sábado, 25 de janeiro de 2014

O discurso da Síria em Genebra 2



Share Button
Discurso do vice-primeiro-ministro da Síria e ministro do Exterior e Expatriados, Walid al-Moallem, à ‘Conferência Genebra-2’, em Montreux, Suíça – publicado na Agência SANA – Tradução final Vila Vudu.
Senhoras e Senhores,
Falo-lhes em nome da República Árabe Síria, REPÚBLICA – estado civil que alguns, aqui nessa sala, tentaram empurrar de volta à idade média; ÁRABE – orgulhosa da sua firme e constante herança panárabe, apesar dos deliberados atos de agressão de supostos fraternais amigos árabes; e SÍRIA, com história de mais de sete mil anos.
Nunca estive em posição mais difícil; minha delegação e eu trazemos o peso de três anos de privações e dificuldades que meus companheiros e patrícios enfrentamos – o sangue dos nossos mártires, as lágrimas dos nossos enlutados, a angústia das famílias à espera de notícias dos entes queridos – sequestrados ou desaparecidos, o choro das nossas crianças nas salas de aula, crianças cuja doçura foi alvo de bombardeamentos mortais, a esperança de uma geração inteira destruída ante nossos olhos, a coragem dos pais que mandaram todos os filhos para defender o nosso país, a tristeza profunda das famílias cujos lares foram destruídos e agora vagam, dispersadas, como refugiados.
Minha delegação e eu trazemos a esperança da nossa nação para os anos vindouros – o direito de cada criança de novamente ir em segurança à escola, o direito da mulher de sair de casa sem medo de ser sequestrada, violentada ou morta; o sonho da nossa juventude de realizar seu vasto potencial; esperança de que a segurança volte a existir, os homens sabendo que podem deixar em segurança a família, certa de que o pai voltará vivo para casa no fim do dia.
Afinal, hoje é a hora da verdade que tantos tentaram sistematicamente enterrar por baixo de campanhas de desinformação, de mentiras e de intrigas, que levaram às matanças e ao terror. Essa verdade que não se deixa enterrar, apresenta-se aqui claramente para que todos a vejam. Somos representantes da República Árabe Síria. Representamos o povo sírio, o estado sírio, o governo da Síria, o estado, o exército da Síria e o presidente da Síria, Bashar al-Assad.
Senhoras e Senhores,
é deplorável que aqui nessa sala, conosco, estejam representantes de países que têm as mãos marcadas com sangue sírio, países que exportaram o terrorismo – além do perdão para os terroristas que perpetram atos de terror – como se Deus lhes tivesse dado o direito de decidir quem vai para o céu e quem vai para o inferno. Países que impediram crentes fiéis de visitarem seus templos de culto. Países que financiam e apoiam terroristas.
Países que se auto-outorgaram, eles mesmos, a autoridade para conceder ou negar a outros qualquer legitimidade, do modo como melhor lhes conviesse, sem olhar os próprios velhos telhados de vidro, antes de se porem a jogar pedras contra torres fortificadas.
Países que desavergonhadamente se apresentam para nos ensinar o que é a democracia em progresso e em desenvolvimento, ao mesmo tempo em que, em suas próprias terras, chafurdam na ignorância e em suas regras e normas medievais retrógradas.
Países que se acostumaram a ser possuídos, mandados, por reis e príncipes com o direito soberano de distribuir a riqueza nacional só entre seus parentes e sócios, negando qualquer direito aos que não se deixem prender na rede de favores oficiais.
E esses países quiseram ensinar à Síria, estado virtuoso e soberano, o que aqueles países suponham que seja a honra. E enquanto eles mesmos submergem na lama da escravidão, do infanticídio e de outras práticas medievais. Depois de todos seus esforços e fracassos subsequentes, as máscaras caíram-lhes da cara, e deixaram ver suas ambições perversas: queriam desestabilizar e destruir a Síria, pela exportação do principal produto que exportam: o terrorismo. Usaram seus petrodólares para comprar armas, recrutar mercenários e para saturar o ar com notícias que encobrissem a própria brutalidade insensata deles.
Mentiram e disfarçaram as suas próprias mentiras sob o slogan de que a ‘revolução’ deles seria “Revolução Síria que iria satisfazer as aspirações do povo sírio.”
Senhoras e senhores,
Como poderia alguém supor que o que aconteceu e continua a acontecer e a atormentar a Síria satisfaria algum dia alguma aspiração do povo sírio?!
Como poderia alguém supor que terroristas chechenos, afegãos, sauditas, turcos ou, mesmo, franceses ou ingleses, satisfariam algum dia alguma aspiração do povo sírio? E para oferecer o quê, ao povo sírio? Um estado islamista que se orienta pelo mais pervertido wahhabismo? E quem algum dia disse a eles que o povo sírio teria alguma aspiração a regredir muitos mil anos, de volta ao atraso, rumo ao passado? (…)
Mas, em nome dessa ‘revolução’ deles, crianças são mortas nas escolas; estudantes, nas universidades; mulheres são ofendidas e extorquidas nessa “jihad al-nikah”[1] e por outras formas, mesquitas são bombardeadas nos momentos em que estão mais cheias de fiéis que fazem suas orações, queimam-se pessoas vivas, num verdadeiro holocausto que muitos países negarão, sem serem acusados de preconceito contra judeus.
Em nome de uma revolução “para salvar o povo oprimido da Síria do seu regime e para difundir a democracia,”  iria um chefe de família fazer explodir a si mesmo, sua mulher e seus filhos para impedir que intrusos estrangeiros entrassem em suas casas? A maioria de nós nessa sala somos pais. Pergunto-lhes então: o que compeliria um homem a matar a própria família para protegê-la desses monstros terroristas, chamados ‘combatentes da liberdade’? E isso, precisamente, aconteceu em Adra, lugar do qual a maioria dos senhores nunca ouviram falar, mas onde esses mesmos monstros estrangeiros foram ao ataque: mataram, saquearam, decapitaram, massacraram e incendiaram pessoas vivas. Certamente os senhores nada ouviram a respeito dessa brutalidade. Mas podem ter ouvido de outras localidades onde o mesmo tipo de crimes atrozes foram cometidos pelos terroristas, que agora apontam os dedos ainda ensanguentados contra o Exército Sírio e o governo. Foi só depois de essas mentiras flagrantes já não obterem nenhum crédito, que eles pararam de construir essa sua teia de impostura, mentiras, enganações.
Os terroristas fizeram o que seus patrões os mandaram fazer, esses países que lançaram a guerra contra a Síria, tentando aumentar sua influência na região com subornos e dinheiro, exportando monstros humanos completamente embriagados da abominável ideologia wahhabista e ao preço do sangue da Síria.
Dessa tribuna, digo em voz alta e claramente que os senhores, como eu, sabemos que eles não pararão depois da Síria, ainda que alguns nessa sala recusem-se a aceitar que assim é, porque se consideram, eles mesmos, imunes.
Senhoras e senhores,
Tudo o que até aqui lhes disse nunca teria acontecido, não seria possível, se os países que têm fronteira conosco tivessem sido bons vizinhos ao longo desses anos desafiadores. Infelizmente, ficaram muito longe disso; nos atacaram com facas pelas costas, vindos do norte; como espectadores inertes e silenciosos quanto à verdade, vindos do oeste; um sul fraco, acostumado a fazer os jogos de outros; ou o exaurido e esgotado leste, ainda cambaleante por causa das maquinações que visam também a destruí-lo junto com a Síria.
Realmente, o que se tem é que a miséria e a destruição que invadiram a Síria e querem fazê-la afundar só foram possíveis dada a decisão do governo de Erdogan, de convidar e acomodar esses terroristas criminosos, antes de eles entrarem na Síria. Claro que, já tendo esquecido de que o feitiço pode, no final, virar-se contra o feiticeiro, o governo Erdogan já está conhecendo a amargura de colher o que foi plantado.
Porque o terrorismo não reconhece nenhuma religião. O terrorismo só é leal ao próprio terrorismo. E o governo de Erdogan, imprudente e temerário, mudou, de política de zero problemas com vizinhos, para política de zero política exterior, de zero diplomacia, que, crucialmente, gerou zero credibilidade.
Mas continuou-se pelo mesmo caminho atroz e falso, acreditando-se que os sonhos de Sayyid Qutb e, antes dele, de Mohammad Abdel Wahab, estariam afinal se realizando. Causaram estragos, pilharam e saquearam. Partindo da Tunísia, até a  Líbia, o Egito e a Síria, determinados a realizar uma ilusão só existente em suas mentes. Agora, apesar de ter-se comprovado que isso levaria ao fracasso, continuam determinados a perseguir o sonho.
Não se entende isso tudo, em termos lógicos, se não como estupidez, porque, se não se aprende pela história, perde-se a capacidade de compreender o presente. A história ensina que, se a casa do seu vizinho estiver em fogo, você está em perigo e não conseguirá manter-se ao abrigo, fora de perigo.
Alguns vizinhos começaram a incendiar a Síria, enquanto outros recrutavam terroristas ao redor do globo. Nisso, somos confrontados com uma chocante farsa de padrões dúbios e duplos.
Em luta, dentro da Síria, há agentes armados de 83 nacionalidades. Ninguém denuncia essa aberração, praticamente ninguém a condena, praticamente ninguém dá sinais de qualquer interesse em reconsiderar as próprias posições iniciais. E a isso chamam ainda, impertinentemente, de Revolução Síria! Porém, quando uns poucos jovens da frente de combate da Resistência passaram a apoiar o Exército Sírio, em algumas poucas localidades, então… foi como se as portas do inferno se abrissem de par a par. Isso, e a ajuda ao governo oficial, foi visto como intervenção estrangeira!
