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sábado, 5 de janeiro de 2019

Nova guerra fria e ameaças que emergem

Nova guerra fria e ameaças que emergem

por John Pilger [*]
Entrevistado por Jipson John e Jitheesh P.M. [**]
John Pilger.O seu recente documentário, The Coming War on China , mostra como os Estados Unidos estão em guerra com a China. Pode explicar o mecanismo dessa guerra secreta? Acha que a Ásia-Pacífico será a próxima região de intervenção imperialista? Como ocorrerá essa intervenção e quais serão as consequências? 

É uma "guerra secreta" apenas porque a nossa percepção é moldada para ignorar a realidade. Em 2010, a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, viajou a Manila e incumbiu o recém-empossado presidente filipino, Benigno Aquino, de tomar posição contra a China pela sua ocupação das Ilhas Spratly e de aceitar a presença de cinco bases de Marines dos EUA. Manila entendia-se bem com Pequim, tendo negociado empréstimos bonificados para infraestruturas que necessitava muito. Aquino fez o que lhe foi dito e aceitou que uma equipa jurídica liderada pelos EUA contestasse as reivindicações territoriais da China no Tribunal Arbitral da ONU em Haia. O tribunal concluiu que a China não tinha qualquer jurisdição sobre as ilhas; um julgamento que a China categoricamente rejeitou. Foi uma pequena vitória numa campanha de propaganda americana visando retratar a China mais como territorialmente rapace do que como defensiva na sua própria região. O motivo foi o crescente receio da elite de segurança nacional/militar/mediática dos EUA de ter deixado de ser a potência dominante no mundo.

No ano seguinte, em 2011, o presidente Obama declarou uma "viragem para a China". Isso marcou a transferência da maioria das forças navais e aéreas dos EUA para a região da Ásia-Pacífico, o maior movimento de equipamentos militares desde a Segunda Guerra Mundial. O novo inimigo de Washington – ou melhor, um inimigo de novo – era a China, que atingira extraordinários patamares económicos em menos de uma geração.

Os Estados Unidos têm há muito tempo uma série de bases em torno da China, da Austrália às ilhas do Pacífico, passando pelo Japão, Coreia e Eurásia. Estas estão em vias de ser reforçadas e modernizadas. Quase metade da rede global dos EUA, que conta mais de 800 bases, cerca a China "como o laço corredio perfeito", disse um responsável do Departamento de Estado. Sob o pretexto do "direito à liberdade de navegação", navios de baixo calado dos EUA entram nas águas chinesas. Os drones americanos sobrevoam o território chinês. A ilha japonesa de Okinawa é uma vasta base americana, com os seus contingentes preparados para um ataque à China. Na ilha coreana de Jeju, os mísseis da classe Aegis são apontados a Xangai, a 640 quilómetros de distância. A provocação é constante.

Em 3 de outubro, pela primeira vez desde a Guerra Fria, os Estados Unidos ameaçaram abertamente atacar a Rússia, a aliada mais próxima da China, com quem esta tem um pacto de defesa mútua. Os media interessaram-se pouco pela questão. A China está a armar-se rapidamente; de acordo com a literatura especializada, Pequim mudou sua postura nuclear, passando de um alerta baixo para um alerta alto.

Pessoas como Noam Chomsky dizem que o império americano está em declínio. Pensa realmente isso? Nos últimos tempos, vimos os Estados Unidos tentarem chegar a um acordo com a Coreia do Norte; antes, eles tentaram reestabelecer relações diplomáticas com Cuba. O que indicam esses episódios? Acha que o mundo se está a diversificar? 

O império americano enquanto ideia pode estar em declínio, a ideia de uma única potência dominante e a dolarização da economia mundial, mas o poder militar dos EUA nunca foi tão ameaçador. Uma nova guerra fria conduz ao isolamento dos Estados Unidos e é um perigo para todos nós. No início do século XXI, Norman Mailer [jornalista e romancista norte-americano] escreveu que o poder americano havia entrado em uma era "pré-fascista". Outros sugeriram que já estamos lá.

Disse que um dos triunfos do século XXI em matéria de relações públicas foi o slogan de Obama "a mudança em que acreditamos". Disse também que a campanha mundial de assassínios de Obama foi sem dúvida a mais dispendiosa campanha de terrorismo desde o 11 de Setembro de 2001. Por que foi tão duro com Obama, que ganhou o Prêmio Nobel da Paz? Que acha de Donald Trump e da sua presidência? 

As guerras deste Prémio Nobel da Paz.Eu não fui duro com Obama. Foi Obama quem foi duro com grande parte da humanidade, ao contrário da sua muitas vezes absurda imagem mediática. Obama foi um dos mais violentos presidentes americanos. Lançou ou apoiou sete guerras e deixou o poder sem que nenhuma delas fosse resolvida: um recorde. Durante o seu último ano como presidente, em 2016, lançou 26.171 bombas, segundo o Conselho de Relações Exteriores. É uma estatística interessante; trata-se de três bombas a cada hora, 24 horas por dia, principalmente sobre civis. A técnica de bombardeamento adoptada por Obama foi o assassínio por meio de drones. Todas as terças-feiras, relatava o New York Times, ele escolhia os nomes daqueles que iriam morrer num "programa" de execuções extrajudiciais. Todos os homens em idade militar no Iémen e nas fronteiras do Paquistão eram considerados inteiramente como animais. Ele multiplicou as operações das forças especiais dos EUA no mundo, especialmente em África. Juntamente com a França e a Grã-Bretanha ele e sua secretária de Estado, Hillary Clinton, destruíram a Líbia como Estado moderno com o falso e familiar pretexto de que o seu líder estava prestes a cometer um massacre de "inocentes". Isso conduziu directamente ao crescimento dos medievalistas Daesh [ou Estado Islâmico] e uma vaga de emigração de África para a Europa. Ele derrubou o presidente democraticamente eleito da Ucrânia e instalou um regime abertamente apoiado pelo fascismo – como uma provocação deliberada à Rússia.

A concessão do Prémio Nobel da Paz a Obama foi uma impostura. Em 2009, esteve no centro de Praga e prometeu ali ajudar a criar um mundo "livre de armas nucleares". Na verdade, aumentou o número de ogivas nucleares americanas e autorizou um programa de construção nuclear de longo prazo de US$1000 milhões. Processou mais denunciantes, reveladores da verdade, do que todos os presidentes dos EUA juntos. O seu principal êxito, pode dizer-se, foi pôr fim ao movimento anti-guerra norte-americano. Os manifestantes regressaram a casa dando crédito às mensagens de 'esperança' e 'paz' de Obama e começaram a acreditar nisso. A única diferença de Obama foi ter sido o primeiro presidente negro na terra da escravidão. Em quase todos os outros aspectos, ele era apenas outro presidente americano cuja constante afirmação era que os Estados Unidos eram "a única nação indispensável", o que presumia que outras nações seriam dispensáveis.

