*

*
*

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Fórmulas ocas : Os "incentivos" e os "estímulos" da política de direita


por Daniel Vaz de Carvalho [*]

Os ricos nunca são demasiado ricos para investirem mais,
nem os pobres demasiado pobres para trabalhar mais.

John Kenneth Galbraith (sobre as políticas neoliberais)
1 - QUE MODELO DE SOCIEDADE?

O recente discurso do Presidente da Republica falando de "estímulos ao investimento" e políticas de "crescimento e emprego", ao mesmo tempo que afirmava que a austeridade era para manter, mostra a decadência do discurso da direita repetindo fórmulas ocas de conteúdo concreto, contraditórias, que apenas disfarçam a arrogância, a chantagem emocional e o niilismo ético ao serviço de uma oligarquia parasitária.

Um exemplo destes "estímulos" foi dado pelo sr. Medina Carreira, no programa da TVI 24 onde pontifica: ainda que o IRC fosse zero, o país ganharia com isso, haveria criação de emprego, crescimento e mais impostos para o Estado. Acreditamos que o sr. não faça ideia das inconsequências que diz, tais como considerar que para equilibrar as contas públicas seria necessário cortar mais 10 mil milhões de euros, além dos 10 mil milhões já cortados. [1]

Como classificar então uma sociedade no conceito acima exposto, em que a camada social que detém os meios de produção não paga impostos, cede esses meios a trabalhadores que lhe fornecem bens e trabalho gratuito e pagam impostos? Se se responder feudalismo não está errado, neoliberalismo (ou monetarismo) também não.

Pode dizer-se que, ao contrário do feudalismo, os trabalhadores recebem salário, mas o servo da gleba feudal conservava uma parte do que produzia para a sua subsistência, quando e como possível, acrescente-se. Ora, os salários no sistema atual estão cada vez mais afastados dos limites da subsistência, um conceito de índole social, que não se confunde com "sobrevivência" individual, mas sim com a capacidade de reprodução da força de trabalho numa perspectiva de desenvolvimento económico, portanto com mais e melhor formação e saúde, em suma, condições de existência.

Pode também dizer-se que o capitalista paga o imposto sobre o rendimento. Falso. O grande capital e a finança têm à sua disposição todos os meios legais e ilegais necessários para a fuga aos impostos, transferência de rendimentos para paraísos fiscais, transformar rendimentos em ganhos de capital, muito menos tributados.

Recorde-se aliás, que o senhor feudal tinha de manter a seu cargo um corpo armado à disposição do poder central e incumbia-lhe a administração do território, etc. Neste aspeto o grande capital monopolista e financeiro é de natureza não menos parasitária que o senhor feudal: recebe todo o suporte – financeiro, legal, repressivo – do Estado, mas não está disposto a paga-lo.

Eis o modelo de sociedade neoliberal/neofascista: uma força de trabalho traída e a ganância matando a economia, uma sociedade em que o processo de ascensão social e oportunidades foi liquidado (Paul Craig Roberts). Ou, segundo o próprio Joseph Stiglitz, uma sociedade em que o preço da desigualdade representa o fim do mito da oportunidade. [2]

2 – O IRC e as "políticas de incentivos"

Em abril o governo fez uma encenação prometendo "investimento e emprego", baseado em coisa nenhuma. Curiosamente os protagonistas destes pré-anunciados êxitos, Vítor Gaspar e Álvaro Santos Pereira, acabaram por sair do governo! Agora sucede-se outra manobra de manipulação: a descida do IRC em que o governo não apresenta qualquer programa concreto e compromete-se com metas para além do seu mandato. É o seu estilo.

Num contexto em que mensalmente fecham centenas MPME por falta de procura e por um sistema financeiro dedicado à especulação, o governo apregoa a descida do IRC: mais uma benesse em que os grandes beneficiários são o capital monopolista e financeiro.

Como consequência das múltiplas deduções no rendimento e de variadíssimos benefícios fiscais que gozam as grandes empresas em Portugal, em 2008 o IRC efetivamente cobrado representou 19,6% do lucro contabilístico, em 2009 15%, em 2010 apenas 8,6%. [3]

Dados do INE. Como não recordar as promessas de "incentivos ao crescimento e ao emprego", para as sucessivas revisões do código laboral, a cujas "boas intenções" a UGT deu sempre o aval, fragilizando cada vez mais a situação dos trabalhadores perante o poder patronal. Desemprego, depressão económica, desindustrialização, foi o que se obteve.

Com estas políticas entre 2005 e 2013 a redução na FBCF atingirá mais de 38%, com uma redução de 33,5% até 2012. Em 1999, a FBCF representava 27,3% do PIB, em 2012 tinha descido para 15,9%. Quanto ao investimento público passou no mesmo período de 4,1% para 1,6% do PIB.

Enquanto trabalhadores altamente qualificados emigram, o país transforma-se numa economia terceiro-mundista, à míngua de investimento estrangeiro, porque o Estado está como uma qualquer colónia impedido de conduzir uma política económica e financeira autónoma, mero fornecedor de mão-de-obra barata, e o grande capital monopolista e financeiro contabiliza os seus resultados em paraísos fiscais.

Quanto às maravilhas do investimento estrangeiro, repetidamente propagandeado como sem alternativa, recordem-se os casos de aquisições de ativos existentes (que o governo assume como "investimento") a serem encerrados na primeira oportunidade (como o escandaloso caso da ex-Sorefame, da ex-Covina, do eventual encerramento da SN para além de tudo o que já deixou de funcionar) ou investimentos "beduínos" (por ex. na indústria automóvel e eletrónica) que facilmente se deslocalizam, apesar de todas as benesses recebidas do Estado.

Uma outra modalidade é a sobre-exploração por via das subcontratações, uma forma de troca desigual, com o expediente da subfacturação do exportado, sobrefacturação dos componentes importados. De facto, nas subcontratações feitas pelas transnacionais, "embora a montagem dos equipamentos seja das mais importantes fases do processo produtivo, corresponde apenas a cerca de 2% do valor acrescentado do produto" [4]

Porém, os dogmas neoliberais não permitem o planeamento por parte do Estado, (este é realizado pelo sector monopolista e financeiro) as políticas públicas permitidas são as que se enquadrem nos esquemas de "incentivos".

Na realidade, a política de "incentivos" é uma solução mais que fracassada. Consideremos o caso dos EUA. " Em 2009, (…) o governo gastou 3 milhões de milhões de dólares para uma pequena recuperação avaliada em 3% do PIB, cerca de 400 mil milhões de dólares em crescimento económico. Pois bem, gastar 3 milhões de milhões de dólares para obter 400 mil milhões é um péssimo negócio." [5] Política que aliás é prosseguida, sem qualquer eficácia.

Note-se ainda que no recente período de (débil) recuperação económica dos EUA, 93% dos ganhos beneficiaram apenas 1% dos mais ricos. [6] O próprio FMI contrariando tudo o que tem promovido, reconhece num estudo que favorecer o crescimento e reduzir as desigualdades são duas faces da mesma moeda.

3 - AFINAL O "ALMOÇO GRÁTIS" EXISTE…

Com as políticas de "incentivos" aos capitalistas, afinal o "almoço grátis" existe. É o "free lunch" à custa da classe trabalhadora: os "incentivos" representam a mais-valia absorvida pelo Estado que não lhes é devolvida em prestações sociais, mas reverte para o grande capital. Em resumo, estes "incentivos" traduzem-se no aumento da taxa de exploração.

A redução de custos das empresas não está a ser feita pelo desenvolvimento tecnológico, mas pela redução dos "custos salariais", redução de impostos, aumento de deduções e benefícios fiscais. A produtividade (neste caso dita aparente) é promovida pelo aumento do número de horas de trabalho, que além disto não é pago.

As privatizações de empresas e serviços públicos são outra forma de criar "almoços grátis", as famosas "rendas excessivas" pagas pelos consumidores e utentes, isto é, direta e indiretamente por toda a economia.

Há banqueiros que cometem ilegalidades? Há. Há capitalistas que recebem rendas "excessivas" do Estado por via de entidades reguladoras ao seu serviço, da privatização de serviços públicos, de contratos de PPP e de SWAP, fruto da incompetência e possivelmente da corrupção? Há. Que faz o governo? Dá-lhes "incentivos". Pega no dinheiro dos trabalhadores e compensa-os, cobre prejuízos, deixa ativos de fora, paga rendas. Tudo com a falácia dos "incentivos" ao "crescimento e à criação de emprego". Os resultados estão á vista.

Perante a gravíssima crise económica e social que o país atravessa, limitar e tributar a transferência de lucros e rendimentos, nem sequer é equacionado. Seria "traumatizar os mercados", foi dito. A simples hipótese do povo poder escolher as políticas a seguir instalaria "nervosismo nos mercados" (Durão Barroso). Assim funciona a política neoliberal, " a da degeneração financeira, parasitária do capitalismo keynesiano" (Jorge Beinstein).

Resgates financeiros, incentivos, eliminação de direitos laborais e das funções sociais do Estado, são, no capitalismo senil rentista, em crise e decadência, a forma de "dotar a elite financeira do poder de dominar o século XXI" (Michael Hudson).

Porém que investimento? Os problemas de estrutura económica não são reconhecidos, o sistema assume como "criação de riqueza" a especulação em bolsa ou imobiliária, não fazendo distinção entre atividades produtivas e improdutivas.

O necessário equilíbrio entre a produção de bens de consumo e de investimento, entre o transacionável e não transacionável, não é possível ser realizado pelos mecanismos de mercado, apenas pelo planeamento económico democrático, tendo em conta custos e benefícios sociais e a criação de uma estrutura produtiva equilibrada reduzindo vulnerabilidades e dependências nos diversos sectores, com o máximo aproveitamento dos recursos nacionais.

A chamada "economia pós-industrial" não foi mais que a economia da servidão pela dívida. O abandono do projeto constitucional foi também a derrota dos sectores produtivos e das MPME, a vitória do rentismo monopolista e financeiro. São estes sectores que obtêm "almoços grátis" devido ao desvio da riqueza criada pelos trabalhadores e sectores não monopolistas. A solução está, como acentuaram Marx e Engels em "expropriar os expropriadores" da riqueza coletiva nacional.
1- Ver "A falácia dos "cortes na despesa", Vaz de Carvalho, 24/Maio/2013 resistir.info/portugal/falacia_dos_cortes.html ; Capitalismo: um sistema esgotado e sem soluções, Vaz de Carvalho, 06/Mai/13 www.odiario.info/?p=2855
2- "A Workforce Betrayed - Watching Greed Murder the Economy", Paul Craig Roberts July 10, 2008, www.informationclearinghouse.info/article20259.htm ; The Price of Inequality and the Myth of Opportunity, Joseph Stiglitz, www.project-syndicate.org/commentary/the-price-of-inequality
3- O falso dilema de Vitor Gaspar, Eugénio Rosa, resistir.info/e_rosa/falso_dilema_26jan13.html
4- European Competitiveness Report 2010 European Commission Brussels, 28/10/2010, p. 80, 81
5- Um roubo de US$16 milhões de milhões, Atilio A. Boron, resistir.info/eua/boron_02ago11.html
6- Back to Recession, Mike Whitney, www.counterpunch.org/2013/04/26/back-to-recession/

[*] Engenheiro.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

Sistema dos EUA permite ver quase toda atividade de internauta, diz jornal

31/07/2013 14h14 - Atualizado em 31/07/2013 18h03

'Guardian' revelou existência do XKeyscore com documentos de Snowden.
Sistema permite monitorar toda atividade online de determinado usuário.

Da AFP

Um sistema de vigilância secreto conhecido como XKeyscore permite à inteligência dos EUA supervisionar "quase tudo o que um usuário típico faz na Internet", segundo documentos publicados nesta quarta-feira (31) pelo jornal britânico "Guardian".
O jornal cita documentos secretos vazados pelo ex-analista de inteligência americano Edward Snowden, em matéria novamente assinada por Glenn Greenwald.
O sistema seria o de maior amplitude operado pela agência nacional de seguridade dos EUA, a NSA.
saiba mais
    O diário afirma que a existência do XKeyscore corrobora a afirmação de Snowden, refutada por funcionários americanos, de que a NSA pode fazer "qualquer escuta telefônica", se tiver um endereço de e-mail pessoal.
    O "Guardian" publicou uma série de slides do que parece ser o treinamento interno dos funcionários da inteligência, que mostram as possibilidades do programa XKeyscore.
    O jornal afirma que omitiu 4 de 32 telas, pois revelavam "detalhes específicos das operações da NSA".
    •  
    Reprodução de página do 'Guardin' que revela a existência do programa (Foto: Reprodução)Reprodução de página do 'Guardin' que revela
    a existência do programa (Foto: Reprodução)
    Os textos estão marcados como "Top Secret" e seu acesso está restrito a funcionários autorizados em EUA, Reino Unido, Canadá, Austrália e Nova Zelândia.
    O material foi produzido em 2007 e não deveria ser tornado público antes de 2032.
    Segundo o material, o XKeyscore permitem que os EUA monitorem, em tempo real, e-mails, buscas na Web, sites, redes sociais e praticamente qualquer atividade online de um usuários determinado.
    O funcionamento do sistema estaria garantido por uma infraestrutura baseada em um grande cluster de Linus com cerca de 500 servidores distribuídos ao redor do mundo.
    Esses servidores estavam distribuídos tanto em países aliados, inclusive o Brasil, como em rivais de Washington, como Rússia, China e Venezuela.
    Diferentemente de outros sistemas, o XKeyscore pode começar uma vigilância indexando virtualmente qualquer tipo de atividade online.
    Entre os exemplos utilizados, ressalta-se a capacidade do sistema para detectar ações inusitavas, como um usuário que realiza uma busca em uma língua pouco usada em determinada região -por exemplo, em alemão no Paquistão- ou se alguém busca no Google Maps locais considerados possíveis alvos para um ataque.
    Nesses casos, o programa pode isolar os dados e realizar um monitoramento automaticamente.
    O documento afirma que o XKeyscore permitiu aos EUA capturar "mais de 300 terroristas".
    Os gráficos revelados pelo "Guardian" afirmam que o XKeyscore está sendo atualizado para ficar mais potente e mais rápido, assim como para ampliar o escopo de dados que pode buscar, incluindo informação colocada dentro de fotos digitais.
    As novas revelações acontecem num momento em que os funcionários das três agências de inteligência dos Estados Unidos e do Departamento de Justiça prestam satisfações ao Senado.
    Na semana passada, a Câmara dos Representantes rejeitou uma proposta para reduzir o financiamento de programas de inteligência.
    •  
    •  
    O ex-consultor americano Edward Snowden é visto nesta sexta-feira (12) em Moscou, em imagem divulgada pela Human Rights Watch (Foto: AFP)O ex-consultor americano Edward Snowden é visto nesta sexta-feira (12) em Moscou, em imagem divulgada pela Human Rights Watch (Foto: AFP)

    Edimilson Costa: Primeiras reflexões sobre as grandes manifestações de massas no País

    Brasil: extraordinária jornada de lutas. Primeiras reflexões sobre as grandes manifestações de massas no País


    Edmilson Costa*

    Introdução
    O conjunto das lutas sociais que estão ocorrendo no mundo e, portanto, também as manifestações de junho no Brasil, guardadas os devidos ritmos, proporções e intensidades, possuem uma relação direta com a crise sistêmica global que vem castigando o capitalismo há mais de seis anos. A crise roubou do sistema imperialista grande parte da capacidade de hegemonizar plenamente a ordem mundial como ocorria no passado, ao mesmo tempo em que abriu fissuras na estrutura de dominação, possibilitando a emergência de um conjunto de fenômenos novos nas esferas econômica, social e política da conjuntura internacional.
    Mesmo que todos ainda não percebam plenamente, a crise abalou a velha ordem e o sistema capitalista não consegue reagir como outrora à crise econômica, até porque esta crise traz um conjunto problemas novos que as velhas fórmulas keynesianas não conseguem resolver. Após a Segunda Guerra, os capitalistas aprenderam administrar as crises cíclicas, mas não possuem condições nem instrumentos para resolver as crises sistêmicas porque estas reproduzem em bases ampliadas todas as contradições do capitalismo, posto que representam o esgotamento de um longo ciclo de acumulação. Por isso são mais profundas e devastadoras e questionam todos os fundamentos da ordem anterior e só terminam com mudanças de fundo na velha ordem.
    Quando ocorrem fissuras profundas na ordem dominante, as massas abrem espaço para sua intervenção e fenômenos pouco imagináveis em um determinado momento se tornam realidade logo depois. Poucos vislumbrariam que velhas ditaduras como as da Tunísia, do Egito e do Yemen cairiam como um castelo de cartas. Esses levantes só ocorreram sem um banho de sangue porque a ordem imperialista estava trincada pela crise. Da mesma forma, poucos observadores brasileiros, inclusive os de esquerda, poderiam imaginar que iriam ocorrer as grandes manifestações de massas em mais de 600 cidades do País, reunindo milhões de pessoas, especialmente jovens.
    Além disso, está agora mais claro para os trabalhadores, especialmente na Europa e nos Estados Unidos, o papel do Estado e sua aliança explícita com as finanças internacionais e o grande capital, como demonstraram as injeções trilionárias de dólares e euros para salvar o sistema financeiro, enquanto os trabalhadores perdiam suas casas nos Estados Unidos e se tornavam alvos de políticas socialmente predatórias na Europa, como o corte nos gastos públicos, nas pensões, nos salários e nas verbas sociais em geral, ações inimagináveis em tempos de calmaria. O objetivo das classes dominantes, com essas medidas, é tentar salvar o capital e colocar na conta dos trabalhadores todo o ônus da crise.
    Nessa conjuntura de desagregação da hegemonia imperialista norte-americana, deve-se registrar que as mobilizações dos trabalhadores na Europa e em praticamente todos os continentes, as greves gerais contra a política de ajuste ortodoxo, as manifestações da juventude do Occupy Wall Street, os levantes populares no Norte da África e as mobilizações na América Latina e atualmente no Brasil compõem um novo quadro da luta de classes, no qual os trabalhadores e a população começam a despertar para a luta.
    Muito embora ainda sem um objetivo anticapitalista definido, essas jornadas de luta aumentam a consciência dos trabalhadores e os preparam para novas jornadas, como foi o caso da greve internacional dos trabalhadores, que envolveu 25 países europeus no final do ano passado. Mesmo levando em conta que as insurreições populares no Norte da África não conseguiram derrubar a ordem capitalista nesses países e foram seqüestradas por setores das classes dominantes; mesmo ressaltando-se que as greves ainda não colocaram em xeque a ordem capitalista de forma mais organizada, o importante a ressaltar é que a luta de classe mudou de patamar no mundo.
    Estamos vivendo um período de mobilizações, greves e levantes populares de caráter global em função da crise, a grande maioria bastante defensiva e com elevado grau de espontaneidade. Estas lutas ainda não ganharam um caráter unitário, não possuem um programa classista e nem estão sob a orientação de uma organização revolucionária, mas nesse momento de crise mundial tudo pode acontecer. Até agora a burguesia tem estado na ofensiva, sob o guarda chuva do Estado, enquanto os trabalhadores resistem a partir de condições objetivas de cada região. Mas em conjuntura dessa ordem, como diriam os clássicos do marxismo, os anos se realizam em dias, os meses em horas, uma vez que a pedagogia da luta concreta generalizada ensina mais que as lutas específicas em longos anos de calmaria.
    Num mundo globalizado, em que as informações circulam à velocidade da luz, os levantes, mobilizações e greves e um determinado País, numa conjuntura de crise mundial, funcionam pedagogicamente. Mesmo com a brutal manipulação que os meios de comunicações realizam diariamente, são incapazes de esconder as grandes manifestações que estão ocorrendo em várias partes do mundo. Para uma população que acumulou descontentamento e frustrações ao longo dos 30 anos do período neoliberal, o exemplo dos levantes em um determinado País influencia a psicologia das massas a se manifestar também em outras regiões – as pessoas vão perdendo o medo e despertando energias para ações coletivas.
    Nessa conjuntura é que se inscrevem as lutas populares de junho no Brasil. Ao contrário do que comumente é divulgado pela mídia, fazendo eco aos interesses da velha ordem, essa história de que o povo brasileiro é pacífico, ordeiro, avesso às lutas, levantes ou revoluções, é apenas um mito repetido pelas classes dominantes para anestesiar a população. As manifestações de junho podem ser consideradas o início de uma extraordinária jornada de lutas do povo brasileiro contra o domínio do capital. Estamos apenas no começo de uma longa trajetória de lutas, de um ascenso das lutas sociais, cujo desdobramento ainda não é possível vislumbrar, mas com certeza, ao final dessa jornada, o Brasil será um País bem diferente daquele anterior às mobilizações.

    Um fim de um ciclo e o começo de outro
    As manifestações de junho refletem o fim de um longo ciclo que se iniciara em 1978 com as greves do ABC, processo no qual a classe operária entrou em cena num confronto aberto com ditadura e o capital e cujas lutas foram determinantes para derrocada do governo militar e a conquista da democracia. Esse ciclo forjou um conjunto de organizações sociais e políticas que se criaram e se consolidaram no bojo das lutas sociais, como a Central Única dos Trabalhadores (CUT), o Partido dos Trabalhadores (PT) e, posteriormente, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), além de outras entidades e organizações de menor dimensão nacional.
    Essas organizações, criadas a partir das lutas dos trabalhadores, desempenharam nos seus primeiros anos de existência um papel fundamental na luta social e política do País, incorporando dezenas de milhares de ativistas sociais à batalha da luta de classes. Desenvolveram um conjunto de lutas anticapitalistas e contra a ditadura, mas não conseguiram forjar um programa classista nem uma ideologia proletária. Seus dirigentes, honestos combatentes forjados na luta, também não conseguiram ultrapassar o terreno do reformismo. Nunca chegaram a formular uma perspectiva socialista para a sociedade brasileira. Terminaram sucumbindo às primeiras benesses oferecidas pelos inimigos de classe.
    Aos poucos, todas essas organizações foram se amoldando ao sistema, à medida em que o Partido dos Trabalhadores conquistava espaços na institucionalidade. Esse foi um processo lento, gradual, mas permanente, que começou com a conquista de governos municipais, estaduais e cujo desfecho foi a eleição de Luis Inácio Lula da Silva à presidência da República. Quando Lula assumiu o poder essas organizações já estavam adaptadas ideologicamente à ordem capitalista, com um discurso muito diverso dos primeiros tempos . A partir daí, tornaram-se organizações chapa branca, sem nenhuma independência perante o governo e sua coalizão conservadora, inclusive os principais dirigentes sindicais daquela safra de lutas se acomodaram nas estruturas governamentais e outros se transformaram em burocratas nas diversas instâncias governamentais e o próprio presidente da CUT se tornou ministro do Trabalho de Lula.
    Outro aspecto dessa trajetória, também muito negativo, deve ser ressaltado para compreendermos vários elementos da conjuntura atual. O Partido dos Trabalhadores e a Central Única dos Trabalhadores exerceram hegemonia sobre os movimentos sociais ao longo dos últimos 30 anos. Esse foi um período de intensa deseducação política, especialmente a partir do momento em que essas organizações foram se adaptando aos parâmetros da ordem, uma vez que o PT e a CUT trouxeram para o interior dos movimentos sociais uma série de vícios pós-modernos em termos ideológicos e organizativos, além de uma enorme frustração da militância a partir das denúncias de corrupção. Mas esse processo se tornou mais claro no governo Lula. A partir daí, uma política que era feita meio envergonhadamente se tornou uma prática corriqueira orientada a partir do Palácio do Planalto.
    Foram dez anos de cooptação aberta do movimento sindical e dos movimentos sociais (CUT, UNE, UBES), mediante cargos no governo e vultosas verbas para sindicatos, centrais sindicais e entidades sociais, em troca da paz social e apoio ao governo; despolitização da sociedade, apassivamento dos trabalhadores, institucionalização da luta de classes e corrupção nos vários escalões governamentais, cujo desfecho pode ser sintetizado naquilo que ficou conhecido como “mensalão”, que ceifou da cena política os principais dirigentes do PT, quase todos antigos líderes sindicais.
    Enquanto buscava-se institucionalizar a luta de classe, uma poderosa máquina de propaganda anunciava ao Brasil e ao mundo um país do conto de fadas. Alardeava-se a incorporação de dezenas de milhões de brasileiros à classe média, um aumento extraordinário do emprego e da renda, além do bolsa família que aliviava a pobreza de mais de 40 milhões de miseráveis. Difundia-se que o Brasil estava galgando os degraus do primeiro mundo, participava dos BRICs, era respeitado no cenário internacional e até emprestava dinheiro ao Fundo Monetário Internacional, quando no passado era um devedor contumaz.
    Na vida real, podia-se fazer outra leitura do Brasil: o grande capital financeiro e industrial nunca teve tantos lucros quanto nos anos de governo do PT, fato que era divulgado até pelo presidente, quando este se queixava, bastante magoado, que setores das classes dominantes não o toleravam; nunca os grandes grupos econômicos estiveram tão fortalecidos e beneficiados por fusões e aquisições seladas por financiamentos bilionários a juros próximo a zero do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) do presidente-operário; nunca o agronegócio foi tão beneficiado pela política econômica e ganhou tanto dinheiro e benesses quanto nesses dez anos, enquanto a reforma agrária ficava para as calendas e os líderes camponeses, religiosos e indígenas eram assassinados pelos latifundiários e fazendeiros.
    Enquanto isso, nas grandes metrópoles brasileiras a população e, especialmente, os trabalhadores e a juventude, enfrentavam uma realidade bem diferente. A mobilidade urbana representada por um transporte caótico, infernizava a vida da população. Os trabalhadores eram obrigados a perder cerca de quatro horas em ônibus precários e metrôs superlotados para ir e vir do trabalho; a saúde pública também precária e indigna levava as pessoas a ficar horas e dias em filas intermináveis nos postos de saúde e os doentes jogados em macas no chão dos hospitais públicos; a falta de moradia obrigava cerca de 25 milhões de pessoas a viver em favelas e habitações precárias, sem infraestrutura e saneamento, muitas regiões com esgotos a céu aberto, sem água encanada e coleta de lixo. Além disso, nas periferias das grandes cidades a população e, principalmente, a juventude, eram obrigados a conviver permanentemente com a violência da polícia e dos marginais, além dos assassinatos cotidianos de jovens pobres, pardos e pretos.
    Mesmo os milhões de empregos criados no governo Lula não tinham a dimensão que a publicidade costumava apresentar. Por exemplo: “Do total líquido de 21 milhões de postos de trabalho criados na primeira década do século XXI, 94,8% foram (contratados, EC) com rendimento de até 1,5 salário mínimo mensal ... enquanto na faixa de cinco salários mínimos mensais a queda total atingiu 4,3 milhões de ocupações”. Portanto, mesmo naquilo que o governo considerava seu maior êxito, a realidade se apresentava com outro rosto.
    Ou seja, a verdadeira realidade brasileira era sentida de outra forma nas ruas e nas casas de cada brasileiro, independentemente do marketing, da manipulação dos meios de comunicação e da política governamental. Mais dia menos dia esse caldeirão social prenhe de indignação teria que emergir dos subterrâneos da insatisfação popular para a ação social nas ruas, até porque os capitalistas e seus aliados da social-democracia retardatária brasileira não conseguiram descobrir uma fórmula que extinguisse a luta de classes. Se a realidade fosse aquela que o governo difundia diariamente, a juventude e os trabalhadores não teriam se manifestado com a fúria que demonstraram nas ruas de todo o País.
    Portanto, as manifestações de junho iniciam um novo ciclo de lutas sociais e políticas no Brasil. Podemos dizer que agora as massas estão completando sua experiência com o governo do PT e buscam novas alternativas para resolver seus problemas concretos. Com as manifestações, uma nova geração inteira se integra de forma ativa à luta de classes nas ruas de todo o País, das pequenas cidades do interior às grandes metrópoles, com sua linguagem própria, seus métodos de luta, sua fúria contra os símbolos do capitalismo, num ensaio geral que tem um grande potencial de mudanças.

    Natureza e característica do movimento
    Realmente, após mais de duas décadas de refluxo do movimento social no Brasil , a população entrou na cena social e política com uma indignação extraordinária, mais uma vez quebrando o velho mito divulgado pelas classes dominantes de que o povo brasileiro é ordeiro e pacífico e que exorciza suas mágoas e frustrações no carnaval, no futebol e no samba. Para os menos atentos aos fenômenos históricos e sociais, a retomada das lutas sociais em praticamente todas as regiões do País teria sido uma grande surpresa. No entanto, se observarmos mais atentamente a conjuntura brasileira poderemos verificar que a revolta social de junho de 2013 já vinha emitindo vários sinais há algum tempo.
    Em artigo que publicamos em resistir.info e posteriormente editado como capítulo de livro, advertíamos que a luta de classe tinha mudado de patamar no mundo em função da crise sistêmica global. “Um fenômeno novo vem ocorrendo nesta conjuntura, que é a emergência das lutas sociais em praticamente todas as regiões do planeta. Ainda embrionárias, com certo grau de espontaneísmo, sem uma vanguarda com capacidade de construir um projeto alternativo ao capital, as lutas de massas mudaram de patamar”. Como a crise envolve todo o sistema capitalista e como o Brasil é parte integrante desse processo, não poderia estar blindado diante dos problemas globais. Dessa forma, era só uma questão de tempo, mais dia menos dia a crise social aqui também chegaria – e com os mesmos elementos de surpresa e ousadia que acontecera em outras regiões do planeta.
    Um bom parâmetro para captarmos os sinais da efervescência social no País pode ser medido pelo movimento grevista. Se analisarmos as greves dos últimos três anos, veremos que em 2010 o número de greves no País atingiu 446 categorias profissionais, com 44.910 horas paradas; em 2011, esse número aumentou para 554 greves e 63.331 horas não trabalhadas; e em 2012 saltou bruscamente para 879 greves (300 das quais no setor industrial), com 88.858 horas de braços cruzados, incluindo metalúrgicos, setor de transporte, bancários, professores, funcionários públicos e outras categorias . Deve-se levar em conta ainda as lutas recentes, espontâneas e radicalizadas realizadas pelos operários da construção civil nos canteiros de obras da Usina de Jirau, Santo Antônio, Belo Monte e várias cidades brasileiras, todas com um grau de fúria dos trabalhadores muito expressivo, com quebra-quebra de instalações, queima de ônibus, prisões, mortes e brutal repressão contra os operários da construção (Tabela 1).