Exigiu-se em seguida a saída de tropas estrangeiras, a proteção da soberania da Síria, que não pode ser violada.
Aqui, senhores, declaro que a Síria – estado soberano e independente – vai continuar a fazer o que for necessário para defender-se, com quaisquer meios que conclua e decida que sejam necessários, sem dar nenhuma atenção a tumultos, denúncias, enunciados ou posições expressas por partes não qualificadas para manifestar-se. São decisões soberanas, como outras foram e outras serão, decisões soberanas que cabe à Síria tomar e que a Síria tomará.
Apesar de todas as dificuldades, o povo sírio continuou firme. Vieram então as sanções alimentares, cortaram a comida dos sírios, o pão e o leite das nossas crianças. A população está à míngua, há doença e morte, por causa da injustiça dessas sanções. Ao mesmo tempo fábricas, pilham-se e incendeiam-se fábricas, pilhagens e incêndios que agridem, principalmente as fábricas de alimento e de remédios; hospitais e centros de saúde são destruídos; linhas ferroviárias e de eletricidade são sabotadas em toda a Síria; e nem os nossos templos religiosos – dos cristãos e os islâmicos – salvam-se da fúria terrorista.
Quando tudo aquilo fracassou, os EUA então ameaçaram bombardear a Síria.
Fabricaram, com os seus aliados ocidentais e árabes, aquela história do uso de armas químicas, história com a qual não conseguiram convencer sequer o seu público interno; muito menos, é claro, convenceram o público sírio.
Países que tanto celebram a democracia, a liberdade e os direitos humanos, só falam, de fato, a linguagem da violência bruta, do sangue, da guerra, do colonialismo e da dominação.
Democracia, mas imposta sob fogo; liberdade, mas imposta com aviões de guerra; direitos humanos, implantados mediante massacres e matanças; porque estão habituados a viver num mundo que obedece suas ordens e atente seus desejos: se querem, a coisa acontece; se não querem, não acontecerá.
Assim, rapidamente esqueceram que os criminosos que atacaram em New York repetem e obedecem a mesma doutrina e vêm da mesma fonte, que os criminosos que agora se autoexplodem na Síria. Temerária, descuidadamente, esquecem que se trata do mesmo tipo de terroristas que ontem estavam ativos nos Estados Unidos; e que hoje estão ativos na Síria. Quem pode saber onde estarão ativos amanhã?
Absolutamente certo, porém, é que nada disso termina aqui. O Afeganistão seria boa lição para quem quisesse aprender – qualquer um! Infelizmente, a maioria não quer aprender; nem os Estados Unidos, nem nenhum dos países ocidentais ditos ‘civilizados’ que seguem a mesma orientação, a começar por Paris, “Cidade Luz”, e indo até o reino inglês, onde “o sol jamais de põe” – ninguém aprendeu do passado. Apesar de todos esses países conhecerem o gosto amargo do terrorismo.
Depois então, na sequência, converteram-se todos em “Amigos da Síria.” Quatro desses “amigos” são autocráticos, monarquias opressivas que nada sabem de estado civil ou de democracia; e os demais são os mesmos poderes coloniais que ocuparam, pilharam, e dividiram a Síria, há menos de cem anos passados.
Esses chamados “amigos” agora se põem a convocar ‘conferências’ para, publicamente, declarar sua amizade com o povo da Síria. Ao mesmo tempo, encobertamente continuam a agir para aumentar as privações pelas quais passa o povo sírio e destruindo nossos meios de vida. Esses chamados ‘amigos’ abertamente se declaram escandalizados com a difícil situação humanitária dos sírios; ao mesmo tempo, cuidam de enganar a comunidade internacional, ocultando todas as pegadas da cumplicidade daqueles ‘amigos’, no que acontece de ruim à Síria.
Se estivessem realmente preocupados com a situação humanitária da Síria, bastaria que removessem as sanções e os embargos, que são os nós que estrangulam a economia síria; e se associariam ao governo sírio, na luta contra o influxo de armas e de terroristas. Façam isso, e podemos garantir que voltaremos a viver tão bem como vivíamos antes, e aqueles ‘amigos’ ficarão livres de tantas e tão profundas preocupações com o nosso bem-estar.
Alguns dos senhores talvez se estejam perguntando: todos os fabricantes do que hoje se passa na Síria são estrangeiros? Não, senhoras e senhores.
Os sírios que temos aqui entre nós, depois de terem sido pseudo-legitimados por agendas estrangeiras, tiveram importante papel como facilitadores e realizadores do que hoje se vê na Síria. O que fizeram foi feito à custa de sangue sírio e de aspirações do povo que dizem representar. Eles mesmos divergiram entre eles, dividiram-se inúmeras vezes entre eles; e, no campo de batalha, os ‘líderes’ deles dispersaram-se, em fuga. Venderam-se a Israel, transformando-se, aqueles sírios, em olhos e gatilhos israelenses, para destruir a Síria. Quando afinal aqueles prepostos falharam, Israel então interveio diretamente para reduzir a capacidade do Exército da Síria; assim Israel tentava garantir a continuada realização de seus planos, já preparados há décadas, contra a Síria.
Enquanto o povo sírio estava sendo massacrado, aqueles sírios exilados viviam em hotéis de luxo. Toda a ‘oposição’ que fizeram ao governo sírio sempre foi feita de bem longe, de terra estrangeira. Ali se reuniram para trair a Síria e vender, por bom preço, a estrangeiros as mais mirabolantes ideias e propostas. Ainda agora repetem que falariam em nome do povo da Síria!
Não, senhoras e senhores. Quem quiser falar em nome do povo da Síria que cuide, antes, de não trair a causa do povo da Síria e de não se pôr a serviço dos inimigos da Síria. Os que queiram falar em nome do povo da Síria que falem de dentro das fronteiras da Síria, em solo sírio, morando nas casas sírias destruídas; tendo de mandar os filhos à escola, de manhã, sem saber se voltarão salvos à tarde, sobreviventes dos tiroteios e dos ataques de morteiros. Os que queiram falar em nome do povo da Síria que venham enfrentar o inverno congelante (porque não há combustível para aquecimento), horas e horas nas filas para comprar pão (porque as sanções impedem a compra do trigo e cereais, que a Síria sempre exportou; até que agora, por causa das sanções, praticamente já não se encontram).
Quem queira falar em nome da Síria e de seu povo teria, antes, de ter enfrentado três anos de luta contra o terrorismo, cara-a-cara, como nós fizemos. Sem isso, não, senhores, não. Eles não falam em nome do povo sírio.
Senhoras e senhores,
A República Árabe Síria – como povo e como estado, cumpriu seus deveres.
A Síria deu as boas vindas a centenas de jornalistas internacionais facilitando sua mobilidade, segurança e acesso. Eles por seu turno espelharam a horrífica realidade, que testemunharam, para suas audiências, realidades que deixaram muitos da mídia organizada do ocidente perplexos… por não mais poderem manter sua propaganda e por verem suas narrativas expostas e desmentidas. Os exemplos são muitos para serem contados. Nós permitimos a ajuda internacional e que organizações de ajuda e socorro entrassem no país. Mas agentes clandestinos de certas partes presentes aqui nessa sala impediram que a ajuda chegasse aos que mais horrível e fatalmente tinham carência dela. Essa ajuda foi muitas vezes detonada em ataques terroristas. Nós, como estado e governo, cumprimos nosso dever de proteger os agrupamentos de socorro e de facilitar seu trabalho.
Anunciamos várias anistias e libertamos milhares de prisioneiros, alguns dos quais, até, membros de grupos armados e, isso, apesar de termos de enfrentar a ira e a consternação dos familiares das vítimas deles. Mas aquelas famílias, como nós, tivermos de aceitar que os interesses da Síria têm prioridade sobre tudo, aqui; e ocultamos nossos sofrimentos e nos erguemos acima do rancor e do ódio.
E o que fizeram vocês, que dizem falar em nome do povo sírio? Que visão têm a oferecer para esse grande país? Onde estão suas ideias? Onde está seu manifesto político? Quais os seus agentes de mudança em solo – que não sejam só as gangues de bandidos armados? Não tenho dúvida de que vocês não têm o que teriam de ter. E isso está muito claramente visível nas áreas ocupadas pelos mercenários de vocês, aquelas, que vocês chamam de “áreas libertadas”…
Libertaram o quê? Libertaram aquelas populações da cultura moderada em que viviam antes, para enforcá-las em suas práticas radicais e opressivas? Construíram alguma escola? Algum centro de saúde? Não. Vocês destruíram escolas e centros de saúde. Deixaram que a poliomielite, que já havia sido erradicada na Síria, voltasse ao país.
Vocês protegeram museus e peças culturais e de arte? Não. Vocês saquearam o patrimônio nacional sírio, com lucros pessoais, para vocês. Vocês mostraram qualquer compromisso com a justiça e os direitos humanos? Não, vocês encenaram execuções públicas e decapitações. O que fizeram, e é desgraça e vergonha, foi suplicar aos EUA que bombardeassem a Síria.
Nem a oposição, da qual vocês são autodesignados senhores e guardiões, os reconhece. Como tampouco reconhece os métodos de que vocês servem-se para manejar seus próprios interesses, nunca nem os negócios nem os interesses da Síria.
E eles pretendem homogeneizar o país; não é, sequer, em algum sentido sectário, étnico ou religioso, mas num sentido apenas ideológico deformado. Quem for contra eles, sejam esses cristãos ou muçulmanos, será visto como infiel. Eles já mataram muçulmanos de todas as seitas, e também tomaram como seus alvos mortais cristãos sírios; e outros foram tratados com muita severidade. Mesmo freiras e bispos foram convertidos em alvos deles. E foram sequestrados, quando do ataque a Maloula, a última comunidade no mundo que ainda fala a língua de Jesus Cristo. Esses ‘salvadores’ da Síria fizeram o que fizeram em Maloula, para que os cristãos fugissem da Síria.
De fato, nem sabiam que nós, na Síria, somos uma unidade. Quando a cristandade é atacada, todos os sírios se transformam em cristãos. Quando as mesquitas são atacadas, todos os sírios se transformam em muçulmanos. Todo e cada sírio é de Raqqa, Lattakia, Sweida, Homs, ou da ensanguentada Allepo, quando qualquer um desses lugares é atacado.
As odiosas tentativas para semear o sectarismo e a guerra religiosa jamais serão aceitas pela população comum da Síria.
Em resumo senhoras e senhores, essa dita ‘gloriosa revolução’, cometeu todos, e não deixou de cometer um, sequer, dos pecados mortais.
Há ainda um outro lado desse triste panorama. A luz no fundo do túnel ainda brilha, por causa da determinação e da firmeza do povo sírio e da coragem do Exército Sírio, que protege e sempre protegerá os cidadãos sírios. E da resistência elástica, e perseverante, do governo sírio.
Durante tudo o que aconteceu, houve países que nos demonstraram real amizade. Países honestos que estiveram ao lado do certo contra o errado, mesmo quando, em todo o horizonte, só se via o lado errado.
Em nome do povo sírio e da Síria, como estado, agradeço à Rússia e à China, por terem respeitado a soberania e a independência da Síria.
A Rússia tem sido real campeão dos povos no palco internacional, defendendo consistentemente mediante ações, não só com palavras, os princípios fundamentais das Nações Unidas, que respeita e exige respeito à soberania das nações.
Assim também a China, os países do grupo BRICS, o Irã, o Iraque e outros países árabes e muçulmanos, além de países africanos e sul-americanos, que também salvaguardaram, genuinamente, as aspirações do povo sírio, e não as ambições de outros governos de olhos postos na Síria, como presa.
Sim senhoras e senhores,
O povo sírio, como outros povos da região, deseja ardentemente mais liberdade, justiça e direitos humanos; eles desejam ardentemente mais pluralidade e democracia, querem uma Síria melhor, mais segura e fora de perigo, em prosperidade e em saúde. Desejam ardentemente construir de instituições firmes, não a destruição de todas as instituições firmes; aspiram a proteger nossos bens, nosso patrimônio, nossa arte; não o saqueio e a demolição de tudo que a Síria tem. Eles desejam um exército nacional capaz, que assegure e proteja nossa honra, nosso povo e a riqueza nacional, um exército que defenda as fronteiras sírias, sua soberania e a sua independência. O povo sírio não quer, senhoras e senhores, um exército de mercenários.
Não queremos exército ‘livre’ para sequestrar civis, ou para cobrar resgate ou para usá-los como escudos humanos; ‘livre’ para roubar a ajuda humanitária, para extorquir os sírios pobres; ‘livre’ para comerciar ilegalmente órgãos humanos, arrancados de mulheres e crianças vivas; ‘livre’ para canibalizar corações e fígados humanos, para assar cabeças humanas, para recrutar e armar crianças-soldados e para violar mulheres. Tudo isso é feito pela força das armas. Armas essas a eles entregues por países representados nessa Conferência e que dizem representar “grupos moderados”.
Antes nos digam, em nome de Deus, onde estava essa moderação, quando acontecia tudo que aqui lhes relato?
Onde estão esses sombrios grupos moderados, atrás dos quais tantos tentam esconder-se? Serão esses os mesmos velhos grupos que continuam a ser apoiados, militar e publicamente pelo ocidente, que hoje se submetem às mais patéticas tentativas de face-lift [cirurgia plástica, para rejuvenescimento facial], na esperança de nos convencer de que estariam lutando contra o terrorismo?
Todos nós sabemos que não importa o quanto suas máquinas de propaganda tentem envernizar as imagens deles, o extremismo, o terrorismo, continuam inalterados, por baixo das novas fachadas.
Eles sabem, como nós todos sabemos, que sob o pretexto de apoiar esses grupos ditos ‘moderados’, a al-Qaeda e seus afiliados estão sendo armados na Síria, no Iraque e em outros países da região.
Essa é a realidade, senhoras e senhores.
É tempo de acordar para a incontestável realidade de que o ocidente está apoiando alguns países árabes para que forneçam armas mortais para a al-Qaeda.
O ocidente afirma publicamente que combate o terrorismo, enquanto, de fato, ocultamente, o está alimentando. Quem não vir isso está cego, ou pela ignorância ou pela ânsia de acabar o que começaram.
É essa a Síria que queremos ter? Milhares de mártires e a perda de nossa antes estimada segurança pessoal e nacional, que foi substituída por devastação apocalíptica? Seria esse o desejo do povo sírio, que eles tentam concretizar? Não, senhoras e senhores. O que hoje se vê na Síria não prosseguirá. E é por isso que estamos aqui.
Apesar de tudo o que foi feito por alguns, nós estamos aqui para salvar o país; para terminar com as decapitações, para impedir a canibalização e a carnificina. Viemos ajudar mães e crianças a retornarem às suas casas, das quais foram afugentadas pelos terroristas. Estamos aqui para proteger os civis e o caráter aberto do estado sírio, da Síria, e para impedir o avanço sistemática de terroristas vindos de outros países, por toda a nossa região.
Estamos aqui para impedir o colapso de todo o Oriente Médio. Para proteger sua civilização, cultura e diversidade, e para preservar o diálogo das civilizações no berço das religiões.
Viemos para proteger a tolerância islâmica, que foi deformada, e para proteger os cristãos do Levante.
Estamos aqui para dizer aos exilados que retornem ao seu país, porque se não o fizerem se autocondenarão a ser eternos estrangeiros em outros lugares. E porque, independente das nossas diferenças, ainda continuamos a ser irmãos e irmãs.
Estamos aqui para pôr fim ao terrorismo, como outros países que conheceram o seu gosto amargo e puseram-lhe fim.
Afirmamos, alto e consistentemente, que a única solução é um diálogo entre sírios. Mas, assim como outros países também assaltados pelo terrorismo, temos o dever constitucional de defender nossos cidadãos. Por isso continuaremos a combater o terrorismo que ataca sírios, digam os terroristas o que disserem sobre suas afiliações políticas.
Aqui estamos para exigir responsabilidades, porque se certos países continuarem a apoiar o terrorismo, essa conferência não trará frutos.
Pluralismo político e terrorismo não poderão jamais coexistir. A política só consegue avançar, se derrota o terrorismo; nada se poderá jamais construir à sombra do terrorismo e de terroristas.
Estamos aqui como representantes do povo e do estado; mas que fique bem claro, para todos – a experiência é aqui a melhor prova: ninguém tem autoridade para dar ou retirar a legitimidade de um presidente, de um governo, de uma constituição, de uma lei, ou de seja o que for, na Síria, exceto os sírios, eles mesmos. É direito dos sírios, tanto quanto é seu dever.
Portanto, qualquer que seja o acordo ao qual se chegue aqui, ele terá de ser submetido a um referendo nacional na Síria.
Nós temos a tarefa de apresentar aqui os desejos do nosso povo, não a de determinar o seu destino. Quem tenha interesse em ouvir a vontade do povo sírio, que não comece por se apresentar como seus representantes autodesignados. Só os sírios têm o direito de eleger seu governo, seus parlamentares e de aprovar sua constituição. Qualquer outra ideia será só conversa fiada, que nada determina, se não for aprovada pelos sírios.
Finalmente, a todos aqui e aos que nos acompanham ao redor do mundo:
Na Síria, estamos lutando contra o terrorismo, que destruiu e continua a destruir; contra o terrorismo. Desde os anos 80s muitos clamam a ouvidos surdos, por uma frente ampla que destrua o terrorismo.
O terrorismo atacou nos Estados Unidos, na França, na Inglaterra, na Rússia, no Iraque, no Afeganistão, no Paquistão, e a lista continua a crescer.
Temos de todos cooperar nessa tarefa. Temos de trabalhar conjuntamente para extinguir aquela ideologia malévola, horrenda, obscurantista.
Então, que possamos como sírios estar unidos para nos focar na Síria, para começar a reconstruir o seu tecido e a sua estrutura social.
Como já ficou dito, o fundamento desse processo é o diálogo. Apesar de nossa gratidão ao país anfitrião, afirmamos que o diálogo real entre os sírios deve ser feito, de fato, em solo da Síria, sob o céu da Síria.
Há exatamente um ano, o governo sírio propôs a sua visão para uma solução política. Quanto sangue inocente teria sido poupado, se tantos países tivessem optado pela razão, não pelo de terrorismo e pela destruição.
Durante um ano, o governo sírio clamou por um diálogo. E só o terrorismo respondeu, e continuou a atacar a Síria, seu povo e suas instituições.
Hoje, nesse encontro de poderes árabes e ocidentais, estamos frente a uma simples escolha; podemos escolher lutar juntos contra o terrorismo e começar um novo processo político. Ou tantos continuarão a apoiar que o terrorismo continue a atacar a Síria.
Rejeitemos as mentiras apresentadas por falsas mãos e faces, que vêm com sorrisos públicos, mas alimentam e armam, encobertamente, os terroristas. O terrorismo que hoje ataca na Síria está em expansão e pode vir a infectar todos nós.
Hoje, é o momento da verdade e do destino. Que estejamos à altura do desafio.
Muito obrigado.

Editado o Ato Institucional nº 1 da era petista

Editado o Ato Institucional nº 1 da era petista

Imprimir PDF

(Nota Política do PCB)
No último dia 20 de dezembro, o Governo Dilma, através da PORTARIA NORMATIVA No 3.461, contribuiu decididamente para a reformulação da logística de repressão do Estado, exigida há tempos pelas Forças Armadas e pelos setores mais retrógrados da sociedade, atribuindo ao Exército, à Marinha e à Aeronáutica a condição de planejar, organizar, gerenciar e efetuar ações repressivas contra manifestações públicas organizadas por movimentos e/ou ativistas sociais.
Sob a justificativa de efetuar Operações para a Garantia da Lei e da Ordem (OP GLO) em situações previsíveis ou em iminentes situações de crises políticas, contra ações das chamadas Forças Oponentes (F Opn), as Forças Armadas passam a ter a incumbência de assessorar e efetuar todas as medidas necessárias com vistas à repressão e à restauração da ordem desejada.  As ações vão desde o uso da inteligência e contrainteligência, com possíveis monitoramentos das comunicações e outros apetrechos de espionagem, até o uso de medidas psicológicas e de comunicação de massas, para condicionar o apoio da opinião pública aos atos praticados pelo governo.
Como se já não bastasse a violência de policiais militares equipados como gladiadores, as Forças Armadas, para enfrentar a “desordem”, vão lançar mão “de todos os meios à disposição, podendo incluir o Princípio de Guerra da Massa, que fica caracterizado ao se atribuir uma ampla superioridade de meios das forças empregadas em Op GLO em relação às FOpn”.
As chamadas Forças Oponentes são identificadas como grupos, organizações, pessoas, “infiltrados” em Organizações Sindicais e Políticas, que de modo geral possam gerar “instabilidades, insegurança e ameaças públicas ou privadas”. Cabe nesse aspecto ressaltar a desfaçatez do governo em enquadrar, sob a mesma classificação, desde grupos narcotraficantes até entidades e movimentos sociais, numa clara lógica de criminalização das organizações e dos militantes políticos e sociais que lutam contra os efeitos perversos do sistema capitalista na vida da população.
Entre os delitos classificados como ações de Forças Oponentes, destacam-se: paralisação de atividades produtivas,  invasão de propriedades e instalações rurais ou urbanas, públicas ou privadas; bloqueio de vias públicas de circulação e distúrbios urbanos; “delitos” que, por sua vez,  já são acintosamente propagados pela mídia como ações de “vândalos” e “terroristas”, mas que, na verdade, correspondem a respostas efetivas da classe trabalhadora e das camadas populares à opressão, miséria, desigualdade e exploração causadas pelo capitalismo e seus agentes. Até mesmo as greves, direito dos trabalhadores garantido pela Constituição, entraram no rol dos “delitos” a serem reprimidos pelas Forças Armadas, num claro retrocesso que lembra o tempo da ditadura.
O PCB vem a público denunciar que esse ato do Governo Dilma, a mando dos setores mais reacionários e a serviço dos grandes grupos capitalistas e das empresas preocupadas com a realização da Copa do Mundo e das Olimpíadas no Brasil, representa a instauração de um verdadeiro estado de exceção no país, visando a resguardar não a segurança pública, mas a garantia da lei da exploração burguesa e da ordem do capital. O ato demonstra ainda o grau de subserviência do governo petista às imposições da FIFA, que teme a não realização da Copa em função das manifestações populares, que certamente voltarão com força neste ano e tendem a prosseguir mesmo depois dos eventos, em função da continuidade dos problemas que provocaram as grandes mobilizações no ano passado.
Diante da grave crise social na qual estamos mergulhados e das crescentes manifestações que evidenciaram o esgotamento do modelo político e econômico social-liberal vigente, o PT e os demais partidos da ordem burguesa vêm acelerando ações que visam a aumentar a repressão, a vigilância social e a submissão das massas ao sistema, pretendendo evitar que as contradições sociais explodam através de revoltas populares, sempre ameaçadoras aos interesses do capital e de suas forças políticas representativas.
A publicação dessa Portaria, às vésperas de o golpe empresarial-militar de 1964 completar 50 anos, apenas reforça a percepção de que, em momentos de aguçamento da luta de classes, independentemente de quem esteja administrando o estado burguês, as classes dominantes se antecipam a qualquer possibilidade de instabilidade política resultante do acirramento das contradições sociais e se lançam ao ataque em defesa de seus interesses.
O ato político do Governo Dilma revela a existência de um processo de fascistização em curso da sociedade brasileira, com o início de uma série de atos articulados que, a partir de agora, ampliarão a ação repressiva do Estado. Associada à pesada propaganda ideológica disseminada pelos meios de comunicação, esta ação tem o intuito de tentar calar todas as justas e genuínas manifestações contrárias aos efeitos do sistema no dia a dia das pessoas, tornando oficial a criminalização das organizações políticas e sociais que lutam contra o capitalismo e seus agentes, assim como de todos os movimentos populares. É a tentativa de impor a ordem a ferro e fogo, garantindo a paz dos cemitérios!
O PCB conclama os partidos e organizações de oposição socialista, assim como o conjunto dos ativistas dos movimentos populares e sociais, à necessária unidade política para barrar as medidas reacionárias adotadas pelo governo Dilma, as quais representam claramente mais uma traição de classe do PT aos trabalhadores brasileiros.
PCB – Partido Comunista Brasileiro
Comissão Política Nacional
Janeiro de 2013

(UCRÂNIA) “A classe operária, como classe, não participa de modo algum desses acontecimentos!”


Em Kiev, na Ucrânia, continuam os confrontos, habituais desde o final de Novembro, entre a polícia e os manifestantes. Em causa está o braço de ferro entre o Governo (que suspendeu a assinatura do Tratado de Livre Associação com a União Europeia) e a oposição que procura liderar os protestos, tentando daí tirar dividendos políticos. Nos últimos meses tem sido crescente o peso do partido fascista Svoboda que integra a coligação oposicionista. Para os anarquistas ucranianos, apesar de criticarem a actuação do governo, os trabalhadores estão fora deste jogo político entre os partidários de um maior relacionamento com a União Europeia e os que defendem uma maior integração com a economia russa. A entrevista que traduzimos e de que publicamos excertos foi dada por um companheiro anarco-sindicalista da Organização Autónoma de Trabalhadores da Ucrânia (um pequeno grupo que desenvolve a sua actividade em Kiev e em Harkov, a segunda cidade mais industrializada da Ucrânia), a uma rádio norte-americana. No entanto, a presença de militantes libertários nas ruas, em protesto contra as medidas autoritárias e repressivas do governo ucraniano, tem sido também uma constante.

Anarquista ucraniano dissipa mitos sobre os protestos na Ucrânia e alerta para a influência fascista

A Radio Asheville , com base no oeste da Carolina do Norte,emitiu recentemente uma fascinante entrevista com um anarco-sindicalista chamado Denys, da Organização Autónoma dos Trabalhadores  da Ucrânia. Nesta entrevista Denys desmascara muitos dos mitos em torno dos protestos a favor da adesão à União Europeia que se estão a verificar no país e explica o que se está a passar nos bastidores e a propaganda que tem sido feita a propósito protestos.
Porque é que o Acordo de Livre Associação com a UE (que beneficiaria, sobretudo, os ultra-ricos oligarcas da Ucrânia) está a ser deliberadamente interpretado como uma verdadeira integração? Os líderes ucranianos recusaram assiná-lo no último minuto. Entretanto, a Rússia está a tentar empurrar a Ucrânia para a sua união aduaneira, oferecendo a Kiev um acordo com a promessa de compra de milhões de euros de produtos ucranianos e um desconto de 30 por cento no Gás Natural russo.
Denys explica que, quando os protestos começaram, a classe política ucraniana foi apanhada de surpresa. Contudo, a oposição, uma coligação orientada sobretudo para a direita (sendo o partido fascista Svoboda o mais visível de todos eles) reagrupou-se rapidamente e transformou a rua na sua máquina de relações públicas. A oposição planeou manifestações massivas, como o líder fascista do Svoboda declarou numa entrevista já em março de 2013. Ficou evidente que os líderes da oposição planearam derrubar o actual governo com o apoio financeiro e político da conservadora Angela Merkel, da Alemanha, dos líderes da UE de Bruxelas e com o apoio visível dos Estados Unidos, cujo embaixador , o conservador John McCain foi a estrela convidada do Euromaidan . (…)
É difícil dizer quem está em maior desespero – se o governo ou se a oposição, mas esta última já anunciou que se vai centrar nas próximas eleições presidenciais , previstas para daqui a 18 meses, embora não seja ainda muito claro o candidato que vai apoiar . (…)
(No entanto), a oposição usou os protestos de rua contra o governo para ganhar poder na Ucrânia. Os resultados têm sido muito proveitosos para o partido Svoboda. No dia 1 de janeiro, o Svoboda organizou uma marcha de mais de 15.000 nacionalistas para comemorar o aniversário do antigo colaboracionista nazi já falecido Stepan Bandera .(…)
Denys : É necessário distinguir entre os dois Euromaidans. O primeiro ocorreu a 21 de novembro, participaram pessoas de classe média, que na sua maioria queriam a assinatura do acordo com a União Europeia. No entanto, hoje, dois meses depois, a maioria das pessoas que estão nas ruas estão preocupadas com questões bem mais práticas, como a brutalidade da polícia, que foi visível na noite de 1 de dezembro e, na generalidade, ninguém está satisfeito nem com o governo nem com o presidente. Assim, a integração europeia continua a ser uma questão mais vasta, mas está hoje numa espécie de segundo lugar. Quando se tratava de manifestações pró-governo as pessoas eram levadas pelo governo para Kiev, em autocarros, ao fim de semana. Estes protestos não foram honestos. Muitas pessoas que trabalham para o governo, como professores, médicos, e assim por diante, foram informados pelos chefes que teriam que participar. Era obrigatório para eles. Não diria que fosse um protesto real. Mas tomando em conta as pessoas que apoiam a união com a Rússia, a Bielorússia e o Casaquistão, sim, há essa opinião e, tomando o país como um todo, está dividido mais ou menos em 50 por cento relativamente à integração na União Europeia ou na União Aduaneira (com a Rússia). O problema é que a segunda posição não está muito representada nos meios de comunicação de massa que se inclinam no outro sentido (pró-UE). E, geralmente, essas pessoas que apoiam a união aduaneira não têm o hábito de protestar. Elas vivem em cidades mais pequenas e, portanto, não estão tão representadas nos media como quem vive na capital. Os apoiantes da União Aduaneira têm também líderes políticos muito estúpidos. Por exemplo, a principal força política que organizou os protestos teve como principal ponto de propaganda anti-UE dizer que a União Europeia iria trazer o casamento entre pessoas do mesmo sexo e outras coisas fora da tradição que não seriam bem acolhidas pela população ucraniana. Até inventaram o termo “euroSodoma”, como em Sodoma e Gomorra. A outra força política que apoia a União Aduaneira é o Partido Comunista da Ucrânia, que há muitos anos não tem nada a ver com o comunismo, e cujo programa político e agenda podem ser descritos como um partido social-conservador normal. Se comparar com Marie Le Pen, não encontrará muitas diferenças.
Asheville Rádio FM: É, na visão desses grupos, uma espécie de regresso à era soviética e ao encontro de outros países do leste europeu?
Denys : Claro, especulam sobre isso, porque os laços entre as pessoas comuns ainda são muito fortes. Você sabe que muitas pessoas têm parentes na Rússia, para não mencionar coisas como a cultura de massas que é comum. Muitas pessoas vêem os canais de televisão russos, e isso é muito habitual na vida de todos os dias das pessoas das regiões do centro, do leste e do sul. As pessoas na região do centro e do sul têm muitas coisas em comum com os russos, com o seu estilo de vida, e não sentem que essas semelhanças existam com os povos europeus. Mas, ao mesmo tempo, uma grande parte da população da Ucrânia vive actualmente no exterior, na União Europeia , especialmente em Espanha , Itália, Polónia, República Checa e Portugal. São pessoas principalmente das regiões ocidentais, mas não exclusivamente.
Radio Fm Asheville : Entre os partidários versus os detractores da inclusão na UE, posso ver uma divisão segundo normas sociais, tal como mencionou, os mais liberais talvez a inclinarem-se mais para o Ocidente, com as suas leis mais progressistas e com os casamentos entre pessoas do mesmo sexo e do outro lado, à direita, os mais conservadores, os mais inclinados para os ortodoxos – ainda que seja uma igreja ortodoxa diferente da igreja ortodoxa russa – e estou seguro de que, dependendo donde está ou em que indústria trabalha, você irá ter mais negócios, em geral, ou com o Oriente ou com o Ocidente. Você pensa que as duas posições se destinam, basicamente, a liberalizar a economia e a enfraquecer os direitos dos trabalhadores ucranianos, ou é uma espécie de falsa escolha para os trabalhadores da Ucrânia?
Denys : Antes do mais você referiu-se ao liberalismo social prevalecente entre os ucranianos pró-UE. Na realidade não concordo com isso. Há essa impressão porque os protestos pró-UE são dirigidos por pessoas com estudos, da classe média, que têm um tipo de agenda mais social-liberal. Mas, mesmo assim, é mais a direita cultural contra a direita cultural. Veja-se, por exemplo: regularmente as pessoas no Euromaiden rezam publicamente, todas juntas, todas juntas. Olhemos, então, o casamento de pessoas do mesmo sexo: os que defendem a integração na UE nunca o aceitarão. De facto, as questões sociais relativas aos direitos dos trabalhadores não estão, de todo, na agenda. A classe operária, como classe, não participa de modo algum nestes acontecimentos. Os trabalhadores tomam naturalmente partido, mas não estão organizados enquanto classe, em sindicatos, e, por isso, como tal, simplesmente não tomam parte nestes eventos. E têm boas razões para isso, porque ambos os lados apenas falam de questões culturais, políticas, que não têm qualquer ligação directa com as necessidades de um trabalhador normal. Os manifestantes que apoiam a UE têm a ideia, absolutamente falsa, da Europa como um paraíso onde tudo está bem, onde tudo está muito melhor do que na Ucrânia ou em qualquer outro lugar. É inútil falar-lhes dos protestos no seio da própria UE, dos programas de austeridade. Eles simplesmente não ouvem e dizem: “Ah, então para você seria juntarmo-nos à Rússia, não é?” Portanto, esta falsa escolha é bastante limitativa, e acho que o mesmo podia ser dito sobre o lado oposto. A agenda de esquerda, a agenda dos direitos dos trabalhadores, não está presente em qualquer destas praças onde as pessoas protestam. (…)
Radio Fm Asheville : Encontrei o site de Dimitrov Kutchinsky , esse tipo é louco. Há ali também referências ao nacional – anarquismo.
Denys : Você está familiarizado com esse conceito?
Radio Fm Asheville : Sim, existem também alguns idiotas que afirmam ser isso aqui nos Estados Unidos . Em San Francisco, Nova York e Chicago. Eles têm algum peso na Ucrânia?
Denys : Sim, na verdade têm. Porque, infelizmente, esta é uma tendência muito comum – fazer uma mistura com temas de esquerda, com a adopção duma narrativa anticapitalista. O ser-se anarquista está na moda, é muito elegante, cool e dá-lhes algumas vantagens imediatas, mas as pessoas misturam isso com temas nacionais, que também estão muito na moda e são muito coolpara os jovens, sobretudo para os adolescentes que não vêem qualquer problema em tentarem combinar essas coisas. E isso é especialmente engraçado aqui na Ucrânia, porque existe um grande mito à volta de Makhno. Hoje ele é parte integrante do mito nacional e é considerado um nacionalista, porque na verdade lutou contra os bolcheviques. Por isso, considera-se que ele pertence à Ucrânia, à Ucrânia independente, tem um papel nacional e assim por diante. Obviamente, isto é um total absurdo, mas essa mitologia é muito popular e contribui para a popularidade que aqui tem a síntese entre a esquerda-direita, a chamada terceira posição, como Terza Posizione, que é de facto a tradição fascista italiana.
Radio Fm Asheville : Sim, é o mesmo palavreado que eles usam nos Estados Unidos: “third positionists”. Existe também uma grande sobreposição entre o nacionalismo e a ecologia biocêntrica regional, de modo que parecem estar a invadir o Anarquismo Verde, tentando transformarem-se na corrente principal e antes da maior parte das pessoas se darem conta de quem eles são e o que fazem.
Denys : Compreendo, mas aqui na Ucrânia, para além dos temas da New Age, eles têm também muito fascínio pelos próprios fascistas, como Mussolini, por exemplo. Tentam, de alguma forma, misturá-lo com o anarquismo. Para além disso, você está a par da divisão no movimento anarquista russo que aconteceu recentemente?
Radio Fm Asheville : Não, realmente não.
Denys : Bem, houve uma grande divisão que se repete também na Ucrânia. É a divisão entre os anarquistas que defendem os direitos das minorias, a luta feminista, que prestam atenção às questões gerais da sociedade, aos direitos para as minorias étnicas e os macho-anarquistas que não gostam destas “p….s feministas. ” Eles dizem: ‘ Nós somos tipos porreiros, fazemos muito desporto, somos verdadeiros anarquistas, não queremos nada a ver com essas bichas” . Infelizmente, este macho-anarquismo também está aqui a ganhar muita popularidade nos últimos tempos. (…)
Asheville Rádio FM: Fale-nos sobre o grupo a que pertence, à sua organização.
Denys : O nosso grupo foi fundado há dois anos, e ainda não é muito grande. Mas diria que temos tido, de facto, algum crescimento quer em termos de qualidade, quer de quantidade, porque estamos hoje implantados em dois sítios, um em Kiev e outro em Harkov, que é a segunda maior cidade industrial da Ucrânia. Temos cerca de 20-25 pessoas em Kiev e talvez 15 pessoas em Harkov. Estes não são números astronómicos, mas são maiores do que já foram inicialmente, e acho que estamos a crescer. Nós não nos vemos como um grupo de propaganda política, mais como uma organização de classe. Guiamo-nos pelos princípios do sindicalismo revolucionário, embora o nosso grupo se esteja a tornar cada vez mais anarco-sindicalista. No início tivemos alguns trotskystas e alguns marxistas, mas agora acho que a maioria deles já se consideram anarquistas. Mas, infelizmente, ainda não temos qualquer organização nos locais de trabalho, já que de acordo com a legislação ucraniana, para ela existir é preciso haver pelo menos 3 pessoas em cada local de trabalho. Temos pessoas de diferentes áreas, muitas sem nenhum posto de trabalho fixo, como trabalhadores sazonais ou trabalhadores da construção civil, etc.. Esse é o nosso maior problema e hoje funcionamos na realidade mais como um grupo de propaganda, embora queiramos ser uma verdadeira união de classe, como os IWW, esse é o modelo que pretendemos.
Asheville Rádio FM: Para os ouvintes que não estão familiarizados com o anarco- sindicalismo, gostaria que nos dissesse de que se trata e como é que ele se compara e difere do sindicalismo revolucionário?
Denys : O sindicalismo, enquanto método, assenta na negação de partidos e da política parlamentar como instrumentos capazes de alcançarem qualquer objectivo político. A tónica principal é colocada sobre instrumentos de acção directa, como greves, manifestações, ocupações e assim por diante. O principal desafio do sindicalismo, de per si, é encontrar uma estratégia de ligação entre a luta política e económica e a luta dos sindicatos, das uniões. Assim, ao contrário do trade-unionismo ou do trabalhismo como na Grã-Bretanha, os sindicalistas acreditam que os sindicatos devem ter objectivos políticos em paralelo com os objectivos económicos. Devem lutar, por exemplo, por salários mais altos, mas não se devem esquecer que, em simultâneo, estão a lutar, eventualmente, pelo comunismo, pela queda do capitalismo. Na teoria sindicalista, chamamos a isso ginástica revolucionária .
Radio Fm Asheville : Nunca tinha ouvido essa frase antes.
Denys : A ginástica revolucionária é a luta de todos os dias por pequenas reformas, mas que ao mesmo tempo desenvolve os músculos da classe trabalhadora. Depois dessas lutas, os trabalhadores saem delas melhor organizados e com u maior nível de consciência de classe. Durante as greves e manifestações, a classe trabalhadora consolida e treina-se para outras batalhas de classe e também para as batalhas políticas mais importantes e mais vitais que depois virão. O sindicalismo revolucionário pode unir praticamente qualquer anti- capitalista situado à esquerda, enquanto o anarco-sindicalismo implica que tos membros do movimento partilhem uma visão anarquista. Pessoalmente, não considero que o anarco-sindicalismo seja contraditório com qualquer outra forma de anarquismo social. O anarco-sintetismo é uma escola de pensamento que combina o anarco-comunismo como ideal, o anarco-sindicalismo como método de se chegar a esse ideal e o anarco-individualismo como a base a partir da qual avalia as suas acções.
Versão curta e adaptada da entrevista que pode ser lida na integra aqui: http://revolution-news.com/ukrainian-anarchist-dispels-myths-surrounding-euromaidan-protests-warns-of-fascist-influence/


sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Pela Paz na Colômbia,contra a arrogância oligárquica

Pela Paz na Colômbia

A situação na Colômbia é cada vez mais preocupante.

Em 2013, as forças militares ou paramilitares mataram 30 militantes da Marcha Patriótica e 25 da CUT.

Prisões arbitrárias acontecem quase todos os dias: já são 9.500 presos.

O Procurador da República, em decisões pessoais, cassou o mandato da Senadora Piedad Córdoba e agora do prefeito de Bogotá, Gustavo Petro, de tradição na esquerda. Suspenderam seus direitos políticos por muitos anos.

O governo Manuel Santos fala em paz da boca para fora. Prendeu este mês o professor da Universidade Nacional Colombiana, Francisco Toloza, que representava a Marcha Patriótica na América Latina e esteve muitas vezes, de forma ampla, com todos os setores de esquerda no Brasil. Na acusação, acredite, citam-se seus encontros com Adolfo Perez Esquivel (Nobel da Paz), "Pepe" Mujica (Presidente do Uruguai) e o intelectual argentino Atilio Borón.

Não aceitam um cessar-fogo. Os diálogos de paz em Havana estão ameaçados. Sua frustração significará, como de outras vezes na história colombiana, extermínio e repressão brutal contra os partidos de esquerda e os movimentos sociais.

A paz na Colômbia não é um problema dos colombianos, mas de toda a América Latina, de todos nós.

Aproveitando a reunião da CELAC, em 28 e 29 deste mês, exatamente em Cuba, está circulando uma Carta Aberta à CELAC, que pode ser vista abaixo, já com algumas assinaturas.

Sua assinatura valorizará a petição, que será entregue aos Ministérios das Relações Exteriores do Brasil e de Cuba. O governo cubano vai propor na Cúpula a consideração da América Latina e Caribe como uma zona de paz, o que facilita o êxito da carta aberta. A Carta Aberta é uma solidariedade também a Cuba, anfitriã e fiadora dos diálogos entre as FARC e o governo colombiano, e que teria um grande desgaste se não se firmar a paz, cujo êxito a projetaria mundialmente.

Se concordar com a carta, favor encaminhar urgentemente sua adesão para o e-mail casadaamericalatina@oi.com.br .

CARTA ABERTA
Cúpula da CELAC em Havana:
uma oportunidade para a paz com justiça social na Colômbia!

Foi um grande avanço para a integração da América Latina a criação da CELAC (Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos), numa histórica reunião de cúpula no México, em 2010, com a participação de trinta e três países da região. Emblemáticas, para os nossos povos, foram a presença de Cuba e a ausência dos Estados Unidos, país que mancha a história do nosso continente com o sangue de sua permanente ação imperialista.

Na última cúpula da CELAC (janeiro de 2013, em Santiago do Chile) acordaram os estados membros, por consenso:

"Comprometemo-nos a que o clima de paz que prevalece na América Latina e no Caribe se assegure e em toda nossa região se consolide em uma Zona de Paz".

Nos próximos dias 28 e 29 de janeiro de 2014, reunir-se-ão novamente os representantes dos países da Comunidade, desta vez significativamente em Havana, a Capital Mundial da Paz, que atualmente sedia os diálogos entre o governo colombiano e as FARC, na busca de uma solução política para o conflito colombiano.

Para fazer valer os compromissos assumidos em Santiago do Chile, justificar e valorizar a existência da CELAC e dar solidariedade a Cuba, anfitriã e fiadora dos diálogos, os abaixo-assinados reivindicam que seja incluída na pauta da Cúpula a questão da paz na Colômbia, país que já confirmou sua presença no evento.

A inclusão deste ponto na pauta, em verdade, é conseqüência de uma das resoluções da Cúpula anterior, que estabelece:

"Reiteramos o apoio ao processo de diálogo que acontece entre o Governo da Colômbia e as FARC, destinado a por fim a um conflito interno que por mais de 50 anos afetou o desenvolvimento político, social e econômico dessa nação amiga e fazemos votos para o êxito da iniciativa que conduza a alcançar um acordo para o bem do povo colombiano".

Convencidos de que nosso apelo à inclusão deste tema na pauta do evento será ouvido, tomamos a liberdade de apresentar as seguintes propostas para apreciação da Cúpula:

  • conclamar as partes a estabelecerem um cessar-fogo bilateral, sob a supervisão da CELAC;

  • constituir uma representação da CELAC para acompanhar e facilitar os diálogos de Havana e, no caso de os entendimentos resultarem em acordo, observar a implantação e o fiel cumprimento de seus termos;

  • estabelecer um procedimento de libertação dos presos e reféns políticos em consequência dos conflitos.

    Brasil, janeiro de 2014 Anita Prestes – professora
    Achille Lolo – jornalista
    Aldimar de Assis – Presidente do Sindicato de Advogados de São Paulo
    Anibal Valença - médico
    Antonio Carlos Mazzeo - professor
    Beto Almeida - jornalista
    Bolivar Meielles – Coronel do Exército reformado
    Caio Rodrigues – engenheiro agrônomo
    Cid Benjamin – jornalista
    Cristina Konder – jornalista
    Débora Maria – Coordenadora das Mães de Maio
    Dinarco Reis Filho – Presidente da Fundação Dinarco Reis
    Edmilson Costa – economista e professor
    Eduardo Gonçalves Serra - professor
    Emiliano José – jornalista e escritor
    Felipe Diniz – editor de odiario.info (Portugal)
    Francisco Soriano – Diretor do Sindipetro (RJ)
    Francisco Massiguia - engenheiro
    Frank Svensson – arquiteto
    Gilberto Maringoni – professor
    Gilda Arantes - historiadora
    Ildo Luis Sauer – professor e engenheiro
    Ivan Pinheiro – Secretário Geral do PCB
    Ivana Jinkings – editora
    João Luiz Duboc Pinaud – jurista, Presidente da Casa da América Latina
    Jorge Figueiredo – editor de resistir.info (Portugal)
    José Paulo Gascão – editor de odiario.info (Portugal)
    Katia da Matta – professora, diretora da Casa da América Latina
    Leandro Konder – filósofo, escritor e professor
    Lenin Novaes – jornalista, Conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa
    Lincoln Penna – professor
    Luis Fernandes – União da Juventude Comunista
    Luiz Rodolfo Viveiros de Castro – Conselheiro da Casa da América Latina
    Marcelo Chalreo – Presidente da Comissão Direitos Humanos do Colégio de Abogados do RJ
    Marcos Del Roio - professor
    Maria Aparecida Skorupski – professora
    Maristela R. dos Santos Pinheiro – Comitê de Solidariedade à Palestina (RJ)
    Mauro Iasi – professor
    Mercedes Lima – Coletivo Ana Montenegro
    Michael Lowy – pesquisador emérito do Centre National de La Recherche Scientifique
    Miguel Urbano Rodrigues – jornalista e escritor
    Milton Pinheiro – professor
    Muniz Ferreira – Coletivo Minervino de Oliveira
    Otto Filgueiras – jornalista
    Paulo Eduardo Arantes - professor
    Paulo Metri - engenheiro, Conselheiro do Clube de Engenharia
    Raymundo de Oliveira – professor e diretor da Casa da América Latina
    Ricardo Costa – professor
    Ricardo Gebrim – Consulta Popular
    Ricardo Gebrim – Presidente do Sindicato dos Advogados de São Paulo
    Sergio Romagnolo – artista plástico
    Sidney Moura – Unidade Classista
    Sofia Manzano – professora
    Rui Namorado Rosa – professor e escritor (Portugal)
    Sabino Barroso - arquiteto
    Valmíria Guida – diretora da Casa da América Latina
    Virginia Fontes - professora
    Zuleide Faria de Mello – professora, Presidente do Instituto Cultural José Marti

    O original encontra-se em pcb.org.br/...

    Esta carta aberta encontra-se em http://resistir.info/ .
  • 24/Jan/14
    Clique e Instale Agora
    Baixe este player de mídia Ver a vídeos de alta performance
    click here
    MediaPlayerTotal.com

    O negócio sujo das prisões privadas nos EUA


    As penitenciárias exigem dos governos uma cota mínima de ocupação, quer suba ou baixe a criminalidade.

    A busca do máximo lucro gera nos EUA casos de maus tratos e violência

    Um grupo de presos em Sacramento (Califórnia). / Rich Pedroncelli (AP)

    A taxa de criminalidade caiu em um terço no Colorado nos últimos dez anos, o que fez com que, desde 2009, esse estado dos EUA tenha fechando cinco de seus presídios; mas, paradoxalmente, as prisões privadas estão cada vez mais cheias. O motivo é que dispõem de uma quota mínima de ocupação acordada com o governo do Estado que, para garanti-la, se viu obrigado há alguns meses a transferir 3.330 reclusos das instalações públicas, que tinham vagas ociosas, para as privadas. O Colorado não é, porém, um caso isolado. A situação se repete em outras áreas do país e revela os meandros por trás do auge da privatização carcerária nos EUA, assim como a perversa disputa entre o interesse público de reabilitar os presos e reduzir a população carcerária e o objetivo de maximizar seus lucros, inerente a qualquer empresa.
    De acordo com um relatório de In the Public Interest (ITPI) -- uma entidade civil com sede em Washington --, de 62 contratos de penitenciárias privadas analisados nos EUA, 65% dispõe de algum tipo de garantia de número mínimo de reclusos ou penas por vagas ociosas. A lógica por trás dessas exigências é que os operadores privados, que cobram por preso (entre 40 e 60 dólares ao dia), consigam garantir para si um determinado nível estável de ingressos para administrar a prisão e recuperar o custo da sua construção. A base mínima mais frequente é de 90%, embora em alguns casos possa chegar a 100%. Por exemplo, segundo o documento, três instalações no Arizona dispõem dessa garantia embora o Departamento Penitenciário do Arizona (ADC, na sigla em inglês), o negue e assegure que gira em torno de 90%.
    Seja como for, o estado se vê obrigado a garantir um número mínimo de prisioneiros, quer a criminalidade cresça ou se reduza, o que a ADC considera uma exigência empresarial compreensível e benéfica. “Para o contribuinte, se não houvesse uma quota e a ocupação flutuasse de forma variável, o operador privado cobraria uma taxa diária muito mais elevada para garantir que recuperaria seu investimento”, diz o porta-voz Doug Nick. “Esse tipo de garantia mantém o custo relativamente estável e previsível”, acrescenta na conversa telefônica.
    No Arizona há prisões privadas  há cerca de vinte anos
    Mas o que acontece se a taxa de criminalidade cai, como no Colorado, e cada vez menos presos ingressam nas cadeias? “Nunca tivemos problemas para preencher as vagas, e nunca perdemos população carcerária. De fato, essa vem crescendo há décadas”, responde, com total segurança de que a situação não irá mudar. No Arizona, há prisões privadas há duas décadas. Atualmente, das 14 instalações do estado, quatro são de propriedade e gestão empresarial; e há outras seis privadas que só acolhem presos dos estados contíguos. Segundo o convênio de concessão, as autoridades do Arizona passarão a controlar as quatro penitenciárias 20 anos após sua abertura, o que a ADC também exalta como um benefício para o contribuinte.
    No conjunto dos EUA, em 2010, 8% dos presos estavam em penitenciárias privadas, segundo os últimos dados disponíveis. Trata-se de cerca de 128.000 reclusos numa população total de 1,6 milhões. Atualmente, segundo as estimativas de Carl Takei, advogado da American Civil Liberties Union (Aclu), a proporção poderia estar em torno de 12% nas instalações federais e pouco menos nas estatais. Além disso, no caso dos centros de detenção de imigrantes, poderia representar até 50%.
    A privatização das penitenciárias não parou de crescer desde os anos 80, quando surgiu o primeiro operador, mas foi na última década que disparou vigorosamente. Entre 1999 e 2010, o número de reclusos em prisões privadas aumentou 80%, muito acima dos 18% de aumento registrado no conjunto da população carcerária, segundo as estatísticas oficiais. Takei tem bem claro quais são as causas desse fenômeno: “Os EUA vivem uma epidemia de encarceramentos massivos. Entre 1970 e 2010, a cifra de presos cresceu 700% e isso impulsionou as empresas privadas”, argumenta. Assim, não surpreende que paralelamente ao crescimento do número de presos desde os anos 90, tenha havido também expansão das penitenciárias privadas. Além disso, nos últimos anos, essas empresas se beneficiaram do efeito da crise econômica ao oferecer custos supostamente mais baixos do que os do setor público a governos com necessidade cada vez maior de economizar. Entretanto, o documento do ITPI considera “ilusório” pensar que as quotas mínimas de ocupação das prisões acabem beneficiando os contribuintes. A entidade assegura que, por exemplo, no Arizona as prisões privadas acabaram custando 33 centavos a mais diariamente por recluso do que as públicas, enquanto que no Colorado a transferência dos 3.330 presos para cumprir a base mínima acarretou uma fatura de dois milhões de dólares.
    Um extremo que é negado pela principal empresa do setor, Corrections Corporation of America (CCA). “Fornecemos economia aos contribuintes, instalações seguras, redução da reincidência e uma importante flexibilidade nos contratos com os governos”, afirma um porta-voz em resposta dada por e-mail. Ele destaca também que só a metade de seus contratos tem quotas mínimas de ocupação, que estas não são rígidas e que se estabelecem para garantir os “custos fixos” da construção e administração das prisões.
    Como é previsível, o auge privatizador engrossou os resultados da CCA e de outro gigante do setor, a Geo Group. Por exemplo, no terceiro trimestre de 2013, a CCA registrou um lucro líquido de 51,8 milhões de dólares em comparação com os 42,3 milhões do mesmo período do ano anterior. Ambos os grupos cotizam na bolsa e sua elevada rentabilidade levou grandes entidades financeiras e bancos a investirem nelas, segundo explica o ativista Takei. Em seus relatórios públicos, as companhias admitem que o aumento da população carcerária repercute positivamente em seus resultados e que, em contraposição, o relaxamento dos procedimentos de detenção a imigrantes e das leis que regem a duração das penas podem representar riscos para os seus negócios.
    Nesse sentido, segundo o relatório de In the Public Interest, tanto a CCA como a Geo Group fazem intenso lobby para tentar endurecer as leis com o objetivo último de aumentar – ou, no mínimo, manter – a população carcerária. A primeira destinou 17,4 milhões de dólares para influenciar políticos entre 2002 e 2012, segundo dados do Center of Responsive Politics, uma entidade civil. Paralelamente, também fizeram generosas doações às campanhas de líderes políticos chave: entre 2003 e 2012, a CCa destinou 1,9 milhões a isso, enquanto a Geo Group,2,9 milhões.
    “Essas empresas mantêm relações muito estreitas com as autoridades políticas para tratar de conseguir mais contratos”, indica, por seu lado, Shar Habibi, diretora do departamento de pesquisa da ITPI. E, paralelamente, na busca do maior lucro empresarial, ambas as companhias tentam reduzir ao máximo os “custos operacionais” das suas prisões para converter em lucro os aportes que recebem dos governos. Isso se traduz, critica, em ter o pessoal estritamente necessário ou economizar na manutenção das instalações, na segurança e nos salários, o que costuma acarretar a contratação de trabalhadores sem a qualificação necessária. E tudo isso pode gerar um coquetel explosivo que, em alguns casos, desencadeou maus tratos aos presos, aumento dos conflitos e, inclusive, na fuga de reclusos.
    Habibi garante que, em geral, os estados mantêm uma severa supervisão das condições das prisões privadas, mas que, quando essa relaxa ou deixa de ser regular, os operadores privados tendem a tratar de administrar as prisões “abaixo das normas”, a fim de reduzir ainda mais seus custos. E, em alguns casos, a situação foge do controle, como acaba de acontecer numa prisão da CCA no estado de Idaho. No início de janeiro, as autoridades anunciaram que iriam retirar a concessão da empresa depois de diversas denúncias de violência e negligências dos trabalhadores. A CCA reconheceu no ano passado que falsificou os relatórios entregues ao Governo sobre a jornada de trabalho de seus empregados ao notificar que estavam trabalhando em momentos em que, na verdade, seus postos estavam absolutamente vacantes. Não se trata de um episódio isolado, pois o relatório do ITPI inclui exemplos muito parecidos em outras prisões do país. E, em casos como o de Idaho, o resgate público acaba fazendo disparar o orçamento de administração da prisão e são os contribuintes os que acabam pagando o pato. É o lado obscuro do auge da privatização carcerária nos EUA.

    Evento do MST homenageia sem terras mortos em Campos-RJ

    CIDADES E REGIÃO - Homenagem

    Evento do MST homenageia sem terras mortos em Campos

    Cícero Guedes e Regina dos Santos foram lembrados pelos companheiros
    Mayara Fernandes

    Cícero Guedes e Regina dos Santos foram lembrados pelos companheiros

    A manhã desta sexta-feira (23/01) em Campos começou com homenagens a um dos coordenadores do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), Cícero Guedes dos Santos, na semana em que sua morte completa um ano.
    Cícero foi assassinado com vários disparos que atingiram a cabeça e as regiões lombar e dorsal. Ele foi encontrado na manhã do dia 26 de janeiro em uma estrada vicinal, próximo à Usina Cambaíba.
    O evento também relembrou a morte da assentada Regina dos Santos Pinho, encontrada morta dentro de sua casa, no assentamento Zumbi dos Palmares 4, na localidade de Campelo, no dia seis de fevereiro.
    O evento reuniu representantes do MST, parte dos acampados, entre outros convidados, na Praça do Santíssimo Salvador, no Centro do município. Para representar a plantação e a colheita dos alimentos, os assentados montaram uma espécie de horta com mandioca, banana, laranja, limão e mudas de plantas.
    “Vai fazer um ano que o Cícero e a Regina morreram e organizamos este evento para celebrar a vida e mostrar o quanto eles contribuíram para essa luta que não pode parar”, ressaltou um dos coordenadores do MST, Hermes Oliveira.
    Olhando a montagem dos alimentos, o agricultor Romildo Ribeiro da Mota, relembrou as vezes que acampou em companhia de Cícero.“Ele faz muita falta para o movimento. O meu amigo lutava com todas as forças para conseguir ajudar as pessoas. Por todos os anos de amizade eu, assim como todos, quero justiça. Esperamos que os culpados pela morte dele sejam presos”, declarou.
    Para uma das diretoras do MST no estado do Rio, Mariana dos Santos, o evento foi um ato de solidariedade. “Eles foram um exemplo de luta pela dignidade e dedicaram suas vidas pela luta e conquista da terra. Eu conhecia o Cícero desde quando ele entrou no movimento, há uns 20 anos. Temos que ser solidários com os amigos e a família. Vamos levar esses exemplos para continuar lutando”, disse emocionada.
    Durante a celebração, amigos e representantes fizeram comentários e para encerrar o evento participaram de um culto ecumênico. Os alimentos foram doados no local.



    Postado por: Mayara Fernandes

    Fonte: Mayara Fernandes- Estagiária

    Siga: twitter.com/siteururau

    Anterior Proxima Inicio