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terça-feira, 20 de setembro de 2016

Elcio Cabral Melo / "Como ajudei a manipular opiniões e viabilizar o golpe": o desabafo de um jornalista

"Como ajudei a manipular opiniões e viabilizar o golpe": o desabafo de um jornalista

04.09.2016
"Como ajudei a manipular opiniões e viabilizar o golpe": o desabafo de um jornalista
O jornalista Elcio Cabral Melo foi assessor de imprensa do presidente de uma federação de hospitais. Autor de artigos assinados pelo chefe, teve textos publicados em jornais como Folha, Estadão, O Globo e Valor Econômico.
Em seu Facebook, ele contou sua experiência escrevendo "coisas que abomina" para "aquecer o caldeirão em que colocaram a democraticamente eleita presidenta Dilma Rousseff".

Peço desculpas por ter colaborado com essa sujeira, e quero me justificar dizendo que eu estava tentando trabalhar honestamente, que entrei em depressão nesse trabalho e (ainda bem!) fui demitido.
Foi entre julho de 2014 e junho de 2015 que trabalhei como jornalista, assessor de imprensa, repórter e ghostwriter do Sindhosp (Sindicato dos Hospitais, Clínicas e Laboratórios do Estado de SP) e Fehoesp (Federação dos Hospitais, Clínicas e Laboratórios do Estado de SP) e lá ajudei a "aquecer o caldeirão" que colocaram a democraticamente eleita presidenta Dilma Rousseff.
Um golpe começa assim: você reúne os interessados e vai "queimando o filme" da presidenta em várias frentes, culpando-a de tudo que for possível, usando as televisões, os jornais, as rádios e os portais da internet. Um dos interessados na queda de Dilma era o meu chefe, Yussif Ali Mere Jr., bem como seus colegas diretores do sindicato e da federação.
Assim, tive de escrever coisas que abomino, e quem assinava era o presidente, ou vice, ou algum manda-chuva de lá. Consegui publicar as opiniões em jornais como "Folha", "Estadão", "Valor Econômico" e "O Globo", entre outros.
Lembrando: eu era só um jornalista de uma pequena associação patronal. Muitos outros estavam fazendo o mesmo por aí, no Brasil todo. Exemplos: Fiesp, Fecomercio, Febraban etc...
PASSOS DA MANIPULAÇÃO

A) Desqualificar o alvo:
- "Mere Jr explicou que 2015 é "o ano do ajuste de contas", visto que a presidente Dilma Rousseff não tomou as atitudes cabíveis na economia no passado. " (FONTE: http://www.sindhosp.com.br/.../Presidente-fala-sobre-perspect...) e
- "Os dados do TCU confirmam (editorial "As Falhas do Mais Médicos") o que já era sabido: o programa Mais Médicos, de forte cunho ideológico e que liga o atual governo à ditadura cubana dos irmãos Castro, foi feito às pressas às vésperas das eleições e tem caráter eleitoreiro." (FONTE: http://www.sindhosp.com.br/.../O-Estado-de-S.-Paulo-destaca-o...)
- "Em vez de leiloar ministérios para acalmar os ânimos dos partidos aliados -que de aliados não têm nada- o governo deveria anunciar as reformas políticas e ministeriais. Trocar favores, votos e cargos é uma barganha que faz mal à saúde." (FONTE: http://www.sindhosp.com.br/.../Folha-de-S.-Paulo-destaca-opin...)
- "Parabenizo o economista Arminio Fraga, cujas palavras desnudaram a tese falaciosa da candidata Dilma Rousseff. Por mais que haja, no governo atual, malabarismos financeiros, a verdade sempre surgirá, pois os números não mentem. É preciso manter olhos e ouvidos atentos." (FONTE: http://www.sindhosp.com.br/.../Folha-de-SP-destaca-opiniao-de...)
B) Impor a agenda de direita como se fosse solução para todos os problemas:
- "O texto revela o mal que centrais sindicais estão provendo nas relações de trabalho. Políticas de bondade não levam ao crescimento. O país só integrará o rol dos desenvolvidos quando melhorar a produtividade." (FONTE: http://www.sindhosp.com.br/.../Painel-do-leitor-da-Folha-de-S...
C) Ignorar assuntos desconfortáveis como a Lei-Anticorrupção, enviando um subordinado em seu lugar:
"Marcelo Luis Gratão, gestor do Instituto de Ensino e Pesquisa na Área da Saúde (IEPAS), representou o presidente da FEHOESP e do SINDHOSP, Yussif Ali Mere Jr, no 1º Seminário Lei das Empresas Limpas com Foco na Área da Saúde." (FONTE: http://www.sindhosp.com.br/.../Lei-Anticorrupcao-e-tema-de-se...)
D) Dar o tiro de misericórdia:
"Junto com a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e outras centenas de entidades, o SINDHOSP, a FEHOESP e seus sindicatos filiados estão apoiando a campanha pelo "Impeachment Já!" da presidente da República, Dilma Rousseff." (FONTE: http://www.sindhosp.com.br/.../SINDHOSP-e-FEHOESP-apoiam-mani...)
E) Celebrar:
Clique abaixo para ver foto do meu chefe com o golpista Temer
FONTE: http://www.sindhosp.com.br/.../Yussif-Ali-Mere-Jr-participa-d...
Sobre o Autor
Diretor-adjunto do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.
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sábado, 17 de setembro de 2016

O governo Temer é frágil, mas o golpe se consolida

Artigo

O governo Temer é frágil, mas o golpe se consolida

As diferenças entre PSDB e PMDB não se resumem às siglas. São representações políticas de frações do capital em disputa aberta pelo Estado
por Gilberto Maringoni — publicado 15/09/2016 04h51, última modificação 15/09/2016 09h52
Antonio Cruz/Agência Brasil/Fotos Públicas
Temer, Renan e Aecio
Michel Temer, Renan Calheiros e Aécio Neves em encontro de abril de 2016




Michel Temer resolveu mostrar serviço nesta semana. Amplia o programa de privatizações e concessões do governo Dilma Rousseff, promete financiamento da ordem de R$ 30 bilhões a juros subsidiados e anuncia “uma abertura extraordinária” da infraestrutura brasileira à iniciativa privada.
E ainda propaga novidade teórica nunca vista em tempo algum da História: “A presença da iniciativa privada como agente indutor do desenvolvimento e produtor de empregos no país”.
O atual ocupante do terceiro andar do Palácio do Planalto busca responder aos questionamentos crescentes sobre sua capacidade de estabilizar a administração pública.
O governo não dá mostras de conseguir reverter o legado de Dilma Rousseff, que produziu dois anos de PIB negativo e 12 milhões de desempregados. O descontentamento social é crescente.
Em julho, segundo o Datafolha, apenas 14% dos brasileiros aprovavam o desempenho da nova equipe. Atos de protesto espalham-se pelo país. O “Fora Temer!” deixou de ser apenas um grito de protesto e se transforma em fenômeno cultural, falado e replicado até em redes de tv aberta.
Perdeu a narrativa
O oficialismo perdeu a disputa de narrativas sobre o ocorrido nos últimos meses. Da imprensa internacional a membros da própria administração, passando pelas ruas, uma unanimidade se forma: foi golpe! Até mesmo o ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) vaticinou, em entrevista à Folha de S. Paulo: “O discurso do golpe precisa da minha cassação”.
Se não bastasse ter a legitimidade questionada por baixo e pelos lados, Michel Temer ainda enfrenta problemas pelo topo.
Há sérias dúvidas por parte de setores do grande empresariado – em especial do capital financeiro – sobre a capacidade do governo levar adiante o conjunto de medidas que se constitui em sua razão de ser.
Elas darão curso à transformação do que inicialmente era um ajuste fiscal – ou seja, medidas tópicas para garantir a solvência do Estado em médio prazo – em política fiscal permanente.
Nesse conjunto está o tripé do projeto golpista: o orçamento de base zero, sem aumento real por 20 anos; a reforma trabalhista, que enseja o enterro de uma série de direitos consagrados na CLT e, por fim, um radical processo de privatizações – o que inclui o eufemismo batizado de “concessões”, envolvendo até mesmo a Petrobrás e a Caixa Econômica Federal.
Em duas frases, a meta é romper os pactos sociais da Constituição de 1988 e das leis trabalhistas de 1943. Para realizar o conjunto da obra, é essencial debelar focos de resistência popular, por bem ou por mal.
Dúvidas cruéis
As dúvidas dos donos do dinheiro afloraram na mídia ao longo dos últimos dias. Em português claro, isso significa que há ruídos entre o projeto que o grande capital – financeiro e industrial – tem em meta e a competência do governo para aplicá-lo em sua inteireza.
A capa da Veja deste final de semana mandou recado eloquente. Ali se estampava, com alarido, a denúncia de Fábio Medina Osório, ex-advogado-geral da União, de que “O governo quer abafar a Lava Jato”.
Dias antes, Aécio Neves (PSDB-MG) chegou a ameaçar o afastamento de seu partido da base governista, caso o presidente não oferecesse garantias sólidas e imediatas da aplicação das medidas prometidas.
Seguidas declarações de grandes empresários em favor do aprofundamento do ajuste são estampadas diariamente na imprensa.
O que é, para esses setores, a administração saída do tapetão institucional? Talvez a melhor definição seja a de Fernando Henrique Cardoso, em entrevista a Josias de Souza, no 7 de setembro: “A situação atual é como se fosse uma pinguela. Não é uma ponte, é uma pinguela. Mas, se quebrar a pinguela, cai no rio. É pior. Então, nós temos que apostar que vamos atravessar essa pinguela e vamos chegar do outro lado do rio”.
O desprezo para com o aliado de ocasião é cristalino (O texto completo está aqui.
Assim, há substanciais evidências de turbulências entre os propósitos do grande capital e sua representação político-institucional.
Ruídos na transmissão
Existem ruídos no encaminhamento do ajuste no Congresso. Foram divulgadas nada menos do que uma dúzia de emendas à PEC 241, que congela o orçamento por 20 anos. Algumas aceitam o torniquete nas contas públicas, desde que saúde e educação fiquem preservadas. A maior parte de tais proposições vem do PMDB.
O partido não parece muito animado com a ideia de ficar com o ônus da aplicação de iniciativas impopulares, que tendem a aprofundar a recessão. A conta pode chegar no pleito de outubro, ou mesmo nas eleições presidenciais de 2018.
Embora tenha alcançado a cadeira presidencial sem voto, o PMDB não tem por vocação praticar haraquiri eleitoral. Os números de sua capilaridade social são superlativos. Apresenta um quadro de 2,3 milhões de filiados, 996 prefeitos (dois em capitais), sete governos estaduais, 18 senadores e uma bancada de 68 deputados federais. Os dados são da página do partido na internet. 
Não é à toa que o PSDB, seu principal parceiro na aventura do impeachment, espera por parte de Michel Temer um único compromisso: o de não se candidatar daqui a dois anos. A tática é tão clara quanto esperta. Querem que a agremiação fundada por Ulysses Guimarães assuma o ônus da crise e sofra o desgaste da impopularidade galopante.
Roteiro esperto

O roteiro dos demiurgos tucanos é tão esperto que salta à vista. Investem na aplicação de medidas que solapam a própria estrutura do Estado brasileiro, mas buscam se livrar da conta do desastre. Almejam o terreno livre para uma candidatura lépida e fagueira, em 2018. Até lá, uma renhida campanha de destruição da reputação de Lula ou mesmo sua prisão seria uma mão na roda.
Quem conhece um pouco da história do PMDB, pode facilmente perceber que a agremiação pode ser tudo, exceto: ser composto por uma plêiade de otários e um partido de puro sangue neoliberal.
O PMDB nunca foi abertamente neoliberal. Participou de governos com essa matriz, o que é diferente. Em seu auge foi devoto do nacional-desenvolvimentismo, como atesta o programa “Esperança e mudança”, de 1982, hoje totalmente esquecido.
Sempre ancorou sua legitimidade na indústria (Fiesp e congêneres), no agronegócio, passando pela burguesia com transações vinculadas ao Estado (empreiteiras e prestadoras de serviço) e no médio e pequeno empresariado.
Os correligionários do presidente não fazem isso por algum compromisso cívico, mas pelos interesses que representam e por boa dose de oportunismo misturado com demagogia.
A legenda de Renan Calheiros, Romero Jucá e Eliseu Padilha necessita de votos para sobreviver. Votos calcados em clientelismo e em sua capacidade de se infiltrar nos meandros do Estado. Assim, sua defesa do que se convencionou chamar de “Estado mínimo” tem limites impostos por sólidos interesses imediatos.
Não é o caso dos tucanos, mais ligados ao capital financeiro, o que pode ser atestado por suas indicações para a área econômica e para a diplomacia do governo.
Representação política
As diferenças entre PSDB e PMDB, portanto, não se resumem às siglas. São representações políticas de frações do capital em disputa aberta pelo Estado.
Apesar do anúncio das privatizações, é bem possível que Michel Temer vacile em acelerar ainda mais as medidas recessivas contidas em seu ideário inicial, o documento Ponte para o futuro.
Caso hesite, como vinha fazendo, prepostos do capital não hesitarão em novamente puxar a faca. Capas de revistas, manchetes, denúncias e discursos indignados no Congresso darão o recado.
Dessa constatação vem o título deste artigo. Michel Temer depende do apoio de forças sobre as quais não exerce o menor controle. Essas poderosas vertentes do capital garantem o golpe, mas não seu governo.
A tática do tucanato ainda não é clara. Se o governo não entrar nos eixos, poderiam até fazer do "Fora Temer" uma medida concreta, com eleição indireta no início de 2017.
Aí se lograria obter a “pacificação nacional”, tão propalada nos últimos meses.
Falta ainda combinar com os russos. Quer dizer, com as ruas.

CartaCapital

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Murilo Cleto / Temer e a rasteira nas ruas

Opinião

Temer e a rasteira nas ruas

As manifestações foram o álibi do impeachment, mas quem foi aos protestos também será afetado pelo novo governo
por Murilo Cleto — publicado 13/09/2016 05h06
Marcos Corrêa / PR
Michel Temer e Ricardo Barros
Michel Temer e Ricardo Barros: o ministro da Saúde simboliza a busca pela precarização dos serviços públicos



Quatro meses depois da posse, o governo Temer já não precisa dar mais sinais de que a rasteira que destituiu Dilma do Planalto também derrubou boa parte daqueles que permitiram a sua ascensão à presidência.
Se, por um lado, não faltam agentes do impeachment em lua de mel com o governo que já não é mais interino, por outro as multidões que inundaram de verde e amarelo as ruas do país em 2015 têm tudo pra estar cada vez mais desapontadas.
E não é para menos. Para atender aos interesses dos donos do PIB, tramitam, a toque de caixa, o PLC 30, que prevê a terceirização de atividades-fim; o PL 4193, que faz prevalecer o negociado sobre o legislado; o PL 427, que incentiva a negociação individual entre empregado e empregador. Hoje a intenção do governo é que a idade mínima para aposentadoria seja de 65 anos e que ela definitivamente não acompanhe a evolução do salário mínimo.
Mais grave ainda é a PEC 241. Na prática, o que prevê o texto que congela gastos públicos por um período de 20 anos é a desvinculação constitucional de investimentos em Educação e Saúde. Definitivamente, não foi para isso que se mobilizaram as ruas em 2015. 
Elas, as ruas, foram o álibi que os verdadeiros credores do impeachment precisavam para a rasteira em Dilma. E não demorou nada para que a rasteira também as atingisse em cheio. Porque, seja como for, o governo Temer é justamente o oposto do que se clamava. E, pior, uma versão potencializada do que tanto se expurgou.
Ainda que as manifestações pró-impeachment tenham sido terreno mais do que fértil para todas as formas de violência contra direitos sociais, alguns consensos em torno do caráter patrimonialista do Estado passaram quase despercebidos pela esquerda e por governistas.
Por exemplo, entre aqueles que desfilaram pela Avenida Paulista nos protestos de agosto no ano passado, 97% concordavam com a universalidade de serviços públicos de Saúde e 96% com a sua gratuidade. Já sobre Educação, os índices sobem para 98% e 97%, respectivamente.
São números mais que expressivos. E hoje eles reforçam que o que motivou milhões de brasileiros a irem às ruas contra o governo petista não foi – pelo menos não majoritariamente – o ódio de classe, a aversão aos programas sociais e o macartismo, mas a percepção de que a corrupção estava instalada nas estruturas de um Estado corroído por ela. 99% consideravam graves, como era de se esperar, os escândalos do Mensalão e da Lava-Jato.
E o que fez o governo Temer foi, primeiro, nomear um exército de envolvidos em esquemas de corrupção para acomodar a classe política com medo de ir para a cadeia e, segundo, explorar a crise econômica e o sucateamento dos serviços públicos para afagar a iniciativa privada sinalizando concessões.
Tem sido assim com o ministro Ricardo Barros, que, diante da precariedade da Saúde, tem oferecido como remédio a drástica redução do SUS. Se ainda faltava o exemplo perfeito para a metáfora do bebê jogado fora junto com a água do banho, agora não falta mais.
Essa rasteira foi possível, dentre outras coisas, porque tanto o PMDB quanto os principais grupos pró-impeachment souberam desvincular com maestria a derrocada da presidenta eleita da posse de Temer. Quer dizer, quem foi às ruas pedir o “Fora Dilma” não estava embalado pelo “Bora Temer”, embora fosse justamente isso que, hoje sabe-se, queriam os movimentos sociais que convocaram as manifestações e as entidades patronais que as financiaram.
Noutra ponta, a esquerda ligada ao PT errou ao se colocar nas ruas mais como pressão pela volta de Dilma do que pelos direitos sociais, diariamente golpeados durante a interinidade e que, verdade seja dita, já estavam ao menos parcialmente comprometidos antes do impeachment. Desta forma, a adesão de coletivos e mesmo cidadãos mais independentes acabou sendo severamente prejudicada. E muito do que se viu no “Fora Temer” era apenas uma versão do “Volta Dilma”.
Com a consolidação do impeachment no Senado, a “guerra de mentira”, como apontou em analogia brilhante no El País Brasil o filósofo Rodrigo Nunes, chegou ao fim. E o retorno da presidenta já não é mais uma possibilidade. Não é coincidência, portanto, que de lá para cá as mobilizações contra Temer só tenham crescido.
Por mais forçoso que seja admitir para a militância de esquerda, encontrar esses pontos de convergência com os que pressionaram o Congresso nas ruas pela queda de Dilma é mais do que urgente se se quer um Estado capaz de garantir direitos historicamente adquiridos e nunca tão fortemente ameaçados.
Porque o Vem Pra Rua já avisou que não vai mais. A cada dia que passa o MBL se mostra menos livre. Os Revoltados Online desligaram o wi-fi. E a Fiesp, como prometeu, não vai mesmo pagar o pato. Alguém foi enganado e precisa saber disso.
*Murilo Cleto é professor, historiador, autor e organizador do livro “Por que gritamos Golpe?” (Boitempo, 2016).
registrado em: 

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

João Almeida Moreira / E Lulia chagou ao poder

E Lulia chagou ao poder

 João Almeida Moreira     07.Sep.16     Outros autores
O autor deste artigo, o jornalista brasileiro João Almeida Moreira recorda o sombrio passado político de Michel Temer. O oportunismo permanente do seu partido, o PMDB, e o amoralismo do homem que desempenhou um papel importante no golpe parlamentar que destituiu Dilma Rousseff abrindo-lhe as portas da presidência do Brasil.

Sim, Lulia, com i. O “novo” presidente do Brasil chama-se Michel Miguel Elias Temer Lulia, sangue libanês nos dois apelidos, tanto no exposto quanto no escondido.
A dias de completar 76 anos, o homem de quem um dia disseram que tinha cara de mordomo de filme de terror e que foi acusado, em rumores de internet, de praticar satanismo, é um respeitado constitucionalista cuja carreira política foi forjada nos corredores de Brasília - corredores em que Frank Underwood, o maquiavélico personagem da série americana House of Cards, se sentiria uma virgem.
Poeta nas horas vagas - publicou Anónima Identidade, obra escrita em guardanapos de papel dos cafés dos aeroportos de Brasília e São Paulo e que, segundo um crítico, justificaria imediatamente o seu impeachment - é casado com Marcela Temer, ex-miss, 42 anos mais nova, classificada pela revista Veja como “bela, recatada e do lar”.
Mas o lado mais importante de Temer, o homem que não escolheu nem mulheres (52 por cento da população brasileira) nem negros (no segundo país com mais negros do mundo, a seguir à Nigéria) para o seu ministério, é ser do PMDB.
O PMDB - Partido do Movimento da Democracia Brasileira - foi a única força de oposição autorizada durante a ditadura militar. Por isso, em democracia revelou-se um caldo de interesses municipais, regionais e nacionais com raízes profundas nas estruturas do Estado. Da arca de Noé peemedebista fazem parte, além de Temer, o cacique do Maranhão José Sarney, o perturbador cleptocrata Eduardo Cunha, a rainha do agronegócio e férrea dilmista Kátia Abreu e dezenas de investigados na Lava-Jato. O partido aceita tudo: menos gente com ideologia ou qualquer outra superficialidade que obstaculize a permanência no poder.
O PMDB é causa e é consequência, é sintoma e é doença da política à brasileira. Uma espécie de “partido Tancredi Falconeri”, por ser fiel à máxima do personagem de Lampedusa que sentenciou “é preciso mudar tudo para que tudo fique na mesma”. Um dia alguém notou que se nos ausentarmos do Brasil por um mês, quando voltamos está tudo diferente; mas se nos ausentarmos 30 anos, quando voltamos está tudo igual. Há 30 anos, o PMDB estava no poder.
Nos últimos 22 anos, houve seis eleições presidenciais às quais chegaram à segunda volta sempre os candidatos do PSDB, de centro-direita, e do PT, de centro-esquerda, os dois partidos mais progressistas do Brasil. Chamou-se clima de “Fla-Flu” à rivalidade que tucanos (os do PSDB, de Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Geraldo Alckmin e Aécio Neves) e petistas (os do PT, de Lula e Dilma) mantiveram. Mas, enquanto os dois partidos se alternavam no Planalto, quem foi o sócio deles em todos os seis governos? O PMDB. Neste Fla-Flu quem ganha é o Botafogo.
O sucesso do jeito de ser do PMDB reflete-se na existência de meia dúzia de forças políticas criados à sua imagem. Como não ser nada e tudo ao mesmo tempo se revelou interessante nicho de mercado, nasceu o Centrão, grupo de partidos que fizeram parte da base de apoio de Dilma e da base de apoio de Temer e são PMDB em miniatura. O líder de um deles, Gilberto Kassab, disse quando o fundou em 2011 que era “de centro, de direita e de esquerda” - Kassab foi ministro duas vezes neste ano, primeiro das Cidades, sob Dilma, e agora das Comunicações, sob Temer.
Para alguém governar o país - leia-se, aprovar leis no Congresso - precisa pois do apoio e dos votos do titânico PMDB e dos seus satélites do Centrão. Lula, talvez com uma mola no nariz para não sentir o cheiro a podre, aliou-se a eles - e ao suspeitíssimo Collor de Mello ou ao procurado pela Interpol Paulo Maluf. E, talvez com uma venda nos olhos, permitiu o Mensalão, o esquema de troca de votos por dinheiro que não era muito diferente do que sucedeu agora, à luz do dia, na compra de votos de deputados e senadores sob promessa de cargos futuros, ao longo do impeachment.
Dilma, de estômago mais sensível do que o antecessor na frente política e inábil na frente económica, nunca se sentiu confortável em Brasília. Passou, portanto, de mal necessário a mal desnecessário aos olhos do PMDB (e do Centrão), e caiu.
Se a ascensão pela terceira vez em democracia de um militante do PMDB à presidência sem recurso a eleições, depois de Sarney e de Itamar Franco, é “golpe” ou não, é tema mais do domínio da semântica do que da ciência política. Porque a política brasileira, enquanto não se reformar, é, em si mesma, um “golpe” permanente.
Este artigo foi publicado pelo «Diário de Notícias» a 4 de Setembro de 2016
                

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Protestos contra Temer se espalham pelo País

Protestos contra Temer se espalham pelo País


Multidões vão às ruas em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Porto Alegre, Curitiba, Natal, Fortaleza, Belo Horizonte e Florianópolis
Protesto contra Temer no Rio de Janeiro. Foto: Mídia Ninja
Protesto contra Temer no Rio de Janeiro. Foto: Mídia Ninja
Assim que se concretizou o impeachment de Dilma Rousseff, diversos protestos contra o recém-empossado presidente Michel Temer foram marcados pelo País. Multidões estão nas ruas de cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Porto Alegre, Santos, Curitiba, Natal, Fortaleza, Salvador Belém e Belo Horizonte.
Em São Paulo, um grupo se reúne em frente ao Masp, na Avenida Paulista, que já está ocupada pelos manifestantes. O líder do MTST, Guilherme Boulos, está presente. Um cordão policial separa o grupo de apoiadores do impeachment, que se reúnem em frente ao prédio da Fiesp. 
No Rio de Janeiro, a ato acontece na Cinelândia, região central da cidade.
Link curto: http://brasileiros.com.br/VcLhr
fonte: Brasileiros
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