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domingo, 4 de outubro de 2020

Papa diz que livre mercado e "economia do gotejamento" falharam durante a pandemia

 


VATICANO (Reuters) - O Papa Francisco disse neste domingo que a pandemia de Covid-19 é a última crise a provar que as forças de mercado sozinhas e as políticas econômicas “gotejantes” falharam em produzir os benefícios sociais que seus proponentes alegam.

Em uma encíclica sobre o tema fraternidade humana, Francisco disse ainda que a propriedade privada não pode ser considerada um direito absoluto em todos os casos em que uns vivem extravagantemente e outros não têm nada.

Com o nome de “Fratelli Tutti” (Todos Irmãos), a encíclica assinada pelo papa em Assis no sábado aborda temas como fraternidade, imigração, desigualdade entre ricos e pobres, injustiças econômicas e sociais, desequilíbrios na saúde e a crescente polarização política em muitos países.

O papa tinha como alvo a economia do gotejamento, teoria defendida por conservadores segundo a qual incentivos fiscais e outras benesses para grandes empresas e ricos acabam beneficiando o resto da sociedade por meio de investimentos e criação de empregos.

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sexta-feira, 29 de novembro de 2019

As palavras embaraçosas do Papa Francisco, em Hiroshima

As palavras embaraçosas do Papa Francisco, em Hiroshima

"A bomba atómica é imoral e criminosa"

– Silêncio bipartidário sobre o Papa, tanto na Itália como em Portugal

por Manlio Dinucci [*]
A nova ogiva nuclear B61-12 do arsenal estado-unidense.Silêncio tumular no arco institucional italiano, sempre loquaz sobre o Papa, quanto às palavras proferidas por Francisco, em 24 de Novembro, em Hiroshima e Nagasaki: "O uso da energia atómica para fins de guerra é hoje, mais do que nunca, um crime. É imoral a posse de armas atómicas ".

Palavras embaraçosas para os nossos máximos expoentes institucionais que, como os anteriores, são responsáveis pelo facto de a Itália, um país não nuclear, hospedar e estar preparada para usar armas nucleares americanas, violando o Tratado de Não Proliferação ao qual aderiu, que proíbe aos Estados militarmente não nucleares, receber armas nucleares e controlá-las directa ou indirectamente. Responsabilidade ainda mais grave porque a Itália, como membro da NATO, recusou-se a aderir ao Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares, votado pela grande maioria da Assembleia-Geral da ONU: que obriga os Estados signatários a não produzir nem possuir armas nucleares, não usá-las ou ameaçar usá-las, não transferi-las ou recebê-las directa ou indirectamente, com o objectivo da sua eliminação total.

EMBARAÇOSA para os governantes, a pergunta que o Papa Francisco faz, de Hiroshima: "Como podemos falar sobre paz enquanto construímos novas e formidáveis armas de guerra?" Em Itália, o número de bombas nucleares estimado actualmente é da ordem dos 70, todas do modelo B61 , mas estão para ser instaladas no território italiano, as novas e mais mortíferas bombas nucleares USA B61-12 (número ainda desconhecido) no lugar das actuais B-61. A B61-12 possui uma ogiva nuclear com quatro opções de potência seleccionável: no momento do lançamento, é escolhida a potência de explosão, dependendo do alvo a atingir. Ao contrário da B61, lançada na vertical sobre o alvo, a B61-12 é lançada a distância e guiada por um sistema de satélite. Tem, também, a capacidade de penetrar no subsolo, mesmo através de betão armado, explodindo em profundidade para destruir os bunkers dos centros de comando e estruturas subterrâneas, de modo a "decapitar" o país inimigo, num 'first strike' nuclear.

IGUALMENTE EMBARAÇOSA é a outra pergunta do Papa: "Como podemos propor a paz se usamos continuamente a intimidação bélica nuclear como recurso legítimo para a resolução dos conflitos?" A Itália, como membro da NATO, apoiou a decisão de Trump de cancelar o Tratado INF que, assinado em 1987 pelos Presidentes Gorbachev e Reagan, havia permitido a eliminação de todos os mísseis nucleares de alcance intermédio com base no solo, distribuídos na Europa, incluindo aqueles instalados em Comiso. Os EUA estão a desenvolver novos mísseis nucleares de alcance intermédio, tanto de cruzeiro como balísticos (estes capazes de atingir alvos poucos minutos após o lançamento), a serem distribuídos na Europa, certamente também em Itália, contra a Rússia e na Ásia, contra a China. A Rússia advertiu que, se forem disseminados na Europa, apontará os seus mísseis nucleares para os territórios nos quais serão instaladas.

AS POTÊNCIAS NUCLEARES possuem um total de cerca de 15 mil ogivas nucleares. Mais de 90% pertencem aos Estados Unidos e à Rússia: cada um dos dois possui cerca de 7 mil. Os outros países que possuem ogivas nucleares são: França (300), China (270), Grã-Bretanha (215), Paquistão (120-130), Índia (110-120), Israel (80), Coreia do Norte (10-20). Cinco outros países – Itália, Alemanha, Bélgica, Holanda e Turquia – têm em conjunto, cerca de 150 ogivas nucleares americanas instaladas nos seus territórios. A corrida armamentista está a ocorrer agora, não em quantidade, mas em qualidade: ou seja, no tipo de plataformas de lançamento e nas capacidades ofensivas das ogivas nucleares.

Um submarino americano da classe Ohio é capaz de lançar, em menos de um minuto, 24 mísseis balísticos Trident armados com 120 a 190 ogivas nucleares, cujo poder explosivo é mais do que o dobro de todos os explosivos não nucleares usados na Segunda Guerra Mundial. O novo míssil balístico intercontinental russo, Sarmat, com um alcance de 18.000 km, é capaz de transportar de 10 a 16 ogivas nucleares que, ao reentrar na atmosfera em velocidade hipersónica (mais de 5 vezes a do som), manobram para escapar aos mísseis interceptores.

E quando o Papa Francisco afirma que o uso da energia nuclear para fins de guerra é "um crime não apenas contra o Homem e sua dignidade, mas contra qualquer possibilidade de futuro na nossa casa comum", que põe em perigo o futuro da Terra, aqui não devem calar-se os que estão empenhados na defesa do meio ambiente: porque a ameaça mais grave para o ambiente da vida no planeta é a guerra nuclear e é prioritário, o objectivo da eliminação completa das armas atómicas.

