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segunda-feira, 7 de agosto de 2017

John Pilger / O chamamento da guerra nuclear

O chamamento da guerra nuclear


por John Pilger
O comandante do submarino dos EUA diz: "Todos nós vamos morrer um dia, alguns mais cedo e outros mais tarde. O perturbador sempre foi que nunca se está pronto para isso, pois não se sabe quando é que chega o momento. Bem, agora sabemos e não há nada a fazer".

Ele diz que estará morto em Setembro. Levará cerca de uma semana para morrer, embora ninguém possa estar muito certo. Os animais viverão mais.

A guerra acabou em um mês. Os Estados Unidos, a Rússia e a China foram os protagonistas. Não está claro se foi começada por acidente ou por erro. Não houve vitorioso. O hemisfério norte está contaminado e agora sem vida.

Uma cortina de radioactividade está a mover-se rumo à Austrália e Nova Zelândia, ao sul da África e à América do Sul. Em Setembro, as últimas cidades e aldeias sucumbirão. Tal como no norte, a maior parte dos edifícios permanecerão intactos, alguns iluminados pelos últimos vislumbres de luz eléctrica.

Este é o modo como o mundo acaba
Não com um estrondo, mas com um suspiro 


Estas linhas do poema de T.S. Eliot, The Hollow Men (Os homens vazios), surgem no início do romance On the Beach (Na praia) de Nevil Shute, o qual me deixou próximo às lágrimas. Os endossos impressos na capa diziam o mesmo.

Publicado em 1957 na altura da Guerra Fria, quando tantos escritores estavam silenciosos ou acovardados, é uma obra-prima. A princípio a linguagem sugere uma relíquia refinada; mas nada do que li sobre guerra nuclear é tão implacável como a sua advertência. Nenhum outro livro é tão urgente.

Alguns leitores recordarão o filme a branco e preto de Hollywood estrelado por Gregory Peck como comandante da US Navy que leva seu submarino para a Austrália a fim de aguardar o espectro silencioso e informe descer sobre o último ser vivo do mundo.

Li On the Beach pela primeira vez há poucos dias, terminando-o quando o Congresso dos EUA aprovou uma lei para travar guerra económica à Rússia, a segunda mais letal potência nuclear do mundo. Não havia justificação para esta votação insana, excepto a ânsia da pilhagem.

As "sanções" também se destinam à Europa, principalmente à Alemanha, a qual depende do gás natural russo, e a companhias europeias que fazem negócios legítimos com a Rússia. Naquilo que passou por debate no Capitol Hill, o mais palrador dos senadores não deixou dúvida de que o embargo se destinava a forçar a Europa a importar o dispendioso gás americano.

Seu objectivo principal parece ser a guerra – a guerra real. Nenhuma provocação tão extrema pode sugerir qualquer outra coisa. Eles parecem almejar isto, muito embora os americanos tenham pouca ideia do que é a guerra. A Guerra Civil de 1861-65 foi a última no seu território. Guerra é o que os Estados Unidos fazem aos outros.

O único país a ter utilizado armas nucleares contra seres humanos. Desde então eles destruíram grande número de governos, muitos deles democracias, e destruíram sociedades inteiras – os milhões de mortos no Iraque foram um fracção da carnificina na Indochina, a qual o presidente Reagan chamou de "nobre causa" e o presidente Obama corrigiu como a tragédia de um "povo excepcional". Ele não estava a referir-se aos vietnamitas.

Ao filmar no ano passado no Lincoln Memorial, em Washington, ouvi acidentalmente um guia do National Parks Service a dar uma lição a um grupo de escolares adolescentes: "Ouçam", disse ele. "Nós perdemos 58 mil jovens soldados no Vietname e eles morreram a defender a vossa liberdade".

De repente, a verdade era invertida. Nenhuma liberdade foi defendida. A liberdade foi destruída. Um país de camponeses foi invadido e milhões do seu povo foram mortos, mutilados, expulsos, envenenados, 60 mil dos invasores puseram fim à sua própria vida. Ouçam, realmente.

Uma lobotomia é executada a cada geração. Os factos são removidos. A história é expurgada e substituída pelo que a revista Time chama "um eterno presente". Harold Pinter descreveu isto como "manipulação de poder à escala mundial, mascarando-se como uma força para o bem universal, um brilhante, mesmo brilhante, acto de hipnose com grande êxito [o que quer dizer] que nunca aconteceu. Nada alguma vez aconteceu. Mesmo enquanto estava a acontecer não estava a acontecer. Não importava. Não tinha interesse".

Aqueles que se auto-denominam liberais ou tendenciosamente "a esquerda" são participantes ávidos desta manipulação e desta lavagem cerebral, a qual hoje reverte a um nome: Trump.

Trump é louco, um fascista, um tolo da Rússia. Ele também é uma prenda para "cérebros liberais conservados no formaldeído da política de identidade", escreveu Luciana Bohne de modo inesquecível. A obsessão com Trump como homem – não Trump como um sintoma e uma caricatura de um sistema duradouro – atrai grande perigo para todos nós.

Enquanto prosseguem suas fossilizadas agendas anti-russas, media narcisistas tais como o Washington Post, a BBC e o Guardian omitem a essência da mais importante narrativa política do nosso tempo pois fomentam a guerra numa escala de que não posso recordar-me ao longo da minha vida.

Em 3 de Agosto, em contraste com a extensão que o Guardian tem dado à idiotice de que os russos conspiraram com Trump (o que recorda a difamação da extrema-direita de John Kennedy como "agente soviético"), o jornal enterrou, na página 16, a notícia de que o presidente dos Estados Unidos fora forçado a assinar uma lei do Congresso declarando guerra económica à Rússia. Ao contrário de todas as outras assinaturas de Trump, esta foi efectuada em segredo virtual e acrescentada com uma advertência do próprio Trump de que era "claramente inconstitucional".

Está a caminho um golpe contra o homem na Casa Branca. Não por ele ser um ser humano odioso, mas sim porque firmemente deixou claro que não quer guerra com a Rússia.

Este vislumbre de sanidade, ou de simples pragmatismo, é anátema para os administradores da "segurança nacional" que defendem um sistema baseado na guerra, vigilância, armamentos, ameaça e capitalismo extremo. Martin Luther King chamou-os "os maiores fornecedores de violência no mundo de hoje".

