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domingo, 18 de junho de 2017

The Saker / A crise no Qatar

A crise no Qatar

– Nova tentativa tosca dos Três Estados Patifes para enfraquecer o Irão


por 
The Saker
Primeiro, um rápido quem é quem 

Nós provavelmente nunca descobriremos o que realmente foi discutido entre Trump, os sauditas e os israelenses, mas há pouca dúvida de que o recente movimento saudita contra o Qatar é o resultado directo destas negociações. Como é que eu sei disso? Porque o próprio Trump o disse! Como mencionei recentemente, a catastrófica submissão de Trump aos Neocons e suas políticas deixaram-no preso ao Reino da Arábia Saudita (RAS) e a Israel , outros dois estados patifes cujo poder e, francamente, sanidade mental, estão a minguar minuto a minuto.

Se bem que o RAS e o Qatar tenham tido suas diferenças e problemas no passado, desta vez a magnitude da crise é muito maior do que qualquer outra no passado. Este artigo é uma tentativa, necessariamente grosseira, de delinear quem está a apoiar quem:
Apoiantes dos sauditas
segundo a Wikipedia )
Apoiantes do Qatar
(segundo eu próprio)
Emirados Árabes Unidos,   Bahrain,   Egipto,   Maldivas,   Iémen (eles querem dizer o regime pró saudita no exílio),   Mauritânia,   Comoros,  Líbia (governo de Tobruk),  Jordânia,  Chad,  Djibouti,  Senegal,   Estados Unidos,   GabãoTurquia ,   Alemanha ,   Irão
Perguntas, muitas perguntas 

A situação é muita fluida e tudo pode mudar em breve, mas percebe alguma coisa esquisita na lista acima? A Turquia e a Alemanha estão a apoiar o Qatar muito embora os EUA estejam a apoiar o RAS. Ou seja, dois importantes estados membros da NATO tomam uma posição contra os EUA.

A seguir, examine a lista que apoia os sauditas: excepto os EUA e o Egipto, eles são todos militarmente irrelevantes (e os egípcios de qualquer forma não se envolverão militarmente). Não é assim para aqueles que se opõem aos sauditas, especialmente não o Irão e a Turquia. Assim, se o dinheiro está do lado dos sauditas, o poder de fogo está do lado do Qatar.

E o Gabão e o Senegal? Desde quando estão estes dois envolvidos na política do Golfo Pérsico? Por que é que eles estão a tomar partido neste conflito distante? Uma olhadela rápida às 10 condições que os sauditas exigem que os qataris cumpram ajuda-nos a entender o seu envolvimento:

1. Corte imediato de relações diplomáticas com o Irão;
2. Expulsão de todos os membros do movimento de resistência palestina Hamas do Qatar;
3. Congelamento de todas as contas bancárias de membros do Hamas e abstenção de qualquer acordo com eles;
4. Expulsão de todos os membros da Fraternidade Muçulmana do Qatar;
5. Expulsão de elementos anti Conselho de Cooperação do Golfo (GCC);
6. Cessar o apoio a "organizações terroristas";
7. Parar a interferência em assuntos egípcios;
8. Cessar a difusão do canal de notícias Al Jazeera;
9. Desculpas a todos os governo do Golfo (Pérsico) por "abusos" da Al Jazeera;
10. Prometer que o Qatar não executará quaisquer acções que contradigam as políticas do CCG e aderir à sua carta.

Os sauditas também entregaram uma lista de indivíduos e organizações que eles querem proibir (ver aqui ).

Ao examinar estas condições torna-se bastante claro que o Irão e os palestinos (especialmente o Hamas) estão em destaque na lista de exigências. Mas por que o Gabão e o Senegal se importariam com isto?

Ainda mais interessante: por que ISRAEL não está listado como um país que apoia o RAS?

Como sempre, os próprios israelenses são muito mais honestos acerca do seu papel em tudo isto. Bem, talvez eles não digam claramente "nós fizemos isto", mas eles escrevem artigos como " Cinco razões porque Israel deveria se preocupar com a crise no Qatar ", o qual lista todas as razões porque os israelenses estão deliciados:

1. Prejudica o Hamas
2. Faz com que Israel fique mais próximo da Arábia Saudita, do Egipto e do Golfo
3. Mostra que a influência dos EUA está volta na região
4. Deslegitima o terrorismo
5. Reforça a mão de Israel em geral e do governo de Israel em particular.

