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quinta-feira, 30 de junho de 2016

Do cessar-fogo na Colômbia à paz, desejada, mas muito distante

Do cessar-fogo na Colômbia
à paz, desejada, mas muito distante

 Miguel Urbano Rodrigues     30.Jun.16     Colaboradores
Miguel Urbano, um dos revolucionários que mais escreveu sobre a heroica luta das FARC-EP e mais divulgou a sua epopeia faz, nesta hora de refluxo, o comentário possível aos acordos recentemente assinados em Havana, entre aquela organização revolucionária e o governo da Colômbia.
Termina, confessando a sua dificuldade em «imaginar que tipo de «reconciliação» (…) será possível, num contexto em que a classe dominante não esconde a sua fidelidade ao neoliberalismo ortodoxo e à íntima aliança com os Estados Unidos».

A assinatura em Havana, no dia 23 de Junho, pelas FARC-EP e pelo governo de Juan Manuel Santos, dos Acordos de Cessar Fogo e de Hostilidades Bilateral e Definitivo, de Renúncia às Armas, e o de Garantias de Segurança e Combate ao Paramiliarismo foi recebida com entusiasmo pelo povo colombiano e com alívio e satisfação pela maioria da humanidade.
Mas seria uma ingenuidade concluir que o fim do conflito armado trouxe à pátria de Marulanda a paz social e politica.
Os discursos pronunciados na capital cubana, a presença dos chefes de Estado e altas personalidades ali reunidos e a atmosfera da grande jornada tendem a gerar esperanças românticas.
Além do comandante Timoleón Jimenez, chefe do Estado-Maior Central das FARC, e de Juan Manuel Santos, compareceram na solenidade o secretário-geral e o presidente do Conselho de Segurança da ONU e o da Assembleia Geral da organização, os presidentes de Cuba, do México, do Chile, da Venezuela, de El Salvador, da Republica Dominicana, representantes especiais dos governos dos EUA, da União Europeia, da Noruega, etc.
Compartilho a alegria nascida do fim de uma guerra iniciada há mais de 60 anos em que pereceram centenas de milhares de colombianos, a esmagadora maioria civis, guerra que devastou o país e aprofundou abissais desigualdades sociais.
Mas esse sentimento de júbilo não pode apagar uma preocupação profunda, inseparável da certeza de que os grandes problemas que levaram as FARC – EP a optar pela luta armada não constarão do Acordo Final a ser firmado na Colômbia.

A EPOPEIA FARIANA
AS FARC-EP são uma das organizações revolucionárias que mais marcaram emocionalmente a minha vida como comunista.
Cimentei com alguns dos seus dirigentes amizades que perduram.
Já admirava a guerrilha–partido de Marulanda, e sobre o seu combate tinha escrito muito quando conheci em Havana o comandante Rodrigo Granda então chamado Ricardo González.
Entre nós surgiu imediata empatia que evoluiu para sólida amizade. Aprendi muito com ele. Passei a movimentar-me melhor na história da Colômbia; compreendi o significado terrível do paramilitarismo.
Devo a Rodrigo Granda o convite das FARC-EP para passar algumas semanas no acampamento do comandante Raul Reyes no Caquetá e a oportunidade de acompanhar na Região as negociações de paz com o governo de Pastrana. Assisti então em La Macarena, no dia 24 de junho de 2001, a um acontecimento inesquecível: o encontro para libertação unilateral de 242 soldados e polícias capturados em combate pelas FARC. Conheci nesse dia o comandante-chefe Marulanda (que me concedeu uma entrevista) e, entre outros os comandantes Jorge Briceño, Joaquin Gomez, Simon Trinidad, todos alvo de manifestações de apreço e admiração da parte dos embaixadores ocidentais ali presentes.
Não se previa nesses dias que o presidente Pastrana, cedendo a pressões dos EUA, do exército e da oligarquia colombiana, em breve conduziria as negociações de Los Pozos a um impasse, prólogo da ocupação da Zona Desmilitarizada e do recomeço da guerra e de sucessivas ofensivas (derrotadas) no âmbito dos Planos Colômbia e Patriota.
Escrevi e publiquei em diferentes países textos sobre a minha a experiência pessoal no acampamento das FARC-EP. Não é sem emoção que recordo o convívio com os homens e mulheres da guerrilha. Mantive aliás contacto permanente, via Internet, com o comandante Raul Reyes, até à trágica jornada em que foi assassinado, com dezenas de camaradas, durante o bombardeamento de Sucumbio, no Equador, concebido por Juan Manuel Santos, ao tempo ministro da Defesa de Álvaro Uribe Velez. Não esqueci que semanas antes Reyes me convidara a revisitá-lo, algures na amazónia colombiana.
Reencontrei muitas vezes Rodrigo Granda. A última em Caracas, em 2004, nas vésperas da sua prisão por esbirros de Uribe, com a cumplicidade de polícias venezuelanos. A minha admiração por ele aumentara de ano para ano.
Via nele um revolucionário exemplar pela vastidão da sua cultura marxista, pelo caráter, pela coerência, pela disponibilidade total para a luta. A convite do advogado fui aliás testemunha de defesa, através de um depoimento, no processo que contra ele instaurado quando preso, antes da sua libertação por influência do presidente Sarkozy da França.
Foi com alegria que recebi a notícia do seu imediato regresso à luta e a sua inclusão na Delegação de Paz das FARC-EP em Havana. Quando responsável pelas Relações exteriores da guerrilha no exterior, era conhecido pelo seu talento diplomático como El Canciller de las FARC.
Por que evoco hoje o amigo fraterno e o revolucionário exemplar.
Precisamente porque nestas semanas em que se festeja a assinatura dos Acordos que puseram fim às hostilidades na Colômbia me pergunto, apreensivo, o que pensarão da chamada «reconciliação» Rodrigo e outros amigos como os comandantes Alberto e Juan António e qual seria a posição do comandante Demétrio, já falecido, um intelectual brilhante, a que chamavam «o ministro da educação sombra» das FARC?
PREOCUPAÇÕES E TEMORES
Quero registar com clareza que aprovei desde o início os Diálogos de Paz de Havana. Ao sentar-se à mesa para negociar, as FARC deram expressão concreta ao profundo desejo de paz da esmagadora maioria do povo colombiano. Foi essa aspiração, cada vez mais generalizada e intensa, que levou presidentes como Belisário Bettencourt e Pastrana Borrero a abrir negociações com as FARC com vista ao fim do conflito armado.
O Estado Maior Central das FARC-EP teria negado o passado e a ideologia revolucionária da sua organização se não houvesse respondido favoravelmente a Juan Manuel Santos quando este, numa viragem inesperada, estabeleceu os contatos que conduziram em Oslo, na Noruega, a entendimentos preliminares que desembocaram nos Diálogos de Paz de Havana e na elaboração de uma Agenda ambiciosa.
Acompanhei de longe o difícil processo de paz, e os esforços para o torpedear desde o começo pelo alto comando das Forças Armadas, pelos latifundiários que controlam a agricultura, pelos barões de narcotráfico, por uma parcela da grande indústria e pelo imperialismo estado-unidense apesar da ambiguidade da sua posição perante o conflito.
As tremendas dificuldades a superar na negociação de interlocutores tão antagónicos como as FARC e o Governo de Santos ficaram transparentes na continuação da guerra, no financiamento do Plano Colômbia, na entrega de armas sofisticadas ao exército e à Força Aérea, na cumplicidade de influente generais com destacados dirigentes paramilitares, no massacre frequente de camponeses pelo exército.
Apesar das campanhas contra a paz, da repressão permanente ao abrigo da famigerada «Lei de Segurança Democrática», a Agenda aprovada avançou embora lentamente. As FARC conseguiram impor em Havana posições por elas defendidas na discussão de temas fulcrais como a questão da terra, a participação política, o debate sobe as minorias, as discriminadas, os milhões de deslocados, a degradação do ambiente, a reforma de uma justiça corrupta, as reparações às vítimas da guerra, a erradicação do tráfico de drogas, etc. No debate desses outros temas as FARC obtiveram do governo concessões que em muitos casos foram além do que se poderia esperar.


Porquê então a profunda preocupação que me invadiu ao tomar conhecimento dos documentos assinados em Havana?
Dediquei horas à sua leitura.
A natureza do regime não é posta em causa. AS FARC-EP não podiam obviamente exigir o fim do capitalismo, objetivo do seu programa revolucionário. A relação de forças existente não permitia debater o tema.
Mas não é essa inevitável omissão que me inquieta.
O Acordo sobre o Cessar-fogo e o abandono das armas (dejación em espanhol) estabelece que no prazo de 180 dias o armamento das FARC-EP será entregue a comissões fiscalizadoras indicadas pela ONU e pela CELAC.
O dominicano Narciso Isa Conde, num artigo publicado no dia 24 de Junho na Republica Dominicana, afirma que essa decisão «equivale ao desarmamento total e unilateral do exército popular mais poderoso da Colômbia da nossa América em troca de garantias de segurança atribuídas por um sistema sumamente hostil» (…)
Distancio-me muitas vezes de opiniões do autor, mas neste caso compartilho plenamente a apreensão que manifesta quanto ao desarmamento das FARC e à insuficiência de garantias sobre o compromisso oficial de eliminar o paramilitarismo.
Marx advertiu que a Historia nunca se repete da mesma maneira. As circunstâncias na Colômbia são hoje muito diferentes das existentes em 1985. Mas é impossível esquecer o genocídio da União Patriótica.
É alarmante que o comandante de uma região do Vale do Cauca, no próprio dia em que eram assinados os Acordos de Havana tenha, em entrevista a uma rádio local, afirmando que a sua ideologia é a de Carlos Castanho.
Cabe recordar que o fundador e primeiro chefe dos bandos paramilitares foi um assassino, responsável por monstruosos crimes contra a humanidade.
Que eu tenha conhecimento, o governo de Santos não reagiu às inadmissíveis declarações desse oficial superior do Exército.
Os Acordos preliminares de Havana são também omissos sobre a permanência de oito bases militares dos EUA no território colombiano e as relações especiais que o governo de Bogotá mantém com o estado neofascista de Israel, cuja polícia secreta, a MOSSAD, atua na Colômbia como em casa própria.
As Farc tiveram de renunciar á reivindicação de uma Constituinte e de aceitar o referendo de que discordavam.
Essas cedências foram não apenas compreensíveis como inevitáveis. Nos Diálogos de Havana as FARC-EP negociaram numa época de refluxo histórico. O imperialismo havia retomado a ofensiva na América Latina e atuava agressivamente no Medio Oriente, na Europa e na Asia Oriental.
A delegação fariana enfrentou os representantes do Governo de Santos consciente de que a relação de forças lhe era muito desfavorável. Num curto espaço de tempo perdera dirigentes fundamentais. Raul Reyes fora assassinado no Equador, Jorge Briceño e Alfonso Cano tinham perecido em combate. Manuel Marulanda, o herói de perfil homérico, falecera no seu acampamento.
As mais recentes técnicas electrónicas para localização das unidades guerrilheiras, mesmo nas densas florestas da região amazónica, criaram também problemas dificilmente superáveis aos estrategos das FARC-EP.
A minha solidariedade permanente e irrestrita com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia-Exército do Povo não me impede, porém, antes me impõe o dever de encarar com muita apreensão o futuro imediato.
A linguagem de alguns parágrafos do Acordo de Cessar Fogo por elas assinado e a troca de mensagens com o alto comando do Exército não me parecem também compatíveis com a ideologia da organização revolucionária.
Tenho dificuldade em imaginar que tipo de «reconciliação» - palavra agora muito utilizada - será possível, num contexto em que a classe dominante não esconde a sua fidelidade ao neoliberalismo ortodoxo e à íntima aliança com os Estados Unidos.
Daí este desabafo de um comunista português que fez sua a luta heróica das FARC-EP.
Vila Nova de Gaia, 29 de junho de 2016
                

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Lua do Alabama : EUA contra ISIS ou é tudo ofuscação?

29 de junho de 2016

Outra Força Proxy US derrotado por IS - Formação incompetente ou Intenção?

Os militares dos EUA novamente falhou em um dos programas de formação é executado em apoio à luta contra o Estado islâmico.Missões de treinamento anteriores tinham falhado para criar forças competentes e dispostos. Fornecimentos para US forças apoiadas terminou nos mercados negros ou diretamente nas mãos do Estado islâmico. É tudo isso realmente incapacidade ou existe alguma intenção por trás disso?
Ontem os EUA criado e apoiado Novo Exército Sírio , um grande grupo de salafistas de Deir Ezzur , orgulhosamente anunciou que ele estava atacando o Estado islâmico na fronteira sírio-iraquiana:
ISIS tem ido em alerta como rebeldes apoiados pelos EUA pretendem avançar em direção à cidade fronteiriça de Al-Boukamal em uma tentativa de cortar as linhas de abastecimento do grupo jihadista entre o Iraque ea Síria.Na terça-feira, o Novo Exército sírio anunciou o início da sua campanha para ganhar o controle de Al-Boukamal, que fica em frente à cidade de fronteira iraquiana de Al-Qaim profunda atrás principais linhas de frente do ISIS no leste da Síria.
Horas após o início da ofensiva, o grupo obscuro ativa em trechos remotas do deserto sírio leste aproveitou a extinta base aérea Al-Hamdan cinco quilómetros a noroeste de Al-Boukamal, enquanto o conflito também se alastrou durante a noite a sudoeste da cidade de fronteira, de acordo com a Síria Observatório para os Direitos Humanos.
A cidade atacada é de 250 deserto quilómetros da única outra New Exército Sírio posição na fronteira Tanf. As forças foram retiradas por helicópteros e teve o apoio dos EUA ar. Estes novos caças do Exército sírio foram treinados na Jordânia e recém-equipado pelos EUA e forças especiais britânicas e são disse a ser liderado por"combatentes estrangeiros" no ar , especialistas jordanianos prováveis.
Três helicópteros da coalizão desembarcou Novas tropas do Exército sírio cerca de quatro quilómetros a Oeste de Al-Boukamal na terça-feira, de acordo com o SOHR, como ataques aéreos da coalizão, entretanto, alvo ISIS norte da cidade.O Novo Exército Sírio alegou também as suas forças foram jogadas do ar, dizendo que suas tropas "aterrissou atrás das linhas inimigas" após o que levou o aeroporto de Al-Hamdan e vila nas proximidades, que estão localizados a noroeste de Al-Boukamal.
De acordo com um comunicado divulgado quarta-feira pelo grupo, seus combatentes também apreendeu "a área de Al-Husaybah e passagem de fronteira [fora da cidade], bem como o deserto do sul sul e toda as regiões orientais nos arredores de Abu Kamal".
A força apoiada pelos Estados Unidos alegou ainda que "células adormecidas de clãs rebeldes no campo Al-Boukamal facilitado o avanço de nossas tropas."
Reuters relata que os EUA apoiaram o ataque de uma forma que normalmente atribui aos russos:
Jatos da coalizão lideradas pelos Estados Unidos dispararam mísseis no hospital Aisha da cidade usado pelo Estado Islâmico ..
Estamos aguardando condenação urgente da Human Rights Watch desta guerra-crime ultrajante ...
Supõe-se que uma grande operação tal é bem preparado com pensado fogo-planos, boa inteligência e apoio logístico extenso.tropas frescas, bem treinado com os melhores equipamentos disponíveis, e com surpresa do seu lado, não deveria ter problemas reais de prevalecer em tal ataque.
Mas toda a operação falhou terrivelmente dentro de apenas algumas horas um fiasco total.
O Estado Islâmico matou cinco "espiões" em Al-Boukamal que supostamente trabalham para o Novo Exército sírio . Ele matou cerca de 40 soldados NSA durante os combates e feriu alguns 15.apreendidos 6 novo US fornecido caminhões com miniguns e outros 6 caminhões com munição, bem como telefones por satélite.O resto do Novo Exército sírio retirou-se para a base aérea defunto que tinha começado na e estão à espera de exfiltração.
Se esta era uma missão para reabastecer o Estado Islâmico ele realmente teve algum sucesso. Caso contrário, foi um fracasso muito embaraçoso, não só para o Novo Exército sírio , mas dos militares profissionais que treinaram e apoiaram.
Uma pergunta que os militares dos EUA muito bem pago tem vindo a fazer aqui. Como pode um tal ataque, com todas as vantagens do lado dos proxies dos EUA, falhar? O governo britânico ordena sua força aérea para bombardear o Estado Islâmico única , quando tal "sucesso" a necessidade de alguns (inner-) evento político. É a maneira dos EUA de "luta" similar? É esta falha intencional ou pura incompetência? Será que os EUA realmente querem lutar contra o Estado islâmico? Ou isso é tudo apenas ofuscação?

Publicado por b em 13:59 | Comentários (16)

UFRJ se mobiliza contra retrocessos nos direitos




UFRJ se mobiliza contra retrocessos nos direitos

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A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) sempre foi protagonista das lutas pela soberania nacional e liberdades democráticas. Recetemente, com os avanços nas políticas de acesso por cotas, passou a contar com um contigente maior de estudantes oriundos das camadas populares da sociedade que, ao se depararem com as possibilidades de debates dentro da instituição e a necessária batalha contra as desigualdades em nosso país, passam a ser agentes intensificadores das lutas dentro do espaço acadêmico.
Neste momento, o debate político sobre os rumos do país vibra nos corredores da maior universidade federal brasileira. Diversos atos, manifestos e seminários mobilizam estudantes, professores, técnico-administrativos e trabalhadores terceirizados. A indignação contra os ataques vindos do governo golpista de Temer contra a universidade e o povo brasileiro tem trazido uma noção de responsabilidade às mais de 100 mil pessoas que circulam nos campi da UFRJ.
No dia 22 de junho, uma importante mobilização captaneada inicialmente pela Associação de Docentes da UFRJ (AdUFRJ), e convocada em seguida pelo Sintufrj (sindicato dos servidores), Centro Acadêmico de Engenharia (CAENG), Diretório Acadêmico da Escola de Químca (DAEQ) e DCE, levou cerca de 500 pessoas a realizarem uma corrente humana nos corredores do Centro de Tecnologia, com ampla participação de professores da Engenharia, Física e outras áreas das Ciências Naturais, considerado um público de difícil mobilização.
foto ato mctiA presidenta da AdUFRJ, Tatiana Roque, explicou que “a mobilização é contra o fim do Ministério de Ciência e Tecnologia, mas também contra o teto de gastos enviado pelo ministro da Fazenda Henrique Meireles, que significa um retrocesso nos investimentos da Educação, que não pode ser encarada como gasto, pois é investimento”.
Thais Raquel, presidenta do CA de Engenharia e militante do Movimento Correnteza, disse que “para os estudantes esse ato unitário foi muito importante, pois na maioria das vezes nos mobilizamos sozinhos na comunidade acadêmica”. Para ela, “somente com a movimentação conjunta de toda a UFRJ podemos resistir aos ataques”.
Já para Francisco de Assis, coordenador geral do Sintufrj, o ato foi simbólico. “Ciência e Tecnologia são soberania. As elites brasileiras sempre tiveram em mente o ataque às instituições públicas de pesquisa e educação, pois só pensam no lucro que a venda deste patrimônio pode lhes render”.
Universidades devem ser pontos de resistência à ofensiva das elites contra o povo
Esse tipo de ato indica que na luta para resistir aos ataques anti-povo feitos pelo governo golpista de plantão, mídia e demais interesses conservadores da sociedade, as universidades têm forte potencial de mobilização, pois influenciam a sociedade por seu grau de importância ideológico, mas também pelo grande contigente de jovens e trabalhadores, que levam para suas casas e bairros os exemplos de lutas e debates vividos ali.
Redação Rio de Janeiro
   A Verdade
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Carlos Lopes Pereira / EUA ameaçam intervir na Eritreia

EUA ameaçam intervir na Eritreia

 Carlos Lopes Pereira*     28.Jun.16     Colaboradores
À semelhança do que aconteceu no caso do país norte-africano, os EUA capturaram a máquina dos «direitos humanos» das Nações Unidas para invocar a «responsabilidade de proteger» os cidadãos eritreus de alegados abusos do próprio governo. Este princípio, responsibility to protect (R2P), tinha sido utilizado para legitimar a intervenção na Líbia pela secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, agora candidata presidencial democrata.

Há indícios de que os Estados Unidos estão a preparar uma intervenção militar «humanitária» na Eritreia utilizando pretextos idênticos aos que justificaram a agressão da NATO contra a Líbia em 2011.
À semelhança do que aconteceu no caso do país norte-africano, os EUA capturaram a máquina dos «direitos humanos» das Nações Unidas para invocar a «responsabilidade de proteger» os cidadãos eritreus de alegados abusos do próprio governo. Este princípio, responsibility to protect (R2P), tinha sido utilizado para legitimar a intervenção na Líbia pela secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, agora candidata presidencial democrata.
As mais recentes denúncias das manobras engendradas pelos EUA contra a Eritreia foram feitas através da Global Research, uma organização de pesquisa e informação com sede no Canadá. Um artigo da autoria de Glen Ford desmonta as falsidades retiradas do catálogo das mentiras imperiais.
Washington conseguiu que as Nações Unidas impusessem sanções à Eritreia, desde 2009, com o argumento de que Asmara concede «apoio político, financeiro e logístico» aos islamitas do Al-Shabaab, na Somália. Isto apesar de o governo laico eritreu se opor ao jihadismo islâmico de o Conselho dos Direitos Humanos da ONU ter reconhecido a inexistência de provas de tal ajuda.
Mais recentemente, um painel de três expertos onusinos acusou a Eritreia de ser um Estado fora-da-lei que cometeu «crimes contra a Humanidade», escravizou mais de 400 mil pessoas e foi conivente com assassínios, violações e actos de tortura. O presidente da comissão de inquérito da ONU sobre os direitos humanos na Eritreia, um certo Mark Smith, australiano, propôs que o governo eritreu seja julgado pelo Tribunal Penal Internacional (TPI), com sede em Haia. Trata-se de um tribunal que, desde a sua criação, em 2002, tem perseguido dirigentes africanos – mas só aqueles que não alinham com os interesses imperialistas dos EUA.
Este pretexto «legalista» já fora utilizado em 2011, quando o Conselho de Segurança, liderado pelos EUA, Grã-Bretanha e França, acolheu acusações semelhantes contra a Líbia e pretendeu levar o caso ao TPI, numa altura em que a agressão militar contra o regime de Muammar Khaddafi estava já em marcha.
«A Cuba da África»
A actual campanha internacional de demonização da Eritreia, alimentada pelos EUA – explica Glen Ford no artigo – assenta em duas grandes mentiras.
A primeira, a da «escravização» da população. Trata-se, na verdade, de um serviço nacional que inclui não só deveres militares obrigatórios mas também trabalho cívico em obras públicas e nas áreas da saúde e educação. Muitos professores, por exemplo, são trabalhadores desse serviço nacional.
A outra falsidade da propaganda ocidental pretende fazer crer que a «opressão» na Eritreia é uma das principais causas das vagas de refugiados africanos na Europa. Não é credível que a Etiópia, com uma população de 90 milhões e um dos países mais pobres do mundo, o Sudão, com 40 milhões e várias guerras intestinas, ou a Somália, nação de 10 milhões sem Estado, provoquem menos refugiados do que a Eritreia… O que acontece, não por acaso, é que, sob pressão dos EUA, há políticas imigratórias europeias que favorecem os «exilados políticos» eritreus.
Situada na África Oriental, com cerca de mil quilómetros de costa no Mar Vermelho, a Eritreia é um pequeno país de seis milhões de habitantes. A maior parte da população – metade é islâmica, metade é cristã – vive da agricultura, pecuária e pesca. Há expectativas de exploração do petróleo mas a maior riqueza do país é a sua localização estratégica. Além disso, o governo de Asmara não aceita «ajudas» estrangeiras e rejeita as políticas do Fundo Mundial Monetário e do Banco Mundial.
Colonizada pela Itália desde finais do século XIX e, após a II Guerra Mundial, pela Grã-Bretanha, a Eritreia foi depois anexada pela Etiópia do imperador Hailé Selassié. A partir dos anos 60, um movimento guerrilheiro combateu durante três décadas pela independência, conquistada enfim em 1993. O líder da luta emancipalista foi Isaias Afwerki, o actual presidente da Eritreia, país que continua a ter más relações, incluindo conflitos fronteiriços, com a Etiópia, grande aliada dos EUA.
Não surpreende, pois, a sanha do imperialismo norte-americano contra a Eritreia, hoje um dos dois únicos estados do continente que não estabeleceram relações de cooperação com o Africom, o comando militar estado-unidense para a África. O outro recalcitrante é o Zimbabué, de Robert Mugabe. Os EUA mantêm Camp Lemonnier, a sua maior base militar africana, no Djibuti, vizinho da Eritreia, país a que alguns chamam «a Cuba da África».
* Jornalista


Este texto foi publicado no Avante nº 2.221 de 23 de junho de 2016.
                

terça-feira, 28 de junho de 2016

John Pilger / Porque os britânicos disseram não à Europa

Porque os britânicos disseram não à Europa


por John Pilger
Cartoon de Brandan Reynolds.O voto maioritário dos britânicos a favor do abandono da União Europeia foi um acto de democracia pura. Milhões de pessoas comuns recusaram-se a serem ameaçadas, intimidadas e descartadas pelo desrespeito descarado dos seus supostos líderes à frente dos principais partidos, dos negócios, da oligarquia bancária e dos media. 

Este foi, em grande parte, um voto dos irados e desmoralizados pela arrogância absoluta dos que defendiam a campanha da "permaneça" ("remain") e do despedaçar de uma vida civil socialmente justa na Grã-Bretanha. O último bastião das reformas históricas de 1945, o Serviço Nacional de Saúde, foi tão subvertido pela privataria apoiada pelo Tory e pelo Labour que agora tem de combater pela sua sobrevivência.

Uma advertência prévia surgiu quando o ministro das Finanças, George Osborne, encarnação tanto do antigo regime britânico como da máfia bancária na Europa, ameaçou cortar 30 mil milhões de libras dos serviços públicos se o povo votasse do modo errado. Foi chantagem numa escala chocante.

A imigração foi explorada na campanha com perfeito cinismo, não só por políticos populistas da direita como por políticos do Labour que se inspiraram na sua própria venerável tradicional de promover e alimentar o racismo, um sintoma de corrupção não na base e sim no topo. A razão porque milhões de refugiados fugiram do Médio Oriente – primeiro do Iraque, agora da Síria – está nas invasões e no caos imperial provocado pela Grã-Bretanha, Estados Unidos, França, União Europeia e NATO. Antes disso, houve a deliberada destruição da Jugoslávia. E antes ainda houve o roubo da Palestina e a imposição de Israel.

Os capacetes de cortiça podem ter desaparecido, mas o sangue nunca secou. Um desprezo desde o século XIX por países e povos, dependendo do seu grau de utilidade colonial, permanece como uma peça central da moderna "globalização", com o seu perverso socialismo para os ricos e capitalismo para os pobres: sua liberdade para o capital e negação de liberdade para o trabalho; seus políticos pérfidos e funcionários públicos politizados.

Tudo isto agora volta à Europa, enriquecendo os amigos de Tony Blair e empobrecendo e despojando milhões. Em 23 de Junho, os britânicos disseram basta.

Os propagandistas mais eficazes do "Ideal europeu" não foram os da extrema-direita, mas sim uma insuportável classe aristocrática para quem a Londres metopolitana é o Reino Unido. Seus membros principais vêem-se como liberais, esclarecidos, oradores cultos do espírito (zeitgeist) do século XXI, mesmo "brilhantes". O que realmente são é uma burguesia com gostos consumistas insaciáveis e instintos antigos quanto à sua própria superioridade. No seu jornal de empresa, o Guardian, eles olharam triunfantes, dia após dia, aqueles que consideravam a UE profundamente anti-democrático, uma fonte de injustiça social e de um extremismo virulento conhecido como "neoliberalismo".

O objectivo deste extremismo é instalar uma teocracia capitalista permanente para assegurar que dois terços da sociedade, com uma maioria dividida e endividada, sejam administrados por uma classe corporativa, com trabalhadores permanentemente pobres. Na Grã-Bretanha de hoje, 63 por cento das crianças pobres crescem em famílias onde um membro está na força de trabalho. Para eles, a armadilha fechou-se. Mais de 600 mil residentes na segunda cidade britânica, a Grande Manchester, estão, informa um estudo, "a experimentar os efeitos da pobreza extrema" e 1,6 milhão estão a deslizar para a penúria.

Pouco desta catástrofe social é reconhecida nos media controlados pela burguesia, nomeadamente os elitistas que dominam a BBC. Durante a campanha do referendo, quase nenhuma análise informativa foi permitida intrometer-se na histeria acerca de "abandonar a Europa", como se a Grã-Bretanha estivesse prestes a ser arrastada por correntes hostis para algum lugar a norte da Islândia.

Na manhã seguinte à votação, o repórter de rádio da BBC deu boas vindas a políticos no seu estúdio como se fossem velhos amigos. "Bem", disse ele para "Lorde" Peter Mandelson, o desgraçado arquitecto do blairismo, "porque este povo quis isto tão tristemente?" O "este povo" é a maioria dos britânicos.

O criminoso de guerra ricaço Tony Blair permanece um herói da classe "europeia" de Mandelson, embora poucos ousem dizê-lo nestes dias. O Guardian certa vez descreveu Blair como "místico" e tem sido fiel ao seu "projecto" de guerra de rapina. No dia seguinte à votação, o colunista Martin Kettle propôs uma solução brechtiana para o mau uso da democracia pelas massas. "Agora certamente podemos concordar em que referendos são maus para a Grã-Bretanha", dizia a manchete em cima do seu artigo de página inteira. O "nós" não foi explicado mas foi entendido – assim como "este povo" é entendido. "O referendo conferiu menos legitimidade à política, não mais", escreveu Kettle. "... o veredicto sobre referendos deveria ser implacável. Nunca mais".

A espécie de brutalidade de que Kettle sente saudade é encontrada na Grécia, um país agora vaporizado. Ali, eles tiveram um referendo e o resultado foi ignorado. Tal como o Labour Party na Grã-Bretanha, os líderes do governo Syriza em Atenas são os produtos de uma classe média educada, rica, altamente privilegiada, tratada na falsificação e traição política do pós-modernismo. O povo grego corajosamente utilizou o referendo para pedir ao seu governo "melhores condições" em relação a um status quo venal em Bruxelas que estava a esmagar a vida do seu país. Ele foi traído, assim como os britânicos teriam sido traídos.

Na sexta-feira, a BBC perguntou ao líder do Labour Party, Jeremy Corbyn, se ele prestaria homenagem de despedida a Cameron, seu camarada na campanha do "permanece". Corbyn repugnantemente louvou a "dignidade" de Cameron e chamou a atenção para o seu apoio ao casamento gay e as suas desculpas às famílias irlandesas enlutadas pelo Bloody Sunday . Ele nada disse acerca da tendência para a discórdia de Cameron, suas políticas de austeridade brutal, suas mentiras acerca de "proteger" o Serviço de Saúde. Nem tão pouco recordou pessoas que prepararam guerras no governo Cameron: o despacho de forças especiais britânicas para a Líbia e os tripulantes britânicos que faziam pontaria para bombas da Arábia Saudita e, acima de tudo, o aceno à terceira guerra mundial.

Logo da Operação Anaconda.Na semana da votação do referendo, nenhum político britânico e, que eu saiba, nenhum jornalista referiu-se ao discurso de Vladimir Putin em S. Petesburgo comemorativo do 75º aniversário da invasão da União Soviética pela Alemanha nazi em 22 de Junho de 1941. Foi a vitória soviética – a um custo de 27 milhões de vidas soviética e [enfrentando] a maior parte do conjunto das forças alemãs – que venceu a Segunda Guerra Mundial.

Putin comparou a actual acumulação frenética de tropas e material de guerra da NATO nas fronteiras ocidentais da Rússia à Operação Barbarossa do Terceiro Reich . Os exercícios da NATO na Polónia foram os maiores desde a invasão nazi; a Operação Anaconda simulou um ataque à Rússia, presumivelmente com armas nucleares. Na véspera do referendo, o colaboracionista (quisling) secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, advertiu os britânicos de que eles estariam a por "a paz e a segurança" em perigo se votassem pelo abandono da UE. Os milhões que o ignoraram, assim como ignoraram Cameron, Osborne, Corby, Obama e o homem que dirige o Banco da Inglaterra, podem ter dado uma bofetada a favor da paz e da democracia reais na Europa.
O original encontra-se em www.tuaeu.co.uk/why-the-british-said-no-to-europe/ 

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .