quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Primárias do Partido Democrático: os “progressistas” como preservativos políticos

Primárias do Partido Democrático: os “progressistas” como preservativos políticos

James Petras
23.Dez.15 :: Colaboradores
De cada vez que o movimento de massas e o eleitorado popular optaram pela acção social independente fora do Partido Democrático, sempre um político “dissidente” emergiu de dentro do partido papagueando muitas das críticas e exigências dos movimentos e do eleitorado crítico. De Jesse Jackson ao actual Bernie Sanders, passando pelo farsante-mor Barack Obama, estes “dissidentes” democratas organizam campanhas “de base” em locais populares, pedindo pequenas contribuições e fazendo promessas de acabarem com o domínio do “big money e big business” sobre o processo eleitoral. Passadas as eleições, traem os que neles depositaram esperança, desviados da sua acção anterior e entregues à desmobilização e ao desalento.

Nas últimas décadas, emergiram movimentos de massas contestatários que reflectem o descontentamento político com a economia nacional e a com a política externa imperialista, desafiando a liderança e as políticas do Partido Democrático (PD). Há boas razões para tal: o Partido Democrático no poder no Congresso e na Casa Branca presidiu (1) ao aumento da desigualdade, (2) à diminuição dos salários reais, (3) à aprovação de legislação repressiva, (4) à redução de dois terços na filiação sindical, (5) ao aumento da desigualdade entre raças, (6) ao resgate dos bancos e da Wall Street com um bilião (milhão de milhões – NT) de dólares, (7) à execução de hipotecas contra milhões de proprietários, (8) a incontáveis abusos à “estado policial” pelas polícias locais e federais, (9) à desregulação do sistema financeiro e (10) à deslocalização de postos de trabalho industriais e de serviços.
No mesmo período, o Partido Democrático apoiou guerras e invasões contra a Indochina, o Panamá, Grenada, a Jugoslávia, o Iraque, o Afeganistão, a Líbia, a Síria, a Somália e lançou inúmeras operações militares “clandestinas”, incluindo as recentes e actuais guerras por procuração na Geórgia e na Ucrânia.
Emergiram movimentos populares e a opinião pública de massas exprimiu hostilidade relativamente a ambos os dois maiores partidos. Os terceiros partidos provocaram portanto uma resposta do eleitorado que fez o Partido Democrático sentir-se ameaçado pelo possível abandono dos eleitores assalariados, especialmente para o apoio a Ralph Nader.
Contudo, no final, nada resultou desse descontentamento. Apesar da raiva profunda e em larga escala e das explosões populares de protesto, incluindo as manifestações de rua com a dimensão de um milhão contra a invasão do Iraque em 2002-2003, o Partido Democrático continuou a dominar o eleitorado “progressista” ou a relegá-lo para a abstenção desmoralizada.
Este ensaio aborda as seguintes questões:
(1) Porquê os movimentos de massas e os eleitores e activistas progressistas genuinamente desinteressados foram incapazes de cortar com o Partido Democrático, apesar do seu consistente e abominável registo em política interna e externa?
(2) Como foi o Partido Democrático, pró-imperialista e pró-Wall Street, capaz de manter o apoio de um eleitorado que se pronuncia esmagadoramente a favor da reforma do sistema de saúde através de um plano nacional de saúde de ordenante único, a favor do rendimento mínimo de sobrevivência, pelo fim da vigilância de estado-polícia e contra guerras e invasões em série?
De contestadores a reféns políticos
Os movimentos de massa americanos tiveram êxito com a mobilização de centenas de milhares de oponentes ao apoio de Washington ao regime de apartheid da África do Sul, aos ditadores centro-americanos, às guerras no Médio-Oriente e à legislação racista. Progressistas esclareceram e organizaram milhões de pessoas contra a Wall Street e o mais recente resgate dos bancos pelo Partido Democrático.
De cada vez que o movimento de massas e o eleitorado popular optaram pela acção social independente fora do Partido Democrático, sempre um político “dissidente” emergiu de dentro do partido papagueando muitas das críticas e exigências dos movimentos e do eleitorado crítico.
Estes “dissidentes” democratas organizam campanhas “de base” em locais populares, pedindo pequenas contribuições e fazendo promessas de acabarem com o domínio do “big money e big business” sobre o processo eleitoral.
Estes “dissidentes” democratas juntam milhões de votos e centenas de delegados para a Convenção Democrática e então… perdem inevitavelmente perante a máquina do partido e submetem-se mansamente reafirmando a sua lealdade ao “maior bem” contra o “maior mal”.
A retórica radical utilizada durante a campanha é conscientemente pensada para obscurecer a lealdade essencial dos “dissidentes” ao Partido Democrático, à sua máquina militarizada, aos seus financiadores multimilionários e aos estrategas de política económica da Wall Street.
A derrota pré-calculada dos “dissidentes” democratas na campanha das primárias não é aqui a questão importante: a consequência política essencial é que os “dissidentes” canalizam a insatisfação social das massas de volta para o Partido Democrático, assim minando qualquer iniciativa política independente capaz de quebrar o domínio duopolista. São como, na área da criação de gado, o bode atraente que engana o rebanho para que dê entrada na grande sala de abate das suas aspirações sociais e políticas.
Ao endossarem o nomeado que foi coroado pelo Partido, estes “dissidentes” desacreditam as próprias ideias críticas e os programas sociais que reclamam promover. Desmoralizam e despolitizam importantes segmentos do eleitorado, desmobilizam e desorientam os activistas sociais que trabalharam pela transformação social prometida no seu programa de campanha.
Mais importante ainda, ao reorientarem os movimentos pela paz e pela justiça e as organizações comunitárias de vizinhança e anti-racistas para a política eleitoral do Partido Democrático, esvaziam as ruas, os bairros e os locais de trabalho de activistas efectivos.
Uma breve revista das campanhas presidenciais dos últimos trinta e cinco anos confirma esta análise.
Jesse Jackson e a agitação “Arco-Íris”: 1984 e 1988
Jesse Jackson foi um importante líder activista no movimento dos direitos civis. A partir de Chicago, ajudou a organizar dezenas de milhares de afro-americanos e a desenvolver laços com outras minorias, brancos progressistas e sindicatos.
Jackson esteve contra o assalto do presidente Reagan aos sindicatos, especialmente contra o despedimento de milhares de controladores aéreos. A oposição de Jackson ao apartheid na África do Sul, à invasão de Grenada por Reagan e à escalada das despesas militares deram-lhe credibilidade no movimento da paz.
Milhões de pessoas olharam para Jesse Jackson para a liderança e por uma nova direcção política. Negociou com os patrões do Partido Democrático para a sua participação nas primárias. O acordo consistiria em competir com os políticos tradicionais, mas submeter-se imediatamente à liderança caso perdesse a nomeação.
Jackson mobilizou centenas de milhares de activistas dos guetos do norte até aos campus dos colégios da Ivy League (conferência ligada à actividade desportiva de instituições privadas de prestígio – NT) e das fábricas têxteis da Carolina do Norte até os campos de algodão do Mississípi. Lançou a retórica sobre a justiça social, o aumento do salário mínimo, o plano nacional de saúde de ordenante único (Medicare-for-All) e a transferência maciça de fundos públicos do Pentágono para os programas sociais.
Ganhou uns impressionantes 18% de votos nas primárias Democráticas de 1984. Depois da derrota, capitulou imediatamente e apoiou o “guerreiro frio” da Wall Street, Walter Mondale. Fez campanha por Mondale com a promessa de que a “Coligação Arco-íris” influenciaria a campanha e a subsequente presidência de Mondale. Nada disso aconteceu. Mondale perdeu e Reagan foi reeleito. A “Coligação Arco-íris” foi tão efémera como aquilo que o seu nome indica.
Quatro anos depois, um Jesse Jackson reciclado desenvolveu a mesma retórica, a organização “das bases”, a conversa do gueto, a agitação da pobreza e o pote de ouro no fim da coligação arco-íris com brancos e negros todos juntos… para gáudio dos patrões do partido e dos financiadores empresariais.
Era o “todos a remar para o mesmo lado”: os movimentos de rua mudaram das lutas concretas locais para o registo porta-a-porta de eleitores para os Democratas. Os sindicalistas locais foram atraídos para a retórica do “Salvem os empregos americanos” de Jackson. Os progressistas da classe média foram atraídos pela promessa de Jackson sobre cortes no orçamento militar.
Jackson recebeu uns substanciais 29% dos votos nas primárias Democráticas. Michael Dukakis ganhou a nomeação e, conforme prometido, Jesse Jackson apoiou a escolha do partido e deu indicação a todos os activistas de direitos humanos, justiça social e paz e aos anti-Wall Street para trabalharem pela eleição. Dukakis foi estrondosamente derrotado por George Bush Sr. nas eleições de 1988.
No fim do “arco-íris” e passando por cima de um movimento pela paz desmoralizado e despolitizado, a administração Bush levou os EUA à primeira Guerra do Golfo. As ruínas dos movimentos populares, transformados em máquinas eleitorais, ofereceram fraca resistência.
Confundidas pelo duplo discurso de Jackson, as massas desanimadas quebraram. Quatro anos mais tarde, as poucas peças restantes foram apanhadas pelo lacaio da Wall Street, “Bill” Clinton. Uma vez no governo e depois de tocar o seu vitorioso saxofone, o presidente “Slick Willy” (alcunha de Bill Clinton traduzível por “Willie jeitoso” – N.T.) desatou a dizimar os programas sociais, a arrumar as leis Glass-Stiegel e desregular os bancos, a desencadear uma guerra impiedosa de noventa dias para destruir a Jugoslávia e a manter dez anos de bombardeamentos e asfixiantes sanções contra o Iraque que provocaram a morte de 500 mil crianças e muitas mais de adultos.
O cowboy Dennis Kucinich e as primárias de 2004: cuidar do gado progressista no curral do Partido Democrático
Exactamente quando o desapontamento pelas consequências das políticas e podres pecadilhos de Clinton e pelas grotescas guerras de George Bush Jr começavam a unir os descontentes, saltou “do nada” um tal Dennis Kucinich para lançar nas primárias do Partido Democrático de 2004 uma versão da “coligação do Arco-Íris” de Jesse Jackson à moda da classe trabalhadora branca. Poupando uma quantidade de dinheiro em cartazes, reciclou os mesmos slogans dos jacksonistas sobre o sistema nacional de saúde, o aumento do salário mínimo, os impostos maiores para os ricos, a retórica anti-Wall Street e a propriedade dos serviços públicos.
Dado que existia ainda um movimento anti-guerra bastante forte, apelou à destituição do presidente Bush Jr por ter mentido ao povo americano sobre o Iraque. Criticou os democratas do Congresso por apoiarem os pretextos fabricados para a invasão do Iraque e apelou à retirada de tropas americanas do Médio Oriente.
A sua campanha presidencial nas primárias do Partido Democrático atraiu um pequeno exército de eleitores independentes e contribuidores que de outro modo teriam fugido do partido para os Verdes e o seu candidato Ralph Nader. Na Convenção do Partido Democrático, mais parecido com “Alfred E. Neuman” (mascote da revista de humor “Mad” – N.T.) do que com qualquer verdadeiro líder da classe trabalhadora, Dennis esgotou-se sem um murmúrio. Perdeu a nomeação para o super-militarista e herói da classe alta John Kerry, sem dar luta ou sequer fazer um discurso. Aprovou o obnóxio príncipe dos patrões Democráticos, Kerry, um ardente pró-guerra, membro da classe multimilionária e defensor do retalhador da Constituição, o Acto Patriótico.
Kucinich conseguiu meter no curral os Democratas anti-guerra e anti-Wall Street, minando seriamente os movimentos de massas anti-Bush, especialmente os activistas pela paz e a vaga crescente de americanos abertamente favoráveis ao programa do Serviço Nacional de Saúde de Ordenante Único, uma extensão do “Medicare-for-All”.
Kucinich candidatou-se novamente em 2008, mas já era mercadoria estragada. A sua exibição na Convenção Democrática alienou-lhe a maior parte dos apoiantes. Contudo, ainda mais importante que o relegar de Dennis para o caixote do lixo foi a emergência de um novo, jeitoso e infinitamente mais persuasivo vigarista: Barack Obama. Criado no Hawai, afinado pela Ivy-league e coroado em Chicago, era um camaleão de muitas cores, ritmos e clichés, que surgiu em cena tocando todos os instrumentos da banda!
Barack Obama: o maior agitador de massas progressista e mestre do engano 
O trabalho de vigarista de Barack Obama ultrapassou de longe qualquer anterior trabalho de Jackson ou Kucinich. A sua espantosa ascensão através de bolhas de retórica deixou a rival Hillary Clinton, há muito batida no palavreado do “Willie jeitoso”, literalmente de olhos esbugalhados e queixo caído. Durante as primárias de 2008, abraçou as exigências progressistas do movimento contra a guerra, prometendo acabar com a guerra no Iraque, fazer regressar as tropas do Afeganistão e fechar o campo de tortura dos EUA na Baía de Guantánamo. Prometeu finalmente desenvolver um plano nacional de saúde (apontando no geral para o modelo Medicare-for-All) e regular a desenfreada fraude e especulação da Wall Street.
Percebendo facilmente a sua retórica fofa, os apoiantes da Wall Street do Partido Democrático garantiram centenas de milhões dos multimilionários, com as quais financiarem um verdadeiro “movimento das bases – em estilo”, derrotando nas primárias Democráticas uma Hillary Clinton estupefacta e enterrando o megamilionário candidato republicano “Mitt” Romney nas eleições gerais.
Obama, qual novo Zelig (personagem camaleónico criado por Woody Allen – N.T.), adoptou as cadências profundas e musicais dos sacerdotes da igreja Baptista frente às audiências negras, ao mesmo tempo que foi atacando e repudiando o seu mentor religioso, o militante negro do “dia da comunidade” de Chicago reverendo Jeremiah Wright, que condenara a guerra no Iraque em francos termos bíblicos e assim alienara os apoiantes financeiros sionistas de Chicago e o seu conselho interno israelocêntrico. Já sem utilidade, o bom reverendo foi efectivamente “lançado borda fora”, uma lição concreta sobre como os licenciados da Ivy League se introduzem nas lutas de massas das comunidades para tratarem das suas ambições.
Depois de eleito, Obama destinou um milhão de milhões de dólares para resgatar a Wall Street, enquanto dois milhões de proprietários americanos se afundavam com dívidas e execuções das hipotecas.
Alargou as guerras em curso no Afeganistão e no Iraque e prosseguiu com novas guerras na Líbia, na Síria e no Iémen. Apoiou golpes violentos contra governos eleitos pelo povo (“mudanças de regime”) nas Honduras, na Ucrânia e no Egipto.
Os confusos dirigentes anti-guerra reciclados, que apoiaram a sua candidatura e as suas mentiras, ficaram desacreditados e o resto do “movimento” todo destroçado.
De início, mais de 80% da opinião pública americana manifestava apoio ao movimento anti-guerra “Occupy”, mas não tinham qualquer organização política de massas para sustentar a luta depois de muitos dos seus líderes terem fugido e finalmente ido ao fundo, agarrados às mentiras de Obama.
Com Obama, foram assassinados mais negros pela polícia com total impunidade, mais prestadores de serviço de aborto foram assassinados e clínicas bombardeadas do que com qualquer presidente republicano branco. Quanto à “intervenção humanitária” na Líbia, dezenas de milhares de africanos étnicos subsaarianos (trabalhadores contratados e cidadãos líbios) morreram na limpeza étnica pós-Khadafi feita pelos senhores da guerra racistas desembestados pelo assalto aéreo de Obama.
Os enfeitiçados progressistas ficaram atordoados com o presidente “negro” da Ivy League e não repararam que as desigualdades sociais se acentuaram a uma velocidade alarmante. Quanto ao acesso aos serviços de saúde, o povo americano foi obrigado a “comprar planos de saúde privados” (muitos dos quais sem préstimo), enquanto os descontos e as não-comparticipações dispararam, forçando todos menos os salários mais altos a renunciarem aos cuidados médicos. A ideia de que “o acesso ao seguro de saúde” era equivalente a ter cuidados de saúde efectivos foi um dos maiores embustes da era Obama. A esperança de vida para largos segmentos de americanos rurais ou das pequenas cidades com baixos rendimentos baixou, uma evolução que era inimaginável em períodos anteriores.
Durante a presidência Obama, o clima político tornou-se raivosamente de direita e os progressistas meteram o rabo entre as pernas e fugiram. Os extremistas de direita inundaram o partido Republicano e tomaram conta do Congresso e do Senado.
Depois de 7 anos de falhanços, frustração e futilidades com Obama, os progressistas encontraram-se sem um movimento, nem perspectivas. Mais de 92% dos trabalhadores do sector privado americano encontravam-se desorganizados e face ao declínio do seu nível de vida. Os bairros negros, chicanos e asiáticos continuaram sujeitos aos brutais raides policiais de grande escala e ao assassínio impune de jovens das minorias, de sem-abrigo, de doentes mentais e de pobres.
Os republicanos prometeram alargar a agenda reaccionária de Obama sem a máscara de negro sorridente. Garantiram maiores benefícios fiscais à Wall Street, sem embaraçadores floreados retóricos, e mais guerras, sem a hipócrita cantilena “humanitária”.
Contra este panorama de expansão da deterioração social e de cansaço da guerra (um pano de fundo que normalmente abriria caminho à possibilidade de uma política alternativa…), aparece Bernie. Bernie Sanders vinha incarnar a Quarta Vinda do messias progressista da campanha das primárias Democráticas e afundar qualquer movimento real para a esquerda.
Bernie Sanders: depois do artista e vigarista negro, venha o radical judeu da casa! 
Em 2015, a sociedade americana estava profundamente polarizada. Depois de 7 anos de pilhagem pela Wall Street com o presidente Democrático, Obama, a massa da população trabalhadora procurava uma alternativa. No horizonte, só havia mais do mesmo que estava prometido pela direita raivosa à frente do partido Republicano. A abstenção maciça dos eleitores tinha levado os Republicanos ao poder em ambas as “Casas” nas eleições de 2010, 2012 e 2014. A traficância do terror, a chamada “Guerra Global ao Terrorismo”, já não funcionava com uma população terrificada pela ideia de perder o miserável emprego ou de ficar falida com alguma doença na família. O Pentágono recorreu ao pagamento a atores desempregados para encenarem manifestações “espontâneas” de patriotismo em grandes acontecimentos desportivos, vestindo-se como antigos combatentes e correndo nos campos com enormes bandeiras. Houve uma grande quebra de jovens americanos saudáveis a “alistar-se” e combater em guerras no estrangeiro, apesar da continuada perspectiva de se atolarem em empregos miseravelmente pagos com a chamada “recuperação da economia nacional”. A grande massa do povo trabalhador descontente não alinhava com a escolha plutocrática do partido Democrático, Hillary Clinton, a traficante de guerras, favorita da Wall Street e candidata pró-Israel por excelência. O palco estava agora preparado para receber uma abstenção em massa dos eleitores e uma clamorosa derrota eleitoral de um Partido Democrático com um eleitorado desanimado. Como candidata presidencial, Hillary teria que lutar com unhas e dentes para chegar a desafiar até o mais marginal lunático do cada vez mais bizarro Partido Republicano, porque a desmotivada base de votantes dos Democratas iria ficar em casa.
Aleluia! Eis que um irritante rei das multidões, um “socialista democrático”, surgiu então numa nuvem de perfeição, conjurando a ilusão de um movimento com a promessa de “profundas (e mesmo mais profundas) mudanças”.
Como Jackson e Kucinich antes dele, Sanders lançou-se directamente na Arenga: contra a Wall Street, por um Plano Nacional de Saúde e por uma redução das despesas militares (mas não muito…). Juntou alguns novos cartazes sobre o cancelamento da dívida estudantil, a redução das despesas de educação, o fim da taxa de segurança social e a maior regulação da Wall Street.
As primeiras sondagens deram a Sanders 25% das preferências dos Democratas.
Bernie garantiu aos horrorizados agentes do Partido Democrático que, se Madame Clinton vencesse as primárias, Bernie (e os seus seguidores) dariam imediato e incondicional apoio à traficante de guerras e candidata preferida da Wall Street.
O que vamos fazer das suas promessas e do seu programa radical, se de um dia para o outro pode calmamente fazer uma volta de 180º e apoiar a mais desacreditada escória do Partido Democrático, largamente responsável pelo declínio social e económico do país?
Conclusão
Toda a história dos “progressistas” do Partido Democrático é uma história de engano, hipocrisia e traição a milhões de trabalhadores, minorias e outros grupos oprimidos e excluídos.
Arengam e deliram até à contagem dos votos e então dissolvem a sua organização eleitoral e empurram os apoiantes para a campanha eleitoral do Partido.
Não continuam a luta fora do partido corrupto, simplesmente continuam de barriga erguida “graciosamente reconhecendo a derrota” e abanando a cauda à espera de alguma recompensa, como uma posição inconsequente e inofensiva no governo, se os Democratas vencerem.
Após cada derrota dos “radicais”, os seus apoiantes são deixados à deriva. De facto, ficam pior do que antes, porque a sua actividade foi desviada das suas comunidades para as primárias Democráticas. O registo histórico é claro: depois de Jesse Jackson ter perdido, a Coligação Arco-Íris soçobrou, os movimentos dos direitos civis ficaram mais fracos, a violência policial contra os negros continuou e até piorou.
Depois de Kucinich ter concorrido e perdido, os seus apoiantes das bases nos sindicatos não possuíam qualquer mecanismo para evitarem a deslocalização das fábricas de automóveis, aço e têxteis para o estrangeiro.
Depois de Obama ter enganado os progressistas americanos, o movimento pela paz e pela justiça desapareceu virtualmente. As alianças entre igreja, sindicatos e comunidades que celebraram a “vitória histórica” de Barack Obama sofreram um recuo histórico. As únicas coisas “históricas” com Obama no governo foram (1) o resgate bilionário da Wall Street, (2) o número de guerras simultâneas desencadeadas pelo Pentágono, (3) os milhões de pessoas de cor chacinados na Líbia, na Síria e no Iémen, (4) os milhares das minorias mortos nas pequenas e grandes cidades dos EUA, e (5) as dezenas de milhares de perdidos em mortes prematuras nas pequenas cidades e nas cidades rurais da América economicamente devastadas.
O actual espectáculo ‘Bernie”Sanders não faz mais que reciclar o passado rumo às mesmas promessas retóricas e inconsequentes dos seus antecessores.
Alguns dos ingénuos seguidores argumentam que ele é importante por “levantar questões”, quando de facto apenas as levanta logo desmoraliza os seus defensores.
Outros gurus dizem que ele está a “desafiar” o Partido Democrático “pela esquerda” quando de facto está fazendo todos os possíveis para evitar que milhões de eleitores ex-Democratas desinteressados, principalmente trabalhadores e minorias, rejeitem os Democratas e se juntem ou formem movimentos políticos alternativos.
A chave para compreender porquê milhões de americanos, fartos de 30 anos de pioria de vida e de condições de saúde, de aumento da desigualdade e de guerras perpétuas, não formam um “partido alternativo” é terem sido repetidamente enganados e encurralados no Partido Democrático pelos “radicais da casa”.
Jackson, Kucinich, Obama e Sanders prometeram mudanças radicais nas primárias e a seguir entregaram os seus apoiantes, na maior parte trabalhadores desafectos, aos oligarcas do Partido, abandonando-os longe dos movimentos sociais de onde vinham e sem esperança no futuro, como se abandonam preservativos usados. Será de admirar que tantos se abstenham!
Tradução: Jorge Vasconcelos

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

A defesa do capitalismo liberal

A defesa do capitalismo liberal


por Prabhat Patnaik [*]
'Morte do capitalista', Diego Rivera, 1928.A defesa liberal do capitalismo assume duas formas distintas na teoria económica. Uma declara que o sistema capitalista opera de maneira a assegurar o pleno emprego de todos os recursos e produz um conjunto de bens com "eficiência", a qual é definida como um estado onde nada mais de qualquer bem dentro deste conjunto pode ser produzido sem produzir menos de algum outro bem. Esta afirmação do pleno emprego é tão palpavelmente falsa – como mostra toda a história do capitalismo, marcada pela sistemática coexistência de trabalho desempregado e equipamento ocioso – que aqueles economistas liberais algo mais honestos recorrem a uma segunda linha de argumentação.

Esta segunda linha, se bem que admitindo que o capitalismo realmente não opera da maneira descrita na primeira e que, ao contrário caracteriza-se sistematicamente pela coexistência de trabalhadores desempregados e equipamento ocioso, afirma, entretanto, que a sua operação pode ser rectificada através da intervenção do Estado a fim de fazer desaparecer esta deficiência. Ela encara o Estado como uma entidade externa, a posicionar-se do lado de fora do sistema e a intervir na sua operação "espontânea" a fim de libertá-lo dos seus efeitos danosos.

A tradição keynesiana pertence obviamente a esta segunda linha. Ela partilha com o marxismo a percepção de que o sistema entregue a si mesmo é na verdade assolado por crises e é incompatível com a exigência de uma sociedade humana, mas difere do marxismo na sua crença de que o Estado, mesmo numa sociedade capitalista, pode intervir para libertar o sistema dos seus males básicos. Como afirmou Keynes, não havia qualquer necessidade de propriedade social dos meios de produção como queriam os socialistas; pelo que pretendia a utilização de um conjunto de "controles sociais" para assegurar que o nível de investimento fosse suficientemente elevado a fim de impedir qualquer escassez de procura agregada com pleno emprego. Isso era tudo o que seria necessário para ultrapassar a deficiência básica do sistema capitalista.

Não discutirei aqui a crítica marxista desta posição. Ao invés disso examinarei a lógica desta linha de argumentação nos seus próprios termos e quão longe ela se adequa à realidade do capitalismo contemporâneo. Uma questão óbvia que se levanta é: como pode o Estado intervir para alcançar pleno emprego se os capitalistas se opõem a tal intervenção? A resposta a esta pergunta, dada por Keynes, era que os capitalistas não se oporiam a tal intervenção uma vez que dela também se beneficiariam. Ou seja, que a intervenção do Estado para promover a procura agregada era um "jogo de soma não zero", no sentido de que toda a gente podia sair-se melhor através de tal intervenção: os trabalhadores através de emprego mais vasto e os capitalistas através de maiores lucros que decorreriam da melhor utilização da capacidade produtiva sob o seu comando. A ainda que os proponentes desta segunda linha admitam que "pleno emprego" no verdadeiro sentido da expressão teria a oposição dos capitalistas, devido ao receio de que um desaparecimento do exército de reserva do trabalho significaria que os trabalhadores ficariam "fora de controle", eles ainda assim sustentavam que a intervenção do Estado pode pressionar um nível de emprego muito mais alto do que se verificaria em economias capitalistas a operarem "espontaneamente".

Mas então pode-se levantar a questão: se a intervenção do Estado para manter altos níveis de actividade é um "jogo de soma não zero", isto é, funciona também em benefício dos capitalistas, então por que não foi tentada mais cedo? A resposta dada por Keynes a esta pergunta era que havia uma falta de entendimento teórico entre os capitalistas, razão pela qual os mesmos encaravam a intervenção do Estado com suspeição ou hostilidade. Uma vez que desenvolvessem um entendimento correcto do que produz deficiência da procura, o qual ele pensava que a sua teoria providenciara, então desapareceriam os obstáculos contra a intervenção do Estado na "administração da procura", que se levantavam devido à oposição dos capitalistas.

Naturalmente, mesmo que estivessem armados com um tal entendimento, os capitalistas, em termos individuais não poderiam ultrapassar a deficiência da procura. Eles têm de actuar em conformidade com as "racionalidade privada" (fazer tanto lucro quanto possível) porque é o que o mercado os força a fazer. Ultrapassar a deficiência da procura exigiria portanto o esforço de uma entidade supra-individual, o Estado capitalista. E os capitalistas, embora incapazes de actuar contra a deficiência da procura em termos individuais, não se oporiam a tal esforço por parte do Estado uma vez que houvessem adquirido um entendimento correcto. Capitalistas individuais, em suma, estavam necessariamente presos dentro do âmago da "racionalidade privada", a única entidade que poderia actuar de acordo com a "racionalidade social" seria o Estado.

O ESTADO COMO ENTIDADE EXTERNA 

Isto entretanto significa necessariamente que o Estado tem de actuar não de acordo com o que dita o mercado, não em conformidade com o critério mercado, não a imitar os participantes do mercado, mas sim de modo totalmente independente do mercado. Ele tem de ser, em suma, um "observador externo" do mercado. E instituições apropriadas têm de ser postas em vigor dentro do sistema para tornar isto possível. Durante vários anos após a guerra o capitalismo teve tais instituições em vigor, dentre as quais pelo menos três merecem ser mencionadas.

A primeira foi o controle estatal sobre fluxos de capital transfronteiriços, o qual assegurava que o Estado podia actuar sem medo de disparar fugas de capital (outflows) , isto é, sem preocupação com aquilo que financeiros "irritados", os quais de outra forma retirariam os seus fundos, pensassem das suas acções. O sistema de Bretton Woods permitia aos países terem controles de capitais e todos eles tiveram tais controles em vigor.

A segunda era que a contracção de empréstimos pelo Estado para financiar o défice orçamental não estava necessariamente dependente de "sentimentos do mercado". O banco central do país, na sua capacidade de subscritor e administrador da dívida pública, obtinha qualquer porção da dívida pública que não fosse subscrita pelo mercado. Isto significava que o governo tinha liberdade de acção para incidir em défices orçamentais sem se preocupar com o que o "mercado" pensasse acerca da dimensão do seu défice.

A terceira era que a despesa do Estado era comprometida em muitas esferas prescindindo do critério aplicado para julgar a validade de despesas aplicado pelo sector privado. Muitas destas esferas em qualquer caso, tais como educação e saúde, estavam primariamente dentro do domínio público, de modo que mesmo a questão de comparar os desempenhos dos fornecedores de serviço público e privado não se levantava. E a ideia de fornecedores públicos terem de fazer lucros, ou levantar seus próprios recursos, nunca foi acolhida. A liberdade do Estado para gastar sem ser constrangido pelo "mercado" dava-lhe uma certa liberdade de movimento para despender como quisesse.

Todas estas instituições agora desapareceram. Agora a globalização da finança significa que o Estado é constrangido em relação às políticas que segue por medo de perder a "confiança" de "investidores internacionais". E uma vez que tais "investidores", como o capital financeiro, tradicionalmente prefere "finanças sãs", isto é, orçamentos equilibrados, ou no máximo incidindo num pequeno défice orçamental (tipicamente 3 por cento do PIB), a maior parte dos países agora tem legislação de "responsabilidade orçamental" que limita a dimensão do défice. Além disso, a "autonomia" do banco central, não apenas de jure mas de facto, significa que a contracção de empréstimos públicos tem de obedecer a "sentimentos do mercado". Na verdade, em agrupamentos como a Eurozona, o facto de que o próprio banco central está completamente fora do alcance do Estado-nação, reforçou ainda mais esta dependência do Estado em relação aos "sentimentos do mercado" para os seus empréstimos. E com a privatização de serviços, ela própria resultante das restrições à despesa do Estado, fornecedores de serviços públicos agora têm de se defender por si próprios e estão portanto em competição com os privados.

PRISIONEIRO DO MERCADO 

O que tudo isto significa é que o Estado, longe de ser um "observador externo" do mercado, longe de ser uma corporificação da "racionalidade social" que poderia intervir para rectificar o funcionamento do mercado o qual constitui o domínio da "racionalidade privada", como os teóricos económicos liberais da segunda linha haviam imaginado, tornou-se ele próprio um prisioneiro do mercado. Ele foi tão absorvido como participante do mercado ao ponto de a [agência] Moody's ter mesmo degradado a classificação de crédito do Estado americano. Em suma, nos termos da perspectiva liberal o Estado foi incorporado dentro do mercado e já não é mais uma entidade externa que possa impor uma "racionalidade" diferente sobre o sistema.

Se a primeira linha de teorização económica liberal fosse na verdade correcta, isto é, não houvesse necessidade da intervenção do Estado e que o capitalismo operasse de um modo que assegurasse pleno emprego e eficiência, então esta "incorporação do Estado dentro do mercado", ou uma "anexação do Estado pelo mercado" (a qual, de uma perspectiva marxista, é nada mais do que o capital financeiro internacional a pressionar o Estado para que actue exclusivamente de acordo com as suas exigências), não importaria. Mas esta afirmação, a qual é realmente avançada como defesa ideológica da "anexação do Estado pelo mercado" é obviamente absurda. A prolongada crise capitalista que ainda hoje mantém pelo menos 11 por cento da força de trabalho desempregada nos EUA (a posição é pior na Eurozona e no terceiro mundo) testemunha o absurdo da afirmação.

Uma vez que a primeira linha da teoria económica liberal em defesa do capitalismo está errada e uma vez que a segunda linha da mesma é infrutífera, porque não se pode recorrer à intervenção do Estado para rectificar os males do sistema – em que deposita suas esperanças – devido à "incorporação do Estado dentro do mercado", segue-se que hoje não há qualquer argumentação liberal contra o socialismo.

O socialismo certamente tem de actualizar a sua própria teoria; e o movimento socialista ainda tem de ganhar impulso. Mas no ambiente no interior do qual ele tem de cuidar destas tarefas já não existe qualquer oposição teórica crível ao socialismo. 
20/Dezembro/2015

[*] Economista, indiano, ver Wikipedia

O original encontra-se em peoplesdemocracy.in/2015/1220_pd/liberal-defence-capitalism . Tradução de JF. 


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

Caçada XXL de Aglomerados de Galáxias

Caçada XXL de Aglomerados de Galáxias

Observações obtidas com os telescópios do ESO fornecem terceira dimensão crucial para sondar o lado escuro do Universo
Os telescópios do ESO forneceram a uma equipe internacional de astrônomos a terceira dimensão na maior caçada até hoje das maiores estruturas gravitacionalmente ligadas do Universo — os aglomerados de galáxias. Observações obtidas pelo VLT e pelo NTT complementam as capturadas por outros observatórios em todo o mundo e no espaço, no âmbito do rastreio XXL — uma das maiores buscas destes aglomerados. Os aglomerados de galáxias são conjuntos massivos de galáxias que abrigam enormes reservatórios de gás quente — as temperaturas são tão elevadas que se produzem raios X. Estas estruturas são úteis para os astrônomos porque se pensa que a sua construção é influenciada pelas componentes mais estranhas do Universo — a matéria escura e aenergia escura.