Talvez a inteligência de Obama residisse na imagem que ele próprio e outros fabricaram e cultivaram com sucesso. Donald Trump também pode ser descrito como apenas outro presidente americano (violento). O que o distingue é que ele é uma caricatura. Muitos membros da elite americana detestam Trump, não por causa de seu comportamento pessoal, mas por causa de um embaraço muito mais profundo; ele é a imagem crua da América, sem a máscara.

O seu filme The War on Democracy documenta o golpe de Estado orquestrado pelos Estados Unidos contra Hugo Chávez, que se opunha ao imperialismo, com a ajuda da burguesia de direita e capitalista da Venezuela. Isso não era novo para a maioria dos países latino-americanos. Hoje, porém, vemos cada vez mais países do continente resistindo ao imperialismo americano. Fora de Cuba e da Venezuela, governos de esquerda estão no poder em países como a Bolívia e o Equador. Qual é o significado disso? Hoje em dia, também ouvimos histórias de ofensivas de direita em países como a Venezuela e o Brasil. Como avalia o actual cenário político latino-americano? 

Não concordo que "mais e mais países [na América Latina] estejam a resistir ao imperialismo dos EUA". Pode ter sido verdade quando Hugo Chávez ainda estava vivo; mas mesmo então, os Estados Unidos nunca desistiram da sua influência no continente. Hoje, há apenas Bolívia, Nicarágua e, claro, Venezuela, a Venezuela em luta pela sobrevivência. A maior parte da América Latina está de volta à influência de Washington, especialmente o Brasil. O Equador, anteriormente esclarecido, é outro exemplo eloquente. O governo obsequioso de Lénine Moreno convidou as tropas norte-americanas a voltarem e ameaçou abandonar Julian Assange. A opressão económica do FMI está novamente a prejudicar a Argentina. Versões do Consenso de Washington, conhecido como neoliberalismo, dominam quase todo o continente. Cuba está calma, o que é compreensível.

Nos últimos anos, vimos denunciantes como Julian Assange e Edward Snowden revelarem documentos confidenciais que mostravam como funciona o sistema de poder. Notará que o WikiLeaks não fez nada mais do queThe New York Times The Washington Post haviam feito num celebrado passado – revelaram a verdade sobre guerras de rapina e as maquinações de uma elite corrupta.

Disse que "o WikiLeaks é um marco no jornalismo". Qual é a importância dessas revelações? O que é que elas nos ensinam? 

O WikiLeaks fez muito mais do que o New York Times e o Washington Post com todos os louros que estes têm. Nenhum jornal conseguiu igualar – ou chegar perto – os segredos e mentiras do poder que Assange e Snowden revelaram. O facto de os dois homens serem fugitivos testemunha o recuo das democracias liberais em relação aos princípios da liberdade e da justiça. Por que o WikiLeaks é um marco no jornalismo? Porque as suas revelações nos disseram, com 100% de precisão, como e porquê uma grande parte do mundo é dividida e dirigida.

Como analisa a evolução do panorama dos media na era digital? Por um lado, a Internet abriu uma vasta via de espaço livre ou de plataforma independente. A Internet oferece um espaço contra-narrativo, ao qual os grandes media corporativos não prestam atenção. Mas, por outro lado, grandes monopólios digitais controlam o espaço digital. Como vê a situação? Quais são os desafios a enfrentar? 

Os desafios são tão grandes quanto os povos o permitem. Os dados digitais são a nova corrida ao ouro do capitalismo; a vigilância digital é o novo adversário da democracia. Ambos diferem apenas na forma e na escala das infinitas variedades de poder a que os povos tiveram de resistir desde o início da história. Hoje, todos nós temos um pé no mundo digital; temos a Internet, que é poder. A maneira como aplicamos este poder, ao invés de o banalizar, depende da nossa vontade de adoptar princípios imemoriais de resistência.

Está envolvido em reportagens de guerra há mais de cinco décadas. Cobriu a maioria das grandes guerras, incluindo a Guerra do Vietname, a guerra no Iraque e a guerra no Afeganistão. Um certo número de países pratica uma política de armamento crescente como política económica. O papel das grandes empresas de venda armas também é importante. O que é a economia política da guerra? 

A economia política da guerra na era moderna é a economia política dos Estados Unidos. Os Estados Unidos privam cerca de 80 milhões dos seus cidadãos de cuidados de saúde adequados e gastam quase 60% do seu orçamento discricionário federal na preparação para a guerra. A Índia também tem uma economia de guerra. Em 2018, a Índia ficou entre os cinco países que mais gastaram no campo militar, com um orçamento militar de US$63,9 mil milhões, o que supera o da França. Quase metade do orçamento nacional é dedicado a gastos militares. Quando fui à Índia pela primeira vez, descobri outro mundo dentro de bases militares, habitado por pessoas saudáveis e bem nutridas, com água potável e crianças educadas. No exterior dessas bolhas magníficas, a Índia conta mais crianças subnutridas do que qualquer outro país do mundo.

Síndrome do Vietname 

A Guerra do Vietname foi um dos capítulos mais sangrentos e mortíferos do pós-guerra. Começou as suas reportagens de guerra no Vietname. Esta foi a primeira guerra televisionada. A Guerra do Vietname é a história do massacre de mais de três milhões de pessoas. Poderia falar-nos do horror que viu no Vietname? Qual foi o papel dos media ocidentais no Vietname? Recentemente, captou a tentativa de reescrever a história da Guerra do Vietname em manuais escolares norte-americanos. A própria recordação do Vietname assombra o Estado mais poderoso do mundo? 

Não tenho certeza de que "assombrar" seja a palavra certa. O que incomoda os apologistas americanos é que o exército de "nação indispensável" foi expulso da Ásia por uma nação de camponeses, que ela sofreu uma derrota humilhante. Desde então, eles têm procurado um "melhor resultado", reescrevendo o que chamaram de "síndrome do Vietname", um eufemismo para o embaraço prolongado causado por uma catástrofe.

A série de documentários épicos de Ken Burns para a Public Broadcasting em 2017 começou com a seguinte declaração: "A guerra foi desencadeada de boa-fé por pessoas honestas como resultado de mal-entendidos fatais, do excesso de confiança dos norte-americanos e dos mal-entendidos da guerra fria". A desonestidade desta declaração ignora os muitos falsos pretextos que levaram à invasão do Vietname, como o "incidente" do golfo de Tonquim em 1964. Não houve boa-fé. A fé era podre e cancerosa e mais de quatro milhões de pessoas morreram.

Vi algo do sofrimento: o facto de o comandante norte-americano, general William Westmoreland, ter tomado por alvo civis a quem chamava "baratas". No delta do Mekong, após um bombardeamento, havia um cheiro de napalm e árvores petrificadas enfeitadas com pedaços de corpos. Também testemunhei heroísmo. Em 1975, encontrei a única sobrevivente de uma bateria antiaérea vietnamita, todas adolescentes; estava ajoelhada diante dos novos túmulos de seus camaradas.

O terrorismo é o produto de Estados 

Questionou a guerra dos EUA contra o terrorismo como um exemplo de hipocrisia e de duplicidade. Porque diz isso? Se assim for, a questão é de saber como parar o terrorismo. Até que ponto a ameaça do terrorismo é um desafio para uma vida moderna e cívica? 

A grande maioria do terrorismo é o produto de Estados. O Iémen é actualmente vítima de incessantes actos de terrorismo por parte do Estado saudita, que patrocinou outras formas de terrorismo, nomeadamente os ataques de 11 de Setembro. A "guerra contra o terrorismo" lançada em 2001 pelo presidente dos EUA, George W. Bush, foi na verdade, uma guerra de terror, matando milhões de pessoas, na sua maioria muçulmanos. Estados poderosos, como os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, tornaram o terrorismo uma arma "estratégica"; o apoio ao jihadismo na Líbia e na Síria é um exemplo notável disso. A conclusão é ou deveria ser óbvia: quando os governos pararem de promover o terrorismo, os ataques sangrentos nas suas próprias cidades provavelmente acabarão.

Disse que os Estados Unidos têm ao mesmo tempo "bons terroristas" e "maus terroristas". Quem são os bons e os maus terroristas da América? 

A designação pode mudar sem aviso prévio. Actualmente, os sauditas são "bons terroristas"; na verdade, nem são chamados de terroristas. Os extremos terroristas maus – Al Qaeda – são agora bons terroristas que lutam ao lado dos Estados Unidos na sua longa guerra contra os xiítas. Historicamente, os curdos sempre foram ao mesmo tempo bons e maus terroristas; no Iraque, os curdos eram bons; na Turquia, eram maus. A designação assentava em eles estarem ou não lutando contra o mais recente inimigo dos Estados Unidos.

Nas últimas décadas do século XX, o mundo viu a região da Ásia Ocidental tornar-se o ponto quente da intervenção ocidental. Depois do 11 de Setembro de 2001, essa intervenção tomou a forma de duas guerras: a guerra no Afeganistão e a guerra no Iraque. A islamofobia atingiu novos picos no Ocidente. A teoria do choque de civilizações encontrou campeões na máquina estatal, sendo George Bush o melhor exemplo. Como situa historicamente os interesses ocidentais no Médio Oriente e a ascensão da islamofobia no Ocidente? 

Secret Affairs.Recomendo o trabalho do historiador britânico Mark Curtis, cujo livro Secret Affairs relata a estreita relação entre o estado britânico e o islamismo extremista. O que está claro é que organizações como Daesh e Al-Qaeda eram o produto dos governos imperiais ocidentais.

No Afeganistão, os mujahidin poderiam ter permanecido como uma influência tribal se não fosse a Operação Ciclone, um plano liderado pelos Estados Unidos para transformar o Islão extremista numa força que expulsaria a União Soviética e derrubaria o estado soviético. O que o Ocidente temia no Médio Oriente era o que Gamal Abdel Nasser, no Egipto, chamava "pan-arabismo". Temia que os povos árabes se desembaraçassem das cadeias do tribalismo e do feudalismo e controlassem e desenvolvessem os seus próprios recursos. Por esta razão, o único governo progressista no Afeganistão foi declarado "comunista" e destruído. Pela mesma razão, os palestinos são mantidos num estado de opressão interminável.

Com os Estados Unidos reconhecendo Jerusalém como capital de Israel em 9 de Dezembro de 2017, o sofrimento e o medo dos palestinos aumentaram. Como disse, eles são refugiados no seu próprio território. Descreveu a agressão contra a Palestina como a ocupação militar mais longa da história moderna. poderia dizer-nos algo mais sobre a questão palestina? Quais são os interesses estratégicos e geopolíticos dos Estados Unidos na região? Qual é o caminho para ser feita justiça aos palestinos? 

Um dos principais objectivos dos Estados Unidos é manter o Médio Oriente num estado de incerteza, instável e dividido por guerras tribais. John Bolton, o conselheiro de segurança nacional dos EUA, disse-o com grande satisfação. Foi assim que os britânicos controlaram a região. O centro de concepção dessa "política" é Israel, um anacronismo imperial imposto ao Médio Oriente quando o mundo se descolonizava. Como o historiador israelense Ilan Pappe documenta no seu último livro, Israel foi concebido como uma prisão para seus povos autóctones, os palestinos. Toda a hipocrisia ocidental reside em Israel. Bashar al-Assad é designado como um monstro, mas Benjamin Netanyahu, um monstro supremo, goza de impunidade para controlar os palestinos e, em grande medida, o Congresso dos EUA, a Casa Branca e as Câmaras do Parlamento em Londres.

Essa impunidade manifestou-se recentemente quando Jeremy Corbyn, o líder trabalhista britânico que pode vir a ser o próximo primeiro-ministro britânico, foi alvo de uma campanha inteiramente falsa que o difama como anti-semita. Em vez de a rejeitar com desprezo, Corbyn curvou-se a ela e traiu os seus muitos anos de apoio aos direitos dos palestinos aceitando uma definição de sionismo que negava a Israel o seu verdadeiro estatuto de estado racista. No momento em que escrevo, os soldados israelenses massacram regularmente palestinos em Gaza, incluindo crianças. Desde março [2018], 77 palestinos desarmados tiveram que ser amputados, incluindo 14 crianças; 12 ficaram paralisadas por toda a vida após serem baleados nas costas. Nem um único israelense ficou ferido.

Aquilo a que chamamos globalização é, na verdade, o capitalismo neoliberal. Você provavelmente foi o primeiro a revelar o primeiro experimento de programa de ajustamento estrutural na Indonésia na década de 1960. Diz que não há diferença entre a implacável intervenção do capital internacional nos mercados estrangeiros hoje e os de antes, quando eram apoiados por canhoneiras. Como jornalista familiarizado com o funcionamento do Estado profundo, poderia falar-nos sobre a evolução das experiências económicas neoliberais? Como funciona isso hoje em dia? 

O neoliberalismo é uma extensão do que antes era chamado monetarismo, as duas versões exóticas ou extremas do capitalismo dominante. No Ocidente, sob a liderança de Margaret Thatcher e Ronald Reagan e seus homólogos europeus, foi declarada uma "sociedade a dois terços". O terço superior seria enriquecido e pagaria pouco ou nenhum imposto. O terço médio seria "ambicioso", alguns de entre eles seriam "bem-sucedidos" num mundo impiedosamente competitivo e outros ficariam irrevogavelmente endividados. O terço inferior seria abandonado ou ser-lhe-ia oferecido um empobrecimento estável em troca da sua obediência. A relação entre as pessoas e o Estado mudaria de benigna para maligna. Uma nova classe de gestores educados no espírito empresarial dos Estados Unidos, com a sua própria "cultura" e vocabulário, supervisionaria a conversão da social-democracia numa autocracia de empresa. O "debate" público, gerido por meios de comunicação totalmente integrados, seria dominado por "políticas de identidade", todas as noções de classe banidas como "falsidades". Falsos demónios estrangeiros (liderados pela Rússia, seguidos de perto pela China) seriam designados como "inimigos necessários".

A unidade europeia é propaganda 

A experiência da União Europeia foi saudada como um sinal de unidade dos europeus e um modelo na era pós-socialista. Mas o Brexit foi um grande golpe que atingiu essa propaganda. Qual é o seu ponto de vista sobre a UE? Como analisa o Brexit e reivindicações semelhantes? 

A União Europeia é basicamente um cartel. Não há "livre comércio". Existem regras de exclusividade estabelecidas e controladas pelos bancos centrais, principalmente o banco central alemão, com benefícios para os membros mais fracos, nomeadamente o movimento transfronteiriço de mão-de-obra, embora isso seja agora posto em causa. O objectivo central da UE é a protecção e o fortalecimento do poder económico dos mais fortes. Bruxelas é uma burocracia centralizada; a democracia é mínima. A "unidade europeia" de que fala é propaganda, promovida por aqueles que mais recebem da UE. O esmagamento da Grécia é uma lição que a maioria dos britânicos parece ter entendido.

O seu trabalho concentra-se em quem controla o destino da humanidade, de que forma nações poderosas, grandes empresas, a burguesia, lobbies poderosos fazem as leis e regras do mundo. A democracia parece ser a vítima. Apesar disso, temos histórias inspiradoras em todo o mundo sobre a resistência contra essas forças poderosas. Está optimista e com esperança quanto a um mundo melhor? 

Existem forças inspiradoras de resistência em muitos países, incluindo a Índia. Desde a minha primeira reportagem na Índia, na década de 1960, emocionou-me o desejo das pessoas comuns, especialmente dos agricultores, de defender a justiça na sua vida. A recente grande marcha [de 23 de Setembro a 2 de Outubro] de 50 mil agricultores de [Haridwar] em Uttar Pradesh, em Nova Deli, era típica. Disciplinados, políticos e engenhosos, eles têm muito a ensinar àqueles de nós que no Ocidente imaginam que o protesto consiste em gozar com Trump ou assinar uma petição dirigida ao deputado da sua zona. Quando o governo de Deli permitiu que a polícia atacasse os agricultores no aniversário de Mahatma Gandhi, eles reagiram. A promessa política destes movimentos talvez seja a mais notável evocação revolucionária no mundo hoje.

Eles representam a luta dos povos e da agricultura em todo o mundo contra os bulldozer neoliberais do "desenvolvimento urbano": o roubo do espaço humano e a sua conversão numa mercadoria grotesca e lucrativa. O facto de os governos indianos não terem reagido aos suicídios de mais de 300 mil agricultores é uma tragédia histórica, mas pode ser revertida a qualquer momento. De certo modo, os agricultores indianos representam-nos a todos. Como escreve Vandana Shiva, a sua difícil situação e a sua resistência constituem uma advertência: a menos que a segurança sobre a terra, a segurança sobre as sementes e a agricultura pertençam ao povo, a colonização dos campos do mundo por gente como a Monsanto é uma ameaça tão séria para a existência humana quanto as alterações climáticas [NR] . Claro que as pessoas nunca estão paradas. Eles "levantar-se-ão como um leão depois de acordar…", como escreveu Percy Bysshe Shelley… Quando a resistência não é visível, é ainda uma "semente sob a neve". Nunca conheci tanta sensibilização do público como hoje, mas reina também a confusão. O "populismo" dos ocidentais, tantas vezes deturpado como reaccionário, exprima ao mesmo tempo a disposição de resistir e uma desorientação sobre como o fazer. Isso vai mudar. O que nunca muda é o medo dos poderosos do poder das pessoas comuns.

O tipo de jornalismo que pratica é realmente um desafio, e difícil. Através de seus documentários, artigos e outros trabalhos jornalísticos, questionou os Estados mais poderosos do mundo e suas fraudes democráticas. O que moldou o seu ponto de vista para se tornar uma voz dissidente no jornalismo? Quais são as suas influências e o que é que o mantém atento? 

Hoje, a maioria dos jornalistas estabelecidos são estafetas do poder. Não são o mainstream, que é uma palavra orwelliana. Um mainstream real tolera a dissidência, não a censura. O que é que moldou o meu ponto de vista? O facto de relatar a luta das sociedades pelo mundo afora, incluindo os seus triunfos, por mínimos que sejam, continua sendo uma influência duradoura. Ou talvez essas influências tenham início cedo na vida. "Apoiamos os oprimidos", disse-me minha mãe um dia, quando eu era pequeno. Eu gosto disso. 
02/Janeiro/2018

[NR] Um falso problema, como se mostra aqui: Uma impostura científica 

[*] http://johnpilger.com
[**] Membros do Tricontinental: Institute for Social Research, colaboradores de The Indian Express, The WireMonthly Review. Contactos: jipsonjohn10@gmail.com e jitheeshpm91@gmail.com

O original encontra-se em frontline.thehindu.com/cover-story/article25661115.ece
e a tradução em www.odiario.info/nova-guerra-fria-e-ameacas-iminentes/ (efectuadas correcções) 


Esta entrevista encontra-se em http://resistir.info/ .

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

John Pilger: “fiz este filme para romper o silêncio sobre a guerra nuclear”

John Pilger: “fiz este filme para romper o silêncio sobre a guerra nuclear”

 Os Editores     06.Dic.16     Outros autores
Vai nestes dias ser estreado em vários países europeus o novo filme de John Pilger “A próxima guerra contra a China”. Trata-se de uma nova denúncia das duas guerras que os EUA empreendem: a guerra da propaganda, já em curso, e a agressão militar, cujas peças estão já no terreno.


John Pilger fez durante dez anos a cobertura da guerra de Vietnam, quando era ainda um jovem jornalista. Tem desde então frequentemente denunciado o que ocultavam os numerosos conflitos ocorridos e tornou-se um dos mais fiáveis analistas em termos de política internacional, bem como um cineasta talentoso. Como inimigo jurado da guerra de propaganda, saudou a acção dos lançadores de alertas que expuseram os terríveis abusos dos Governos ocidentais cometidos com o silêncio cúmplice e por vezes inclusivamente com o apoio dos grandes meios de comunicação. Nesta entrevista exclusiva que concedeu a Investig’Action, John Pilger fala-nos do seu novo filme “A próxima guerra contra a China”. Alerta-nos também sobre os perigos actuais do desencadear de uma guerra nuclear que ameaçaria toda a Humanidade.
Sr. John Pilger, em 5 de Dezembro será projectado pela primeira vez no Reino Unido o seu novo filme “A próxima guerra contra a China”. ¿Pode falar-nos dele?
O filme “A próxima guerra contra a China” descreve o reforço massivo das forças aéreas e navais norte-americanas na Asia e no Pacífico, cujo único ponto de mira é a China.
O filme trata tanto da propaganda como da provocação militar. As “informações” dizem-nos que a China ameaça a paz na região construindo pistas de aterragem sobre ilhas situadas no Mar da China meridional, enquanto por outro lado nos ocultam o facto de que os Estados Unidos cercaram a China com 400 bases militares (equipadas com misseis, aviões e navios de guerra). É aquilo que um perito em estratégia chamou “o perfeito nó corrediço”.
O filme começa nas Ilhas Marshall, onde todos os dias e durante 12 anos foi ensaiada uma bomba similar à lançada sobre Hiroxima. Este filme desvenda um programa secreto (o projecto 4.1) que transformou todo um povo em “porquinhos-da-Índia”. Os EUA construíram aí uma das suas bases mais secretas, que supervisiona uma zona que vai do Pacífico até à China.
¿Porque fazer agora este filme?
O filme “A próxima guerra contra a China” tem como propósito romper o silêncio sobre a guerra nuclear. Segundo especialistas militares, a guerra nuclear já não é inimaginável, mas “uma eventualidade”.
O filme descreve uma nova “guerra fria”, na cual as “linhas da frente” não são tão facilmente identificáveis como na época da antiga guerra fria, e os riscos e perigos são mais importantes.
Tal como a China, a Rússia parece ser um alvo principal. ¿ Que pensa da decisão dos juízes britânicos de cancelar as contas bancarias da agência Russia Today ? ¿ E da recente resolução do Parlamento Europeu contra os meios de comunicação russos, que equipara a sua linha editorial a propaganda terrorista?
Parece que a decisão de cancelar as contas de Russia Today veio dos bancos, pelo temor de poderem estar sujeitos a multas por “violação das sanções contra a Rússia”. Contudo, a RT foi há pouco informada que a decisão estava ainda em discussão e que não havia nenhuma ameaça imediata sobre as suas contas. Ambos episódios fazem parte da histeria anti-Russia fomentada pelas administrações de Obama e da União Europeia.
Ha pouco declarou que “já começou uma Guerra Mundial” e que “…é uma guerra de propaganda”. ¿Que podem as pessoas fazer para actuar no campo de batalha da informação?
O que as pessoas deveriam fazer seria reunir-se num grande movimento que exija aos seus Governos que parem de saquear e atacar outros países. Não devem, do mesmo modo, deixar-se distrair pelas políticas de introspecção (“identitárias”) nem pelas falsas realidades fomentadas pelos meios de comunicação, que não são outra coisa senão extensões do poder belicista selvagem de Washington, Paris, Bruxelas e Londres.

A eleição de Trump suscitou um vivo debate nos EUA e na Europa. Inclusivamente, alguns analistas de esquerda saudaram a vontade de Trump de querer “apaziguar” as relações com a Rússia. ¿ compartilha deste optimismo?
A palavra “apaziguamento” é um termo sobretudo utilizado na propaganda da “Guerra fria” depois da segunda guerra mundial. Na realidade, o que há é outra forma de apaziguamento: demasiada gente na Europa e nos EE.UU fica calada ante as perigosas agressões exteriores dos seus Governos.
Quando ocorreram as atrocidades de Paris no ano passado, o Presidente Hollande enviou aviões de guerra bombardear a Síria. E isso, ¿com que consequências? Sem dúvida, com as de fomentar outras atrocidades.
¿Trump poderia ser algo menos belicista que Clinton?
Não deveríamos preocupar-nos com quem faz a paz entre Rússia e Europa, o importante é que se chegue à paz. A alternativa é a guerra, e possivelmente a guerra nuclear.
Muitas pessoas temem que se venha a assistir a um “sismo político” similar em outros países como a França, onde o Front National poderia aceder ao Eliseu em 2017…
Se o Front National chegasse à Presidência da República em 2017, ¿quem será plenamente culpável? Os liberais…a gente a quem frequentemente se chama “a esquerda”. Deveriam talvez ver-se ao espelho os que foram incapazes de fomentar um movimento duradouro que se opusesse tanto à austeridade como à agressividade exterior do seu Governo.
A Líbia foi destruída pelos bombardeamentos de Sarkozy, Clinton e Cameron. Com Kadhafi eliminado e com o saque do Estado moderno Líbio, as armas fluíram em direcção ao Sul.
Este belicismo estúpido tal como a destruição deliberada da Líbia abriram as portas a uma avalancha de emigrantes e refugiados vindos de África. A suposta “crise migratória” na Europa é a consequência directa das invasões do Ocidente sobre sociedades tribais frágeis.
E ¿ quem se opôs então a toda esta violência entre os que hoje se escandalizam a propósito de Trump e de Le Pen?

Fonte: Investigaction.net
- Ver mais em: http://www.investigaction.net/es/john-pilger-he-hecho-esta-pelicula-para-romper-el-silencio-sobre-la-guerra-nuclear/#sthash.bP5xxtD9.dpuf
                

segunda-feira, 25 de abril de 2016

John Pilger / Trump e Clinton: Censurando o intragável

Trump e Clinton: Censurando o intragável


por John Pilger
A rainha do caos.Uma censura virulenta, ainda que familiar, está prestes a abater-se sobre a campanha eleitoral estado-unidense. Como o selvagem caricato, Donald Trump, parece quase certo que ganhe a nomeação do Partido Republicano, Hillary Clinton está a ser consagrada como a "candidata das mulheres" e a campeã do liberalismo americano na sua luta heróica contra Satã.

Isto é disparate, naturalmente. Hillary Clinton deixa um rastro de sangue e sofrimento por todo o mundo e um recorde claro de exploração e cobiça no seu próprio país. Dizer isto, no entanto, está a tornar-se intolerável na terra da liberdade de expressão.

A campanha presidencial de Barack Obama em 2008 deveria ter alertado até o observador mais desatento. Obama baseou sua campanha da "esperança" quase totalmente no facto de um afro-americano aspirar dirigir a terra da escravidão. Ele também era "anti-guerra".

Obama nunca foi anti-guerra. Ao contrário, como todos os presidentes americanos, era a favor da guerra. Ele votou pelo financiamento da carnificina de George W. Bush no Iraque e planeava escalar a invasão do Afeganistão. Nas semanas em que fez o juramento presidencial, aprovou secretamente um assalto israelense a Gaza, o massacre conhecido como Operação Chumbo Derretido. Prometeu encerrar o campo de concentração de Guantanamo e não o fez. Jurou que ajudaria a tornar o mundo "livre de armas nucleares" e fez o oposto.

Como uma nova espécie de gestor de marketing do status quo, o untuoso Obama foi uma escolha inspirada. Mesmo no fim da sua presidência coalhada de sangue, com a sua assinatura para drones a propagarem infinitamente mais terror e morte em todo o mundo do que o desencadeado por jihadistas em Paris e Bruxelas, Obama é bajulado como um "tipo fixe" (the Guardian). 

Em 23 de Março, a Counterpunch publicou meu artigo " Uma guerra mundial começou – rompa o silêncio " . Como tem sido minha prática durante anos, difundi então esta peça através de uma rede internacional, incluindo Truthout.com, o sítio web liberal americano. Truthout publica algum jornalismo importante, inclusive excelentes revelações de Dahr Jamail.

Truthout rejeitou a [minha] peça porque, disse um editor, ela havia aparecido no Counterpunh e havia quebrado "linhas de orientação". Respondi que isto nunca fora um problema ao longo de muitos anos e que nada sabia de linhas de orientação.

À minha recalcitrância foi então atribuído um outro significado. O artigo seria libertado desde que eu o submetesse a uma "revisão" e concordasse com mudanças e apagamentos feitos pelo "comité editorial" de Truthout. O resultado foi adoçar e censurar minha crítica a Hillary Clinton e o distanciamento dela em relação a Trump. Foi cortado o seguinte:
Trump nos media é uma figura odiosa. Isto só por si deveria despertar nosso cepticismo. As visões de Trump sobre migração são grotescas, mas não mais grotescas do que as de David Cameron. Não é Trump o Grande Deportador dos Estados Unidos, mas sim o vencedor do Prémio Nobel da Paz Barack Obama ... O perigo para todos nós não é Trump, mas Hillary Clinton. Ela não é independente (maverick). Ela corporifica a resiliência e violência de um sistema... Quando o dia da eleição presidencial se aproximar, Clinton será louvada como a primeira mulher presidente, apesar dos seus crimes e mentiras – tal como Barack Obama foi louvado como o primeiro presidente negro e liberais engoliram sua insensatez acerca de "esperança".
O "comité editorial" quis claramente diluir minha argumentação de que Clinton representa um comprovado perigo extremo para o mundo. Como toda censura, isto era inaceitável. Maya Schenwar, que dirige o Truthout, escreveu-me [a dizer] que minha relutância em submeter meu trabalho a um "processo de revisão" significava que ela tinha de retirar a sua "publicação da agenda". Este é o modo de falar do guardião (gatekeeper). 

Na raiz deste episódio está uma resistência indizível. Esta é a necessidade, a compulsão, de muitos liberais nos Estados Unidos a aceitar um líder a partir de dentro de um sistema que é comprovadamente imperial e violento. Tal como a "esperança" de Obama, o género de Clinton não é mais do que uma fachada conveniente.

Isto é uma compulsão histórica. No seu ensaio de 1859, Sobre a liberdade, ao qual liberais modernos parecem prestar homenagem incansável, John Stuart Mill descreveu o poder do império. "Despotismo é um modo legítimo de governo ao tratar com bárbaros", escreveu ele, "desde que a finalidade seja a sua melhoria e os meios justificados para realmente cumprir aquele fim". Os "bárbaros" eram grandes secções da humanidade às quais era exigida "obediência implícita".

"É um mito lindo e conveniente que os liberais são pacificadores e o conservadores belicistas", escreveu em 2001 o historiador britânico Hywel Williams, "mas o imperialismo do modo liberal pode ser mais perigoso por causa da sua natureza ilimitada – sua convicção de que representa uma forma de vida superior [enquanto nega a dos outros] conduz ao fanatismo farisaico". Ele tinha em mente um discurso de Tony Blair na sequência dos ataques de 11/Set, no qual Blair prometia "reordenar este mundo em torno de nos" de acordo com o seus "valores morais". O resultado foi a carnificina de um milhão de mortos no Iraque.

Os crimes de Blair não são inabituais. Desde 1945, uns 69 países – mais de um terço dos membros das Nações Unidas – sofreram alguns ou todos dos seguintes males. Foram invadidos, seus governos derrubados, seus movimentos populares suprimidos, suas eleições subvertidas e seus povos bombardeados. O historiador Mark Curtis estima a portagem da morte em milhões. Com a morte dos impérios europeus, este tem sido o projecto do liberal transportador de chamas, o "excepcional" Estados Unidos, cujo celebrado presidente "progressista", John F. Kennedy, segundo nova investigação, autorizou o bombardeamento de Moscovo durante a crise cubana em 1962.

"Se temos de utilizar força", disse Madeleine Albright, secretária de Estado dos EUA na administração liberal de Bill Clinton e hoje uma apaixonada activista de campanha pela sua esposa, "é porque nós somos a América. Nós somos a nação indispensável. Nós encaramos de frente. Nós vemos mais longe no futuro".

Um dos mais horrendos crimes de Hillary Clinton foi a destruição da Líbia em 2011. Por sua insistência, e com apoio logístico americano, a NATO, lançou 9.700 "incursões de ataque" contra a Líbia, segundo seus próprios registos, dos quais mais de um terço foram destinados a alvos civis. Elas incluíam mísseis com ogivas de urânio. Ver as fotografias das ruínas de Misurata e Sirte, e as sepulturas em massa identificadas pela Cruz Vermelha. Ler o relatório da UNICEF sobre as crianças mortas, "a maior parte [delas] com menos de dez anos".

No mundo académico anglo-americano, seguido servilmente pelos media liberais de ambos os lados do Atlântico, teóricos influentes conhecidos como "realistas liberais" têm desde há muito ensinado que imperialistas liberais – uma expressão que eles nunca utilizaram – são o mediadores da paz mundial e administradores de crises, ao invés de causa de crises. Eles evacuaram a humanidade do estudo das nações e congelaram-na com um jargão que serve o poder belicista. Preparando todas as nações para a autópsia, identificaram "estados fracassados" (países difíceis de explorar) e "estados vilões" (países resistentes à dominação ocidental).

Se o regime alvo é ou não uma democracia ou ditadura é irrelevante. No Médio Oriente, colaboradores do liberalismo ocidental desde há muito têm extremistas islâmicos, ultimamente a al-Qaeda, ao passo que noções cínicas de democracia e direitos humanos servem como cobertura retórica para a conquista e a destruição – como no Iraque, Afeganistão, Líbia, Síria, Iémen, Haiti, Honduras. Ver o cadastro público destes bons liberais Bill e Hillary Clinton. O cadastro deles é um padrão ao qual Trump mal pode ambicionar. 
29/Março/2016

Ver também: 
  • Why is the Progressive Left Helping the Elite Elect Hillary? , Paul Craig Roberts

    O original encontra-se em johnpilger.com/articles/trump-and-clinton-censoring-the-unpalatable 


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
  • sábado, 21 de novembro de 2015

    John Pilger / De Pol Pot ao ISIS: O sangue nunca secou

    De Pol Pot ao ISIS:   O sangue nunca secou


    por John Pilger
    Vítimas cambodjanas.Em 1969, ao transmitir ordens do presidente Richard Nixon para um bombardeamento "maciço" do Cambodja, Henry Kissinger, disse: "Qualquer coisa que voe sobre tudo o que se mova". Quando Barack Obama trava a sua sétima guerra contra o mundo muçulmano desde que recebeu o Prémio Nobel da Paz e François Holland promete um ataque "impiedoso" sobre os escombros da Síria, a histeria e as mentiras orquestradas fazem-nos quase nostálgicos da honestidade assassina de Kissinger.

    Como testemunha das consequências humanas da selvajaria aérea – incluindo a decapitação de vítimas, com suas partes a engrinaldarem árvores e campos – não fico surpreso pela reiteração do desprezo para com a memória e a história. Um exemplo impressionante foi a subida ao poder de Pol Pot e do seu Khmer Rouge, o qual tinha muito em comum com o actual Islamic State in Iraq and Syria (ISIS). Também eles foram implacáveis medievalistas que principiaram como uma pequena seita. Também eles foram o produto de um apocalipse de fabricação americana, desta vez na Ásia.

    Julgamento de Pol Pot.Segundo Pol Pot, seu movimento consistia em "menos de 5000 guerrilheiros fracamente armados inconstantes quanto à sua estratégia, tácticas, lealdade e líderes". Uma vez lançados os bombardeiros B-52 de Nixon e Kissinger, no âmbito da "Operação Menu", o supremo demónio do ocidente mal podia acreditar na sua sorte. Os americanos despejaram o equivalente a cinco Hiroshimas no Cambodja rural durante os anos 1969-73. Eles arrasaram aldeia após aldeia, retornando para bombardear os escombros e os cadáveres. As crateras deixaram gigantescos colares de carnificina, ainda visíveis do ar. O terror foi inimaginável. Um antigo oficial do Khmer Rouge descreveu como os sobreviventes "perambulavam em torno, mudos, durante três ou quatro dias. Aterrorizadas e meio enlouquecidas, as pessoas estavam prontas a acreditar no que lhes diziam... Foi o que tornou fácil para o Khmer Rouge convencer o povo". Uma Comissão de Inquérito do Governo Finlandês estimou que 600 mil cambodgianos morreram em consequência da guerra civil e descreveu os bombardeamentos como a "primeira etapa numa década de genocídio". O que Nixon e Kissinger começaram, Pol Pot, seu beneficiário, completou. Sob as suas bombas, o Khmer Rouge cresceu até se tornar um formidável exército de 200 mil homens.

    O ISIS tem um passado e presente semelhante. De acordo com a maior parte das avaliações académicas, a invasão de Bush e Blair do Iraque levou à morte pelo menos 700 mil pessoas – num país que não tinha antecedente de jihadismo. Os curdos haviam feito acordos territoriais e políticos; os sunitas e xiitas tinham diferenças de classe e sectárias, mas estavam em paz; casamentos mistos eram comuns. Três anos antes da invasão, viajei de carro extensamente pelo Iraque sem medo. No caminho encontrei pessoas orgulhosas, acima de tudo, de serem iraquianas, herdeiras de uma civilização que para eles parecia presente.

    Bush e Blair explodiram tudo isto em bocados. O Iraque é agora um ninho de jihadismo. A Al-Qaeda – como os "jihadistas" de Pol Pot – aproveitaram a oportunidade proporcionada pela carnificina do "Pavor e Choque" ("Shock and Awe") e da guerra civil que se seguiu. A Síria "rebelde" oferecia ainda maiores prémios, com as linhas de abastecimento de armas, de logística e de dinheiro da CIA e dos estados do Golfo a passarem pela Turquia. A chegada de recrutas estrangeiros era inevitável. Um antigo embaixador britânico, Oliver Miles, escreveu: "O governo [Cameron] parece estar a seguir o exemplo de Tony Blair, o qual ignorou conselhos constantes do Foreign Office, MI5 e MI6 de que a nossa política no Médio Oriente – e em particular nossas guerras no Médio Oriente – haviam sido um impulsionador importante no recrutamento de muçulmanos na Grã-Bretanha para o terrorismo aqui".

    O ISIS é a resultante daqueles em Washington, Londres e Paris que, ao conspirarem para destruir o Iraque, a Síria e a Líbia, cometeram um crime gigantesco contra a humanidade. Tal como Pol Pot e o Khmer Rouge, os ISIS são as mutações do terrorismo de estado ocidental administrado por uma elite imperial corrupta que não recua diante das consequências das suas acções. Sua culpabilidade não é sequer mencionada nas "nossas" sociedades, tornando-as cúmplices daqueles que suprimem esta verdade crítica.

    Passaram-se 23 anos desde que um holocausto envolveu o Iraque, imediatamente após a primeira Guerra do Golfo, quando os EUA e a Grã-Bretanha sequestraram o Conselho de Segurança das Nações Unidas e impuseram "sanções" à população iraquiana – reforçando, ironicamente, a autoridade interna de Saddam Hussein. Foi como um cerco medieval. Quase tudo o que sustinha um estado moderno estava, no jargão, "bloqueado" – desde o cloro para tornar seguro o abastecimento de água até lápis escolares, peças para máquinas de raios X, analgésicos comuns e drogas para combater cancros anteriormente desconhecidos – decorrentes do pó dos campos de batalha do sul contaminados com urânio empobrecido(Depleted Uranium). Pouco antes do Natal de 1999, o Departamento do Comércio e Industria em Londres restringiu a exportação de vacinas destinadas a proteger crianças iraquianas contra a difteria e febre-amarela. Kim Howells, sub-secretário de Estado parlamentar no governo Blair, explicou a razão: "As vacinas infantis", disse ele, "poderiam ser utilizadas em armas de destruição em massa". O governo britânico pôde escapar impune a tamanho ultraje porque as reportagens dos media sobre o Iraque – grande parte delas manipuladas pelo Foreign Office – culpavam Saddam Hussein por tudo.

    Sob um falsamente humanitário Programa Petróleo por Alimentos, foram atribuídos US$100 a cada iraquiano para viver durante um ano. Este número tinha de ser suficiente para pagar toda a infraestrutura da sociedade civil e serviços essenciais, tais como energia e água. "Imagine", contou-me o secretário-geral Assistente da ONU, Hans Von Sponeck, "estabelecer aquela ninharia contra a falta de água potável e o facto de que a maioria das pessoas doentes não tem recursos para tratamento e o trauma absoluto de sobreviver dia a dia, eis um vislumbre do pesadelo. E não se engane, isto é deliberado. No passado não quis utilizar a palavra genocídio, mas agora é inevitável". Desgostoso, Von Sponeck demitiu-se da Coordenação Humanitária da ONU no Iraque. O seu antecessor, Denis Halliday, um igualmente qualificado alto responsável da ONU, também se demitiu. "Fui instruído", disse Halliday, "a implementar uma política que satisfaz a definição de genocídio: uma política deliberada que efectivamente a definição de genocídio: uma política deliberada que matou de facto bem mais de um milhão de indivíduos, crianças e adultos".

    Um estudo do Fundo das Nações Unidas para a Infância, Unicef, descobriu que entre 1991 e 1998, na altura do bloqueio, houve um "excesso" de 500 mil mortes de crianças iraquianas com menos de cinco anos de idade. Um repórter da American TV perguntou a Madeleine Albright, embaixadora dos EUA nas Nações Unidas: "Será que valeu a pena pagar este preço". Resposta de Albright: "Nós pensamos que valeu a pena".

    Em 2007, o alto responsável oficial britânico pelas sanções, Carne Ross, conhecido como "Mr. Iraq", disse a um comité parlamentar de selecção: "[Os governos dos EUA e Grã-Bretanha] efectivamente negaram meios de vida a toda a população". Quando entrevistei Carne Ross três anos depois ele estava consumido pelo arrependimento e a contrição. "Sinto-me envergonhado", disse ele. Hoje é um dos raros que dizem a verdade sobre como governos enganam e como os media aquiescentes desempenham um papel crítico na disseminação e manutenção do engano. "Nós alimentávamos [jornalistas] com factóides de inteligência desinfectada", disse ele, "ou os congelávamos do lado de fora". No ano passado, uma manchete não atípica no Guardian dizia: "Confrontados com o horror do ISIS, devemos actuar". O "devemos actuar" é um fantasma que se eleva, uma advertência da supressão da memória informada, dos factos, das lições aprendidas e dos arrependimentos ou vergonhas. O autor do artigo foi Peter Hain, o antigo ministro do Foreign Office responsável pelo Iraque no governo Blair. Em 1968, quando Denis Halliday revelou a extensão do sofrimento no Iraque pelo qual o governo Blair partilhava a responsabilidade primária, Hain maltratou-o no [programa] Newsnight da BBC como sendo um "apologista de Saddam". Em 2003, Hain apoiou a invasão de Blair do Iraque já massacrado com base em mentiras transparentes. Numa conferência posterior do Partido Trabalhista, ele considerou a invasão como uma "questão marginal".

    Agora Hain estava a pedir "ataques aéreos, drones, equipamento militar e outros apoios" àqueles que "enfrentavam o genocídio" no Iraque e na Síria. Isto era, mais uma vez "o imperativo de uma solução política". No dia em que o artigo de Hain foi publicado, Denis Halliday e Hans Von Sponeck por acaso estavam em Londres e foram visitar-me. Eles não estavam chocados pela hipocrisia mortal de um político, mas lamentavam a quase inexplicável ausência de diplomacia inteligente na negociação de uma aparência de trégua. Por todo o mundo, da Irlanda do Norte ao Nepal, aqueles que encaravam o outro como terroristas e heréticos confrontaram-se um ao outro numa mesa. Por que não agora no Iraque e na Síria? Ao invés disso, há um insípido, quase sociopático, palavreado de Cameron, Hollande, Obama e sua "coligação das vontades" quando prescrevem mais violência despejada a partir de 9 km de altura sobre lugares onde o sangue de aventuras anteriores nunca secou. Eles parecem saborear tanto a sua própria violência e estupidez quanto querem derrubar o seu único aliado potencial válido, o governo da Síria.

    Isto não é nada de novo, como ilustra o seguinte dossiê escapado da inteligência do Reino Unido-EUA:

    "A fim de facilitar a acção das forças liberativas (sic)... deveria ser feito um esforço especial para eliminar certos indivíduos chave [e] prosseguir com perturbações internas na Síria. A CIA está preparada e o SIS (MI6) tentará montar incidentes de sabotagens menores e um coup de main (sic) dentro da Síria, trabalhando através de contactos com indivíduos... um grau necessário de medo... fronteira e choques de fronteira (encenados) proporcionarão um pretexto para intervenção... a CIA e o SIS deveriam utilizar... capacidades tanto no campo psicológico como da acção a fim de aumentar a tensão".

    O texto acima é de 1957, embora pudesse ter sido escrito ontem. No mundo imperial, nada muda no essencial. Em 2013, o antigo ministro francês dos Negócios Estrangeiros, Roland Dumas, revelou que "dois anos antes da primavera árabe", disseram-lhe em Londres que uma guerra à Síria estava a ser planeada. "Vou contar-lhe algo", disse ele numa entrevista ao canal LPC da televisão francesa, "dois anos antes da violência na Síria fui à Inglaterra por outras razões. Encontrei altos responsáveis britânicos, os quais me confessaram estarem a preparar algo na Síria... A Grã-Bretanha estava a preparar uma invasão de rebeldes para dentro da Síria. Eles perguntaram-me mesmo, embora eu já não fosse ministro dos Negócios Estrangeiros, se gostaria de participar... Esta operação tem antecedentes. Ela foi preparada, concebida antecipadamente e planeada".

    Os únicos oponentes eficazes do ISIS são demónios reconhecidos do ocidente – a Síria, Irão, Hezbollah e agora a Rússia. O obstáculo é a Turquia, um "aliado" e membro da NATO, a qual tem conspirado com a CIA, MI6 e os feudais do Golfo para canalizar apoio para os "rebeldes" sírios, incluindo aqueles que agora se auto-denominam ISIS. Apoiar a Turquia na sua ambição antiga de dominação regional pelo derrube do governo Assad acena a uma grande guerra convencional e ao horroroso desmembramento do estado com maior diversidade étnica do Médio Oriente.

    Uma trégua – ainda que difícil de negociar e alcançar – é a única saída deste labirinto. Do contrário, as atrocidades em Paris e Beirute serão repetidas. Juntamente com uma trégua, os principais perpetradores e supervisores da violência no Médio Oriente – os americanos e europeus – devem eles próprios "desradicalizar-se" e demonstrar boa fé a comunidades alienadas de muçulmanos por todo o mundo, incluindo aquelas domésticas. Deveria haver uma cessação imediata de todos os embarques de materiais de guerra para Israel e reconhecimento do Estado da Palestina. A questão da Palestina é a ferida aberta mais supurante da região e a justificação frequentemente declarada para a ascensão do extremismo islâmico. Osama bin Laden deixou isso claro. A Palestina também representa esperança. Faça-se justiça aos palestinos e começar-se-á a mudar o mundo em torno deles.

    Mais de 40 anos atrás, o bombardeamento do Cambodja por Nixon-Kissinger desencadeou uma torrente de sofrimento do qual aquele país nunca se recuperou. O mesmo é verdadeiro em relação ao crime de Blair-Bush no Iraque e aos crimes da NATO e da "coligação" na Líbia e na Síria. Com sentido de oportunidade impecável, o mais recente livro de auto-louvação de Henry Kissinger foi divulgado com o seu título satírico, "World Order". Numa revista bajulatória, Kissinger é descrito como um "artífice chave de uma ordem mundial que permaneceu estável durante um quarto de século". Digam isso aos povos do Cambodja, Vietname, Laos, Chile, Timor-Leste e todas as outras vítimas deste "estadista". Só quando "nós" reconhecermos os criminosos de guerra em nosso meio e deixarmos de negar a verdade para nós próprios o sangue começará a secar. 
    16/Novembro/2015

    Ver também:
  • Why is Washington Turning Blind Eye to ISIL's Gulf Funding Sources?
  • ISIL Financed by 40 Countries, Including G20 Member States - Putin

    Siga John Pilger no twitter @johnpilger

    O original encontra-se em johnpilger.com/articles/from-pol-pot-to-isis-the-blood-never-dried 


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
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