Eles cercaram a Rússia e a China com mísseis e um arsenal nuclear. Eles utilizaram neo-nazis para instalar um regime instável e agressivo na fronteira da Rússia – o caminho pelo qual Hitler invadiu, provocando as mortes de 27 milhões de pessoas. O seu objectivo é desmembrar a moderna Federação Russa.

Em resposta, "parceria" é uma palavra usada incessantemente por Vladimir Putin – qualquer coisa, parece, que possa travar nos Estados Unidos um impulso evangélico para a guerra. A incredulidade na Rússia pode agora ter-se transformado em medo e talvez uma certa resolução. Os russos quase certamente têm contra-ataques nucleares preparados. Ensaios de ataques aéreos não são incomuns. A sua história diz-lhes para estarem preparados.

Protestos contra o Talisman Sabre.A ameaça é simultânea. A Rússia é a primeira. A China é a seguir. Os EUA acabam de completar um enorme exercício militar com a Austrália conhecido como Talisman Sabre . Eles treinaram um bloqueio dos Estreitos de Malaca e do Mar do Sul da China, através dos quais passam as linha económicas vitais da China.

O almirante a comandar a frota estado-unidense do Pacífico disse que, "se necessário", ele atacaria a China com armas nucleares. Que ele dissesse tal coisa publicamente na actual atmosfera pérfida começa a tornar facto a ficção de Nevil Shute.

Nada disto é considerado notícia. Nenhuma ligação é feita quando se recorda o festim sangrento dePasschendaele um século atrás. A reportagem honesta já não é bem vinda na maior parte dos media. Pessoas enfatuadas, conhecidas como sabichonas, dominam: editores são administradores de info-entretenimento ou da linha do partido. Onde outrora havia edição, há agora o despejar de clichés para trituração. Aqueles jornalistas que não cumprem são defenestrados.

A urgência tem muitos antecedentes. No meu filme, The Coming War on China (A guerra vindoura à China), John Bordne, membro da equipe de combate de mísseis da US Air Force baseada em Okinawa, Japão, descreve como em 1962 – durante a crise cubana dos mísseis – foi dito a ele e aos seus colegas "para lançar todos os mísseis" a partir dos seus silos.

Armados com o nuclear, os mísseis destinavam-se tanto à China como à Rússia. Um oficial júnior questionou isto e a ordem acabou por ser revogada – mas só depois de terem sido emitidas com revólveres apontados e ordem para atirar numa equipe de míssil se eles não cumprissem.

Na altura da Guerra Fria, a histeria anti-comunista nos Estados Unidos era tal que responsáveis estado-unidenses que foram à China em negócios oficiais foram acusados de traição e despedidos. Em 1957 – o ano em que Shute escreveu On the Beach – nenhum responsável no Departamento de Estado podia falar a língua do país mais populoso do mundo. Falantes de mandariam eram expurgados sob restrições agora reflectidas na lei que o Congresso acabou de aprovar, destinada à Rússia.

A lei foi bipartidária. Não há diferença fundamental entre Democratas e Republicanos. Os termos "esquerda" e "direita" são sem significado. A maior parte das guerras modernas da América foram iniciadas não por conservadores mas sim por liberais democratas.

Quando Obama terminou o seu mandato havia presidido um recorde de sete guerras, incluindo a mais longa guerra da América, e uma campanha sem precedentes de mortes extrajudiciais – assassinatos – através de drones.

OBAMA: TRÊS BOMBAS POR HORA, 24 HORAS POR DIA 

No seu último ano de mandato, segundo um estudo do Council on Foreign Relations, o "relutante guerreiro liberal", lançou 26.171 bombas – três bombas por hora, 24 horas por dia. Tendo prometido ajudar a "livrar o mundo" de armas nucleares, o laureado com o Prémio Nobel da Paz construiu mais ogivas nucleares do que qualquer outro presidente desde a Guerra Fria.

Trump é um fraco em comparação. Foi Obama – com a sua secretária de Estado Hillary Clinton ao lado – quem destruiu a Líbia como estado moderno e lançou a debandada humana para a Europa. Internamente, grupos de imigração conhecem-no como o "deportador em chefe".

Um dos últimos actos de Obama como presidente foi assinar uma lei que entrega um recorde de US$618 mil milhões ao Pentágono, reflectindo a ascendência crescente do militarismo fascista na governação dos Estados Unidos. Trump endossou isto.

Enterrado nos pormenores estava o estabelecimento de um "Centro para Análise de Informação e Resposta". Isto é um ministério da verdade. A sua tarefa é providenciar uma "narrativa oficial dos factos" que nos preparará para a possibilidade real da guerra nuclear – se nós o permitirmos. 
04/Agosto/2017

O original encontra-se em johnpilger.com/articles/on-the-beach-2017-the-beckoning-of-nuclear-war e emwww.globalresearch.ca/on-the-beach-2017/5602709 

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Provocar uma guerra nuclear através dos media

Provocar uma guerra nuclear através dos media

 John Pilger     07.Nov.16     Outros autores
Há muito que os grandes media internacionais deixaram de ser verdadeiros órgãos de informação. Hoje são uma peça essencial nas estratégias do imperialismo, e os exemplos acumulam-se à medida que a agressão imperialista sobe de tom. Cada vez mais é necessário lê-los como os portugueses liam a imprensa do regime fascista: se informam de uma coisa, é porque é mentira; se atacam alguém, provavelmente é apenas porque esse alguém os incomoda.