Falta ver até que ponto o aviso lançado pelo Papa Francisco, a partir de Hiroshima, é recebido na própria Igreja e entre os católicos em geral. Não é a primeira vez que ele lança este alerta, mas a sua voz, para usar uma frase do Evangelho, assemelha-se à de "alguém que grita no deserto". Neste ponto, surge espontaneamente uma proposta laica: Se falta a consciência, que se revele, ao menos, o instinto de sobrevivência.
26/Novembro/2019
Ver também:
  • EUA testam bomba nuclear B61-12 – especialista explica o que está por trás

    [*] Jornalista, escreve em il manifesto

    O original encontra-se em L'atomica immorale e criminale. Silenzio bipartisan sul papa
    e a tradução de Luisa Vasconcellos em sakerlatam.es/...


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
  • quinta-feira, 10 de outubro de 2019

    Sínodo da Amazônia, bênção espiritual, ética e profética

    Sínodo da Amazônia, bênção espiritual, ética e profética

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    Bendito dia 15 de outubro de 2017, dia que o papa Francisco, acolhendo os clamores dos povos amazônidas, da mãe terra amazônica, da irmã água, da fauna, da flora e de toda a biodiversidade, teve a intuição e a coragem de convocar o Sínodo da Amazônia. Quase do tamanho do Brasil, com 8,5 milhões de quilômetros quadrados, 60% da Amazônia está em território brasileiro e os outros 40% estão em outros oito países: Suriname, Guiana, Venezuela, Colômbia, Peru, Equador, Bolívia e Guiana Francesa. Na região Pan-Amazônica vivem mais de 34 milhões de pessoas, em quase 400 povos diferentes, centenas deles povos ainda isolados no meio da floresta.
    Dos dias 6 a 27 de outubro agora (2019), no Vaticano, em Roma, na Itália, está acontecendo o Sínodo da Amazônia. A palavra ‘Sínodo’, na língua grega, é composta de ‘syn’ = com, juntos, e hodos = caminho. Portanto, sínodo significa ‘caminhar juntos’. Ou seja, caminhar com os povos amazônidas, não sem eles e jamais contra eles. Em 519 anos de presença branca na Amazônia houve muita violência socioambiental em um projeto de colonização que trouxe juntas a cruz e a espada. O papa Francisco e a Igreja Povo não toleram mais nenhum tipo de neocolonização. A política de integração dos povos indígenas à cultura branca também é processo de violência que não pode mais ser tolerada. “Muitos irmãos e irmãs na Amazônia carregam cruzes pesadas e aguardam pela consolação libertadora do Evangelho, pela carícia de amor da Igreja. Por eles, com eles, caminhemos juntos”, diz em alto e bom som o papa Francisco.
    Mais de 300 personalidades, entre as quais 110 bispos latino-americanos, participam do Sínodo da Amazônia, guiados pelo tema: Novos caminhos para a Igreja e para uma Ecologia Integral. Do Brasil estão participando do Sínodo da Amazônia mais de 40 bispos e muitos representantes de povos originários e mulheres, inclusive. Em um exercício de participação popular e democrática, mais de 800 mil pessoas participaram das reuniões e assembleias de preparação para o Sínodo da Amazônia. Muitas propostas foram colocadas e estão sendo discutidas no Sínodo. Por exemplo, Povos Indígenas do Equador enviaram mensagem ao papa Francisco pedindo que a Amazônia seja elevada à categoria de Patrimônio e santuário mundial intangível da Casa Comum e que sua preservação seja vista como uma necessidade de responsabilidade socioambiental e geracional diante do alarme ecológico disparado.
    Com o Sínodo da Amazônia, o papa Francisco aponta que o caminho para evitarmos o Apocalipse final passa por ouvirmos os/as mártires da Amazônia e com a causa deles/delas nos comprometermos. Citamos, por exemplo, milhares de indígenas assassinados ao longo de 519 anos de violência imposta aos povos indígenas pela colonização europeia, Chico Mendes, padre Ezequiel Ramin, Irmã Dorothy, entre tantos outros/as. Ouvir os/as mártires da Amazônia implica estancar a devastação da Amazônia e frear o avanço do agronegócio sobre a região.  Não às monoculturas! Não à mineração devastadora! Sim à demarcação de todos os territórios indígenas e dos Povos Tradicionais.
    Sim a uma Economia a partir dos povos originários e que garanta a sustentabilidade ecológica. O Sínodo indica que seguir o jeito que o Conselho Indigenista Missionário (CIMI) trilha há quase 50 anos, desde 1971, no meio dos Povos Indígenas é caminho ético e emancipatório. Nada de cristianização, nem integração, mas respeito e admiração pela alteridade imensamente plural dos Povos Indígenas e Tradicionais, tais como: pescadores tradicionais, ribeirinhos, seringueiros, quilombolas, quebradeiras de coco de babaçu etc.
    Em 2015, o papa Francisco publicou a Encíclica Louvado Sejas (Laudato Si, em latim), sobre o Cuidado com a Casa Comum e sobre a Ecologia integral. A Encíclica Laudato Si incomodou opressores do centro da idolatria do mercado no mundo. A Laudato Si é um dos melhores documentos já escritos sobre a injustiça socioambiental reinante no mundo, porque não apenas aponta a imensa devastação socioambiental em curso, mas porque aponta as causas e os causadores da injustiça socioambiental. Na Encíclica, o papa Francisco, ‘pondo o dedo na ferida’, diz claramente que o causador principal da imensa devastação socioambiental que cresce de forma geométrica no mundo é o modelo econômico capitalista, a idolatria do mercado e do capital, uma economia que violenta e mata. Francisco aponta também caminhos a seguir para a superação da injustiça socioambiental: conviver de forma harmônica com a mãe terra, preservando as fontes d’água e praticando modelos econômicos sustentáveis ecologicamente.
    Na esteira da Encíclica Laudato Si, o Sínodo da Amazônia será uma bênção espiritual, ética e profética para a Igreja, para a humanidade e para todos os seres vivos, pois ecoará que a Amazônia é bem comum de toda a humanidade e de todos os seres vivos, é o grande pulmão e um grande rim/filtro do Planeta Terra. A Amazônia é pulmão do mundo, porque, por meio do processo da fotossíntese, os milhões de árvores centenárias a partir das suas folhas aquecidas pela luz do irmão sol produzem o irmão oxigênio que garante a vida para grande parte da humanidade. Toda árvore é uma grande usina de oxigênio. Cortar uma árvore significa matar uma grande fonte de produção de oxigênio e de absorção de dióxido de carbono. A Amazônia é também um grande rim/filtro do Planeta Terra, porque, por meio das folhas das árvores, as plantas absorvem grande parte do dióxido de carbônico jogado no ar pelas chaminés das indústrias/fábricas, pela descarga dos caminhões, dos automóveis etc.
    Nós humanos, ao respirarmos, inspiramos o oxigênio que as irmãs árvores e o irmão sol nos oferecem gratuitamente e expiramos gás carbônico. As árvores fazem o contrário: absorvem gás carbônico e exalam oxigênio no ambiente. A Amazônia é também a principal fonte produtora de chuvas em grande parte da América do Sul. Na Amazônia há muita água no subsolo em aquíferos, no solo, nos rios, lagos e igarapés, e na atmosfera sobre território da Pan-Amazônia se formam os rios aéreos voadores. Cada árvore centenária da Amazônia exala na atmosfera, por dia, milhares de litros de água na forma gasosa. Com as correntes de vento, a umidade produzida no processo de evapotranspiração forma os imensos rios aéreos voadores que, empurrados pelas correntes de ventos, criam as condições objetivas para que aconteçam chuvas no sudeste e no sul do Brasil, no Uruguai, no Paraguai e na Argentina.
    Esses rios aéreos voadores produzidos na Amazônia transportam uma quantidade maior de água do que os rios que estão na superfície do solo amazônico. Conhecer de forma profunda a Amazônia se tornou uma necessidade para amarmos e defendermos de forma intransigente a sua preservação. Se não interrompermos com urgência a devastação ambiental da Amazônia, a desertificação da Amazônia causará a desertificação de grande parte do Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, o aumento assustador da temperatura e o colapso d’água em várias regiões do Planeta Terra, o que tornará a vida humana impossível no Planeta Terra, nossa única Casa Comum. Imagine o que será da humanidade com a quantidade de dióxido de carbono jogada na atmosfera sem ter a floresta amazônica para absorver!
    A Amazônia é a grande farmácia da humanidade e dos animais, pois da seiva da sua imensa biodiversidade se extraem os fármacos que produzem remédios que curam a maioria das doenças. Logo, a Amazônia é um território terapêutico também. A Amazônia é um território povoado também por espíritos ancestrais e originários. A história demonstra que os principais e verdadeiros guardiões da Amazônia são seus quase 400 Povos Indígenas que falam quase 400 línguas, uma imensa diversidade cultural e espiritual que habita esta região há pelo menos 14 mil anos. Projeções feitas a partir de documentos e de pesquisas arqueológicas estimam a população indígena, por ocasião da conquista/colonização, em 1.500, entre três e cinco milhões de pessoas, somente na Amazônia brasileira. Por isto, a não demarcação das terras indígenas intensifica as ameaças a estes povos, pois demarcar as terras indígenas é o primeiro passo para o respeito de seus direitos primordiais à terra, ao sagrado e às práticas xamânicas milenares.
    Portanto, bendito quem se compromete com a defesa da Amazônia e de todos os biomas. Maldito quem, por ignorância ou por cumplicidade com o sistema do capital, está agindo de forma devastadora. O Sínodo da Amazônia proporá mudanças radicais no sentido de respeitar e valorizar a imensa fonte de vida que está na Amazônia. Feliz quem se abrir para os apelos dos Povos da Amazônia e para os clamores da Floresta Amazônica com toda sua esplendorosa fauna e flora.
    O papa Francisco está propondo inclusive iniciar com o Sínodo da Amazônia o fim do celibato obrigatório e o fim do clericalismo na Igreja Católica, ou seja, o Sínodo da Amazônia deverá abrir espaço para que homens casados também possam ser sacerdotes e mulheres possam também ser ordenadas para presidir a celebração da eucaristia. Enfim, o Sínodo da Amazônia proporá conviver com as culturas respeitando-as e não cristianizando-as. O cardeal Tolentino Mendonça aponta o significado do Sínodo: “O Papa Francisco com o Sínodo da Amazônia quer colocar a periferia no centro da Igreja”. Eis um caminho santo e emancipatório a ser trilhado para que a Igreja se torne de fato igreja com rosto amazônico, igreja descolonizadora.
    Belo Horizonte, MG, 08/10/2019.
    Por Gilvander Moreira1
    Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educação pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Ciências Bíblicas; assessor da CPT, CEBI, SAB, CEBs e Movimentos Sociais Populares; prof. de “Movimentos Sociais Populares e Direitos Humanos” no IDH, em Belo Horizonte, MG. E-mail: gilvanderlm@gmail.com – www.gilvander.org.br – www.freigilvander.blogspot.com.br      –       www.twitter.com/gilvanderluis        –     Facebook: Gilvander Moreira III
    Obs.: Os vídeos, abaixo, ilustram o assunto acima.
    1 – Leonardo Boff  fala sobre o Sínodo da Amazônia. Entrevista a frei Gilvander. Parte I – 03/10/2019
    fonte: A Verdade

    quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

    Christopher Lamb / Os motivos por trás da campanha contra o papa Francisco nas ruas de Roma

    • 19 fevereiro 2017

    Mulher passa por pôster do papaDireito de imagemGETTY IMAGES
    Image captionCartazes colados em Roma traziam críticas ao papa Fracisco

    No início do mês, cartazes criticando o papa surgiram em Roma, e um jornal falso que zombava do pontífice foi enviado a cardeais da cidade. O repórter Christopher Lamb investiga o caso.
    Fiquei chocado quando os vi.
    Estava sentado algumas fileiras atrás de uma freira em um bonde quando paramos ao lado de cartazes em que o papa Francisco aparece com um olhar carregado.
    Sob seu rosto aborrecido, quase ameaçador, havia uma lista de reclamações: ele havia destituído padres, ignorado preocupações de cardeais e "decapitado" um antigo grupo católico, a Ordem de Malta.
    Isso é o oposto do que me acostumei a esperar ver em Roma. O bonde passava por uma parte da cidade onde normalmente há imagens de um papa sorridente, com os braços estendidos ou fazendo um sinal positivo com a mão.
    Aqui na Itália, o papado é o mais perto que há de uma monarquia, então, não é surpreendente que autoridades da capital tenham ordenado que os pôsteres fossem cobertos, só restando um aviso: "Cartaz colado ilegalmente".
    Ao mesmo tempo em que os cartazes surgiam nas paredes da cidade, cardeais de Roma abriram suas caixas de correio e encontraram uma versão falsa do jornal do Vaticano, o L'Osservatore Romano.
    Na capa, havia uma lista de perguntas ao papa feitas por um grupo de cardeais conservadores em que a resposta sempre era sic et non (sim e não). Estavam pregando uma peça no pontífice em seu próprio território - e em latim.

    Capa falsa do L'Osservatore Romano
    Image captionCapa falsa do jornal do Vaticano zombou do papa Francisco

    O papa Francisco é popular entre muitos católicos, mas enfrenta bastante resistência às mudanças que promoveu e ainda promove no Vaticano, motivo de fúria entre fiéis das alas mais tradicionais da Igreja.
    O principal motivo de tensão tem sido sexo - sim, sexo. Francisco quer que divorciados que se casaram novamente possam comungar.
    Seus críticos dizem que isso mina ensinamentos da Igreja sobre matrimônio, porque uniões secundárias seriam adultério. Todas as perguntas na capa falsa do jornal eram sobre isso.
    Um cardeal americano, Raymond Burke, está na linha de frente da oposição a Francisco. Burke preza as regras atuais. Foi ele que disse certa vez ao então candidato presidencial John Kerry que ele não poderia comungar por já ter apoiado o aborto.
    Burke dedicou-se durante a maior da vida ao estudo das leis da Igreja e quer garantir que sejam cumpridas. Ele acredita que o papa está fazendo ajustes perigosos na tradição de mais de 2 mil anos do Cristianismo.
    Ele ameaçou até mesmo decretar "um ato formal de correção de um erro grave" contra o papa. Seria um gesto ousado e raro - algo assim não ocorre há séculos.
    O cardeal vive em um grande apartamento na rua construída por Mussolini que leva à Praça de São Pedro a partir do rio Tibre. É dali que ele comanda sua operação para prover o que chama de "clareza da doutrina".

    Cardeal Raymond BurkeDireito de imagemLATIN MASS SOCIETY
    Image captionO cardeal Burke vem criticando abertamente as mudanças promovidas por Francisco

    Costumes e tradições são muito valorizados por ele. Quando o visitei para entrevistá-lo, passei por um chapéu de cardeal mantido em uma redoma de vidro, como de fosse uma relíquia sagrada, no caminho para uma sala onde esperei por sua entrada.
    Ao meu lado, estava seu assessor de imprensa, que cumprimentou o cardeal se ajoelhando e beijando seu anel de ouro, um sinal de respeito.
    Por outro lado, quando visitei o papa Francisco - como um membro da imprensa que cobre o Vaticano -, nós trocamos um aperto de mãos, e não pude deixar de notar um ligeiro desconforto nele quando as pessoas se ajoelhavam à sua frente.
    Diz-se em Roma que os cartazes foram obra de um grupo de direita que não gosta dos apelos do papa para que a Europa receba melhor os imigrantes.
    Novamente, ele e Burke parecem estar em lados opostos da questão, mas não há evidências de que o cardeal esteja por trás dos pôsteres ou do jornal falso.
    Há muitos católicos conservadores que ficam desconfortáveis com as mudanças promovidas pelo papa e sua decisão de viver em uma casa simples em vez de ocupar o apartamento papal, carregar sua própria maleta e andar por aí em seu carro, gestos que rompem com a pompa do cargo e são considerados inadequados por alguns.

    Papa em seu carroDireito de imagemAFP/GETTY IMAGES
    Image captionComportamento sem pompa de Francisco incomoda a alguns na Igreja

    Até agora, o papa não parece ter dado importância às críticas. "Não tomo tranquilizantes", disse em tom de brincadeira recentemente.
    Sua forma de lidar com o estresse, explicou, é anotar os problemas em um papel e colocá-lo sobre uma imagem de um São José adormecido.
    São José é a figura à qual os católicos recorrem quando enfrentam dificuldades de ordem prática. "Agora, ele dorme sobre um colchão de papéis", acrescentou Francisco.
    O problema é que a função do papa é ser a base da unidade da Igreja. Alertas soam quando um papado começa a gerar muitas divisões.
    Ao mesmo tempo em que Francisco tem sido muito bem-sucedido em falar com as ovelhas desgarradas, ele corre o risco de alienar quem ainda está por perto.
    O papa admitiu que fissuras estão surgindo entre bispos e padres - e, se forem ignoradas, elas podem se tornar problemas ainda maiores.
    Christopher Lamb é correspondente do Vatico para o The Tablet.

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    terça-feira, 15 de novembro de 2016

    Histórico discurso do Papa Francisco aos Movimentos Populares

    Eis a íntegra do histórico discurso do Papa Francisco aos Movimentos Populares

    14.11.2016 | Fonte de informações:

    Pravda.ru

    Eis a íntegra do histórico discurso do Papa Francisco aos Movimentos Populares. 25452.jpeg

    Eis a íntegra do histórico discurso do Papa Francisco aos Movimentos Populares

    Irmãs e irmãos, boa tarde.

    Neste nosso 3º Encontro expressamos a mesma sede, a sede de justiça, o mesmo grito: terra, teto e trabalho para todos.

    Agradeço a todos os delegados que vieram das periferias urbanas, rurais e industriais dos cinco continentes, de mais de 60 países, para discutir, mais uma vez, sobre como defender estes direitos que nos convocam. Obrigado aos bispos que vieram para acompanhá-los. Obrigado aos milhares de italianos e europeus que se uniram hoje ao encerramento deste encontro.

    Obrigado aos observadores e aos jovens comprometidos com a vida pública que vieram com humildade escutar e aprender. Quanta esperança tenho nos jovens! Agradeço também a você, senhor cardeal Turkson, pelo trabalho que fez no dicastério; e gostaria também de recordar a contribuição do ex-presidente José Mujica, que está presente.

