando pode obter a sua mudança de regime apenas com o ajustamento do sistema político/judicial de um país?

O Supremo Tribunal brasileiro não analisou o mérito da questão – pelo menos ainda não. Não há qualquer evidência sólida de que Rousseff tenha cometido um "crime de responsabilidade". Ela fez o que todo presidente americano desde Reagan tem feito – para não mencionar líderes de todo o mundo: juntamente com o seu vice-presidente, o desprezível Brutus, Rousseff foi ligeiramente criativa com os números do orçamento federal.

O golpe foi patrocinado por um vigarista certificado, o presidente da câmara baixa Eduardo Cunha, confirmadamente possuidor de várias contas ilegais na Suíça, listado nos Panama Papers e sob investigação pelo Supremo Tribunal. Ao invés de reger hienas quase analfabetas num circo racista, em grande medida cripto-fascista, ele deveria estar atrás das grades. Custa a crer que o Supremo Tribunal não tenha lançado acção legal contra Cunha. O segredo do seu poder sobre o circo é um gigantesco esquema de corrupção que perdura há muitos anos, caracterizado pelas contribuições corporativas para o financiamento das suas campanhas e de outros.

E aqui está a beleza de uma mudança de regime light, uma revolução colorida da Guerra Híbrida, quando encenada numa nação tão dinamicamente criativa como o Brasil. A galeria de espelhos produz um simulacro político que teria levado descontrucionistas como Jean Braudrillard e Umberto Eco, se vivos fossem, a ficarem verdes de inveja. Um Congresso atulhado com palhaços/tolos/traidores/vigaristas, alguns dos quais já estão a ser investigados por corrupção, conspirou para depor uma presidente que não está sob qualquer investigação formal de corrupção – e que não cometeu qualquer "crime de responsabilidade". 

A restauração neoliberal 

Ainda assim, sem um voto popuplar, os maciçamente rejeitados gémeos Brutus tropicais, Temer e Cunha, descobrirão que é impossível governar, muito embora eles encarnassem perfeitamente o projecto das imensamente arrogantes e ignorantes elites brasileiras. Um triunfo neoliberal, com a "democracia" brasileira espezinhada abaixo do chão.

É impossível entender o que aconteceu no Circo Máximo neste domingo sem saber que há um rebanho de partidos políticos brasileiros que está gravemente ameaçado pelos vazamentos ininterruptos da investigação de corrupção Lava Jacto. Para assegurar a sua sobrevivência, a Lava Jacto deve ser "suspensa"; e isto será feito sob a falsa"unidade nacional" proposta pelo desprezível Brutus Temer.

Mas antes a Lava Jacto deve produzir um escalpe ostensivo. E este tem de ser Lula na prisão – comparado ao qual a crucificação de Rousseff é uma fábula de Esopo. Os media corporativos, conduzidos pelo venenoso império Globo, saudariam isto como a vitória final e ninguém se preocuparia com a aposentadoria da [investigação] Lava Jacto.

Os mais de 54 milhões que em 2014 votaram pela reeleição de Roussef votaram errado. O "projecto" global é um governo sem voto e sem povo; um sistema parlamentar de estilo brasileiro, sem aborrecimentos com "eleições"incómodas e, crucialmente, incluindo campanhas de financiamento muito "generosas" e flexibilidade que não obrigue a incriminar companhias/corporações poderosas.

Em resumo, o objectivo final é "alinhar" perfeitamente os interesses do Executivo, Legislativo, Judiciário e media corporativos. A democracia é para otários. As elites brasileiras que fazem o controle remoto das hienas sabem muito bem que se Lula concorrer outra vez em 2018 vencerá. E Lula já advertiu; ele não endossará qualquer "unidade nacional" sem sentido; estará de volta às ruas a combater qualquer governo ilegítimo que surja.

Agora estamos abertos à pilhagem 

No pé em que está, Rousseff corre o risco de se tornar a primeira grande baixa da investigação Lava Jacto, com origem na NSA , que perdura há dois anos. A presidente, reconhecidamente uma gestora económica incompetente e sem as qualificações de um político mestre, acreditou que a Lava Jacto – a qual praticamente impediu-a de governar – não a atingiria porque ela é pessoalmente honesta. Mas a agenda não tão oculta da Lava Jacto foi sempre a mudança de regime. Quem se importa se no processo o país for deixado à beira de ser controlado exactamente por muitos daqueles acusados pela iniciativa anti-corrupção?

O desprezível Brutus Temer – uma versão fútil de Macri da Argentina – é a conduta perfeita para a implementação da mudança de regime. Ele representa o poderoso lobby bancário, o poderoso lobby do agronegócio e a poderosa federação de indústrias do líder económico do Brasil, o estado de São Paulo.

O projecto neo-desenvolvimentista para a América Latina – pelo menos unindo algumas das elites locais, investindo no desenvolvimento de mercados internos, em associação com as classes trabalhadoras – agora está morto, porque o que pode ser definido como capitalismo sub-hegemónico, ou periférico, está atolado na crise após a derrocada de 2008 provocada pela Wall Street. O que resta é apenas restauração neoliberal, a TINA ("there is no alternative"). Isto implica, no caso brasileiro, a reversão selvagem do legado de Lula, políticas sociais, políticas tecnológicas, o impulso para expandir globalmente grandes companhias brasileiras competitivas, mais universidades públicas, melhores salários.

Numa mensagem à nação, Brutus Temer admitiu isto; a "esperança" de que o pós o impeachment será absolutamente excelente para o "investimento estrangeiro", pois lhe permitirá pilhar a colónia à vontade; um retorno à tradição histórica do Brasil desde 1500.

De modo que a Wall Street, o Big Oil dos EUA e os proverbiais "American interests" vencem este round no circo – graças às, mais uma vez proverbiais, elites vassalas/compradoras. Executivos da Chevron já estão a salivar com a perspectiva de porem as mãos nas reservas de petróleo do pré sal; que já foram prometidas por um vassalo confiável na oposição brasileira.

O golpe continua. As hienas reais ainda não atacaram. De modo que isto está longe de ter terminado. 
19/Abril/2016

NR: Ao publicar um artigo resistir.info não está necessariamente a corroborar todo o seu conteúdo. 

Ver também: 
  • O xadrez do dia da ressaca e a geopolítica mundial

    [*] Autor de Globalistan (2007), Red Zone Blues (2007), Obama does Globalistan (2009) e Empire of Chaos(2014) e 2030 (2015).   Seu mais recente projecto editorial é http://newsbud.com .

    O original encontra-se em www.rt.com/op-edge/340207-rousseff-brazil-impeachment-regime/ 


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
  • terça-feira, 19 de abril de 2016

    Saul Leblon / Os antecedentes da tormenta indicam por onde recomeçar

    Os antecedentes da tormenta indicam por onde recomeçar

    por Saul Leblon [*]
    Cartoon de LatuffUm golpe não começa na véspera; tampouco tem desdobramentos plenamente identificáveis na manhã seguinte.

    Uma derrota progressista pode ser devastadora para o destino de uma nação, a sorte do seu povo e a qualidade do seu desenvolvimento.

    Mas a resistência que engendra pode inaugurar um novo marco de consciência política.

    Pode redefinir a correlação de forças, as formas de luta e de organização e coloca-las num patamar mais avançado, mas não menos abrangente.

    Apesar dos votos dedicados à família, a Deus e até a um torturador – Bolsonaro ofereceu sua escolha a Brilhante Ustra e ao golpe de 64 – a transparência da história pulsou forte no Brasil nesta noite de 17 de abril de 2016.

    Guardadas sóbrias exceções, os que condenaram Dilma filiam-se a agendas e valores imiscíveis com o mapa histórico que desponta da Revolução Francesa e fez dos direitos sociais universais o guia generoso e libertário da humanidade.

    A violência conservadora, como ocorre em todos os golpes contra governos progressistas, apunhalou a democracia para atingir o interesse popular.

    Mais adiante tentará aleijar a soberania nacional descartando-a como anacronismo populista.

    A ética, a responsabilidade fiscal, serviram de guarnição das aparências.

    O golpe nasceu de um ménage à trois entre a escória liderada por Cunha, o ódio inoculado pela mídia na classe média e o plano de arrocho e entreguismo do PSDB

    O cinismo foi o grande vencedor da jornada triste que banhou o país de lufadas adicionais de incerteza e turbulência.

    Votos decisivos ao impeachment 'por irresponsabilidade fiscal da Presidenta da República' vieram das bancadas – inclua-se a do PSDB – que patrocinaram as pautas bombas, estas sim suficientes para quebrar a nação.

    E não é necessário desfiar o prontuário completo do operador Eduardo Cunha, para adicionar ao cinismo a hipocrisia.

    Hipócritas de punhos de renda – jornalistas, políticos, intelectuais, ministros do STF – assistiram a todo esse processo emprestando pertinência formal ao estupro coletivo da democracia na arena das bestas-feras.

    Por mérito, a cusparada histórica do deputado Jean Wyllys num fascista que o insultara – e que homenagearia um torturador e o golpe de 64 no seu voto pela derrubada da Presidenta Dilma –, deveria ser estendida aos demais protagonistas do espetáculo degradante.

    Entre eles, certamente a mídia.

    Coube a ela amalgamar o movimento regressivo de longas raízes históricas que se prepara agora – afastado o obstáculo inicial – para assaltar a Constituição Cidadã naquilo que ela fez de melhor: legitimar os direitos sociais reprimidos pela ditadura 24 anos antes da sua promulgação, em novembro de 1988.

    Faz parte do jogo de espelhos que Temer jure fidelidade ao Bolsa Família, a exemplo do que já prometera ao mandato de Dilma, pouco meses atrás.

    O fato é que os acontecimentos em marcha vieram reafirmar a rigidez da fronteira onde acaba a tolerância do dinheiro e do mercado com o projeto de construção de uma sociedade mais justa na oitava maior economia do planeta e principal referência da  luta pelo desenvolvimento no mundo ocidental.

    'A democracia prometeu mais do que o capitalismo está disposto a conceder', martela diuturnamente o jogral midiático, em todo o ciclo iniciado em 2002.

    O alvo são os direitos sociais abrigados na Carta de 1988, que o PT criticou na origem pelas suas limitações (a questão agrária, uma das mais graves), mas da qual se fez o mais fiel guardião quando chegou ao poder.

    O mercado entendeu que a crise econômica global – diante da qual o governo esgotou os sistemas de contrapesos fiscais do país – abriu a oportunidade para um acerto de contas com o 'populismo constituinte de 1988'.

    A frente golpista uniu a escória política, a mídia, o dinheiro grosso local e internacional e os sem voto num pacto feito de sistemas de compensações complementares.

    Esse que agora se desenha abusadamente aos olhos da sociedade e com a cumplicidade do jornalismo da indignação seletiva.

    Cunha terá sua anistia, em troca de devolver o poder pleno ao mercado, via corrupção política da qual se acusa o PT.

    O PSDB volta ao poder sem precisar se submeter à urna.

    O STF, depois de se acoelhar de forma indecente na preservação do livre movimento de Cunha, poderá falar grosso com Moro, e assim encerrar a Lava Jato.

    A Chevron e a Shell terão o pré-sal prometido por Serra e pelo PSDB; a Globo renovará sua concessão facilmente a partir de 2018...

    Vai por aí a engrenagem posta em funcionamento, a partir deste domingo.

    O ciclo em que o golpismo tratará a democracia social como um estorvo está longe de se encerrar com a conclusão do processo do impeachment.

    A lambança golpista, por mais que gere uma euforia imediata nos mercados especulativos, não resolverá as grandes pendências nacionais, emolduradas por um pano de fundo desafiador.

    O mundo vive a mais longa, incerta e frágil convalescença [NR] de uma crise capitalista desde 1929.

    Tudo o que foi subtraído do Estado e do trabalho no período anterior à explosão as subprimes, em 2008 – regulações, direitos, soberania etc – mostra agora a sua falta.

    Desprovida de alavancas contracíclicas a economia global não decola e agora arrasta as nações em desenvolvimento para o ralo corrosivo da estagnação.

    Sobram paradoxos.

    O da superprodução de capital fictício, em metástase especulativa, o mais evidente deles.

    Seu contraponto histórico é a anemia do investimento e do emprego urbi et orbi.

    Ficções de livre comércio rondam esse cenário como a panaceia recorrente dos carrascos de direitos sociais.

    Acordos de livre comércio – como o acalentado pelos gurus econômicos do golpe – em condições de contração sistêmica, como é o caso, formam um jogo de soma zero, que apenas transfere demanda de um ponto a outro. No caso, a gula persegue o mercado de massa brasileiro que, sozinho, tem escala e densidade para integrar o G 20.

    Nessa voçoroca da soberania, o emprego gerado numa economia é a vaga subtraída na outra.

    Igual circularidade se observa no deslocamento dos passivos do setor privado para o Estado, após um longo ciclo de farra financeira.

    O setor privado 'ajustou-se', diz o colunismo abestalhado de toxina neoliberal.

    Omite-se que o ônus foi transferido aos governos.

    Fala-se pelos cotovelos da gastança fiscal petista. Oculta-se que a relação dívida pública/PIB nas economias mais ricas saltou de 78% para 105% desde 2008.

    Em contrapartida, a participação dos salários no PIB global recuou:  hoje é 10% inferior à média dos anos 80.

    Esse torniquete estreitou sobremaneira a margem de manobra de políticas associadas a projetos de desenvolvimento com repartição de renda, como os implementados na América Latina.

    O Brasil é o caso mais exposto porque foi justamente quem chegou mais longe nesse processo.

    Como atesta o Banco Mundial, a pobreza extrema no Brasil caiu 64% entre 2001 e 2013, passando de 13,6% para 4,9% da população.

    Nada igual ocorreu na América Latina.

    Atingido pela queda nos preços e no volume embarcado de minérios e grãos, o país sofreu também com a retração nas exportações de manufaturados (adicionalmente solapadas pelo câmbio desastrosamente valorizado), antes vendidos a parceiros latino-americanos, em idêntico apuro.

    É nessa moldura que a coalizão conservadora lançou-se ao golpe de Estado. Com determinação virulenta e bem sucedida, como se vê.

    Entre outras razões, porque conseguiu impor o seu diagnóstico e a sua pauta como referência dominante do debate sobre a crise aqui e no resto do sistema capitalista.

    Sim, não é propriamente uma surpresa que as ideias dominantes de uma época sejam as ideias das classes dominantes.

    Desde 1846, quando Marx e Engels assentaram seu vigamento filosófico nas páginas de 'A ideologia alemã', o peso material das ideias ganhou o devido destaque na luta de classes.

    Mas no Brasil esse poder de agendamento tornou-se asfixiante

    Para um conservadorismo derrotado quatro vezes consecutivas pelo voto popular nas disputas presidenciais desde 2002, tornou-se a ferramenta decisiva na desconstrução de um adversário que não se guarneceu para enfrentamento equivalente.

    Pior que isso, subestimou a sua importância.

    A bordo de um economicismo conveniente, delegou-se às gondolas do supermercado a tarefa de traduzir avanços sociais e econômicos do período em mudança na correlação de forças.

    Nesse oco político o golpismo encontrou o espaço para um recadastramento histórico.

    Recuperar o tempo e o poder perdidos convoca o desassombro e a convergência progressista.

    O episódio das ditas pedaladas evidenciou essa dificuldade de se defender do algoz, sem romper com o círculo de giz que ele traçara no chão.

    Por que o governo hesitou tanto em convocar imediatamente uma rede nacional, para explicar o que as ditas 'pedaladas' representavam de fato?

    Ou seja, que a Caixa quitou programas sociais em dia, sendo ressarcida em seguida – sem alterar o orçamento, portanto.

    Por que o governo não escancarou imediatamente o golpismo intrínseco à 'escandalização' da operação contábil corriqueira, com fins sociais irrepreensíveis? E por que temeu confronta-la, por exemplo, com a derrama dos juros (8% do PIB) sobre o cofre do Estado – escândalo que nenhum advogado do ajuste fiscal argui?

    Em 757 dias úteis, até o final de 2014, o saldo do Bolsa Família na CEF [Caixa Económica Federal] só ficou negativo em 72 dias. O pagamento de juros aos rentistas da dívida pública, no entanto, drenou o equivalente a mais de 15% do PIB nesse período, deslocando recurso fiscal escasso para os cofres abarrotados da pátria financeira.

    Os que golpearam Dilma 'em nome do povo' neste domingo, avocariam esse mandato se o povo verdadeiro tivesse sido conscientizado das disputas fiscais efetivas no caixa da República?

    'Governo é metade realizações, metade ideia. Por muito que fizer, um governo que não trava a luta das ideias, sempre figurará aos olhos da sociedade com quem fez muito pouco', lembrou em recente viagem ao Brasil, o vice presidente da Bolívia, Álvaro García Linera

    A negligência com a luta das ideias foi a tônica nos últimos 12 anos de avanços notáveis no plano social que, todavia, não se traduziram em engajamento político correspondente de seus beneficiários.

    A democracia, portanto, não se tonificou de novos protagonistas organizados e de novos canais de participação. Manteve-se refém de um Congresso capaz de produzir e legitimar um déspota como Eduardo Cunha – a quem coube, afinal, fazer o ajuste entre as duas realidades.

    O economista Márcio Pochmann enxergou pioneiramente os riscos implícitos na assimetria entre avanços econômicos e sociais desprovidos do respectivo cimento organizativo e ideológico.

    'Cerca de 22 milhões de trabalhadores ascenderam socialmente, desde 2003,' lembrava ele já em 2013, 'mas não houve mudança na taxa de sindicalização no país: de cada dez destes trabalhadores, só dois se filiaram a algum sindicato. O mesmo aconteceu com os estudantes beneficiados pelos programas do governo federal e com os beneficiários do Minha Casa, Minha Vida', espetou na sua lista dos antecedentes da tormenta, que por fim eclodiria já na campanha de 2014, ainda assim subestimada.

    Marilena Chauí – já se observou neste espaço – que sempre atuou na contracorrente da rendição ideológica dos últimos anos, ensina que "a ideologia é o processo pelo qual as ideias da classe dominante se tornam ideias de todas as classes sociais"

    'Esse fenômeno', diz a filósofa, 'de manutenção (adoção) das ideias dominantes, mesmo quando se está lutando contra a classe dominante, é o aspecto fundamental daquilo que Gramsci denomina de hegemonia, ou o poder espiritual da classe dominante'.

    Por isso ele dizia que, sublinha a professora, se num determinado momento os trabalhadores de um país precisam lutar usando a bandeira do nacionalismo, por exemplo, a primeira coisa a fazer é redefinir toda a ideia de nação (...) e elaborar uma ideia do nacional que seja idêntica à de popular. 

    'Precisam, portanto, contrapor, à ideia dominante de nação, uma outra, popular, que negue a primeira', sintetiza Chauí.

    O ciclo golpeado neste domingo esteve longe de proceder a essa mutação.

    Está claro que um sistema político que fica refém de Cunha e de sua matilha precisa ser revitalizado com maior participação social.

    Se quiser implodir a resiliência golpista,  as forças progressistas terão que se atirar de forma unida no debate das ideias para dota-las de um projeto com peso material  capaz de impulsionar o passo seguinte da luta por democracia, igualdade e desenvolvimento no país.

    Se o fizer, a derrota deste domingo poderá ser revertida muito mais cedo do que supõe a histeria de um golpismo eufórico, mas incapaz de oferecer respostas aos brasileiros, que não a trágica aposta dobrada em um neoliberalismo mundialmente despedaçado. 
    18/Abril/2016

    [NR] A opinião é do autor. Resistir.info considera que não está em "convalescença" e sim no início de uma depressão. 

    Ver também: 
  • Porque o senador Aloysio Nunes foi a Washington um dia depois da votação do impeachment?

    [*] Jornalista.

    O original encontra-se em cartamaior.com.br/... 


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
  • segunda-feira, 11 de abril de 2016

    Roberto Amaral : O assalto à soberania popular



    O assalto à soberania popular

    A deposição não realiza o golpe todo: ela é o ponto de partida para uma mudança contra o pronunciamento majoritário da soberania brasileira
    por Roberto Amaral — publicado 11/04/2016 16h11
    Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil/Fotos Publicas 
    O relator do impeachment Jovair Arantes
    O deputado Jovair Arantes, relator do impeachment na comissão especial 
    O esperado relatório do irrelevante deputado Jovair Arantes, do pouco ilibado PTB de Roberto Jeferson – um símbolo da miséria da política brasileira, recentemente redescoberto pela grande  mídia graças à sua tenaz campanha pelo impeachment, no que, aliás tem a companhia ínclita do notabilíssimo Paulo Maluf  – não é um raio caído de um céu azul.
    Isto pois responde a momento crucial do processo de captura sem voto do Estado, dirigido de fora, com o propósito, entre outros, de abocanhar o Pré Sal, a maior descoberta de petróleo das últimas décadas no planeta, com o apoio da inefável FIESP e seus acólitos, desde sempre comprometida com tudo que é antinacional e antipovo.  
    A cisão direita x esquerda, mais uma vez, erepetindo 1954, 1961 e 1964, se deu por iniciativa da direita, inconformada, agora como sempre, com as ameaças que passou a ver na emergência das massas, proporcionada pelos governos de centro-esquerda liderados pelo Partido dos Trabalhadores.
    Em face daqueles episódios de violência institucional, há, porém, hoje, duas distinções fundamentais: o silêncio das Forças Armadas – antes chamadas a intervir,  realizando o golpe maquinado pela classe dominante — e a disposição dos de baixo de não mais aceitarem passivamente a ruptura da ordem constitucional que visa à supressão de seus direitos e conquistas recentes.
    A história não se repete, a não ser a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa. No Brasil, porém, a história é recorrente. O processo de impeachment a serviço do atraso, comandado a ferro e fogo por um meliante deputado-réu poderosíssimo, é a farsa que pretende dar contornos constitucionais – a obediência a ritos que se alteram como as nuvens nos céus – a um golpe de Estado de novo tipo, cujo objetivo é a implantação de um governo autoritário, antinacional e anti-povo.
    Repitamos mil vezes: o conflito, mais profundo do que aparenta, não se encerrará com o eventual impeachment --,  que a sociedade, os movimentos sociais e os trabalhadores desta feita não assimilarão --, pois esse expediente é pura e simplesmente o biombo que escamoteia o verdadeiro golpe, cujo objetivo declarado  é a construção de um governo necessariamente repressivo porque essencialmente reacionário, antipovo e antinacional, a serviço do grande capital internacional, do qual os rentistas da FIESP são meros e secundários contribuintes, desprezíveis serviçais do  restabelecimento da hegemonia do neoliberalismo, com toda a sua carga de redução de direitos sociais e contenção do desenvolvimento nacional independente.
    Seu catálogo de terror está nas propostas do candidato Aécio repaginadas pelo ‘Ponte para o futuro’, peça de campanha de Michel Temer, o vice sem honra, que preside um PMDB desonrado  que, depois de liderar a luta democrática contra a ditadura (o MDB de Ulisses Guimarães, Teotônio Vilela e Tancredo Neves), se resigna em morrer como empresa de interesses escusos de políticos menores. A história é assim: depois de Ulisses Guimarães na presidência da Câmara dos Deputados,  Eduardo Cunha. Depois dos vice Itamar Franco e José Alencar, Michel Temer.
    O projeto neoliberal, uma vez levado a cabo, retomaria o sonho frustrado  de FHC: enterrar ‘a era Vargas’, revogando direitos dos trabalhadores, a começar pela política de valorização do salário mínimo. E uma vez mais enfrentaria a resistência popular. É, pois, sua simples possibilidade, que não pode ser descartada, o anúncio de dois anos de instabilidade política e caos social.
    O papelucho que mandaram o sr. Jovair ler apenas cumpre o rito da trama golpista articulada pelo menos desde 2013 – embora mais ostensivamente só a partir de 2014 com o insucesso eleitoral da direita — que visa à deposição da presidente Dilma Rousseff, mediante processo de impeachment ilegítimo, ilegal e inconstitucional,  porque a presidente, consabidamente, não cometeu qualquer crime de responsabilidade, única justificativa constitucional para o remédio extremo.  
    Aliás, o impeachment visa a muito mais do que a cassação de um mandato legítimo conquistado em eleições legítimas, insisto na tese, porque a deposição não realiza o golpe todo: ela é o ponto de partida essencial, inafastável (mas sempre apenas ponto de partida)  para uma mudança fundamental a realizar-se contra o pronunciamento majoritário da soberania brasileira que falou nas eleições de 2014 depositando 54,5 milhões de votos na candidata Dilma Rousseff.
    Essa votação, para além da derrota do candidato da direita – vale dizer a rejeição de suas teses --, era, de igual forma, a aprovação dos quatro primeiros anos de governo da presidente reeleita.
    Trata-se, pois, o impeachment,  de tentativa de golpe contra a soberania popular.
    Ao mesmo tempo conjurada nas entranhas do poder e nas páginas da grande imprensa, a maquinação golpista é a congregação de forças poderosíssimas, que compreendem, tanto setores da alta burocracia estatal (a facção operativa), quanto setores patronais congregados pela FIESP (estima-se que, para o que for necessário a Avenida Paulista arrecadou R$ 500 milhões) quanto o capital internacional, vivamente interessado em retomar a preeminência que sempre exerceu em nossa economia tradicionalmente dependente, e que, para a fruição de seus interesses, dependente precisa permanecer.
    Dentro de casa atuam com desenvoltura desconhecida o Ministério Público Federal  -- e o sr. Janot é a “inteligência’’ do processo – setores da Polícia Federal e do Poder Judiciário, as corporações patronais financiadas pelo ‘sistema S’,  e a grande imprensa, numa unanimidade do tamanho de seu desvario ético.
    O mote para as grandes massas, o discurso aparente, é o combate à corrupção, ficção que a ninguém pode enganar, pois, de Eduardo Cunha e seus acólitos, como dos Skafs da vida, tudo se pode esperar, menos a motivação do interesse público. Alguém neste mundo acreditará que VejaIsto é, o Sistema Globo  e os sonegadores da FIESP estão nesta campanha ferocíssima pensando no país e em seu povo?
    A propósito do patriotismo da Avenida Paulista: o Sindicado dos Procuradores da Fazenda Nacional (Sinprofaz) calcula que a sonegação de impostos representa para a União um prejuízo anual de 500 bilhões de reais.
    operação Lava Jato foi transformada em instrumento essencial de repressão e propaganda, com os destemperos verbais do sr. Mendes (o ministro que agride o decoro do STF), as arbitrariedades do juiz Moro e os pareceres oportunísticos do Procurador Geral da República (elementos de um conjunto harmônico) alimentando o fim de semana da imprensa partidarizada, com o evidente objetivo de tático de deter os avanços da campanha contra o golpismo.
    Vê-se a intolerável invasão de competência dos poderes, com o STF judicializando a política e, com o concurso da Câmara dos Deputados, impedindo o governo de governar: chega-se ao cúmulo de a presidente da República ver suprimido seu direito de nomear um ministro de Estado, atributo indeclinável que lhe confere o presidencialismo!
    O combate à corrupção, transforma-se assim e claramente em instrumento político de uma conspiração golpista em marcha acelerada que passa por cima de todas as cautelas jurídicas, pois compreende a relação promíscua de um juiz de primeira instância -- mas com inusitada jurisdição nacional -- com investigadores, procuradores e policiais, quando Polícia Federal, Ministério Público e Poder Judiciário não podem andar de mãos dadas, em relação de cumplicidade, como andam agora,  pois cada instituição precisa controlar os excessos da outra.
    Procuradores no papel de agentes de policia agem sobre réus para obter a narrativa de que carecem para fundamentar a condenação prévia; os instrumentos da prisão provisória e da prisão preventiva, violando todos os prazos judiciais e razoáveis, são utilizados para forçar delações premiadas dirigidas contra os acusados que o complexo MP-PF-Judiciário quer condenar.  
    A associação juízes-mídia  assegura a espetacularização das operações judiciais, alimentadas por vazamentos seletivos de delações selecionadas, essencialmente políticas, para construir junto à sociedade um clima de aprovação a toda sorte de arbitrariedade, como se o combate à corrupção pudesse justificar a corrupção da Constituição.
    A oligarquia quer o poder. Na expectativa de derrota do pedido de impeachment no plenário da Câmara, já outros expedientes estão nos laboratórios de seus alquimistas, e compreendem desde a convocação extemporânea de eleições gerais ainda neste 2016, à implantação de um parlamentarismo à la 1961, ou uma ‘parlamentarização’ do atual presidencialismo, nas duas últimas hipóteses a fórmula universal que visa a reduzir a preeminência das massas na luta pela hegemonia.
    No bolso do colete está a possiblidade golpista de uma intervenção do Superior Tribunal Federal, cassando o mandato da presidente e de seu vice. Nenhuma possibilidade de assalto à vontade da soberania do voto está descartada.
    O fato objetivo é que a direita não faz concessões à democracia, porque o sistema de propriedade e concentração de renda é incompatível com o exercício durável da democracia formal, daí o golpismo cíclico. Nesse contexto,  quando a Constituição não é abolida, ela é estuprada. Na tragédia de nossos dias com o concurso de um STF nascido para por ela velar.
    Leia mais em www.amaral.org
    CartaCapital
    Proxima Inicio