Esta espécie de honestidade é bastante refrescante, ainda que seja primariamente para consumo interno israelense. Rápida verificação com uma fonte palestina – sim, os israelenses estão a apoiar o RAS. Isto não tem nada de surpreendente, não importa quão arduamente os media corporativos ocidentais tentem não noticiar isto.

E quanto aos EUA? Será que eles realmente beneficiam desta crise? 

Os EUA têm no Qatar o que pode possivelmente ser a maior base da US Air Force em todo o mundo, a Al Udeid Air Base . Além disso, os centros de comando avançados dos Estados Unidos, CENTCOM , também estão localizados no Qatar. Dizer que estas são infraestruturas são cruciais para os EUA é uma atenuação da verdade – poder-se-ia argumentar que estas são as mais importantes instalações militares estado-unidense em qualquer parte do mundo fora dos EUA. Então alguém logicamente concluiria que a última coisa que os EUA desejariam é qualquer tipo de crise ou mesmo de tensões em qualquer parte próxima de instalações tão vitais, mas é bastante claro que os sauditas e os americanos estão a actuar em uníssono contra o Qatar. Isto não faz sentido, não é? Correcto. Mas agora que os EUA embarcaram numa fútil política de escalada militar na Síria não deveria ser surpresa que os dois principais aliados dos EUA não região estejam a fazer a mesma coisa.

Além disso, houve algum momento em que as políticas da administração Trump no Médio Oriente tivessem qualquer sentido lógico? Durante a campanha eleitoral elas foram, diremos, 50/50 (excelente sobre o ISIS, completamente estúpida acerca do Irão). Mas desde o golpe de Janeiro contra Flynn e a rendição de Trump aos Neocons todos nós vimos uma forma de ilusão estúpida após a outra.

Objectivamente, a crise em torno do Qatar não é boa de todo para os EUA. Mas isso não significa que uma administração que foi capturada por ideólogos endurecidos esteja desejosa de aceitar esta realidade objectiva. O que temos aqui é uma administração muito fraca dirigindo um país a enfraquecer rapidamente e a tentar desesperadamente prova que ainda tem um bocado de peso para lançar. E se assim é, o plano na verdade é muito mau, um plano destinado a falhar que resultará num bocado de consequências inesperadas.

De volta ao mundo real 

O que temos aqui é um caso grave de jogos de fumos e espelhos e o que está realmente a verificar-se, mais uma vez, é uma tentativa tosca dos Três Estados Patifes (EUA, Arábia Saudita, Israel) de enfraquecer o Irão.

Há certamente outros factores que também contribuem, mas o grande acordo, o núcleo do problema, é o que eu chamaria a "força gravitacional" em crescimento rápido e a correspondente "desintegração orbital" de toda a região cada vez mais próxima do Irão. E para tornar as coisas piores, os Três Estados Patifes estão visível e inexoravelmente a perder sua influência sobre a região: os EUA no Iraque e na Síria, Israel no Líbano e a Arábia Saudita no Iémen – todos os três empenharam-se em operações militares que acabaram por ser fracassos abjectos e nos quais, longe de mostrarem que estes países eram poderosos, mostraram quão fracos eles realmente são. Ainda pior é o facto de que os sauditas estão a enfrentar uma grave crise económica sem fim à vista, ao passo que o Qatar tornou-se o país mais rico do planeta, principalmente graças a um imenso campo de gás que o Qatar partilha com o Irão.

Poderia parecer que o Qatar não é uma grande ameaça para a Arábia Saudita, uma vez que é – ao contrário do Irão – outro país salafista. Mas na realidade isto faz parte do problema: durante as últimas décadas os qataris sentiram que a sua nova riqueza lhes dava meios completamente fora de proporção com a sua dimensão física: não só criaram o mais influente império mediático do Médio Oriente, a al-Jazeera, como também embarcaram numa política externa própria que os tornou actores chave nas crises na Líbia, Egipto e Síria. Sim, o Qatar tornou-se um apoiante primário do terrorismo, mas os Estados Unidos, Arábia Saudita e Israel também o são, de modo que isso é apenas um pretexto vazio. O "crime" real do Qatar foi recusar, por razões puramente pragmáticas, aderir à maciça campanha anti-iraniana imposta na região pela Arábia Saudita e Israel. Ao contrário da longa lista de países que tinham de exprimir seu apoio à posição saudita, os qataris tinham os meios para simplesmente dizer "não" e seguir sua própria rota.

O que os sauditas agora estão à espera é que o Qatar se submeta às ameaças e que a coligação liderada pelos sauditas prevaleça sem ter uma guerra "quente" contra o Qatar. A probabilidade de alcançarem este resultado ninguém sabe, mas pessoalmente considero duvidoso (mais acerca disto depois).

E a Rússia em tudo isto? 

Os russos e os qataris chocaram-se muitas vezes, especialmente acerca da Síria e da Líbia em que o Qatar desempenhou um papel extremamente tóxico por ser o financiador primário de vários grupos terroristas takfiri. Além disso, o Qatar é o competidor número um da Rússia em muitos mercados de GNL (gás natural liquefeito). Também houve outras crises entre os dois países, incluindo o que parece ser um assassinato russo do líder terrorista checheno Zelimkhan Yandarblyev e a subsequente tortura e julgamento de dois empregados da Embaixada Russa acusados de estarem envolvidos no (foram sentenciados à prisão perpétua e finalmente enviados de volta para a Rússia). Ainda assim, os russos e os qataris são pessoas eminentemente pragmáticas e os dois países mantêm um relacionamento cordial, se bem que cauteloso, o qual inclui mesmo alguns empreendimentos económicos conjuntos.

É altamente improvável que a Rússia venha a intervir directamente nesta crise a menos, naturalmente, que o Irão seja atacado directamente. A boa notícia é que tal ataque directo ao Irão é improvável pois nenhum dos Três Estados Patifes tem realmente estômago para enfrentar o Irão (e o Hezbollah). O que a Rússia fará é utilizar o seu soft power, político e económico , para vagarosamente tentar trazer o Qatar para a órbita russa de acordo com a estratégia semi-oficial do ministro russo dos Negócios Estrangeiros, que é "transformar inimigos em neutrais, neutrais em amigos, amigos em aliados". Assim como com a Turquia, os russos ajudarão de bom grado, especialmente quando sabem que isto ajudará a comprar-lhe alguma influência muito preciosa na região.

Irão, o alvo real de tudo isto 

Os iranianos agora estão a dizer abertamente que o recente ataque terrorista em Teerão foi ordenado pela Arábia Saudita . Tecnicamente falando, isso significa que agora o Irão está em guerra . Na realidade, como a real super-potência local, o Irão está a actuar com calma e contenção : os iranianos entendem plenamente que este últimos ataque terrorista é um sinal de fraqueza, se não de desespero, e que a melhor reacção é actuar do mesmo modo como os russos reagiram às explosões bombistas em S. Petersburgo: permanecer centrado, calmo e determinado. Tal como os russos, os iranianos agora também se ofereceram para enviar alimentos ao Qatar mas é improvável que cheguem a intervir a menos que os sauditas realmente enlouqueçam. Além disso, com forças turcas posicionadas no Qatar dentro em breve , os iranianos não têm necessidade real de qualquer exibição de poder militar. Eu argumentaria que o simples facto de que nem os EUA nem Israel tenham ousado atacar directamente o Irão desde 1988 (desde o derrube pela US Navy do voo 655 do Airbus do Irão ) é a melhor prova do poder militar real iraniano.

Então, para onde estamos a ir? 

É realmente impossível prever, até porque as acções do Três Estados Patifes dificilmente podem ser descritas como "racionais". Ainda assim, assumindo que ninguém fica louco, meu sentimento pessoal é que o Qatar prevalecerá e que a mais recente tentativa saudita de provar quão poderoso ainda é o seu reino irá fracassar, tal como todas as anteriores (no Bahrain em 2011, na Síria em 2012 ou no Iémen em 2015). O tempo também não está do lado dos sauditas. Quanto aos qataris, eles já indicaram claramente que não estão dispostos a render-se e que combaterão .

Os sauditas já tomaram a decisão ultrajante de impor um bloqueio de um país muçulmano durante o mês sagrado do Ramadão. Será que realmente escalarão e cometerão um acto de agressão contra um país muçulmano durante aquele mês? Eles podem, mas é difícil acreditar que mesmo eles pudessem ser tão ignorante quanto à opinião pública muçulmana. Mas se não o fizerem, então sua operação perderá um bocado de impulso ao passo que aos qataris será dado tempo para preparar-se politicamente, economicamente, socialmente e militarmente. O Qatar pode ser pequeno e os próprios qataris não muito numerosos, mas os seus bolsos imensos permitem-lhes alinharem rapidamente qualquer quantidade de fornecedores e empreiteiros desejosos de ajudá-los. Isto é um caso em que as famosas "forças de mercado" actuarão em benefício do Qatar.

ministro dos Negócios Estrangeiros qatari é aguardado em Moscovo no sábado e é bastante óbvio sobre o que serão as conversações: apesar de a Rússia não colocar todo o seu peso político no apoio aos qataris, o Kremlin pode aceitar tornar-se um mediador entre o RAS e o Qatar. Se isso acontecesse, seria a ironia final: o principal resultado da operação saudita-israelense-estado-unidense fará da Rússia um actor ainda mais influente na região. Quanto ao próprio Qatar, o resultado desta crise provavelmente será articulado de acordo com as linhas nietzcheanas: "O que não nos mata torna-nos mais fortes". 

Conclusão 

Vejao esta última crise como mais uma tentativa desesperada do Três Estados Patifes de provar que ainda são os maiores e os piores rapazes do quarteirão e, tal como as anteriores, penso que fracassarão. Exemplo: simplesmente não vejo os qataris a encerrarem a al-Jazeera, uma das suas "armas" mais poderosas. Nem os vejo a romperem todas as relações diplomáticas com o Irão pois os dois estados andam juntos devido ao imenso campo de gás condensado South Pars . A imensa riqueza dos qataris também significa que eles têm apoiantes muito poderosos no mundo que exactamente agora, quando escrevo estas linhas, estão provavelmente a fazer telefonemas para pessoas muito influentes e a indicar-lhes em termos não ambíguos que o Qatar não deve ser enredado.

Se esta crise serve para alguma coisa é só para empurrar o Qatar para os braços cálidos de outros países, incluindo a Rússia e o Irão, e para um novo enfraquecimento dos sauditas.

Os Três Estados Patifes têm algum problema: sua capacidade militar para ameaçar, intimidar ou punir está a corroer-se rapidamente e cada vez menos países temem-nos. O seu maior erro é que ao invés de tentar adaptar suas políticas a esta nova realidade, eles optam sempre por dobrar a aposta uma vez após a outra, apesar de fracassarem todas as vezes, tornando-os ainda mais fracos e a sua má situação inicial ainda pior. Trata-se de um espiral descendente muito perigosa e ainda assim os Três Estados Patifes parecem incapazes de conceber qualquer outra política.

Terminarei esta coluna comparando o que os presidentes Putin e Trump estão a fazer nestes dias pois considero esta comparação altamente simbólica da nova era em que estamos a viver:

Trump, depois de bombardear alguns "técnicos" (camiões 4x4 com uma metralhadora) e camiões na Síria, prosseguiu com um tweet [a dizer] que Comey era um mentiroso e um revelara segredos ( leaker). 

Quanto a Putin, participou na última reunião da Organização de Cooperação de Shanghai (OCS) a qual deu as boas vinda tanto ao Paquistão como à Índia como membros plenos. A OCS agora representa mais da metade de todas as pessoas que vivem no nosso planeta e um quarto do PIB mundial. Pode-se pensar dela como o "outro G8", ou o "G8 de importa".

Eu diria que esta rápida comparação de agenda realmente diz tudo.

ACTUALIZAÇÃO: O secretário de Estado Rex Tillerson agora está a dizer aos sauditas para "esfriarem" . O plano saudita-israelense começa a entrar em colapso. 
10/Junho/2017

Ver também:
  • The real story behind the crisis in Qatar – and Saudi Arabia’s involvement , Robert Fisk 
  • Pakistan navigates neutral waters in Persian Gulf , M. K. Bhadrakumar

    O original encontra-se em www.unz.com/tsaker/the-crisis-in-qatar/ 


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
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