Por isso, ao estudar as suas propriedades em diferentes fases da história do Universo, os aglomerados de galáxias podem ajudar-nos a compreender melhor o lado escuro do Universo. A equipe, composta por mais de 100 astrônomos de todo o mundo, começou uma busca destes monstros cósmicos em 2011. Apesar da radiação de raios X de alta energia que revela a sua localização ser absorvida pela atmosfera terrestre, podemos detectá-la com a ajuda de observatórios de raios X colocados no espaço. Assim, combinou-se um rastreio realizado peloXMM-Newton da ESA — executado com a  maior quantidade de tempo de observação já concedido neste telescópio — com observações do ESO e doutros observatórios.

O resultado é uma enorme e crescente coleção de dados que cobre todo o espectro eletromagnético,  coletivamente chamada rastreio XXL. O objetivo principal do rastreio XXL é fornecer uma amostra bem definida de cerca de 500 aglomerados de galáxias até uma distância correspondente a uma idade do Universo de cerca de metade da sua idade atual,”explica a pesquisadora principal do XXL, Marguerite Pierre do CEA, Saclay, França.

O telescópio XMM-Newton fez imagens de duas regiões do céu — cada uma com cem vezes a área da Lua Cheia — numa tentativa de descobrir um grande número de aglomerados de galáxias previamente desconhecidos. A equipe do rastreio XXL divulgou agora os seus resultados numa série de artigos científicos sobre os 100 aglomerados mais brilhantes descobertos. Observações obtidas com o instrumento 
EFOSC2 instalado no New Technology Telescope (NTT), juntamente com observações do instrumento FORS montado no Very Large Telescope do ESO (VLT), foram também utilizadas para analisar de modo cuidado a radiação emitida pelas galáxias destes aglomerados. 

Estas observações permitiram aos astrônomos medir as distâncias precisas aos aglomerados de galáxias, dando-nos assim uma vista tridimensional do cosmos, absolutamente necessária para fazer medições da matéria escura e da energia escura. Espera-se que o rastreio XXL produza muitos resultados excitantes e inesperados, mas apenas com um quinto dos dados que se esperam obter no final, obtiveram-se já alguns resultados importantes e surpreendentes. Um dos artigos científicos relata a descoberta de cinco novos superaglomerados — aglomerados de aglomerados de galáxias — que se juntam àqueles já conhecidos, tais como o nosso próprio superaglomerado, oSuperaglomerado Laniakea.

Outro artigo trata de observações de seguimento obtidas para um aglomerado de galáxias em particular (conhecido pelo nome informal de XLSSC-116), situado a cerca de seis bilhões de anos-luz de distância.  Com o instrumento 
MUSE do VLT observou-se neste aglomerado uma fonte de luz difusa estranhamente brilhante. Esta é a primeira vez que conseguimos estudar com detalhe a radiação difusa de um aglomerado de galáxias distante, pondo assim em evidência o poder do MUSE neste tipo de estudos, explicou o co-autor Christoph Adami do Laboratoire d´Astrophysique, Marseille, França.

A equipe utilizou também os dados para confirmar a ideia de que no passado os aglomerados de galáxias são muito menores que os que observamos atualmente — uma descoberta importante para a compreensão teórica da evolução dos aglomerados ao longo da vida do Universo. O simples ato de contar os aglomerados de galáxias nos dados XXL confirmou também um resultado anterior algo estranho — existem menos aglomerados distantes do que o esperado com base nas predições dos parâmetros cosmológicos medidos pelo telescópio 
Planck da ESA. A razão desta discrepância não é conhecida, no entanto a equipe espera resolver esta curiosidade cosmológica quando tiver acesso à amostra total de aglomerados em 2017. Estes quatro resultados importantes são apenas o preâmbulo do que ainda está para vir deste enorme rastreio de alguns dos mais massivos objetos do Universo.

FonteESO

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Rostilav Ischenko / A "guerra invisível" da diplomacia russa

A "guerra invisível" da diplomacia russa


por Rostilav Ischenko [*]
Como é que a Rússia, em apenas 20 anos, sem guerras nem outras perturbações, pôde passar duma semicolónia para um reconhecido líder mundial, igual entre os mais importantes?

Os "estrategas" de meia tigela, que acreditam seriamente que um grande ataque nuclear é a solução universal para qualquer problema internacional (mesmo o mais escaldante, perto da confrontação militar), sentem-se desanimados pela posição moderada da liderança russa na crise com a Turquia. No entanto, consideram insuficiente a participação direta das tropas russas no conflito sírio. Também se sentem insatisfeitos com as atividades de Moscovo na frente ucraniana. 


No entanto, não se percebe porque é que ninguém faz uma pergunta simples. Como é que aconteceu que, de repente, a Rússia começou a fazer frente ao poder hegemónico mundial e, além disso, ganhou com êxito em todas as frentes?

Porquê agora? 


No final dos anos 90, a Rússia era um estado que, económica e financeiramente, estava ao nível do terceiro mundo. Fervilhava uma rebelião anti-oligarquias no país. Estava a travar uma guerra infindável e sem esperança com os chechenos, que se alargava ao Daguestão. A segurança nacional repousava apenas nas armas nucleares mas, quanto a realizar quaisquer operações a sério, mesmo dentro das suas fronteiras, o exército não tinha nem pessoal bem treinado nem equipamento moderno, a frota não navegava e a aviação não voava.

Claro que todos podem dizer como a indústria, incluindo a militar, foi sendo gradualmente revitalizada, como o crescente nível de vida estabilizou a situação interna, como o exército foi modernizado.

Mas a questão fundamental não é quem mais fez para reconstruir as forças armadas russas: Shoygu, Serdukov, ou o Estado-Maior. A questão fundamental não é quem é melhor economista, Glaziev ou Kudrin, e se teria sido possível atribuir ainda mais recursos às despesas sociais.

O fator chave desconhecido nesta questão é o tempo. Como é que a Rússia teve tempo, porque é que os EUA deram tempo à Rússia para preparar a resistência, para criar músculo económico e militar, para aniquilar o lobby pró-americano financiado pelo Departamento de Estado, na política e nos meios de comunicação? 

Porque é que a confrontação aberta, que agora aparece em Washington, não começou mais cedo, há 10 ou 15 anos, quando a Rússia não tinha possibilidade de resistir às sanções? Na realidade, os EUA, nas décadas de 1990 ou 2000, começaram a instalar regimes fantoches no espaço pós-soviético, incluindo Moscovo, que foi considerado como uma das várias capitais da Rússia desmembrada.

O conservadorismo saudável dos diplomatas 

As condições para os êxitos militares e diplomáticos atuais foram sendo construídas durante décadas na frente invisível (diplomática).

Deve dizer-se que, entre os principais ministérios, o Ministério dos Estrangeiros foi o primeiro a recuperar da confusão administrativa provocada pelo desmembramento do início dos anos 90. Logo em 1996, Evgeny Primakov foi designado ministro dos Estrangeiros e, para além de alterar o plano do governo sobre o Atlântico, depois de ter conhecimento da agressão dos EUA contra a Jugoslávia, inverteu a política externa russa que, depois disso, nunca mais seguiu o curso dos EUA.

Dois anos e meio depois, recomendou Igor Ivanov para seu sucessor, que lentamente (quase impercetivelmente), mas com segurança, continuou a reforçar a diplomacia russa. Foi sucedido em 2004 pelo atual ministro dos Estrangeiros, Sergey Lavrov, sob cuja liderança a diplomacia acumulou recursos suficientes para mudar duma posição de defesa para uma posição de ataque decisivo.

Destes três ministros, só Ivanov recebeu a medalha de Herói da Federação Russa, mas estou convencido de que tanto o seu antecessor como o seu sucessor também mereciam essa distinção.

Deve dizer-se que a cumplicidade de casta e o conservadorismo saudável do corpo diplomático contribuíram para uma rápida recuperação do trabalho do ministro dos Estrangeiros. A lentidão e o tradicionalismo de que os diplomatas são acusados ajudaram muito. O "Kozyrevshchina" [a palavra deriva do nome de Andrei Kozyrev, o ministro dos Estrangeiros em 1990-1996; a palavra significa "agir como Kozyrev", isto é, de modo subserviente contra os seus próprios interesses – NT para inglês) nunca contaminou o Ministério dos Estrangeiros porque não se adequava.

Período de consolidação interna 

Voltemos a 1996. A Rússia está no fundo do poço, economicamente, mas o incumprimento de 1998 ainda está para chegar. Os EUA desprezam totalmente o direito internacional, substituindo-o por ações arbitrárias. A NATO e a União Europeia preparam-se para alterar as fronteiras russas.

A Rússia não tem como reagir. A Rússia (tal como a URSS anteriormente) pode aniquilar qualquer agressão em 20 minutos, mas ninguém pretende pôr isso em prática. Qualquer desvio da linha aprovada por Washington, qualquer tentativa de exercer uma política externa independente levaria ao estrangulamento económico e à subsequente desestabilização interna – naquela época o país vivia com créditos do Ocidente.

A situação complica-se ainda mais pelo facto de que, até 1999, o poder está nas mãos da elite compradora dependente dos EUA (tal como a da atual Ucrânia) e, até 2004-2005, os compradores continuam a lutar pelo poder com a administração patriótica de Putin. A última batalha de retaguarda travada pelos compradores perdedores foi uma tentativa de revolução em 2011, na praça Bolotnaya. O que teria acontecido se eles tivessem feito essa jogada em 2000, quando tinham uma vantagem esmagadora?

Os líderes russos precisavam de tempo para a consolidação interna, para a restauração dos sistemas económicos e financeiros, garantido a sua autonomia e independência do Ocidente e reconstruindo um exército moderno. E, por fim, a Rússia precisava de aliados. 

Os diplomatas tinham uma missão quase impossível. Era necessário, sem se desviarem de questões fundamentais, consolidar a influência da Rússia nos estados pós-soviéticos, aliar-se com outros governos que resistiam aos EUA, fortalecê-los, se possível, tudo isso criando a ilusão em Washington de que a Rússia é fraca e está disposta a concessões estratégicas.

A ilusão da fraqueza da Rússia 

Uma prova de que esta tarefa foi realizada com êxito são os mitos que continuam a viver entre alguns analistas ocidentais e na "oposição" russa pró-americana. Por exemplo, se a Rússia se opõe a qualquer situação de aventureirismo ocidental, está "a fazer 'bluff' para salvar a cara", as elites russas estão totalmente dependentes do Ocidente porque "o dinheiro delas está lá", "a Rússia está a vender os seus aliados".

No entanto, os mitos de "foguetões enferrujados que não voam", "soldados esfomeados que constroem casas de campo para generais", e uma "economia em farrapos" já desapareceram. Só os marginais acreditam neles, não porque sejam incapazes, mas porque têm demasiado medo para reconhecer a realidade.

Estas ilusões de fraqueza e disposição para recuar, que levaram o Ocidente a acreditar que a questão russa estava resolvida e evitaram ataques políticos e económicos a Moscovo, deram à liderança russa um tempo precioso para as reformas.

Naturalmente, o tempo nunca é demais, e a Rússia teria preferido adiar a confrontação direta com os EUA, que começou em 2012-2013, por mais três ou cinco anos, ou mesmo evitá-la de todo, mas a diplomacia ganhou 12 a 15 anos para o país – um enorme período de tempo no atual mundo em rápida transformação. 

A diplomacia russa na Ucrânia 

Para poupar espaço, vou dar apenas um exemplo muito claro, muito relevante na atual situação política.

As pessoas continuam a criticar a Rússia por não contra-atacar os EUA na Ucrânia, de modo suficientemente ativo, por não ter criado uma "quinta coluna" pró-Rússia para contrabalançar a pró-americana, por trabalhar com as elites, em vez de com a população, etc. Vamos avaliar a situação, com base nas capacidades reais, em vez dos desejos.

Apesar de todas as referências à população, é a elite que determina a política do estado. A elite ucraniana, em todas as suas ações, sempre foi e continua a ser anti-russa. A diferença é que a elite ideologicamente nacionalista (que se está a tornar nazi) era abertamente russofóbica, enquanto que a elite económica (compradora, oligárquica) era simplesmente pró-ocidental, mas não levantava problemas às ligações lucrativas com a Rússia.

Gostava de relembrar que não eram outros senão os representantes do Partido das Regiões, supostamente pró-russo, quem se gabava de não permitirem negócios russos na bacia do Donets. Também foram eles que tentaram convencer o mundo de que eram melhores para a integração no Euro do que os nacionalistas.

O regime de Yanukovich-Azarov precipitou a confrontação económica com a Rússia em 2013, exigindo que, apesar da assinatura do tratado de associação com a União Europeia, a Rússia retivesse e até reforçasse o regime favorável com a Ucrânia. Afinal, Yanukovich e os seus comparsas do Partido das Regiões, embora tivessem poder absoluto (2010-2013), apoiaram os nazis, financeira, informativa e politicamente. Elevaram-nos do seu nicho marginal à política dominante a fim de terem um adversário conveniente nas eleições presidenciais em 2015, enquanto suprimiam qualquer atividade informativa pró-russa (para não falar da política). 

O Partido Comunista Ucraniano, embora mantendo a retórica pró-russa, nunca visou o poder e desempenhou um papel de conveniente oposição leal, apoiando indiretamente os oligarcas, canalizando a atividade de protesto em espaços seguros para quaisquer poderes (inclusive os atuais).

Nestas condições, qualquer tentativa russa de trabalhar com as ONGs ou criar meios de comunicação pró-russos seria considerada uma ingerência nos direitos dos oligarcas ucranianos para se apoderarem do país, o que provocaria uma maior fuga do oficialato ucraniano para o Ocidente, vista por Kiev como um contrabalanço em relação à Rússia. Os EUA, muito naturalmente, veriam isso como uma transição da Rússia para um confronto direto e apoiariam as elites pró-ocidentais em todo o espaço pós-soviético.

Nem em 2000, nem em 2004, a Rússia estava preparada para um confronto aberto com os EUA. Mesmo quando isso aconteceu em 2013 (e não foi por opção de Moscovo), a Rússia precisou de quase dois anos para mobilizar os seus recursos a fim de dar uma forte resposta na Síria. A elite síria, em contraste com a ucraniana, desde o início (em 2011-2012) rejeitou a opção de comprometimento com o Ocidente.

Foi por isso que, durante 12 anos (desde a ação "a Ucrânia sem Kuchma", que foi a primeira tentativa sem êxito dum golpe pró-americano na Ucrânia), a diplomacia russa trabalhou em duas tarefas essenciais.

A primeira foi manter a situação na Ucrânia num equilíbrio instável; a segunda, convencer a elite ucraniana de que o Ocidente era um perigo para o seu bem-estar, enquanto a reorientação para a Rússia era a única forma de estabilizar a situação e salvar o país e a posição da própria elite. 

A primeira tarefa foi realizada com êxito. Os EUA só em 2013 conseguiram alterar a Ucrânia do modo multidirecional para o modo de ariete anti-russo, depois de terem gasto imenso tempo e recursos e de terem arranjado um regime com enormes contradições internas, incapaz de existir independentemente (sem um crescente apoio americano). Em vez de usarem os recursos ucranianos, os EUA foram forçados a gastar os seus próprios recursos para prolongar a agonia do Estado ucraniano, destruído pelo golpe.

A segunda tarefa não foi realizada devido a razões objetivas (independentes dos esforços russos). A elite ucraniana revelou-se totalmente inadequada, incapaz de raciocínio estratégico, de avaliação dos riscos e vantagens reais e a viver sob a influência de dois mitos.

Primeiro – o Ocidente ganharia qualquer confrontação com a Rússia e partilharia o espólio com a Ucrânia. Segundo – não era necessário nenhum esforço, exceto a inabalável posição anti-russa, para uma existência confortável (à custa do financiamento ocidental). Numa situação de escolha entre uma orientação para a Rússia e para a sobrevivência, ou de alinhamento com o Ocidente e com a morte, a elite ucraniana escolheu a morte.

No entanto, mesmo perante a opção negativa da elite ucraniana, a diplomacia russa conseguiu obter a máxima vantagem. A Rússia não se deixou afundar numa confrontação com o regime ucraniano, forçando Kiev e o Ocidente a um cansativo processo de negociação nos bastidores duma moderada guerra civil e excluindo os EUA do formato Minsk. Concentrando-se nas contradições entre Washington e a União Europeia, a Rússia conseguiu sobrecarregar financeiramente o Ocidente com a Ucrânia.

Em consequência, a posição inicialmente consolidada de Washington e Bruxelas desintegrou-se. Contando com uma guerra relâmpago político-diplomática, os políticos europeus não estavam preparados para uma confrontação prolongada. A economia da União Europeia não podia sustentá-la. Por seu turno, os EUA não estavam preparados para aceitar exclusivamente Kiev na sua folha de pagamentos. 

Hoje, após um ano e meio de esforços, a "velha Europa", que determina a posição da União Europeia, como a Alemanha e a França, abandonou totalmente a Ucrânia e está a procurar uma forma de estender a mão à Rússia, passando por cima dos países limítrofes pró-americanos (Polónia e bálticos) da Europa de Leste. Até Varsóvia, que costumava ser o principal "defensor" de Kiev na União Europeia, aponta abertamente (embora semioficialmente) para a possibilidade de dividir a Ucrânia, depois de ter perdido a fé na capacidade das autoridades de Kiev para controlar todo o país.

Na comunidade política e de peritos ucranianos cresce a histeria sobre "a traição da Europa". O oligarca Sergey Taruta, antigo governador da região de Donets (nomeado pelo regime nazi), afirma que o seu país só dura oito meses. O oligarca Dmitry Firtash (que tinha a reputação do "fazedor de reis" ucraniano) prevê a desintegração já na próxima primavera.

Tudo isto, calma e impercetivelmente, sem utilização de tanques e de aviação estratégica, foi conseguido pela diplomacia russa. Conseguido numa dura confrontação com o bloco dos países mais poderosos, militar e economicamente, partindo duma posição muito mais fraca e com os aliados mais peculiares, alguns dos quais não muito satisfeitos com o crescente poder russo.

Reviravolta no Médio Oriente 

Em paralelo, a Rússia conseguiu regressar ao Médio Oriente, manter e desenvolver a integração no espaço pós-soviético (União Económica Eurasiática), juntamente com a China alargar um projeto de integração eurasiático (Organização de Cooperação de Xangai) e iniciar, via BRICS, um projeto de integração global.

Infelizmente, o espaço limitado não me permite analisar em pormenor todas as ações estratégicas da diplomacia russa, nos últimos 20 anos (desde Primakov até ao dia de hoje). Um estudo abrangente ocuparia muitos volumes.

No entanto, quem quiser tentar responder honestamente a como a Rússia conseguiu, num prazo de 20 anos, sem guerras nem revoluções, passar do estado de uma semicolónia para o estado de líder mundial reconhecido, terá que notar as contribuições de muita gente da Praça Smolenska (onde se situa o Ministério dos Estrangeiros – NT). Os seus esforços não toleram espalhafato nem publicidade, mas sem sangue e sem vítimas colhem resultados comparáveis aos conseguidos por exércitos de muitos milhões, durante muitos anos. 
10/dezembro/2015

Ver também: 
  • Scènes de bagarre au couteau entre oligarques ukrainiens (Cenas de briga a facada entre oligarcas ucranianos)

    [*] Analista do Russia Today. 

    O original (em russo) encontra-se em oko-planet.su/... e a tradução em inglês emwww.globalresearch.ca/... . Tradução de Margarida Ferreira. 


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
  • Lua do Alabama / Quão influentes são as Spies turcos no território do Estado islâmico?

    20 de dezembro de 2015

    Quão influentes são as Spies turcos no território do Estado islâmico?

    Hoje Zaman é um diário turco e parte da organização Gülen. Como tal, está atualmente na oposição ao presidente turco Erdogan e algumas das suas políticas. Então, tomeesta com um grão de sal:
    Durante as reuniões entre funcionários turcos e Barzani em Ancara, Barzani falou sobre os 150 ISIL militantes de origem turca que haviam sido capturados por forças curdas Peshmerga durante confrontos com ISIL.Segundo fontes, Barzani disse que alguns membros ISIL capturado pelo peshmerga haviam se identificado como membros do MIT e ele pediu que o MIT cabeça Fidan esclarecer a questão.Barzani também buscou ajuda de Ankara para remover 500 cidadãos turcos em Mosul que estão em posições de liderança em ISIL.
    O MIT é o serviço secreto turco. Certamente não é a única organização de espionagem whicht se infiltrou o Estado Islâmico. Mas a Turquia tem sido a base de retaguarda e rota de viagem para o Estado islâmico e os seus membros o MIT é provável que o serviço com o maior contingente.
    Como qualquer espiões e / ou operadores é que tem dentro das estruturas do Estado islâmico? Ainda mais importante - como são estes influente dentro das hierarquias do Estado islâmico?
    As organizações curdas na Turquia acreditam que os dois grandes ataques Estado islâmico em comícios em sua maioria curdos, em Suruc e em Ancara, destinavam-se a apoiar a reeleição de Erdogan. MIT agentes influentes dentro do Estado islâmico teria sido fazer parte dessas conspirações.
    A última peça por Seymour Hersh, apenas para fora,também aborda a Turquia - cooperação Estado Islâmico:
    [Em janeiro de 2014] a inteligência americana tinha acumulado interceptar e inteligência humana demonstrando que o governo Erdoğan tinha vindo a apoiar Jabhat al-Nusra há anos, e agora estava fazendo o mesmo para Estado islâmico. "Podemos lidar com os sauditas", disse o assessor. "Podemos lidar com a Irmandade Muçulmana. Você pode argumentar que todo o equilíbrio no Oriente Médio é baseado em uma forma de destruição mutuamente assegurada entre Israel e no resto do Oriente Médio e Turquia pode perturbar o equilíbrio - que é o sonho de Erdoğan. Dissemos a ele que queria que ele encerre o gasoduto de jihadistas estrangeiros fluem para a Turquia. Mas ele está sonhando grande - de restaurar o Império Otomano - e ele não percebeu a medida em que ele poderia ser bem sucedido neste '.

    sábado, 19 de dezembro de 2015

    Valentin Katasonov / O colapso da ordem financeira global começa dia 21

    O colapso da ordem financeira global começa dia 21

    – O fim do caos administrável e o início daquele não-administrável
    – O dia 21/Dez promete ser o mais vergonhoso da história do FMI
    – A morte do FMI pode vir a seguir


    por Valentin Katasonov [*]
    O mundo está a entrar numa fase caótica. Recentemente tem havido afirmações de que os EUA começaram a criar globalmente um "caos administrável". Mas os acontecimentos no Médio Oriente afastaram a ilusão de que o instigador deste caos seja capaz de administrá-lo. E o caos não administrávelpode muito em breve surpreender o mundo da finança internacional. Os EUA são mais uma vez culpados de terem liderado o caos financeiro não administrável e os US$3 mil milhões da dívida da Ucrânia à Rússia servirão como detonador do processo.

    Não é coincidência que os problemas estejam a agravar-se quanto àquela dívida. Washington está deliberadamente a explorar esta dívida a fim de tentar infligir dano à Rússia. A destruição final da ordem financeira global que foi estabelecida durante a conferência internacional de Bretton Woods em 1944 poderia acabar por ser um dano colateral desta política anti-russa.

    Os EUA conceberam o sistema monetário de Bretton Woods, a seguir infligiram-lhe o dano inicial durante a década de 1970 quando Washington cessou de trocar dólares por ouro. O ouro foi desmonetizado, o mundo transitou para o papel-moeda e as taxas de câmbio fixas foram eliminadas. Os mercados financeiros, bem como a especulação financeira, começaram a expandir-se a um ritmo frenético, o que reduziu significativamente a estabilidade da economia global e da finança internacional. O caos financeiro já estava à mão, mas naquele tempo ainda a um nível administrável. O Fundo Monetário Internacional, criado em Dezembro de 1945, continuava a ser a ferramenta para administrar a finança internacional.

    Mas hoje somos testemunhas oculares da destruição do FMI, a qual ameaça ampliar a instabilidade da finança global em meio ao caos financeiro global. O papel do FMI na manutenção da relativa ordem financeira no mundo consistia não só em emitir empréstimos e créditos para países específicos com também no facto de que actuava como a autoridade final, escrevendo as regras do jogo para mercados financeiros globais. Depois de os Estados Unidos – o principal accionista do FMI (controlando aproximadamente 17% do poder de voto dentro do fundo) – arrastarem o Fundo para os jogos que fazia na Ucrânia, aquela instituição financeira internacional foi forçada a romper as próprias regras que havia desenvolvido e aperfeiçoado ao longo de décadas. As recentes decisões do Fundo criaram um precedente para um jogo sem regras e é quase impossível calcular as suas consequências para a finança internacional.

    Poroshenko e a sua protectora Lagarde.A mais recente decisão deste tipo foi emitidaem 8 de Dezembro. Ela foi cronometrada de modo a corresponder com a data de maturidade final da dívida de US$3 mil milhões da Ucrânia à Rússia – 20 de Dezembro. Mas se Kiev falhar no reembolso do que deve, isto quase automaticamente levará a um incumprimento soberano em plena escala e portanto o FMI, de acordo com as regras que foram estabelecidas quase desde o nascimento do Fundo, não mais terá o direito de fazer empréstimos à Ucrânia. A fim de continuar a transferir fundos do empréstimo do FMI à Ucrânia (em Abril de 2015 fora assinado um acordo para o empréstimo de US$17,5 mil milhões), Washington ordenou ao Fundo que reescrevesse as regras de modo a que mesmo se Kiev incumprir o que deve a Moscovo o FMI ainda possa emprestar dinheiro à Ucrânia. O Fundo – sempre submisso – acatou esta ordem de comando aparentemente não acatável.

    Aleksei Mozhin, o director do FMI para a Federação Russa, informou que em 8 de Dezembro o Conselho de Administração do Fundo aprovou reformas que permitiriam emprestar a devedores mesmo no caso de um incumprimento de dívida soberana. Toda a gente sabe perfeitamente bem que o Fundo tomou uma decisão tão extraordinária a fim especificamente de sustentar o regime moribundo em Kiev e alfinetar a Rússia. Falando a repórteres, o ministro das Finanças russo, Anton Siluanov, declarou : "A decisão de mudar as regras parece apressada e enviesada. Isto foi feito unicamente para prejudicar a Rússia e legitimar a possibilidade de Kiev não pagar suas dívidas".

    Tem havido poucas decisões de natureza tão radical na história do FMI. Em 1989, por exemplo, o fundo ganhou o direito de fazer empréstimos a países mesmo que os receptores daqueles fundos não houvesse pago dívidas a bancos comerciais. E em 1998 foi permitido ao Fundo emprestar a países com passivos pendentes sobre títulos soberanos mantidos por investidores privados. Contudo, o reembolso de dívidas de credores soberanos sempre foi um dever sagrado para os clientes do FMI. Os credores soberanos são os salvadores de último recurso, os que vêm em ajuda de estados que são deixados de lado por prestamistas e investidores privados.

    Sob as regras do FMI, passivos de um estado para com um credor soberano (isto é, um outro estado) são simplesmente tão "sagradas" quanto passivos para com o próprio Fundo. Isto é, por assim dizer, uma pedra angular da finança internacional. E aqui vemos como, numa reunião ordinária do Conselho de Administração do FMI, esta pedra angular foi precipitadamente retirada do edifício da finança internacional. O ministro das Finanças russo, Anton Siluanova, chamou atenção particular a este aspecto da decisão do Conselho de Administração: "As regras para financiar os programas do Fundo existiram durante décadas e não mudaram. Credores soberanos sempre tiveram prioridade sobre credores comerciais. As regras enfatizavam o papel especial de credores oficiais, o que é especialmente importante em tempos de crise, quando prestamistas comerciais deixam países de lado, privando-os do acesso a recursos".

    '.A postura submissa do Fundo e a audácia do seu principal accionista (os EUA) pode ser vista no modo como a decisão de 8 de Dezembro foi rapidamente carimbada, ao passo que durante cinco anos Washington bloqueou esforços para reformar o Fundo (rever as quotas dos estados membros e duplicar o capital do Fundo). De acordo com Siluanov, dada a decisão de 8 de Dezembro do Conselho de Administração do FMI, "a relutância dos EUA para tratar a questão da ratificação do acordo para reforçar o capital do FMI parece particularmente chocante, especialmente quando o capital seria muito útil para resolver problemas de dívida da Ucrânia".

    Em 10 de Dezembro foi publicado um relatório de 34 páginas contendo pormenores da reforma que fora aprovada em 8 de Dezembro pelo Conselho de Administração do FMI. De acordo com esse documento, algumas daquelas mudanças aplicam-se à dívida para com credores soberanos que não é coberta pelos acordos do Clube de Paris . Contudo, um país devedor deve cumprir um certo número de condições a fim de manter o seu acesso a fundos do FMI, incluindo "fazer esforços de boa fé" para reestruturar sua dívida.

    A referência a "esforços de boa fé" levanta um ponto muito interessante. Até agora Kiev não fez de todo quaisquer esforços enquanto estado devedor. As declarações do primeiro-ministro ucraniano Arseniy Yatsenyuk não contam. Estas não foram tentativas como "esforços de boa fé" mas, ao invés, ultimatos feitos à Rússia, um credor soberano: por outras palavras, ou você se associa a conversações de reestruturação que estamos a efectuar com nossos credores privados ou então não lhes pagaremos nada. Também é típico que estas declarações não tenham sido feitas através dos canais oficiais de correspondência mas sim apresentadas verbalmente na televisão. Encontrei uma declaração de Yatsenyuk particularmente comovente, quando afirmava que não recebera quaisquer propostas formais respeitantes à dívida da Ucrânia.

    Isto é algo novo nas relações intergovernamentais em geral e nas relações internacionais monetárias e de crédito em particular. Quase desde o nascimento do FMI existiu a regra (e ainda existe) segundo a qual: a) qualquer iniciativa para alterar os termos originais de um empréstimo deve vir do devedor, não do credor; e b) aquela iniciativa (pedido) deve ser emitida por escrito e enviada ao credor através de canais oficiais.

    Se o sr. Yatsenyuk está inconsciente destas regras, talvez os responsáveis do FMI pudessem explicar-lhe. Contudo, nada disto foi feito.

    Vamos retornar à decisão de 8 de Dezembro. Quer Kiev queira ou não, se é para continuar a obter crédito através do Fundo a Ucrânia deve pelo menos mostrar evidência de uma tentativa de negociar com o seu credor, isto é, com Moscovo. Ela deve apresentar evidência de "um esforço de boa fé", por assim dizer. E no que deveria consistir esta evidência? Ela deve ter pelo menos três passos: a) um pedido formal para começar conversações para rever os termos do empréstimo deve ser minutado e enviado ao credor; b) o devedor deve receber uma resposta oficial do prestamista; e c) se o credor concordar, devem ser efectuadas negociações para rever os termos.

    Naturalmente as negociações de Kiev com os seus credores privados quanto à reestruturação da sua dívida começaram quase imediatamente depois de ter sido assinado o mais recente acordo de empréstimo do FMI, isto é, elas perduraram de Março de 2015 até o fim de Agosto de 2015. O processo de negociação perdurou até Outubro, o que significa que a reestruturação da dívida arrastou-se durante seis meses.

    Não esquecer que o prazo final para reembolsar a dívida à Rússia (20/Dez) cai num domingo. Resta muito pouco tempo a Kiev para demonstrar "um esforço de boa fé" e mesmo na melhor das hipóteses possivelmente não poderia efectuar mais do que os primeiros dois dos três passos que listei. Já não há tempo para o terceiro passo e o mais importante.

    Será muito interessante ouvir o que o FMI tem a dizer na segunda-feira, 21/Dez. Será ele capaz de descobrir evidência de "esforços de boa fé" de Kiev? Ou esperará por uma sugestão do seu principal accionista? Embora aquele accionista principal não seja famoso pelo seu refinamento mental, ele compensa a sua estupidez com o descaramento absoluto.

    A dualidade merkeliana.O dia 21/Dez promete ser o mais vergonhoso da história do FMI e poderia ser seguido pela morte desta instituição financeira internacional. Infelizmente, o FMI ainda seria capaz de explodir o sistema financeiro global antes da sua própria morte, utilizando a dívida da Ucrânia à Rússia como detonador. Naturalmente, é Washington que está realmente a jogar o jogo – o Fundo é meramente um brinquedo nas suas mãos. Mas por que Washington desejaria que isto acontecesse? Falando termos estritos, nem sequer é Washington que quer isto, mas os "mestres do dinheiro" (os accionistas principais do Federal Reserve) e todos os responsáveis conectados com a Casa Branca, o Departamento do Tesouro e outras agências do governo que estão na sua folha de pagamento. Os mestres do dinheiro têm sido forçados a defender o enfraquecimento do dólar utilizando ferramentas bem provadas – a criação do caos fora das fronteiras da América. Qualquer espécie de caos funcionará – político, militar, económico ou financeiro.

    Após a decisão de 08/Dez/2015 do Conselho de Administração do FMI, a qual foi tomada a fim de sustentar o regime em bancarrota de Kiev e unicamente com o propósito de prejudicar a Rússia, alguns peritos financeiros exprimiram cautelosamente a opinião de que em breve haverá pouca razão para a Rússia permanecer no FMI. Só posso endossar esta posição, embora a retirada da Rússia do FMI fosse uma pré-condição necessária mas insuficiente para reforçar a soberania russa. A Rússia ainda deve criar uma defesa confiável contra o caos financeiro global, o qual, depois de 21/Dez, rapidamente se tornará não administrável. 
    17/Dezembro/2015

    Ver também: 
  • IMF Dithers as Ukraine Defaults on Russia Loan

    [*] Professor, membro associado da Academia Russa de Ciência Económica e Negócios.

    O original encontra-se em www.strategic-culture.org/... . Tradução de JF. 


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
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