    Balanço das greves e das horas paradas no Brasil 1983-2012

    Ano Número de greves Quantidade de horas paradas
    1983 250 7461
    1984 408 12084
    1985 621 29948
    1986 1014 44453
    1987 996 58958
    1988 877 51137
    1989 1962 127279
    1990 1773 117027
    1991 1041 67756
    1992 556 37902
    1993 644 39321
    1994 1035 477749
    1995 1058 48102
    1996 1228 58792
    1997 631 22564
    1998 531 20383
    1999 506 18236
    2000 525 25838
    2001 416 20784
    2002 298 18521
    2003 340 15805
    2004 302 23851
    2005 299 19738
    2006 320 24703
    2007 316 30632
    2008 411 24681
    2009 518 34730
    2010 446 44910
    2011 554 63331
    2012 873 86858
    Fonte Dieese: Balanço das greves de 2012. Elaboração do autor.

    O povo pobre dos bairros e os sem teto também vinham realizando ocupações de terrenos vazios e prédios abandonados em várias metrópoles, episódios que envolveram muita luta e também violenta repressão por parte das forças policiais nos momentos de desocupação dos terrenos e prédios. Pode ser considerada emblemática a luta da comunidade do bairro de Pinheirinho, no interior de São Paulo, cujos milhares de habitantes que viviam há vários anos na região, foram desalojados à bala pela polícia estadual, resultando em uma morte e centenas de feridos e presos, o que desencadeou um vasto movimento nacional de solidariedade contra a repressão.
    A esses sinais da conjuntura deveremos juntar o descaso das autoridades em relação aos transportes públicos, um serviço caótico e precário que transformou as grandes cidades num inferno dantesco nas horas de rush; a indignidade da saúde pública, da infraestrutura e do saneamento nas periferias e o déficit de oito milhões de moradias. Tudo isso somado torna-se fácil encontrar a explicação para a fúria dos manifestantes de junho. É significativo ainda o fato de que o ódio das pessoas estivesse voltado exatamente contra os símbolos do capitalismo no País, como os bancos, as empresas, as assembléias legislativas, os palácios municipais, estaduais, o Congresso Nacional e até o Palácio do Itamarati, em Brasília.
    É evidente que as depredações contaram também com a ação de provocadores, policiais infiltrados, marginais e lumpens em geral, mas se não existisse um caldo de cultura anterior, esses atos seriam isolados e não tomariam a dimensão que tomaram. Essas cenas são próprias dos períodos iniciais das revoltas populares, especialmente quando se realizam com elevado grau de espontaneidade e não possuem uma direção que oriente a indignação para pautas políticas ou para o desmonte do sistema.
    Vale ressaltar ainda que as manifestações de junho no Brasil seguiram o mesmo padrão histórico das revoltas populares em todo o mundo. O aumento das passagens de ônibus foi apenas a senha, a faísca que incendiou o paiol da rebeldia que estava latente e que queimava no interior da sociedade. De uma manifestação inicial contra o aumento de vinte centavos de Real no preço das passagens dos ônibus em São Paulo, que em tempos normais reunia não mais que mil pessoas, rapidamente as ruas foram tomadas por milhões de manifestantes, com uma pauta ainda difusa, mas que na maioria dos casos incluíam os temas que realmente atormentam o dia a dia da população.
    A primeira manifestação em São Paulo, organizada pelo Movimento Passe Livre, com a presença de várias forças de esquerda, reuniu cerca de cinco mil pessoas . Na terceira já eram mais de dez mil manifestantes e foram realizados vários enfrentamentos com a polícia. Na quarta, com cerca de 20 mil pessoas na rua, o governo de São Paulo resolveu acabar com o movimento, mediante uma violenta repressão, que envolveu milhares de policiais, carros blindados, gás lacrimogêneo, balas de borracha, cavalaria contra a população e centenas de prisões e feridos, inclusive cerca de duas dezenas de jornalistas. A repressão gerou indignação na população, uma vez que a televisão e as redes sociais passaram a divulgar os episódios, ficando claro não apenas a brutalidade da polícia, mas também despertando uma cadeia de solidariedade ao movimento em vários setores da população.
    A repressão foi tão grande e gerou tanta indignação que o governo de São Paulo e a polícia resolveram recuar e permitir a grande manifestação da quinta feira, dia 17 de junho, quando cerca de 250 mil pessoas ocuparam as ruas de São Paulo, um milhão no Rio de Janeiro e centenas de milhares em outras regiões, transformando-se assim num movimento nacional envolvendo milhões de pessoas. Dois dias depois os governos municipal e estadual cederam e cancelram os aumentos dos ônibus. Se a reivindicação inicial era o aumento do preço da passagem, logo depois outras pauta entraram em cena, como a saúde, a educação, a corrupção, os gastos com a copa do mundo e uma infinidade de temas que estavam represados e que agora podiam chagar à superfície livremente em manifestações coletivas pelas ruas do País (Infográfico das manifestações).

    Infográfico dos atos contra o aumento da tarifa em São Paulo

    Recepção das manifestações por parte da mídia
    Fonte: O Movimento Passe Livre e as mobilizações de rua no Brasil

    Como todos os movimentos espontâneos da população, esse não fugiu à regra. Suas pautas políticas eram inicialmente difusas e não havia uma liderança com a qual o governo pudesse negociar. No início, a maioria dos manifestantes era constituída de jovens das camadas médias urbanas, mas com o aumento do movimento essa composição social se modificou substancialmente, pois nas grandes manifestações que se seguiram a grande maioria já era constituída de jovens oriundos da periferia, filho de trabalhadores e assalariados precarizados da Grande São Paulo e das várias regiões do País. Como também ocorre no início das lutas espontâneas, essa massa enorme que tomou as ruas do País não tinha muita clareza dos objetivos pelos os quais saía às ruas, mas sua fúria indicava um profundo sentimento de indignação com a situação do País, suas condições de vida nas periferias das cidades e grande indignação contra a corrupção generalizada nos vários escalões governamentais.
    Vale ressaltar ainda que as três décadas de deseducação política orientadas pelo PT e suas organizações sociais estimularam o apassivamento e a despolitização da população e, principalmente, da juventude, o que se refletiu nas pautas e palavras de ordem de muitos momentos das manifestações. Não se poderia exigir dessa juventude palavras de ordem semelhantes às dos experientes militantes políticos, nem comportamentos típicos das manifestações onde a esquerda predominava. Trata-se de uma juventude que estava debutando para a luta social e política. Os problemas que ocorreram durante as manifestações, como hostilidade às bandeiras vermelhas e às forças de esquerda, foram estimulads pela grande mídia, mas também tem como responsável o Partido dos Trabalhadores e suas organizações sociais, que não cumpriram seu programa de mudanças, procuraram de todas as formas institucionalizar a luta de classes e colocar para debaixo do tapete as contradições sociais.
    A esquerda revolucionária, que esteve ao longo desses tempos em oposição ao governo Lula-Dilma, pagou alto preço ao ser confundida com o PT. Para aquela massa com pouca clareza política, todos os partidos eram iguais. Todos tinham a bandeira vermelha, que também era a bandeira do PT. Tudo era farinha do mesmo saco. Realmente, não se poderia exigir daqueles jovens recém-chegados à cena política que soubessem diferenciar entre os revolucionários, que ao longo dos anos estiveram contra a ditadura e na oposição ao governo, e o partido de Lula e Dilma que assumiu o governo e descumpriu todas as promessas de mudar o País. No fundo, aquela massa clamava subjetivamente por um verdadeiro partido de esquerda, com condições de realizar um diálogo aberto, sem preconceito e com propostas que fosse ao encontro de suas verdadeiras reivindicações; um partido que tivesse capacidade para construir uma nova ordem econômica e social para o País.
    Não se pode deixar de levar em conta também o papel da mídia tradicional nos eventos de junho. Inicialmente, os manifestantes foram tratados de forma padronizada, como ocorria em todas as manifestações. A ordem era a criminalização da luta social. Por isso, os manifestantes foram chamados nos meios de comunicação de vândalos, baderneiros, marginais, que queriam sabotar a ordem e o progresso do País. Num segundo momento, quando as manifestações ganharam o caráter de massas, as televisões mudaram de posição e passaram a legitimar os manifestantes e condenar apenas uma minoria como baderneiros. No entanto, passaram a estimular, subrepticiamente, os manifestantes a rejeitar as bandeiras vermelhas e os partidos políticos de esquerda, insinuando que eram oportunistas que queriam se aproveitar daquele movimento para o qual não teriam contribuído .
    Além disso, estimulavam os manifestantes a pintar o rosto de verde-amarelo, numa lembrança às grandes manifestações do impeachment de Collor, levar a bandeira brasileira e usar camisetas verde-amarelo e cantar slogans que própria TV inventou para os jogos da seleção brasileira, como “sou brasileiro, com muito orgulho...”. Assim, a mídia tradicional buscava sorrateiramente vincular seus objetivos e de seus patrocinadores à consciência possível dos manifestantes despolitizados nos anos de hegemonia do PT e, dessa forma, evitar que a esquerda passasse a comandar as manifestações. Afinal, quem poderia estar contra os símbolos nacionais? Quem poderia ser contra os jovens pintarem o rosto de verde-amarelo, se isso representava um momento histórico das manifestações contra a corrupção?
    Agora, a luta de classe manifestava-se mais abertamente em dois terrenos: nos meios de comunicação e nas ruas. Ressalte-se que até a Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp) entrou abertamente na disputa, pois nos dias das manifestações seu imponente prédio na avenida Paulista estava todo vestido digitalmente com as cores verde-amarelo, de forma a mostrar que a luta era de todos, inclusive da burguesia. Tentaram transformar a reivindicações populares em pautas morais como a luta contra a corrupção, de forma a desviar a atenção dos verdadeiros problemas do País. Na verdade, a pauta contra a corrupção é uma hipocrisia dos setores burgueses e conservadores, pois são os empresários os principais corruptores do País, na luta surda para ganhar as licitações governamentais.
    Para completar o serviço, pequenos grupos fascistas e nazistas, aliados a lumpens, foram mobilizados para representar a tropa de choque das classes dominantes nas ruas. Esses grupos, enquanto estimulavam a massa a gritar “sem partido”, “sem as bandeiras”, avançavam contra as forças de esquerda com paus e barras de ferro buscando intimidar e tirar a esquerda das ruas. Foram momentos difíceis para esquerda, que tinha as ruas como sua propriedade. Mas esses episódios merecem também uma reflexão, pois quem imaginava que a direita não possuía condições de disputar as ruas, agora deve ficar mais atento e não subestimar o inimigo.

    O papel das redes sociais e o contraponto à mídia tradicional

    Merece destaque o papel que as redes sociais cumpriram nesse processo. Em termos gerais, se constituíram numa ferramenta contra-hegemônica em relação aos meios de comunicação tradicionais. Isso porque a maioria da juventude brasileira já nasceu plugada à internet, faz parte de uma geração da era digital, possui uma linguagem associada a esses novos meios de informação e faz a maioria de suas comunicações utilizando as redes sociais. Para se ter uma idéia da dimensão e poder das redes sociais no Brasil, é importante ressaltar que cerca de 77,7 milhões de brasileiros com mais de 10 anos são usuários da internet, ressaltando-se que entre a juventude mais de 70% dos jovens acessam normalmente a internet, segundo os dados da PNAD de 2011. A mesma pesquisa indica que 115,4 milhões de pessoas com mais de 10 anos possuem telefone celular .
    Se levarmos em consideração que o acesso às redes sociais pode ser realizado tanto por computador, tablets ou telefones celulares poderemos aferir mais plenamente o papel das redes sociais na comunicação entre os jovens e a importância que esses meios de comunicação tiveram na convocação da juventude para ir às ruas nas várias cidades do País. Além disso, deve-se também levar em conta que, apesar da influência e manipulação dos meios de comunicação tradicionais junto ao conjunto da população brasileira, essa hegemonia está sendo cada vez mais contestada pelas novas mídias, uma vez que cada pessoa pode filmar, fotografar e postar, on line, nas redes sociais. Pelas novas mídias, as pessoas podem comparar as informações da TV e divulgar a contraversão para milhares de internautas, de forma a que possam tirar conclusões diferentes das veiculadas pela mídia tradicional. Muitas informações manipuladas e veiculadas pela televisão, por exemplo, foram imediatamente desmentidas e desmoralizadas pelas redes sociais.
    Evidentemente que as redes sociais não têm a mesma penetração, nem a dimensão popular e manipulatória do rádio, dos jornais e da televisão, pois esses meios de comunicação são financiados pelo grande capital e contam com milhares de profissionais organizados nas redações e diariamente orientados para veicular informações de acordo com os interesses dos proprietários da mídia, no Brasil um oligopólio dominado por nove famílias. Esse oligopólio, a exemplo do que acontece no mundo, funciona como o partido político dos setores mais reacionários da sociedade. Mesmo com esse imenso poderio, as redes sociais ampliam a cada dia sua influência, especialmente entre os jovens, o que tem transformado esses veículos num contraponto à mídia do capital.
    Dessa forma, as redes sociais tiveram um papel fundamental na convocação das manifestações. Isso explica em parte o fato de que um movimento modesto, como o Passe Livre de São Paulo, que antes das grandes mobilizações realizava pequenas manifestações, de uma hora para outra consegue mobilizar centenas de milhares de jovens em São Paulo e influenciar outros tanto milhões a se manifestarem pelo Brasil a fora. No dia da maior manifestação, a que reuniu cerca de 250 mil pessoas em São Paulo, o site do movimento contabiliza a cada minuto um aumento do número de adesões à manifestação, como se estivesse funcionando como uma central de mobilizações – só que virtual.
    Essa geração que foi às ruas mobilizadas pelas redes sociais nasceu num mundo dominado pelas tecnologias da informação, um ambiente digital onde a relação indivíduo-computador-celular e redes sociais (facebook, twiter, You Tube) são as principais ferramentas de informações e, ao mesmo tempo, o ambiente virtual que consolida e amplia relações pessoais, dá identidade a grupos e pautas de debate e agora serviu de canal para agregar um descontentamento que vinha se gestando durante vários anos na sociedade brasileira, marcada nesse período pelo caos urbano no transporte, pela saúde e habitação precárias, baixos salários e trabalho precarizado, repressão policial nas periferias, além da falta de perspectivas sociais e econômicas para toda uma geração.
    Portanto, trata-se de um imenso contingente da população formado a partir de informação e comunicação fora dos padrões tradicionais, como os jornais, o rádio e a televisão. Assim, as novas formas de comunicação, aliadas ao descontentamento latente da juventude e da população em geral, tornaram-se caldo de cultura que possibilitaram uma mobilização inédita na história das lutas sociais do País. A partir de agora, quem quiser qualquer diálogo com esse contingente da juventude terá não apenas que expressar politicamente os seus anseios e reivindicações, mas também aprender a se comunicar através de novos signos e ferramentas das redes sociais.
    Entretanto, ser um contraponto ao oligopólio das comunicações não significa que a mídia tradicional tenha perdido a capacidade de influenciar e manipular a sociedade. Os meios de comunicação tradicionais, especialmente a TV, o mais importante entre esses órgãos, são ainda a principal fonte de informação da grande maioria da população, com a vantagem de que, aliada a informação que veiculam diariamente nos telejornais, ainda formam opinião através das novelas, dos programas de auditório e dos outros tipos de programa. Através deste grande aparato, ainda tem possibilidade de consolidar o senso comum, formar opiniões em função da repetição massacrante dos temas sociais e políticos de interesse das classes dominantes e influir na formulação de políticas governamentais.

    É preciso entender os acontecimentos de junho
    As manifestações de junho merecem uma profunda reflexão autocrítica por parte de todos aqueles que se consideram de esquerda. Uma reflexão sem preconceito, sem dogma, sem fórmulas prontas. Os levantes populares de junho condensaram um conjunto fenômenos novos, como novas formas de organização, novos métodos de fazer política, nova forma de comunicação entre as pessoas, novos atores sociais. Estes fenômenos devem ser analisados com atenção para que se possa entender o significado dessa jornada inicial de lutas e linkar a essas novas demandas uma estratégia transformadora que se adeque aos anseios das ruas.
    Primeiro, as lutas espontâneas não possuem donos. Como em toda manifestação, só pode ser condutor aquele que construiu ou ajudou construir movimento ou ainda que é reconhecido pelo movimento. Essas manifestações não foram construídas por ninguém, nem mesmo pelo Passe Livre, organização que ficou mais conhecida no início do movimento. Os levantes de junho foram resultado de um acúmulo de problemas sociais, econômicos e políticos que vinham se gestando por longos anos no interior da sociedade e que explodiram com fúria e indignação em junho. Por coincidência começou quando o Passe Livre conclamou a todos para se manifestarem contra o aumento das passagens de ônibus. Mas poderia ter sido outro motivo qualquer, como o corte de árvores no Parque Gize, na Turquia, ou a imolação de um vendedor ambulante na Tunísia. As revoltas espontâneas não obedecem a um manual ou figurino pré-estabelecido, nem pedem licença para entrar na cena política.
    Segundo, a esquerda revolucionária, em processo de reconstrução após a queda da União Soviética, não soube tirar as conclusões necessárias da crise sistêmica global, do novo patamar da luta de classes aberto com a crise, nem conseguiu vincular os problemas da conjuntura internacional com a situação nacional. Subjetivamente, estava influenciada pelos números do crescimento econômico, do aumento do emprego e da renda, além do fato de que a própria conjuntura de hegemonia do PT e de suas organizações sociais não lhes permitiu um crescimento suficiente para influenciar o curso dos acontecimentos.
    Terceiro, não eram fascistas todos os que gritavam “sem bandeiras” ou “sem partidos”. Tratava-se de uma massa enfurecida e influenciada pelos meios de comunicação contra os partidos em geral e o PT em particular, cujo governo não resolveu os principais problemas da população, apesar de a população ter depositado imensa esperança de que com esse governo os problemas da população seriam resolvidos. Como o PT, no imaginário popular faz parte da esquerda. Como também sua bandeira é vermelha e como se envolveu na corrupção, toda a esquerda foi confundida com o PT. A consciência possível daquela massa indignada com anos de desleixo do governo em relação às suas necessidades, com os problemas econômicos e a corrupção generalizada no governo não poderia diferenciar a esquerda que não se rendeu da esquerda que se vendeu.
    Quarto, todos compreendemos o quanto a ditadura militar utilizou os símbolos nacionais para justificar um regime terrorista. Mas não se pode atualmente confundir os símbolos nacionais com a ditadura. Portanto, os milhões de jovens que pintaram o rosto de verde-amarelo não eram reacionários nem fascistas. Foram em algum momento manipulados habilmente pela mídia e por setores fascistas e de direita, mas estes jovens estavam exercendo a rebeldia à sua maneira, buscavam uma identidade em função de sua falta de perspectiva, que não pôde ser construída pela esquerda. O importante é que a esquerda não pode deixar a bandeira do patriotismo e da soberania nacional nas mãos da direita. Isso é tudo que eles querem, uma vez que as reivindicações expostas nas manifestações não podem ser resolvidas pelos setores de direita, afinal foi a direita e, especialmente, os neoliberais, que implantaram as principais medidas antinacionais e antipopulares dos últimos 20 nos, continuadas em seus eixos básicos pelo governo do PT.
    Quinto, as manifestações demonstraram uma enorme crise de representatividade no País. O aparato institucional, constituído pelo Executivo, Legislativo e Judiciário, não é reconhecido pela maioria da população como sua representação. Isso é compreensível em função da enorme corrupção que permeia esses poderes, da falta de resposta às reivindicações populares e da truculência com que o Estado e suas forças policiais tratam a população mais pobre. Os partidos políticos, em sua grande maioria, também estão inteiramente desmoralizados tanto pela corrupção como pelas negociatas, pelas promessas não cumpridas e pela sem cerimônia com que tratam do dinheiro público e as reivindicações populares. No imaginário popular, ser parlamentar, membro do Executivo ou dirigente partidário se assemelha a agentes da ladroagem, do enriquecimento fácil. Portanto, há uma necessidade urgente de uma reforma geral das instituições de forma a torná-las aderentes às reivindicações populares, o que não pode ser feito a partir dessas instituições.
    Sexto, com as manifestações de junho a juventude e grande parte da população perdeu o medo, deixou de lado a passividade e começou a aprender que a população nas ruas tem uma força de gigantesca. Isso pode ser constatado se observarmos o desespero e perplexidade das classes dominantes e seus representantes políticos diante das manifestações. A prórpria presidente da República teve que vir a público responder à voz das ruas propondo um pacto, que não interessava às classes populares e que não tinha condições de impor à sua base aliada. Mesmo assim, o Congresso Nacional também teve que colocar em pauta a toque de caixa uma série de medidas que estavam engavetas há muitos anos, como a lei do passe livre, medidas contra a corrupção, entre outras. Em termos práticos, o movimento de junho já conseguiu uma vitória concreta, pois reverteu o aumento das passagens de ônibus, além de obrigar o sonolento Congresso a votar algumas medidas pressionado pelas ruas. Como se sabe, uma vitória é uma vitória. Quando há uma conquista popular obtida a partir das ruas, a população eleva a moral, sai fortalecida e percebe a força que tem. Esse processo acumula para novas lutas.
    Sétimo, ainda falta um elemento essencial para compor um quadro de ofensiva popular, que é a entrada em cena da classe operária. É compreensível que as mobilizações tenham começado pela juventude, pois esta tem mais mobilidade, está menos sujeita às imposições do capital. Mas a crise também colocará em movimento os trabalhadores do chão das fábricas, apesar das instituições que os representam estarem quase todas funcionando como bombeiros da luta de classe. Como as massas em geral estão completando sua experiência com o governo do PT, o próprio PT e, especialmente, a CUT, em algum momento próximo romperão as amarras do sindicalismo oficial e entrarão na cena política par desequilibar o jogo a favor dos interesses populares.
    Essas instituições estão brincando com fogo ao chamar à mobilizações dos trabalhadores. De um lado, imaginam que, ao conclamar às manifestações, podem recuperar o prestígio que perderam com a imobilidade dos últimos anos e mesmo se apresentar como protagonistas das lutas populares. Mas de outro, podem perder o controle do movimento, uma vez que a insatisfação é generalizada e estas instituições não estão dispostas a ir até às últimas consequências. Poderão se desmoralizar diante dos trabalhadores. Portanto, é fundamental a participação das forças classistas nesse processo, com suas bandeiras de lutas, de forma separar o joio do trigo e construir uma nova correlação de forças entre os trabalhadores, com a construção de novos instrumentos de luta contra o capital.

    As lições dessa jornada e as perspectivas
    Como elemento mais de fundo da conjuntura após as manifestações de junho, pode-se dizer que chegou à superfície uma contradição antagônica entre o modelo econômico, social e político construído a partir dos anos 80, aprofundado no período FHC e continuado em sua essência pelo governo Lula-Dilma e os anseios da população brasileira. Se esta contradição era latente ao longo desses anos, agora tomou a forma contestatória de grandes manifestações de massas nas ruas em busca de um novo projeto. Mesmo ainda difuso, sem pautas unificadas, o grito das ruas representa o esgotamento de uma formar de governar, de uma forma de fazer política e dirigir a economia. Despida do apassivamento, das manipulações midiáticas e do medo de colocar suas reivindicações nas ruas, a luta da população e dos trabalhadores também mudou de patamar no Brasil.
    Ao longo da história, as elites brasileiras sempre buscaram se antecipar às mudanças para que nada pudesse mudar. Sempre buscaram cooptar os agentes mudancistas, de forma a que os movimentos não ganhassem autonomia e passassem a contestar a própria ordem conservadora. Quando essa tática não funcionava, apelavam para a repressão pura e simples. Os últimos pactos das elites, costurado no período da democratização com Tancredo-Sarney, radicalizado no período neoliberal e repactuado com a Carta aos Brasileiros que orientou o governo Lula e agora Dilma, está sendo questionado de uma forma que não se via desde os tempos das lutas pelas reformas de base na década de 60.
    O novo ciclo de lutas que se abriu com as manifestações de junho vai continuar sua trajetória, porque um processo de lutas como o que está acontecendo, animado por um lastro de carências em praticamente todas as áreas, só se esgota diante de três possibilidades: se for derrotado, se for cooptado ou se obtiver uma vitória. A história já nos ensinou a esse respeito. Na década de 60 o ciclo de lutas sociais se esgotou com a derrota deste movimento, mediante o golpe militar de 1964. O ciclo que se iniciou com as greves de São Bernardo foi cooptado e domesticado pelo PT e o governo Lula. Portanto, esse novo ciclo ainda vai durar um período bastante expressivo porque dificilmente as autoridades governamentais terão condições de satisfazer as necessidades dos manifestantes, em função de seus acordos políticos e econômicos.
    Um ciclo de lutas sociais também não ocorre de maneira linear, num crescente até a vitória ou a derrota. A história também tem ensinado que as lutas sociais emergem à superfície com vigor num primeiro momento, podem arrefecer num momento posterior, apresenta-se um período de calmaria, e podem voltar novamente com maior força até que as questões que o movimento colocou sejam resolvidas ou que o movimento seja derrotado. “É por isso que humanidade só levanta os problemas que é capaz de resolver” . As lutas recentes no Egito demonstram claramente isso: inicia-se um grande movimento de massas, derrota-se o ditador e logo depois é eleito um governo conservador que implementa medidas inteiramente contrária à vontade das ruas. Quando menos se espera (no caso um ano depois das primeiras manifestações), as massas voltam novamente às ruas com muito mais força e derrotam o governo.
    Acreditamos que, após o ensaio geral de junho, haverá um período de calmaria tensa, onde as massas irão avaliar se suas reivindicações serão atendidas. Como o sistema político e econômico brasileiro não tem interesse em atender essas reivindicações, porque seria necessário romper com o modelo econômico e sua base aliada, teremos uma segunda onda da crise, mais ampla, radical e mais violenta que a primeira, só que com uma diferença essencial – agora a população já perdeu o medo de sair às ruas e, ao mesmo tempo, aprendeu que as manifestações de massa têm condições de dobrar os governantes, como foi o caso da anulação do aumento da passagem de ônibus.

    Que fazer a partir de agora

    Caso se queira intervir na realidade a partir das manifestações de junho não se pode deixar de levar em conta que a crise mundial vai continuar, com consqeuências cada vez mais graves para o sistema capitalista. E quanto mais a crise se agravar, mais difícil se torna sua gestão e mais dramático o panorama econômico internacional, com repercussões em todos os países ligados à economia líder. Como o Brasil é parte do sistema capitalista, não está blindado diante da crise, pois a recessão mundial afeta as exportações, as finanças, as bolsas de valores e a produção interna.
    Essa conjuntura deixa pouca margem de manobra para o governo, que terá duas opções: ou rompe com o sistema de alianças nacionais e internacionais, que constitui a sua razão de ser enquanto projeto econômico e político, o que é impensável na conjuntura atual, ou aprofunda sua opção pelo grande capital e o agronegócio, como vem realizando a partir da política de privatização disfarçada e concessões aos grandes fazendeiros, afastando cada vez da possibilidade de atender às reivindicações populares. Dessa forma, não terá outra saída que o aumento da repressão contra as manifestações populares, sob o pretexto de imposição da lei e da ordem do estado de direito democrático.
    Para as forças de esquerda, a história está se mostrando generosa e proporcionando uma segunda oportunidade nessa conjuntura. Como não tiveram condições de captar a insatisfação popular nas lutas de junho, agora poderão avaliar criticamente essa debilidade e reorientar sua ação para a segunda onda de manifestações que virá, porque o governo e sua base política não irá atender as reivindicações populares. Como as manifestações fizeram chegar à superfície a insatisfação popular, esse processo vai continuar, até mesmo porque já aprenderam que a força das ruas gera conquistas reais. Esse período de calmaria tensa, possivelmente não terá a forma das manifestações de junho, poderão ser realizadas reagionalmente de acordo com os problemas concretos de cada localidade. Mas em algum momento voltarão com mais força que a primeira vez.
    Ainda há tempo para mudar a tática visando galvanizar o sentimento das ruas e contribuir para educação política das massas, no sentido da construção de pautas políticas unitárias que possam contribuir para a mudança de correlação de forças no interior da sociedade e avançar para um processo profundo de transformações sociais. A esquerda não deve temer o futuro nem o povo nas ruas, independentemente da forma como as manifestações forem realizadas. É hora de incrementar o trabalho de base: todos os militantes estudam, trabalham ou moram em alguma região.
    Portanto, é hora de conversar com os colegas nas escolas e universidades, com os companheiros nos locais de trabalho e com os amigos nos bairros e associações de moradores. Organizar as pessoas onde for possivel, até mesmo os indiferentes, se necessário. Explicar a possibilidade de conquista a partir das mobilizações de massas nas ruas. Desmistificar a hipocrisia da direita, que quer transformar o conjunto das reivindicações num problema moral, como a luta contra a corrução, de forma a mudar o eixo dos problemas e manipular a opinião pública. É hora do trabalho de base real onde for possível.
    Em outros termos, é necessário construir em marcha forçada as condições subjetivas para que as massas possam avançar em suas reivindicações com autonomia, para que adote um programa unitário e se disponham a ir além da institucionalidade. É verdade que a esquerda revolucionária é muito pequena para dar conta das imensas tarefas do processo de transformações, mas deve-se lembrar também que em tempos de convulsão social as massas realizam um aprendizado acelerado, constroem rapidamente suas organizações, como ocorreu no período do ascenso a partir de 1978. O importante neste momento é compreender o rumo do processo social, se conectar aos sentimentos mais profundos das massas e ter capacidade de sintetizar em poucas palavras de ordem esse sentimento.
    Portanto, é fundamental colocar os trabalhadores como protagonistas desse novo ciclo e por na ordem do dia a construção da greve geral como momento especial de mudança da correlação de força em favor dos trabalhadores e das reivindicações populares, processo a partir do qual poderá se abrir imensas janelas de oportunidas para as transformações sociais no Brasil.

    Edmilson Costa é doutor em economia pela Unicamp, com pós-doutorado no Instituto de Filosofia Ciências e Letras da mesma instituição. É autor, entre outros de A globalização e o capitalismo contemporâneo (expressão Popular, 2009), um dos editores da revista Novos Temas e diretor do Instituto Caio Prado Junior.

    João Pedro Stedile: “Se não viabilizarmos uma constituinte, entraremos numa crise política prolongada”

    Entrevista com João Pedro Stedile


    Nilton Viana (Brasil de Fato, Redacção)
    30.Jul.13 :: Outros autores
    “A única saída política a curto prazo é lutarmos pela convocação de uma constituinte exclusiva para promover as reformas políticas que abrirão espaço para as necessárias reformas estruturais.”

    Em Junho, no auge dos protestos que sacudiram o país, o Brasil de Fato publicou uma entrevista com João Pedro Stedile, dirigente nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e membro das articulações dos movimentos sociais brasileiros por mudanças sociais, para fazer um balanço e entender o significado daquele momento.
    Agora, passado um mês daquele momento histórico, e após a realização do dia nacional de paralisações, convocado pelas centrais sindicais e pelos movimentos sociais, publicamos nova entrevista com Stedile. O dirigente acredita que está definitivamente enterrada qualquer possibilidade de mudança política através do actual Congresso. E ele é taxativo: “Se não viabilizarmos uma assembleia constituinte, entraremos numa crise política prolongada, cujos desdobramentos ninguém sabe como acontecerão”.
    Brasil de Fato – Passado o primeiro mês das grandes mobilizações e da paralisação de 11 de Julho, que balanço você faz?
    João Pedro Stedile –
    O resultado das grandes mobilizações ocorridas em Junho é extremamente positivo. A juventude passou a limpo a política institucional e rompeu com a pasmaceira da política de conciliação de classes, em que se dizia que todos ganhavam. Depois, tivemos a paralisação nacional do dia 11 de Julho – organizada pelas centrais sindicais e pelos sectores organizados da classe trabalhadora – que apesar da manipulação da imprensa burguesa foi realmente um sucesso. A maior parte da classe trabalhadora nos grandes centros do país não foi trabalhar. E seguiu-se em muitas cidades mobilizações representativas ou massivas, por demandas locais, contra a prepotência da polícia, contra os governos locais, como o caso do Rio de Janeiro, Vitória, Porto Alegre, etc. Tudo isso recolocou as massas em movimento actuando na luta política concreta e usando as ruas como espaço de disputa.
    E qual o significado disso do ponto de vista programático?
    Do ponto de vista programático, estamos assistindo a uma conjugação de dois polos: de um lado a juventude contestando a forma de fazer política, a falta de representatividade do Congresso, do poder Judiciário e governos. Desnudando a gravidade da crise urbana, na situação dos transportes e a vida nas cidades. E fazendo a crítica à Rede Globo e apoiando a democratização dos meios de comunicação. E de outro lado, com a entrada em cena dos sectores organizados da classe trabalhadora, foi posto na agenda as demandas por reformas estruturais, relacionadas com as necessidades socioeconómicas de todo o povo. Como é a garantia dos direitos sociais, contra a lei de terceirização e precarização das condições de trabalho, pela redução da jornada de trabalho e o factor previdenciário. Também a pauta da soberania nacional contra os leilões de petróleo e a pauta da política económica, contra as altas taxas de juros, por uma reforma tributária, que revise inclusive a política de superavit primário que vem sendo aplicada desde o governo FHC.
    Por que a proposta da presidenta Dilma de realizar uma constituinte e um plebiscito não prosperou?
    A presidenta Dilma sentiu o barulho das ruas e num primeiro momento apresentou a proposta de realização de uma constituinte e a convocação de um plebiscito oficial para consultar o povo sobre essas mudanças. Foi uma boa iniciativa, apesar de que o plebiscito proposto estava relacionado a pequenas mudanças eleitorais, que não tinham uma relevância maior de reforma política. Mas, por incrível que pareça, ela foi boicotada e derrotada. Primeiro por sua base parlamentar, que na verdade não é base do governo, é base das empresas que financiaram suas campanhas. Segundo, foi boicotada pelo PMDB e por parte da própria bancada do PT. E assim está definitivamente enterrada qualquer possibilidade de mudança política através do actual Congresso. Ou seja, se comprovou, mais uma vez, que ninguém corta seus próprios privilégios. Pior. Em meio a toda essa mobilização, os principais representantes dos poderes constituídos se comportaram com escárnio frente às demandas das ruas, ao usar os jatinhos da FAB para ir a festas e jogo da selecção. E as maracutaias do presidente do STF com suas mordomias, sua promiscuidade com a Globo, empregando um filho, e a denúncia de que recebeu mais de 500 mil reais sem trabalhar da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Tudo isso deixou a presidenta derrotada politicamente. Acho que seu futuro depende agora de muita coragem. Primeiro deveria fazer uma reforma ministerial para trocar imediatamente vários ministros da área política, Casa Civil, da Justiça e da Comunicação que ainda não escutaram as ruas… E dar uma prova de que quer mudar. Se afastar o mais rápido possível do PMDB e seguir ouvindo as ruas!

    Como você vê o comportamento e os objectivos da burguesia brasileira frente a essas mobilizações?
    Os sectores organizados da burguesia brasileira e que a representam nos mais diferentes espaços também ficaram atónitos diante das mobilizações, sem saber o que fazer e tacteando suas tácticas. Vejam a própria postura da Globo como foi se alternando ou as orientações que davam para suas polícias militares. Eles continuam divididos. Uma parte continua apoiando o governo Dilma, embora preferisse que o Lula voltasse para dar mais segurança ao pacto de classes que se estabeleceu em 2002. E outra parte da burguesia, mais ligada ao agronegócio e ao sector rentista do capital financeiro, se articula em torno de um único objectivo: desgastar ao máximo o governo Dilma para colher os frutos nas eleições de 2014. Porém, eles ainda não têm um candidato que consiga representar seus interesses e ao mesmo tempo capitalizar os desejos de mudança das ruas. Até porque eles não são a mudança, eles são o retrocesso, a volta aos programas neoliberais e a maior dependência do Brasil aos interesses estrangeiros. Eles vão continuar tentando motivar a juventude para que coloque temas reaccionários ou utilizar o 7 de Setembro para exaltação da pátria, como faziam no passado. Mas, para nossa sorte, acho que eles também estão mal na foto, como diz o ditado. E a juventude não entrou nessa. E com a entrada da classe trabalhadora em cena, se colocaram temas da luta de classe na rua.
    O que deve acontecer nas ruas daqui para frente?
    É muito difícil prever o desdobramento. É certo que as mobilizações vão continuar. Tanto de maneira pontual contra questões locais, como o caso do governador do Rio de Janeiro, os pedágios de Vitória, a luta pela tarifa zero, que só está começando… E os sectores organizados da classe trabalhadora já se programaram para diversas mobilizações durante todo o mês de agosto. Dia 6 de agosto teremos manifestações dos sectores sindicais, na frente de todas as sedes patronais, contra o projecto de terceirização e pela redução da jornada de trabalho. Na semana de 12 de agosto, teremos uma grande mobilização dos jovens estudantes, por temas relacionados com a educação. Dia 30 de agosto está marcada nova paralisação nacional com a mesma pauta política e económica da mobilização do dia 11 de Julho. Tenho certeza que essa paralisação será ainda mais significativa. E na semana de 7 de Setembro teremos mobilizações contra os leilões do petróleo, da energia eléctrica, as mobilizações do grito dos excluídos que envolvem as pastorais das igrejas etc. Assim, teremos um Agosto muito activo. Mas o principal é que consideramos que está se abrindo um novo período histórico de mobilizações de massa, que será prolongado, até que se altere a correlação de forças políticas na institucionalidade.
    E qual é a proposta dos movimentos sociais frente a essa situação?
    Frente a essa conjuntura, temos discutido nos movimentos sociais e realizado inúmeras plenárias locais, estaduais e nacionais dos mais diferentes espaços para ir acertando os passos unitários. Achamos que devemos estimular todo tipo de mobilização de massa nas ruas, como já descrevi sobre o mês de agosto. E por outro lado, a única saída política a curto prazo é lutarmos pela convocação de uma constituinte exclusiva para promover as reformas políticas que abrirão espaço para as necessárias reformas estruturais. Como o Congresso não quer constituinte e derrotou o próprio governo, cabe às forças populares se mobilizarem e convocarem por conta própria um plebiscito popular que pergunte ao povo uma única questão: você acha necessário uma assembleia constituinte exclusiva para realizar as reformas? E com esse plebiscito popular, organizado por nós mesmos, colher milhões de votos, por exemplo, entre Setembro e Novembro, e aí fazer uma grande marcha a Brasília e entregar ao parlamento a proposta, para que eles convoquem a eleição dos constituintes junto com a eleição de 2014. E aí teríamos o Congresso temporário, funcionando, e outra assembleia constituinte que teria, por exemplo, seis meses (durante o primeiro semestre de 2015) para promover as reformas que as ruas estão exigindo. No próximo dia 5 de agosto, realizaremos uma plenária nacional de todos os movimentos sociais brasileiros, para debater essa e outras propostas e aí darmos os encaminhamentos necessários. Espero que os dirigentes que por ventura lerem essa entrevista se motivem a participar dessa importante plenária que será realizada em São Paulo.
    Mas você acha que essa proposta tem viabilidade política?
    Nesse momento estamos fazendo muitas consultas entre os movimentos sociais, correntes partidárias, forças populares e a aceitação é muito grande. Se conseguirmos organizar um plebiscito popular e ele recolher milhões de votos, isso será a pressão para encontrar uma saída política. Se não viabilizarmos uma assembleia constituinte, entraremos numa crise política prolongada cujos desdobramentos ninguém sabe como acontecerão. Até porque as eleições de 2014 não vão resolver os impasses colocados nas ruas.
    23/07/2013

    Declaram Bradley Manning inocente da acusação de ajudar o inimigo


    PDF Imprimir E-Mail
      
    Imagen activaWashington, 30 jul (Prensa Latina) Uma corte marcial nos Estados Unidos declarou o soldado estadunidense Bradley Manning, acusado de vazar mais de 700 mil arquivos secretos ao site digital Wikileaks inocente da acusação de ajudar o inimigo.
    Dessa forma, o jovem militar de 25 anos livrou-se da pena de cadeia perpétua que havia sido pedida pela promotoria, que o acusou de traidor.

    No entanto, a coronel Denise Lind, juíza do caso, declarou-o culpado de 19 das 22 acusações, entre elas cinco de roubo de textos e também 5 acusações de espionagem, o que poderá levá-lo a condenado a até 150 anos de prisão.

    Desde as primeiras horas da manhã da terça-feira, centenas de ativistas de direitos civis e apoiadores de Manning concentraram-se nos acessos à sede do tribunal, nas instalações militares de Fort Mead, estado de Maryland, para pedir a absolvição do jovem militar.

    Manning declarou-se inocente da acusação de ajudar o inimigo no último dia 28 de fevereiro ainda que tenha aceitado assumir a culpa por acusações relacionadas com o manejo inadequado de informação classificada, posse não autorizada e transmissão de dados a uma terceira parte.

    Seu advogado David Coombs argumentou que seu cliente tinha intenções de que a publicação desses documentos contribuísse para um intenso debate sobre as ações diplomáticas e militares dos Estados Unidos no Iraque e no Afeganistão.

    O jovem de 25 anos foi preso em maio de 2010 e seu caso provocou inumeráveis denúncias porque permanece preso há quase três anos sem ter sido submetido a julgamento, quando a lei militar do país fixa um prazo máximo de 120 dias para esses processos legais.

    Manning foi colocado sob custodia máxima por nove meses na base de Quantico, Virginia, confinado em um pequeno calabouço, sem janelas e com uma única vista do corredor através das grades, o que provocou protestos de grupos defensores dos direitos humanos nos Estados Unidos.

    O caso do jovem militar de 25 anos ganhou novas atenções após a revelação em junho das atividades de espionagem realizadas pela Agência de Segurança Nacional (NSA) estadunidense, vazadas pelo técnico, Edward Snowden.

    lac/rgh/es
    Modificado el ( martes, 30 de julio de 2013 )
     

    terça-feira, 30 de julho de 2013

    As contradições da União Europeia face ao Hezbolá

    por Thierry Meyssan [*]
    . Ao classificar o ramo militar do Hezbolá como organização terrorista, a União Europeia manifesta a sua incompreensão da Resistência libanesa. O Hezbolá não é e não quer tornar-se um partido político, ainda que participe no jogo político libanês. Bruxelas exprime a sua vassalagem ao bloco anglo-saxão (incluindo Israel) em detrimento de seus próprios princípios.

    Foi com três dias de atraso, que o Conselho europeu publicou a sua decisão relativa à inscrição do ramo militar do Hezbolá na sua lista de organizações terroristas. Contrariamente ao costume, a notícia já deu a volta ao globo e o Hezbolá já respondeu.

    O documento oficial foi acompanhado de uma declaração comum do Conselho e da Comissão sublinhando que isto "não impede a continuação do diálogo com o conjunto dos partidos políticos do Líbano e não afecta o fornecimento de assistência a este país". Este comentário visa explicitar a distinção entre os ramos civil e militar do Hezbolá que permite à União Europeia discutir com o primeiro ao mesmo tempo que condena o segundo.

    Dentro desta onda, a embaixadora da União Europeia, Angelina Eichhorst, foi a Beirute visitar o responsável das relações internacionais do Hezbolá, Ammar Moussaoui, para lhe dizer que esta decisão não mudava nada nas relações bilaterais. O problema, é que esta decisão não tem nenhum sentido.

    Mascarar a aspiração mística do Hezbolá

    Por definição, o Hezbolá não é um partido político, mas sim uma rede de resistência à invasão israelense, constituída por famílias xiitas baseada no modelo dos basidjis iranianos, do qual adoptou a bandeira (amarela). Progressivamente, a Resistência incorporou não-xiitas no seio de uma estrutura ad-hoc, e substituiu o falhanço do Estado libanês tanto para vir em socorro às famílias dos seus feridos e mártires como para reconstruir o Sul do país, inteiramente arrasado pela aviação israelense. Esta evolução levou-o a apresentar candidatos às eleições e a participar no governo.

    O seu secretário-geral, Sayyed Hassan Nasrallah, não cessou de exprimir as suas reticências face à política, que para ele não é nada mais que uma actividade corruptora. Pelo contrário, ele aproveitou todas as ocasiões para reafirmar o seu ideal de morrer com mártir no campo de batalha, como o seu filho mais velho Muhammad Hadi, seguindo assim a via traçada pelo imã Hussein na batalha de Kerbala.

    Na essência, o Hezbolá é o fruto de uma atitude mística e não poderia ser comparado a um partido político europeu. Os seus soldados nada têm a ganhar ao baterem-se, mas apenas a perder incluindo a sua vida. Eles vão à guerra porque a sua causa é justa e é uma ocasião para o sacrifício, o quer dizer de desenvolvimento humano. Era o sentido da revolução do aiatolá Rouhollah Khomeini e é o seu.

    Apesar da ambiguidade que decorre da tradução do seu nome, Hezbollah, como o "Partido de Deus", esta rede não é uma formação política e não pensa tornar-se em tal. O seu nome, extraído do Corão, figura sobre a sua bandeira: "Quem tomar por aliados Deus, Seu mensageiro e os crentes, [triunfará], pois é o partido de Deus é que sairá vitorioso". É preciso compreender aqui o significado da expressão "partido de Deus" no sentido escatológico: será em definitivo Deus quem triunfará do Mal no fim dos tempos.

    Muito estranhamente, os europeus — que maioritariamente consideram como um dado democrático a separação entre poderes temporal e religioso — reprovam ao Hezbolá a sua essência espiritual, e querem "normalizá-lo" em partido político. No seu espírito, os resistentes libaneses não são afectados pela colonização da Palestina e da Síria. Eles deveriam antes ocupar-se da sua carreira política do que a arriscar a sua vida em combate.

    A decisão do Conselho europeu terá pouco alcance prático. Ela consiste, sobretudo, em proibir aos membros do "ramo militar" viajarem na União Europeia e em congelar os seus depósitos bancários: mas não se vê porque clandestinos, lutando contra as potências coloniais, iriam abrir contas bancárias nesses estados.

    Porquê portanto esta barulheira? A inclusão do Hezbolá na lista europeia das organizações terroristas é uma velha reivindicação de Telavive, apoiada pelo império anglo-saxónico. É um esforço de propaganda visando afirmar que os "Bons" são os israelenses e os "Maus" os que recusam aceitar o roubo das suas terras. A proibição foi apresentada pelo presidente israelense Shimon Peres aos dirigentes da UE, depois ao Parlamento Europeu, em 12 de Março último. Foi levada ao Conselho Europeu pelos ministros britânico e francês dos Negócios Estrangeiros, William Hague e Laurent Fabius. Eles foram secundados pelos seus colegas holandês e austríaco, Frans Timmermans e Michael Spindelegger, após uma intensa mobilização dos sionistas estado-unidenses, dentre os quais o antigo governador da Califórnia, Arnold Schwarzeneger.

    Mascarar o fracasso israelense na Argentina

    Havia urgência em agir para os comunicadores israelenses. Com efeito, desde 1994, eles acusam o Hezbolá e o Irão de terem feito explodir o imóvel da mutualista judia de Buenos Aires, causando 85 mortos. Esta versão dos factos é apresentada como uma certeza, em numerosas enciclopédias e manuais escolares. Contudo, desde há muitos anos que a justiça argentina a desmentiu. Em Janeiro de 2013, a Argentina e o Irão criaram uma comissão de juristas independentes para esclarecimento total sobre o assunto. Desde logo, ficou claro que o atentado foi uma maquinação urdida pelo antigo ministro do Interior, o israelo-argentino Vladimir Corach.

    Como este caso não vinga, Telavive acusou o Hezbolá e o Irão de terem feito explodir um autocarro israelense na Bulgária, causando sete mortos (incluindo um kamikaze), a 18 de Julho de 2012. Logo de início, o governo de centro-direita búlgaro apoiou a acusação, antes de ser contraditado pelo seu sucessor de centro-esquerda. Pouco importa, para o Conselho Europeu o Hezbolá é politicamente o autor de um atentado no território da UE, embora não o seja do ponto de vista judicial.

    De modo geral, Israel acusa o Hezbolá de ter fomentado, e por vezes executado, uma vintena de atentados contra civis um pouco por todo o lado, no mundo inteiro, em trinta anos, o que a Resistência nega.

    Ainda aqui, muito estranhamente, os europeus — que consideram a presunção de inocência como um dado adquirido em democracia — condenam o suspeito antes mesmo que ele tenha sido julgado, ou sequer submetido a provas.

    Mascarar o fracasso europeu na Síria

    No fundo, não escapou a ninguém que a verdadeira novidade neste dossiê não figura ali: é a intervenção do Hezbolá na guerra da Síria. Uma vez que traímos nosso compromisso de derrubar o presidente Bachar el-Assad, levemos ao menos o nosso apoio aos "rebeldes" condenando o Hezbolá, pensa-se em Bruxelas. Foi este argumento que, parece, levou à decisão do Conselho Europeu. Isto mostra, pelo contrário, a incapacidade dos britânicos e franceses em influenciarem o que quer que seja, num conflito que eles deliberadamente desencadearam a fim de se apoderarem da Síria, brandindo a bandeira da colonização, que se tornou a mesma do chamado exército sírio livre. Acima de tudo esta condenação tem o mérito de clarificar os campos: de um lado a resistência à opressão colonial, do outro as potências colonialistas.

    Se a atitude britânica não é espantosa, com o Reino Unido reivindicando o seu estatuto colonial, ela ainda é mais no que se refere à França, que alternou na sua história períodos revolucionários e os imperiais.

    Assim, a Declaração dos Direitos do homem e do cidadão, adoptada em 1789, enuncia no seu artigo 2 quatro direitos fundamentais, dos quais um é a "resistência à opressão". Foi com esta base que em 1940, Charles De Gaulle se opôs ao armistício entre a França e o Reich nazi, pondo-se à frente da Resistência.

    Em contrapartida, no decurso dos anos 1880, Jules Ferry encarnou a expansão francesa desejada por uma fracção do patronato que com isso pretendia maior rentabilidade para os seus investimentos pois em França era o contribuinte e não o patronato que pagava o exército colonial. Para arregimentar o país, Ferry tornou a escola pública gratuita e obrigatória. Os professores, chamados "hussardos negros da República" deviam convencer os jovens a alistarem-se nas tropas coloniais. E foi sob os auspícios de Jules Ferry que o actual presidente francês, François Hollande, consagrou o seu quinquénio.

    Se a França moderna é Charles De Gaulle, ela teria podido ser Philippe Pétain; um marechal razoável, que considerava a submissão ao Reich vitorioso tanto mais desejável quanto ele aí via um meio de acabar com a herança de 1789. É certamente demasiado cedo para que as elites francesas o reabilitem, mas condenar a Resistência libanesa é condenar Charles De Gaulle à morte uma segunda vez, por terrorismo.

    Definitivamente, os ideais que fizeram a glória da França são actualmente mais bem defendidos em Beirute do que em Paris.
    [*] Editor de Reseau Voltaire

    O original encontra-se em www.voltairenet.org/article179620.html . Tradução de Alva (com pequenas alterações).


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .