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sábado, 23 de junho de 2018

João Batista Damasceno: Marielle, 101 dias

João Batista Damasceno: Marielle, 101 dias

No presente momento, nem a morte do menino Marcus Vinicius na Maré que, uniformizado, rumava apara a escola, sensibilizou os que têm o poder de fazer cessar a execução de pretos, pobres e favelados pelas forças do Estado

Por João Batista Damasceno Doutor em Ciência Política e juiz de Direito
- Atualizado às 03h00 de 23/06/2018
opina23jun - 
Rio - Completam-se hoje 101 da execução da vereadora Marielle Franco. O caso não será solucionado. Seu assassinato difere dos 60 mil homicídios anualmente praticados no Brasil. Com o Rio sob intervenção federal foi um recado, dos que sabem fazer o mal feito, para mostrar quem manda no Estado. O interventor é de fora. Vê a realidade do Rio pelo helicóptero aparelhado com metralhadora. Não sabe o que o aparato paramilitar faz, sob o nome de milícia. Sequer deve compreender as relações sociais e econômicas que tais grupos estabelecem. "O general manda na sua sala, na rua quem manda é nós", disse um agente público em rede social. Deveriam ser agentes da lei, mas nem sempre a lei pauta suas ações.
Enquanto a propaganda oficial e a mídia tradicional difundem o medo dos pequenos crimes, da presença de meninos negros nas praias durante o verão ou da presença de jovens pobres nos shoppings, o aparato paraestatal toma conta da cidade e difunde a violência. Na periferia já não é mais possível comprar um botijão de gás dos comerciantes regulares. Foram exterminados, os negócios ou os comerciantes. Só o carro de gás da milícia pode circular, com vasilhame de 13 kg contendo apenas 7 kg. Onde são cheios tais botijões? O general não deve saber. E não há Ministério Público para a defesa do consumidor.
A intervenção acirra a violência e dá poder aos que, fora do serviço, constituem milícias. Desde a decretação da intervenção na área de segurança do Estado do Rio houve aumento dos tiroteios em 36%, aumento das pessoas mortas pela polícia em 34% e aumento dos roubos em 5%. A novidade da atual política de extermínio inaugurada em 2007 por Sérgio Cabral e Beltrame é o disparo indiscriminado de dentro de helicópteros contra favelados.
A prática já se verificara quando a Aeronáutica autorizou a instalação de metralhadoras nos helicópteros da Polícia Civil, como o que matou o traficante Matemático. Todo o bairro foi metralhado para se matar uma pessoa que fugia. Toda a cúpula do Governo Cabral conhecia as imagens dos disparos, mas se mostrou surpresa quando no ano seguinte foi exibida na TV. "É essa suposta 'hipocrisia' dos superiores que está gerando grande indignação e contrariedade entre os policiais. As reações da chefe de Polícia Civil, Martha Rocha e do secretário de Segurança, José Mariano Beltrame", publicou um jornal. Mas, nenhuma consequência adveio daquela execução, graças, também, ao Ministério Público e ao Judiciário.
No presente momento, nem a morte do menino Marcus Vinicius na Maré que, uniformizado, rumava apara a escola, sensibilizou os que têm o poder de fazer cessar a execução de pretos, pobres e favelados pelas forças do Estado.
João Batista Damasceno é doutor em Ciência Política e juiz de Direito




domingo, 18 de março de 2018

Quem matou Marielle e Anderson?


Quem matou Marielle e Anderson?

Na noite desta quarta-feira (14/03), a vereadora do PSOL Marielle Franco e seu motorista, Anderson Pedro Gomes, foram brutalmente assassinados no Centro do Rio de Janeiro. A parlamentar voltava de um debate sobre jovens negras quando seu carro foi metralhado pelos assassinos, que fugiram em seguida. Marielle e Anderson foram executados.
“Todas as características são de execução. A gente quer isso apurado o mais rápido possível. Não havia qualquer ameaça sobre ela, mas as características do assassinato são características muito evidentes de execução”, afirmou o deputado Marcelo Freixo (PSOL), com quem Marielle trabalhou por mais de dez anos. “Isso é completamente inadmissível. Uma pessoa cheia de vida, cheia de gás, uma pessoa fundamental para o Rio de Janeiro brutalmente assassinada”, lamentou.
Vereadora militante
Marielle era uma das vereadoras mais ativas na defesa dos direitos humanos e na luta contra a violência que atinge os moradores das favelas cariocas. Dias antes, ela havia denunciado que policiais do 41º Batalhão da PM estariam aterrorizando moradores da favela do Acari, na Zona Norte. “Precisamos gritar para que todos saibam o está acontecendo em Acari nesse momento. Nessa semana dois jovens foram mortos e jogados em um valão. Hoje a polícia andou pelas ruas ameaçando os moradores. Acontece desde sempre e com a intervenção ficou ainda pior”, disse Marielle no último sábado em sua página no Facebook.
Pela coragem com que Marielle enfrentava aqueles que acham que “bandido bom é bandido morto” e por sua luta em defesa da paz nas favelas é que ela e Anderson foram mortos. Foram mortos pela crescente criminalização dos movimentos populares. Mortos pelo discurso de ódio que considera todo e qualquer morador de favela um criminoso. Mortos pelos que tentam a todo custo calar a voz dos mais pobres. Mortos pela impunidade herdada da Ditadura Militar. Mortos pelo avanço do fascismo.
Sua execução na noite de ontem é uma agressão direta a todos que lutam pelo fim da violência policial contra a população negra e periférica e por uma sociedade justa e igualitária. Por isso mesmo não podemos nos calar diante desse crime, nem arrefecer a luta pela qual Marielle deu sua vida. Que os responsáveis e mandantes de sua morte sejam identificados e punidos imediatamente!
Quem foi Marielle
Marielle nasceu no Complexo de Favelas da Maré, na Zona Norte do Rio. Era socióloga e foi eleita vereadora na última eleição. Foi coordenadora da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) e também trabalhou em organizações não-governamentais como a Brazil Foundation e o Centro de Ações Solidárias da Maré (CEASM). Atualmente, era presidente da comissão legislativa que apuraria as ações da intervenção militar no Rio de Janeiro.
Marielle deixa um legado de coragem e firmeza na luta pelos direitos do povo pobre, contra a violência policial e por uma sociedade mais justa. Marielle vive!
Redação Rio 
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