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quinta-feira, 29 de junho de 2017

Governo ataca trabalhadores da única fábrica sob controle operário no Brasil


Governo ataca trabalhadores da única fábrica sob controle operário no Brasil

A Flaskô é uma empresa produtora de bombonas plásticas atuante no ramo de transformação de plástico desde a década de 1980. Sob gestão patronal, a fábrica consolidou-se no ramo químico, mas, nos anos 1990, devido a uma série de problemas, sua administração entrou em processo de falência. Enquanto a gestão patronal vendia as máquinas e não investia mais na fábrica, os operários perceberam que algo de ruim estava por vir.
Neste momento, os trabalhadores começaram a investigar os documentos arquivados e perceberam que uma série de direitos não estavam sendo cumpridos por parte da gestão patronal. FGTS, INSS e salários estavam atrasados e, por mais de 10 anos, os direitos garantidos pela CLT não estavam sendo cumpridos. Descobriram também que o buraco era muito mais embaixo: não apenas as dívidas trabalhistas não estavam sendo cumpridas, mas o pagamento de terceiros também estava atrasado.
Os trabalhadores identificaram dívidas de mais de R$ 150 milhões deixadas pela gestão patronal, dentre elas as dívidas de energia com a CPFL de cerca de R$ 700 mil. Frente a um cenário crítico e delicado tanto para os trabalhadores como para a fábrica, os trabalhadores decidiram se mobilizar para ocupar o território fabril, sob uma organização que visava à garantia social dos direitos e a transformação da propriedade da fábrica em propriedade social.
O momento da ocupação, que ocorreu em 2003, foi uma virada de página na história da fábrica. Os trabalhadores decidiram pelo controle e gestão operária.
Pressão e boicote
Quase 14 anos se passaram desde então. Atualmente, no cenário de crise econômica e recessão que assola o país, a realidade da fábrica não é diferente das demais fábricas e indústrias brasileiras. Um ator expressivo nesse cenário é a CPFL, concessionária de energia elétrica na região.
As negociações com a CPFL começaram em 2008, quando foi feito um acordo de uma dívida da época patronal. Também foi feito outro acordo em relação às dívidas da gestão operária. Entre 2008 e 2016, a Flaskô foi alvo de diversos ataques da CPFL, entre eles ameaça de cortes de energia, tendo em vista as dívidas contraídas. Em outubro de 2016, os trabalhadores da Flaskô fizeram uma manifestação na sede da CPFL contra o corte no fornecimento de energia. Naquele momento, os trabalhadores e o movimento por moradia da Vila Soma se juntaram para protestar contra a represália gerada pela empresa. A partir desta situação, os trabalhadores conseguiram voz para reivindicar um novo acordo que substituiu as duas negociações anteriores e, além disso, sob orientação da CPFL, as contas de cada mês, a partir de agosto de 2016, ficaram em aberto e deveriam ser pagas somente após janeiro de 2017.
Assim, no dia 14 de março foi feita uma reunião com o intuito de se discutir propostas de parcelas que fossem exequíveis e acordadas com a CPFL, enfatizando que a Flaskô sempre quitou os acordos assumidos. É explicado pela CPFL que apesar do débito da Flaskô ser grande, é relativamente pequeno em relação a outras empresas inadimplentes, como, por exemplo, a Mabe, que entrou em processo de falência com dívida que ultrapassa R$ 3,5 milhões, e que mesmo assim a negociação estava ocorrendo. Isso gerou uma expectativa para os trabalhadores de que as negociações seriam retomadas. Assim, foi marcado para o dia 21 de março uma nova reunião, mas que foi cancelada. Na espera de uma contraproposta da CPFL, os trabalhadores aguardavam uma nova agenda de negociação. No entanto, ocorreu o corte de energia alguns dias depois.
Resistência
No dia 30 de março, os trabalhadores da Flaskô foram surpreendidos com a brutal medida da CPFL de cortar o fornecimento de energia sem comunicação prévia e em desconformidade com o teor das negociações que vinham sendo feitas.
Essa ação unilateral e inconsequente poderia ter resultado em uma tragédia, pois a fábrica estava produzindo, com operadores de máquinas realizando seu trabalho, com matéria-prima dentro das máquinas, causando danos ainda a serem calculados.
Na tarde do mesmo dia, receberam por e-mail uma suposta carta da CPFL apresentando que havia recusado a proposta da Flaskô, sem apresentar alternativas e comunicando o corte já depois de o terem realizado.
Então, em uma reunião na CPFL, num verdadeiro clima opressor e hostil, com mais de 20 seguranças particulares contratados para intimidar os trabalhadores, eles foram informados de que aquela era a posição definitiva da CPFL, de que não haveria religação da energia enquanto não houvesse o pagamento do valor integral da dívida (cerca de R$ 1,6 milhão e não dandoqualquer alternativa para a Flaskô. Tal ato mostra a arrogância e o elitismo de uma empresa privatizada que detém o monopólio do fornecimento e distribuição de energia na região. Se vangloria como uma empresa de responsabilidade social, mas agride frontalmente uma experiência reconhecida por seu caráter social.
Os trabalhadores em assembleia decidiram se mobilizar e publicaram uma nota fazendo “um apelo para que todos os apoiadores se insiram ainda mais nas campanhas em defesa da Flaskô e que juntos possamos enfrentar mais este golpe contra o conjunto da classe trabalhadora. Viva a luta dos trabalhadores da Flaskô! CPFL, religue a luz e volte às negociações com os trabalhadores!”.
A nota pública na íntegra, dentre outras informações sobre o controle operário e a luta de classes, pode ser acessada pelo site www.fabricasocupadas.org.br.
Alice Oliveira, Aline Romanini e Cícero Hernandez

fonte: A Verdade
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quarta-feira, 28 de junho de 2017

Plínio de Arruda Sampaio Jr / "No Brasil, a barbárie tem a cara de um processo de reversão neocolonial"

"No Brasil, a barbárie tem a cara de um processo de reversão neocolonial"


por Plínio de Arruda Sampaio Jr [*]
entrevistado por Patricia Fachin e Ricardo Machado
'.A absolvição da chapa [lista] Dilma-Temer das acusações de abuso de poder econômico e político, além de ter sido um "escárnio", demonstra que o Judiciário foi "irremediavelmente contaminado pela crise política", afirma o economista Plínio de Arruda Sampaio Jr..

Segundo ele, o que se assistiu no julgamento do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) "foi um conluio entre PSDB, PMDB e PT para manter Temer na presidência". O economista frisa que "as forças políticas que se alinham em torno do objetivo de 'estancar a sangria' são poderosas, congregam todos os espectros dos partidos da ordem, possuem amplas ramificações no Judiciário e resistem com desfaçatez e tenacidade à cruzada moralizadora que ameaça suas posições no interior do aparelho de Estado". E alfineta: "Quando os interesses comuns na preservação do status quo ficam ameaçados, a guerra de foice entre petistas, peemedebistas e tucanos pelo controle do aparelho de Estado é suspensa" e "os partidos da ordem atuam como irmãos siameses". Por enquanto, adverte, alguns personagens estão sendo "blindados de qualquer investigação", como os bancos, o sistema financeiro e o capital estrangeiro, e a "ramificação da rede criminosa no sistema judiciário e na grande mídia é negligenciada".

Na avaliação do economista, uma alternativa à crise política seria a realização de eleições diretas. Contudo, adverte, "a convocação de eleições gerais também não é suficiente para sanar a crise política. Não adianta nada trocar pessoas. Se as regras do jogo não mudarem, sai um Eduardo Cunha e entra outro. É o sistema político como um todo que precisa ser livre do controle absoluto do capital".

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail para a IHU On-Line, o economista também comenta a atual situação econômica do país e pondera que, depois da contração de quase 4% em 2016 e da estagnação econômica atual, "não há nada que permita imaginar que 2018 possa ser muito diferente. Depois que Temer assumiu o governo, a taxa de desemprego aumentou para 14% e mais de 1,6 milhão engrossaram o exército de desempregados. O Brasil tem 14,2 milhões de desempregados, um contingente populacional equivalente à força de trabalho conjunta da Argentina e do Uruguai".

Plínio de Arruda Sampaio Jr é professor do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas – IE/Unicamp. Possui mestrado em Economia e doutorado em Economia Aplicada pela mesma instituição. É autor de Capitalismo em crise: a natureza e dinâmica da crise econômica mundial (São Paulo: Editora Sundermann, 2009) e Entre a nação e a barbárie: os dilemas do capitalismo dependente (Petrópolis: Vozes, 1990).

TEMER JÁ CAIU, MAS PODE DEMORAR PARA CHEGAR AO CHÃO 

IHU On-Line – Como o senhor analisa a atual conjuntura política, com o revés da cassação da chapa Dilma-Temer? Quais devem ser os impactos políticos e econômicos desta decisão?

Plínio de Arruda Sampaio Jr – Temer já caiu, mas pode demorar para chegar ao chão. Depois da Greve Geral do 28 de abril e da delação de Joesley, sua autoridade política ruiu. Ele pode até encontrar força parlamentar para não ser deposto, mas dificilmente governará da maneira despótica como vinha fazendo. O presidente é um morto-vivo. Passará todos os dias restantes de sua presidência lutando desesperadamente para permanecer no cargo. Sabe que se for apeado do poder será preso. A debilidade de Temer não diminui em nada o caráter altamente nefasto de seu governo. Para que a plutocracia não aproveite sua extrema vulnerabilidade para aprofundar as medidas regressivas do ajuste neocolonial, é fundamental que o povo esteja alerta e mobilizado. Se os trabalhadores saírem das ruas, a ofensiva reacionária não será derrotada.

O que se viu no julgamento do TSE foi um conluio entre PSDB, PMDB e PT para manter Temer na presidência. O PSDB que impetrou o pedido de anulação da Chapa [Lista] Dilma-Temer, já não tinha o menor interesse na sua deposição e mobilizava sua artilharia nas altas esferas do judiciário para salvar a pele do presidente. O advogado do PT, ignorando a consigna "Fora Temer", desdobrava-se pelo "Fica Temer". As forças políticas que se alinham em torno do objetivo de "estancar a sangria" são poderosas, congregam todos os espectros dos partidos da ordem, possuem amplas ramificações no Judiciário, e resistem com desfaçatez e tenacidade à cruzada moralizadora que ameaça suas posições no interior do aparelho de Estado. Quando os interesses comuns na preservação do status quo ficam ameaçados, a guerra de foice entre petistas, peemedebistas e tucanos pelo controle do aparelho de Estado é suspensa. No momento de viabilizar a anistia da corrupção, impulsionar o ajuste neoliberal e evitar instabilidades políticas que possam acirrar a luta de classes, os partidos da ordem atuam como irmãos siameses.

Ignorando as provas cabais de financiamento ilícito da Chapa Dilma-Temer, a decisão do TSE aprofundou a crise política e aumentou a descrença nas instituições. A exposição detalhada das relações promíscuas entre empresários e políticos reforçou o sentimento de que "todos os políticos são corruptos". A incoerência e a falta de compostura do PT e do PSDB no episódio agravaram a desmoralização dos partidos políticos. A racionalização da corrupção como um "mal necessário" da vida política, em rede nacional de televisão, reafirmou a convicção de que a justiça brasileira é completamente arbitrária. Obedecendo ao ditame de que "para os amigos tudo, para os inimigos, a lei", Gilmar Mendes enterrou o TSE. A metástase da crise política chegou definitivamente ao Judiciário.

O CONGRESSO NACIONAL É O SUSTENTÁCULO DA REPÚBLICA DOS DELINQUENTES 

IHU On-Line – No Congresso, o senhor vê alguma possibilidade de que os pedidos de impeachment contra Temer prosperem?

Plínio de Arruda Sampaio Jr – O Congresso Nacional é o sustentáculo da República dos Delinquentes . Todos os partidos da ordem, inclusive o partido da presidente deposta, trabalham com afinco para "estancar a sangria". Os parlamentares só se colocarão contra Temer se forem acuados por uma rebelião popular. Enquanto não se sentirem ameaçados, defenderão com unhas e dentes seu chefe no Planalto e resistirão desavergonhadamente à ofensiva da operação "Fora Todos" liderada pelo Ministério Público Federal e pela Rede Globo.

IHU On-Line – O mercado financeiro deu um voto de "confiança" a Temer mesmo diante de todos os escândalos políticos. O atual presidente continua sendo a opção do mercado porque ainda é a tábua de salvação para garantir as reformas?

Plínio de Arruda Sampaio Jr – O mercado financeiro pisa em ovos. É impossível montar as gigantescas redes de corrupção desvendadas pelo Ministério Público sem a participação ativa de bancos. A relação da alta finança com Temer e Meirelles é íntima e delicada. Não há dúvida de que o agravamento da crise política e o progressivo enfraquecimento de Temer comprometem sua capacidade de comandar a guerra aberta contra os trabalhadores – a essência do ajuste neoliberal. No entanto, o "mercado", termo utilizado para camuflar os imperativos do grande capital, não tem muita alternativa. Enquanto não encontrar alguém capaz de continuar o trabalho sujo (iniciado, diga-se de passagem, por Dilma), a plutocracia ficará encalacrada com Temer.

IHU On-Line – Como avalia as tentativas do governo em tentar retomar o crescimento econômico? Elas têm se mostrado uma estratégia política, econômica e social insuficiente?

Plínio de Arruda Sampaio Jr – Após décadas de especialização regressiva na divisão internacional do trabalho, o crescimento da economia brasileira depende basicamente da recuperação das vendas externas. Como o comércio internacional continua patinando, não há como esperar uma retomada do crescimento. Factoides de que o pior já passou não atuam sobre a realidade. Num ambiente de grande incerteza, a redução das taxas de juros não é suficiente para incentivar o aumento da demanda agregada. Se a massa salarial diminui, a falta de confiança em relação ao futuro paralisa as decisões de investimentos e a política de austeridade fiscal contrai os gastos públicos, não há como esperar uma recuperação do crescimento.

Os efeitos do ajuste ortodoxo sobre o crescimento são incertos e demorados. No curto prazo, as medidas que compõem o receituário neoliberal buscam apenas atenuar o impacto da crise sobre as empresas, recompondo a rentabilidade do capital pela diminuição dos gastos com salário e tributos; abrindo oportunidades de negócios para o capital excedente pela privatização dos serviços públicos, isto é, transferindo patrimônio público para as empresas; e permitindo que a riqueza privada tenha possibilidade de se valorizar ficticiamente na dívida pública, pela garantia de sua sustentabilidade intertemporal, ou seja, pela sacralização do ajuste fiscal permanente. Os efeitos de longo prazo do ajuste ortodoxo sobre o crescimento dependem de um conjunto de fatores altamente indeterminados que condicionarão a posição da economia brasileira na nova divisão internacional do trabalho. Entre o curto e o longo prazo, o país fica no limbo, à espera de dias melhores, amargando uma longa estagnação.
IHU On-Line – Tem sido possível garantir a manutenção da empregabilidade e mesmo a abertura de novos postos de trabalho no contexto? Como avalia a situação da empregabilidade no país no atual momento?

Plínio de Arruda Sampaio Jr – Para quem vive do próprio trabalho e depende de políticas públicas, o ajuste neoliberal é um inferno. É, portanto, fundamental iludir a opinião pública de que o pior já passou ou está prestes a passar. Há dez anos o Fundo Monetário Internacional – FMI repete que a crise mundial terminará no próximo semestre. Daí a importância do controle absoluto sobre os meios de comunicação. Se os trabalhadores tivessem acesso a uma visão crítica da realidade, jamais aceitariam as mentiras que são ditas para justificar uma política econômica completamente comprometida com os negócios do grande capital.

SE OS TRABALHADORES TIVESSEM ACESSO A UMA VISÃO CRÍTICA DA REALIDADE, JAMAIS ACEITARIAM AS MENTIRAS QUE SÃO DITAS PARA JUSTIFICAR UMA POLÍTICA ECONÔMICA COMPLETAMENTE COMPROMETIDA COM OS NEGÓCIOS DO GRANDE CAPITAL 

Quem acreditou na estória de que a chegada de Temer resolveria a crise, caiu do cavalo. Depois de sofrer uma contração de quase 4% em 2016, a economia brasileira encontra-se estagnada. Em 2017, o desempenho do PIB deve ficar entre -0,5 e 0,5%. Não há nada que permita imaginar que 2018 possa ser muito diferente. A situação do mercado de trabalho é dramática. Depois que Temer assumiu o governo, a taxa de desemprego aumentou para 14% e mais de 1,6 milhão engrossaram o exército de desempregados.

O Brasil tem 14,2 milhões de desempregados, um contingente populacional equivalente à força de trabalho conjunta da Argentina e do Uruguai. Para além das flutuações esporádicas, não há nada que indique uma reversão do quadro de profunda prostração do mercado de trabalho. O emprego reage às flutuações do nível de atividade com defasagem. Logo, mesmo que o crescimento volte com alguma intensidade no futuro, demorará muito tempo para que a economia brasileira consiga absorver as pessoas que foram jogadas no desemprego. Na crise de 1980, a absorção dos desempregados demorou praticamente uma década.

IHU On-Line – Como o senhor analisa o atual Congresso Nacional, que está imerso em escândalos de corrupção, com 167 deputados e 28 senadores financiados pela JBS? Qual a legitimidade desse Congresso para aprovar as reformas trabalhistas ou quaisquer outras pautas, até mesmo a cassação de pares?

Plínio de Arruda Sampaio Jr – As investigações judiciais comprovaram o que todos sabiam. A corrupção é um elemento estrutural do padrão de acumulação e dominação do capitalismo brasileiro. As delações dos altos executivos do capital são didáticas. O capital é o elo dominante da relação criminosa. Os partidos são comprados pelos empresários. Os políticos funcionam com despachantes de interesses privados nos aparelhos de Estado. Sem a relação promíscua do capital com o Estado, a burguesia brasileira não duraria um dia.

Não deve causar estranheza que o verdadeiro objetivo da operação "pega ladrão" em curso, por mais paradoxal que possa parecer, não seja erradicar a corrupção. Os paladinos da moralização – Janot, Moro, Teori Zavascki e Fachin – não vão à raiz do problema. As investigações são seletivas. O sistema financeiro é blindado de qualquer investigação e, no entanto, é impossível a lavagem de dinheiro sem a cumplicidade explícita dos bancos. O capital estrangeiro é poupado de qualquer investigação. A ramificação da rede criminosa no sistema judiciário e na grande mídia é negligenciada.

Políticos corruptos e empresários corruptores recebem tratamento diferenciado. Os primeiros são presos e achincalhados. Os segundos – as grandes empresas que se beneficiam do assalto ao Estado – safam-se da cruzada moralizante, às vezes um pouco chamuscados, mas sem maiores reveses. Com a benção do Ministério Público e do Supremo Tribunal Federal, os acordos de delação livram os burgueses; e os acordos de leniência isentam o capital. No final, sob a aparência de uma faxina geral, permanece tudo como dantes. A engrenagem do roubo não é abalada. As relações promíscuas entre o grande capital e o Estado permanecem incólumes. A operação "Fora Todos" apenas prepara o caminho para uma "modernização" dos esquemas de intermediação espúria dos interesses do capital nos aparelhos de Estado, adaptando-os às novas exigências do padrão de acumulação.

O verdadeiro objetivo da operação Fora Todos é colocar o poder político na defensiva a fim de abrir espaço para o avanço acelerado da ofensiva do capital. Desmoralizada, "a política" não tem como conter a ofensiva do capital contra o trabalho e assume integralmente uma agenda de desmonte da Nação que jamais seria aprovada pelas urnas. Nesse contexto, a autoridade do parlamento para modificar a Constituição é nula. As Emendas Constitucionais aprovadas nos últimos anos, muitas delas, em manobras parlamentares espúrias, na calada da noite, não passaram pelo crivo da vontade popular e devem ser todas revogadas com a máxima urgência.

IHU On-Line – Qual sua leitura da esquerda na atual conjuntura política? Ela tem conseguido oferecer algum tipo de resposta ou saída da crise à esquerda? Ainda nesse sentido, que futuro vislumbra para a esquerda brasileira?

Plínio de Arruda Sampaio Jr – A tarefa da esquerda socialista é enfrentar a barbárie capitalista. Para tanto, precisa colocar na ordem do dia a necessidade de transformações que ataquem as causas estruturais dos problemas responsáveis pelas mazelas do povo. Elas são conhecidas: a perpetuação da segregação social, a continuidade de dependência externa e as taras do capital. A tarefa da esquerda é fazer a revolução brasileira. O primeiro passo é afirmar a necessidade histórica de uma ruptura radical com a ordem global. Sem o fim da Lei de Responsabilidade Fiscal, é impossível imaginar políticas públicas. Sem centralizar o câmbio, é impossível defender a economia brasileira dos ataques desestabilizadores do capital internacional. Sem subordinar a gestão da moeda a uma política de recuperação da economia nacional, é impossível combater o rentismo.

A MISÉRIA DO POSSIBILISMO 

Sem ousadia e radicalidade, a esquerda esteriliza-se e corre o risco de se transformar em linha auxiliar da esquerda da ordem. A miséria do possível é uma armadilha que circunscreve as alternativas da sociedade à possibilidade de graduar o ritmo e a intensidade da marcha para a barbárie. Se não houver uma luz no fim do túnel que aponte uma saída civilizada para o grande impasse histórico que ameaça a sociedade brasileira, abre-se a brecha para que qualquer aventureiro acenda um fósforo e se apresente como salvador da pátria. A esquerda socialista tem uma grande responsabilidade histórica. É a invisibilidade de uma saída civilizada que alimenta o crescimento da barbárie. É a esterilidade da esquerda que alimenta o crescimento da ultradireita.

IHU On-Line – Como o senhor vê a possibilidade de realização de eleições diretas? Até que ponto isso seria possível?

OS PALADINOS DA MORALIZAÇÃO – JANOT, MORO, TEORI ZAVASCKI E FACHIN – NÃO VÃO À RAIZ DO PROBLEMA 

Plínio de Arruda Sampaio Jr – A eleição direta é um pleito legítimo. Sem o crivo do voto, o poder é ditatorial. A imposição de uma agenda de contrarreformas espúrias que vai na contramão da vontade da cidadania caracteriza uma situação de violência inaceitável que convoca a população à desobediência civil. Eleições diretas é, portanto, uma necessidade real. Contudo, ela não pode ficar restrita à eleição de presidente, pois é todo o Congresso que está apodrecido.

Contudo, a convocação de eleições gerais também não é suficiente para sanar a crise política. Não adianta nada trocar pessoas. Se as regras do jogo não mudarem, sai um Eduardo Cunha e entra outro. É o sistema político como um todo que precisa ser livre do controle absoluto do capital. É isso que as delações deixam cristalino (mas que o Judiciário não tira as consequências). Portanto, a solução da crise política passa por uma refundação do sistema político. Para não ser um aberto embuste, a democracia pressupõe: plena liberdade de organização política, proibição de financiamento empresarial aos partidos, rígidos tetos de gastos nas campanhas eleitorais, revogação de mandatos eletivos que violarem os compromissos com os eleitores, ampla democratização dos meios de comunicação a fim de libertar o debate público da ditadura do grande capital, o que implica a imediata revogação da concessão da Rede Globo, SBT etc. Evidentemente, uma mudança dessa envergadura não seria possível sem uma ruptura profunda com o status quo, o que só seria possível no contexto de uma verdadeira revolução democrática.

IHU On-Line – Por ocasião das investigações da Lava Jato e depois durante o processo de retirada de Dilma Rousseff do Planalto, muito se falou que esses fatos indicavam um "fortalecimento das instituições" nacionais. Todavia, a cada dia que passa, a frase de Jucá "É preciso um grande acordo, com o Supremo, com tudo" tem parecido mais trágica e verdadeira. Nesse contexto, para onde estão indo nossas instituições?

Plínio de Arruda Sampaio Jr – A Nova República está ruindo. A radiografia da corrupção pelo Ministério Público e sua espetacularização pelos grandes meios de comunicação trucidaram o sistema político brasileiro e todas as suas instituições. A decisão do TSE de inocentar a chapa Dilma-Temer foi um escárnio. O Judiciário foi irremediavelmente contaminado pela crise política.

A crise que abala a República expressa a exaustão da democracia de cooptação cristalizada no pacto político que institucionalizou a democracia restrita implantada em 1964. Assim como a crise de 1929 destruiu a República Velha, a crise de 2015 está destruindo a Nova República. O fim do reinado do café acabou com a supremacia da oligarquia cafeeira. A crise terminal do processo de industrialização por substituição de importações exige um novo padrão de dominação. Em última instância, a causa da crise política reside na absoluta incompatibilidade entre as promessas de um capitalismo com um patamar mínimo de civilidade expressas na Constituição de 1988 e a dura realidade de uma sociedade em reversão neocolonial.

A resposta reacionária à crise econômica aprofunda e acelera o movimento de rebaixamento do patamar mínimo de civilidade conquistado a duras penas no último século. Assim como a política social não cabe no regime de austeridade imposto pelas grandes finanças e os direitos trabalhistas não cabem nos cálculos de rentabilidade dos empresários, o padrão de dominação baseado na democracia de cooptação não cabe nos planos de ajuste ortodoxo e no padrão de acumulação baseado na produção de commodities para o mercado internacional.

A crise da Nova República comporta duas soluções. A resposta do capital requer o estreitamento ainda maior da já bem rebaixada democracia brasileira, o que pressupõe a liquidação da Constituição de 1988. É o vetor que está prevalecendo. É uma solução para a crise de poder que aponta para um perigoso recrudescimento do autoritarismo e da violência política. A alternativa, a resposta do trabalho, passa pelo caminho inverso, uma ampliação radical do espaço democrático, o que supõe a busca de uma solução para a crise econômica que não leve ao aprofundamento da inserção subalterna na ordem global.

IHU On-Line – Tanto o Brasil quanto a América Latina têm pautado grande parte de suas políticas públicas a partir de um paradigma desenvolvimentista ou neodesenvolvimentista. Esse modelo não chegou aos seus limites? Que alternativas emergem e podem resgatar a cidadania das populações mais vulnerabilizadas?

É A HORA E A VEZ DE COLOCAR A REVOLUÇÃO BRASILEIRA NA ORDEM DO DIA

Plínio de Arruda Sampaio Jr – 
Existe muita confusão sobre o que significa desenvolvimento. Entendido como a luta dos povos que vivem na periferia do capitalismo para submeter a acumulação de capital aos desígnios da sociedade nacional, estabelecendo um patamar mínimo de civilidade para a vida social – o entendimento de nossos grandes intérpretes, Caio Prado Jr, Florestan Fernandes, Celso Furtado –, o desenvolvimentismo terminou no Brasil em 1964, quando a burguesia derrotou as reformas de base e consolidou o capitalismo como um capitalismo dependente. A partir daí, a economia brasileira tornou-se território livre para tenebrosas transações. De lá para cá, o Brasil teve períodos – breves – de alto crescimento, como o chamado "milagre econômico"; alguns momentos de crescimento razoável, como o efêmero "neodesenvolvimentismo" de Lula; prolongadas fases de estagnação, como os oito anos de FHC; e momentos de recessão aguda, como a década de 1980, e a que se vislumbra agora, com a crise instalada em 2015. Até a crise da dívida externa e os planos de ajuste liberais, os negócios do capital vieram acompanhados de avanço na industrialização por substituição de importações. Depois do ajuste ortodoxo comandado pelo FMI e da inserção na ordem global, a acumulação de capital veio acompanhada de um processo irreversível de desindustrialização que comprometeu irremediavelmente as bases materiais da economia nacional. Enfim, pelo menos desde 1964, a utopia do desenvolvimento nacional não está mais inscrita no campo de possibilidades da sociedade brasileira.

O chamado neodesenvolvimentismo é, portanto, uma grande farsa. A integração da economia mundial impulsionada pela globalização dos negócios solapou as bases objetivas e subjetivas de um desenvolvimento capitalista nacional. A modesta prosperidade material dos anos Lula foi condicionada por um ciclo de crescimento puxado pelo boom do comércio internacional. Quando o boom acabou, a economia despencou e o caráter subdesenvolvido e dependente da economia brasileira veio rapidamente à tona.

Nos marcos da ordem global, o capitalismo de nosso tempo, é simplesmente impossível resgatar um processo civilizador. Dentro da ordem burguesa, não há luz no fim do túnel. A crise estrutural do capital coloca no horizonte o recrudescimento da barbárie capitalista. No Brasil, a barbárie tem a cara de um processo de reversão neocolonial que está nos levando ao século XIX. Qualquer solução civilizada para os problemas que infernizam a vida dos brasileiros passa por profundas mudanças estruturais. É a hora e a vez de colocar a revolução brasileira na ordem do dia. Essa é a conversa séria capaz de abrir novos horizontes para a sociedade brasileira.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Plínio de Arruda Sampaio Jr – Agradeço a rara oportunidade de apresentar uma visão da realidade que contraria o senso comum e que se contrapõe aos interesses mercantis que controlam ditatorialmente o debate público. 
27/Junho/2017

[*] Economista, Professor da Universidade Estadual de Campinas.

O original encontra-se em www.ihu.unisinos.br/... e em https://pcb.org.br/portal2/14880 


Esta entrevista encontra-se em http://resistir.info/ .

Marcus Rediker / Como as classes populares fizeram história

Como as classes populares fizeram história


por Marcus Rediker [*]
entrevistado por Jérôme Skalski
Em Les Hors-la-loi de l'Atlantique (Os fora da lei do Atlântico)publicado pelas edições du Seuil, o historiador norte americano oferece-nos uma síntese das suas pesquisas a respeito da história da navegação à vela, matriz do sistema capitalista, mas também lutas, recalques e ideais da modernidade.

A sua obra Os fora da lei do Atlântico oferece-nos uma síntese de trinta anos de pesquisa sobre a história da navegação à vela dos séculos XVII, XVIII e da primeira metade do século XIX. Como se inscreve o seu trabalho na corrente histórica chamada "a historia subjacente" (histoire par en bas) 

Marcus Rediker: A primeira coisa que gostaria de dizer é que a expressão "historia subjacente" foi utilizada pela primeira vez pelo historiador francês Georges Lefebvre, nos anos anteriores à guerra. A tradição da história subjacente (historia por baixo) à qual efectivamente pertenço, compreende historiadores franceses, mas também e principalmente ingleses, como E. P, Thomson [1] e Christopher Hill [2] , historiadores marxistas e pioneiros desse tipo de história nos anos 60. Nos Estados Unidos nos anos 70, uma versão ligeiramente diferente desse tipo de história foi desenvolvida sob o nome de "historia de baixo para cima (history from the bottom up) no sulco dos movimentos contra a guerra do Vietname, movimentos estudantis, movimentos femininos, novos movimentos operários, mas também movimentos pelos direitos cívicos e os Panteras Negras, que aspiravam a uma nova maneira de escrever a historia. Fui formado por esses movimentos. Comecei os meus estudos com o desejo de contar um outro género de história, diferente da história habitual. Nos Estados Unidos, a verdadeira ciência histórica foi suprimida pela guerra-fria. O historiador norte-americano mais representativo desta corrente foi Howard Zinn, com a sua Historia Popular dos Estados Unidos [3] que foi vendida em milhões de exemplares. O que é muito importante neste género de história, é que é não só a história dos pobres ou mesmo das classes trabalhadoras em geral, mas também a da sua capacidade de agir (agency), ou seja da sua capacidade de afectar o curso da história, não apenas como instâncias passivas do processo histórico. As suas lutas afectaram profundamente o curso da história. Para mim esse foi sempre um ponto importante: mostrar como as classes populares fizeram história e mudaram o modo como o processo histórico se desenvolveu.

Um aspecto original da sua aproximação não é também ter descrito no mar um processo análogo ao que Marx analisa em O Capital sobre a transformação da manufactura como pivô da história do capitalismo moderno? 

Marcus Rediker: Muitas pessoas pensam que a essência do capitalismo está ligada quase exclusivamente ao trabalho assalariado. O meu trabalho foi o de sublinhar a centralidade do comércio servil, da escravatura e do trabalho forçado, no surgimento do capitalismo como sistema. O sistema servil do Atlântico, ao Brasil, às Caraíbas, ao norte da América, foi a fonte de uma enorme massa de capital. O meu ponto de vista foi em primeiro lugar quebrar as cadeias nacionais da história e mostrar que há fontes transnacionais e atlânticas dos desenvolvimentos económicos nacionais e em segundo lugar, insistir na importância do trabalho forçado nos desenvolvimentos. Outro dos meus argumentos é que o barco à vela, que se chama tecnicamente em inglês "o navio de alto mar de popa redonda" (round headed deep seaship), foi uma das máquinas mais importantes no início da era moderna e provavelmente uma das maquinas mais importantes a participar no surgimento do capitalismo. Os navios à vela e os trabalhadores que os faziam navegar cristalizaram literalmente os vários ramos desconexos da economia e um conjunto mundial. Esta maneira de considerar o navio à vela, e o navio negreiro em especial, como uma máquina dependente de um género particular do processo capitalista foi efectivamente influenciado pela minha leitura de Marx no que respeita ao processo de trabalho na manufactura. O navio à vela foi um factor decisivo na produção da força de trabalho para a economia mundial.

Mas também me interessei pela maneira como os navios negreiros foram o vector da produção, num sentido analítico, das categorias de "raças" que viriam a dominar o capitalismo ocidental. Para dar um exemplo do funcionamento deste facto — falo mais precisamente do meu livro — havia as equipagens de marinheiros de um lado, que eram ingleses, franceses. holandeses, etc, e que trabalhavam nos navios em qualquer parte da Europa. Chegavam às costas africanas e tornavam-se "Brancos" ou melhor dizendo, eram racialisados no decurso da viagem. Por outro lado, temos um grupo multi-étnico de africanos, fantis, malinques, ashantis, etc transportados nos navios negreiros pelo Atlântico e que, quando chegavam à Jamaica, ao Brasil ou à Virgínia, se tornavam "Negros", representantes da "raça negra". O movimento através do espaço e o tempo produziu categorias raciais de análise. É um outro aspecto essencial engendrado por este processo.

Demonstra também até que ponto a navegação à vela foi o campo de uma luta de classes frequentemente mal conhecida. Mesmo pioneira. 

Marcus Rediker: Sim, a navegação à vela como meio de trabalho totalitário foi um laboratório no qual os capitalistas e o Estado tentaram experiências para ver o que podia funcionar nos outros sectores da economia. Os marinheiros e as relações entre o capital e o trabalho, nos navios de guerra em especial, foram o campo de desenvolvimento de novas formas de relações de poder. Dos dois lados, houve experimentações e inovações. Os capitalistas tentaram organizar uma divisão complexa de trabalho para fazer funcionar essas máquinas e utilizaram formas de disciplina extremamente violentas que obrigavam os trabalhadores a colaborar, Os marinheiros, por outro lado, traduziam essa colaboração forçada em novas formas de resistência. Menciono isso no meu livro. Por exemplo, em inglês, a palavra greve (strike) vem de uma palavra que designa o efeito de abater as velas para as fazer descer (baixar as velas). A primeira greve teve lugar nas docas de Londres em 1788. Os marinheiros dos arredores baixaram as velas, pela parte de cima, para as baixar e imobilizar os navios. Nessa ocasião, a classe trabalhadora descobriu um novo poder, através da colaboração a bordo dos navios e um aprendizado para a luta.

É espantoso, apresenta igualmente um elo entre essas lutas sociais e políticas surgidas no meio marítimo e o início da grande pirataria no início do século XVII? Pirataria Potemkine de certa maneira, fonte secreta das revoluções americana e francesa, das Luzes, do abolicionismo, ou seja do socialismo? 

Marcus Rediker: As pessoas ficam surpreendidas ao descobrir que havia uma grande criatividade entre os piratas. A minha aproximação consistiu essencialmente em partir das condições de vida dos marinheiros dessa época, colocando uma questão muito simples: porque se tornaram piratas? A resposta a essa pergunta é muito interessante, porque ela leva-nos às condições de trabalho extremamente difíceis nos navios à vela, salários muito baixos, alimentação pobre, disciplina violenta… tudo isso levou as pessoas à pirataria, por elas próprias. Quando estudamos como os piratas organizavam os seus navios, descobrimos que era uma maneira completamente diferente dos navios comerciais e dos navios de guerra. Primeiro, eram democratas: elegiam os oficiais e o capitão. Nessa época os trabalhadores não tinham quaisquer direitos democráticos. Em parte alguma do mundo! Os piratas tentaram uma experiência extraordinária de democracia. E funcionou! Por outro lado, a maneira como dividiam o saque era igualitária. É também um aspecto diverso da estrutura salarial sobre os navios mercantes ou sobre os navios da Armada Real. Os piratas eram muito ciosos da igualdade. Claro, utilizavam os seus navios para atacar a propriedade dos comerciantes e por isso os governos francês e britânico queriam aniquilá-los. Mas a outra razão pela qual procuravam exterminá-los, é que eles se esforçavam por esmagar um exemplo de subversão que demonstrava pelos factos que se podia organizar a navegação de um modo diferente da habitual. Os piratas, de certo modo, eram como os trabalhadores das fábricas, elegiam a sua direcção e mostravam como podiam organizar as fábricas de um modo simultaneamente democrático e igualitário. Isso atormentava as autoridades francesas e britânicas mais ainda do que pelo ataque à propriedade cometido pelos piratas.

Se as autoridades conseguiram quebrar a pirataria, as suas ideias, levadas de boca em boca, pelos cais e pelas docas até ao interior das terras, conheceram uma via subterrânea até à sua actualização no decorrer dos processos revolucionários do fim do século. O meu trabalho foi seguir essas ideias através do tempo e demonstrar como se generalizaram entre as populações. Tiveram um impacto essencial no movimento das Luzes, mas também entre os trabalhadores. É o que chamei "as luzes a partir de baixo" (enlightment from below). É também, com efeito, nos navios que nasceu a consciência abolicionista. Por exemplo, um homem como Benjamin Lay, que foi um dos primeiros opositores à escravatura e que em quot8 lançou, o que foi pioneiro nesse século, um apelo a uma completa abolição do sistema servil, era marinheiro. Isso é absolutamente crucial. Foi porque era marinheiro e conhecia as terríveis condições de trabalho da equipagem nos navios, que desenvolveu um ideal de solidariedade entre todos os homens, livres, escravos, entre todos os povos e entre todos os trabalhadores da terra.

No fim da introdução da sua obra A bordo do navio negreiro [4]escreve: "O navio negreiro é um navio fantasma à deriva sobre as águas da consciência moderna". O que quer sugerir com essa fórmula? 

Marcus Rediker: O que quero dizer é que o navio negreiro está sempre vivo quanto às consequências do que se passou. A herança do tráfico de escravos e a herança da escravatura, especialmente nos Estados Unidos, mas também na Grã-Bretanha, na França, e noutros países europeus, está ainda muito presente hoje. Está presente nas discriminações raciais, na profunda desigualdade estrutural que se apresenta nas nossas sociedades. As violências extremas feitas às populações nos bairros populares são um exemplo da permanência da herança da escravatura. Todas essas coisas remontam à história da escravatura e ao modo como a categoria de "raça" ficou institucionalizada na vida moderna. Quando digo que o navio negreiro é um "navio fantasma" quero dizer que ele ainda está connosco. A denegação é muito grande, mas a presença espectral da escravatura principalmente nos Estados Unidos, é extremamente importante, ainda é preciso muito para encerrarmos este assunto. Não somos capazes de acabar com ela porque não temos a coragem de a encarar de frente. É mais visível nos Estados Unidos porque o facto da escravatura foi vivido no território do país. A escravatura, para os europeus, foi vivida nas suas possessões coloniais, e é algo abstracto. Para os americanos foi um elemento concreto da vida de todos os dias, Há grandes diferenças entre a situação nos Estados Unidos e na Europa, mas principalmente do trabalho dos historiadores sobre os dois lados do Atlântico. A Europa não se pode considerar de fora deste problema. 
(1) Edward Palmer Thompson, La Formation de la classe ouvrière anglaise (A formação da classe operária inglesa) , Le Seuil, Colecção "Points", 2012.
(2) Christopher Hill, Change and Continuity in 17th-Century England (Mudança e continuidade na Inglaterra do século XVII) , Harvard University Press, 1975.
(3) Howard Zinn, Une histoire populaire des États-Unis (Uma historia popular dos Estados Unidos) , Agone, 2002.
(4) Marcus Rediker, À bord du négrier. Une histoire atlantique de la traite (A bordo do navio negreiro. Uma história atlântica do tráfico) , Seuil, 2013. 


[*] Historiador, estado-unidense, www.marcusrediker.com

O original encontra-se em www.legrandsoir.info/... . Tradução de MA. 


Esta entrevista encontra-se em http://resistir.info/ .

terça-feira, 27 de junho de 2017

Moon of Alabama / Síria: o fim da guerra agora está à vista

Síria: o fim da guerra agora está à vista


por Moon of Alabama
'.Nos últimos dias, a mudança mais importante foi o movimento das forças do governo sírio (áreas vermelhas e setas - ver mapa no final do artigo) do sudeste para a fronteira com o Iraque. O plano inicial era retomar al-Tanf no sudoeste para proteger a auto-estrada Damasco-Bagdad. Mas al-Tanf foi ocupada pelos invasores americanos, britânicos e noruegueses e algumas das suas forças por procuração (azul). Os seus aviões atacaram os comboios do exército Sírio à medida que estes se aproximavam.

O plano americano era movimentarem-se de al-Tanf para o norte em direção ao rio Eufrates, para capturar e ocupar todo o sudeste da Síria. Mas a Síria e seus aliados fizeram um movimento inesperado que frustrou o plano. Os invasores estão agora isolados do Rio Eufrates por uma linha síria que vai de leste a oeste, até à fronteira com o Iraque. No Iraque, unidades militares populares sob o comando do governo iraquiano vieram ao encontro das forças sírias até à fronteira.

Os invasores americanos agora estão acampados no meio de um deserto sem interesse estratégico perto de al-Tanf; a sua única opção é morrer de tédio ou voltar para a Jordânia, de onde vieram. O exército russo já deixou claro que intervirá firmemente se os EUA atacarem a linha síria e se movimentarem mais para norte. Os Estados Unidos e seus aliados não têm nenhum mandato para estar na Síria. Eles não têm nenhuma razão, nem nenhum motivo legal para atacar as unidades sírias. A sua única opção é bater em retirada.

O movimento americano em al-Tanf teve como cobertura um ataque das forças por procuração americanas no sudoeste da Síria. Um grande grupo de "rebeldes", que inclui elementos da al-Qaeda e que é reabastecido desde a Jordânia, fez um movimento para tomar a cidade de Daraa, nas mãos do governo sírio. Esperava-se que este ataque desviasse as forças sírias de seu movimento para o leste. Mas apesar dos ataques suicidas, o assalto contra Deraa foi incapaz de reduzir a forte resistência das forças sírias. A tentativa de diversão fracassou. A posição da Síria em Deraa foi reforçada pelas unidades de Damasco, que agora atacam os gangues de mercenários do exército dos EUA. Progressos significativos foram alcançados ao sul de Daraa e o exército sírio provavelmente continuará sua ofensiva até à fronteira jordana.

Os planos dos EUA para o sul da Síria, a Ocidente como a Oriente, têm falhado por agora. A menos que a administração Trump esteja disposta a investir forças significativas e travar uma guerra aberta, violando todas as leis, contra o governo sírio e seus aliados, a situação está controlada. Forças sírias retomarão com o tempo todas as terras (a azul) no sul, que atualmente são detidas pelas diversas forças de procuração americana e outros grupos terroristas.

A noroeste, "rebeldes" takfiris concentram-se em torno de Idleb e mais ao norte. Estes grupos são financiados pela Arábia Saudita, o Qatar e a Turquia. O recente conflito entre o Qatar e outros Estados do Golfo causou ainda mais caos em Idlib. Os grupos apadrinhados pela Arábia Saudita lutam contra os grupos apadrinhados pelo Qatar e os turcos. Esses conflitos somam-se a outras divergências entre forças alinhadas com a al-Qaeda e as de Aharar al-Sham. As forças do governo sírio cercam a província, e a Turquia no norte manteve sua fronteira fechada a maior parte do tempo. Os takfiris "rebeldes" de Idleb vão marinar no seu próprio tempero, até estarem esgotados. De seguida, as forças do governo virão para acabar com eles.

No centro do mapa, forças do exército Sírio (setas vermelhas) estão direcionadas para as áreas desérticas centrais detidas pelas forças de ISIS que estão a recuar para o leste (setas pretas). As forças do governo sírio que chegam simultaneamente do norte, oeste e sul, estão progredindo rapidamente e a retomar vários quilómetros de terreno a cada dia. No mês passado, 4 000 quilómetros quadrados e mais de 100 aldeias e cidades foram retomados. Em poucas semanas, terão retomado todas as áreas (castanho) do ISIS até ao Rio Eufrates e à fronteira sírio-iraquiana.

Equipamento militar russo de pontes começou recentemente a chegar à Síria. Servirá para atravessar o rio Eufrates e retornar às áreas a norte do rio.

Enquanto isso, as forças curdas (setas amarelas), apoiadas pelos Estados Unidos atacaram a cidade de Raqqa, retida pelo ISIS. O comando militar russo afirma que os curdos e os Estados Unidos acordaram com o ISIS deixar partir os seus combatentes de Raqqa para irem para o sul e leste. A velocidade com que os curdos tomaram a cidade confirma esta afirmação. Parece que não houve praticamente nenhuma resistência do Estado islâmico.

Todas as forças do ISIS, que permanecem na Síria, as que vêm Raqqa, bem como as provenientes de áreas do deserto, movem-se para leste ao longo do Rio Eufrates na direção da cidade de Deir Ezzor. Há pelo menos 100 mil civis a favor do governo e uma guarnição do exército sírio ali, há muito tempo cercada pelas forças do ISIS. A população sitiada é reabastecida pelo ar. Até agora, a guarnição militar síria resiste aos ataques do ISIS. Mas se milhares de combatentes do estado islâmico chegarem como reforços, desta vez as tropas do governo poderiam ser submersas. É necessário enviar reforços de para-quedas para a cidade para evitar o ISIS entrar e entregar-se a um grande massacre. Uma linha de socorro terrestre seria a melhor opção. Mas o avanço do exército sírio para a cidade foi atrasado pelas manigâncias dos Estados Unidos no sul. As forças governamentais preparam um grande movimento terrestre para Deir Ezzo. Apenas se pode esperar que cheguem a tempo.

Forças por procuração do Qatar, sauditas e turcas, lideradas pela CIA, desencadearam uma guerra desde há seis anos contra a Síria e o seu povo. Com o Qatar e a Turquia agora em conflito com os sauditas e seus aliados americanos, o bando que atacou a Síria desintegra-se. O Estado islâmico perde rapidamente terreno e está à beira da derrota. O progresso dos Estados Unidos no sul foi interrompido. A menos que os Estados Unidos não mudem de tática e não se envolvam num ataque em grande escala contra a Síria com suas próprias forças armadas, a guerra contra a Síria está terminada. Numerosas zonas têm ainda de ser retomadas pelas forças sírias. Os ataques terroristas no país continuarão por vários anos. As feridas levarão décadas a sarar. Será necessário entabular negociações sobre as áreas situadas a norte que estão atualmente sob controlo turco ou de mercenários dos americanos. Haverá muitas questões a regular. Mas a guerra estratégica de grande escala contra a Síria tem agora um fim.

Ninguém ganhou o que quer que fosse. Os curdos que durante algum tempo apareciam como os únicos ganhadores da guerra, acabam de deitar fora o que tinham ganho.

As forças curdas YPG apoiadas pelos Estados Unidos cometeram o erro incrível de pedir abertamente o apoio da Arábia Saudita . Os anarco-marxistas do YPG, que orgulhosamente exibem o seu feminismo, mostram súbita lealdade para com as aberrações medievais wahhabitas, destruindo a sua reputação de força de esquerda progressista. Sua iniciativa vai fortalecer a hostilidade turca, síria, iraquiana e iraniana contra eles. Todos os ganhos políticos que fizeram a maior parte do tempo durante a guerra por não tomarem parte, nem a favor dos "rebeldes" nem do governo sírio estão agora em risco. É uma decisão insensata. A área detida pelos curdos está completamente cercada por forças mais ou menos hostis. O apoio dos Estados Unidos ou da Arábia Saudita ao enclave curdo cercado não pode durar muito tempo. Os curdos vieram de novo demonstrar que são os piores inimigos da sua luta por um Estado curdo soberano (pela metade). Eles serão reenviados para os seus territórios de origem e serão novamente incorporados ao Estado sírio.

Actualização (14/Jun/17) 

O secretário de defesa Mattis foi interrogado em13 de junho no Congresso sobre a situação na Síria. Não há ainda uma transcrição disponível, mas aqui estão alguns tweets dum repórter de Stars & Stripes que assistiu:

Tara Copp@TaraCopp - 3:11 PM - 13 juin 2017
"O secretário da Defesa Mattis disse que as forças de "pró-regime" que entraram na Síria, perto da base da AlTanf são de facto russas".
"Secretário da Defesa Mattis: "Eu não previa que os russos chegassem lá (perto de al-Tanf) mas isto não surpreendeu os nossos serviços secretos".

Antes, os Estados Unidos haviam afirmado que as forças alinhadas com o governo sírio que avançavam na direção de al-Tanf eram "apoiadas pelo Irão" ou "dirigidas pelo Irão". Mas agora, o secretário da Defesa diz que era mentira. Tratava-se de russos aliados do governo sírio. Certamente que os russos não recebem ordens de generais iranianos. Não surpreende portanto que o comando russo tenha emitido uma forte advertência contra qualquer ataque a essas forças.

Mattis também mostra que é incapaz de pensamento estratégico. Acreditava realmente que os russos não iriam a al-Tanf para dar cobertura aos seus camaradas sírios? É claro desde há meses, que os russos estão totalmente envolvidos na Síria. Não deixarão cair o governo sírio para se porem de bem com Mattis, Trump ou qualquer outra pessoa. Sua estratégia é clara por algum tempo: eles vão lutar. Disseram isso. Seria necessário ser idiota para acreditar noutra coisa.

Al-Tanf tem importância tática, mas o exército americano elevou-o à categoria estratégica. O que não é manifestamente o caso. Não se compreende por que razão os EUA têm de defender esse lugar em pleno deserto. Não há nenhuma razão, mas defendê-la por "princípio"' poderia evidentemente causar uma guerra muito mais importante .
A guarnição de al-Tanf está agora cercada por forças hostis. As forças dos Estados Unidos na região terão de atravessar posições do regime para irem até al Bukamal, o que arrisca a provocar uma escalada na guerra.

O que vai acontecer agora? Estão os EUA dispostos a proteger estas forças perpetuamente? Isso é os Estados Unidos fornecerão cobertura aérea às forças que lutam diretamente com os aliados do governo fora da área de 55 km? Os três últimos ataques não causaram uma resposta que prejudicou os interesses dos Estados Unidos? A resposta à última pergunta é sim.

A estratégia deveria comandar a tática quando têm que lidar com forças suportadas pelo Irão, na Síria e não o inverso.

Os Estados Unidos têm a capacidade de defender uma guarnição no deserto sírio. No entanto, não há nenhuma razão estratégica para fazê-lo, o que torna impossível uma avaliação das vantagens e desvantagens.
O Departamento da Defesa e o comando americano no terreno claramente ainda não entenderam isso. O comandante local dos Estados Unidos levou da Jordânia para al-Tanf um sistema de artilharia de longo alcance, o HIMARS . O HIMARS tem um alcance de 300 quilómetros. Não faz diferença do ponto de vista tático, não faz qualquer diferença atirar da Jordânia ou de al-Tanf na Síria a cerca de 12 quilómetros da fronteira. É uma atitude simbólica do tipo "espetar a bandeira" em al-Tanf, mas expõe o sistema de artilharia a um legítimo ataque das forças sírias, russas e iranianas.

Como secretário de Estado Tillerson afirmou com razão: os Estados Unidos não têm nenhuma autoridade legal para atacar os sírios, os iranianos ou as forças russas. Mas não menos importante: invadiram a Síria sem um motivo legítimo. Por outro lado, a Síria, tem autoridade legal para expulsar as tropas americanas.

Levar os HIMARS para al-Tanf é completamente idiota. Já é tempo de Washington parar com as suas asneiras. 
Ver também: 
  • The latest escalation in Syria – what is really going on? , 23/Junho/17

    A versão em francês encontra-se em www.legrandsoir.info/syrie-la-fin-de-la-guerre-est-maintenant-en-vue.html 


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
  • segunda-feira, 26 de junho de 2017

    RT :Coréia do Norte,cotidiano

     RT mergulha na sociedade norte-coreana peculiar

    Publicação: 21 de junho, 2017 13:01 GMT Última atualização: 21 de junho, 2017 16:33 GMT

    10.3K784
    Apenas um olhar sobre a vida cotidiana na Coréia do Norte. Um olhar frio, desapaixonado nos norte-coreanos próprios tomar a palavra para falar sobre suas esperanças, seus sonhos, suas alegrias diárias, seus sentimentos para com o país em que vivem e o líder que os dirige. O que move-los para enfrentar o dia? você pode ser feliz vivendo em regime autoritário mais isolado do mundo? Resposta: "autoritário? O que quer dizer autoritário ...? "
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    Uma equipe de RT entrou Coréia do Norte por duas das suas principais festas: o aniversário do nascimento de Kim Il-sung e Kim Jong-il. Seu trabalho oferece uma visão do país praticamente desconhecido e recolhe os testemunhos de pessoas que, como eles dizem, são as pessoas mais felizes do mundo.

    "O melhor país do mundo"

    Embora não há acesso gratuito à Internet (só pode usar uma rede interna) no país, os cidadãos afirmam que vivem no país mais poderoso do planeta e economicamente desenvolvido. "Graças à estabilidade da revolução do nosso líder e comandante supremo, o nosso país tornou-se o melhor país do mundo. E aqueles que se atrevem a pensar de outra forma são nossos inimigos", disse Pak Chol San, um aluno distinto .
    Segundo ele, os sul-coreanos "são meros fantoches" que "tentam destruir o nosso sistema socialista com a ajuda dos ocupantes norte-americanos, que se sentem em casa na Coreia do Sul". "Basicamente, os EUA não querem o nosso país a prosperar", acrescenta.
    Nesta linha, o aluno distinto Kim Chung Bok, diz que a ver as notícias aprendeu que estrangeiros "se você tem que internar, mesmo o teste mais simples que você tem que fazer custa dinheiro." "No que diz respeito ao nosso país, tudo, seja um teste de rotina ou cirurgia ou medicação, todos cobertos por parte do Estado. Ao contrário de nosso país, você não pode ter uma educação ou tratamento médico socialista livre, certo? ", ele pergunta. "As pessoas neste país é invejada por todo o mundo, e estamos orgulhosos dele , " conclui ele.

    "Pai de todos"

    líder norte-coreano ordenou a construção de Songdowon acampamento das crianças, apenas para as crianças que perderam os pais. Próximo a ele, há uma estação de trem especificamente para servir estas crianças. "Qual é a situação nos países capitalistas? Crianças sem pais estão desabrigadas, são deixados à sua sorte e ir passear em todos os lugares. Em nosso país é inédito para uma criança órfã não tem um lugar para ir", diz ele Kim Sang Yong, diretor do acampamento.
    Além disso, muitos norte-coreanos amam seu grande líder, porque, para eles, desempenha o papel de pai que cobre todas as suas necessidades. "Nós, os órfãos sentiu mais do que ninguém o amor do nosso amado líder e respeitado, e por isso são mais felizes do que as crianças que têm pais. Ele faz sem nada inveja para absolutamente ninguém , " diz Ko Jin, pioneiro e aluno em um orfanato em Pyongyang. "Todos nós chamamos nosso líder camarada Kim Jong-un, 'nosso pai' , " um grupo de crianças da Coréia. "Ele é o nosso único pai" sublinhado.
    RT