Um homem acusado do pior dos crimes (genocídio) foi declarado inocente. O assunto não fez manchetes. Nem a BBC nem a CNN deram cobertura ao caso. O The Guardian permitiu um breve comentário. Um reconhecimento oficial raro, como este, foi enterrado ou suprimido, compreensivelmente. Explicaria muito bem como governam os governantes do mundo.
O Tribunal Penal Internacional para a antiga Jugoslávia (TPIAJ), em Haia, absolveu discretamente o malogrado presidente sérvio, Slobodan Milosevic, dos crimes de guerra cometidos durante a guerra da Bósnia de 1992-1995, incluindo o massacre de Srebrenica.
Longe de ter conspirado com o líder bósnio-sérvio condenado Radovan Karadzic, na verdade Milosevic “condenou a limpeza étnica”, opôs-se a Karadzic e tentou impedir a guerra que desmembrou a Jugoslávia. Escondida quase no fim de um veredicto de 2 590 páginas sobre Karadzic em Fevereiro passado, esta evidência destrói a propaganda que justificou o massacre ilegal da NATO na Sérvia em 1999.
Milosevic morreu de ataque cardíaco em 2006, sozinho na sua cela em Haia, durante o que se revelou um julgamento fantoche num “tribunal internacional” inventado pelos americanos. Foi-lhe negada uma cirurgia cardíaca que poderia ter-lhe salvo a vida, a sua condição deteriorou-se e foi monitorizada e mantida sem segredo por oficiais dos EUA, como o Wikileaks revelou.
Milosevic foi vítima da propaganda de guerra que hoje corre pelos nossos ecrãs e jornais como uma torrente e representa grande perigo para todos nós. Ele era o protótipo do demónio, vilipendiado pelos media ocidentais como o “carniceiro dos Balcãs” responsável pelo “genocídio”, especialmente na província separatista do Kosovo. Afirmou-o o Primeiro-ministro Tony Blair, que invocou o Holocausto e instou à tomada de medidas contra “este novo Hitler”. David Scheffer, o embaixador itinerante dos EUA para os crimes de guerra [sic], declarou que cerca de “225 000 homens de etnia albanesa”, com idades entre os 14 e os 59” poderão ter sido assassinados pelas forças de Milosevic.
Foi esta a justificação para o bombardeamento da NATO, liderado por Bill Clinton e Tony Blair, que matou centenas de civis em hospitais, escolas, igrejas, parques e estúdios de televisão e destruiu a infra-estrutura económica da Sérvia. A motivação foi claramente ideológica; numa célebre “conferência pela paz” em Rambouillet, Milosevic foi confrontado por Madeleine Albright, a Secretária de Estado norte-americana, que observou, de forma infame, que as mortes de meio milhão de crianças iraquianas valeram “a pena”.
Albright fez chegar a Milosevic uma “oferta” que nenhum líder nacional poderia aceitar. A não ser que aceitasse a ocupação militar estrangeira do seu país, com as forças de ocupação “fora do processo legal”, e a imposição de um “mercado livre” neoliberal, a Sérvia seria bombardeada. Esta informação constava dum “Apêndice B”, que os media não leram ou suprimiram. O objectivo era esmagar o último estado independente “socialista” da Europa.
Quando a NATO começou o bombardeamento, houve uma debandada de refugiados kosovares “fugindo de um holocausto”. Quando acabou, equipas internacionais de polícias foram ao Kosovo exumar as vítimas do “holocausto”. O FBI não conseguiu encontrar uma única vala comum e retirou-se. A equipa forense espanhola fez o mesmo, com o seu chefe denunciando, irritado, “uma pirueta semântica por parte das máquinas de propaganda de guerra”. A contagem final dos mortos no Kosovo foi de 2 788. Este número incluiu combatentes de ambos os lados e sérvios e Roma assassinados pela Frente Nacional do Kosovo, que era pró-NATO. Não houve genocídio. O ataque da NATO foi uma fraude e um crime de guerra.
Apenas uma fracção dos apregoados misseis de “precisão” dos EUA atingiu alvos militares e não civis, incluindo os estúdios noticiosos da Rádio Televisão Sérvia, em Belgrado. Dezasseis pessoas foram assassinadas, incluindo operadores de câmara, produtores e uma maquilhadora. Blair descreveu os mortos, de modo obsceno, como parte do “comando e controlo” da Sérvia. Em 2008, o procurador do TPIAJ, Carla Del Ponte, revelou que tinha sido pressionada para não investigar os crimes da NATO.
Foi este o modelo de Washington para as subsequentes invasões do Afeganistão, Iraque, Líbia, e, de modo oculto, a Síria. Todas são “crimes maiores”, de acordo com os padrões de Nuremberga. Todas dependem da propaganda mediática. Enquanto o jornalismo dos tablóides desempenhava o seu papel tradicional, o jornalismo mais eficaz era o jornalismo liberal sério e credível; a promoção evangélica de Blair e das suas guerras pelo The Guardian, as mentiras incessantes sobre as não existentes armas de destruição maciça no Observer e no New York Times, e os persistentes tambores da propaganda governamental da BBC no silêncio das suas omissões.
No momento mais intenso do bombardeamento, Kirsty Wark, da BBC, entrevistou o General Wesley Clark, comandante da NATO. A cidade sérvia de Nis acabara de ser varrida com bombas de fragmentação norte-americanas, matando mulheres, velhos e crianças numa feira e num hospital. Wark não fez uma única pergunta sobre isto, ou sobre quaisquer outras mortes de civis. Outros foram mais descarados. Em Fevereiro de 2003, um dia depois de Blair e Bush terem posto o Iraque em chamas, Andrew Marr, o editor de política da BBC, estava em Downing Street e proferiu praticamente um discurso de vitória. Disse entusiasticamente aos espectadores que Blair “afirmara que seriam capazes de tomar Bagdad sem um banho de sangue e que, no fim, os iraquianos iriam celebrar. E em ambos os casos ele está comprovadamente certo.” Hoje, depois de um milhão de mortos e com uma sociedade em ruínas, as entrevistas da BBC com Marr são recomendadas pela embaixada dos EUA em Londres. Os colegas de Marr prontificaram-se a perdoar Blair. O correspondente da BBC em Washington, Matt Frei, afirmou “Não há dúvida de que o desejo de trazer o bem, levar os valores americanos ao resto do mundo, e em especial ao Médio Oriente … está agora cada vez mais ligado ao poder militar.”
Esta reverência aos EUA e seus colaboradores como uma força benigna que “traz o bem” está profundamente enraizada no jornalismo mainstream ocidental. Ela garante que a responsabilidade da actual catástrofe na Síria é atribuída exclusivamente a Bashar al-Assad, que o Ocidente e Israel há muito conspiram para derrubar, não por quaisquer preocupações humanitárias, mas para consolidar o poder agressivo de Israel na região. As forças jihadistas aproveitadas e armadas pelos EUA, a Inglaterra, a França, a Turquia, e os representantes de “coligação” servem este objectivo. São eles que distribuem a propaganda e os vídeos que se tornam notícia nos EUA e na Europa e dão acesso a jornalistas e garantem uma “cobertura” unilateral dos acontecimentos na “Síria”.
A cidade de Alepo está nas notícias. A maior parte dos leitores e espectadores não saberão que a maioria da população de Alepo vive na parte ocidental da cidade controlada pelo governo. Que sofrem bombardeamentos diários de artilharia da al-Qaida, patrocinada pelo Ocidente, não vem nas notícias. A 21 de Julho, bombardeiros norte-americanos e franceses atacaram uma aldeia governamental na província de Alepo, matando cerca de 125 civis. Isto foi relatado na página 22 do The Guardian; sem fotografias.
Tendo criado e mantido o jihadismo no Afeganistão nos anos 1980 como a Operação Ciclone (uma arma para destruir a União Soviética), os EUA estão a fazer algo semelhante na Síria. Como os mujahidins afegãos, os “rebeldes” sírios são os soldados rasos dos EUA e da Inglaterra. Muitos lutam pela al-Qaida e pelas suas variantes; alguns, como a Frente Nusra, reviram a sua imagem para não ferir susceptibilidades nos EUA por causa do 11 de Setembro. A CIA vai governando-os com dificuldade, tal como governa jihadistas em todo o mundo.
O objectivo imediato é destruir o governo em Damasco, que, de acordo com a sondagem mais credível (YouGov Siraj), a maioria dos sírios apoia, ou pelo menos procura por protecção, apesar das barbaridades por que é responsável. O objectivo de longo prazo é negar à Rússia um aliado fundamental no Médio Oriente como parte de uma guerra de desgaste contra a Federação Russa que eventualmente a destrua.
O risco nuclear é óbvio, apesar de suprimido pelos media em todo o “mundo livre”. Os editores do Washington Post, tendo promovido a ficção das armas de destruição maciça, pedem a Obama que ataque a Síria. Hillary Clinton, que publicamente exultou com o seu papel de carrasco durante a destruição da Líbia, repetiu que, como presidente, irá “mais longe” que Obama.
Gareth Porter, um jornalista clandestino a trabalhar em Washington, revelou recentemente os nomes de pessoas que provavelmente integrariam um gabinete de Clinton, que planeiam um ataque à Síria. Todas têm histórias beligerantes durante a guerra-fria; o antigo director da CIA, Leon Panetta, afirma que “o próximo presidente terá de considerar acrescentar mais forças especiais no terreno”.
O que é mais notável acerca da propaganda de guerra actual é o óbvio absurdo e a familiaridade. Tenho visto imagens de arquivo de Washington nos anos 1950, quando diplomatas, funcionários públicos e jornalistas foram alvo de uma caça às bruxas e arruinados pelo Senador Joe McCarthy, por desafiar as mentiras e paranóia sobre a União Soviética e a China. Como um tumor em recidiva, o culto anti-Rússia voltou.
Em Inglaterra, Luke Harding, do The Guardian, dirige os opositores à Rússia do seu jornal numa série de paródias jornalísticas que atribuem a Vladimir Putin todas as iniquidades à face da Terra. Quando a fuga de informação dos Panama Papers foi publicada, a primeira página referia Putin, e publicou uma fotografia de Putin; pouco importa o facto de Putin não ter sido mencionado em parte alguma nos documentos.
Tal como Milosevic, Putin é o demónio número um. Foi Putin quem abateu um avião malaio que sobrevoava a Ucrânia. Manchete: “Tanto quanto me diz respeito, Putin assassinou o meu filho.” Sem provas. Foi atribuído a Putin o derrube, pelo qual Washington foi responsável (e pelo qual pagou), como está documentado, do governo eleito em Kiev, em 2014. A subsequente campanha de terror por milícias fascistas contra a população russa de fala ucraniana foi o resultado da “agressão de Putin”. Impedir a Crimeia de se tornar uma base de mísseis da NATO e proteger a população maioritariamente russa que votou num referendo voltar a juntar-se à Rússia (da qual a Crimeia fora anexada) foram mais exemplos da “agressão” de Putin. A difamação mediática transforma-se inevitavelmente em guerra mediática. Se a guerra com a Rússia rebentar, planificada ou por acidente, os jornalistas terão muita responsabilidade.
Nos EUA, a campanha anti-Rússia foi elevada a realidade virtual. O colunista do New York Times Paul Krugman, um economista com o Prémio Nobel, chamou a Donald Trump o “candidato siberiano” porque Trump é, afirma, o homem de Putin. Trump atrevera-se a sugerir, num raro momento de lucidez, que a guerra com a Rússia poderia ser uma má ideia. De facto, ele foi mais longe e retirou carregamentos de armas norte-americanas para a Ucrânia da plataforma republicana. “Seria óptimo se nos entendêssemos com a Rússia”, afirmou.
É por esta razão que o establishment liberal beligerante o odeia. O racismo de Trump e os seus devaneios demagogos nada têm que ver com isso. O racismo e o extremismo de Bill e Hillary Clinton vão muito mais longe que os de Trump. (Esta semana assinala o 20º aniversário da “reforma” da segurança social de Clinton, que lançou uma guerra contra os afro-americanos). Quanto a Obama, enquanto a polícia dos EUA dispara sobre os seus congéneres afro-americanos, esta grande esperança da Casa Branca nada fez para os proteger, nada para aliviar o seu empobrecimento, enquanto travava quatro guerras de rapina e uma campanha de assassinatos sem precedentes.
A CIA exigiu que Trump não seja eleito. Os generais do Pentágono exigiram que ele não seja eleito. O belicista New York Times, fazendo uma pausa na sua contínua campanha contra Putin, exige que ele não seja eleito. Alguma coisa se passa. Estes tribunos da “guerra perpétua” estão cheios de medo de que o negócio da guerra de muitos biliões de dólares, através do qual os EUA mantêm o seu domínio, seja ameaçados se Trump fizer um acordo com Putin, e depois com Xi Jinping, da China. O seu pânico perante a possibilidade, mesmo que altamente improvável, da grande potência mundial discutir a paz, seria a mais negra das farsas, se o assunto em causa não fosse tão preocupante.
“Trump teria adorado Stalin!”, vociferou o vice-presidente Joe Biden num comício por Hillary Clinton. Com Clinton acenando com a cabeça, gritou, “Nós nunca nos curvamos. Nunca nos dobramos. Nunca ajoelhamos. Não pedimos. A meta é nossa. É isso que somos. Somos a América!”
Na Inglaterra, Jeremy Corbyn foi também alvo de histeria dos belicistas no Labour Party e duns media que se dedicam a destruí-lo. Lord West, antigo almirante e ministro do trabalho, pôs bem a questão. Corbyn tomou uma “escandalosa” posição antiguerra “porque isso faz as massas não pensantes votarem nele”.
Pressionado para dizer se autorizaria a guerra contra a Rússia “se tivesse de o fazer”, Corbyn respondeu: “não quero a guerra; o que quero é que possamos ter um mundo em que não precisemos de nos envolver em guerras.”
O tipo de perguntas deve muito à ascensão dos belicistas liberais ingleses. O Partido Trabalhista e os media há muito que lhes oferecem oportunidades de carreira. Durante um tempo. Durante algum tempo, o tsunami moral do grande crime iraquiano deixou-os em dificuldades, as suas distorções da verdade deixaram-nos temporariamente embaraçados. Apesar de Chilcot e da montanha de factos incriminadores, Blair permanece a sua inspiração, porque foi um “vencedor”.
O jornalismo e a investigação independentes têm sido sistematicamente banidos ou apropriados, e as ideias democráticas esvaziadas e preenchidas com “políticas de identidade” que confundem género com feminismo e o protesto público com libertação e ignoram deliberadamente a violência de estado e o negócio das armas que destrói vidas incontáveis em locais distantes como o Iémen e a Síria e acenam à guerra nuclear na Europa e em todo o mundo.
A agitação de pessoas de todas as idades em torno da espectacular ascensão de Jeremy Corbyn contraria este aspecto até certo ponto. Ele passou a sua vida a chamar a atenção para os horrores da guerra. O problema para Corbyn e os seus apoiantes é o Partido Trabalhista. Nos EUA, o problema para os milhares de apoiantes de Bernie Sanders era o Partido Democrático, para não mencionar a sua maior traição, da sua grande esperança branca. Nos EUA, pátria dos grandes movimentos pelos direitos civis e antiguerra, são movimentos como o Black Lives Matter e o Codepink que criam as raízes duma versão moderna.
Porque apenas um movimento que se afirme em cada rua e além-fronteiras e que não desiste pode parar os belicistas. No próximo ano, fará um século desde que Wilfred Owen escreveu estes versos. Todos os jornalistas deveriam lê-los e lembrar-se deles…
Se puderes ouvir, em cada abalo, o sangue
Gargarejando dos pulmões em espuma,
Canceroso, acre e regurgitado,
De feridas torpes, incuráveis, em línguas inocentes,
Meu amigo, não dirias com esse entusiasmo,
A crianças que ardem por uma glória desesperada,
A velha mentira: Dulce et decorum est
Pro patria mori [1]
[1] Nota do tradutor: versos do poeta latino Horácio: “Doce e glorioso é morrer pela pátria”.

Tradução de André Rodrigues
                

sábado, 15 de outubro de 2016

Jorge Cadima :Ameaças

Ameaças*

 Jorge Cadima     14.Oct.16     Outros autores
Recrudesce a agressividade do discurso do círculo dirigente dos EUA contra a Rússia capitalista. Um chefe militar fala em “esmagá-la”, outro praticamente anuncia uma escalada terrorista em território russo. A voz do partido da guerra soa cada vez mais alto, e concentra-se no ataque à segunda maior potência nuclear do mundo. Nunca a luta pela paz e contra a loucura belicista foi tão urgente.

O Chefe de Estado Maior do Exército dos EUA, Gen. Milley, ameaçou num discurso oficial: «quero ser muito claro com aqueles que se tentam opor aos Estados Unidos […] vamos travar-vos e vamos esmagar-vos de forma mais dura do que alguma vez vos tenham esmagado» (no YouTube, e citado em www.military.com, 5.10.16). A ameaça é dirigida à segunda maior potência nuclear do planeta, a Rússia. Outra ameaça veio do porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros dos EUA: «grupos extremistas irão expandir as suas operações, incluindo – sem qualquer dúvida – ataques a interesses russos, talvez mesmo contra cidades russas» (NYT, 29.9.16). Um editorial do New York Times  (29.9.16) tem o título «O Estado fora-da-lei de Vladimir Putin». Porquê tamanha histeria contra a Rússia capitalista?
O acordo de cessar-fogo na Síria, assinado por Kerry e Lavrov, foi enterrado em poucas horas pelo ataque dos EUA que matou quase 100 soldados sírios que defendiam a cidade de Deir-ez-Zor, cercada pelo ISIL. Ataque que Kerry afirmou ter sido um «erro», mas sobre o qual o Chefe de Estado Maior General dos EUA, Gen. Dunford, tem outra opinião: «pode ser que, após concluída a investigação […] digamos que voltaríamos a fazer o que fizemos» (Reuters, 19.9.16). A aparente insubordinação militar vinha de trás: o New York Times (13.9.16) deu (timidamente) conta duma conferência de imprensa no Pentágono em que os militares dos EUA se recusavam a prometer cumprir a sua parte do acordo assinado por Kerry. Já aquando da sua nomeação, o Gen. Dunford afirmara que «a Rússia era a principal ameaça aos EUA», referindo «como as mais importantes ameaças seguintes à segurança dos EUA, e por essa ordem, a China, a Coreia do Norte e o Estado Islâmico» (Washington Post, 9.7.15). O ministro da Defesa de Obama concorda: «Ashton Carter listou a hierarquia de ameaças aos Estados Unidos, que incluía a China, a Coreia do Norte, o Irão e, por fim, a luta contra o terrorismo. Mas o seu alvo prioritário foi a Rússia» (editorial do NYT, 3.2.16). Num artigo na USA Today (11.2.16), com o título «Wesley Clark: Na Síria, a Rússia é a verdadeira ameaça», o ex-chefe da NATO na guerra contra a Jugoslávia afirma «temos de reconhecer que […] a ameaça maior é a Rússia». Afirmando que «Bashar al-Assad e a Rússia estão a ganhar no terreno», Clark acrescenta: «não podemos deixar que […] os jihadistas “bons” financiados pelos nossos aliados sejam marginalizados». A ficção da «luta contra o terrorismo» deixa cair a máscara.

Há anos que os EUA impõem pela força a sua vontade. Quem se recusa a cumprir ordens é vítima de sanções económicas, «revoluções coloridas», exércitos terroristas a seu soldo, invasões e guerras. Poucos são hoje os governos que se atrevem a votar contra as potências imperialistas na ONU. A Rússia, para lá do seu sistema social ou das questões de classe, é objecto dum cerco cada vez mais evidente. A NATO foi alargada até às suas portas. Os vassalos dos EUA provocam-na para a guerra (Geórgia em 2008, Ucrânia em 2014, Polónia em 2016). Quem se pode surpreender se depois de ver o destino da Jugoslávia, Iraque ou Líbia, os dirigentes russos chegarem à conclusão que enfrentar os EUA é uma questão de vida ou de morte para o seu país? Salvar o (legítimo, reconhecido pelos próprios EUA!) governo sírio e travar o monstro da guerra imperialista na Síria é tentar impedir que ele chegue ao seu próprio país. Para os EUA, uma derrota da sua guerra interposta contra a Síria seria um golpe profundo no seu poderio hegemónico. É por isso que o Gen. Milley invectiva contra «aqueles que se tentam opor aos Estados Unidos» e ameaça «esmagá-los».
Mas a Rússia, ao contrário de anteriores alvos, tem armas nucleares. A parada é enorme, e os perigos são assustadores. Não há guerras inevitáveis. Mas há um partido da guerra, que ganhou força com a crise do capitalismo. Só quem ignora a História e a natureza do imperialismo pode estar descansado. Nunca a luta pela paz e contra a loucura belicista foi tão urgente.
Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2237, 13.10.2016
                

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

John Pilger / Eles provocam a guerra nuclear através dos media

Eles provocam a guerra nuclear através dos media


por John Pilger
Slobodan Milosevic.A absolvição de um homem acusado do pior dos crimes, o genocídio, não provocou manchetes. Nem a BBC nem a CNN cobriram isto. Só o Guardian permitiu um breve comentário. Uma tão rara confissão oficial foi enterrada ou ocultada, compreensivelmente. Ela explicaria demasiado acerca do modo como os dominadores do mundo governam.

O Tribunal Penal Internacional para a antiga Jugoslávia (ICTY, na sigla em inglês), em Haia, silenciosamente absolveu o falecido presidente sérvio, Slobodan Milosevic, de crimes de guerra cometidos durante a guerra da Bósnia de 1992-95, incluindo o massacre de Srebrenica.

Longe de conspirar com o condenado líder bósnio-sérvio Radovan Karadzic, Milosevic realmente "condenou a limpeza étnica", opôs-se a Karadzic e tentou impedir a guerra que desmembrou a Jugoslávia. Enterrada no fim de uma sentença de 2.590 páginas sobre Karadzic, em Fevereiro último, esta verdade mais uma vez demole a propaganda que em 1999 justificou a carnificina ilegal da NATO na Sérvia.

Milosevic morreu de um ataque de coração em 2006, sozinho na sua cela em Haia, durante a uma farsa de julgamento inventado por um "tribunal internacional" americano. Recusada a cirurgia que poderia ter salvo sua vida, a sua condição de saúde agravou-se e foi monitorada e mantida secreta por responsáveis dos EUA, como revelou a WikiLeaks.

Milosevic foi a vítima da propaganda de guerra que hoje flui como uma torrente através dos nossos écrans e jornais e acena com grandes perigos para todos nós. Ele foi o protótipo do demónio, vilipendiado pelos media ocidentais como o "carniceiro dos Balcãs" responsável por "genocídios", especialmente na província jugoslava secessionista do Kosovo. O primeiro-ministro Tony Blair disse isso, mencionou o Holocausto e exigiu acção contra "este novo Hitler". David Scheffer, o embaixador itinerante dos EUA para crimes de guerra (sic), declarou que até "225 mil albaneses étnicos entre 14 e 59 anos" podiam ter sido assassinados pelas forças de Milosevic.

Esta foi a justificação para o bombardeamento da NATO, liderado por Bill Clinton e Blair, que matou centenas de civis em hospitais, escolas, igrejas, parques e estúdios de televisão e destruiu infraestrutura económica Sérvia. Isto foi descaradamente ideológico. Na notória "conferência de paz" em Rambouillet, em França, Milosevic foi confrontado por Madeleine Albright, a secretária de Estado dos EUA, a mesma que atingiu a infâmia com a sua observação de que a morte de meio milhão de crianças iraquianas "valeu a pena".

Albright fez a Milosevic uma "oferta" que nenhum líder nacional poderia aceitar. A menos que concordasse com a ocupação militar estrangeira do seu país, com as forças ocupantes "isentas de processo legal" e com a imposição de um "mercado livre" neoliberal, a Sérvia seria bombardeada. Isto estava contido num "Apêndice B", o qual os media deixaram de ler ou ocultaram. O objectivo era esmagar o último estado "socialista" independente da Europa.

Uma vez começado o bombardeamento da NATO houve uma debandada de refugiados kosovares "a fugirem de um holocausto". Quando acabado, equipes internacionais de polícia baixaram ao Kosovo para exumar as vítimas do "holocausto". O FBI não conseguiu encontrar uma única sepultura em massa e voltou para casa. A equipe espanhola de perícia forense fez o mesmo, o seu líder colericamente denunciou "uma pirueta semântica da máquinas de propaganda de guerra". A contagem final dos mortos no Kosovo foi de 2.788. Isto incluía combatentes de ambos os lados e sérvios e ciganos assassinado pela Frente de Libertação do Kosovo, pró NATO. Não houve genocídio. O ataque da NATO foi tanto uma fraude como um crime de guerra.

Poucos dos louvados mísseis "de precisão" da América atingiram alvos militares. Atingiram, sim, alvos civis – incluindo os estúdios de noticiários da Rádio Televisão Sérvia em Belgrado. Dezasseis pessoas foram mortas, incluindo operadores de câmara, produtores e maquiladores. Blair descreveu as mortes, grosseiramente, como parte do "comando e controle" da Sérvia. Em 2008, a promotora do Tribunal Penal Internacional para a Antiga Jugoslávia, Cala Del Ponte, revelou que fora pressionada a não investigar crimes da NATO.

Este foi o modelo para as invasões seguintes de Washington ao Afeganistão, Iraque, Líbia e, furtivamente, a Síria. Todas qualificam-se como "crimes supremos" sob o padrão de Nuremberga; todas dependeram da propaganda dos media. Enquanto o jornalismo tablóide desempenhou a sua parte tradicional, o jornalismo sério, crível e muitas vezes liberal foi o mais eficaz – a promoção evangélica de Blair e suas guerras pelo Guardian, as mentiras incessantes acerca das não existentes armas de destruição em massa de Saddam Hussein no Observer e no New York Times, e o indefectível bater de tambores com propaganda governamental por parte da BBC em meio ao silêncio das suas omissões.

Na altura do bombardeamento, Kirsty Wark, da BBC, entrevistou o general Wesley Clark, o comandante da NATO. A cidade sérvia de Nis acabara de ser pulverizada com bombas cluster americanas, matando mulheres, idosos e crianças num mercado ao ar livre e num hospital. Wark não perguntou uma única questão acerca disto, ou acerca de quaisquer outras mortes civis. Outros foram mais ousados. Em Fevereiro de 2003, no dia seguinte após Blair e Bush terem ateado fogo ao Iraque, o editor político da BBC, Andrew Marr, substituiu-se à Downing Street e fez o equivalente a um discurso de vitória. Excitadamente ele contou ao seu público que Blair havia "dito que seria capaz de tomar Bagdad sem um banho de sangue e que no fim os iraquianos estariam a celebrar. E sobre estes dois pontos ele se havia provado conclusivamente correcto". Hoje, com um milhão de mortos e uma sociedade em ruínas, as entrevistas de Marr na BBC são recomendadas pela embaixada dos EUA em Londres.

Colegas de Marr alinharam-se para proclamar que Blair como "vingado". O correspondente da BBC em Washington, Matt Frei, disse: "Não há dúvida de que o desejo de trazer o bem, trazer os valores americanos para o resto do mundo e especialmente para o Médio Oriente ... está agora cada vez mais ligado ao poder militar".

Esta reverência aos Estados Unidos e seus colaboradores como uma força benigna que "traz o bem" está profundamente entranhada no establishment do jornalismo ocidental. Ela assegura que a culpa pela catástrofe dos dias actuais na Síria é exclusivamente de Bashar al-Assad, a quem o ocidente e Israel há muito conspiram para derrubar, não por quaisquer preocupações humanitárias, mas para consolidar o poder agressivo de Israel na região. As forças jihadistas desencadeadas e armadas pelos EUA, Grã-Bretanha, França, Turquia e seus procuradores da "coligação" servem a este fim. São eles que distribuem a propaganda e os vídeos que se tornam notícias nos EUA e na Europa e que dão acesso a jornalistas que garantam uma "cobertura" unilateral da Síria.

A cidade de Alepo está nos noticiários. A maior parte dos leitores e telespectadores estará inconsciente de que a maioria da população de Alepo vive na parte ocidental da cidade controlada pelo governo. Que eles sofrem bombardeamento de artilharia diário a partir da al-Qaida patrocinada pelo ocidente não está nas notícias. Em 21 de Julho, bombardeiros franceses e americanos atacaram uma aldeia do governo na província de Alepo, matando até 125 civis. Isto foi noticiado na página 22 do Guardian, sem fotografias.

Tendo criado e endossado o jihadismo no Afeganistão na década de 1980 como a Operação Ciclone – uma arma para destruir a União Soviética – os EUA estão a fazer algo semelhante na Síria. Tal como os mujahideen afegãos, os "rebeldes" sírios são soldados de infantaria da América e da Grã-Bretanha. Muitos combatem pela al-Qaida e suas variantes. Alguns, como a Frente Nusra, rebaptizaram-se para cumprir sensibilidades americanas quanto ao 11/Set. A CIA dirige-os, com dificuldade, assim como dirige jihadistas de todo o mundo.

O objectivo imediato é destruir o governo em Damasco, o qual, segundo o inquérito de opinião mais crível (YouGov Siraj), a maioria dos sírios apoias ou pelo menos procura-o para protecção, apesar da barbárie nas suas sombras. O objectivo a longo prazo é negar à Rússia um aliado chave no Médio Oriente como parte de uma guerra da NATO contra a Federação Russa que em algum momento a destrua.

O risco nuclear é óbvio, embora ocultado pelos media por todo "o mundo livre". Os editorialistas do Washington Post, tendo promovido a ficção das ADM no Ira que, pedem que Obama ataque a Síria. Hillary Clinton, que publicamente rejubilou-se pelo seu papel de carrasco durante a destruição da Líbia, indicou reiteradamente que, como presidente, irá "mais além" do que Obama.

Gareth Porter, um jornalista samidzat que informa a partir de Washington, revelou recentemente os nomes daqueles que provavelmente constituirão um gabinete de Clinton, a qual planeia um ataque à Síria. Todos têm histórias beligerantes na guerra fria. O antigo director da CIA, Leon Panetta, diz que "o próximo presidente prepara-se para considerar acrescentar forças especiais adicionais sobre o terreno".

O que é mais notável acerca da propaganda de guerra agora em clímax é seu absurdo e familiaridade patentes. Tenho andado a procurar em arquivos de filmes de Washington da década de 1950 quando diplomatas, funcionários públicos e jornalistas sofreram a caça às feiticeiras e foram arruinados pelo senador Joe McCarthy por desafiar as mentiras e a paranóia acerca da União Soviética e da China. Tal como um tumor ressurgente o culto anti-Rússia retornou.

Na Grã-Bretanha, Luke Harding do Guardian lidera os inimigos da Rússia do seu jornal a um fluxo de paródias jornalísticas que atribuem a Vladimir Putin todas as iniquidades da terra. Quando a fuga dos Panama Papers foi publicada, a primeira página dizia Putin, e havia uma foto dele. Pouco importa que Putin não fosse mencionado em parte alguma dos Panama Papers.

Tal como Milosevic, Putin é o Demónio Númbero Um. Foi Putin que derrubou um avião de carreira da Malásia sobre a Ucrânia. Manchete: "Tanto quanto me preocupa, Putin matou meu filho". Nenhuma prova é exigida. Foi Putin o responsável pelo documentado (e pago) derrube de Washington em 2014 do governo eleito em Kiev. A campanha de terror que se seguiu por milícias fascistas contra a população de língua russa da Ucrânia foi o resultado da "agressão" de Putin. Impedir a Crimeia de se tornar uma base de mísseis da NATO e proteger a maior parte da população russa que votou num referendo par voltar à Rússia – da qual a Crimeia fora anexada – foram mais exemplos da "agressão" de Putin. A difamação pelos media inevitavelmente torna-se guerra pelos media. Se a guerra com a Rússia estalar, por intenção ou por acidente, jornalistas arcarão com grande parte da responsabilidade.

Nos EUA, a campanha anti-russa foi elevada a realidade virtual. O colunista do New York Times Paul Krugman, um economista com Prémio Nobel, chamou Donald Trump de "Candidato siberiano" porque Trump é homem Putin, diz ele. Trump ousou sugerir, num momento de rara lucidez, que guerra com a Rússia pode ser uma ideia má. De facto, ele avançou ainda mais e removeu despachos de armas americanas para a Ucrânia da plataforma republicana. "Isto não seria bom para chegar a um acordo com a Rússia", disse ele.

Eis porque o establishment belicista liberal da América o odeia. O racismo de Trump e as vociferações demagógicas nada tem a ver com isto. O registo de Bill e Hillary Clinton de racismo e extremismo pode ultrapassar o de Trump. (Esta semana é o 20º aniversario da "reforma" da previdência de Clinton que lançou uma guerra aos afro-americanos). Quanto a Obama: enquanto a polícia americana abate a tiros seus companheiro afro-americanos a grande esperança na Casa Branca nada fez para protegê-los, nada para aliviar seu empobrecimento, enquanto dirigia quatro guerras de rapina e uma campanha de assassinatos sem precedente.

A CIA tem pedido que Trump não seja eleito. Generais do Pentágono têm pedido que não seja eleito. O pró guerraNew York Times – fazendo uma pausa na sua implacável difamação ordinária de Putin – pede que não seja eleito. Algo se agita. Estes tribunos da "guerra perpétua estão aterrorizados com a perspectiva de que negócios de guerra de muitos milhares de milhões de dólares pelos quais os EUA mantêm a sua dominância sejam minutos se Trump fizer um acordo com Putin, a seguir com Xi Jinping da China. O seu pânico perante a possibilidade de a maior potência do mundo falar de paz – ainda que improvável – seria a mais negra das farsas se as questões em causa não fossem tão terriveis.

"Trump teria amado Stalin!" rugiu o vice-presidente Joe Biden num comício a favor de Hillary Clinton. Com Clinton a anuir, ele gritou: "Nós nunca nos curvamos. Nós nunca nos inclinamos. Nós nunca nos ajoelhamos. Nós nunca nos rendemos. Nós possuímos a linha de chegada. Isso é o que somos. Somos a América!"

Na Grã-Bretanha, Jeremy Corbyn também excitou a histeria dos fautores da guerra no Partido Trabalhista e nos media dedicados a descartá-lo. Lord West, antigo almirante e ministro do Trabalho, disse isso bem. Corbyn estava a adoptar uma "ultrajante" posição anti-guerra "porque consegue que massas irracionais (unthinking) votem por ele".

Num debate com o líder que o desafiava, Owen Smith, o moderador perguntou a Corbyn: "Como actuaria numa violação por Vladimir Putin de um estado companheiro da NATO?" Corby respondeu: "Você desejaria evitar que isso acontecesse em primeiro lugar. Você construiria um bom diálogo com a Rússa... Tentaríamos introduzir uma desmilitarização das fronteiras entre a Rússia, a Ucrânia e os outros países que fazem fronteira com a Europa do Leste. O que não podemos permitir é uma série de calamitosas acumulações de tropas de ambos os lados, as quais só podem levar a um grande perigo".

Pressionado a dizer se autorizaria uma guerra contra a Rússia "se tivesse de fazer", Corbyn replicou: "Não desejo ir à guerra – o que desejo fazer é alcançar um mundo em que não precisemos de ir à guerra".

A linha de questionamento deveu-se muito à ascensão de liberais belicosos na Grã-Bretanha. O Partido Trabalhista e os media há muito que lhes oferecem oportunidades de carreira. Por um momento o tsunami moral do grande crime do Iraque deixou-os em apuros, as suas inversões da verdade num embaraço temporário. Pouco se importante com [o relatório] de Chilcot e a montanha de facto incriminadores, Blair permanece a sua inspiração porque ele foi um "vencedor".

O jornalismo e o mundo académico dissidente tem sido sistematicamente banido ou apropriado e as ideias democráticas esvaziada e repreenchidas com "políticas de identidade" que confundem género com feminismo e ansiedade pública com libertação e deliberadamente ignoram a violência do estado e os lucros com armas que destroem vidas incontáveis em lugares remotos, como o Iémen e a Síria, e acenam à guerra nuclear na Europa e por todo o mundo.

A mobilização de pessoas de todas as idades que cerca a ascensão espectacular de Jeremy Corbyn contrapõe-se a isto em alguma medida. Sua vida foi passada a iluminar o horror da guerra. O problema de Corbyn e seus apoiantes é o Partido Trabalhista. Na América, o problema para os milhares de seguidores de Bernie Sanders era o Partido Democrático, sem mencionar a sua traição final à grande esperança. Nos EUA, lar dos grandes movimentos de direitos civis e anti-guerra, é no Black Lives Matter e nos outros da espécie do Codepink [1] que repousam as raízes das suas versões moderna.

Só um movimento que cresça em todas as ruas e através de fronteiras e não desista pode travar os instigadores da guerra. No próximo ano fará um século desde que Wilfred Owen escreveu este poema. Todo jornalista deveria le-lo e recordá-lo... 
Se pudesse ouvir, a cada tossida, o sangue
Que jorra
destes pulmões envenenados,
Obsceno como o cancro, amargo como o vómito
De úlceras vis e incuráveis sobre línguas inocentes,
Meu amigo, tu não dirias com tamanho entusiasmo
A crianças ansiosas por uma glória desesperada,
A velha mentira: Dulce et decorum est
Pro patria mori. [2]
[1] Movimento de Mulheres para a Paz
[2] Doce e honroso é morrer pela pátria. 


Ver também em resistir.info:
  • As estranhas condições da morte de Milosevic , 13/Mar/06
  • Milosevic no tribunal da NATO: quando os criminosos se arvoram em juízes , 03/Mar/06
  • “Bombardeámos o lado errado”, afirma o ex-comandante da NATO no Kosovo , 04/Mai/04
  • Os amantes da guerra , 28/Mar/06
  • Os silêncios de ouro no sistema de propaganda dos EUA , 01/Jun/15

    O original encontra-se em johnpilger.com/articles/provoking-nuclear-war-by-media 


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .