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segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Irun Santana falece em 30/12/2012. Camarada Venceremos!

ENTREVISTA - IRUN SANTANNA

ENTREVISTA - IRUN SANTANNA
Irun Santanna concedeu essa entrevista ao site da Fudação Dinarco Reis pouco depois de lançar seu livro “O garoto que sonhou mudar a humanidade”. Aos 94 anos, Irun é militante do PCB – e único fundador da UNE ainda vivo.
FDR: Podemos começar pelo livro que você preparou?
I: Eu fui escrevendo a torto e a direito em quinze anos... Isso é produto de quinze anos de escritos em horas as mais estranhas possíveis. Vários capítulos escritos às duas, três horas da manhã. Passava um negócio pela cabeça e escrevia. Não há nenhuma vaidade em dizer, mas foi imitando o Rudyard Kipling...
FDR: Em quinze anos...
I: Você conhece o “If”? É um poema... O poema mais famoso de Kipling, em que ele endeusa o individualismo e termina dizendo isso. A frase final do poema é: “Se tu és assim, meu filho; tu és um homem”.
FDR: Mas você falou que tem quinze anos de “preparo”?
I: Preparando... Eu tenho vontade de escrever, fui escrevendo. O meu primeiro livro foi publicado há quinze anos atrás. Eu fiz até o seguinte: com letra de imprensa, para ela passar, e ela passou a limpo para aquele disco, mas, infelizmente, todas as impressoras a que ela recorreu, a dela, a da irmã dela e as daqui não estavam funcionando. De maneira que, como está em letra de imprensa ... É o seguinte: isso aqui é um resumo do que eu escrevi e logo foi publicado. Ao fazer esse resumo, eu fiquei muito orgulhoso porque eu fui amicíssimo do Graciliano. Por uma questão da vida, eu fui muito ligado ao Gracilliano Ramos.
FDR: E você já era do Partido?
I: Os filhos dele foram estudar na escola da minha primeira mulher, certo? E eu me dava imensamente bem com a mulher dele, com Heloísa. Teve assim uma ligação... No início, quando ele estava começando a escrever os livros dele, desde aí que nós ficamos muito ligados...
FDR: Memórias do Cárcere, por exemplo, ainda não estava...
I: Não! Bem longe. Ele ainda estava lá embaixo, lá... “Angústia” ou coisa assim, “Vidas Secas”... Aqueles primeiros romances dele... Da cadela Baleia...
FDR: Mas já era militante?
I: Já era militante, sim.
FDR: E você já era militante também?
I: Antes dele. Ele era o calouro militante.
FDR: Quando você entrou no Partido?
I: 1935, exato. Participei da... Intentona.
FDR: E aí você já começa num momento muito complicado pro Partido, né? Porque vem o levante de 1935, não dá certo...
I: No qual eu participei de arma na mão.
FDR: Você participou com arma na mão? Aqui no Rio de Janeiro?
I: Não sei se está aí dentro do livro... Parece que está. Acho que está.
FDR: Você lembra detalhes, por exemplo, como é que foi saber que em Natal, por exemplo, os comunistas avançavam e aqui no Rio... Que tipo de informações você recebeu desse período do que estava acontecendo no resto do país em relação ao levante? Ou não teve informação nenhuma?
I: Por parte do Partido só algumas, assim, coisas miúdas. O negócio era mais da imprensa, né?
FDR: E não foi utilizada nenhuma faixa radiofônica para transmitir informações?
I: Naquele tempo isso não existia. Só tinha telefone. E como eu nunca fui muito ligado a essa questão tecnológica, sempre dei muita importância ao produto, mas não entendia nada, nem nunca dei importância ao meio.
FDR: É interessante você falar isso porque você termina seu livro agora justamente falando de uma perspectiva do que seria o futuro. Você fala do cosmos, você fala do universo. Sinal de que não é só a experiência do passado, mas o que você vislumbra.
I: Sim. Eu tenho mais do que isso. Se a minha idade ainda der tempo, eu já tenho escrito, acho que quase tantas páginas quanto ... exatamente sobre isso. Sobre o cosmos, sobre a evolução do homem, tá? Eu tenho uma porção de capítulos escritos pra um livro aí...
FDR: Enfim, você participou da Aliança e da Aliança entrou para o Partido. Entrou numa fase muito complicada. E em meio a esse processo todo, vem um fato importante para a vida política do país, pro Partido e para você também, individualmente como militante, que é o processo de fundação da União Nacional dos Estudantes...
I: É aquele que eu descrevo no trabalho, né? 1935 … o interessante é que tudo muda com o espaço e o tempo, né? Então, a reação, naquele tempo, tinha umas determinadas maneiras de agir. O DOPS era dirigido por um detetive português, o Serafim... Correa, não sei. Eu sei que o primeiro nome era Serafim. Era diretor do DOPS e era português; nem era naturalizado, diga-se de passagem. E eles, talvez por incapacidade financeira ou técnica, seja o que for, eles se dirigiam para um determinado objetivo. Atingido aquele objetivo, as "franjas" sobravam. Foi o que aconteceu em 1935. Eles atingiram... Prenderam o pessoal todo militar, julgaram o Navi no Pedro II, fizeram miséria, mataram, assassinaram, mas a intelectualidade também foi presa e foi uma parte, bem, aquela que aparecia, mas, por exemplo, os estudantes não foram atingidos... Então, em 1935, posso quase que garantir a você que não houve um só estudante que tenha sido preso...
FDR: Não participaram do processo...
I: Apesar de terem alguns... Apesar de muitos como eu... No carro que eu descrevo no livro, iam quatro estudantes. Nenhum de nós quatro fomos atingidos.
FDR: Nesse tempo a UJC estava organizada?
I: Olha, o processo da UJC me escapou inteiramente, entendeu? Eu não sei se fui da UJC, se não fui da UJC. Eu sei que eu fui da Aliança e do Partido. Se eles me consideravam UJC ou Partido, eu não sei. Eu que eu entrei para o Partido com... Não tinha feito ainda 19 anos, portanto, estava na idade da UJC, né? Fundei a UNE, certo? Eu não sei se foi a UJC ou a... Você me desculpe. Às vezes eu falo o particular no singular, mas está errado. Nós fundamos a UNE.
FDR: E a fundação da UNE?
I: Aí é que vem o processo, o negócio do espaço e o tempo. Como eu disse a você: eles tinham um objetivo e iam em cima daquele objetivo e esqueciam as "franjas". Então, por exemplo, praticamente em 1935 nenhum estudante comuna foi preso no Brasil. Certo? Sobramos todos. Aí então veio a orientação do Partido, aí sim, acabando com a UJC, e nós ficamos interditos, porque, em 1935, sobramos e ficamos nas células do Partido ... Continuamos a funcionar... Aí vieram: "Olha: a UJC foi dissolvida." Foi quando eu soube que era da UJC, eu não sabia. Aí perguntamos ao assistente: "E o que é que nós vamos fazer?"
FDR: Você lembra quem era o assistente?
I: Não, não. Isso não lembro. Ele disse: "Vão para os órgãos de vocês. Vão pra lá. Vão para os Diretórios." Porque tinha o Diretório... Era antigo já. Resultado: em 1936, 1937, o Partido mandava ou tinha militante atuando em todos os Diretórios do país. Nós cumprimos a regra e fomos pra lá. Então, tomamos muitos... Naquele tempo, tinha uma importância enorme o chamado Centro Onze de Agosto, em São Paulo. Nós conseguimos... Isso era da granfinagem, ultragranfinagem de São Paulo. Só tinha rico no Centro Onze de Agosto. E isso era, vamos dizer, a cabeça estudantil no Brasil, o Centro Onze de Agosto. Pois até lá nós conseguimos influenciar. Então, quando o Partido disse "vão pros diretórios", nós fomos e aconteceu isso. Em princípio de 1937, mais ou menos, nós já participávamos de todos os Diretórios, principalmente aqui no Rio, onde nós mandávamos inteiramente e na Bahia, onde se destacava uma figura de que falam pouco: o baiano Aydano do Couto Ferraz. Bom, depois ele foi da imprensa do Partido. Até no Acre acho que nós tínhamos representantes nos Diretórios de lá.
FDR: E depois esses Diretórios criaram...
I: Exato! Um núcleo aqui no Rio de Janeiro, o centro político do Brasil, naquela época. Câmara, Senado, tudo aqui. Então nós começamos a criar órgãos estudantis, a começar pelo que está aí no documento. O primeiro órgão, quem é que participava? Jorge Amado. O comuna Jorge Amado. Foi um dos que criaram um desses órgãos estudantis de Esquerda. Mas eu estou falando do Jorge Amado de 1933. Tinha publicado só dois livros: O “Cacau” e “O país do carnaval”.
FDR: Quando chega 1945, o Partido... Em 1945, você já estava em Magé?
I: Sim.
FDR: Em 1945 acontece o fato, se você puder comentar um pouco, de o Partido, depois da campanha para acabar com a Ditadura do Estado Novo no Brasil, depois de o Getúlio ter entregue a Olga aos nazistas, assim que o Prestes sai da cadeia, o Partido faz parte do movimento Queremista pelo Getúlio. Quase 10 anos depois, a história vai se repetir, mas ao inverso: o Partido fazendo uma campanha muito forte contra o Getúlio, o Getúlio se suicida e a gráfica do Partido, inclusive, é empastelada pela população, não era nem pela reação. Um pouco antes também das reviravoltas, o Partido sai do Manifesto de Agosto de uma linha de luta quase que guerrilheira para a Declaração de Março...
I: Quase que guerrilheira, não. Guerrilheiríssima. O Manifesto de Agosto é uma declaração, assim, extremada de “revolucionarismo”.
FDR: O que você acha desse ziguezague na nossa História? O que você se lembra, como é que você se sentia em relação a isso? O impacto também do 20º Congresso do PCUS... Esses fatos históricos e as mudanças que ocorriam, às vezes, de uma hora para outra na política do Partido. Como é que você encara isso ao longo da História do PCB? Porque você viveu quase toda ela...
I: Olha, eu era comunista de carteirinha, de maneira que a minha tendência geral era concordar com o Partido, com umas restrições... Saía fora, não participava... Por exemplo: não concordei com o Manifesto de Agosto, não disse nada a ninguém, mas não topei nada, nada, nada que viesse concretizar o Manifesto.
FDR: Era esquerdista aquele Manifesto?
I: Bota esquerdista nisso!
FDR: Totalmente descolado da realidade?
I: Totalmente descolado da realidade, certo? Totalmente descolado da realidade naquele momento. É uma coisa de desespero. Foi um Manifesto quase que... “me bate que eu gosto”. Entendo que quase para provocar a reação e ele chamava o povo para constituir o exército popular, meu filho, para derrubar as instituições. Aquele desespero de chamar o povo para formar um exército popular, para você ter uma ideia.
FDR: E isso era fruto só da perda da bancada parlamentar ou, em sua opinião, tinha algum outro motivo que justificasse o Partido ter optado por essa linha?
I: Não, o negócio ali era a raiva do pessoal de esquerda, era a utilização dos mecanismos de direção burguesa para esmagar completamente o Partido. Foi uma coisa terrível. Um negócio inimaginável o que eles fizeram para esmagar completamente o Partido, certo? Então, o Manifesto de Agosto seria uma espécie de resposta desesperada sem justificativa política, vamos dizer assim, quer dizer, no desespero. O Partido fez o Manifesto de Agosto ... exatamente como 1935 ... O que faltou em 1935 ...
FDR: O que faltou em 1935?
I: Acumular forças, compreendeu? Acumular forças. Em 1935, o movimento popular em torno das reinvindicações que o Partido levantava, era um negócio assim fora de série. A bandeira do Partido e os seus nomes eram aceitos pela massa. E, de repente, acontece aquilo que, na minha cabeça, houve provocação, certo?
FDR: No ato...
I: O movimento lá em Natal e em Pernambuco. Houve infiltração para provocar e determinar aquele levante pra ser esmagado, entendeu? Porque, se continuasse... a massa, o povo brasileiro estava ficando do lado do Partido inteiramente. Um crescimento brutal nas fileiras do Partido ... O ambiente era, em geral, nesse sentido. Se nós acuássemos, avançássemos mais alguns meses, nós teríamos derrubado o governo de Getúlio, mas não. Naquele tempo, que é uma coisa que vocês devem estranhar, o levante em quartel era a coisa mais comum do mundo, certo? E não dava em nada. O regimento se levantava quando a comida estava ruim e pronto. Faziam greve de fome e não voltavam a comer enquanto o governo não mandava comida... E ficavam ameaçando os governos estaduais. Naquele período de 1930, levante em quartel era a coisa mais simples, mas levante pelas reinvindicações imediatas dos soldados. E baseado nisso, como era muito fácil levantar as Forças Armadas pra qualquer coisa, o Partido...
FDR: Cometeu um erro de avaliação...
I: É, houve esse erro de avaliação. E acho que ainda vai se descobrir algo igual ao do Cabo Anselmo. Houve algum Cabo Anselmo, na minha opinião, no Rio Grande do Norte e em Pernambuco. Precipitou uma coisa que seria vitoriosa se demorasse mais uns meses, não precisava anos não. A vibração política pela linha lançada pelo Partido era tão grande que o povo estava todo aderindo. Sindicatos sendo levados a tomar decisão política, uma vibração política muito grande ... Agora, chamar o movimento de 1935 de Intentona foi a maior sacanagem que a reação podia fazer. Não houvesse a precipitação de Natal e Pernambuco, Getúlio teria desaparecido naquele período. Getúlio, Filinto Müller... Todo aquele pessoal teria sido varrido do mapa.
FDR: E como é que foi, dez anos depois, exatamente, você fazer parte do movimento queremista de uma hora para outra?
I: Nós não fizemos parte do movimento queremista. Nunca! Nunca! Chamaram... O Partido foi queremista. O Partido foi, naquele período... Prestes toma aquela atitude que assombrou, balançou muita gente, muita gente entrou em choque, muita gente saiu do Partido por causa daquilo, né? Do apoio a Getúlio, o homem que tinha mandado a Olga para as garras do nazismo. Muita gente não entendeu. Já naquele tempo, muita gente entrou em choque.
FDR: E pra você, vendo hoje, qual a avaliação...
I: Aliás, vou já passar pra você uma coisa, uma conclusão que eu tenho há muito tempo, que eu não digo... Prestes, pra mim, como ser humano, como médico que eu fui, é uma criatura fora de série. Poucos homens na vida puderam suportar o que ele suportou sem se suicidar, sem... Basta dizer o seguinte: solitária é uma coisa tão séria que, em todos os exércitos do mundo ou em todas as polícias do mundo, está estabelecido que não se impõe mais de trinta dias de solitária. Prestes ficou nove anos! Isso aí, inteirinho! Agora, a minha opinião, que eu tô dando a você, pela primeira vez tô passando para alguém, a minha opinião é a seguinte: ideologicamente, esse ser fora de série que era o Prestes ... qual é o documento de Prestes que você cita? Me diga. Que ficou aí, cadê? Nós fomos, praticamente, o único Partido do mundo que não teve um ideólogo.
FDR: Alguma lembrança específica do Prestes?
I: Eu, uma vez, estava no elevador com Prestes, e o Prestes começa a conversar comigo e vira-se pra mim: “Você e tal, quando você foi a Moscou ...” Eu disse: “Quem é que foi a Moscou? Eu fui a Niterói, no máximo.” Ele: “Você nunca foi a Moscou? Não é possível! Prepare sua roupa que eu vou”... Escreveu para o Partido e eu fui chefiando uma delegação que naquela época havia, que era o seguinte: eles premiavam os grandes militantes, os velhos militantes, já velhos, com uma viagem à URSS. Tudo pago desde aqui até lá, ida e volta. “Se prepare que você vai para a URSS.” Uma semana depois, o Partido estava me avisando: o negócio vai ser dia tal, prepare suas malas... Agora me perdi um pouco, acontece muito isso com a minha idade.
FDR: Você estava no elevador, com Prestes...
I: Ah, sim. E ele faz isso. Ele ficou horrorizado quando soube que eu não tinha ido e promoveu esse negócio. Lá fui eu chefiando a delegação... Então estava nesse nível, né? Baixaram lá secretários para me atender. A delegação brasileira sempre é recebida por Secretários do Partido. Nos lugares onde eu fui a sós – e fui a Leningrado, fui à Bielorrússia, fui a Minsk – eu era recebido como dirigente máximo. Em Minsk, fizeram de me colocar no carro mais novo do ano, de mais luxo, eu e a minha mulher, com escolta, motocicletas na frente e atrás, né? Minha mulher ficou “p” da vida, falou com o intérprete que era um escritor, um cara extraordinário, nunca tinha vindo ao Brasil e conhecia mais do Brasil do que, talvez, você conheça, o Igor. E era apaixonado pelo Brasil. A ordem que veio lá de cima era que eu tinha que ser tratado como se fosse diplomata. Nós é que baixamos o negócio. Mas voltando: o que eu quero dizer fundamentalmente é que o único Partido do mundo que não teve um ideólogo à altura. Tivemos figuras que tendem a botar para cima, mas eu também acho fracos, assim como o Gorender, o Jacob Gorender. Mas dirigente político nosso nós não tivemos. Marighella. Marighella era muito guerreiro.
FDR: Você chegou a conversar, ou qual era a participação, a visão, de personagens como Caio Prado, como Nelson Werneck?
I: Nelson Werneck: ganhei presentes dele, da mulher dele. Quase toda a produção dele. Nelson era amicíssimo. Com Caio Prado não tive contato e me lembro que discordava fundamentalmente das colocações dele.
FDR: Retomando até uma pergunta anterior, esse assunto que você levantou, de não termos tido um ideólogo ou, utilizando outras palavras, se você concordar, alguém que conseguisse traduzir o estágio de desenvolvimento da luta de classes na sociedade, do capitalismo no Brasil... Isso, de alguma forma, tem relação com esse ziguezague da tática política?
I: Claro! Se você não tem uma linha ideológica, filosófica acertada, você vai ziguezaguear. Você deu o nome correto. Você “zagueia”, vai pra lá, vai pra cá, certo?
FDR: E você falou sobre o Manifesto de Agosto e sobre a Declaração de Março, que depois, inclusive, iria gerar um racha. Qual avaliação que você faz?
I: Ao contrário. Uma volta para trás. Enquanto o Manifesto de Agosto avançava demais, não batia com a realidade brasileira, o Manifesto de Março batia com a realidade que tá aí, da corrupção. A Declaração de Março pregou aquela coisa: nós nos misturamos, manchamos, inclusive, com a mistura, nossas concepções marxistas. Não sei se você sabe um detalhe que eu vou contar a você, eu participei: Prestes estava na clandestinidade e ia haver o Congresso do Partido. E aí o Partido pediu que o Prestes fizesse uma coisa ideológica, filosófica, uma tese para o Partido, porque tinham as teses. O Prestes escreveu, mas a direção não aceitou, e aí o Giocondo comanda aquela Declaração que, ao contrário, é o mergulho na política...
FDR: ...Burguesa?
I: Burguesa. Entendeu? Essa é a minha análise...
FDR: É importante falar que, dois anos antes, teve o XX Congresso do Partido da URSS, cujo informe deve ter caído como uma bomba dentro do Partido. Você, nesse período, já estava em Magé?
I: Eu tava... Olha, o negócio é o seguinte: Eu morei muito tempo no Rio e trabalhava em Magé. Durante alguns anos – mais de 10 anos – morei em Magé mesmo, e minha política tá exatamente no livro.
FDR: Mas você tinha contato também com a efervescência que acontecia aqui...
I: Sim. Acontece que, fora de Magé, eu tinha contato com a direção do Partido, compreendeu? Eu fui braço direito do Agildo Barata. Agildo Barata, tesoureiro do Partido, e eu ia com ele tirar o dinheiro da burguesia. Anos 50, eu acho. Estive em Campos, em uma porção de lugares para tirar dinheiro da burguesia, porque ele ameaçava, né? Ele arrancava mesmo dinheiro a pau... Você ficava sem jeito. Para você ter uma ideia, houve um período em que, por causa da Declaração de Março, nós nos aproximamos do Amaral Peixoto. E, como em toda campanha eleitoral, o partido que tem dinheiro ajuda o outro, né? Então, nós pedimos a ele quantia alta: 400 mil. Na época corresponderia a 1 milhão hoje.
FDR: E esse dinheiro era só para campanha...
I: Era pra campanha. No Partido, não houve um só momento, de ninguém que pegasse esse dinheiro. Houve traição, houve infiltrações sérias, mas...
FDR: Não é isso. Além da campanha, se utilizou para montar uma gráfica, por exemplo?
I: Ah, sim. O dinheiro, depois, o Partido utilizava como achasse interessante. Mas nós tomávamos dinheiro desse pessoal. E o Agildo tomava na base da pressão. A tal ponto que, um dia, Amaral mandou um recado: “Olha, eu vou dar o dinheiro, mas, por favor, mandem o Irun, não mandem o Agildo”. Tem outro detalhe muito interessante nesse negócio da contribuição em dinheiro. Esse é curioso. Não tem nada de pressão. Foi um bicheiro, em Petrópolis: Melo. Naquele tempo, era o bicheiro de Petrópolis e Teresópolis, nesses arredores. Aí o pessoal de lá de Petrópolis levantou: “Olha, o lema aqui é nacionalista. Talvez, se vocês vierem aqui, tomem um dinheiro bom deles”. Aí nós fomos. Eu e um médico, outro médico de Petrópolis. Nós chegamos e expusemos: “Olha, nós somos do Partido Comunista e tal, mas nossa posição é profundamente nacionalista”. Era a linha nacional libertadora. “E soubemos que o senhor é entusiasta do movimento do Petróleo é Nosso, e viemos aqui pedir esse dinheiro ao senhor ... porque o senhor sabe que a alma da coisa é o Partido Comunista”. Ele disse pra nós assim: “Os senhores estão perdendo tempo...” Aí nós começamos a falar do movimento do Petróleo é Nosso, que era muito bom, que... “Os senhores podem parar de falar aí porque eu estou acabando de chegar de Camaçari, na Bahia. Eu sou tão entusiasta do programa pelo petróleo que fui lá, só pra ver. Os senhores querem ver o vidrinho de petróleo aqui? Quanto é que os senhores querem?”
FDR: Você “gastou saliva” sem precisar...
I: “Quanto é que os senhores querem, estão precisando para fazer impulsionar esse movimento?” Aí eu olhei pro outro e não sei quem teve coragem de pedir 400 mil moedas da época. Seria 1 milhão. “Só?”, a resposta dele. “Olha, passem amanhã nesse endereço. O meu gerente está nesse endereço e eu vou avisar a ele... Os senhores vão ter o dinheiro. Vai ter que ser em dinheiro, em notas. Levem bolsas”. Coisas curiosas, né? Bicheiro contribuindo em alto nível para o Partido Comunista porque o Partido Comunista estava criando, estava defendendo o Petróleo é Nosso. Nem se falava em Petrobrás, nada disso. Nem tinha... Estava começando, né? O primeiro poço de petróleo lá em Camaçari, fui lá pra ver.
FDR: Sobre o 20º Congresso e a divisão do PCB com o PC do B... O que você poderia dizer?
I: Essa eu não acompanhei de perto. A que eu acompanhei de perto foi entre PCB e PPS. Nesse eu participei...
FDR: Foi a São Paulo?
I: Fui a São Paulo, nós fizemos uma reunião lá no Arouche, né? Já sabíamos que o Roberto Freire tinha se mobilizado pra isso, botou uma porção de gente, inscreveu uma porção de gente no Partido e botou como delegado querendo nos derrotar. Sabíamos que íamos ser derrotados e já tínhamos preparado adiante... O Freire criou o PPS e nós saímos em passeata e fomos para esse outro local que já estava reservado e mantivemos o Partido com o Horácio Macedo à frente.
FDR: Um pequeno livro do Nelson Werneck Sodré, “Contribuição à História do PCB”, aborda as dificuldades de se contar a história do Partido, porque muitos documentos foram levados pela repressão e o Partido até hoje não os tem, além de que muitas bibliotecas tiveram que ser destruídas por causa da reação. Muita gente teve que jogar coleções de jornais, de panfletos, de manifestos...
I: Foi um negócio tremendo. Houve uma perseguição, principalmente em 1935...
FDR: Mais do que em 1964?
I: Não sei. Em 1935 houve isso, uma destruição de documentos, mas uma coisa alucinante. Documentos do Partido, porque na família tinha o esquerdista, não precisava nem ser comuna, mas que tinha livros de Marx. E se organizava toda uma trama para fazer desaparecer livro, queimar, jogar no esgoto, jogar no rio, uma coisa tremenda, essa em 1935.
FDR: Existem alguns assuntos na história do PCB, assuntos complicados, acordos políticos, processo de verificação inclusive de coisas como as infiltrações da direita, que talvez nunca venham a ser efetivamente comprovadas. Como é que você, com mais de 70 anos de militância, encara isso? Existem arquivos fechados sobre a vida interna do PCB que nunca serão abertos?
I: Isso é que é triste, é que não existem esses arquivos. Esses arquivos foram todos, como eu disse a você, no processo revolucionário brasileiro, eles foram sendo queimados, né? Eu, no período dos anos 50, 60, editei uma revista junto com outros médicos, vários médicos de esquerda que fizemos uma revista médica chamada “Atualidades Médicas e Biológicas”. Uma revista médica na Guerra Fria. Editamos vinte números dessa revista.
FDR: Esse material se perdeu?
I: Não se perdeu. A polícia queimou todas! Tá bom? Eu, a duras penas, tenho uma meia dúzia desses exemplares, alguns exemplares de cada. A pergunta foi boa, mas você vê a que ponto chega a repressão da burguesia. O Churchill declara a Guerra Fria. Desde aí, nada que se fazia, que se produzia, fosse o que fosse em matéria de arte, em matéria de ciência, em matéria de medicina, qualquer coisa nos países socialistas, nada chegava ao Brasil.
FDR: Nem artigos acadêmicos ou científicos?
I: Nada. Absolutamente nada. Então nós, para rompermos com isso, criamos uma revista para divulgar o chamado mundo socialista. Todos os países que foram para o Comunismo produziam coisas em medicina. A China, inclusive, foi a mais inteligente de todas.
FDR: Por quê?
I: Como sabiam que ninguém entendia mandarim no mundo inteiro, os chineses pegavam os melhores artigos sobre ciência médica e publicavam uma revista de medicina em inglês. Tá bom? Eu todo mês passava na embaixada chinesa para apanhar a revista. Que visão desse pessoal. Fizeram isso. O que havia de melhor. Com a Guerra Fria acabou isso, não chegava nada aqui. Então nós fizemos uma revisa de medicina para publicar... Muitas das coisas que estão aí na medicina atual são de origem socialista: hipnose médica e odontológica. Até aquele período da Guerra Fria, hipnose era artigo de mágico no teatro. Eu assisti um mágico fabuloso hipnotizar toda a plateia. O único que não foi hipnotizado fui eu, que sabia como me livrar, conhecia hipnose. No entanto, é método de tratamento. Você é capaz de hipnotizar um paciente, tirar os dentes todos dele, numa sessão só, sem ele sentir nada e ele sair dali e não sentir nada. Hipnose bem feita, você pode fazer isso, tá? Acupuntura. Método milenar dos xamãs, dos macumbeiros chineses, que são chamados de xamãs, entendeu? Mas um método milenar, método mais velho que Jesus. Acupuntura, isso se aperfeiçoou de tal maneira que quando chegou na China comunista, os médicos verificaram que o troço era bom mesmo. Com os aperfeiçoamentos que tinha sofrido esse processo milenar, chegaram à conclusão de que o troço era bom, e é bom mesmo!
FDR: Vocês chegaram a publicar artigos sobre acupuntura, por exemplo?
I: Uhum.
FDR: Nessa revista?
I: Nessa revista. Parto sem dor, que eu cito aí no livro. Um soviético, Platonov, mostrou que a dor sentida pela mulher no parto tem fundo religioso. Tá lá na Bíblia que Deus condenou a mulher a parir com dor, e todo mundo passou a acreditar que só se nasce com dor. Não é verdade. Parto é fenômeno fisiológico, não pode nem deve doer. Se doi, é porque os órgãos da mulher estão doentes. Mulher sadia tem parto sem dor. E nós provamos isso. A revista veio pra cá, e nossos obstetras – tem uma, a Maria Augusta Tibiriçá – com um curso de três meses, fazem a mulher ter um filho sem dar um ai. Porque foi metido na cabeça das mulheres: “Parirás com dor. Jeová disse isso”.
FDR: Em grande parte do seu livro você fala da sua atividade profissional e, de certa forma, ela também estava ligada à sua atividade política em Magé. Uma matéria que saiu recentemente divulgouestudo premiado pela FAPERJ, segundo o qual o crescimento demográfico de Magé entre 1920 e 1940 é algo quase que inócuo por causa do enorme índice de malária. O Brasil não tinha nenhuma política de saúde... Como é que foi chegar naquele município e desenvolver todo esse trabalho?
I: Não tive barreiras porque soube encaminhar o processo. Então, você vai de acordo com o pensamento da massa... Acabou. As barreiras acabaram. Fui pra Magé, como eu conto no livro, porque lá tinha cinco fábricas.
FDR: Tecelagem?
I: Tecelagem. Mas eu cheguei lá e não me declarei comuna. 1940, certo? II Guerra Mundial, o Brasil naquela luta com Getúlio para Getúlio ficar ao lado dos democratas e contra o Eixo. Que ele era fascista, em1938, era marca da formação do Estado Novo, que era um Estado fascista. Em 1940, começa a divergência. Eu tô sem coragem, na espera. Aí, de repente, começa a ter uns atritos, Getúlio faz declaração emMinas Gerais pró-fascismo, o povão esperando que ele mudasse de posição, querendo forçá-lo a mudar de posição... Afundam os navios brasileiros. Foram uns quatro. Isso desencadeia a luta para o Brasil entrar na guerra, entrar na guerra ao lado dos aliados e mandar a Força Expedicionária. Constituí, em Magé, uma comissão de apoio à Força Expedicionária, que tem o apoio de todo mundo, de todos os partidos, dos mais reacionários possíveis, todos apoiam. E eu, o líder do “negócio”. Começou a minha atuação, pelo lado patriótico. Tive essa sorte. Quando acaba a guerra, eu mostro, apareço como comuna e já tinha conquistado de tal maneira a opinião pública, que o Partido, de 13 vereadores, faz quatro. Elege quatro e o suplente, praticamente cinco, em uma Câmara de 13 vereadores. Tá bom? O negócio é você saber como fazer, mas pode cometer erros também, como eu fiz, a ponto de ser esculhambado pelo juiz reacionário (risos), quando fui candidato a prefeito. Fui candidato a prefeito em Magé, e tava pau a pau com oadversário. Cada dia, mais gente a meu favor, e eles conseguem cassar o registro da minha candidatura na véspera do pleito. E eu, naquele entusiasmo em que eu estava, com o apoio maior, eu parei a campanha, abandonei tudo, e fiquei chateado. Resultado: ainda tive uma votação bastante boa, e o juiz que morava comigo e que era reacionário, formado em Coimbra, mas muito ligado a mim, me deu uma bronca: “Pô, mas que besta que você foi, hein? Por que você não continuou sua campanha? Você ia ganhar, depois nós íamos pro pau. Ia ganhar e iam dizer que você não podia, ia pra juízo e você ia ganhar”. Recebi uma esculhambação, não foi do Partido não, foi do meu juiz (risos). Tá bom? Reacionário!
FDR: Você acha que o que te levou a escolher o comunismo e o que te levou a escolher a medicina, aí dentro do seu peito, é a mesma coisa?
I: Coincidem bastante. Eu não sei por quê, desde os seis anos de idade, eu acho que boto isso aí no livro, eu não me conformava em saber que tinha uma família organizada, que ia me fazer médico... Eu era muito estudioso, primeiro lugar em escola primaria, dez com louvor, e eu sabia que, com meu potencial pessoal e o apoio que eu ia ter dos meus familiares, ia chegar a médico. E não me conformava, com seis aninhos de idade, já pensava assim. Que a garotada, a molecada da rua, tá aí no livro, eu acho, ia ficar na fábrica, e eu os achava superiores a mim. Eles eram melhores em tudo! Eu só era melhor do que eles numa coisa: pegar rã. Apanhar rã. E na corrida, maratona da morte. Bem alimentado, eu ganhava sempre mesmo. Mas, na maratona da morte. Quem não aguentava ia caindo, ia saindo do caminho. Ganhava o que fica de pé, e eu ganhava sempre.
FDR: Mas você descobriu a existência da medicina antes da existência do comunismo. Como é que foi esse encontro?
I: Aí é fácil, é muito fácil de explicar. Meu pai, uma das coisas que ele foi ser foi mata-mosquito. Segundo: eu morava num ponto do Rio de Janeiro, um lugar chamado Retiro do Saudoso, que era separado pelo mangue do Castelo...
FDR: Mangue ou Morro do Castelo?
I: Não. Do Castelo da Fundação Oswaldo Cruz. As minhas princesas ficam lá, naquele castelo (risos). Certo? Subia a direção do Oswaldo Cruz... Isso de um lado, de outro lado, a minha vó, preta, mãe do meu pai, foi das primeiras, dizem que foi a primeira, não vou exagerar, mas foi das primeiras enfermeiras do Hospital São Sebastião, hoje tá lá, abandonado. Aqueles pavilhões bonitos, e ela foi tão boa enfermeira que, naquele tempo, que não tinha aposentadoria, ela envelhecendo, os médicos e o diretor do hospital resolvem dar pra ela um quarto pra ela viver até morrer. E deram a ela: casa, comida e roupa lavada. E o hospital era uma referência na época das grandes epidemias. Então, eu tinha contato quase que semanal, às vezes, quase diários com aquela vivência ali. Entendeu? Tive essa influência. Do outro lado, a influência do Oswaldo Cruz lá na minha mente infantil. O mais curioso foi ser comunista, porque eu, aos seis anos, não aceitava que os meus companheiros fossem parar na fábrica e eu ia ser médico. Eu ficava revoltado com isso.
FDR: Com seis anos?
I: Com seis anos. Aos seis aninhos já...
FDR: E você sabe identificar em qual momento caiu a ficha? Foi um livro, foi um contato com algum militante?
I: Não sei explicar por que desde os seis anos eu tomei essa atitude. Não sei te explicar. Eu sei que, dos seis aos onze anos, até entrar para o ginásio, eu era companheiro da molecada toda dali e lastimava isso: sabia que eu ia ser médico, que tinha um potencial e um apoio enorme da família, como eu tive. Uma coisa que me revolta é esse negócio de dizer “me fiz por mim mesmo”... Coisa nenhuma! Não há ninguém, nenhum imbecil, nenhum gênio, fora da realidade, que tenha chegado a uma situação espetacular que não fosse pelas circunstâncias favoráveis da vida.
FDR: O Partido está comemorando 90 anos. Você é mais velho que o Partido. Que recado você quer deixar para as gerações que estão por vir?
I: Eu estou vendo o crescimento, a cada momento, do conhecimento médio crescer, a cada dia, a cada momento filosófico, posso dizer assim. Nós estamos falando aqui, e apareceu uma coisa mais avançada na humanidade. Ao mesmo tempo, nós estamos no caos, essa é minha opinião. E vamos caminhar para a destruição ... Nós estamos no caos porque o capitalismo está acabando. O trabalho morto vai substituir otrabalho vivo. E sem trabalho vivo não tem capitalismo. A máquina faz tudo! Agora mesmo, no jornal de hoje, eu tô pedindo a ela pra guardar, saiu um negócio que é espantoso. Não sei se vocês viram. Uma cidadezinha do Piauí, o estado mais atrasado do Brasil, juntaram-se lá uma meia dúzia de jovens pedagogos e ela é a campeã do mundo em matemática, entre os jovens. E não é um fenômeno só não, são vários garotos, de onze a dezessete anos, que estão faturando, todo ano, o prêmio de matemática. No interior do Piauí. Esse é o nosso futuro! Entendeu?
FDR: E o que o Partido precisaria fazer?
I: O Partido precisa ... Aí é que entra a briga minha, o Partido precisa dar importância a isso, ao crescimento excepcional do trabalho morto em relação ao trabalho vivo. Esse crescimento vai ser de tal maneira que o trabalho morto vai matar o trabalho vivo em uma geração, essa é a minha opinião. Acabando o trabalho vivo, não vai existir exploração do homem pelo homem, como no capitalismo. Tá de acordo comigo?
FDR: O problema é que a tendência do que vem depois não é muito boa...
I: A tendência pode ser muito boa, como é nesse caso do Piauí. Extraordinário. Tem esse potencial na humanidade, que é o que eu sempre defendi, desde pequenino, um negócio inimaginável. Essa cidadezinha não tá produzindo um gênio, não, tá produzindo gênios e mais gênios. O potencial não é crescimento aritmético, nem geométrico, nem trigonométrico, é um crescimento exponencial, crescimento do trabalho morto, da ciência, da tecnologia, e essa vai dar aos seres humanos a oportunidade deles aparecerem. Aliás, quero falar também do Maranhão. Não dá pra entender como que um estado como aquele, com o domínio daquela família, permanece naquela miséria, aquele atraso absoluto em tudo, em tudo! Até na agricultura, não dá pra entender. Falando nisso, um detalhe, (risos) cê não sabe?
FDR: O quê?
I: Sarney, quando começou a ser deputado pela UDN, fazia parte da “banda de música” e contribuía mensalmente para o Partido (gargalhadas)...
FDR: Como assim?
I: É o seguinte, era, porque o primo morreu, primo-irmão do Milton José Lobato, médico fisiologista e comunista de carteirinha. Quando ele se elegeu deputado, veio para o Rio de Janeiro e encontrou o Milton aqui, entendeu? Tava entusiasmado, recém-eleito deputado da “banda de música” da UDN, um novato do partido dele aqui no parlamento. O Milton Lobato falou com ele e ele passou a contribuir com o nosso Partido. Todo mês nós íamos almoçar com ele, na Rua do Lavradio, num restaurante chamado “Tim-Tim por Tim-Tim”, frequentado – não sei por que motivo, nem era próximo ao parlamento – por deputados e senadores. Todo mundo ia lá comer as famosas iscas de fígado, com elas ou sem elas. Sabe quem são “elas”, né? Batata frita (gargalhadas). Com elas. E aí ele contribuía alto, inclusive, pro Partido, através do primo. E o primo fazia questão, dizia: “Olha, o Sarney não é flor que se cheire, é meu primo, mas só vou buscar o dinheiro se eu for com você”. Então, todo mês nos íamos almoçar com ele lá no “Tim-Tim por Tim-Tim”.
FDR: Fígado com fritas e dinheiro para o Partido.
I: É, dinheiro para o Partido.
FDR: Para a gente concluir, depois do lançamento do livro, você disse que já tem outro engatilhado. Ele sai quando?
I: Esse é o seguinte: cheguei à conclusão que só pode ser feito a cinco, seis mãos. Precisa de um historiador, que eu já tenho, que é o Aquino. Precisa de um astrônomo, esse é mais difícil, que seria o Maurício Gleiser ou o Rogério Mourão Freitas, eu não conheço nenhum dos dois, mas acompanhei a vida dos dois. Aí é que está a coisa curiosa, acompanhei desde que eles começaram. No caso do Maurício Gleiser, eu tenho quase certeza, inclusive, de que ele é parente de uma pessoa que deu um grande problema quando eu estava começando no Partido, nos anos 30: Genny Gleiser. Menina de 16 anos, foi presa pela Ordem Política e Social nos anos 30. Acho que foi em 1934. Presa e mandada pelo Getúlio para ser entregue a Hitler. Quando passa num porto francês, acho que Marselha, o pessoal do Partido invade o navio em que ela estava, arranca ela do navio e a salva das garras de Hitler.
FDR: Socorro Vermelho?
I: Ah, não sei quem foi... Foi o Partido Francês que fez isso. Bom, Genny Gleiser desaparece da minha mente e até mesmo da dos próprios judeus. Ela era judia. Até da mente dos judeus. Ninguém falava mais nela. Até que um judeu, grande militante comunista, Joseph Schneider, começou a catar, procurar o destino da Genny. E descobre que ela estava em Nova York. Viva ainda em Nova York. Agora eu dei um salto de 1930 pra 1980... Uns 50 anos esse salto. E ela vivendo lá em Nova York. Schneider, um sujeito muito humano, era dessas figuras... Comuna militante, os judeus reacionários chamaram-no para ser diretor do Museu dos Judeus aqui no Brasil. Pra você ver o valor desse homem, de tanto conhecimento, tanto estudo. Profissão: alfaiate. Foi mestre do Adonis, daquela camisaria Adonis. Esse Joseph Schneider era assim, fora de série...
FDR: E aí ele encontra a Genny em Nova York ...
I: Ele a encontra em Nova York e avisa que tinha uma herança aqui porque a irmã dela, Berta Schneider, tinha casado com Darcy Ribeiro! A Berta Schneider era mulher do Darcy Ribeiro e irmã da Genny! Eu acho que ela não teve coragem de voltar ao Brasil, ou não quis, ou estava bem. O certo é que ela não veio, mas há uns 15 anos eu garanto que ela estava viva. A história da Genny merecia um livro. Tem muitas dessas personalidades que eu estou citando aí que mereciam um livro. O Sarney, pra esculhambar com ele (risos). Mas não deixem de ver a matéria sobre os garotos do Piauí. Imagina, quando vier um regime que dê margem pra todo mundo se manifestar, quantos artistas e técnicos vai produzir... O Brasil e os países que entrarem pelo caminho de darem importância a esses seres, vai ser fora de série!
FDR: Precisamos de um regime socialista para isso.
I: Exato. Nós tivemos a infelicidade e a felicidade de nascermos num país como o Brasil. Essa cidade (Rio de Janeiro), por exemplo. Dizem assim: aqui é realmente a maior cidade, a mais bonita, a melhor cidade do mundo. Não existe. E eu digo com autoridade, porque eu conheço todas as trilhas em volta da cidade. Saía catando morro pra subir, pra entrar no mato ... Há uma coisa curiosa que eu não conto no livro não. Você sabe que eu encontrei no trecho que hoje é a estrada Grajaú-Jacarepaguá, no tempo em que era selva, os canhões do Duguay-Trouin?
FDR: Canhões de quem?
I: Houve um grande corsário ou almirante francês chamado Duguay-Trouin que invadiu o Rio de Janeiro. É uma história bonita! O Rio de Janeiro foi invadido aqui por um pirata chamado Du Clerc. Du Clerc tomou a cidade, mas foi aprisionado na luta dos estudantes, principalmente estudantes de medicina... Estes se uniram, lutaram e derrotaram as forças de Du Clerc, que ficou prisioneiro dentro da cidade. E fica anosaqui. Aí se forma uma outra esquadra poderosa com o Duguay-Trouin, que chega na entrada, no Pão de Açúcar, dá adeus pro pessoal e vai saltar na Barra. Aí desce todo mundo, descem os soldados dele todos com os canhões e tudo. Atravessa as lagoas lá da Barra, sobe pela Freguesia, que era o caminho que eu passei a fazer anos depois, entra na mata e, com uma porção de canhões pesadões e tal, enguiça. Ele abandonou aqueles canhões e foi em frente. Eu encontrei esses canhões. Mas era garoto, não sabia da importância da história. Devem ter pegado pra fazer sucata de ferro, que eu nunca vi referência a isso. Não existe na história do Brasil referência a isso...
Last Updated (Friday, 27 April 2012 05:04)
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Nota de Amaro/pensarnetuno:
  Conhecí Irun ha poucos anos em um congresso do PCB e simpatizei com este antigo combatente de imediato. O derrotismo e anticomunismo de esquerda que se tornou uma praga não afetava este antigo camarada.Ele foi  levado pelo tempo biológico mas não pela História.
                    Irun,
              venceremos! 

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Aniversário de Stálin com flores em Moscou


Flores sendo colocados no túmulo de Stalin em seu aniversário



21 de dezembro de 2012 em  Moscou. Flores sendo colocados no túmulo de Stalin em seu aniversário.






domingo, 30 de dezembro de 2012

Os "estranhos" planetas descobertos nos últimos 20 anos

 
 
 
Nos últimos 20 anos, foram catalogados cerca de 850 planetas fora do nosso Sistema Solar. A busca por mundos que orbitem outras estrelas tem levado à descoberta de alguns planetas estranhos, desde um gigante de gás quente, mais escuro que carvão, até um planeta com quatro sóis.

Projeção feita pela Nasa mostra o planeta Cancri (esq.) ao lado da Terra. Foto: AFP
Abaixo, alguns dos exemplos mais estranhos.

Quatro sóis

Em uma cena do filme da saga Star Wars, quando o personagem Luke Skywalker olha para o horizonte, vê dois sóis se pondo no planeta Tatooine. Os astrônomos já descobriram vários sistemas parecidos com o da ficção, nos quais os planetas orbitam estrelas duplas. Mas, em 2012, uma equipe de voluntários e astrônomos profissionais encontrou um planeta iluminado por quatro astros, o primeiro desse tipo.

O mundo distante fica na constelação de Cygnus, orbita um par de astros e um segundo par gira em volta deles. Ele fica a 5.000 anos-luz da Terra e seu raio é seis vezes maior do que o do nosso planeta (do tamanho de Netuno).

E, apesar de ser puxado por quatro forças gravitacionais diferentes, o planeta PH1 consegue manter uma órbita estável. A descoberta foi feita por voluntários que usavam o site Planet Hunters, junto com uma equipe de institutos científicos da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos. O nome PH1 veio do site.

Na época da descoberta, Chris Lintott, da Universidade de Oxford, disse à BBC que a descoberta "não era, em absoluto, algo que estávamos esperando".

Escuridão

Em 2011, um grupo de astrônomos americanos anunciou que um exoplaneta - mundo localizado fora do nosso Sistema Solar - do tamanho de Júpiter e conhecido como TrES-2b era o mais escuro já descoberto, refletindo apenas 1% da luz que o atingia.

O TrES-2b é ainda mais escuro do que tinta acrílica preta e mais preto do que qualquer planeta ou lua do nosso Sistema Solar. Ele fica a 718 anos-luz da Terra e sua massa e raio são quase os mesmos que os do planeta Júpiter. A distância entre o TrES-2b e sua estrela pode ser um dos fatores responsáveis por essa escuridão.

Em nosso Sistema Solar, Júpiter é coberto por nuvens brilhantes de amônia que refletem mais de um terço da luz do Sol que o alcança.

Mas o TrES-2b orbita a uma distância de apenas 4,83 milhões de quilômetros de seu astro. A energia intensa do Sol esquenta o planeta a mais de 1.000ºC, o que o torna muito quente para a formação de nuvens de amônia. A atmosfera do TrES-2b também tem elementos químicos que absorvem ao invés de refletir a luz.

Mas esses fatores não conseguem explicar totalmente a extrema falta de luz no planeta. Um dos autores do estudo sobre o TrES-2b, David Spiegel, da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, afirma que o planeta é tão quente que "emite um brilho vermelho fraco, muito parecido a uma brasa ou à espiral de um forno elétrico".

Diamante

Um planeta próximo na constelação de Câncer pode ter uma composição peculiar. O corpo celeste, conhecido como 55 Cancri E, "provavelmente é coberto de grafite e diamante em vez de água e granito", segundo o astrônomo Nikky Madhusudhan, da Universidade de Yale.

O 55 Cancri e pertence à classe de mundos conhecida como planetas-diamante e acredita-se que seja rico no elemento carbono, que pode existir em várias formas estruturais, como grafite ou o diamante. Planetas ricos em carbono contrastam muito com a Terra, cujo interior tem, relativamente, pouco deste elemento, mas é rico em oxigênio.

Ele fica a 40 anos-luz da Terra e o raio do planeta é duas vezes o tamanho do raio da Terra. Em 2012, Madhusudhan e seus colegas publicaram as primeiras medidas do raio do exoplaneta. Estes novos dados, combinados com as estimativas mais recentes da massa 55 Cancri E, permitiram que os cientistas deduzissem a composição química.

Para fazer isto, eles usaram modelos em computadores do interior do planeta e calcularam as possíveis combinações de elementos e compostos que poderiam ter as características observadas. Os resultados sugerem que o 55 Cancri E é, em sua maior parte, composto de carbono (na forma de grafite e diamante), ferro, carboneto de silício e, potencialmente, silicato.

Os cientistas estimam que pelo menos um terço da massa do planeta seja de diamante, o equivalente a três vezes a massa da Terra.

Engolido

Localizado na constelação de Auriga (também conhecida como Cocheiro), a 600 anos-luz da Terra, o planeta Wasp-12b está sendo devorado lentamente pela sua estrela, a Wasp-12.

O planeta gigante orbita tão próximo à estrela semelhante ao Sol que sua temperatura chega a 1.500ºC. Ele está sendo distorcido, chegando à forma de uma bola de rúgbi, devido à gravidade da estrela.

A grande proximidade entre o Wasp-12b e a estrela levou a atmosfera do planeta a se expandir a um raio três vezes maior que a de Júpiter. Material proveniente dela está "vazando" para a estrela.

"Vemos uma grande nuvem de materiais em volta do planeta, que está escapando e será capturado pela estrela", disse a astrônoma Carole Haswell, da Open University britânica.

Haswell e sua equipe usaram o telescópio Hubble para confirmar estimativas anteriores a respeito do planeta e divulgaram a descoberta na publicação científica The Astrophysical Journal Letters. Os pesquisadores dizem que o planeta pode ainda existir por mais 10 milhões de anos antes de se apagar.

Fonte: Terra
 

Milhares de indianos fazem homenagens a jovem que morreu após estupro coletivo

 



Diversas cidades do país registraram manifestações neste sábado, em especial a capital Nova Déli

Agência Efe


Milhares de pessoas se manifestaram neste sábado (29/12) de forma pacífica nas ruas das principais cidades da Índia para prestar homenagem à jovem estuprada por seis homens em um ônibus em Nova Déli, que morreu nesta madrugada em Cingapura, onde estava internada.

As manifestações aconteceram em cidades como Hyderabad, Bangalore, Mumbai, Patna e Calcutá, onde os participantes clamam por justiça e reivindicam maiores medidas de segurança para as mulheres, segundo a imprensa local.

Em Nova Déli, o "manifestódromo" de Jantar Mantar foi o principal ponto de encontro dos indignados, depois que a polícia cortou os acessos ao cêntrico monumento da Porta da Índia, onde tinham acontecido até agora as maiores protestos. Boa parte das pessoas que chegava ao local levavam velas.

 
Em outra mostra de indignação na capital indiana, um grupo de jovens estudantes da universidade JNU realizou uma passeata pacífica do sul de Nova Déli até a parada de ônibus na qual a jovem foi pega pelos estupradores.

"Estamos tristes, mas também com raiva. Quando vai terminar esse tipo de atrocidade? Por acaso as mulheres não são humanas?", questionou Nidhi, uma universitária, à agência local Ians.

As principais autoridades da Índia disseram hoje em vários comunicados que a morte da jovem "não será em vão" e citaram a vítima como "uma verdadeira heroína que simboliza o melhor da Índia".

O corpo da universitária, cujo estupro ocorreu no último dia 16 e gerou uma onda de protestos na Índia, será levado hoje de Cingapura a Nova Déli a bordo de um avião fretado pelo governo indiano. Os autores do estupro foram detidos e a jovem, que tinha sido transferida na quarta-feira ao hospital de Cingapura onde acabou falecendo, segundo o último boletim médico, tinha "infecção nos pulmões e no abdômen, e uma grande ferida cerebral".

Um diplomata indiano que acompanhava a família da jovem em Cingapura revelou que os pais dela "desejam que a morte de sua filha sirva para brindar um melhor futuro para as mulheres tanto de Nova Déli como de toda a Índia".

O Escritório Nacional de Registro de Crimes revelou em 2011 que a cada 20 minutos uma mulher é estuprada na Índia, mas que em apenas um de cada quatro casos o estuprador é condenado, devido à "imensa corrupção" de policiais.

sábado, 29 de dezembro de 2012

Campos-RJ,pouco mudou....é alto o risco de dengue tipo 4!

Dengue: 25 casos em menos de dois dias

Phillipe Moacyr
O diretor do Centro de Referência da Dengue (CRD), Luiz José de Souza, reafirmou ontem que é alto o risco de Campos ter uma epidemia de dengue pelo sorotipo 4 no próximo ano. “Acredito que isso só não vai acontecer se não chover”, explicou o médico, destacando que os casos da doença voltaram a crescer nos últimos dias. Entre quarta e quinta-feira desta semana, 25 novos casos surgiram na cidade. “Até novembro, a incidência de casos estava em queda e registramos apenas 25 casos, mas em dezembro eles voltaram a aumentar e já contabilizamos 60 casos”.

Luiz José afirmou que o distrito de Morro do Coco está diante de um surto epidêmico, pois é o que apresenta um maior número de casos, mais de 20. “Cidades como Italva e Santo Antônio de Pádua também estão vivendo um surto epidêmico”, afirmou ele, destacando que o sorotipo 4 chegou a Campos em julho deste ano e hoje está presente em mais de 20 bairros. “Em 40 amostras enviadas para a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) foi detectada a presença do sorotipo 4. A maioria da população não teve contato com ele e, por isso, está desprotegida”.

O médico afirmou ainda que a partir de janeiro o CRD, que funciona anexo ao Hospital dos Plantadores de Cana (HPC), vai passar por obras de ampliação. Segundo ele, no espaço onde hoje funciona a tenda, montada para auxiliar no atendimento aos pacientes, serão construídos um consultório e uma sala de hidratação.

— Esta semana, inclusive, me reuni com o secretário de Obras para tratar do assunto. O objetivo será prestar um atendimento ainda melhor às pessoas que buscam o órgão — disse ele, destacando que ano passado foram confirmados 4.387 casos da doença e este ano, até dezembro, mais de mil casos. Apesar da obra, Luiz José disse que os casos suspeitos da doença vão continuar sendo atendidos no CRD.

Farol - O diretor do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ), César Salles, disse que até o Carnaval será realizado um trabalho preventivo na praia do Farol de São Thomé. “Além de dois carros e duas motos fumacê, teremos 60 homens trabalhando lá”, afirmou. Com relação a Morro do Coco, onde o número de casos está alto, ele disse que as ações de combate à dengue são diárias. “No mês passado fizemos um mutirão lá”, disse César.
Fernanda Moraes           
                                                  fonte: Folha da Manhã

Bancos contra povos: os bastidores de um jogo manipulado




imagemCM
Eric Toussaint
Este segundo artigo desta série mostra como o Banco Central Europeu e a Reserva Federal norte-americana se puseram ao serviço dos grandes bancos privados e não do interesse da população dos países. Os bancos foram confrontados com a ameaça de não conseguirem pagar as dívidas. Foi então que o BCE recomeçou a comprar, em grandes quantidades, títulos de dívida pública grega, portuguesa, irlandesa, italiana e espanhola, para fornecer liquidez aos bancos. O artigo é de Eric Toussaint.
(*) Leia também o primeiro artigo desta série: 2007-2012: seis anos que abalaram os bancos.
O BCE e o Fed ao serviço dos grandes bancos privados
A atividade do Banco Central Europeu e do Fed |1|
Os bancos europeus entraram numa fase crítica a partir de junho de 2011. A situação era quase tão grave como após a falência do Lehman Brothers, em 15 de setembro de 2008. Muitos deles estavam à beira da asfixia, porque as suas enormes necessidades de financiamento a curto prazo (alguns bilhões de dólares) deixaram de ser satisfeitas pelos money market funds americanos, que consideravam que a situação dos bancos europeus era cada vez mais arriscada |2|.
Os bancos foram confrontados com a ameaça de não conseguirem pagar as dívidas. Foi então que o BCE, na sequência de uma cúpula europeia, que se realizou de urgência a 21 de julho de 2011 para fazer face a uma série de possíveis falências bancárias, recomeçou a comprar, em grandes quantidades, títulos de dívida pública grega, portuguesa, irlandesa, italiana e espanhola, para fornecer liquidez aos bancos e aliviar o peso de uma parte dos títulos que tinham comprado avidamente no período anterior. Mas não foi suficiente.
A derrocada do preço das ações dos bancos na bolsa continuava. Para os patrões dos bancos, agosto foi o mês de todos os perigos. A abertura pelo BCE, em setembro de 2011, de uma linha de crédito ilimitada, em concertação com o Fed, o Banco de Inglaterra e o Banco da Suíça, foi decisiva para manter à tona os bancos europeus: os bancos com falta de dólares e de euros foram colocados sob observação. Começaram a respirar outra vez, mas a medida foi insuficiente. A descida aos infernos continuava.
Entre 1º de janeiro e 21 de outubro de 2011, a atividade da Société Générale caiu 52,8%, a do BNP Paribas, 33,3%, a do Deutsche Bank, 28,8%, a do Barclays, 30,5%, a do Credit Suisse, 36,7%. O BCE teve de utilizar a sua bazuca LTRO (Long Term Refinancing Operation): emprestou mais de um bilião de euros, a um prazo de três anos e a um juro de 1%, a mais de oitocentos bancos, entre dezembro de 2011 e fevereiro de 2012.
O Fed fez praticamente o mesmo, desde 2008, a uma taxa oficial ainda menor: 0,25%. Na verdade, como revelou, em julho de 2011, um relatório do GAO (equivalente nos Estados Unidos ao Tribunal de Contas), o Fed emprestou 16 trilhões de dólares a uma taxa de juro inferior a 0,25% |3|. O relatório mostra que, ao agir desse modo, o Fed não respeitou as suas próprias regras prudenciais e não informou o Congresso sobre o sucedido.
De acordo com uma comissão de inquérito do Congresso dos Estados Unidos, o conluio entre o Fed e os grandes bancos privados era evidente: «O diretor-geral do JP Morgan Chase era membro da Reserva Federal de Nova Iorque, na altura em que o “seu” banco recebia ajuda financeira do Fed, no valor de 390 mil milhões de dólares. Além disso, o JP Morgan Chase servia também de intermediário para o crédito de urgência concedido pelo Fed |4|».
De acordo com Michel Rocard, ex-primeiro-ministro francês, e Pierre Larrouturou, economista, que se baseiam numa investigação realizada pela agência financeira nova-iorquina, Bloomberg, o Fed teria emprestado parte da quantia acima mencionada a um juro ínfimo: 0,01%. Michel Rocard e Pierre Larrouturou afirmam no jornal Le Monde: «Depois de ter desbravado 20.000 páginas de vários documentos, a Bloomberg mostra que a Reserva Federal emprestou secretamente a bancos em dificuldades a quantia de 1,2 trilhões, a juros incrivelmente baixos, de 0,01%» |5|.
Os autores perguntam: «É normal que, em caso de crise, os bancos privados, que habitualmente se financiam a juros de 1% junto dos bancos centrais, possam beneficiar de taxas de 0,01%, quando alguns estados em plena crise são obrigados a pagar juros 600 ou 800 vezes mais elevados?»
Os principais bancos europeus também tiveram acesso a empréstimos do Fed até ao início de 2011 (o Dexia recebeu 159 bilhões de dólares de empréstimos |6|, o Barclays recebeu 868 bilhões de dólares, o Royal Bank of Scotland, 541 bilhões de dólares, o Deutsche Bank, 354 bilhões de dólares, o UBS, 287 bilhões de dólares, o Credit Suisse, 260 bilhões de dólares, o BNP Paribas, 175 bilhões de dólares, o Dresdner Bank, 135 bilhões de dólares, a Société Générale, 124 bilhões de dólares). O fato de o financiamento dos bancos europeus, via Fed, ter secado (nomeadamente sob pressão do Congresso norte-americano) foi uma das razões que levou também os money market funds norte-americanos a fecharem a torneira dos empréstimos aos bancos europeus, a partir de maio-junho de 2011.
Quais as consequências da entrega de 1 trilhão de euros aos bancos pelo BCE?
Em 2012, os bancos, a nadarem em liquidez, compraram, em grandes quantidades, títulos de dívida pública dos seus países. Vejamos o exemplo de Espanha. Os bancos espanhóis pediram emprestado ao BCE 300 bilhões de euros, a três anos, com um juro de 1%, no âmbito do LTRO |7|. Com uma parte desse montante, aumentaram drasticamente as suas compras de dívida, emitida pelas autoridades espanholas. A evolução é impressionante: em finais de 2006, os bancos espanhóis detinham títulos públicos do seu país no valor de apenas 16 bilhões de euros. Em 2010, aumentam as compras de títulos públicos espanhóis. Detinham 63 bilhões.
Em 2011, a compra volta a aumentar. Os títulos espanhóis, na posse dos bancos, atingem o montante de 94 bilhões. E devido ao LTRO, as aquisições explodem literalmente. O montante duplica no prazo de alguns meses, alcançando os 184,5 bilhões de euros, em julho de 2012 |8|. Convém dizer que se trata de uma operação muito rentável para os bancos. Pedindo emprestado a 1%, compram títulos espanhóis, a 10 anos, com juros que variam entre 5,5 e 7,6%, no segundo semestre de 2012.
Em seguida, vejamos o exemplo de Itália. Entre finais de dezembro de 2011 e março de 2012, os bancos italianos pedem emprestado ao BCE 255 bilhões de euros no âmbito do LTRO |9|. Em finais de 2010, os bancos italianos detinham títulos públicos do seu país no valor de 208,3 bilhões de euros, mas o montante aumenta para 224,1 bilhões no final de 2011, poucos dias após o início do LTRO. Logo de seguida, utilizam a enorme quantidade de créditos que recebem do BCE para comprarem títulos italianos. Em setembro de 2012, os bancos detêm títulos italianos no valor de 341,4 bilhões de euros |10|. Como no caso espanhol, trata-se de uma operação muito rentável: pedem emprestado a 1% e comprando títulos italianos a 10 anos conseguem um juro que varia entre 5 e 6,6% no segundo semestre de 2012.
O mesmo fenômeno aconteceu na maioria dos países da zona euro. Houve relocalização de uma parte dos ativos dos bancos europeus para os países de origem. Em concreto, constata-se em 2012, em cada país, um aumento significativo da fatia de dívida pública na posse de instituições financeiras desse mesmo país. Essa evolução tranquilizou os governos da zona euro, em especial os de Itália e de Espanha, porque descobriram que enfrentavam menos dificuldades vendendo aos bancos os títulos públicos que emitiam. O BCE parecia ter descoberto a solução – emprestando grandes quantias aos bancos privados, salvava-os de uma situação crítica e poupava alguns Estados a lançarem-se em novos planos de resgate bancário. O dinheiro emprestado aos bancos era, em parte, utilizado na compra de títulos de dívida pública de Estados da zona euro, o que fez parar a subida das taxas de juro dos países mais frágeis e até provocou uma diminuição das taxas de juro nalguns países.
É fácil de ver que, do ponto de vista do interesse da população dos países em questão, teria sido necessário adotar uma abordagem completamente diferente: o BCE deveria emprestar diretamente aos Estados a menos de 1% (como acontece com os bancos privados desde maio de 2012) ou mesmo sem juro. Dever-se-ia também socializar os bancos, sob controle cidadão.
Em vez disso, o BCE resolveu proteger os bancos privados, abrindo uma linha de crédito ilimitada, a taxas de juro muito baixas (entre 0,75 e 1%). Os bancos privados deram diferentes usos a esse maná de financiamento público. Como acabamos de ver, por um lado compraram títulos soberanos de países que, sob pressão dos próprios bancos, aceitaram pagar juros altos (entre 5 e 7,6%, a 10 anos), como aconteceu em Espanha e Itália. Por outro lado colocaram uma parte do crédito concedido pelo BCE... no BCE...! Entre 300 e 400 bilhões são depositados pelos bancos, todos os dias, no BCE, a uma taxa de 0,25%, no início de 2012, e a 0%, desde maio de 2012. E por que fazem isso? Porque querem mostrar aos outros banqueiros e aos outros prestadores privados de crédito (money market funds, fundos de pensões, companhias de seguros) que têm cash, em permanência, para fazerem face à explosão de bombas ao retardador que se encontram nas suas contas. Porque se não tivessem esse cash disponível, os potenciais credores afastar-se-iam ou imporiam taxas muito elevadas. Com o mesmo objetivo de tranquilizar os credores privados, compram também títulos soberanos de Estados que não representam risco a curto ou médio prazo: Alemanha, Holanda, França... Os bancos privados são a tal ponto sôfregos que esses Estados podem dar-se ao luxo de lhes vender títulos a dois anos, a uma taxa de 0% ou até mesmo com um rendimento ligeiramente negativo (sem ter em conta a inflação).
Os juros pagos pela Alemanha e pelos outros países considerados financeiramente sólidos caíram significativamente, devido à política do BCE e ao agravamento da crise nos países da periferia. Houve uma fuga de capital da periferia europeia para o centro. Os títulos alemães são tão fiáveis, que, no caso de ser necessário cash, podem ser vendidos, de um dia para o outro, sem perdas. Os bancos adquirem-nos, não com o objetivo de ganharem dinheiro, mas para terem permanentemente, no BCE ou sob a forma de títulos com liquidez, quantidades de dinheiro disponíveis a fim de darem uma impressão (muitas vezes falsa) de solvência e de estarem prontos para qualquer eventualidade. Os bancos obtêm lucro emprestando a Espanha e a Itália e isso compensa as perdas que possam ter com os títulos alemães. É muito importante notar que os bancos não aumentaram os seus empréstimos a famílias e empresas, apesar de um dos objetivos oficiais dos empréstimos do BCE ser fazer crescer esses créditos para relançar a economia.
Qual o balanço a fazer da atividade do BCE na perspetiva das elites?
Coloquemo-nos, por um instante, no lugar do 1% mais rico, para avaliarmos a atividade do BCE. O discurso oficial considera que o BCE foi bem sucedido na transição do seu antigo presidente, o francês Jean-Claude Trichet, para o novo presidente, Mario Draghi |11|, ex-governador do Banco de Itália e antigo vice-presidente da Goldman Sachs Europa. O BCE e os dirigentes dos principais países europeus conseguiram negociar uma redução da dívida grega, convencendo os bancos privados a aceitarem uma diminuição de cerca de 50% dos seus créditos e assegurando que o governo grego implementaria um novo plano radical de austeridade, que incluísse privatizações em massa, e que concordaria em abrir mão de boa parte da soberania do país.
Desde março de 2012, os membros da Troika instalaram-se nos ministérios de Atenas para acompanharem de perto as contas do Estado. Os novos empréstimos concedidos à Grécia passam agora diretamente por uma conta controlada pelas autoridades europeias, que a podem, portanto, bloquear. Cereja no topo do bolo, os novos títulos de dívida grega deixaram de ser competência dos tribunais gregos. As novas obrigações emitidas ao abrigo desse programa são regidas por lei inglesa e os conflitos entre o governo grego e os credores privados são arbitrados no Luxemburgo |12|.
Mas não é tudo: sob pressão do BCE e de dirigentes europeus, o governo Pasok, de George Papandreou, muito submisso, mas cada vez mais impopular, foi substituído por um governo não eleito de unidade nacional, Nova Democracia-Pasok, sendo os lugares-chave entregues a ministros provenientes da banca.
Pode-se completar o quadro com mais três boas notícias para o BCE e para os dirigentes europeus:
1. Silvio Bersluconi foi forçado a demitir-se e foi substituído por um governo de técnicos, aparecendo à cabeça Mario Monti, antigo comissário europeu, muito próximo da banca e capaz de impor aos italianos um aprofundamento das políticas neoliberais |13|.
2. Na Espanha, o presidente do governo, Mariano Rajoy, do Partido Popular, há alguns meses no cargo, está também pronto a radicalizar as políticas neoliberais do seu antecessor, o socialista José Luis Zapatero.
3. Os dirigentes europeus |14| chegaram a acordo sobre um pacto de estabilidade, que vai deixar para a posteridade a austeridade fiscal, a perda de soberania nacional por parte dos Estados-membros e uma dose extra de obediência à lógica do capital privado.
Finalmente, o Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE) vai, em breve, ser acionado, permitindo ajudar mais os Estados e os bancos |15| nas próximas crises do setor bancário, que vão continuar a ocorrer, e dos Estados-Membros que lutam para se financiarem.
Os diferentes exemplos mostram que os líderes europeus, ao serviço do grande capital, conseguem marginalizar o poder legislativo, ignorando as escolhas das eleitoras e dos eleitores. Além disso, onde fica a democracia, quando as eleitoras e os eleitores que pretendem recusar em massa a austeridade já não têm oportunidade de expressar o seu voto, ou quando veem o seu sentido de voto ser anulado, porque a escolha dos eleitores não coincide com a dos governantes, como em 2005, em França e na Holanda, após o «não» ao Tratado Constitucional Europeu, como na Irlanda e em Portugal após as eleições de 2011 e como em França e na Holanda de novo, após as eleições de 2012. Tudo é feito para que a margem de manobra dos governos nacionais e dos poderes públicos seja limitada por um enquadramento europeu cada vez mais restritivo. Trata-se de uma tendência muito perigosa, a menos, é certo, que os governos, apoiados pela população, decidam desobedecer.
Se nos colocarmos, por um instante, na posição de Mario Draghi, dos principais dirigentes europeus e dos bancos, podemos concluir que, em março-abril de 2012, tinham motivos para sorrir. Tudo decorria como previsto.
Os entraves ao sucesso do BCE e dos governos europeus
As nuvens negras chegam depois. A situação complica-se, a partir de maio de 2012, quando o Bankia, o quarto banco espanhol, dirigido pelo ex-diretor-geral do FMI, Rodrigo de Rato, entra em falência técnica. Segundo as fontes, as necessidades dos bancos espanhóis em termos de recapitalização variam entre 40 e 100 bilhões de euros e Mariano Rajoy, que não quer recorrer à ajuda da Troika, está numa posição muito difícil. A juntar a isso, o fato de se sucederem vários escândalo bancários em nível internacional. O caso da manipulação da taxa Libor, a taxa interbancária londrina, é o mais sonante e envolve uma dúzia de grandes bancos.
Acrescente-se ainda o caso da conduta danosa do HSBC, que envolve lavagem de dinheiro da droga e outros negócios criminosos.
Na França, a maioria dos eleitores afasta Nicolas Sarkozy. François Hollande é eleito em 6 de maio de 2012, mas a mudança não preocupa as instituições financeiras internacionais, que contam com o pragmatismo dos socialistas franceses e dos outros partidos socialistas europeus para darem continuidade à austeridade. Embora convenha ter sempre presente que o povo francês é muito propenso a excessos e suscetível de acreditar que é preciso uma verdadeira mudança.
Na Grécia, a situação é mais tensa para o BCE, pois o Syriza, coligação de esquerda radical que promete revogar as medidas de austeridade, suspender o pagamento da dívida e desafiar as autoridades europeias, está à beira duma vitória eleitoral. Para os defensores da austeridade europeia é preciso impedir a situação a todo custo. Na noite de 17 de junho de 2012 respira-se de alívio no BCE, na sede dos governos europeus e nos conselhos de administração das grandes empresas: o partido de direita, a Nova Democracia, passa à frente da Syriza. Até o novo presidente socialista francês saúda o resultado da eleição. E no dia seguinte os mercados respiram – vão poder manter a via da austeridade, da estabilização da zona euro e do saneamento das contas dos bancos privados.
(continua...)
A parte 3 desta série debruça-se sobre os dois objetivos pretendidos pelos dirigentes europeus: levar a bom porto a maior ofensiva contra os direitos sociais desde a segunda guerra mundial e evitar um novo crash financeiro/bancário, que poderia revelar-se ainda pior do que o crash de setembro de 2008.
Tradução Maria da Liberdade, revisão de Rui Viana Pereira
Eric Toussaint, professor na Universidade de Liège, é presidente do CADTM Bélgica (Comité para a Anulação da Dívida do Terceiro Mundo, www.cadtm.org) e membro do conselho científico da ATTAC França. Escreveu, com Damien Millet, AAA. Audit Annulation Autre politique, Seuil, Paris, 2012.
Notas
|1| O Banco de Inglaterra e outros bancos centrais seguem, grosso modo, a mesma política.
|2| Desde agosto de 2011 que descrevo a situação, numa fase em que poucos comentadores financeiros falavam do assunto. Veja-se a série No Cerne do Ciclone: a crise da dívida na União Europeia: «Os bancos financiaram e continuam a financiar os seus empréstimos aos Estados e às empresas europeias graças aos empréstimos que contraem nos money market funds dos EUA. Ora estes ganharam medo pelo que acontece na Europa [...]. A partir de julho de 2011, esta fonte de financiamento a juros baixos quase secou, principalmente à custa dos grandes bancos franceses, o que precipitou uma queda no mercado bolsista e aumentou a pressão exercida pelos bancos sobre o BCE, para que este comprasse títulos fornecendo assim dinheiro fresco. Em resumo, temos aqui mais uma prova da amplitude dos vasos comunicantes entre a economia dos EUA e a dos países da UE. Daí os contactos incessantes entre Barack Obama, Angela Merckel, Nicolas Sarkozy, o BCE, o FMI… e os grandes banqueiros, do Goldman Sachs ao BNP Paribas, passando pelo Deutsche Bank… Uma ruptura dos créditos em dólares, que trazem muito benefício aos bancos europeus, pode provocar uma crise muito grave no velho continente, da mesma maneira que a dificuldade dos bancos europeus em reembolsar os emprestadores norte-americanos pode precipitar uma nova crise na Wall Street» (http://cadtm.org/No-cerne-do-ciclon...).
                          Fonte: PCB

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

India:Adolescente se suicida após ter sido pressionada pela polícia a abandonar queixa de estupro

 

Há dez dias a Índia está envolta em protestos pela forma com que as autoridades tratam crimes sexuais


Uma adolescente indiana de 17 anos vítima de um estupro coletivo se suicidou depois que policiais a pressionaram a abandonar o caso e a se casar com um de seus agressores, informaram a polícia e parentes nesta quinta-feira (27/12).

Em meio a mobilizações sobre o estupro coletivo de uma outra estudante em um ônibus em Nova Délhi no começo desse mês, que gerou protestos e confrontos por todo o país, este caso colocou novamente em evidência o modo como a polícia lida com crimes sexuais.

Agência Efe


Neste segundo caso, um policial foi demitido e outro suspenso pela conduta depois do ataque durante o festival de Diwali, no dia 13 de novembro, na região de Patiala no Punjab, de acordo com fontes oficiais.

A adolescente foi encontrada morta na noite de quarta-feira (26), após ter ingerido veneno.

O inspetor-geral, Paramjit Singh Gill, disse que a adolescente "ficou andando de um lado para o outro para que seu caso fosse registrado", mas os policiais não abriram um inquérito formal.

"Um dos policiais tentou convencê-la a retirar a queixa", Gill, chefe policial da área, disse à agência de notícias France Presse.


 

Antes de sua morte, não houve prisões sobre seu caso, apesar de três pessoas terem sido detidas na quinta. Duas delas eram os supostos estupradores e uma terceira era uma mulher suspeita de ser cúmplice.

A irmã da vítima contou à rede de televisão indiana "NDTV" que propuseram à adolescente aceitar uma quantia em dinheiro como acordo ou se casar com um de seus agressores.

A Press Trust of India também relatou que um policial foi suspenso por supostamente se negar a registrar uma queixa de estuprono estado de Chhattisgar (norte).

A irmã da vítima levou o caso ao oficial local de maior patente e foi iniciada uma busca por seu agressor.

Já a estudante indiana de Fisioterapia de 23 anos, vítima de um estupro coletivo dentro de ônibus quando voltava para casa após ir ao cinema, continua em estado crítico, e foi levada para um hospital em Cingapura. Segundo testemunhos, ela teria sofrido a agressão de seis homens. Além do estupro, foi agredida com uma barra de ferro e jogada para fora do veículo. Seis homens foram presos suspeitos pelo caso, incluindo o motorista do ônibus.

(*) com agências de notícias internacionais


 

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Rússia,China,EUA/Obama & negócios....os comunistas fazem falta

China, Rússia e o segundo advento de Obama

M K Bhadrakumar*
27.Dez.12 :: Outros autores

“O segundo mandato de quatro anos de Barack Obama como presidente dos EUA ficará marcado pela contagem regressiva final da emergência da China como superpotência. A dinâmica de poder na Asia-Pacífico converte-se no modelador crucial deste processo histórico. “


O segundo mandato de quatro anos de Barack Obama como presidente dos EUA ficará marcado pela contagem regressiva final da emergência da China como superpotência. A dinâmica de poder na Asia-Pacífico converte-se no modelador crucial deste processo histórico.
Enquanto os EUA podem contar com o Japão e a Austrália enquanto aliados que o tempo tem comprovado, as suas elucubrações a respeito da China e da Rússia estão em desenvolvimento e a forma como venham a configurar-se terá um impacto decisivo na dinâmica de poder na Asia-Pacífico.
As habituais mensagens de felicitações e as rápidas reacções de Pequim e Moscovo oferecem certas pistas quanto ao nível das expectativas nas duas capitais no que diz respeito ao segundo mandato de Obama. Nenhuma das capitais manifestou nos dias anteriores ao 6 de Novembro qualquer sinal relativamente a que resultado havia que esperar, e assumiram uma atitude de retraimento estudado, mas ambas se apressaram a reagir quando a vitória de Obama se tornou evidente.
A China mantém-se cuidadosamente optimista em que a fricção nas relações com os EUA é controlável e não necessita necessariamente de degenerar em confrontos. Consola-se com o facto de que não irá haver nenhum “enigma oculto” na relação geral, na medida em que Pequim pode prever o que esperar da presidência de Obama.
A convicção da China é que actualmente existe muita interdependência nas relações entre os dois países, e Pequim confia em que pode desempenhar um papel positivo na recuperação da economia dos EUA.
A reacção russa, em comparação, foi algo cuidadosa e condicional, mais retraída em relação ao que há a esperar mas também insegura sobre como conseguir um novo tratamento. Entretanto, Moscovo prepara-se para certa turbulência no ar a curto prazo.
Absolutamente sincero
Pequim felicitou Obama de primeiro-ministro a presidente, sublinhando a proximidade de vínculos que vão para além das exigências protocolares. É interessante que o vice-presidente chinês, Xi Jinping, também tenha enviado uma mensagem de felicitações ao vice-presidente Joe Biden. Biden tinha recebido Xi no decurso da muito bem-sucedida visita aos EUA que este último realizou em Fevereiro, durante a qual, segundo foi informado, passaram várias horas de intensas conversações cara a cara.
Biden contou posteriormente que ele e Xi estabeleceram uma estreita relação pessoal apesar das diferenças entre os dois países em assuntos de comércio ou de política exterior. “Foi totalmente sincero. É aberto. Procura, como eu, compreender a posição do outro. Não se pode pedir muito mais do que isso… Quer conhecer os detalhes. Tenho um sentimento claro de que procura compreender quais são os nossos interesses e quais são as nossas preocupações”, resumiu Biden.
Pequim evidentemente começa cedo a ascensão de Xi como chefe de Estado em Março, ao invocar a relação pessoal que aparentemente se desenvolveu entre ele e Biden.
Curiosamente, todavia, Moscovo deixou passar uma maravilhosa oportunidade semelhante quando o Kremlin preferiu não jogar a carta Dimitry Medvedev,‎ embora o primeiro-ministro russo tenha compartilhado também uma certa relação com Obama durante o seu período como presidente até Maio.
Entretanto, Medvedev‎ teve que reagir em público durante uma visita ao Vietnam e, ao fazê-lo, compensou amplamente a mensagem cuidadosamente articulada do presidente Vladimir Putin, que foi comedido embora cordial, mas despojado de qualquer entusiasmo manifesto ou calor pessoal. Medvedev‎, em comparação, foi visivelmente efusivo:
“”Alegra-me que o maior e mais poderoso Estado do mundo seja governado por uma pessoa que não considera que a Rússia seja o seu inimigo geopolítico número um. Creio que ele [Obama] é um presidente de sucesso… É um socio previsível para a Rússia.
“Não escondo que muito no nosso país depende da situação económica dos EUA. Queiramo-lo ou não, sejamos ou não afectuosos com os estado-unidenses, toda a família russa depende do valor do dólar… Nós [ele e Obama] começámos a ‘reajustar’ as relações. Tivemos algum êxito… Alcançámos bons resultados. Espero que tenhamos relações normais com Obama. Isto é também importante para todo o mundo”.
Ao que parece Moscovo falou a duas vozes, seja intencionalmente ou por autêntico desacordo. De facto, quando apareceu uma terceira voz – a do ministro dos Estrangeiros Sergei Lavrov – esta ajustou-se facilmente à mensagem de Putin.
Lavrov disse algo parecido com o que Barkis uma vez transmitiu através de David Copperfield a Clara Pegotty na famosa novela clássica de Charles Dickens, ou seja: que a Rússia está disposta a progredir nos seus laços com os EUA e está disposta a fazer alguma coisa, sempre que Washington esteja interessado.
Putin, a propósito, convidou Obama a visitar Rússia e é muito previsível que isto suceda em Junho quando a cimeira do G-20 tiver lugar em São Petersburgo. Lavrov resumiu: “É natural que continuemos a trabalhar com este governo. Estamos dispostos a fazer o possível na base da igualdade, vantagem mútua e respeito mútuo sempre que o novo governo dos EUA esteja disposto a fazê-lo”.
Igualdade, confiança mútua e vantagem mútua
As reacções chinesas e russas relativamente ao segundo mandato de Obama na Casa Branca põem em destaque as diferentes prioridades e preocupações dos dois países. A situação de Moscovo é difícil. Obama optou por um vínculo selectivo com a Rússia, enquanto por outro lado a ignora e não presta atenção aos seus interesses. Pequim, por outro lado, está recebendo talvez demasiada atenção de Obama.
A Rússia busca paridade (“igualdade”) em termos de suportar a pesada carga do equilíbrio estratégico global, que considera o elemento central da ordem mundial posterior à guerra-fria, e está descontente porque Washington já não pensa segundo essa linha desde o colapso da antiga União Soviética.
A China, pelo contrário, sente-se cheia de segurança em que a interdependência com os EUA os une solidamente e que os dois países têm uma necessidade real de nadar juntos.
Um comentário de Xinhua sobre a vitória de Obama declarou na quarta-feira: “Nenhum presidente dos EUA pode evitar as relações com a China nos próximos quatro anos, já que o comércio bilateral provavelmente superará os 500.000 milhões de dólares este ano e cerca de 10.000 personas viajam cada dia entre os dois países”.
Enquanto Moscovo avalia o “reajustamento” de Obama dos vínculos entre os EUA e a Rússia como praticamente moribundo, Pequim dá-se por satisfeita com que, apesar das fricções que emanam do “reequilíbrio” na Asia, a cooperação china-estado-unidense mostrou “contínuo progresso” durante o último período de quatro anos. Xinhua assinala:
“Graças ao seu comum entendimento na construção de uma colaboração cooperativa baseada no respeito mutuo e na vantagem mutua, os dois países definiram o papel de cada um e a sua relação de uma forma mais clara e mais positiva. Os diálogos entre os dos países são mais exactos e mais efectivos.”
A ansiedade do tom russo está ausente na previsão chinesa da trajectória futura dos vínculos com os EUA. De novo, um certo realismo se destaca pelas próprias prioridades de China na situação que se desenvolve. Xinhua acrescenta:
“ Entretanto, as disputas entre o maior país desenvolvido e o maior país em desenvolvimento são evidentes e existe sempre o risco de confronto… [a China] quer construir um novo tipo de relação, definida por vantagens mútuas e cooperação… Se os EUA não mudam a sua forma de pensar tradicionalmente hegemónica, haverá mais e mais conflitos enquanto a China continua a desenvolver-se e a proteger os seus próprios interesses.
A China tem muitos problemas internos urgentes que há que resolver… [a China] não pode suportar os custos de uma confrontação total com o mundo exterior. Os EUA também necessitam da China, não apenas em termos de desenvolvimento económico mas também em outros campos. A crise financeira global revelou que a globalização levou a que os países sejam muito interdependentes… a China e os EUA têm que trabalhar juntos para bem da futura estabilidade mundial”.
As florestas são belas, escuras e profundas
Dito de outra maneira, a China considera as florestas – quão escuras e profundas (mas belas) poderiam ser as florestas – enquanto a Rússia conta tenazmente as árvores. Moscovo está atascada no pensamento de que a Câmara de Representantes dos EUA poderia estar em vias de promulgar a denominada Lista Magnitsky, que vê como uma reposição pela porta traseira da Emenda Jackson-Vanick - que restringiu los laços económicos entre os EUA e a Rússia - da era da guerra fria.
Segundo a avaliação de Sergei Rogov, director do Instituto de Estudos dos EUA e Canadá em Moscovo, acumulam-se as nuvens de uma iminente tormenta nos laços entre os EUA e a Rússia, mas “após um certo tempo, o governo de Obama pode apresentar uma nova agenda para as relações com a Rússia”.
Pensa que Obama terá que procurar a cooperação da Rússia no que diz respeito ao Afeganistão e às questões do desarmamento; e inclusivamente poderiam ter lugar algumas “discussões muito serias” sobre o fastidioso problema do programa de defesa de mísseis. Mas, segundo Rogov, o melhor que se pode dizer é que “falando em geral, penso que o governo de Obama não conduzirá as relações entre os EUA e a Rússia a uma crise seria de qualquer tipo”. Resumindo, Moscovo pode esperar a mesma antiga mistura de cooperação selectiva e contemporização benigna no segundo mandato de Obama.
Tanto Pequim como Moscovo especulam ansiosamente sobre a escolha por parte de Obama do próximo secretário de Estado dos EUA. Ambos encaram como forte possibilidade que a escolha de Obama se limite ao senador John Kerry.
Naturalmente, Kerry será um novato no que diz respeito às relações com a China, mas é uma cara familiar em Moscovo e poderia suscitar sentimentos ambivalentes (ainda que pudesse ser muito pior se a escolha de Obama acabasse por ser Susan Rice, que tem feito numerosas observações pouco diplomáticas sobre as políticas russas). Sem dúvida, a China lamentará a partida do secretário do Tesouro, Timothy Geithner.
*O embaixador M. K. Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Ministério dos Estrangeiros da India. Exerceu funções na extinta União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão, Kuwait y Turquia.
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Fonte: http://www.atimes.com/atimes/Central_Asia/NK09Ag01.html (Asia Times Online)
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  Nota de Pensar Netuno:
   Negócios desse tipo entre as potências capitalistas podem significar problemas para os povos trabalhadores do mundo,aumento da exploração e invasões de países....digo: os comunistas fazem falta.