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quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Dieese aponta impactos aterradores do PL 257 e da PEC 241 para servidores e população pobre

Dieese aponta impactos aterradores do PL 257 e da PEC 241 para servidores e população pobre

Estudo sobre as medidas de ajuste fiscal revela em detalhes os efeitos tenebrosos das iniciativas patrocinadas pelo governo Temer contra municípios, servidores e população.

Escrito por: Confetam • Publicado em: 23/08/2016 - 16:51 • Última modificação: 30/08/2016 - 11:16

.O objetivo de Temer é adotar o Estado mínimo e restringir ao máximo os serviços públicos no Brasil
Relatório do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócioeconômicos (Dieese) sobre o Projeto de Lei Complementar nº 257/16, a Proposta de Emenda Constiucional nº 241/16 e demais medidas de ajuste fiscal que tramitam no Congresso Nacional confirmam os efeitos aterradores das iniciativas patrocinadas pelo governo ilegítimo de Michel Temer contra estados, municípios, servidores públicos e a população mais pobre do Brasil.
O estudo do Dieese sobre o Macrossetor Serviço Público atesta o claro objetivo da pauta bomba de Temer no Parlamento: rever o papel do Estado e restringir ao máximo os serviços públicos no Brasil. Confira abaixo a íntegra do relatório.
Com a redução da atividade econômica observada no último período, houve uma forte queda na arrecadação fiscal da União, estados e municípios. Com esse cenário, o governo interino aprofundou o corte em despesas que atinge importantes políticas públicas, como saúde, educação e habitação. Por outro lado, tem sido extremamente generoso com parte reduzida do funcionalismo público, parlamentares e com o setor financeiro, quando aprovou no Congresso um aumento do déficit público para 2016 (R$ 170 bi) e 2017 (R$ 140 bilhões).
Apesar do Projeto de Lei Complementar (PLP) 257/2016 ter sido enviado para o Congresso Nacional ainda no governo Dilma - quando foi fortemente criticado pelo movimento sindical, em especial, pelos servidores públicos -, há uma nova orientação
política no governo interino, que tem como principais características: a redução do papel do Estado; a focalização das políticas públicas (sociais, industrial, desenvolvimento agrário, desenvolvimento regional) e a focalização também de áreas definidas constitucionalmente como universais (saúde e educação).
A ação do governo interino também é marcada pela revisão da estratégia de desenvolvimento: inserção subordina no nível internacional; ampliação da participação do capital privado nacional e internacional; restrição da política de desenvolvimento agrícola, restrição da política de desenvolvimento regional e da redução da participação social no desenho das políticas.
Nessa perspectiva, os projetos de lei e demais medidas em questão propõem medidas de ajuste fiscal, especialmente através do controle e estabelecimento de teto para o gasto público, que possuem um viés de redução do papel do Estado e estímulo à participação da iniciativa privada, seja através da privatização, das concessões em áreas de logística e infraestrutura, de parcerias para complementar a oferta de serviços públicos (saneamento, transporte, habitação, saúde, educação, etc.), ameaçando os direitos dos trabalhadores do setor público e a universalização e qualidade dos serviços públicos.
As principais medidas em debate nesse sentido são:
1. Estabelecer um limite para as despesas primárias (total de gastos, inclusive investimentos, descontado as despesas financeiras), pelos próximos 20 anos, baseado na inflação/IPCA (PEC 241/2016);
2. Limite para o crescimento do gasto da União: em situações onde há previsão de que o limite estabelecido para o gasto pode ser descumprido, impedindo a realização do superávit primário, haverá três estágios de cortes para reduzir despesas (PLP 257/2016);
3. Plano de Auxílio aos Estados e ao Distrito Federal: medidas que alongam o prazo de pagamento das dividas e reduzem parcelas, com contrapartidas de controle dos gastos (PLP 257/2016);
4. Aumento da Desvinculação de Receitas da União (DRU) de 20% para 30%: autorizando a realocação de parte das receitas de áreas como saúde, educação e previdência (PEC 87/2015);
5. Estabelecimento da Desvinculação das Receitas de Estados e Municípios (DREM) que propõe que até 25% da arrecadação dos impostos podem ser livremente alocados pelo executivo estadual e municipal, reduzindo os valores destinados para a educação e saúde (PEC 143/2015);
6. Manutenção do contingenciamento de R$ 23,4 bilhões (dos R$ 44,6 bilhões contingenciados em fevereiro e abril);
7. Antecipação de pagamento pelo BNDES de dívida junto a Tesouro Nacional, descapitalizando o banco, reduzindo recursos para investimentos;
8. Extinção do Fundo Soberano;
9. Revisão das vinculações orçamentárias.
A ação do governo central poderia estabelecer outra dinâmica: deveria pensar em mecanismos que revertam o cenário negativo da arrecadação (apesar de cada dia se tornar mais difícil), promovendo o crescimento com inclusão social e a ampliação dos serviços e políticas públicas:
10. Medidas para a retomada da atividade econômica revertendo à política macroeconômica recessiva (em especial, redução da taxa de juros);
11.Reforma tributária: com instrumentos para tornar a arrecadação menos volátil (baseada mais na renda e menos no consumo), aumento da progressividade, incluindo cobrança de tributos de segmentos beneficiados por isenções inócuas e injustas, e por fim, tornando mais efetiva as ações contra sonegação.
Também chama atenção o fato de o governo não propor medidas para rever os gastos com juros da dívida pública, que têm sido extremamente altos: somente nos 12 últimos meses (até maio de 2016), ele foi de R$ 450 bilhões de reais: quatro vezes maior do que o orçamento anual da União em saúde.
Ao contrário, o governo interino retomou uma leitura mais rígida da política macroeconômica fundada no tripé (1) metas de inflação, (2) taxa de câmbio flutuante e (3) metas de superávit fiscal primário, ainda que nesse último ponto, a meta para 2016 tenha sido bastante generosa para acomodar as necessidades políticas dos acordos realizados para o impeachment, o que pode garantir um déficit de até 3%, sem as pressões do mercado, da mídia ou de partidos que iniciaram uma cruzada contra o governo Dilma devido ao déficit de 0,5% em 2014.
Considerando essa perspectiva, as propostas de controle de gastos públicos em debate não tratam exatamente de “por as contas em dia”, mas sim, de estabelecer quem fica com os recursos públicos na disputa em curso no Brasil.
PLP 257/2016
O PLP 257/2016 propõe, em linhas gerais:
a) Plano de Auxílio aos Estados e ao Distrito Federal: medidas que alongam o prazo de pagamento das dívidas e reduzem parcelas, com contrapartidas de controle dos gastos.
b) Proposta de limite para o crescimento do gasto: em situações onde há previsão de que o limite do gasto pode ser descumprido, haverá 3 estágios de cortes para reduzir despesas;
c) Regime Especial de Contingenciamento (REC): estabelece quais os itens que não devem entrar no programa de cortes ou contingenciamento;
d) Depósitos remunerados: instrumento alternativo de política monetária que minimizariam a necessidade de aportes ao Banco Central.
PEC 241/2016
A PEC 241/16 insere mais cinco artigos no Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição Federal e institui para todos os Poderes da União e os órgãos federais com autonomia administrativa e financeira integrantes do Orçamento Fiscal e da Seguridade Social, o Novo Regime Fiscal, que vigorará por vinte anos, contados a partir de 2017.
O novo regime fiscal proposto fixa para cada ano um limite individualizado para a despesa primária total do Poder Executivo, do Poder Judiciário, do Poder Legislativo, inclusive o Tribunal de Contas da União (TCU), do Ministério Público da União e da Defensoria Pública da União, incluindo entidades da administração pública federal direta e indireta, os fundos e as fundações instituídos e mantidos pelo Poder Público e as empresas estatais dependentes.
Os limites mínimos constitucionais definidos para aplicação nas áreas de Saúde e Educação baseado no percentual das receitas, também serão corrigidas na forma estabelecida na PEC, ou seja, o limite total de gastos anual será estabelecido pelo IPCA do ano anterior. Nesse sentido, a proposta acaba com a atual vinculação de receitas para gastos nessas áreas.
Mas seu impacto irá além: o teto para despesas primárias será limitado pelo reajuste da inflação, reduzindo o total das despesas primárias e promovendo a “canibalização” das áreas pelos recursos reduzidos.
A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados aprovou, no dia 09/08/2016, por 33 votos a 18, a admissibilidade da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 241/2016, do Poder Executivo, que limita gastos públicos federais por 20 anos.
No dia 11/09/2016 foi instalada a Comissão Especial destinada a emitir parecer à PEC 241/2016. Após a designação do relator, será aberto prazo de dez sessões de plenário para apresentação de emendas à proposta. A emenda precisa do apoio de 172 deputados (1/3 da Câmara dos Deputados). Depois, a PEC tem de ser aprovada em dois turnos pelo Plenário, que precisa de pelo menos 308 votos (3/5 dos deputados) em cada uma das votações.
Impactos sobre estados e Municípios
Quanto aos estados e municípios, o governo federal tem dito que será mais rígido com o cumprimento das metas de superávit dos entes federativos, que têm sido integralmente realizadas pela União (com exceção de 2014 e 2015 que tiveram um resultado negativo). Isso irá impor uma lógica de cortes nos gastos públicos nessas esferas de governo para que consigam realizar as metas.
Outras medidas que devem ter impacto sobre os orçamentos dos estados e municípios são:
PLP 257/2016: impõe limites para o gasto nos estados. Apesar de ter deixado de fora o congelamento de salários e de realização de concursos na votação realizada no dia 10/08/2016, o projeto ainda impõem medidas de controle de gastos, com teto para reajuste das despesas primárias equivalente à inflação do ano anterior, como proposto pela PEC 241, para firmar os acordos de renegociação da divida;
PEC 241/2016: terá efeitos negativos em cascata para estados e municípios devido a progressivo congelamento dos recursos para as áreas de saúde e educação.
DREM: Desvinculação de Receitas dos Estados e Municípios (PEC 143/2015): propõe que até 25% da arrecadação dos impostos podem ser livremente alocados pelo executivo municipal, autorizando a retirada de parte dos recursos obrigatórios destinados para a educação e saúde.
Política macroeconômica recessiva: com a queda da atividade econômica, cai à arrecadação e também os repasses para os estados e municípios. Por exemplo, 81% dos municípios brasileiros têm o Fundo de Participação dos Municípios (FPM) como
principal fonte de recursos.
Reforma da previdência e redução das políticas de transferência de renda: impacto nos municípios menores, onde a população tem grande dependência de benefícios previdenciários e das políticas de transferência de renda.
Nesse cenário, os recursos para o custeio de serviços públicos e investimentos serão fortemente impactados. Os investimentos em equipamentos públicos e infraestrutura, através da União, realizados no último período, tendem a ser reduzidos, bem como recursos para áreas como saúde e educação, revertendo à dinâmica positiva observada no último período na diminuição das desigualdades regionais. Dessa forma, a atuação dos entes federativos também será regida pela lógica do estado mínimo e da focalização.
Impactos sobre os servidores públicos
Somado o forte ajuste fiscal mais as ações de redução do papel do estado, espera-se uma redução do quadro de servidores e limites para negociação de melhorias salariais e de condições de trabalho. Destaca-se:
Restrição aos reajustes salariais e de outros componentes da remuneração (apesar de ter sido retirado a proibição de reajuste por 24 meses presente no PLP 257/2016, as medidas em curso restringem efetivamente o espaço para reajustes salariais e melhorias nas condições de trabalho);
Redução do quadro de trabalhadores do setor público e aumento da carga de trabalho para os que ficarem na ativa, principalmente, pela não contratação de servidores, e entre aqueles com vínculos de trabalho que não são estatutários (terceirizados, CLT, outros), como resultado da redução efetiva de recursos;
- Reforma da previdência regime próprio (PLP 257/2016);
- Estímulo a previdência completar (PLP 257/2016).
PEC 241/2016: em caso de não cumprimento do teto para as despesas primárias, no ano subsequente, estará proibido:
- Criação de cargo, emprego ou função que implique aumento de despesa;
- Alteração de estrutura de carreira que implique aumento de despesa;
- Admissão ou contratação de pessoal, a qualquer título, ressalvadas as reposições de cargos de chefia e de direção que não acarretem aumento de despesa e aquelas decorrentes de vacâncias de cargos efetivos; e
- A realização de concurso público.
Impactos sobre os serviços públicos
Em especial, com a aprovação da PEC 241/2016, passados 20 anos, mesmo que a população cresça, deveremos ter um serviço público do tamanho que é hoje ou menor. O resultado poderá ser a focalização da saúde (atenção básica, população mais pobre) e educação (ensino fundamental), conforme descrito nas propostas apresentadas nos documentos “Ponte para o Futuro” e “travessia social”, com o esvaziamento do preceito constitucional de universalidade, restringindo o acesso e com impactos sobre a qualidade dos serviços públicos.
Também se espera a revisão de programas sociais, como Bolsa Família (apenas para quem não tem inserção produtiva), FIES e PROUNI (redução das bolsas oferecidas)
Demais impactos
Com os limites impostos pela regra presente na PEC 241/2016, somado à política recessiva, a descapitalização do BNDES e a revisão das desonerações, bem como a nova orientação quanto ao desenvolvimento baseado na iniciativa privada, espera-se:
- Crescimento da restrição dos investimentos públicos em infraestrutura e infraestrutura social, com impactos negativos sobre o setor produtivo;
Esvaziamento das ferramentas que promoveram a redução das desigualdades regionais no último período;
- Esvaziamento das ferramentas que promoveram a política de desenvolvimento agrário no último período. Impactos negativos no preço dos alimentos e pobreza no campo;
- Limitação dos instrumentos de política industrial (investimentos através do BNDES, investimentos públicos alavancando setor produtivo e revisão das desonerações).
Simulações nas despesas primárias: efeitos da PEC 241/2016 (dados provisórios, sujeitos a revisão)
Na simulação, supondo um intervalo de 10 anos (2006 a 2015), aplicando a regra proposta na PEC, os impactos seriam os seguintes:
- Perda acumulada na despesa primária: R$ 2,2 trilhões (queda de 44% no orçamento de 2015 se fosse aplicada a regra Temer em 2006);
Perda acumulada no Ministério da Educação: R$ 111,0 bilhões (queda de 62% no orçamento de 2015 se fosse aplicada a regra Temer em 2006);
- Perda acumulada no Ministério da Saúde: R$ 149,7 bilhões (queda de 36% no orçamento de 2015 se fosse aplicada a regra Temer em 2006);
- Perda no Ministério do Desenvolvimento Social: R$ 79,2 bilhões (queda de 50,1% no orçamento de 2015 se fosse aplicada a regra Temer em 2006);
- Mesmo se mantidas as proporções de gasto com saúde e educação nas despesas primárias em 2006 (como é a PEC 241), já haveria problemas de subfinanciamento de outras despesas, o que tornaria inevitável modificá-las, em especial a previdência e os gastos com pessoal.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

José Gomes Temporão / “PEC 241 é condenação de morte para milhares de brasileiros”

Entrevista – José Gomes Temporão

“PEC 241 é condenação de morte para milhares de brasileiros”

por Rodrigo Martins — publicado 10/10/2016 03h53
Em vez de sacrificar a saúde e a educação no ajuste fiscal, o ex-ministro propõe o enfrentamento à injusta estrutura tributária do País
Adriana Lorete
Temporão
'Haverá uma perda real de recursos para saúde, enquanto a demanda só aumenta', diz Temporão


Subfinanciado desde a sua criação, o Sistema Único de Saúde já tinha a sua sustentabilidade ameaçada pelas transformações que o País passa: um acelerado envelhecimento da população, acompanhado do aumento da prevalência de doenças crônicas, a demandar tratamentos prolongados e dispendiosos. APEC 241, que congela os gastos públicos por 20 anos, apenas agrava o problema, com a perspectiva de perda real de recursos, avalia o médico José Gomes Temporão, ex-ministro da Saúde do governo Lula.
Aprovada por uma comissão especial da Câmara, a proposta deve ir a votação no plenário nesta semana. Para diminuir resistências parlamentares à aprovação, o relator Darcísio Perondi (PMDB-RS) combinou com o governo uma mudança no projeto. O congelamento dos recursos de saúde e educação começaria não em 2017, como previa a proposta original do governo, mas em 2018. Além disso, o novo relatório estabelece que a base de cálculo do piso da saúde em 2017 será de 15% da receita líquida, e não de 13,7%, como previsto inicialmente. 
Mesmo com o alívio no primeiro ano, é prevista uma perda acumulada de centenas de bilhões de reais ao longo dos 20 anos de vigência. “Essa decisão do Congresso é uma condenação de morte para milhares de brasileiros que terão a saúde impactada por essa medida irresponsável”, diz Temporão, em entrevista a CartaCapital. “Estamos falando de fechamento de leitos hospitalares, de encerramento de serviços de saúde, de demissões de profissionais, de redução do acesso, de aumento da demora no atendimento.”
Para o ex-ministro, o País renuncia ao seu futuro ao sacrificar a saúde e a educação no ajuste fiscal. “Se existe um problema macroeconômico a ser enfrentado, do ponto de vista dos gastos públicos, há outros caminhos. Mas este governo não parece disposto a enfrentar a questão da reforma tributária”, afirma. “Temos uma estrutura tributária regressiva no Brasil, que penaliza os trabalhadores assalariados e a classe média, enquanto os ricos permanecem com os seus privilégios intocados”.
CartaCapital: O que representa a PEC 241 para a saúde pública?José Gomes Temporão: Todos nós, especialistas em saúde pública que militam pela reforma sanitária há décadas, estamos estarrecidos com essa proposta. De um lado, ela denota a ignorância do governo sobre a dinâmica do setor de saúde. Bastaria fazer uma consulta ao portal Saúde Amanhã, da Fiocruz, que abriga uma série de estudos prospectivos dos impactos das transformações econômicas, políticas e sociais no campo da saúde para as próximas décadas, para que a PEC 241 fosse repensada.  
Estamos vivendo um período de aceleradas transformações no Brasil do ponto de vista demográfico, epidemiológico, tecnológico e organizacional. Essas mudanças vão pressionar substancialmente o Sistema Único de Saúde, ameaçando, inclusive, a sua sustentabilidade econômica.
CC: Um desses fatores de pressão é o envelhecimento da população brasileira, pois os idosos demandam maior atenção médica.JGT: Sim, esse é um dos aspectos: a transição demográfica. O Brasil está passando por um processo de envelhecimento populacional muito rápido, praticamente na metade do tempo que a França levou para concluir essa mesma transição. Também há uma mudança no padrão das enfermidades.
As doenças infectocontagiosas estão perdendo espaço relativo, enquanto avançam as doenças crônicas, que representam um custo mais alto, não apenas no diagnóstico, mas em virtude do tratamento prolongado, que pode se estender por toda a vida. A Organização Mundial da Saúde projeta que, em 2030, as principais causas de mortalidade no mundo não serão mais as doenças cardiovasculares ou cerebrovasculares, e sim o câncer, que tem um custo de tratamento altíssimo.
CC: Ou seja, os gastos com saúde só tendem a aumentar.JGT: Na verdade, acho equivocado tratar saúde como gasto. Do conjunto de políticas sociais, ela tem uma dinâmica própria que pode, inclusive, fazer parte da solução macroeconômica para sair da crise. Ao contrário de outras áreas, nas quais a tecnologia costuma substituir o trabalho humano, na saúde ocorre justamente o contrário. Quanto mais tecnologia você incorpora, maior será a demanda de mão-de-obra qualificada.
Envelhecimento
'O Brasil está passando por um processo de envelhecimento populacional muito rápido' (Emerson Bressan/SMCS)
Gostaria, porém, de destacar uma profunda injustiça do ponto de vista político: os que estão patrocinando a PEC 241, esse crime contra a saúde pública, estarão protegidos por seus planos e seguros-saúde, inclusive subsidiados pelos contribuintes. Os funcionários públicos dos três poderes têm planos financiados, em parte, pelos impostos pagos por todos os brasileiros. Os legisladores fazem parte dos 20% da população que dispõem de planos de saúde, mas essa decisão afetará profundamente os 80% que só podem contar com o sistema público.

CC: O governo argumenta que não está retirando dinheiro da saúde.JGT: Isso é retórica. Eles também dizem que, para 2017, colocaram recursos a mais. No entanto, a partir de 2018 a saúde estará submetida à mesma regra, de ter o orçamento reajustado pela inflação acumulada no ano anterior. Ora, isso é desconhecer completamente que a inflação e a dinâmica da saúde seguem uma trajetória absolutamente distinta. Todos sabem disso, há toneladas de estudos que comprovam esse descompasso. Uma medida como essa, que vigorará por 20 anos, levará a um profundo desfinanciamento da saúde, que a partir do terceiro ou quarto ano terá uma perda real de recursos, enquanto a demanda só aumenta.
Se existe um problema macroeconômico a ser enfrentado, do ponto de vista dos gastos públicos, há outros caminhos. Mas este governo não parece disposto a enfrentar a questão da reforma tributária. Por que não taxar melhor os 71 mil brasileiros mais ricos? Eles ganharam, em média, 4,1 milhões de reais no ano de 2013 e estão submetidos a uma carga tributária efetiva inferior a 7% (Confira um artigo a respeito, publicado pelo Centro Internacional de Políticas para o Crescimento Inclusivo, vinculado ao Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento).
Temos uma estrutura tributária regressiva no Brasil, que penaliza os trabalhadores assalariados e a classe média, enquanto os ricos permanecem com os seus privilégios intocados. Deveriam ficar de fora do ajuste fiscal as áreas de saúde, educação, ciência e tecnologia, pois delas dependem o futuro do País, o nosso projeto de desenvolvimento.
CC: Mas quem vai enfrentar os patos da Fiesp? Aquilo parecia ser um recado claro de que os ricos não estão dispostos a pagar mais impostos.JGT: É verdade. Existe uma casta de brasileiros que detém uma fatia muito grande da renda nacional e pagam, proporcionalmente, muito pouco. O Brasil é um dos raros países do mundo que isentam empresários de pagar impostos sobre lucros e dividendos (dos 34 países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, apenas México, Eslováquia e Estônia seguem essa tendência). Ou seja, a empresa paga o seu imposto, mas a pessoa física, quando declara essa renda, não é tributada.
Poderíamos fazer uma profunda discussão sobre essas disparidades, mas isso não entra na agenda política, até porque esse governo expressa justamente os interesses dessa casta de privilegiados.
CC: A bem da verdade, nenhum governo enfrentou com seriedade a questão da regressividade da estrutura tributária no Brasil...JGT: Sim. Infelizmente, isso permaneceu intocado mesmo nos governos petistas, de Lula e Dilma Rousseff. Até hoje estamos nessa encruzilhada, com a necessidade de uma reforma política, de uma reforma tributária, com a saúde e a educação como grandes desafios.
CC: Qual é a estimativa de perda de recursos para a saúde pública?JGT: O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada fez uma projeção, antes dessa última mexida no texto da PEC 241, que demonstra um impacto brutal, de centenas de bilhões de reais (em um cenário de crescimento do PIB de 2% ao ano, a perda acumulada em 20 anos seria de 654 bilhões de reais, segundo uma nota técnica divulgada pelo Ipea no fim de setembro. De acordo com uma projeção feita por uma Consultoria da Câmara, somente no ano de 2025, a perda seria de 63 bilhões de reais – no acumulado de dez anos, chega a 331 bilhões).
SUS
'Desde que nasceu, no final dos anos 1980, o SUS está subfinanciado', diz o ex-ministro (Foto: Fernando Frazão/ABr)
Na verdade, não se trata de números. Estamos falando de mortes. Essa decisão do Congresso é uma condenação de morte para milhares de brasileiros que terão a saúde impactada por essa medida irresponsável. Estamos falando de fechamento de leitos hospitalares, de encerramento de serviços de saúde, de demissões de profissionais, de redução do acesso, de aumento da demora no atendimento.

CC: E os dados da OMS revelam que investimento público em saúde no Brasil é inferior à média mundial, quando se analisa o gasto per capita.JGT: É verdade, e a estrutura de gastos do setor é absolutamente distorcida. Apenas 48% das despesas totais com saúde no Brasil são públicas, o restante, 52%, são gastos privados, das famílias e das empresas. Os mais pobres também investem recursos próprios, toda vez que precisam comprar um medicamento ou ter acesso a algum serviço que não encontram na rede pública. No Brasil, o governo gasta pouco e o ônus do financiamento recai sobre as famílias.
A PEC 241 só agrava essa situação. Para ter um parâmetro de comparação, na Inglaterra, que também tem um sistema de saúde universal, 85% do gasto total é público. Essa é a grande diferença. Desde que nasceu, no final dos anos 1980, o SUS está subfinanciado. E, agora, corre o risco de passar por um processo de desfinanciamento, de retirada de recursos.
CC: O cardiologista e ex-ministro da Saúde Adib Jatene, falecido em 2014, costumava fazer comparações com a situação anterior ao SUS, quando apenas os trabalhadores formais, com carteira assinada, tinham acesso aos hospitais mantidos pelo extinto Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (Inamps). Os demais dependiam da filantropia. O SUS incluiu milhões de brasileiros, mas jamais teve os recursos necessários para contemplar o aumento da demanda.JGT: O que está se defendendo aqui? Que não retornemos à situação pré-SUS, quando havia três categorias de brasileiros: os ricos e muito ricos, que pagavam diretamente pela atenção à sua saúde, a massa de trabalhadores formalmente inserida no mercado de trabalho, que eram garantidos pelo Inamps (e agora beneficiam-se de planos de saúde das empresas), e os demais, que dependiam da caridade.
A PEC 241 ameaça uma cláusula pétrea da Constituição de 1988, que é o direito à saúde. E a responsabilidade intransferível do que vier a acontecer é deste governo e dos congressistas que aprovarem este disparate.
   CartaCapital
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