    No último encontro, na Bolívia, com maioria de latino-americanos, falamos da necessidade de uma mudança para que a vida seja digna, uma mudança de estruturas; além disto, de como vocês, os movimentos populares, são semeadores desta mudança, promotores de um processo em que convergem milhares de pequenas e grandes ações criativamente concatenadas, como em uma poesia; por isso quis chamá-los "poetas sociais"; e elencamos também algumas tarefas imprescindíveis para caminhar em direção a uma alternativa humana diante da globalização da indiferença: 1. colocar a economia a serviço dos povos; 2. construir a paz e a justiça; 3. defender a Mãe Terra.

    Naquele dia, na voz de uma carrinheira e de um agricultor, fez-se a leitura das conclusões dos dez pontos de Santa Cruz de la Sierra, onde a palavra mudança era repleta de grande conteúdo, era ligada às coisas fundamentais que vocês reivindicam: trabalho digno para aqueles que são excluídos do mercado de trabalho; terra para os camponeses e povos originários; moradia para as famílias sem teto; integração urbana para os bairros populares; eliminação da discriminação, da violência contra as mulheres e as novas formas de escravidão; o fim de todas as guerras, do crime organizado e da repressão; liberdade de expressão e de comunicação democrática; ciência e tecnologia a serviço dos povos. Ouvimos também como vocês se comprometeram a abraçar um projeto de vida que rejeite o consumismo e recupere a solidariedade, o amor entre nós e o respeito pela natureza como valores essenciais.

    É a felicidade de "viver bem" que vocês reclamam, a "vida boa", e não esse ideal egoísta que enganosamente inverte as palavras e propõe a "boa vida".

    Nós, os que hoje estamos aqui, de origens, crenças e ideias diferentes, talvez não estejamos de acordo em tudo. Seguramente temos pensamentos diferentes sobre muitas coisas, mas concordamos nesses pontos.

    Soube também de encontros e oficinas realizados em diversos países, onde se multiplicaram os debates à luz da realidade de cada comunidade. Isso é muito importante porque as soluções reais para as problemáticas atuais não sairão de uma, três ou mil conferências: devem ser fruto de um discernimento coletivo que amadureça nos territórios junto com os irmãos, um discernimento que se torne ação transformadora "segundo os lugares, os tempos e as pessoas", como dizia Santo Inácio. Caso contrário, corremos o risco das abstrações, de "certos nominalismos declarativos (slogans) que são frases bonitas, mas não conseguem apoiar a vida das nossas comunidades" (Carta ao Presidente da Pontifícia Comissão para a América Latina, 19 de março de 2016).

    O colonialismo ideológico globalizante procura impor receitas supraculturais que não respeitam a identidade dos povos. Vocês seguem por outro caminho que é, ao mesmo tempo, local e universal. Um caminho que me recorda como Jesus pediu para organizar a multidão em grupos de cinquenta para distribuir o pão (Cf. Homilia na Solenidade de Corpus Christi, Buenos Aires, 12 de junho de 2004).

    Há pouco pudemos assistir ao vídeo que vocês apresentaram como conclusão deste terceiro encontro. Vimos os rostos de vocês nos debates sobre como enfrentar "a desigualdade que gera violência". Tantas propostas, tanta criatividade, tanta esperança na voz de vocês que, talvez, sejam os que mais motivos teriam para lamentar-se, permanecer paralisados nos conflitos, cair na tentação do negativo. Mesmo assim vocês olham em frente, pensam, discutem, propõem e agem. Parabenizo-os, acompanho-os, peço-lhes que continuem a abrir caminhos e a lutar. Isto me dá força, nos dá força. Acredito que este nosso diálogo, que se soma aos esforços de tantos milhões de pessoas que trabalham diariamente pela justiça em todo o mundo, está lançando raízes.
    O terror e os muros
    No entanto, esta germinação, que é lenta, que tem os seus tempos como toda gestação, é ameaçada pela velocidade de um mecanismo destrutivo que age em sentido contrário. Existem forças poderosas que podem neutralizar este processo de amadurecimento de uma mudança que seja capaz de deslocar o primado do dinheiro e colocar novamente no centro o ser humano. Esse "fio invisível" de que falamos na Bolívia, essa estrutura injusta que liga todas as exclusões que vocês sofrem, pode consolidar-se e transformar-se em um chicote, um chicote existencial que, no Antigo Testamento, escraviza, rouba a liberdade, fere sem misericórdia alguns e ameaça constantemente os outros, para abater a todos como gado até onde quer o dinheiro divinizado.

    Quem governa então? O dinheiro. Como governa? Com o chicote do medo, da desigualdade, da violência econômica, social, cultural e militar que gera sempre mais violência em uma espiral descendente que parece não acabar nunca. Quanta dor, quanto medo! Há - eu disse recentemente -, há um terrorismo de base que emana do controle global do dinheiro sobre a terra e ameaça toda a humanidade. Deste terrorismo de base se alimentam os terrorismos derivados, como o narcoterrorismo, o terrorismo de Estado e aquele que alguns erroneamente chamam de terrorismo étnico ou religiosos.

    Nenhum povo, nenhuma religião é terrorista. É verdade, existem pequenos grupos fundamentalistas em todos os lugares. Mas o terrorismo inicia quando "é expulsa a maravilha da criação, o homem e a mulher, e colocado ali o dinheiro" (Entrevista coletiva no voo de retorno da Viagem Apostólica à Polônia, 31 de julho de 2016). Esse sistema é terrorista.

    Há quase cem anos, Pio XI previa o crescimento de uma ditadura econômica global que ele chamou de "imperialismo internacional do dinheiro" (Carta Encíclica Quadrasegimo Anno, 15 de maio de 1931, 109). A sala em que agora nos encontramos chama-se "Paulo VI", e foi Paulo VI que denunciou há quase cinquenta anos a "nova forma abusiva de dominação econômica no campo social, cultural e político" (Carta Encíclica Octogesima Adveniens, 14 de maio 1971, 44). São palavras duras, mas justas de meus predecessores que perscrutaram o futuro. A Igreja e os profetas disseram, há milênios, aquilo que tanto escandaliza que o Papa repita neste tempo, em que tudo isto atinge expressões inéditas. Toda aDoutrina Social da Igreja e o magistério de meus predecessores se rebelam contra o ídolo do dinheiro que reina ao invés de servir, tiraniza e aterroriza a humanidade.

    Nenhuma tirania se sustenta sem explorar os nossos medos. Por isso, toda a tirania é terrorista. E quando este terror, que foi semeado nas periferias com massacres, saques, opressão e injustiça, explode nos centros com diversas formas de violência, inclusive com atentados odiosos e covardes, os cidadãos que ainda conservam alguns direitos são tentados pela falsa segurança dos muros físicos ou sociais. Muros que fecham alguns e exilam outros. Cidadãos murados, aterrorizados, de um lado; excluídos, exilados, ainda mais aterrorizados, de outro. É essa a vida que Deus nosso Pai quer para os seus filhos?

    O medo é alimentado, manipulado... Porque o medo, além de ser um bom negócio para os mercadores de armas e de morte, nos enfraquece, nos desestabiliza, destrói as nossas defesas psicológicas e espirituais, nos anestesia diante do sofrimento alheio e, no final, nos torna cruéis. Quando ouvimos que se festeja a morte de um jovem que talvez tenha errado o caminho, quando vemos que se prefere a guerra à paz, quando vemos que se difunde a xenofobia, quando constatamos que ganham terreno as propostas intolerantes; por trás desta crueldade que parece massificar-se existe o frio sopro do medo.

    Peço-lhes para que rezemos por todos aqueles que têm medo, rezemos para que Deus dê a eles coragem e que neste ano da misericórdia possa amolecer os nossos corações. A misericórdia não é fácil, não é fácil... exige coragem. Por isso, Jesus nos diz: "Não tenham medo" (Mt 14, 27), porque a misericórdia é o melhor antídoto contra o medo. É muito melhor do que os antidepressivos e dos ansiolíticos. Muito mais eficaz do que os muros, as grades, os alarmes e as armas. E é grátis: é um dom de Deus.

    Queridos irmãos e irmãs, todos os muros caem. Todos. Não nos deixemos enganar. Como vocês disseram: "Continuamos a trabalhar para construir pontes entre os povos, pontes que nos permitem derrubar os muros da exclusão e da exploração (Documento conclusivo do II Encontro Mundial dos Movimentos Populares, 11 de julho de 2015, Santa Cruz de la Sierra, Bolívia). Enfrentemos o Terror com o Amor.
    O amor e as pontes
    Um dia como este, um sábado, Jesus fez duas coisas que, nos diz o Evangelho, precipitaram o complô para matá-lo. Passava com os seus discípulos por um campo, um plantação. Os discípulos estavam com fome e comeram as espigas. Nada se diz sobre o "dono" daquele campo... encontrava-se subjacente a destinação universal dos bens. O certo é que diante da fome Jesus deu prioridade à dignidade dos filhos de Deus antes que a uma interpretação formalística, obsequiosa e interessada da norma. Quando os doutores da lei se queixaram com indignação hipócrita, Jesus recordou a eles que Deus quer o amor e não sacrifícios, e explicou que o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado (Cf. Mt 2, 27).

    Jesus enfrentou o pensamento hipócrita e presunçoso com a inteligência humilde do coração (Cf.Homilia, I Congresso de Evangelização da Cultura, Buenos Aires, 3 de novembro de 2006), que prioriza sempre o ser humano e não aceita que determinadas lógicas impeçam a sua liberdade de viver, amar e servir o próximo.

    E depois, neste mesmo dia, Jesus fez algo "pior", algo que irritou ainda mais os hipócritas e os soberbos que o estavam observando porque procuram uma desculpa para capturá-lo. Ele curou a mão atrofiada de um homem. A mão, este sinal tão forte do trabalhar, do trabalho. Jesus restituiu àquele homem a capacidade de trabalhar e com isso restituiu-lhe a dignidade. Quantas mãos atrofiadas, quantas pessoas privadas da dignidade do trabalho, porque os hipócritas, para defender sistemas injustos, se opõem a que sejam curados.

    Penso, às vezes, que quando vocês, os pobres organizados, inventam o seu próprio trabalho, criando uma cooperativa, recuperando uma fábrica falida, reciclando os descartes da sociedade de consumo, enfrentando as inclemências do tempo para vender em uma praça, reivindicando um pedaço de terra para cultivar e alimentar quem tem fome, quando vocês estão imitando Jesus, porque buscam curar, mesmo que somente um pouquinho, mesmo se precariamente, essa atrofia do sistema socioeconômico reinante que é o desemprego. Não me surpreende que também vocês, às vezes, sejam vigiados ou perseguidos, nem me surpreende que aos soberbos não interessa aquilo que vocês dizem.

    Jesus, que naquele sábado arriscou a vida, porque depois de curar aquela mão, fariseus e herodianos (Cf. Mc 3,6), dois partidos opostos entre si, que temiam o povo e também o império, fizeram os seus cálculos e confabularam para matá-lo. Sei que muitos de vocês arriscam a vida. Sei que alguns não estão aqui hoje porque arriscaram a vida... Mas não existe amor maior do que dar a vida. Isto nos ensina Jesus.

    Os "3-T", esse grito de vocês que faço meu, tem algo daquela inteligência humilde, mas ao mesmo tempo forte e curador. Um projeto-ponte dos povos diante do projeto-muro do dinheiro. Um projeto que visa o desenvolvimento humano integral. Alguns sabem que o nosso amigo cardeal Turkson preside o dicastério que leva este nome: Desenvolvimento Humano Integral. O contrário do desenvolvimento, se poderia dizer, é a atrofia, a paralisia.

    Devemos ajudar a curar o mundo da sua atrofia moral. Este sistema atrofiado é capaz de fornecer alguns implantes cosméticos que não são verdadeiro desenvolvimento: crescimento econômico, progressos tecnológicos, maior "eficiência" para produzir coisas que se compram, são usadas e jogadas fora, envolvendo-nos a todos em uma vertiginosa dinâmica do descarte... mas não permite o desenvolvimento do ser humano na sua integralidade, o desenvolvimento que não se reduz ao consumo, que não se reduz ao bem-estar de poucos, que inclui todos os povos e pessoas na plenitude da sua dignidade, usufruindo fraternalmente a maravilha da criação. Este é o desenvolvimento do qual temos necessidade: humano, integral, respeitoso com a Criação.
    A bancarrota e o resgate
    Queridos irmãos, quero compartilhar com vocês algumas reflexões sobre outros dois temas que, junto com as "3-T" e a ecologia integral, foram centrais em seus debates dos últimos dias e são centrais neste tempo histórico.

    Sei que vocês dedicaram um dia ao drama dos migrantes, dos refugiados e dos deslocados. O que fazer diante desta tragédia? No dicastério cujo responsável é o cardeal Turkson existe um setor que se ocupa destas situações. Decidi que, ao menos por um certo tempo, este setor vai ficar submetido diretamente ao Pontífice, porque esta é uma situação infame, que posso somente descrever com uma palavra que me saiu espontaneamente em Lampedusa: vergonha.

    Lá, assim como em Lesbos, pude ouvir de perto o sofrimento de tantas famílias expulsas de sua terra por motivos econômicos ou violências de todos os tipos, multidões exiladas - disse isto diante das autoridades de todo o mundo - por causa de um sistema socioeconômico injusto e de conflitos bélicos que não provocaram, que não foram criados por aqueles que hoje sofrem o doloroso desenraizamento da sua Pátria, mas antes muitos daqueles que se recusam a recebê-los.

    Faço minhas as palavras do meu irmão o Arcebispo Jerônimo da Grécia: "Quem vê os olhos das crianças que encontramos nos campos de refugiados é capaz de reconhecer imediatamente, na sua totalidade, a "bancarrota" da humanidade" (Discurso no Campo de Refugiados de Moria, em Lesbos, 16 de abril de 2016). O que acontece no mundo de hoje que, quando ocorre a bancarrota de um banco, imediatamente aparecem somas escandalosas para salvá-lo, mas quando acontece esta bancarrota da humanidade não existe sequer uma milésima parte para salvar estes irmãos que sofrem tanto? E assim o Mediterrâneo transformou-se em um cemitério, e não somente o Mediterrâneo... tantos cemitérios próximos aos muros, muros manchados de sangue inocente.

    O medo endurece o coração e transforma-se em crueldade cega que se recusa a ver o sangue, a dor, o rosto do outro. Quem disse isso foi o meu irmão o Patriarca Bartolomeu: "Quem tem medo de vocês não olhou nos olhos de vocês. Quem tem medo de vocês não viu os rostos de vocês. Quem tem medo de vocês não viu os filhos de vocês. Esquece que a dignidade e a liberdade transcendem o medo e a divisão. Esquece que a migração não é um problema do Oriente Médio e da África do norte, da Europa e da Grécia. É um problema do mundo" (Discurso no Campo de Refugiados de Moria, Lesbos, 16 de abril de 2016).

    É, na realidade, um problema do mundo. Ninguém deveria ver-se obrigado a fugir da própria Pátria. Mas o mal é duplo quando, diante daquelas terríveis circunstâncias, o migrante se vê lançado nas garras dos traficantes de pessoas para atravessar as fronteiras. E é triplo se, ao chegar à terra em que se pensava encontrar um futuro melhor, são desprezados, explorados e até mesmo escravizados. Isto se pode ver em qualquer canto de centenas de cidades.

    Peço-lhes para fazerem todo o possível e que nunca se esqueçam de que também Jesus, Maria e José experimentaram a condição dramática dos refugiados. Peço-lhes para exercerem aquela solidariedade tão especial que existe entre aqueles que sofreram. Vocês sabem recuperar fábricas falidas, reciclar aquilo que outros jogam fora, criar postos de trabalho, cultivar a terra, construir casas, integrar bairros segregados e reclamar sem descanso como essa viúva do Evangelho que pede justiça insistentemente (Cf. Lc 18, 1-8).

    Talvez com o seu exemplo e a sua insistência, alguns Estados e Organizações internacionais abrirão os olhos e adotarão as medidas adequadas para acolher e integrar plenamente todos aqueles que, por um motivo ou outro, buscam refúgio longe de casa. E também para enfrentar as causas profundas pelas quais milhares de homens, mulheres e crianças são expulsos a cada dia de sua terra natal.

    Dar o exemplo e reclamar é um modo de fazer política, e isso me leva ao segundo tema que vocês debateram no encontro: a relação entre povo e democracia. Uma relação que deveria ser natural e fluída, mas que corre o perigo de ofuscar-se até tornar-se irreconhecível. O abismo entre os povos e as nossas atuais formas de democracia se alarga sempre mais em consequência do enorme poder dos grupos econômicos e midiáticos que parecem dominá-las.

    Os movimentos populares, eu sei disso, não são partidos políticos e deixem que eu lhes diga que, em grande parte, aqui está a riqueza de vocês, porque vocês expressam uma forma diversa, dinâmica e vital de participação social na vida pública. Mas não tenham medo de entrar nas grandes discussões, na Política com maiúscula, e cito novamente Paulo VI: "A política é uma maneira exigente - se bem que não seja a única - de viver o compromisso cristão a serviço dos outros" (Carta Apostólica Octosegima Adveniens, 14 de maio de 1971, 46).

    Gostaria de sublinhar dois riscos que giram em torno da relação entre os movimentos populares e a política: o risco de deixar-se formatar e o risco de deixar-se corromper.

    Primeiro, não se deixar formatar, porque alguns dizem: a cooperativa, o refeitório popular, a horta agroecológica, as microempresas, o projeto dos planos assistenciais... até aqui tudo bem. Enquanto vocês se mantiverem limitados às "políticas sociais", enquanto vocês não colocarem em discussão a política econômica ou a Política com maiúscula, vocês são tolerados. A ideia das políticas sociais concebidas como uma política para os pobres, mas nunca com os pobres, nunca dos pobres e muito menos inserida em um projeto que reúna os povos, me parece, às vezes, uma espécie de caminhão caçamba maquiado para conter o descarte do sistema.

    Quando vocês, a partir da sua relação com o território, da sua realidade cotidiana, do bairro, do local, da organização do trabalho comunitário, das relações de pessoa a pessoa, ousarem colocar em discussão as "macro-relações", quando gritarem, quando pretenderem indicar ao poder um planejamento mais integral, então vocês não serão mais tolerados tanto, porque estarão saindo do formato, estarão se colocando no terreno das grandes decisões que alguns pretendem monopolizar em pequenas castas. Assim, a democracia se atrofia, torna-se um nominalismo, uma formalidade, perde representatividade, vai se desencarnando porque deixa fora o povo na sua luta cotidiana pela dignidade, na construção do seu destino.

    Vocês, organizações dos excluídos e tantas organizações de outros setores da sociedade, são chamados a revitalizar, a refundar as democracias que estão passando por uma verdadeira crise. Não caiam na tentação da limitação que os reduz a atores secundários, ou pior ainda, a meros administradores da miséria existente. Neste tempo de paralisias, de desorientação e de propostas destrutivas, a participação como protagonistas dos povos que buscam o bem comum pode vencer, com a ajuda de Deus, os falsos profetas que exploram o medo e o desespero, que vendem fórmulas mágicas de ódio e crueldade ou de um bem-estar egoísta e uma segurança ilusória.

    Sabemos que "enquanto não forem radicalmente solucionados os problemas dos pobres, renunciando à autonomia absoluta dos mercados e da especulação financeira e atacando as causas estruturais da desigualdade social, não se resolverão os problemas do mundo e, em definitivo, problema algum. A desigualdade é a raiz dos males sociais" (Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, 202). Por isso, disse e repito, "o futuro da humanidade não está somente nas mãos dos grandes líderes, das grandes potências e das elites. Está, sobretudo, nas mãos dos povos; na sua capacidade de organizar-se e também nas mãos que irrigam, com humildade e convicção, este processo de mudanças" (Discurso ao II Encontro Mundial dos Movimentos Populares, Santa Cruz de la Sierra, 9 de julho de 2015).

    Também a Igreja pode e deve, sem pretender ter o monopólio da verdade, pronunciar-se e agir especialmente diante das "situações em que se tocam as chagas e os sofrimentos dramáticos, e nos quais estão envolvidos os valores, a ética, as ciências sociais e a fé" (Pronunciamento no Encontro de Juízes e Magistrados contra o Tráfico de Pessoas e o Crime Organizado, Vaticano, 3 de junho 2016).

    O segundo risco, dizia-lhes, é deixar-se corromper. Como a política não é um assunto dos "políticos", a corrupção não é um vício exclusivo da política. Existe corrupção na política, existe corrupção nas empresas, existe corrupção nos meios de comunicação, existe corrupção nas Igrejas e existe corrupção também nas organizações sociais e nos movimentos populares. É justo dizer que existe uma corrupção radicada em alguns âmbitos da vida econômica, em particular na atividade financeira, e que é menos notícia do que a corrupção diretamente e ligada ao âmbito político e social. É justo dizer que muitas vezes os casos de corrupção são utilizados com más intenções.

    Mas também é justo esclarecer que aqueles que escolheram uma vida de serviço, têm uma obrigação adicional que se soma à honestidade com que qualquer pessoas deve agir na vida. A medida é muito alta: é necessário viver a vocação de servir com um forte sentido de austeridade e a humildade. Isso vale para os políticos, mas vale também para os dirigentes sociais e para nós pastores.

    A qualquer pessoa que seja muito apegada às coisas materiais ou ao espelho, a quem ama o dinheiro, os banquetes exuberantes, as mansões suntuosas, as roupas refinadas, os carros de luxo, aconselharia a entender o que está acontecendo em seu coração e a rezar a Deus para que o liberte destes apegos. Mas, parafraseando o ex-presidente latino-americano que se encontra aqui, aquele que está afeiçoado a todas estas coisas, por favor, não entre na política, não entre em uma organização social ou em um movimento popular, porque causaria muito dano a si mesmo e ao próximo e mancharia a nobre causa que assumiu.

    Diante da tentação da corrupção, não existe melhor remédio do que a austeridade; e praticar a austeridade é, também, pregar com o exemplo. Peço-lhes que não subestimem o valor do exemplo, porque tem mais força do que mil palavras, de mil panfletos, de mil "curtidas", de mil retweets, de mil vídeos no Youtube. O exemplo de uma vida austera a serviço do próximo é o melhor modo para promover o bem comum e o projeto-ponte dos 3-T. Peço-lhes, dirigentes, para não se cansarem de praticar esta austeridade e peço a todos que exijam dos dirigentes essa austeridade, que - por outro lado - os fará muito felizes.

    Queridas irmãs e irmãos, a corrupção, a soberba e o exibicionismo dos dirigentes aumenta o descrédito coletivo, a sensação de abandono e alimenta o mecanismo do medo que sustenta este sistema iníquo.

    Gostaria, para concluir, pedir-lhes para continuar a combater o medo com uma vida de serviço, solidariedade e humildade em favor dos povos e especialmente daqueles que sofrem. Vocês vão errar muitas vezes, todos erramos, mas se perseveramos neste caminho, cedo ou tarde, veremos os frutos. E insisto, contra o terror, o melhor remédio é o amor. O amor tudo cura. Alguns sabem que depois doSínodo sobre a Família escrevi a Amoris Laetitia, um documento sobre o amor em cada família, mas também naquela outra família que é o bairro, a comunidade, o povo, a humanidade. Alguém de vocês me pediu para distribuir um fascículo que contém um fragmento do capítulo quatro deste documento. Penso que vão entregá-lo a vocês na saída. E, portanto, com a minha bênção. Lá se encontram alguns "conselhos úteis" para praticar o mais importante dos mandamentos de Jesus.

    Na Amoris Laetitia cito um falecido líder afroamericano, Martin Luther King, que sabia sempre escolher o amor fraterno até mesmo em meio às piores perseguições e humilhações. Quero recordar esta passagem com vocês: "Quando te elevas ao nível do amor, da sua grande beleza e poder, a única coisa que procuras derrotar são os sistemas malignos. Às pessoas que caíram na armadilha desse sistema, tu as amas, mas procuras derrotar o sistema (...) Ódio por ódio só intensifica a existência do ódio e do mal no universo. Se eu te bato e tu me bates, e te devolvo a pancada e tu me devolves a pancada, e assim por diante, obviamente continua-se até o infinito; simplesmente nunca termina. Nalgum momento, alguém deve ter um pouco de bom senso, e esta é a pessoa forte. A pessoa forte é aquela que pode quebrar a cadeia do ódio, a cadeia do mal" (n. 118; Sermão na Igreja Batista da Avenida Dexter, Montgomery, Alabama, 17 de novembro de 1957).

    Agradeço-lhes novamente pela sua presença. Agradeço-lhes pelo seu trabalho. Desejo pedir a Deus nosso Pai que os acompanhe e os abençoe, que os cumule de seu amor e os defenda no caminho, dando-lhes em abundância a força que nos mantém em pé e nos dá a coragem para romper a cadeia do ódio: a força é a esperança. Peço-lhes, por favor, para rezarem por mim, e aqueles que não podem rezar, já sabem, pensem bem de mim e me enviem uma boa onda. Obrigado. 

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